Bad Heroes
3 Alienígena
Megan correu para detrás dos braços de Jade quase que imediatamente. Samuel não parecia ameaçador de verdade, mas ela preferiu não correr o risco. As coisas já não estavam muito boas para ele, teria que se explicar para os amigos dela, e teria que fazer isso antes que Jade lhe acertasse um soco certeiro no nariz. Edward e Logan permaneceram indiferentes, com os braços cruzados e semblantes ameaçadores nos rostos pálidos, como se fossem seguranças de Jade.
— Então, esquisito, vai se explicando. — Jade começou. Ela não pareceu ligar para o fato de que ele era seu professor. — O que quer com a Megan?
Os olhos negros dele passearam pelos rostos de todos ali, ainda com um sorriso convencido nos lábios descorados.
— Não é o que quero com ela, mas sim com vocês também. — Disse calmo, relaxando os músculos.
— E o que você quer? — Logan disse seriamente.
— Ajuda. — Disse Samuel. — Quero que me ajudem a encontrar uma coisa que perdi.
Jade sufocou um riso.
— E o que seria? Sua nave espacial? — Disse Jade. Seus olhos brilhavam. Megan conhecia aquele brilho, era do tipo de brilho que ela adquiria quando estava a fim de fazer alguém chorar apenas com palavras.
Ainda assim, Megan sentiu seu estômago revirar ao lembrar-se da noite anterior na casa de Samuel. Ela olhou Edward de soslaio e o viu inspirar fundo.
Samuel pareceu não se abalar com a provocação de Jade.
— O Cetro Azul. — Ele disse firme. E antes que Logan abrisse a boca para perguntar, Samuel continuou. — Há dez anos fui nomeado como o Guardião Oficial do Cetro Azul, uma das seis joias do infinito. Eu o protegi com honra e devoção, mas há um tempo, um massacre aconteceu em Marte. Até então pensei que seria uma invasão dos Sengs, visto que sempre invadiam planetas em quantidades pequenas para tomá-los para si, mas não se tratava só deles. Era um exército, comandado por CyMax, um até então desconhecido pelo povo de Marte. A realidade é que nesse mesmo ataque, denominado A Invasão, eu acabei perdendo o Cetro. CyMax o roubou e preciso recuperá-lo a qualquer custo.
Ele disse tudo com uma naturalidade assustadora, como se Megan e seus amigos entendessem tudo perfeitamente e até mesmo estivessem lá no momento em que tudo aconteceu.
— E porque deveríamos acreditar nisso? — Jade não parecia afetada com a história como Edward e Logan, que pareciam pensativos e duvidosos. Megan a conhecia o bastante para saber que ela raramente acreditava naquilo que seus próprios olhos não viam.
Megan também achava difícil acreditar naquilo, contudo ela tinha visto o Selo que Samuel havia feito nela minutos atrás. Tinha sentido na própria pele. Mas quando ela encarou os olhos negros de Samuel, sentiu seu cérebro queimar com a visão que teve.
Corpos jogados por todos os lados, ruas, calçadas, casas destruídas. Pensou que se tratavam apenas de pessoas normais, mas juntos aos corpos humanos, via também várias das criaturas que vira na casa de Samuel. Peles cinza, cabeças desformes e olhos grandes e pretos como túneis sem fim. Um homem estava ajoelhado perto de um corpo aparentemente humano, era uma mulher pálida e sem vida. Machucados visíveis no rosto e nos braços, mordidas no pescoço. Os cabelos negros dela estavam espalhados ao redor da cabeça, ensopados de sangue. O homem diante dela chorava como se não houvesse amanhã, o mundo parecia não existir para ele. Nem mesmo os corpos ao seu redor faziam com que ele mirasse outra coisa que não fosse o rosto morto da mulher, beijava-o de leve, como se com um beijo ela fosse acordar. Ele parecia familiar para Megan, mas ela não conseguia identificá-lo com clareza. Havia uma névoa negra ao redor dele, ela via tristeza ali, um coração partido, uma vida destruída, dor, perda...
Megan engasgou-se e deu um passo para trás, alguma coisa dizia que aquilo não era algo aleatório. No interior de si, ela sentia que Samuel dizia a verdade, por mais estranho que aquilo soasse.
— Ele... — Ela agarrou o braço de Jade. — Ele está falando a verdade. — Sussurrou.
— Como assim? — Logan a olhou e Edward também. Jade nada disse.
— Eu vi, acabei de ver nos olhos dele. — Ela sussurrou, não sabia por que, mas não queria que Samuel escutasse.
— Viu nos olhos dele? — Logan disse. Ele exibia uma face confusa.
— É. Ele diz a verdade. — Megan disse apertando o braço de Jade.
— Digamos que isso seja verdade... — Disse Jade, se dirigindo a Samuel, dando um passo à frente e se soltando do aperto de Megan. — Como ajudaríamos você?
— Iriam comigo até Marte, lá Bradley irá explicar tudo que precisam saber. — Disse Samuel, seu rosto não denotava nenhuma expressão.
— Quem é Bradley?
— O capitão responsável pela segurança da galáxia.
Jade não disse mais nada.
— Preciso que me mostrem seus pulsos. — Ele pediu.
Apesar do que Megan pensou, Jade apenas deu de ombros antes de arregaçar a manga da jaqueta e estender o pulso na direção dele. Samuel fez a mesma coisa que havia feito com Megan, só que dessa vez, ele despejou um pó na cor azul na pele dela. Edward e Logan assistiram desacreditados quando a Lua se formou na pele morena. Na vez de Logan, o pó usado era preto, e Plutão se formou ali. Quando chegou a vez de Edward, um pó verde desenvolveu Júpiter em sua munheca.
— Esses planetas que se formaram em suas peles são de onde vocês são, onde nasceram. — Samuel explicou.
Por um instante, Edward apenas ficou estático olhando o próprio pulso. Megan imaginou se dar essas informações a ele tinha sido a atitude errada. Ele tinha um senso prático mais forte do que qualquer um que Megan conhecia; podia saber de algo assim, uma coisa sem qualquer explicação lógica. Ela se inclinou para frente, ansiosa, exatamente quando Edward levantou a cabeça.
— Isso é magnífico. — Ele disse.
Samuel pareceu tão espantado quanto Megan se sentiu.
— Magnífico?
Edward anuiu com entusiasmo.
— Totalmente. É como RPG, só que de verdade.
Samuel parecia abismado.
— É como o quê?
— É um jogo. — Explicou Logan. Ele parecia ligeiramente envergonhado. — As pessoas fingem ser magos e elfos, e matam monstros e coisas desse tipo.
Jade estava olhando para Edward como se ele fosse uma espécie estranha de inseto. Mas Edward sorriu.
— Você nunca ouviu falar em RPG? Em Dungeons and Dragons?
— Já ouvi falar em Dungeons, masmorras. — Disse Samuel. — Também em Dragons, dragões. Apesar de só existirem em portais para outras dimensões.
Edward pareceu decepcionado.
— Você nunca matou um dragão?
— Ele provavelmente também nunca encontrou uma mulher-elfo gata de um metro e oitenta com biquíni de pele. — Disse Jade, irritada. — Dá um tempo, Edward.
— Elfos não existem. — Disse Samuel.
— Mas alienígenas são gatas? — Disse Edward. — Quero dizer, algumas são gatinhas, não são?
Por um instante, Megan temeu que Jade fosse voar pelo beco e esganar Edward até que ele perdesse os sentidos. Em vez disso, ela controlou-se.
— Algumas são, acho. — Samuel deu de ombros.
— Fantástico. — Disse Edward. Megan concluiu que preferia quando Edward achava Samuel um babaca esquisito e assustador.
Samuel deu outro passo para frente.
— Então, vamos até Marte ou não?
Edward sorriu.
— Estou dentro. Nós vamos fazer isso agora?
— Nós? — Disse Jade, com delicadeza sombria. — Não me lembro de ter dito que ia.
— Está falando sério? — Samuel disse, espantado.
O canto esquerdo da boca de Jade se curvou.
— Só estava brincando. — Ela deu mais alguns passos a frente. — Vamos?
— Escutem, eu vou pegar minha nave. — Samuel ergueu o dedo indicador, exigindo atenção. — Vou voltar aqui e pegá-los, está bem?
Eles assentiram com a cabeça, menos Jade. Ela olhava para Samuel enquanto ele saía do beco como se ainda achasse ele um baita esquisito.
Estava tudo escuro lá, e Logan olhava para o céu o tempo todo, esperando por Samuel.
— Como Marte deve ser? — Megan perguntou para Edward, cujo rosto pálido era visível naquela escuridão.
— Acredito que seja indescritível. — Ele apenas disse.
— Mas você não imagina? Eu imagino. — Ela sorriu.
— Para falar a verdade, estou morrendo de medo. E acho que quero ir embora para casa. — Logan se intrometeu. Megan escutou Jade rir.
— Então vamos. — Ela se aproximou. — Quero ver a cara desse mané quando ele chegar aqui com a “nave” dele, e não nos encontrar.
— Seria uma boa ideia. — Edward disse, rindo.
— Então vamos. — Logan começou a caminhar enquanto Megan os assistia, estava perplexa. Os três andavam em direção à saída do beco calmamente. Ela não os seguiu. Afinal, eles não estavam mesmo acreditando naquilo, nem mesmo depois dos Selos que Samuel havia feito. Claro que ela também não acreditaria, mas o fato de ter visto a cena da Invasão nos olhos de Samuel, fazia com que ela acreditasse. Queria poder mostrar isso aos amigos, mas não sabia como.
— Não vem, Megan? — A voz de Edward ecoou do outro lado do beco escuro e frio.
— Edward! — ela gritou. — Cadê você?
Apesar da pele sem cor dele ser visível, ele estava a metros de distância dela, isso dificultava que ela o visse. De repente, o fato de não vê-lo a apavorou, pois ela sentia algo no peito. Uma espécie de mau pressentimento. Um cheiro ruim pairava no ar, se assemelhava a fumaça. Megan não saberia explicar o que aquilo queria dizer, sentia que algo ruim estava ali.
O que... Ela se perguntou internamente, o que está acontecendo?
O silêncio respondeu. Não, não o silêncio — um barulho ecoou no beco, arrepiando os pelos da nuca de Megan. Como alguma coisa sendo derrubada —, um objeto pesado atingindo o chão com uma batida forte. A batida foi seguida por um barulho arrastado e vinha em direção a ela. Com o estômago contraindo de pavor, Megan virou-se de costas lentamente.
Por um instante, ela pensou que estava sozinha, e sentiu uma onda de alívio. Em seguida olhou para baixo.
Estava agachada no chão, uma criatura longa e escamada com um conjunto de olhos pretos vazios no centro do crânio. Alguma coisa entre um cruzamento de jacaré com centopeia, com um focinho grosso e liso e uma cauda peluda que balançava perigosamente de um lado para o outro. Pernas múltiplas se ajeitavam sob o corpo enquanto este se preparava para saltar.
Um berro partiu da garganta de Megan. Ela cambaleou para trás, escorregou e caiu, bem na hora que a criatura atacou-a. Ela rolou para o lado, e não foi atingida por poucos centímetros, deslizando pelo chão sujo do beco, suas garras escavando estrias profundas na superfície. Um rosnado partiu da garganta da criatura.
Ela se levantou de qualquer jeito e saiu correndo em direção à saída do beco, mas a coisa era rápida demais para ela. Pulou mais uma vez, aterrissando exatamente na frente de Megan, onde ficou parada como uma aranha maligna gigante, encarando-a com um conjunto de olhos. A mandíbula se abria lentamente, exibindo uma fileira de dentes afiados dos quais pingava saliva esverdeada.
Começou a deslizar lentamente pelo chão. Uma parte de Megan havia ultrapassado o terror e chegado a um estado de paralização congelada. A coisa estava de pé agora, arrastando-se em direção a ela. Chegando para trás, ela pegou a própria bolsa e atirou contra o monstro.
A bolsa atingiu o centro da criatura e depois caiu no chão. O bicho não pareceu notar. Veio em direção a ela.
Megan bateu com as costas na parede. Não tinha mais para onde recuar. Ela olhou o próprio pulso enquanto a criatura saltou. O bicho se lançou violentamente contra ela, derrubando-a no chão, e sua cabeça e ombros bateram no chão. Ela girou para o lado, mas a coisa era pesada demais. Estava em cima dela, um peso opressivo e viscoso que fazia com que ela quisesse vomitar.
O hálito quente no rosto de Megan tinha cheiro de sangue. Ela não conseguia respirar. Parecia que suas costas iam quebrar. Ela estava com o braço preso entre o próprio corpo e do monstro. Ela girou, tentando libertar a mão.
A visão dela já estava ficando turva, o peso daquela coisa parecia triplicar a cada segundo. Sentia um frio súbito se aproximando, passos pesados ecoando. Ao virar a cabeça para o lado, viu silhuetas embaçadas correndo até ela...
Com um grito, Jade se atirou contra a criatura, querendo esmagá-la, cegá-la. Ela rolou junto com a coisa pelo chão, Megan respirou fundo e tentou se erguer, sem sucesso. Logan se agachou perto dela, Edward correu até um emaranhado de canos de aço grudados na parede e arrancou um pedaço de cano e foi até onde Jade lutava contra a coisa, porém com um movimento na cauda longa, o bicho atingiu Edward com força, fazendo-o voar a alguns metros e cair de costas no chão. Enquanto batalhava contra o bicho, Jade sentiu um movimento no quadril. O bolso. Colocando a mão dentro dele, retirou o canivete suíço que ganhara de Brianna. O material duro chegava a machucar a palma da mão dela. Ela fechou a mão em torno do canivete enquanto a criatura tentava atacá-la no rosto, com a boca amplamente aberta, e enfiou o canivete entre os dentes do monstro e sentiu a saliva quente e ácida no pulso, e gotas ferventes pingarem na pele exposta do rosto e da garganta. Distante dali, podia ver Edward se erguendo com dificuldade.
Parecendo quase surpresa, a criatura recuou, com o canivete alojado entre os dentes. Rugiu, um barulho espesso e raivoso, e jogou a cabeça para trás. Megan a viu engolir o canivete, e percebeu o movimento da garganta. Somos os próximos, ela pensou, em pânico. Somos...
De repente, a criatura começou a estremecer. Com espasmos incontroláveis, se afastou de Jade e rolou sobre as próprias costas, múltiplas pernas chutando o ar. Líquido preto vazou da boca do monstro.
Quase sem fôlego, Megan rolou e começou a se afastar da coisa também. Ela havia se levantado com ajuda de Logan, que estava trêmulo, e eles já estavam praticamente perto da saída do beco quando ela ouviu algo assobiar pelo ar próximo à sua cabeça. Ela tentou desviar, mas era tarde demais. Um objeto bateu forte na parte de trás da cabeça, e ela sucumbiu entregue a escuridão.
A luz agrediu as pálpebras de Megan, branca. Havia um gemido agudo e de lamentação. Megan engasgou-se e abriu os olhos. Ela estava deitada sobre o chão frio e úmido. O céu noturno ondulava-se acima, o brilho metálico das estrelas ofuscando pelas luzes da cidade. Logan estava ajoelhado a seu lado, as pulseiras de plástico nos pulsos dele emitiam barulhos enquanto ele rasgava o pedaço de tecido que segurava.
— Não se mexa.
Os lamentos ameaçavam cortar as orelhas dela ao meio. Megan girou a cabeça para o lado, desobedientemente, e foi recompensada com uma pontada aguda de dor nas costas. Edward estava em pé com as mãos na cabeça e uma careta de pura dor; Jade estava sentada ao seu lado, com um rasgo consideravelmente grande na têmpora, de onde escorria sangue sem parar, pingando sob os cílios longos e as maçãs altas do rosto.
Megan tentou se sentar, e não conseguiu, os dedos tremiam no chão úmido.
— Eu disse para não se mexer. — Sibilou Logan. — Aquela coisa te acertou na nuca. Ela já estava quase morta, então não provocou um dano grave, mas é bom que Samuel chegue logo.
— Se é que ele vem. — Jade murmurou, olhando para o vazio.
— Fique parada. — Logan instruiu a Megan.
— Aquela coisa, o monstro, era um alienígena? — Megan se mexia incontrolavelmente.
— Nós já vimos um alienígena antes. — A voz de Edward era baixa, como se qualquer barulho maior fosse o incomodar. As mãos de Logan eram delicadas enquanto ele colocava a tira de pano sob o pescoço de Megan e amarrava. Estava embebido com alguma coisa que parecia cera, como o material de jardinagem que a tia de Edward utilizava para manter macias as mãos que abusavam de tinta e de aguarrás.
— O monstro na casa de Samuel parecia uma pessoa.
Apesar de Logan e Jade não saberem do que eles estavam falando, Jade estava calada e Logan parecia concentrado demais no que fazia.
— Eu achei que ele ia me comer.
— Mas não comeu. Jade o matou. — Logan concluiu o curativo e sentou-se.
Para alívio de Megan, a dor na nuca havia passado. Ela conseguiu sentar.
— Jade, você está ferida. — A voz dela soou como o coaxar de um sapo. — Nós deveríamos...
— Não há nada que possam fazer, nem tentem chegar perto de mim.
— Mas esse corte é grande. — Megan disse, forçando as palavras através da garganta inchada.
— Deixa ela, Megan. — Edward esticou a mão para ela. Ela aceitou e ele a levantou com um puxão. — Vamos. — Jade e Logan se ergueram também.
O mundo estremeceu. Edward pôs a mão nas costas dela, segurando-a firme. Ele cheirava a sujeira, sangue e metal.
— Você consegue andar?
— Acho que sim. Eu estou... — As palavras dela se dissolveram numa tosse. Ela levantou a mão para cobrir a boca. Voltou vermelha. Ela gemeu.
— Megan, você está bem? — Edward disse.
Ela não respondeu aquilo. Estava ocupada tentando não cair. O chão estava pesando seus joelhos.
— Edward. — Ela disse, e caiu sobre ele. Ele a segurou, como se estivesse acostumado a segurar garotas desmaiando, como se fizesse isso todos os dias. E talvez fosse esse o caso. Ele a tomou nos braços, dizendo alguma coisa em seu ouvido que soava como Nave. Megan esticou a cabeça para trás para olhar para ele, mas só viu uma luz forte vinda do céu acima na direção deles. Depois a base de tudo caiu, e mesmo os braços de Edward não bastavam para impedir que ela caísse.
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