Bad Heroes
10 Betrayal
Notas iniciais
Acordei meio sonolenta e preguiçosa essa manhã. Mike teve que puxar o lençol da cama e me arrastar junto para que eu pudesse abrir os olhos e ter consciência do que se passava ao meu redor. Não foi uma boa experiência. Tentei me vestir antes que minha mãe chegasse para fazê-lo e fiquei presa na calça jeans, minha mãe riu da minha tentativa de ser independente e me socorreu nesse momento constrangedor. Era meio chato ter que esperar minha mãe todos os dias para que ela pudesse me ajudar com minhas roupas e com o banho, eu me sentia uma criancinha. E o pior foi quando fui pegar meus livros no armário hoje, e dei de testa na porta por estar viajando na maionese. Peguei-me pensando no que as meninas tinham feito noite passada. Uma culpa maior do que todo o planeta me invadiu quando escutei da boca de Emily que elas tinham feito aquilo para me vingar por conta do ocorrido semanas atrás, e se a tal Jenna tivesse mesmo ficado cega? Não queria nem pensar.
Quase perto de o sinal bater para o inicio das aulas, Spencer apareceu com Caleb ao seu lado, espremidos na multidão que o corredor se tornava antes do começo das aulas. Caleb estava piscando várias vezes e parecia atordoado, mas sua irmã parecia não notar isso e apenas caminhava normalmente.
— Oi. — Spencer cumprimentou.
— Oi. — Devolvi.
— O que foi isso na sua testa? — Caleb, que estava piscando umas trezentas vezes por segundo, perguntou.
— Eu acordei meio lerda essa manhã e dei de cara no armário. — Sorri.
— Tudo bem? Cadê as meninas? — Ele perguntou.
Spencer o olhou e franziu as sobrancelhas.
— Eu não sei. — Disse Spencer. — Devem estar por aí.
Em seguida, Caleb mexeu a boca e algumas frases completamente enroladas saíram por ela. Ele falou tão rápido que eu nem tinha percebido que ele estava falando.
— O que disse? — Spencer entortou o nariz.
Eu puxei um livro do meu armário ainda olhando para ele, vendo-o piscar rápido, e não me dei conta de que se movesse o livro que tinha na ponta dos dedos mais algum centímetro, derrubaria todos os outros livros que estavam sobre ele. Caleb ficou observando minha mão, e quando puxei o livro para frente, extraordinariamente, Caleb conseguiu aparar todos os livros que caíram do armário em velocidade recorde.
Spencer e eu o olhamos com os olhos quase saltando das órbitas, e ele apenas colocou os livros de volta no armário.
— Tenho que ir. — Ele saiu andando, segurando as alças da mochila com certa força.
— Spencer, o que foi isso?
— Isso o quê? — Hanna soou atrás de Spencer antes que ela respondesse.
— Caleb está estranho. — Disse Spencer.
— Que? Como assim estranho? — Ela se aproximou energeticamente.
— Ele deve ter piscado umas mil vezes só em cinco segundos. — Falei.
— Será que ele está bem? — Ela quis saber.
Novamente, Spencer franziu as sobrancelhas.
— E desde quando isso seria do seu interesse?
— Só estava perguntando. — Hanna estendeu as mãos em rendição.
Agora, olhando mais de perto e analisando suas ações com cuidado, vi que Hanna possuía mais gentileza do que sua amiga, Alison, e que mesmo que maioria das coisas que Ali fizesse levasse sempre uma grande pitada de maldade e sarcasmo, Hanna não demonstrava ter uma natureza tão obscura quanto ela. Ela parecia mais uma cópia menos má de Alison, porém eu gostaria muito de saber quem era Hanna Marin de verdade, saber do que ela gosta de verdade, suas músicas favoritas, seus gostos para roupas...
— Como está o joelho, Aria? — Ouvi Spencer perguntar.
Os incômodos no joelho tinham cessado durante a noite, e eu fiquei quase metade dela olhando para ele. Talvez isso explicasse minha lentidão de raciocínio essa manhã.
— Bem...
— “Bem” tipo bem mesmo? — Hanna esticou o pescoço.
Abri a boca para responder, mas o sinal irritante soou por toda extensão de Rosewood Day, obrigando os alunos a arrastarem suas pernas preguiçosas pelos corredores, ou no meu caso, suas cadeiras.
***
— Então eu tive que fazer dupla com aquele imbecil. — Ali lastimava com visível desinteresse sobre sua aula de sociologia enquanto olhava o movimento de alunos no jardim da escola, onde estávamos sentadas na hora do almoço. Ela teve que fazer dupla com Noel Kahn. Ele era uma cara legal em minha opinião, pois ele sempre vinha me pedir desculpas quando Eric fazia brincadeiras de péssimo gosto comigo, então apenas ouvi o que ela dizia sem comentar.
— Ali — Hanna a chamou. —, Ezra me ligou.
— E...?
— Ele perguntou como Aria está. — Ela disse como se eu não estivesse ali, sentada e ouvindo tudo que ela dizia.
— Você deveria dizer isso à ela, não à mim.
— Ezra perguntou como você está. — Hanna me olhou com expectativa.
— Uh... — Eu não soube o que dizer. — Diga à ele que estou bem.
— Foi o que eu disse.
Emily e Spencer, que até agora estava quietas e silenciosas, me olharam com os olhos cerrados e compartilharam breves sorrisos enquanto eu sentia minhas bochechas arderem.
— Tem alguém pegando o cientista? — Spencer sorriu maldosa.
— Não estou pegando ninguém. — Mantive meus braços cruzados embaixo do peito.
— Não é o que está parecendo. — Hanna enfiou uma uva na boca com um olhar brincalhão.
— Qual é, Aria! — Spencer se dobrou para frente. — Não confia na gente?
Olhei para Alison, que parecia completamente absorta na conversa, girando lentamente um invólucro de papel nos dedos, o que reconheci como um cigarro. Ela deu uma cotovelada singela em Hanna, e deu o cigarro para ela. Fiquei testemunhando aquela cena até ver Hanna alongar o dedo indicador e acender o cigarro com a pequena chama que se elevou de seu dedo. Elas não tinham jeito mesmo.
— Aria! — Ouvi a voz de Emily chamar meu nome e, logo em seguida, fui atingida com um pedaço de alface, tirando-me imediatamente dos meus pensamentos.
— Acorda! — Spencer cantarolou, rindo do olhar assassino que eu lhe enviei quando vi que a alface estava melada de molho e tinha sujado minha blusa.
— Spencer, qual é o seu problema? — Me coloquei ereta sobre a cadeira.
— Olha só! Ela ficou brava! — Hanna caçoou.
Era perceptível observar a surpresa dela ao ver minha cara de enfezada. Eu quase nunca falava nada e sempre ficava calada quando me ofendiam, mas alguma coisa tinha mudado depois de conhecer as meninas. Eu sentia que queria ser como Ali, não levar desaforo para casa e sempre ter uma boa resposta na ponta da língua. Quando você tiver amigos de verdade, não vai precisar se defender, porque eles defenderão você, minha mãe tinha dito uma vez.
— Querem ir à minha casa hoje? — Ali perguntou depois de soprar fumaça pela boca, inundando meus pulmões com cheiro de cigarro.
— Fazer o que? — Emily se manifestou pela primeira vez.
— Sei lá... — Ela disse sem muito interesse.
— Você vem, Spencer? — Emily chamou.
— Eu, não. — Disse Spencer. — Não morro de amores pela família dela. — Apontou um dedo para Ali. — Acham que são melhores do que todo mundo.
— Não. — Disse Ali. — Eu acho que eu sou melhor do que todo mundo. Uma opinião que já foi defendida com grandes evidências. — Ali soprou com força uma baforada fina de fumaça na direção do céu. Eu tinha que admitir: isso dava a ela um ar descolado, de algum modo, ficava mais alta.
Spencer olhou para Hanna.
— Ela sempre fala assim?
— Sempre.
— E nada cala a boca dela? Além de uma boa surra, é claro.
Ali se ajeitou na cadeira.
— Adoraria que tentasse.
— Pelo amor de Deus, parem! — Emily, como sempre, se pôs entre as duas.
— Qual é, Spencer! — Alison deu uma tragada tão forte e profunda que achei que o cigarro fosse acabar de uma vez só. Ela soltou a fumaça e continuou: — Posso chamar o Toby se quiser.
Olhei para Hanna no mesmo instante, franzindo a testa quando vi as bochechas de Spencer ficarem de pálidas para vermelho-brilhantes só de ouvir a pronúncia do nome.
— Não ligo. — Spencer aparentou passividade, mas eu sabia que ela estava fingindo a abnegação ao tal Toby.
— Quem é Toby? — Perguntei, com notável curiosidade.
— É o amigo da Ali, por quem Spencer tem uma paixão platônica. — Disse Hanna, mordendo o canudo.
— Mas que mentira! — Spencer protestou. — Eu nem o conheço direito! — Ela pareceu sincera, e eu sabia que as meninas estavam exagerando quanto a isso.
— Você disse que ele era bonito quando nos falamos por telefone ontem. — Emily entregou a amiga inocentemente, recebendo um olhar arrasador em troca. — Ele é mesmo um gato. — Mordeu o lábio e todas riram, Ali apenas sorriu de canto.
— É mesmo, Em? — Ela olhou para Emily com um aspecto provocante. — Pode ficar com ele se quiser.
— Não quero ficar com ele. — Ela respondeu timidamente, mantendo seus olhos longe dos de Ali. Era no mínimo alarmante o nível de controle que ela exercia sobre as pessoas, e eu ainda tentava entender o que rolava entre ela e Emily. Não sabia se ela fazia aquilo só para irritar Spencer — visto que a mesma repugnava qualquer contato entre as duas — ou se Emily era a favorita dela. E no intento da dúvida, resolvi ficar com a primeira opção.
Mais tarde, naquele mesmo dia, eu olhava as folhas que caíam de uma das enormes árvores que cobriam a grama de Rosewood Day enquanto esperava meu pai me buscar após o término do dia letivo. Elas estavam ficando marrons e caíam aos montes, indicando que o outono estava próximo. Eu adorava o outono. Gosto da sensação de não sentir nem frio e nem calor ao mesmo tempo, de ver as árvores sem as folhas e as montanhas marrons e amarelas que se formavam embaixo delas com a queda das folhas. E o outono já dava as caras, me trazendo um estado de boa existência profunda. E incrivelmente, essa sensação de nem calor e nem frio também estava abaixo da minha cintura. Uma coisa que eu já entendia era que eu não sentia frio e nem calor abaixo da cintura, e perceber essa impressão se apoderar de mim foi ótimo. Eu me sentia feliz hoje, os progressos das minhas pernas eram uma verdadeira injeção de ânimo no ego. O efeito do outono não se prolongou muito ao meu redor, pois uma névoa fria chegava pelas minhas costas. Estremeci ao ouvir passos atrás de mim, pés amassando as folhas caídas. Frio.
— Pensando, Pequena Grande Aria? — Disse uma voz conhecida. Apenas uma pessoa me chamava assim.
E eu gostava. Me sentia uma das protegidas dela.
— Na verdade, não. — Falei.
— Onde está seu pai? — Ali pôs uma mão na cintura, olhando para a rua.
— Está estranhamente atrasado hoje. — Ponderei distraída, tentando achar uma razão para ele ter se atrasado quase meia hora.
— Hm. — Ela juntou os lábios. — Quer iogurte?
Olhei-a e percebi que equilibrava dois potinhos de iogurte desnatado com a etiqueta do Pink Berry em uma das mãos, que descansava ao lado do corpo. A sombra debaixo da árvore fazia com que Ali parecesse menos pálida, e os cabelos ondulados mais escuros. Hoje ela usava uma saia preta acima dos joelhos, sapatos prateados e uma jaqueta bege por cima de uma blusa branca sem desenhos ou frases. Nada de All Stars ou jeans, como era o estilo usual dela.
— Vou aceitar. — Falei, recebendo de bom grado o copinho que ela me ofereceu.
— Está gelado. Garanto. — Sorriu.
— Não duvido.
Abri o pequeno copo facilmente, logo me deliciando com o conteúdo pastoso dentro dele. Meu estômago já dava indícios de fome quando dei a terceira colherada e me perguntei por que meu pai estava demorando tanto. Byron Montgomery era do tipo pai superprotetor, e não me lembrava da última vez que ele tinha me feito esperar por ele ao sair da escola. Todos os dias, antes mesmo de estar completamente fora do colégio, eu já o avistava no fim do corredor com sua gravata afrouxada e sem o paletó.
— Ei, amigas! — Chamou uma vozinha longe de nós.
— Droga. — Ali resmungou.
Vi Mona Wanderwall se aproximando enquanto acenava freneticamente em nossa direção. Suas tranças balançavam conforme ela se movia, ainda um pouco longe. Mona sempre foi a embaixadora nerd da escola e que aparentava ser a fã número um de Alison, porém esta sempre a desprezou, apelidando-a de Mona Perdedora certo dia. O pior foi que o apelido pegou e desde então ela ficou conhecida assim.
— Vamos sair daqui. — Disse Ali, parecendo estarrecida.
— Mas...
— Amigas, esperem! — Mona gritou, correndo para chegar antes que saíssemos.
Mas era tarde, Ali já empurrava minha cadeira para longe enquanto Mona acelerava o passo. Trepidando pela rua, Alison arrastava minha cadeira cada vez mais rápido, fazendo um frio se colocar na minha barriga. Por um instante, tive medo de brecar em alguma pedra e dar de nariz no asfalto. Ela riu atrás de mim, colocando um dos pés no ferro atrás da cadeira e indo junto comigo pela rua vazia. Sorri também, o medo tinha sumido.
Logo a risada se tornou uma gargalhada conjunta de nós duas. Meu cabelo esvoaçou para frente quando ela freou a cadeira como um carro de corrida e dobrou em um beco aberto entre duas casas circundadas por cercas-vivas que iam até o fim do beco. Ali tirou uma mecha loura que caía sob seus olhos e ergueu os lábios para mim, sorri também. Não sei por quê. Acho que porque era Alison DiLaurentis sorrindo para mim, era difícil não sorrir de volta.
— Ei — começou ofegante —, aquele não é o carro do seu pai? — Apontou o dedo para um carro preto e brilhante estacionado não tão longe de onde estávamos.
— É sim. — Concordei, estranhando.
Mantive meus olhos grudados no vidro traseiro do carro, vendo se meu pai estaria lá dentro. Meu coração se alegrou quando enxerguei seu rosto, mas em seguida murchou quando notei outro rosto também. Uma mulher loura e desconhecida falava alguma coisa para ele, com um sorrisinho no canto do rosto. De repente, meu pai se inclinou na direção dela e a beijou na boca. Um terremoto começou no meu estômago ao ver a cena e eu não pisquei, não respirei, não falei. Vi o rosto de Ali se voltar para mim, mas era como se ela e tudo ao redor fossem um borrão colorido, a única coisa nítida era meu pai beijando aquela desconhecida sem parar, como um vampiro em um pescoço humano; não conseguia largá-la, estava faminto.
Ali agarrou minha mão e nem seus dedos gelados me fizeram piscar ou mover algum músculo, olhei as folhas pelos cantos e abaixo das cercas. Outono. A pior estação do ano a partir de agora, por que foi nela que descobri que meu pai era um traidor.
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