Bad Heroes

5 Maldito Professor


Mais um dia cansativo de aula? Jade colocou os óculos escuros e fez uma careta para o próprio armário. Um monte de livros desorganizados, um por cima do outro, capas amassadas e dobradas, percebeu que o livro de história estava com a capa de trás rasgada quando o pegou e jogou de qualquer jeito na mochila. Um pôster do System Of a Down estava mal colado na parede metálica do armário, junto com algumas fotos de Megan, Edward e Logan. Ela bateu a porta do armário com força e se lembrou da noite anterior. A nave de Samuel, que era completamente como uma nave de verdade, explodindo velozmente sobre cometas espalhados na galáxia. Ele não dirigia com muito cuidado, era agressivo e hostil. Jade respirou fundo tentando conter a raiva que sentia daquele mísero homem, ele os tinha tratado mal durante todo o percurso de volta para a terra. Ela tentou atirar uma barra de ferro que viu escorada em um lugar da nave nele, mas Logan não deixou, ele era a favor da paz.

Juntou a mochila de couro do chão e colocou em um dos ombros magros, apertou o casaco quadriculado e fino no corpo, a fim de espantar o frio para longe. Ela havia hibernado na cama, enrolada em mais de cinco lençóis para tentar esquentar a temperatura do corpo. Mas nada disso tinha funcionado. Olhou o corredor para ver se encontrava algum sinal de vida dos amigos, não falava com nenhum deles desde a noite passada. Viu uma cabeça loura se aproximar, rodeada de alunos menores, provavelmente do jardim de infância. Stacy sorria e respondia aos cumprimentos de bom dia dos alunos menores com um sorriso enorme no rosto. Segurava algumas folhas nas mãos, Jade percebeu que se tratavam dos desenhos ridículos e disformes das criancinhas. Em um deles ela conseguiu discernir Stacy, que estava com uma cabeça enorme e um corpo alto — o desenho fugia muita da realidade então. Com os tênis esportivos, a professora parecia ainda menor do que quando estava de salto ou sapato de plataforma. Os cabelos louros e presos balançavam enquanto ela andava apressadamente do outro lado do corredor, com a multidão de crianças em seu encalce. Jade ficou olhando até os olhos azuis de Stacy encontrarem os seus, depois disso foi como se nada mais existisse ao redor da pequena mulher. Ela andava mais lentamente, com o olhar pregado na aluna, e parecia querer sorrir. Jade não sorriu, ela apenas encarou Stacy como se quisesse fazê-lo, mas não fez. Então a professora atravessou o corredor, se desprendendo do olhar castanho e fulminante.

— Bom dia, Jade! — Megan, que de repente estava do lado, sorriu. — Quer dizer, não é um bom dia porque ainda é quarta-feira. — Jade revirou os olhos através dos óculos. — Por isso você tem que agir como eu: se o seu dia está ruim, faça de tudo para melhorá-lo. Pense que hoje é sexta-feira, melhora!

— Não, não melhora.

Jade negou com a cabeça.

— É, você tem razão. — Megan riu. — Mas então? Quais são as novidades?

— Acho que meus poderes estão meio que revivendo aos poucos. Essa noite foi como se eu estivesse acampando no Polo Norte, eu quase congelei na minha cama. A noite foi fria para você?

— Não muito, o mesmo de sempre. — Megan deu de ombros, andando ao lado de Jade no corredor.

Olhando de longe, dava para perceber facilmente a enorme diferença de altura que as duas possuíam. Jade era muito alta e Megan era muito baixa. Normalmente Jade não gostava de manter contato visual com Megan quando elas conversavam, pois ela tinha que ficar com o pescoço inclinando para baixo durante muito tempo e isso resultava em dores desagradáveis mais tarde.

— Bom, acho que os meus poderes só irão se manifestar quando necessário, portanto, eu não poderia estar mais feliz por não ser tão estranha quanto vocês. — Disse Megan, sorrindo convencida.

— Você nunca precisou de poderes para ser mais estranha do que nós, não é mesmo? — Jade sorriu.

Megan fez careta.

— Porque os óculos? — Ela se esticou o máximo que conseguiu para dar um peteleco na lateral dos óculos.

— Vem no banheiro comigo, eu te mostro o porquê. — Jade simplesmente agarrou o braço de Megan e levou para o banheiro com uma força desconhecida, as mãos geladas tocando o bracinho de Megan, que se arrepiou inteira com tanta frieza logo de manhã.

— Nossa, sua mão está muito fria. Muito fria mesmo. Sabe aqueles cubos de gelo, ou até mesmo gelo de verdade... — Jade percebeu que Megan ia começar a tagarelar e não pôde se sentir mais entediada. Ela olhou ao redor para ver se havia alguma aluna por ali enquanto a boca de Megan não parava de se mexer e produzir frases sem nenhum aproveitamento. — Então minha mão ficou dormente por uns dois dias, eu acho. Eu não contei para o meu pai, mas Edward fez uma... — Jade retirou os óculos, e Megan se depois de assimilar por alguns segundos, parou de falar e arregalou os olhos.

Jade continuou olhando para ela, como esperasse um surto, mas ao invés disso...

— Você está com olhos azuis! — Megan gritou e deu pulinhos em seu próprio eixo. — Isso é demais, amiga! Estou com inveja! — Ela sorriu e abraçou Jade como se elas tivessem achado uma fonte de petróleo no quintal.

— Sai, Megan. — Jade segurou a amiga e a empurrou para longe. — Isso não é nada legal. Azul não combina comigo. — Se virou para o enorme espelho.

— Então porque comprou essas lentes? Porque não comprou verde? — Megan perguntou se aproximando de Jade.

Jade não conseguiu acreditar no tamanho da lerdice da amiga e da falta de raciocínio.

— Lentes? Você acha que isso são lentes?

Ela se virou para Megan.

— E o que mais seriam? — Megan a olhou.

— Seriam a minha mão na sua cara. É claro que isso não lentes, sua lerda!

— Oh... — A boca dela se partiu em surpresa. — São os poderes?

Jade recolocou os óculos pretos no rosto pensando se deveria mesmo continuar na escola.

— Provavelmente sim. Falarei com Samuel ou Natalie depois. — Se olhou uma última vez no espelho conferindo a aparência. — Como conseguiu se safar do seu pai ontem?

Megan respirou fundo.

— Por incrível que pareça, Jeremy me deu cobertura e Bryce e Stewart já estavam dormindo quando cheguei. — Ela olhou para o chão, como se perguntasse internamente o motivo disso. — E você?

De longe, Jeremy parecia ser o tipo de cara que Jade namoraria. Mal encarado, sempre revestido por jaquetas de couros e só andava em motos maneiras. E talvez tenha sido isso que a fez se interessar por ele no começo, enrolando até alguns beijos com o garoto, mas nada que tenha sido levado adiante. Jeremy era aquele típico irmão mais velho: chato, roqueiro e bad boy. Ele mesmo se considerava o mais velho dos trigêmeos por ter nascido doze minutos antes do que Stewart e Bryce, os outros dois irmãos de Megan.

— Brianna estava me esperando na frente de casa, Phillip foi para um comitê de debates em Nova Jérsei. — Disse Jade. — Ela só perguntou onde eu estava e me mandou entrar, nada demais.

— Então vamos, o primeiro tempo é química e não quero me atrasar. — A mão de Megan foi até o braço de Jade, puxando-a para fora do banheiro.

***

— Sua pele vai ficar mais cinzenta também, o lance com os olhos é temporário, daqui a umas duas horas desaparece. Também terá que ter cuidado quando for tocar nas coisas, elas podem se congelar facilmente. — A voz de Natalie soava calma e aprazível enquanto ela girava uma caneta entre os dedos e respondia as perguntas de Jade.

A sala de aula estava vazia, todos os alunos provavelmente já haviam saído da propriedade de Jokeston High para irem até suas casas descansar pelo resto da tarde. Jade resolveu questionar a professora sobre o assunto e para isso teve que ficar depois da aula. Natalie estava de frente para ela, com os olhos perfeitamente grandes e redondos fitando Jade. Ela ainda parecia a mesma, Jade pensara, mas não era. Jade passou a notar as pequenas diferenças na aparência dela, as quais nunca havia se preocupado em reparar antes; diferenças essas como os braços, que eram formados por veias grossas e rígidas, fruto do treinamento do Patrulheiros. Cicatrizes no pescoço que mais pareciam tatuagens, Natalie explicou que se tratavam de Selos falsos para que ela pudesse ter acesso a qualquer lugar da galáxia, pois alguns planetas restringiam a entrada de pessoas que não fossem pertencentes a eles. Os olhos que tinham rachaduras singelas nas pupilas, como os olhos de Bradley.

— Samuel quer que vocês estejam na casa dele esta tarde. Ele quer mostrar alguma coisa a vocês. — Disse Natalie, com um sorriso escondido atrás dos lábios delicados.

— O que é? — Jade já estava de pé, se escorando na mesa e cruzando os braços.

— Ele não disse, apenas quer vocês quatro por lá. — Disse Natalie, juntando suas coisas e saindo da sala.

Jade ficou admirando o vazio, sozinha na sala. Ela estendeu os pulsos e arregaçou a manga do casaco, depois ficou olhando para os braços. Era verdade, sua pele estava cinzenta e quase sem vida, morta. Olhou as palmas das mãos. Frias. Como isso tinha acontecido? Protetores? Cetro Azul? De onde havia saído essa baboseira? Ela se perguntava, mirando a pele dos braços. As perguntas cessaram a partir do momento que suas veias, que antes passavam despercebidas pela pele expirada, agora brilhavam em um azul cintilante. As linhas das mãos também brilhavam e Jade arregalou os olhos, que mesmo ela não percebendo, mudavam de azul para castanho novamente. E uma sensação de boa espiritualidade e força se apoderou dela. De repente, tudo se apagou. As veias voltavam a sua cor normal aos poucos. Jade deixou o ar sair pela boca aliviada, o medo de ficar daquele jeito foi maior do que qualquer outro sentimento. Puxando as mangas do casaco para baixo, ela apanhou a mochila e saiu para encontrar Megan.

***

— E depois voltaram ao normal? — Megan se inclinou para olhar a amiga, os cabelos lisos tocando o banco do metrô.

Estavam no metrô, seguindo até a casa de Samuel sozinhas. Edward e Logan disseram que iriam encontrar com elas lá. Megan estranhou o fato de Edward não querer estar entre elas, já que ultimamente ele fazia de tudo para estar perto dela e de Jade, e ela admitiu para si que estava sentindo falta dele. Do sorriso que ele sempre dava a ela, junto dos olhos brilhantes. Queria bagunçar o topete dele apenas para irritá-lo, queria ouvir a risada estridente dele.

— É, foi tão estranho, mas me senti tão bem. — Jade franziu o cenho para si mesma.

O episódio na escola pareceu deixar Jade de bom humor. Quando saíram da estação e subiram a rua para a casa de Samuel, ela tirou um canivete novo em folha do bolso e começou a girá-lo entre os dedos e através das juntas, cantando consigo mesma.

— Você precisa mesmo fazer isso? — Perguntou Megan. — É irritante.

Jade cantou mais alto. Era uma espécie de canto alto e bem entoado, algo entre “Parabéns para você” e “O hino da batalha da República”.

Elas chegaram à casa de Samuel, e o coração de Megan começara a bater tão forte que ela sabia que devia estar audível a quilômetros de distância. Ela ouvia um apito nos ouvidos, e as palmas das mãos estavam encharcadas de suor. Megan parou na frente dos arbustos, esperando ver Samuel em um hobby azul com uma caneca na porta.

Mas não havia algum sinal dele. Banhada pelo agradável sol das cinco, a casa parecia brilhar. Abelhas voavam preguiçosamente ao redor das flores abaixo da janela.

— Parece normal. — Disse Megan.

— Parece. — Jade alcançou o bolso da calça jeans e pegou outro canivete.

— Então é isso? Você anda por aí com vários desses? — ela perguntou.

— Isso corta as pessoas, como uma espada, mas também pode matar.

— Jade, qual o seu problema?

— Psicopatia talvez. — Jade segurou o canivete à sua frente enquanto se aproximava da casa. — Onde aquele idiota está, afinal? Fazendo crochê?

Megan soltou o ar que não percebeu que estava segurando.

— Ótimo, ele nos chama e some. — Ela se inclinou para pegar na maçaneta. Ao olhar, viu arranhões na porta da frente. Pareciam marcas de garras, longas e paralelas, entalhadas com profundidade na madeira.

Jade tocou o braço dela.

— Eu entro primeiro. — ela disse. Megan se escondeu atrás dela, como sempre fazia. Ela podia sentir o gosto do horror que havia sentido ao ver aquele alíen no porão de Samuel pela primeira vez.

Jade empurrou a porta com uma das mãos, chamando Megan atrás dela com a mão que segurava o canivete azul. Uma vez na entrada, Megan piscou, ajustando o olhar a pouca luz. A lâmpada no teto estava apagada, a claraboia, suja demais para permitir que qualquer luz entrasse, e as sombras sobrepunham-se pesadas no chão lascado. Megan se sentiu desconfortável ao imaginar de se tinha acontecido alguma coisa com Samuel.

Jade ergueu a mão, passando-a pelo corrimão. Ficou molhada, suja de algo que parecia vermelho, quase preto à luz fraca.

— Sangue.

— Talvez seja de Samuel. — A voz de Megan parecia tão pequena quanto ela.

— Acho que não. — Disse Jade. — Vamos.

Ela subiu as escadas, Megan logo atrás. O térreo estava escuro. Jade puxou-a para trás.

— Eu vou na frente.

Megan hesitou, depois afastou-se para o lado, para permitir que Jade passasse. As palmas de suas mãos estavam grudentas, e não era por causa do calor. Aliás, estava fresco dentro da casa, quase frio, ar gelado vinha de Jade, pinicando a pele dela. Ela sentiu calafrios se formando ao seguir Jade pelo corredor curto da sala.

Estava vazia. Espantosamente, inteiramente vazia. As paredes estavam nuas, os móveis não estavam mais lá, e até as cortinas haviam sido rasgadas das janelas. Como se estivesse em um sonho, Megan virou e andou em direção à cozinha, Jade atrás, forçando a vista para enxergar.

A cozinha estava tão vazia quanto a sala, nem a geladeira estava mais lá, as cadeiras, a mesa — os armários da cozinha estavam abertos, as prateleiras vazias faziam com que ela se lembrasse de uma cantiga de ninar. Jade limpou a garganta.

— Talvez ele tenha se mudado. — Jade deu um risinho.

— Não sei, mas não estou sentindo uma coisa boa. É a mesma coisa que senti quando o Urien nos atacou.

— Fala sério. — Disse Jade. — Não há nada aqui.

Megan sacudiu a cabeça.

— Vamos ver os quartos.

Jade pareceu que ia dizer alguma coisa, mas depois pensou melhor.

— Se é o que você quer. — Ela disse, colocando o canivete no bolso.

A luz do corredor estava apagada. Com Jade logo atrás, ela encontrou a porta do quarto e alcançou a maçaneta. Estava frio na mão — tão frio que quase machucava, como tocar uma geleira com a pele desprotegida. Ela viu Jade olhá-la rapidamente, mas já estava girando a maçaneta, ou pelo menos tentando. A maçaneta se moveu lentamente, parecia ter algo grudento do outro lado como se estivesse coberto por alguma coisa gordurosa e aderente...

A porta explodiu para fora, derrubando Megan. Ela deslizou pelo chão do corredor e bateu contra a parede, rolando sobre a barriga. Então escutou um rugido forte nos ouvidos enquanto se levantava sobre os joelhos.

Jade, caída contra a parede, estava remexendo o bolso, no rosto uma expressão de absoluta surpresa. De pé a sua frente, como um gigante de conto de fadas, havia um homem enorme, largo como um carvalho, com um machado grande e afiado na mão. Panos rasgados e sujos penduravam-se na pele suja do gigante, e seu cabelo consistia de um único chumaço, grosso de sujeira. Ele cheirava a suor venenoso e carne podre. Megan estava satisfeita por não conseguir enxergar o rosto dele — ver suas costas já era ruim o bastante.

Jade estava com um canivete na mão. Ela o ergueu, gritando.

Gelo se colou no canivete inteiro. Megan pensou nos antigos filmes em que baionetas ficavam escondidas em bengalas e eram ativadas por um toque. Mas ela nunca tinha visto gelo assim: claro como um vidro, como uma clava brilhante, absurdamente afiada e quase tão comprida quanto o antebraço de Jade. Ela arremessou, ferindo o gigante, que cambaleou para trás com um urro.

Jade virou-se, correndo em direção a Megan. Jade a pegou pelo braço, levantando-a sobre os pés, empurrando-a à frente dela pelo corredor. Megan conseguia ouvir a coisa atrás delas, seguindo-as; seus passos soavam como pesos de chumbo batendo no chão, mas vinham rapidamente.

Elas aceleraram pela entrada, e saíram pelo térreo, com Jade virando as costas para fechar a porta. Megan ouviu o clique da tranca automática e respirou aliviada. A porta balançou nas dobradiças e um tremendo impacto ecoou alto pelo andar de cima. Megan recuou para as escadas. Jade olhou para ela. Os olhos da amiga brilhavam com uma agitação maníaca.

— Vá lá para fora! Saia da...

Outra batida veio, e dessa vez as dobradiças cederam e a porta voou para fora. Poderia ter derrubado Jade, se ela não tivesse se mexido com tanta rapidez que Megan mal a viu; de repente ela estava no topo da escada, o canivete congelado na mão como uma estrela cadente. Ela viu Jade olhar para ela e gritar alguma coisa, mas não conseguia escutá-la através do rugido da criatura gigantesca que saiu da porta destruída, indo em direção a Jade. Megan se encostou à parede enquanto o gigante passava em uma onda de calor e fedor... em seguida, o machado estava voando, cortando o ar, em direção a cabeça de Jade. Ela desviou e o machado acertou um quadro na parede.

Jade riu. A risada pareceu enfurecer a criatura; deixando de lado o machado, ele pulou para cima de Jade com punhos enormes levantados. Jade pegou o canivete com um rápido movimento circular, enterrando-o no ombro do gigante. Por um instante, a criatura ficou balançando. Depois despencou para frente, com as mãos esticadas, prontas para agarrar alguma coisa. Jade foi para o lado rapidamente, mas não o bastante; os punhos gigantescos a agarraram enquanto o gigante cambaleava e caia, arrastando Jade consigo. Jade gritou uma vez; houve uma série de batidas fortes e pesadas, seguidas de silêncio.

Megan se levantou e correu para o andar de baixo. Jade estava caída espalhada no pé da escada, com o braço dobrado sob ela em um ângulo esquisito. Em suas pernas, estava o gigante, o cabo de gelo protuberante no ombro. Ele não estava exatamente morto, mas baqueava fracamente, uma espuma sangrenta escorria da boca. Megan podia ver o rosto agora — estava completamente branco e parecia feito de papel, riscado com uma rede de cicatrizes pretas e horríveis que quase ofuscavam as feições. Seus olhos eram poços vermelhos supurados. Lutando para não ficar paralisada, Megan desceu os últimos degraus, passou por cima do gigante, que se contorcia, e se ajoelhou ao lado de Jade.

Ela estava parada. Megan pôs a mão no ombro dela, e sentiu o casaco ensopado de sangue — se era o dela ou o do gigante, não conseguia saber.

— Jade?

Ela abriu os olhos.

— Está morto?

— Quase. — Respondeu Megan.

— Inferno. — Ela fez uma careta. — Minhas pernas...

— Fique parada. — Arrastando-se ao redor da cabeça dela, Megan pôs as mãos sob os braços de Jade e a puxou. Ela rosnou de dor enquanto as pernas saiam de debaixo da carcaça em espasmos do gigante. Megan soltou, e Jade lutou para ficar de pé, com o braço esquerdo sobre o próprio peito. Megan se levantou. — Seu braço está bem?

— Não. Quebrado. — Ela disse. — Consegue pegar meu celular no bolso?

— Este aqui? — Uma voz grossa e rouca ecoou pela sala.

Elas olharam para a origem do som quase que imediatamente. Megan pensou se tratar do gigante estirado na escada, mas a voz era angelical demais para ser ele. Com olhos assustados e atentos, ela viu Samuel. Ele estava sentando em uma poltrona velha no canto escuro da sala, a perna direita cruzada sob a esquerda elegantemente, nas mãos segurava o celular de Jade, e no rosto um sorriso sábio. Estava vestido em um terno preto, com uma camisa branca por dentro.

— Desculpe, caiu do seu bolso quando entraram. — Ele se levantou e estendeu o telefone a ela.

— Sabia que estávamos aqui? — Megan perguntou, olhando-o com incredulidade.

— Eu as chamei até aqui, não é? Deveria esperar por sua presença.

Jade estava olhando para ele com tanta raiva que Megan pensou que ele fosse queimar com o olhar ácido que recebia.

— Foi divertido, não acham? — Ele sorriu. — Ele quase matou vocês.

— Eu vou matar você.

E antes que Megan pudesse fazer qualquer coisa, ela viu Jade jogar o braço livre para frente e uma clava de gelo afiada se formar, voando em direção ao rosto de Samuel com velocidade.