Bad Man

7 Arco 2.2


Notas iniciais
ME PERDOEM EU SUMI NÃO ESTAVA CONSEGUINDO ESCREVER MAS EU AMO VOCÊS E PROMETO VOLTAR ENTÃO É ISSO APROVEITEM BJS

As doze horas seguintes passaram tão atoladas que mal pude acompanhar. Os jornais corriam para procurar um culpado enquanto os fanáticos postavam cada vez mais sobre terrorismo e teorias da conspiração e, obviamente, sem nenhuma declaração do dono do prédio. JaeHwa ligou assim que soube por HaeRim que eu estava sã e salva em sua casa, e entendi quando ela disse que nessa situação seria melhor não sair do apartamento. Nem eu queria sair. As únicas notícias que realmente me interessavam no momento não vinham de jeito nenhum; onde estava meu pai numa hora dessas? Por que Yongguk ainda não havia tentado me contactar? Ignorei as inúmeras chamadas de jornais em meu celular durante a madrugada, esperando que um dos dois me acalmasse.

Minha gata e meu cachorro estavam naquele prédio, cacete.

Irrelevante dizer que dormi. Meus olhos vidraram nas atualizações das reportagens na televisão e internet, esperando dar a hora de minha amiga sair para a faculdade e aproveitar a carona. Sei que não é a melhor ideia aparecer publicamente sem nenhum segurança como se nada tivesse acontecido, mas eu não tinha alternativa, nem sabia o que fazer. Tudo estava confuso em meus pensamentos, os acontecimentos do dia anterior provavam que os meninos tinham planejado tudo para que eu não estivesse no prédio, mas por que não me contar? “Escuta, JiYoung, vão explodir seu prédio hoje à noite, tá?“. Não era difícil de dizer.

Por volta das seis e meia da manhã, a rotina da casa de HaeRim já começava. Apesar de viver sozinha, ela e sua cadela Izzie faziam barulho equivalente a uma família de cinco pessoas. A pequena shi-tzu corria de um lado para o outro, dando breves intervalos para farejar todo o meu passado e então ia apressar sua dona. Hoje seria o teste final para os alunos de medicina e, conhecendo minha amiga, ela havia planejado chegar mais cedo para seduzir o professor e conseguir alguns pontos extras. Se não desse certo ela daria em cima do segundo melhor aluno da turma – o primeiro sendo ela mesma – e conseguir algumas respostas sopradas. Garanto que uma das duas coisas iria funcionar.

Quando estava me preparando para levantar e acompanhar as moças, meu celular vibrou em cima da mesa de centro, mostrando uma mensagem que provocou uma mistura de alívio e nervosismo.

-JiYoung-ah, eu preciso sair agora, você vem comigo? – HaeRim apareceu na sala.

—Não, unnie, eu vou ficar por aqui. Não estou no clima... – menti. Perdão, unnie.

—Posso te deixar aqui sabendo que você não vai pular da janela?

—Eu já sobrevivi uma explosão, me matar agora seria um pouco ridículo.

Tentei dar uma risada falsa, ignorando a ansiedade que senti ao ouvir a palavra „janela“. Por mais que agora a ideia de me jogar de um prédio fosse tentadora, tenho quase certeza que Bang Yongguk me esperaria com um desfibrilador na mão. Não me bastasse toda a loucura que eu estava vivendo, ainda precisava seguir as instruções da mensagem que havia recebido minutos atrás e manter a calma. Esperei um tempo seguro desde a saída de HaeRim sem levantar suspeitas e fui até o carro que dormiu na rua. Surpreendentemente, ninguém saiu para me assustar da mala ou do banco de trás e nenhuma arma foi apontada em minha direção, o que já era um grande avanço, preciso reconhecer.

Com sorte, eu chegaria no local especificado dentro de uma hora. Obviamente era impossível algum dos meninos aparecer misteriosamente – como sempre fizeram até agora – para explicar toda a situação; era necessário que eu dirigisse por um tempo absurdo num carro que eu nunca tinha visto na vida e nem sabia de onde tinha vindo. Nada daquilo era seguro ou coerente; eu precisava de respostas, mas quanto mais eu me aproximava de algo que parecia fazer sentido, mais eu me afastava da realidade que eu pensava conhecer. É claro, a minha realidade não era um mar de rosas otimista como deveria ser. Eu conhecia o esgoto da classe alta muito bem, os segredos, as ameaças, as conspirações. Acontece que esse estilo de vida é aquela pessoa que aparece malvestida numa festa — você não a encara, só olha pelo canto dos olhos e finge que nada aconteceu. Entre tantos prédios em Seul, o meu não havia explodido por mera coincidência; era para acontecer e foi planejado. Além disso, quem é que tenha organizado essa tragédia não era o único que sabia.

Aliás, Yongguk poderia muito bem estar por trás disso.

Na metade do caminho, meu celular tocou novamente, sem mostrar a identificação do número. Bom, se fosse uma ligação grampeada para me rastrear e me matar eu nem ligaria mais, pelo visto estou cercada de gente querendo me assassinar do mesmo jeito. Atendi.

-Alô?

-Eu não deixei um carro discreto contigo pra você andar por aí com o vidro abaixado. — hã?

-Hã... Jung Daehyunssi? — a voz me era familiar, porém eu podia ouvir mais gente falando ao fundo.

-Sou eu. Dá pra fechar a merda da janela?

-Se vocês ficam me vigiando o tempo todo porque ninguém me dirige até lá com a merda da janela fechada?

Demorei um tempo até perceber que desligaram na minha cara. Argh. Aquilo foi o suficiente para me fazer explodir de raiva dentro do carro, buzinando para motoristas inocentes sem motivo algum e fazendo ultrapassagens meio arriscadas para ganhar tempo. Deixo claro que fechei a janela primeiro. Quer dizer que eu preciso passar por tudo isso e ainda ser educada?

Com toda a educação, vão para o inferno.

Em poucos minutos cheguei até onde a seta do gps indicava, porém não era bem o tipo de lugar discreto que eu imaginava. O terreno estava em construção e diversos operários andavam por ali, gritando e carregando coisas pesadas. Havia seguramente mais de trezentas pessoas ali. Seriam elas todas testemunhas a meu favor caso alguém quisesse me assassinar ou todas subornadas para esconder a minha morte? De qualquer forma as situações pareciam perfeitamente planejadas pra me matar, eu só esperava levar um tiro no coração ou na testa e que tudo acabasse sem sofrimento. Deixei meu casaco dentro do carro – só para facilitar o trabalho do assassino de saber onde atirar – e entrei no galpão indicado pelo número do endereço. Era justamente como uma cena de ficção, o ambiente escuro, a porta mais barulhenta do que deveria ser e o interior vazio.

-Por favor, se você vai me matar, faça isso logo. – anunciei enquanto dava passos trêmulos, ainda que carregassem toda a minha força e coragem no momento.

-Por que você sempre acha que eu quero te matar?

A voz que me respondeu era impossível de não reconhecer. Às vezes eu podia ouvi-la em meus pesadelos. Por conta do eco, era difícil saber exatamente de onde ela vinha, mas logo avistei uma figura sentada no chão iluminada por uma luz fraca, vinda de uma janela quebrada; quase imperceptível. Merda, ele planejava até mesmo o suspense.

—Eu tenho muitos motivos pra acreditar nisso. — repondi. Quando prestei mais atenção na silhueta, vi que Yongguk não estava sozinho. Duas coisas pequenas se moviam em seu colo e eu precisei me segurar muito para não chorar. Quando me recuperei, tentei falar, mas a voz não saía direito. -Eu pensei que eles...

—Tivessem morrido? Sabe, Park JiYoung, eu posso ser um monstro, mas os animais não têm culpa do mundo escroto em que vivemos. Além do mais, eu gosto deles.

—Você o quê?

—Sou um monstro.

Ele não diria de novo, eu sabia. Ainda em choque, eu me aproximei dos três e me ajoelhei à frente de Yongguk, chamando Thor e Tibideaux para mim. Foi aí que comecei a chorar; de alívio, de medo, de raiva. Todos os sentimentos que eu aprisionava dentro de mim por anos precisaram sair no pior momento possível e eu não conseguia parar. Mesmo quando minha cabeça já estava doendo e minha garganta ardendo, eu precisava chorar mais. Eu precisava chorar até que eu ou tudo à minha volta sumisse. Precisava chorar até entender o motivo da merda da minha vida estar de cabeça pra baixo e a merda do meu prédio ter sido explodido. Merda.

Merda, merda, merda.

Yongguk não fez nada o tempo todo, e eu também não queria que fizesse. Ficou lá, imóvel, mas não invisível o suficiente para que eu esquecesse de sua presença. Ele tinha uma certa aura sombria, difícil de ignorar. Quando os pequenos me deixaram para voltar ao colo dele, Yongguk levantou com os dois em seus braços e me deixou sozinha por um tempo. Assim que parei de chorar, ele abriu os portões do galpão e eu senti a claridade me incomodar.

—Vamos. Precisamos nos encontrar com os outros.

—P-Por que?

—Nós somos os únicos que podem te manter à salvo agora. Por favor, não seja teimosa. Não hoje.

Podia ser coisa da minha cabeça, porém algo não estava certo na voz dele. O modo como ele disse “por favor”.

Como se Yongguk tivesse perdido o controle.