Bad Heroes
4 Nave
— Você acha que ela vai acordar alguma hora? Já faz quase um dia.
— Precisa dar tempo a ela. Veneno de Urien é forte demais, e ela é só uma adolescente. Não foi criada como nós.
— Ela morreria com grande facilidade, não é?
— Samuel, você sabe que se ferraria se ela morresse.
Quase um dia, Megan pensou lentamente. Todos os seus pensamentos passaram tão intensa e lentamente quanto sangue ou mel. Preciso acordar. Meu pai vai me matar.
Mas ela não conseguia.
Os sonhos a prendiam, um após o outro, um rio de imagens que a levavam como uma folha capturada em uma corrente. Ela viu a mãe deitada em uma cama de hospital, os olhos pareciam hematomas no rosto pálido. Viu o pai, no topo de uma pilha de ossos. Jade com marcas de chicote nas costas, Logan com os olhos brancos como sal, Edward com uma estrela enorme queimada no peito. Estrelas, caindo e queimando. Caindo do céu.
— Eu sabia que ela era especial.
— Eu sei. Pequena, não é? Os Filhos da Pureza não costumam ser desse tamanho.
— É. Eu pensei que ela fosse uma fada quando a vi pela primeira vez, ela é bonita o suficiente para ser uma. Mesmo que agora ela não esteja tão formosa.
— Bem, ninguém tem boa aparência quando está com sangue de Urien correndo pelas veias. Bradley vai chamar os Puros?
— Espero que não. Eles são enjoativos. Qualquer um que é ingênuo daquele jeito...
— Megan é ingênua.
— Eu sei, Samuel, mas, a ingenuidade dela não é tão irritante. E ela não fica desejando felicidade o tempo inteiro...
— Por falar em ingenuidade, onde estão os outros? Eles a salvaram, não é mesmo? Eu pensei que fossem demonstrar algum interesse na recuperação dela.
— Eles ainda estão dormindo, eu acho. Bradley disse que ainda estão sob efeito dos... Olhe! Ela se mexeu!
— Acho que está viva, afinal de contas. — Um suspiro. — Vou contar a Bradley.
As pálpebras de Megan pareciam ter sido costuradas. Ela imaginou se poderia sentir a pele rasgando quando as abrisse lentamente e piscasse pela primeira vez.
Ela viu um céu escuro e azul acima, estrelas amarelas e brancas, e garotos revestidos com roupas de couro voando. Será que estou morta?, ela imaginou. Ela fechou os olhos com força e os abriu novamente: dessa vez ela percebeu que o que estava encarando era um teto de vidro arqueado, com vista para as estrelas.
Com dificuldade, ela se levantou para sentar. Todas as partes do corpo de Megan doíam, principalmente a nuca. Ela olhou em volta. Estava em uma cama com lençóis de linho, um quarto escuro com paredes metálicas e a cama em que estava. Ao lado dela tinha uma pequena mesa de cabeceira, com um jarro branco e uma xícara em cima. Vidros no teto, refletindo a luz das estrelas, apesar de ela ainda conseguir ouvir o fraco e constante ruído de vozes do lado de fora.
— Então finalmente acordou. — Disse uma voz suave. — Bradley vai ficar satisfeito. Todos nós pensamos que você morreria durante o sono.
Megan virou. Uma mulher estava apoiada na cama, com os longos cabelos negros soltos. Os olhos grandes e castanhos a fitando divertidamente, o sorriso curto nos lábios. Megan definitivamente a conhecia. As roupas comportadas haviam sido substituídas por jeans e uma camiseta azul justa, embora o semblante calmo ainda estivesse pendurado em seu rosto.
— Srta. May? — Megan forçou a voz, que saiu baixa como um sussurro. — O que...
Natalie May havia sido a professora de Biologia e Ciências de Megan desde a quinta série em Jokeston High, ela era linda e logo conquistara a simpatia de todos por ali. Era uma ótima professora, na verdade. Apesar de que, quando ficava brava, as coisas mudavam drasticamente de figura.
— É uma longa história, Megan. — Ela disse calma e divertida. — Depois terei tempo de te explicar. Enfim, achei que você tinha morrido.
— Eu também. — A voz de Megan roçava como uma lixa. — Essa aqui é a nave de Samuel, certo?
— Não, estamos no Quartel Móvel de Bradley. Esse é o seu quarto, você é preciosa demais para ficar na enfermaria junto com os Patrulheiros.
Uma dor repentina e aguda fez com que Megan apertasse o estômago. Ela se engasgou.
Natalie olhou alarmada para ela.
— Você está bem?
A dor estava diminuindo, mas Megan podia sentir algo ácido no fundo da garganta e uma leve tontura.
— Meu estômago.
— Ah, certo. Eu quase esqueci. Bradley mandou dar isso a você quando acordasse. — Natalie pegou o jarro de cerâmica e derramou um pouco do conteúdo na xícara que combinava e entregou a Megan. Estava cheia de um líquido nebuloso que tinha um vapor singelo. Tinha cheiro de ervas e mais alguma coisa, alguma coisa rica e escura. — Você não comeu desde que chegou, há quase um dia. — Destacou Natalie. — Provavelmente por isso está se sentindo mal.
— Meu pai vai me matar. — Megan concluiu. — Quase um dia fora de casa.
— Não se preocupe, as horas aqui passam muito mais rápido do que na terra. Se aqui é quarta-feira, lá ainda é meia-noite de terça-feira. — Natalie a aliviou.
Cautelosamente, Megan deu um gole no líquido em sua xícara. Era delicioso, rico e encorpado, e deixava um gosto amanteigado no final.
— O que é isso?
Natalie deu de ombros.
— Uma das ervas de Wakanda. Sempre funcionam. — Ela deslizou para fora da cama, aterrissando no chão com as costas arqueadas como um felino. — A propósito, sou Natalie May, tenho 27 anos e sou uma Patrulheira.
— Mas eu já sabia disso, oras. Menos a parte de ser Patrulheira. — Megan riu como se fosse óbvio. — Foi Samuel quem nos trouxe aqui?
Natalie fez que sim com a cabeça.
— Bradley quase ficou maluco quando soube que foram atacados por um Urien. — Ela olhou estritamente para Megan. — Samuel disse que vocês mataram aquele Alíen Urien sozinhos.
Uma rápida imagem daquela espécie de escorpião com a face irritável e maldosa passou pela mente de Megan; ela deu de ombros e agarrou a xícara com mais força.
— Louco, não é mesmo? Nem acreditei quando vi aquela coisa lutando com Jade.
— Foi muito corajoso da parte de vocês.
— Pode dar o crédito a Edward e Jade, foram eles quem acabaram com o Urius, eles são incríveis, Logan também.
— É Urien, Megan. — Natalie corrigiu docemente.
Megan deu de ombros.
— Onde estão meus amigos? Eles estão por aqui?
— Em algum lugar. — Ela disse. — É melhor avisar a todos que você acordou. Bradley quer falar com vocês.
— Bradley é o capitão responsável pela segurança da galáxia, certo?
— Sim. — Disse Natalie. — O banheiro é por ali, e eu consegui algumas roupas dos Puros e coloquei penduradas no cabide de toalhas caso você queira se trocar.
Megan foi tomar outro gole e viu que a xícara estava vazia. Ela não estava mais com fome, nem tonta, o que era um alívio. Repousou a xícara na mesa e abraçou o lençol em torno de si.
— O que aconteceu com as minhas roupas?
— Estavam cobertas de sangue e veneno. Samuel as queimou.
— Queimou? — Perguntou Megan. — Me diga uma coisa, ele é sempre grosso ou guarda isso só para os alunos dele?
— Ah, ele é grosso com todo mundo. — Disse Natalie, normalmente. — É o que faz ele ser tão sexy. Isso e o fato de que ele é Guardião do Cetro.
Megan sorriu para ela.
— Ele é seu namorado?
Isso atraiu a atenção de Natalie. Ela deu uma gargalhada trêmula e nervosa.
— Samuel? Meu namorado? De onde você tirou uma ideia dessas?
— Bem, não sei... — Disse Megan. — Vocês moram juntos?
Natalie fez que sim com a cabeça.
— Bem, moramos, mas isso não...
— Porque ele não mora com a própria família?
Por um breve instante, Natalie pareceu desconfortável.
— Porque eles estão mortos.
Megan abriu a boca, surpresa.
— Eles morreram em algum acidente?
— Não. — Natalie inquietou-se, colocando um chumaço de cabelo preto atrás da orelha esquerda. — Os pais já morreram faz tempo. A mulher e a filha foram assassinadas na Invasão. Samuel viu tudo.
— Oh. — Disse Megan, com a voz fraca. — Foram... alíens?
Natalie se levantou.
— Olhe, é melhor eu avisar a todos que você acordou. Há quase um dia que estão esperando para que você abra os olhos. Ah, e tem sabão no banheiro. — Ela acrescentou. — Talvez você queira se lavar. Está cheirando mal.
Megan encarou-a.
— Valeu, professora.
— Disponha, Srta. Heist.
As roupas dos Puros eram grotescas. Megan teve que amarrar as pontas do vestido branco para parar de tropeçar nelas, e a soltura do vestido em seu busto só exaltava a falta do que Edward chamaria de airbags.
Ela se arrumou em um pequeno banheiro, com uma barra de sabonete de lavanda. Secando-se com uma toalha de mão branca, deixou os cabelos molhados soltos e embaraçados, mas perfumados. Ela semicerrou os olhos para enxergar o próprio reflexo no espelho. Havia um hematoma roxo na bochecha esquerda, e os lábios estavam secos e inchados.
Tenho que ligar para casa, ela pensou. Certamente havia um telefone aqui em algum lugar, embora ela achasse difícil ter um telefone no meio do espaço sideral. Talvez pudesse usar o celular de Natalie depois de falar com Bradley, mas também achava difícil a operadora de telefone dela ter sinal no espaço.
Ela encontrou sandálias — tinha certeza que Jade iria dizer que eram de discípulos cristãos quando visse — ao pé da cama. Deslizando os pés para dentro delas, ela respirou fundo e saiu à procura de Natalie.
O corredor do lado de fora do quarto estava vazio. Limpo e vazio. Megan olhou para os lados perplexa. Parecia o tipo de corredor de lugares extremamente modernos. Lâmpadas fosforescentes e compridas penduravam-se em intervalos nas paredes, e o ar cheirava a coisa nova.
Megan tinha a sensação de que era noite, não sabia exatamente por que. O corredor iluminado tinha várias portas que deslizavam para os lados, mas ela não conseguiu encontrar nenhuma forma de abri-las. Queria saber onde estavam seus amigos, saber se estavam bem. Uma das portas estava aberta, e Megan espiou lá dentro. Viu praticamente as mesmas coisas que havia no quarto onde ela estava, uma cama, uma mesinha de cabeceira e um banheiro.
Jade estava sentada na cama, os dedos esguios passeavam velozmente por um ferimento pequeno nas costelas. Ela estava descalça, usando jeans azul e uma camiseta azul, os cabelos castanhos bagunçados como se ela tivesse acabado de acordar. Megan deve ter feito algum barulho, por que ela se virou na cama, piscando os olhos nas sombras.
— Samuel? — ela perguntou. — É você?
— Não. Sou eu. — Ela deu alguns passos para dentro do quarto. — Megan.
A cama pareceu chacoalhar quando ela se levantou, abraçando Megan levemente. Então ela percebeu que Jade estava muito gelada, os braços entornando Megan pareciam cubos de gelo, e a pele dela parecia cinzenta e mais branca do que de costume.
— Nossa própria Bela Adormecida. Quem finalmente deu o beijo para você acordar?
— Ninguém. Eu acordei sozinha.
— Tinha alguém com você?
— Sim. Srta. May estava lá.
— Também foi uma baita surpresa para mim. — Jade franziu o rosto para ela. — Essas são as roupas dos Puros? Ficaram ridículas em você.
— Bem, afinal Samuel queimou as minhas roupas.
— Ele também fez isso comigo. Aquela jaqueta custou oitenta dólares. — Jade cerrou os olhos. — Ele é um idiota, eu sei.
As duas saíram do quarto e caminharam lentamente pelo corredor.
— Quanto tempo faz que está acordada? — Perguntou Megan.
— Há algumas horas.
— Falou com Edward e Logan?
— Não. Srta. May disse que estão na ala masculina. Estão bem, ela disse.
— Onde estamos indo?
— Até o Salão de Controle. — Jade hesitou. — Andei por toda extensão dessa nave nas últimas horas, mas ninguém quis me dizer nada. Andei até um lugar chamado Salão de Controle, também não tinha ninguém, era como se estivéssemos sozinhos aqui.
— Estranho. — Megan fez uma leve careta. Agarrando o tecido do vestido.
Elas chegaram um par de portas que deslizavam para os lados. Uma placa estava nela. SALÃO DE CONTROLE.
— Vamos. — As portas se abriram. Após um instante de hesitação, Megan seguiu Jade.
O Salão de Controle era enorme. As paredes eram alinhadas com painéis com milhares de botões de todas as cores. Havia uma base no fim do vasto salão, com um painel maior ainda. O que mais encantou Megan foi a enorme parede de vidro que se erguia diante do painel maior. Sentiu o coração pulsar quando viu o planeta Terra, ao seu lado estava a Lua, atrás Júpiter, perto do sol estava Vênus com Mercúrio próximo de si. E bem ao lado da própria janela, parecendo muito perto, estavam Saturno, Netuno e Marte. Ela engasgou-se, sentiu a boca secar e os olhos brilharem. Piscou os olhos com força, tentando saber se estava sonhando, delirando ou coisa parecida.
Ao seu lado, Jade não parecia tão surpresa. Como ela havia dito, já tinha ido lá antes e provavelmente já tinha visto aquilo. O chão era de metal, incrustado com pedaços de vidro, mármore e pedras semipreciosas, Megan se perguntou se aquele chão frio não estava afetando Jade, visto que ela estava descalça. A camada interior formava um padrão que Megan não conseguia decifrar. Ao invés de ficar tentando, ela voltou a olhar para a parede de vidro.
Em frente ao painel, observando a parede de vidro também, estavam dois homens. Um deles era pálido e usava uma camiseta azul de botões com as mangas arregaçadas até os cotovelos, junto de uma calça social negra e sapatos pretos e brilhantes. Megan não viu o rosto, pois ele estava de costas junto com o outro homem. Esse era mais alto do que o primeiro, cabelos loiros penteados para trás, curvando-se em cachos perto da nuca. Usava um terno todo preto, assim como os sapatos. De repente, o homem loiro se virou para ela e Jade, sorrindo.
— Olhe só! — Disse empolgado. — Meus Protetores estão aqui!
Ele andou com os braços abertos até as duas, sendo seguido pelo outro homem pálido. Megan não se incomodou em olhar para ele, preferiu focar no homem loiro que se aproximava em passos largos e hábeis. Ele se movia tão graciosamente quanto um gato na noite escura. Foi então que Megan percebeu o quanto ele era bonito. Olhos azuis, nariz pontudo, sorriso cerrado, cabelos loiros, alto. Ela pensou que ele deveria ter entre trinta e trinta e cinco anos.
— Protetores? — Jade riu atrás dela. Sua respiração esvoaçando o topo da cabeça de Megan.
— Posso reconhecer um Filho da Pureza de longe. — O homem inalou o ar fortemente. — A propósito, Sou Bradley Whittenburg, o capitão da segurança da galáxia. É um prazer tê-las aqui. — Ele estendeu a mão grande em direção a Megan, e ela apertou, se sentiu como se tivesse apertado a mão de um gigante. — Filha do Gelo. — ele fez o mesmo com Jade, recebendo um aperto desconfiado em troca.
Enquanto Bradley cumprimentava Jade, Megan se permitiu reparar no homem parado ao lado dele. Era tão branco quanto um floco de neve, olhos muito azuis, um nariz consideravelmente grande, uma boca fina e extensa, cabelos pretos penteados formalmente. Aqueles homens provavelmente eram as pessoas mais bonitas que ela já havia conhecido. Ele parecia familiar a ela, de alguma forma. Ela quis perguntar o nome dele, mas teve medo da expressão pouco amistosa que ele lançava a ela e Jade.
— Onde estão os outros? — Bradley perguntou ainda sorrindo.
— Aqui. — A voz de Natalie soou atrás delas.
Imediatamente as duas se viraram para ver. E lá estavam Edward e Logan vestidos em roupas confortáveis. Logan estava todo de preto, com o cabelo caindo nos olhos, botas pretas, camisa de manga comprida preta e calça jeans preta, o que o fazia parecer tão sem cor quanto o homem ao lado de Bradley. Enquanto Edward estava com uma camiseta azul e uma calça vermelha, o cabelo dele estava amassado só para um lado da cabeça, ela concluiu que ele tinha acabado de acordar. Natalie estava ao lado deles, com um sorriso rompante. Cada um dos amigos dela trazia uma expressão assustada, eles miravam apenas a enorme parede de vidro com vista para os planetas. Logan deus dois passos para frente, ameaçando ir até a parede, mas Natalie o agarrou pela camisa e o puxou para trás com a facilidade de quem levanta um boneco.
— Nada disso, Sr. Echolls. — Natalie alertou com um tom divertido na voz.
Bradley riu.
— Juntem-se a nós rapazes. — Ele acenou com a mão, chamando-os.
Os dois se moveram ainda com os olhos vidrados na parede, sendo empurrados para frente por Natalie. De repente, os olhos claros de Edward encontraram-nas e ele sorriu aliviado. Bradley os cumprimentou também com apertos de mão, embora eles estivessem em estado de transe completo, parecendo dois zumbis.
— Honrado em conhecê-los. — Bradley disse. — Ficaria honrado em conhecer quaisquer pessoas capazes de matar um Urien apenas com as próprias mãos.
— Não foram só as mãos. — Edward parecia estranhar o fato de ser exaltado por matar alguma coisa. — Foi aquela coisa de Jade, bem, não me lembro o nome, não sei porque, mas sinto que estou sonhando acordado.
— Ele está falando do meu canivete. — Disse Jade. — Eu o enfiei na garganta do bicho. Ele deve ter sufocado. Acho que vou precisar de um novo. — Ela acrescentou, quase como se só tivesse pensado nisso agora. — Deveria ter pedido no serviço de quarto de vocês? Um canivete novo, por favor.
— Temos várias dessas coisas na ala dos Patrulheiros. — Disse Bradley. Quando ele sorriu para Megan, milhares de pequenas linhas saíam de seus olhos, como rachaduras em um quadro antigo. — Você pensou rápido. Onde aprendeu isso?
Antes que Jade pudesse responder, uma risada aguda ecoou pela sala. Megan percebeu que era do homem ao lado de Bradley.
— Olhe só para ela, Brad. — Ele disse. Encarava os quatro amigos com uma hostilidade tão pura e concentrada quanto ácido.
— Não estou entendendo muito bem o que você quer dizer, Samuel. — Bradley ergueu uma sobrancelha. Samuel. Samuel? Aquele homem angelical e seriamente compenetrado era Samuel? Samuel Olsen? O professor esquisito de Literatura, que tinha bigode, cabelos desgrenhados, óculos de grau e roupas ridículas? Aquele que era tão atrapalhado quanto Megan? Ela percebeu que não era a única surpresa ali. O rosto de Jade vacilou por alguns segundos, tentando ligar aquele homem gracioso a Samuel de alguma maneira lógica. Edward e Logan se olharam com expressões que diziam silenciosamente: Eu ouvi errado ou ele falou Samuel?. — O que você está sugerindo?
— É claro que ela matou aquele alienígena. Olhe para essa criança: ela é um psicopata. Ela deve se divertir enquanto ateia fogo em cachorros peludos e os assiste se contorcer.
Megan ainda estava tentando digerir o fato de que aquele era Samuel.
— Eu não sou uma psicopata. — interrompeu Jade. — E eu tenho dezessete anos. Você já conheceu alguma criança de dezessete anos que pode quebrar a sua cara?
— Samuel, você sabe que os Filho do Gelo tendem a ter um comportamento frio que se assemelha ao dos psicopatas. — Disse Bradley. — Mas não sei se acredito que estes sejam mesmo os Protetores.
— Uriens são máquinas de busca e destruição. — Disse Samuel. — Eles agem por ordem de um mestre maior. Agora, que interesse um mestre maior teria em uma adolescente ordinária? — Os olhos dele brilhavam com desgosto ao olhar para Megan. — Alguma ideia?
Edward disse:
— Deve ter sido algum engano.
— Alienígenas não cometem esse tipo de engano. Se eles foram atrás deles, devem ter tido algum motivo para isso. Se eles não fossem os Protetores...
— O que você quer dizer com Protetores? — A voz de Logan soava tranquila.
Edward parecia espantado.
— O que eu quero dizer — Disse Samuel. — é que é extremamente incomum que um Urien se interesse por apenas quatro adolescentes normais. Eles são os Protetores, se não fossem, porque teriam sido atacados?
— Eu não faço ideia do que estão falando. — Megan disse.
As sobrancelhas de Bradley se ergueram subitamente.
— Não faz?
— Ela não sabe o que fala. — Disse Samuel. — Eu já percebi. Eles ainda estão assustados, temos que ter calma.
— E voltamos ao início. — Bradley passou a mão pelos cabelos. — Acho que chegou o momento de avisar à Tanus que a missão para recuperar o Cetro falhou.
— Não! — Disse Samuel. — Você não pode...
— Fazia sentido manter a presença deles aqui em segrego enquanto não sabíamos se iriam se recuperar. — Disse Bradley. — Mas agora estão bem, e eles são os primeiros humanos a atravessar as portas deste Quartel em mais de cem anos. Você conhece as regras a cerca do conhecimento de humanos sobre tudo isso, Samuel. Tanus deve ser informado.
— Exatamente. — Concordou Logan. — Poderíamos ir embora...
— Eles não são humanos. — Disse Samuel tranquilamente.
As sobrancelhas de Bradley saltaram novamente, e permaneceram levantadas. Logan, interrompido no meio de uma frase, engasgou com a surpresa. No silêncio repentino, Logan podia ouvir os cílios de Jade se agitando uns contra os outros.
— Claro que somos. — Ele disse.
— Não. — Disse Samuel. — Vocês não são. — Ele virou-se para Bradley, e Megan viu o leve nervosismo enquanto ele engolia em seco. — Na mesma noite em foram atacados, eu fiz Selos neles, e deu certo. Mostrem a ele.
Com um olhar hesitante na direção de Jade, Megan esticou o braço. Ela se lembrou de ter olhado para ele naquela noite no beco, pensando no quão vulnerável parecia. Agora, logo abaixo da camada epitelial do pulso, ela podia ver um círculo com um anel sobreposto desbotado, a luz tão fraca quanto a de um poste mal luminoso.
— Viu só? — Disse Samuel.
— Eu não acredito, Samuel. Desperdiçando pó mendelin em humanos...
— Eles não são humanos. Você não ouviu nada do que eu disse? Isso explica porque ela pode me ver quando estou invisível. Ela tem o sangue dos Puros.
Jade abaixou o braço de Megan, as mãos feito gelo.
— Não temos. Não tem como.
— Vocês tem! — Disse Samuel. — Se não tivessem, esses Selos que eu fiz em seus pulsos teriam queimado suas peles como fogo...
— Basta, Samuel. — Disse Bradley, o desagrado era claro em sua voz. — Não há motivo algum para assustá-los ainda mais.
— Não necessariamente. — Disse Samuel.
Megan estava enjoando daquela conversa.
— Posso ligar para o meu irmão? Tem algum telefone aqui? — Ela se virou para Natalie. — Por favor?
Natalie hesitou, olhando para Bradley, que anuiu com a cabeça e se afastou deles. No painel havia um telefone preto antiquado com um giro de discagem prateado. Jade discou para ela já que Megan não fazia ideia de como se usava aquilo. Ela levantou o telefone até a orelha, o tom de discagem familiar a reconfortou.
Alguém atendeu no terceiro toque.
— Alô?
— Jeremy! Sou eu, Megan.
— Megan. — Ela percebeu o alívio na voz dele, junto com mais alguma coisa que não conseguia identificar. — Você está bem?
— Estou. — ela disse. — Foi mal não ter ligado antes. Jeremy, o papai...
— Ele está dormindo.
— Então ele já está em casa. — Qualquer esperança de que tivesse escapado do pai desapareceu. — O que ele disse?
— Isso não importa. — Megan pensou no que o pai teria feito. — Onde você está?
— Estou na Jade. — Disse Megan. — Tínhamos saído com os meninos, e minha carteira desapareceu. Se você tiver dinheiro, eu posso pegar um táxi até em casa...
— Não. — ele disse rapidamente.
O telefone escorregou na mão suada de Megan.
— O quê?
— Não. — Ele disse. — Durma na casa de Jade. Não se arrisque em vir aqui e o papai te pegar. Bryce e Stewart ainda estão acordados, e você sabe que eles te entregariam fácil.
— Poderíamos...
— Preste atenção. — A voz do irmão era severa. — Seja lá com o que você tenha se metido, não tem a nada a ver comigo. É melhor você ficar onde está.
— Mas eu não quero ficar aqui. — Ela podia se ouvir resmungando. — Não gosto dessas pessoas. Você...
— Eu não sou sua babá, Megan. Já te disse isso.
Ela sentiu lágrimas queimando no fundo dos olhos.
— Mas é que...
— Não me telefone mais para pedir favores. — Ele disse. — Tenho meus próprios problemas, não preciso ser incomodado com os seus. — ele acrescentou e desligou o telefone.
Ela ficou parada olhando para o aparelho, o ruído buzinando no ouvido como uma vespa gigantesca. Ela discou novamente o número de Jeremy e esperou. Dessa vez a secretária eletrônica atendeu.
Samuel estava ao lado de Natalie, observando Edward.
— Acho que ele não ficou feliz por receber notícias suas!
Parecia que o coração de Megan se encolhera ao tamanho de uma noz: uma pedrinha pequena e dura no peito.
— Acho que gostaria de ter uma conversa com eles. — Disse Bradley. — Em particular. — acrescentou com firmeza ao ver a expressão de Samuel.
Natalie se moveu.
— Tudo bem. Vamos deixá-los a sós.
— Isso não é justo. — Protestou Samuel. — Fui eu quem os encontrei. Vocês querem que eu fique, não querem? — Ele apelou, se voltando para os adolescentes.
Todos desviaram o olhar. Como se estivesse distante, Megan ouviu a risada de Natalie.
— Nem todo mundo quer você por perto o tempo todo, Sam. — ela disse.
— Não seja ridícula. — Ela ouviu Samuel dizer, mas ele parecia decepcionado. — Então tudo bem. Estaremos mofando no carpete do corredor, à espera de vocês.
As portas deslizaram atrás deles com um arrastão definitivo. Os olhos de Megan estavam ardendo, do jeito que ficavam toda vez que ela tentava conter lágrimas por muito tempo. Bradley estava na frente dela, um borrão preto difuso.
— Aquela que tudo vê; aquela que é tão fria quanto o gelo; aquele que é tão silencioso quanto uma pantera e aquele que é tão forte quanto Hércules. — Ele sorriu. — Aqui estão vocês.
— Desculpe, acho que não entendi. — Jade disse. — Eu sou a pantera, certo?
Bradley riu.
— A coisa com o Urien não pode ter sido engano? — Edward disse temeroso.
— Se tivesse sido um engano — Disse Bradley. — e Megan fosse uma garota normal, não teria visto o Alíen que a atacou, ou, se tivesse visto, sua mente teria processado como alguma coisa completamente diferente: um cão raivoso até mesmo outro ser humano. O fato que todos vocês conseguiam vê-lo também é porque estão conectados a muito tempo. Isso tem cheiro de CyMax.
— Isso. — Disse Edward. — Samuel nos falou sobre ele.
— É um nome que todos nós conhecemos. — Disse Bradley levemente.
— Um Alíen? — Logan sugeriu.
— Não. CyMax é, era, humano.
— Humano? Porque você disse que era?
— Porque ele não é mais. — Disse Bradley secamente. — Usou o poder do Cetro para se modificar geneticamente.
Megan afundou os dedos no braço gelado de Jade. Sua cabeça estava latejando.
— Sabe o que ele pretende com o Cetro? — Edward perguntou.
— Talvez extinguir a galáxia para criar sua própria nação. E essa seria a época propícia para isso.
— Porque agora? — Jade quis saber.
— É por causa dos planetas. — Murmurou Bradley. — Perdão. — ele disse. — Isso deve ser muito confuso para vocês...
— Você acha?
— Saturno, Lua, Júpiter e Plutão nunca foram grandes amigos. Sempre coexistiram de forma complicada...
— Como os Filhos da Pureza, os Filhos do Gelo e...
— Os Filhos de Hércules, os Filhos da Escuridão. — disse Bradley. — E os Protetores.
— O que são os Protetores?
— Em todos esses planetas, reinam as características que te definem descente de um deles. Aqueles que nasceram na Lua são chamados de Filhos do Gelo, vocês nunca estiveram lá, mas a Lua é fria, como se fosse inverno o tempo inteiro. Aqueles que nascem lá tem a pele cinzenta, gelada e quase nunca demonstram sentimentos. São frios. Foi porque a primeira Mãe estava congelada em um cubo de gelo enquanto estava grávida, seu filho nasceu frio, dando essa característica aos seus descendentes. Mas em meio aos Filhos do Gelo, existe o Escolhido. Esse tem as mesmas características dos outros, porém com notáveis habilidades, como dominar o gelo, poder tomar sua forma e congelar as coisas.
Com os Puros é a mesma coisa. Mas em Saturno, tudo é vivo e alegre, as pessoas são bondosas e ingênuas, acreditam em qualquer coisa que lhe contarem. Mas em meio a tanta ingenuidade, a Escolhida tem o dom da Pureza. Ela verá a verdade nos olhos do mais mentiroso, enxergará a mentira do mais sincero e acreditará somente e tão sempre na verdade. Ela verá a verdade através dos olhos, escutará a honestidade dos lábios.
Os Filhos de Hércules são os fortes, mas não fisicamente. Eles podem aguentar tudo de ruim que lhes acontecer, terão força em todas as ocasiões. O Escolhido terá a força física e mental, poderá levantar o mais pesado dos gigantes, levantará o Escudo Celestial como uma pena enquanto os outros farão uma força bruta para apenas movê-lo do lugar.
E os Filhos da Escuridão são os silenciosos, observadores, atentos a tudo e a todos. Eles se lembram de tudo que já ouviram ou viram e são fiéis ao seu Mestre. O poder do Escolhido vem da Erva Coração. Ela é uma planta encontrada somente nas terras de Wakanda e é extremamente venenosa para quem a ingere. De acordo com as tradições das tribos, para saber quem é o Escolhido, os futuros reis de Wakanda, ainda pequenos, devem beber um chá feito com as folhas em formato de coração para que seu espírito seja ligado ao do Deus Pantera. A criança que sobrevive é a Escolhida, ela tem poderes como super-força, velocidade, agilidade e fator de cura acelerado. Seus sentidos também são aguçados e ela pode enxergar na escuridão total, bem como sentir o cheiro de qualquer coisa a longas distâncias e ouvir os batimentos cardíacos de seu inimigo a quilômetros.
— Eu não sou nenhuma dessas pessoas, porque não tenho nenhuma dessas características. — Logan se manifestou, parecendo decepcionado.
— É porque foram enviados para a Terra, seriam chamados em situações de emergência. Essas é uma situação de emergência, CyMax pretende acabar com toda a galáxia, e o poder do Cetro é imensurável, poderia destruir este e muitos outros mundos.
— Mas nós não temos esses poderes. — Logan replicou.
— Seus poderes estão adormecidos por nunca terem os usado, os Selos que Samuel fez vão revivê-los novamente, é questão de tempo. Mas vejam só, cada um de vocês possui as características desses povos. — Bradley apontou para Jade. — Essa garota irradia frieza pelo modo como olha para as pessoas; aquele garoto — ele apontou Logan. — é silencioso, observa e pouco fala. Você — apontou Megan. — é doce e ingênua, indefesa, não faz a ninguém e você — seu dedo longo se voltou para Edward. — é forte, vejo que nada do que eu disse lhe afetou.
— Vai demorar para que os poderes se revelem? — Jade esfregou os braços.
— Não muito, talvez um ou dois dias. — Bradley deu de ombros. — Vocês estarão sob nossa supervisão.
Edward respirou fundo.
— Podemos ir para casa?
Bradley pareceu preocupar-se.
— Acho que sim. Se Samuel concordar em levá-los, podem ir. — Ele virou-se para o painel remexendo alguns botões. Olhou por cima do ombro, como se tivesse acabado de reparar que eles ainda estavam ali. — Ele deve estar na ala dos Patrulheiros.
— Não sabemos onde fica isso. — Megan disse de forma inocente.
Bradley deu um sorriso torto.
— Eu levo vocês até lá.
A luz da pistola refletia nos olhos azuis de Samuel e na pele branca. Franzindo o rosto, Samuel Olsen depositou-a na mesa, cuidadosa e meticulosamente, e chamou por Natalie. Ela, resmungando, se apoiou no ombro dele. Ele fez uma careta. Há um tempo, durante a Invasão, ele sofreu um ferimento naquele ombro, e por mais suave que fosse a mão de Natalie — ou a virada das estações, uma mudança de temperatura ou umidade, um movimento súbito de braço — despertava antigas feridas e lembranças de uma dor que deveria manter-se esquecida.
Contudo, havia algumas lembranças que nunca se apagavam. Imagens explodiam como flashes por trás de suas pálpebras quando ele fechava os olhos. Sangue e corpo, terra pesada, a calçada manchada de vermelho. O choro dos moribundos. O verde e os campos de Marte e o infinito céu azul, espetados pelas torres da Cidade Vermelha. A dor da perda inflava nele como uma onda; ele cerrou o punho, e Natalie, com os cílios batendo, o beliscou com força e pediu a pistola em cima da mesa de ferro. Ele apenas deu a ela, que se entreteve apontando o gatilho para a parede, mirando algo imaginário.
Sacudindo-se para espantar a sensação de que alguma coisa horrível estava prestes a acontecer, Samuel alcançou outra pistola, ouvindo seu nome sendo chamado por Bradley.
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