Bad Man
8 Arco 2.3
—Eu não acredito que na primeira oportunidade que eu tenho de morar num apartamento irado, vão lá e explodem a merda toda.
Yongguk me levou para um prédio abandonado, fora dos limites da cidade, para encontrar com os meninos e JongUp não parava de reclamar. Ele era o único que parecia transtornado pelo o que aconteceu, mesmo que pelos motivos errados. Eu continuava quieta, apenas observando o que iriam fazer.
—Aquele apartamento era muito bom, sabia disso? — ele veio em minha direção, apontando o dedo na minha cara. Não gostei.
—Eu sei, eu morava lá.
—Será que podemos nos concentrar em algo mais importante? Como por exemplo, o que vamos fazer de agora em diante? — outro deles se pronunciou, fazendo que com JongUp recuasse. Acho que seu nome era Young... alguma coisa.
—Você tem algo em mente? — Yongguk, que sempre ficava nos cantos, se aproximou do grupo.
—Talvez. Primeiro de tudo, seria bom se a JiYoung pudesse avisar à JaeHwa que ela está bem, para que ela não chame a polícia.
Fiz o que Young-alguma-coisa me pediu, mandando uma mensagem de texto simples para avisar que eu estava bem. Provavelmente HaeRim unnie já havia contado que passamos a noite na casa dela, mas era sempre bom ter certeza. Meu celular contatava com quase 300 chamadas perdidas e inúmeras mensagens que eu nunca leria na vida, a maioria de agências de notícias e paparazzi. Nenhuma do meu pai, ou da polícia. Eu estaria mentindo caso dissesse que, apesar de tudo, aquilo não havia me chocado. Quero dizer, Dong-sun é um monstro, mas ainda é meu pai.
Certo?
—Zelo, como estão as câmeras de segurança? — Young-ssi continuou. O mais novo estava com três notebooks espalhados pelo chão, com diversos cabos atravessando a sala. Pelas telas eu podia ver várias imagens de lugares diferentes, alguns reconhecíveis. Preferi não perguntar.
—Nada fora do normal. — ele disse. — As meninas estão bem. O prédio está cercado.
—Precisamos agir rápido para liberar o Daehyun e o Himchan para os seus postos. — Yongguk interveio. — O que vamos fazer com a JiYoung?
Young-ssi parecia nervoso. Na verdade, se eu olhasse com cuidado, todos estavam. Até eu. Eu estava feliz o suficiente por meus animais de estimação terem sobrevivido, porém não dava pra ignorar o que havia acontecido. Meu prédio havia sido explodido. Pessoas inocentes morreram. Além disso, com certeza o objetivo era com que eu tivesse morrido. Os meninos já sabiam que algo iria acontecer, mas eu não tinha ideia do quanto eles sabiam. Talvez não esperassem que fosse um problema dessa dimensão, ou estavam fingindo, para me deixar mais nervosa, no escuro.
—A melhor solução é deixá-la no foco das câmeras. Aparição pública. Nós temos algum tempo de trégua por conta do estresse e do susto, mas logo logo a mídia vai começar a ficar em cima. E com Dong–Sun fora do país... Precisamos controlar as coisas daqui.
Todos se entreolharam, um pouco apreensivos. Falar com a mídia era algo extremamente delicado e exigia muita preparação e estratégia. Sua vida toda entra em julgamento no momento em que você se coloca à disposição do público. Eu nunca tinha precisado me pronunciar sobre questões sérias, nem sobre todo o clichê de “herdeira do maior empresário da Ásia”, minhas experiências eram breves discursos em eventos privados sobre como Dong–Sun era um excelente pai e profissional. Tive vontade de me encolher e fugir devagarinho quando me imaginei cercada de jornalistas.
—Concordo. — Daehyun foi o primeiro a suspirar, levantando os ombros como se não ligasse. — Querendo ou não, ela é uma figura pública.
—Mas não seria suspeito se ela aparecesse sozinha justamente agora? Ninguém nunca ouviu ela falar. — JongUp levantou logo em seguida.
—Mesmo assim, é o melhor pra gente também. Se começarem a suspeitar de algum envolvimento dela e a investigar, não vamos ter a liberdade que temos agora.
—Eu... Eu não posso fazer nada sem a permissão do meu pai. — tentei usar da única desculpa que eu tinha no meionas discussão, mas Young-ssi não gostou nem um pouco. Ele me olhou como se eu fosse a pessoa mais idiota do mundo.
—Bom, seu pai não está aqui, está, JiYoung? Está vendo ele atrás do sofá por acaso? Você está com a gente agora, e se você se fode, a gente se fode também, e eu não estou muito a fim disso.
Olhei para Yongguk, espantada pelo termo que nem ele havia usado comigo. Ele devolveu com a expressão vazia que tinha o tempo todo. Eu não fazia ideia do por quê de estarem tão preocupados em me ajudar, já que obviamente eles poderiam se livrar de mim.
—Tá... mas eu preciso falar com o meu manager primeiro. Ele fica encarregado dessa parte de discursos.
—Eu não te contei? Eu o demiti há alguns dias. Daqui pra frente seu manager sou eu. — Daehyun deu um sorriso inexpressivo, com os olhos entediados, enquanto sarcasticamente fazia o sinal de “V” com os dedos. Eu juro, esses homens vão me enlouquecer.
—Certo... — fiquei massageando as têmporas por alguns segundos, prevenindo a dor de cabeça que o resto da conversa causaria. — Tem alguma coisa que vocês não façam?
—Caridade.
—Seria estranho se fizessem.
—Eu e YoungJae vamos bolar seu discurso e anunciar sua aparição para amanhã de manhã. Se você precisar dormir, que faça isso logo.
—Não sei se vocês se lembram, mas a minha cama explodiu.
—Temos que movê-la depressa, ou então nosso álibi fica comprometido. — Yongguk se aproximou de nós, dispensando Daehyun e YoungJae, que agora eu sabia o nome. Os dois sumiram entre os corredores caindo aos pedaços. — Você tem algum outro lugar onde possa ficar?
—Aquele era nosso único prédio residencial. Tem a minha avó paterna, mas por motivos de segurança só Dong–Sun sabe onde ela vive.
—Zelo, qual o status de segurança dos hotéis dentro de vinte quilômetros?
—Alguns estão em estado de alerta e os mais próximos aumentaram o número de seguranças. Outros tem pontos cegos demais.
—Algum em particular que você tenha gostado?
—Woodstock.
O Woodstock Hotel foi projetado após um acordo entre Dong–Sun e Logan Woodstock, dono da rede europeia de resorts Logan. Puxa, eu adoro a criatividade deles. Enquanto os resorts eram voltados para as famílias que entravam de férias, o Woodstock era um hotel empresarial, assim por dizer. Um pouco mafioso. A infraestrutura de segurança era feita para atender às necessidades de CEO’s, embaixadores, desembargadores, políticos, entre outros. As transações eram feitas somente em dólar, libra e euro, e com o decorrer dos anos, passou a influenciar diretamente na economia da capital, gerando um círculo vicioso de visitas e contratos. Porém, tinha um pequeno detalhe que o fazia tão especial: suas portas secretas e rotas de fuga. A princípio, somente alguns hóspedes sabiam de antemão sobre o serviço, e os arquitetos responsáveis sumiram sob circunstâncias suspeitas, mas aparentemente, Zelo também sabia.
O sistema de portas e saídas usava um câmbio automático que abrir para um corredor diferente a cada vez que fosse utilizado. Levando em conta o número de portas e caminhos, poderiam ser geradas mais de 30.000 rotas diferentes. Era um cubo mágico onde as cores nunca iriam se encontrar.
—Park JiYoung. — o líder chamou minha atenção e eu me voltei para ele.- Eu pude pegar algumas roupas suas antes da explosão, vamos te mudar para lá imediatamente. Himchan, faça a ligação.
Como se um interruptor tivesse sido ligado dentro de cada um dos meninos, uma agitação começou com portas abrindo e fechando, falatórios altos, bolsas pretas de viagem enormes sendo jogadas na sala com sabe Deus o que dentro. No meio de tudo, eu só conseguia ficar no chão abraçada com Thor e Tibideaux. As imagens do noticiário ainda apareciam em meus pensamentos e eu podia sentir a ansiedade prender minha respiração como uma aranha em minha garganta. O que eu mais queria ver era HaeRim e JaeHwa e ignorar todo esse pesadelo. Após algum momento, o barulho foi ficando distante e eu já não sentia a pelagem em meus dedos, tudo o que eu ouvia era o repórter descrevendo o prédio em chamas.
Minha casa, o lugar onde minha mãe havia passado seus últimos dias de vida. Depois de tanto insistir, ela convenceu meu pai a terem um lugar fixo, ao invés de transitarem entre hotéis. Ela escolheu tudo, desde a planta dos apartamentos até a cor das paredes e os móveis do meu quarto.
Tudo explodiu.
—JiYoung–ah! Park JiYoung! — pisquei algumas vezes assustada e enfim meus olhos focaram na figura à minha frente. Era JongUp.
Tentei me situar o mais rápido que consegui, lembrando do que tinha acontecido no prédio abandonado. Com certeza deveríamos estar a caminho do hotel agora. Yongguk estava dirigindo calado e ao seu lado estavam meus animais de estimação em suas respectivas bolsas de viagem, dormindo.
—Você lembra das instruções? — JongUp segurou meu rosto para me examinar, até ligar a lanterna do celular diretamente nos meus olhos e me deixar cega. -Você tá bem?
—Agora não mais. Tira essa luz da minha cara. — acho que ele não ficou nada feliz quando acertei o aparelho e ele caiu debaixo do banco.
Basicamente, Yongguk e JongUp me acompanhariam como meus guarda-costas na hora da recepção, enquanto Zelo e Himchan foram um pouco antes para “resolver algumas coisas”. Meu papel era ser discreta, porém sem parecer despreocupada. É claro que por direito eu poderia entrar e sair do hotel a hora que eu bem entendesse e até mesmo expulsar um hóspede que estivesse no quarto que eu queria, como se fosse a dona do mundo, mas eu deveria parecer mais “humana” nessa situação e conseguir apoio popular, segundo eles. Fora isso, passar pela recepção geraria documentos e provas importantes da minha estadia.
Em poucos minutos entramos no estacionamento, onde Yongguk deixou o carro parado de qualquer jeito ocupando duas vagas para tirar duas bolsas de viagem da mala e entregar a seu colega. Nenhum de nós trocou uma palavra durante o caminho para o elevador e depois para a enorme recepção, mas era clara pela forma que eles olhavam pra mim que gostariam de dizer “não faça besteira”.
—B-Boa noite, Park JiYoungssi... — a recepcionista, uma mulher de aproximadamente 30 anos, quase tropeçou em seus saltos ao vir nos receber, o rosto pálido como um fantasma.– É uma honra recebê-la no Woodstock. Recebemos a ligação de Park Dong–Sun e nos apressamos em preparar seu quarto. Caso você queira subir e deixar o check-in para mais tarde...
—Obrigada... — procurei pelo broche dourado em seu terninho que tinha o nome gravado. — ... JiWoo, mas prefiro registrar minha entrada logo. Estou cansada e, você sabe, com tudo o que aconteceu... — dei um suspiro longo, misturando tristeza e cansaço, para conseguir simpatia. — Posso acabar esquecendo depois.
—Oh, é claro, Park JiYoungssi. — as sobrancelhas se juntaram como eu esperava e ela sorriu para mim. — Se você puder me acompanhar, por favor...
Meus dois seguranças pessoais ficaram em guarda a alguns passos atrás de mim enquanto eu entregava os documentos e assinava alguns papéis. Já eram sete e quarenta da noite e o hall estava vazio, sem hóspedes e pouquíssimo funcionários circulando. Em determinadas épocas do ano, o movimento era tanto que parecia uma conferência de engravatados. Talvez a ligação de Dong–Sun requisitasse máxima discrição e privacidade.
Ambas nos despedimos com uma reverência e eu deixei a recepção com JongUp e Yongguk ainda calados. Quando entramos no elevador que nos levava ao último andar – porque cada um dava acesso a andares diferentes – ele era tão grande que possuía um sofá de quatro lugares dentro, de aparência muito confortável. Resisti à vontade de me jogar nele, ficando entre os meninos.
—Você já pensou em ser atriz?
—Cale a boca, Bang Yongguk.
—Se aquela mulher não fosse tão burra, teria achado que você mesma foi responsável pela explosão.
Respire fundo, JiYoung. Não pense em matá-lo enquanto dorme.
—Onde os outros meninos vão ficar? — desviei o assunto, olhando para eles. Continuaram imóveis, com as mãos à frente do corpo.
—No mesmo quarto que você, como antes.
—Vocês não podem pegar outro quarto? Estamos num hotel, cada um pode dormir sozinho.
—É claro, é realmente muito prático estarmos todos espalhados caso alguma coisa aconteça com você. Demora apenas dois segundos pra todo mundo perceber que tem algo errado, se preparar, andar cerca de 500 metros e abrir a porta. Se eu soubesse que você queria morrer tão rápido assim, eu já poderia ter feito isso.
—Certo, já entendi.
—Pense assim, você está indo passar as férias com seus amigos numa casa pequena. Só não estamos de férias e nem somos seus amigos.
—Puxa, isso ajuda bastante.
—Eu sei.
Nesse momento, a campainha do elevador soou e eu me apressei em sair na frente. Os andares se dividiam em três corredores formando um “T”, e os dois últimos andares tinham menos quartos, por serem maiores. A numeração também não seguia uma ordem lógica, mas eu nunca havia perguntado o motivo.
O quarto 2501 ficava no corredor à direita, quase no final. Descobri depois de procurar por todo o andar. Era minha primeira vez vendo o hotel pessoalmente, ao invés dos planejamentos virtuais e 3D. Sendo honesta, eu não estava surpresa com o que tinha visto até agora. Era minimalista demais, de um jeito sem graça. Muito branco, muito cinza, pouco preto e nenhuma cor. Se prisões chiques para gente rica existissem, com certeza pareceriam muito com isso.
Nós três respiramos aliviados ao encontrarmos o quarto e eu quase me lancei ao chão assim que a porta foi aberta. Eu estava exausta, ansiosa para ver a cama e me enterrar debaixo das cobertas.
—Nem pense em descansar. Você tem trabalho a fazer. -Yongguk me deu um empurrão, desviando a rota.
—Estraga prazeres...
O quarto era absurdamente grande. Na verdade, parecia um apartamento. Havia um pequeno corredor na entrada, onde você poderia deixar os sapatos e agasalhos num pequeno armário embutido do lado esquerdo. Seguindo adiante, o corredor se abria numa extensa sala de estar, com piso de carpete cor de marfim e mobília branca com detalhes em dourado. Centralizados estavam dois sofás de três lugares feitos de couro claro, um na frente do outro, e uma longa mesa baixa de vidro entre eles. À esquerda ficava uma espécie de penteadeira de madeira e mármore, com um espelho fracionado logo acima – daqueles que vários quadrados pequenos deveriam formar um todo, mas não dava pra ver porcaria nenhuma neles -, duas portas aparentemente de outro armário embutido na parede ao lado e a entrada do quarto, que tinha como porta um biombo. Do outro lado, sem divisões, uma mesa de jantar de vidro com os pés dourados e seis cadeiras brancas. O cômodo também possuía uma pequena cozinha americana – muitos levavam seus próprios cozinheiros, com medo de serem envenenados – ao lado do espaço de refeições. Chegando próximo dos sofás, vi Himchan deitado com um copo de whiskey na mão.
—Bem-vindos. Sintam-se em casa.
—Onde está Zelo?
—No closet.
Ele apontou para a porta que ficava na parede ao lado direito do corredor e Yongguk seguiu para abri-la. De curiosidade, me aproximei para ver o que estava acontecendo dentro do armário. Ah, o duplo sentido.
Zelo estava rodeado de telas e computadores por todas as estantes e no chão, com uma mesa dobrável à sua frente e sentado numa cadeira de escritório muito acolchoada.
—Olá. — ele girou a cadeira para nos cumprimentar. — Bem-vindos ao meu covil. — não tenho certeza, mas acho que por alguns milésimos de segundos seus olhos brilhavam de, talvez, muito talvez, felicidade.
—Como estamos?
—Sob controle. Daehyun já está em seu posto. Depois da ligação para os jornais, os repórteres começaram a investigar. Não deve demorar até eles descobrirem que ela está aqui.
—E YoungJae?
—Em campo, a caminho.
—Algum contato de Dong-Sun?
—Nenhum.
—Ok. Continue.
O líder fechou as portas, parecendo satisfeito, e foi até o meio da sala para começar a discursar.
—Parece que está tudo em ordem, por enquanto, então vamos passar as instruções para daqui em diante. JiYoung, não faça contato com ninguém nas próximas 72 horas além de suas colegas pelo celular. Você vai continuar indo à faculdade, então esteja preparada para ignorar os jornalistas na entrada durante algum tempo. Fora isso, não saia de lá ou desse quarto em hipótese alguma, nós amos avisar caso seja necessário. Eu e JongUp vamos dormir na sala e Himchan vai ficar no quarto com você. — nesse momento, o homem em questão olhou para mim e deu uma piscadela. -Se você precisa descansar ou tomar banho, sugiro que faça agora. Só deixe a porta aberta, por precaução. Suas coisas estão ali.
—Como estão HaeRim e JaeHwa? — foi tudo o que eu consegui perguntar.
—Em segurança.
Ainda bem.
Respirei aliviada, uma parte da nuvenzinha negra que me atormentava havia se dissipado. Bom, agora eu precisava me preocupar com o trabalho que eu teria com o discurso. Segui para o quarto, parando para pegar a mala que Yongguk havia apontado. Eu estava com medo das roupas que ele tinha escolhido – se ele tivesse pego ao acaso seria pior ainda -, mas me vestir mal era o menor dos meus problemas.
O quarto seguia o mesmo padrão de todo o resto; grande e sem graça. Próximo ao banheiro do lado esquerdo ficava uma cama enorme que seguramente comportava 3 pessoas – pelo exato motivo que você precisaria de uma cama para 3 pessoas -, de frente para uma televisão enorme embutida na parede. Fui até o banheiro para deixar a banheira enchendo enquanto procurava algo para vestir. Joguei a mala em cima da cama para procurar um pijama e roupa íntima e, felizmente, todas as peças dentro tinham coerência entre si. Eu desejava um banho quente e demorado, cheio de espuma, só pela ilusão de achar que meus problemas iriam escorrer pelo ralo. Assim que entrei na água, senti meu corpo inteiro relaxar como se fosse derreter. Não era muito prático, mas uma banheira tinha seu devido valor.
Ah...
Deixei meu celular enrolado numa pequena toalha na lateral que servia para deixar sabonetes e coisas tipo e coloquei meus fones de ouvido, deixando a playlist no aleatório. Boa música, um bom banho, uma vida um pouco merda, mas tudo bem. O vapor começou a embaçar todo o ambiente, do jeito que eu gostava, então pude enfim me recostar e fechar os olhos, aproveitando ao máximo aquele momento. Eu precisava me recompor.
Em todos esses anos, nunca tinha parado para pensar e perceber que ter crescido com gente ao meu redor controlando o que eu deveria dizer e fazer havia me tornado numa mulher muito insegura quando sozinha. O controle da situação sempre estava nas “minhas” mãos, mesmo que fosse só ilusão, e com a chegada de Bang Yongguk e seus companheiros, eu pisava no escuro o tempo todo sem ter certeza se havia chão. Eles me mostraram que sem Dong–Sun e seus assistentes, eu era apenas uma menininha mimada que reclamava da vida, enquanto alguns dos meninos que aparentavam ter a minha idade pareciam já ter descoberto todos os segredos da vida real. Era frustrante e me deixava com raiva a ponto de querer chorar. No final das contas, eu dependia deles, e a liberdade que era estar longe do meu pai só me deixou mais perdida.
Nessa história toda ainda estavam metidas HaeRim e JaeHwa. Eu era imensamente grata por elas entenderem o tipo de vida que eu levava e mesmo assim quererem fazer parte, porém isso não significava que eu podia ser descuidada. Sempre que eu pensava nisso, um sentimento de impotência quase me engolia por inteiro. “Não tente ser forte o tempo todo, JiYoung...” eu lembrava de minha mãe dizendo pra mim, quase todas as noites. Eu sei, mãe, mas...
... que escolha eu tenho?
Algumas músicas depois, a água começou a ficar morna e o vapor esfriava, servindo de aviso. Então, de olhos fechados e o volume no máximo, notei uma presença dentro do banheiro que se aproximou e sentou na beirada da banheira. Não sei se consegui disfarçar bem, mas meu coração pulou algumas batidas e com certeza eu estava pálida. Abri os olhos com cautela, sem fazer nenhum movimento brusco e olhei para cima, encontrando Yongguk vestindo um moletom preto grande demais para seu tamanho. Ele me olhava como se quisesse que eu me pronunciasse.
—Oi...? — removi com cuidado os fones de ouvido para não molhar, colocando junto com o celular.
—YoungJae acabou de chegar.
—Tá... mais alguma coisa?
—Não, é só isso.
Ficamos nos encarando por mais alguns segundos. Eu, confusa, e ele, observando. Não percebi nenhum movimento em seus olhos, porém eu sabia que ele estava me analisando. Me encolhi dentro d’água e desviei o olhar, abraçando os joelhos.
—Você se importa...?
—Não.
—Eu estou sem roupa.
—Eu sei.
—Isso faz parte do protocolo?
—Não.
—Entendi...
—Você é muito fraca, JiYoung.
Aquelas palavras me atravessaram como uma lança de gelo. É pior quando um dos seus medos é verbalizado, pois ele se torna... real. Maior.
Eu sei, Yongguk.
Sem dizer mais nada, ele deixou o lugar e eu me apressei em me secar e me vestir, antes que outra nuvem negra se formasse dentro de mim. Na sala, cada um dos meninos estava ocupado com alguma coisa e YoungJae esperava por mim com alguns papéis na mão. Eu me sentei ao lado dele no sofá.
—Não se preocupe, você não precisa gravar o discurso em si, mas eu pensei em possíveis perguntas que possam te fazer. Essas sim são importantes você ter decorado. — ele me passou os papéis e eu comecei a ler. Meus olhos não focavam direito e eu precisei voltar em alguns parágrafos algumas vezes, porém compreendi a ideia principal. — O objetivo é tirar o foco de você e mostrar o que você realmente é. Uma fachada. — uau, eles estavam gentis hoje.
—E se Dong–Sun fizer uma declaração diferente da minha?
—Ele não teria chegado na posição de hoje se fosse tão burro assim, JiYoung.
—Eu achei que contradições fizessem parte desse mundo.
—Só confie em mim. Tá legal, talvez não em mim, mas nas minhas habilidades e as do Daehyun-hyung. A parte mais importante é a sua assessoria amanhã, depois disso as coisas ficam mais fáceis. Eu já vi isso antes.
As horas da madrugada passaram voando enquanto eu ensaiava o que deveria dizer e como dizer. Não eram apenas palavras, eram também as expressões faciais e vocais nos momentos certos que fariam toda diferença. Tudo dependia de eu conseguir provar que: A) eu não sabia do ataque, B) eu possivelmente não era o alvo, C) meu álibi era concreto. Além disso, eu deveria deixar a minha posição totalmente independente de qualquer coisa que Dong–Sun viesse a dizer, porque isso seria mais efetivo para provar que ainda existia diferença entre família e empresa entre nós. YoungJae me ajudou com toda a postura enquanto o resto do grupo dormia e depois de 3 horas da manhã eu já não aguentava mais. Meus olhos ardiam e vez ou outra eu me pegava dormindo encostada na parede.
—Vamos parar por aqui, você não vai conseguir absorver mais nada desse jeito. Tente dormir nesse tempo que resta e nós revisamos no carro. — ele respirou fundo, pude ver que estava decepcionado, e saiu, entrando no closet. De longe, pude ver Zelo dormindo num colchão, com todos os aparelhos ligados.
Bom, não há nada que eu possa fazer a não ser esperar que meu corpo e mente descanse o suficiente nessas 4 horas restantes. Himchan estava deitado numa das extremidades da cama por cima dos lençóis quando eu entrei, jogando uma bolinha de borracha para o ar.
—Por que você não está dormindo? — indaguei.
—Não se preocupe com isso.
—Certo...
Um pouco desconfiada e contra a minha vontade, deitei do outro lado, me escondendo debaixo das cobertas como se estivesse me defendendo de um monstro. Ele continuou jogando sua bola e eu pensei nas últimas coisas antes de cair no sono.
—Himchan-ssi?
—Hm?
—Meu pai realmente ligou para o hotel?
—É óbvio que não.
É óbvio que não...
Às sete e meia da manhã, eu estava de pé escovando os dentes e encarando a figura miserável no espelho. Parecia que alguém tinha entupido minhas córneas de areia e que eu tinha morrido por dentro. Bom, a última parte nem era tão falsa assim. Do banheiro eu podia ouvir as passadas rápidas pelos cômodos, poucas palavras sendo trocadas. A assessoria aconteceria às nove horas, numa sala de conferências não muito longe, e tudo estava praticamente pronto, menos eu. As informações do script que eu tinha lido e relido durante a noite agora se embaralhavam como um quebra-cabeça de 1.000 peças que eu não estava com paciência de montar.
—Park JiYoung, você já está escovando os dentes faz 15 minutos. — ouvi uma voz vindo da porta, mas não me virei para ver quem era.
—Estou indo...
Como uma tartaruga lerda, eu terminei de me arrumar. A maquiagem ajudou um pouco na aparência cansada, mas eu ainda estava visivelmente com sono. Antes de sair do hotel, bebi duas latinhas de energético com alguns biscoitos de água e sal, enquanto YoungJae ia atrás de mim fazendo pergunta atrás de pergunta, me corrigindo e chamando minha atenção. Eu não lembro de metade do trajeto que fiz, porém, já dentro do carro, os energéticos foram fazendo efeito e eu despertei o suficiente para lembrar do que eu estava prestes a fazer.
Merda.
—Você vai direto para a sala de conferências, sem pausas. — eles me disseram, assim que estacionamos.
—Excelente.
—Eu espero que seja mesmo. — meu instrutor me encarou, bem intimidador.
A porta do carro se abriu e eu imediatamente fui cegada pela imensa quantidade de flashes em meu rosto. Tive vontade de voltar para o banco e me encolher, porém fui empurrada nas costas para continuar andando o mais rápido possível. As vozes dos jornalistas se misturavam uma na outra e nem se eu quisesse eu conseguiria responder alguma coisa.
—Eu e JongUp estaremos logo atrás de você, então não se preocupe em levar um tiro. — Yongguk disse assim que entramos no prédio.
—Eu não estava preocupada com isso até agora...
—Então continue assim.
Apressados, seguimos para o segundo andar onde seria a reunião e ao olhar para a entrada, foi como avistar os portões do inferno. Minhas mãos começaram a suar frio, o coração acelerava cada vez mais e minhas pernas não suportam mais o peso do corpo. Eu estava sozinha e não tinha escolha.
Os meninos empurraram a porta e eu entrei na sala pela lateral do palco, seguindo direto para o púlpito que tinha alguns microfones. Poucos flashes vieram dessa vez e alguns sons de cochicho. A primeira coisa a se fazer, é claro, era cumprimentar a todos com uma reverência. Após me acostumar com o ambiente e o número de pessoas, respirei o mais fundo e discreto que consegui.
Vamos lá, JiYoung, você consegue.
—Bom dia a todos. — comecei a falar. — Meu nome é Park JiYoung.
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