Bad Heroes

11 Pumped Up Kids


Notas iniciais
Aniversário da Spencer, proposta do Ezra, Spoby, Emison... O que nos aguarda neste capítulo? Posso dizer que amei escrevê-lo, apesar de ter demorado um pouco. Leiam e espero que gostem. Se quiserem, podem escutar as músicas citadas no capítulo, apenas para dar um clima especial na leitura.

O dia amanheceu luminoso e azulado, as nuvens brancas e vivas avisavam que não iria chover novamente. O único fator realmente interessante em Rosewood é a capacidade de mudança de clima. Apesar de ainda ser início do outono, a temperatura é inconstante e o frio e a chuva se fazem presentes pelas semanas afora. Não passava das sete e meia da manhã quando Spencer apareceu na minha casa, surpreendo-me. Ela estava incrivelmente feliz, e tudo isso se dava por estar completando dezessete anos hoje. Usava um casaco preto, mostrando sua camiseta branca por baixo, calça jeans escura colada e botas. Sua feição estava tranquila e gentil, enquanto seus olhos possuíam um tom de castanho sereno e calmo, dando-me uma sensação de paz crescente.

— O que vamos fazer para comemorar? — Perguntei quando Spencer, toda alegre, saiu do carro já parado no estacionamento de Rosewood Day.

— Nem eu mesma sei. — Deu de ombros.

Fixei meus olhos nela enquanto ela conferia sua bolsa, certa de que não tinha esquecido nada. Me concentrei para ler sua mente, já que percebi que tinha alguma coisa que ela não estava me contando. Porém, a imagem de Jenna Marshall andando até a entrada impediu que a ideia prosseguisse. Ao seu lado estava Toby, que nos olhou com cara de poucos amigos enquanto andava rente ao corpo de Jenna, com o braço dela entrelaçado no dele. Belisquei Spencer com força para que ela olhasse.

— Mas o que... — Ela estava prestes a me ofender quando viu os dois. Seus olhos murcharam e toda a alegria que se encontrava neles sumiu de repente. — Ela ficou cega. — Finalizou aterrorizada ao ver uma bengala na mão de Jenna, tateando o chão.

— E pelo visto Toby nos odeia. — Falei, vendo os dois finalmente entrarem na escola.

— Isso é uma droga. — Ela fechou a bolsa e começou a caminhar ao meu lado.

— Fizemos algo horrível, Spence. — Falei.

— Jura? Nem tinha percebido. — Olhou para mim como se eu fosse louca.

E lá estava o costumeiro humor instável de Spencer outra vez, fazendo com que ela agisse como uma idiota grosseira o tempo todo.

— Eu já disse o quanto você é chata?

— Desculpe, Em. — Fez um beicinho. — Odeio ter me deixado levar pelas idiotices de Alison.

— O que está feito, está feito. — Falei tremendo um pouco. Aquilo era para soar confiante, mas eu não tinha tanta certeza. — Como iríamos saber que Jenna era meia-irmã de Toby? E que ele ia se encrencar feio? Não temos culpa.

— Vou tentar explicar isso para ele. — Disse enquanto nos aproximávamos de nossos armários. — Se eu contar sobre o que Jenna fez com Aria, talvez ele entenda.

— Tenho certeza que o Toby odeia a Jenna tanto quanto a gente. — Soou uma voz por trás de nós. Logo as mãos geladas de Ali estavam apertando meu ombro por cima da camiseta e meus músculos se contraíram de surpresa.

Era realmente incrível essa capacidade que ela tinha de estar em todos os lugares o tempo inteiro. Lembrava-me muitas vezes de estar conversando com Spencer em nossos armários e Alison aparecia do nada, entrando na conversa com o maior embalo. O pior era que ela sempre sabia do que estávamos falando.

— Viram a Hanna por aí? — Ela me soltou e seguiu entre eu e Spencer.

— Não. — disse Spencer. — Ela não veio com você?

— Se tivesse vindo, eu não estaria perguntando.

Spencer murmurou algo entre os dentes cerrados e olhou de volta para ela.

— Meninas! — Hanna vinha do lado oposto do corredor, gotículas de suor escorriam livres pelo seu rosto. — Estamos com um problemão!

— O que houve? — Ali perguntou.

Sua feição assustada me levou a engolir em seco.

— Jenna ficou realmente cega. E Toby não fala comigo. — Desembuchou num fôlego só.

Ali revirou os olhos.

— Isso não é importante.

— Oi, gente. — Pelo visto Aria também tinha o costume de aparecer do nada.

Imediatamente, Ali saiu do meu lado e foi falar com Aria, conversando baixinho como se dividissem algum segredo. No entanto, Aria parecia abatida, com os olhos sonolentos e vermelhos, olheiras discretas abaixo dos lindos olhos, que pareciam ter perdido seu brilho.

— Está tudo bem com você, Aria? — Descruzei meus braços e me aproximei da cadeira dela.

— Está. — Fechou os olhos por alguns segundos, atraindo a atenção de Hanna e Spencer de imediato.

— Tem certeza? — Spencer perguntou.

— Não. — Aria apertou os olhos grandes como se quisesse evitar as lágrimas presas neles. Meu rosto se fez assustado e preocupado com ela, fazendo-me tocar seu ombro delicadamente.

— Deixem-na. — Ali ordenou severamente com seu maxilar trincado.

— O que...

— Vamos, Aria. Quero falar com você. — Ali interrompeu o protesto de Spencer e agarrou a cadeira de Aria, levando-a embora pelo corredor.

— O que será que aconteceu? — Hanna prolongou.

— Algo grave. Tenho certeza. — disse Spencer.

— Porque não leu a mente dela, Em? — Hanna sugeriu.

Na verdade, a ideia nem percorreu meus aforismos e mesmo se tivesse corrido, eu não teria o feito por achar uma falta de respeito com Aria.

Durante todas as aulas que tivemos em conjunto, Hanna sentou atrás de mim e se manteve ocupada fazendo uma trança delicada no meu cabelo durante quase todas elas. Suas mãos eram quentes e eu tinha a sensação de que ela poderia alisar o meu cabelo como uma prancha de chapinha se quisesse. Essa ação de passar as mãos no meu cabelo me deu sono, me deixando meio grogue por alguns instantes. Do outro lado da sala, Caleb escrevia com uma velocidade alucinante tudo que estava no quadro e de vez em quando olhava para Hanna, bagunçava os cabelos e voltava a escrever enquanto Spencer parecia — incrivelmente — perder o interesse na aula a cada palavra dita pelo professor. Na hora do lanche, as meninas elogiaram minha trança e deram os devidos créditos à Hanna pelo trabalho bem feito.

— Está linda. — disse Ali, apoiando o queixo sobre a mão. Meu rosto deve ter ficado vermelho, mas as meninas nem perceberam, pois alguém coberto por uma jaqueta listrada, que passava pelo jardim, atraiu completamente a atenção de todas.

Spencer estava vidrada na situação e se levantou andando até lá em passos apressados e determinados.

Esse é o Toby. — Hanna disse olhando para Aria, apresentando-o para ela.

— Ele realmente é bonito. — Aria concordou, depois de olhá-lo dos pés a cabeça.

Em seguida, elas não deram muita atenção e começaram a divagar sobre assuntos bobos e banais. De vez em quando, Aria mexia o pé esquerdo levemente para frente e para trás, mas ainda com inegável esforço. Fiquei feliz por ela e sorri, cutucando-a e lhe dizendo que estava progredindo. Enquanto isso, Ali transformava o suco de Hanna em picolé, apenas tocando com o dedo no copo, quando Hanna se distraía queimando pedaços da grama que ela mesma arrancava.

— Não sei se lembra de mim. — Uma voz disse na minha cabeça, soando terrivelmente envergonhada, me fazendo arregalar os olhos. — Mas sou Spencer.

Virei minha cabeça imediatamente para onde Spencer falava com Toby, embaixo de uma árvore grande e sombrosa. Ele olhava para o chão e ela olhava para ele. Mas porque só eu conseguia ouvir? Eles estavam longe da nossa mesa...

Ah! É claro. Os poderes.

— Eu me lembro de você. — Toby disse ainda com os olhos fixos na grama verde, parecia que estava sorrindo. Spencer abriu a boca como se fosse começar mais um de seus típicos discursos, mas nada saiu.

— Hm... — Ela ficou pensativa. — Sinto muito pela sua irmã. — Por um meio segundo, Toby não disse nada e Spencer ficou nervosa. “Agora ele vai me bater.” Ela pensou.

— Ela... Ela vai ficar bem, eu acho. — Toby ficou incerto, coçando a nuca. — Ainda estão tentando descobrir quem fez isso, apesar de a polícia ter certeza que fui eu. — Fiquei encabulada. Então o Toby não sabia que nós tínhamos feito aquilo?

— Isso deve ser muito chato. — Spencer disfarçou.

— Provavelmente é porque acham que eu já fiz isso antes. — A mandíbula dele se contraiu de maneira que seu rosto anguloso ficou ainda mais notável e seus olhos estavam em um tom de azul muito claro.

— E você fez? — Spencer cruzou os braços, como ela sempre fazia quando interrogava alguém.

Você acha que eu fiz isso? — Ele deu um passo a frente, sorrindo como se tudo não passasse de uma brincadeira boba.

— Quem sou eu para julgar?

Os olhos dele se abaixaram, estava pensando. Essa era minha deixa.

— Jenna! — A voz de Toby gritou. Ele corria por um quintal, era noite e a luz das estrelas parecia não chegar onde Toby estava. — Jenna, saia daí! — Ele parou ao pé de uma árvore grande e grossa e olhou para cima, onde estava uma pequena casa de madeira sustentada pelos braços folhosos da árvore. Ele se apoiou na pequena escada e começou a subi-la rapidamente. Ele passou pelo pequeno buraco que dava acesso ao interior da casa, estava cheia de brinquedos em perfeito estado de conservação, sacos de dormir e alguns fogos de artifício. Jenna segurava um sinalizador nas mãos e acendia o pavio com um sorriso esperto nos lábios.

— Vai se ferrar quando eu contar ao papai que você ainda guarda esses fogos, sendo que ele te proibiu! — Ela riu, mas Toby pareceu não ligar, ele se moveu para cima dela, porém ela apontou o sinalizador para ele, fazendo-o parar.

— Jenna, solta isso! — Ele estava suando e já gritava de novo. — Vai se machucar!

Quando pareceu que o sinalizador ia estourar, ela jogou o objeto no chão e ele ficou lá, depois apagou. Jenna sorriu.

— Você é um idiota, Toby! — Deu dois passos na direção do artifício. — Viu? Não aconteceu nada. — Ergueu o pé esquerdo, que estava pronto para pisar no artifício. Toby tremeu.

— Jenna, não! — Gritou, porém ela já estava perto demais quando ele acendeu de novo, trazendo um clarão enorme dentro da casa. Era como se uma estrela estivesse caída sob a terra.

— Emily! — Alguém gritou e só quando espanei os pensamentos de Toby para longe da minha cabeça, percebi que era Hanna. — O sinal já bateu!

Spencer acenava para Toby com um sorrisinho no rosto quando olhei para eles de novo, e era correspondida da mesma maneira. Ela desfilou triunfante até nossa mesa, com seu peculiar ar de garota invencível. Ali ergueu uma sobrancelha.

— O que ele disse?

— Ele não sabe que fomos nós. — Spencer disse gesticulando para onde estávamos.

— Ufa! — Hanna glorificou soando aliviada. Spencer sorriu.

— Nossa! — disse Ali. — Ainda bem, porque uma coisa é ele cegar a irmã, outra coisa é nós cegarmos ela.

Depois das aulas que se passaram, nada de muito relevante sucedeu para que pudesse atrair minha atenção. A não ser o fato de ter visto Toby e Spencer conversando de novo na hora da saída, perto dos armários e o meu concreto desinteresse em procurar pelo livro que o Sr. Gastian havia pedido que lêssemos para realizarmos o trabalho crítico de resenha. Tudo uma grande chatice. Eu já havia lido metade do mesmo livro em um passado distante, apenas para passar o tempo e porque Spencer tinha sugerido tal. Porém, eu gostaria de me lembrar de algumas coisas para não ter que ler o livro outra vez e também para não ter que procurá-lo na biblioteca. Poucos alunos ainda deveriam estar rondando por Rosewood Day há essa hora, já que o horário de aulas já tinha sido encerrado e eu tinha ficado na biblioteca para ver se encontrava algum exemplar de Grandes Expectativas dando sopa pelas prateleiras abarrotadas de livros. Eu e a bibliotecária (uma senhora nos auge de seus setenta e poucos anos com rugas notáveis e um suéter de crochê que me deu calor só de olhar) éramos as únicas presenças no ambiente silencioso, algo que adorei. Sem pensamentos alheios invadindo minha cabeça simultaneamente, que era o que acontecia quando eu ficava perto de muitas pessoas. Sem dores de cabeça. Passei minha mão pela milésima prateleira da biblioteca, percebendo as capas duras e desgastadas dos livros machucarem as pontas dos meus dedos levemente. Tinha encontrado com Caleb na porta da biblioteca, ele estava de saída e o sorriso alegre que dei para ele sumiu no mesmo instante em que vi em suas mãos um exemplar de Grandes Expectativas.

— Provavelmente é o último. — Disse com um sorriso torto nos lábios finos, já que quase todos os alunos já tinham pegado os seus antes de mim. — Desculpe, Em. — Deu três tapinhas no meu ombro antes de afastar enquanto eu ainda praguejava mentalmente a minha falta de sorte. Não queria ter que gastar quarenta e cinco dólares em um livro que eu só leria uma vez.

Dei mais alguns passos para frente, sorrindo de orelha a orelha ao enxergar um livro cinza com uma letra branca em itálico: Grandes Expectativas por Charles Dickens. A emoção foi tanta que quase derrubei os outros livros que estavam em fileira ao seu lado.

Dei um grunhido de satisfação, este sim provavelmente era o último modelo disponível. Estava prestes a sair correndo em direção ao balcão da bibliotecária para reservar o livro quando percebi que não era mais a única aluna presente ali.

— Não sabia que gostava de Dickens. — Disse com os cantos dos lábios erguidos.

— Não gosto. — falei. — Mas você sabe, é para o trabalho.

— Eu já li esse livro várias vezes. — Alison disse enquanto dava passos sorrateiros na minha direção, arrastando os dedos pelos livros na prateleira ao meu lado. — Posso te dar cola se quiser.

Eu nunca tinha imaginado — nem aqui e nem na China — que uma criatura daquelas já tinha lido alguma coisa decente na vida. É, mas você gosta dessa criatura, Emily. Parabéns.

Arqueei uma sobrancelha, duvidando do que ela dissera.

— Sério?

— É um livro de tirar o fôlego. — Sorriu. — Pip fica com a Estella no final. — O sorriso ambíguo que ela mantinha permaneceu em suas feições enquanto eu vagava pelas minhas recordações do livro, lembrando-me dos dois personagens citados por ela. — Quer uma prova? — Continuou depois do meu silêncio. Ela deve ter pensado que continuo hesitando quanto a ela ter realmente lido o tal livro. — "Eu a amei contra a razão, contra a promessa, contra a paz, contra a esperança, contra a felicidade, contra todo o desânimo que poderia ser." – Recitou, e eu senti o poder das palavras úmidas e impregnadas de verdade súbita me envolver numa bolha afetiva. Os passos que ela tinha dado para perto de mim enquanto recitava o lindo trecho haviam cessado, já que ela já tinha alcançado seu objetivo e estava a mínimos centímetros de mim.

Respirei fundo uma vez antes de observar seus ombros desnudos, pois usava apenas uma blusa vermelha de alças, jeans e seus inseparáveis All Stars de cano longo. Fiquei maravilhada quando as pequenas linhas azuis apareceram de repente, iluminadas pelo sol que entrava pela janela de vidro, cintilando a cada centímetro de pele percorrida. Nasciam no pescoço de Alison e iam até o antebraço em seu tom de azul mais vibrante. Acontece quando estão com raiva ou nervosas demais, o stress do dia-a-dia pode ocasionar esse tipo de acontecimento, Ezra havia dito sobre as tais linhas brilhantes que apareciam. Ela estava nervosa? Ler sua mente não estava em questão agora.

— Deveria fazer tranças no cabelo mais vezes. — Tocou minha trança com as pontas dos dedos. Um ar gelado os acompanhava.

Continuei calada, mas sorri desta vez.

— Você já chegou nessa parte do livro? — Ela tornou a falar, apoiando seu braço direito na prateleira ao meu lado e ficando muito perto de mim.

Concordei sem pensar, nem me dado consciência se havia ou não chegado nessa parte. Meus lábios se ergueram num sorriso minúsculo, onde nem me atrevi a mostrar os dentes. Ali também sorriu, depois se inclinou um pouquinho e tocou meus lábios com os seus por um tempo que não consegui calcular. Tinha fechado meus olhos no mesmo instante em que senti sua boca fria na minha e meu coração que estava batendo aos tropeços quase se acabou de vez quando sua mão esquerda segurou a minha mão direita. Seus dedos pareciam cubos de gelo.

Apertei forte o livro entre minha palma e os dedos, até que ela se afastou. Abri os olhos segundos depois para vê-la dar um meio sorriso e apertar ainda mais minha mão.

— Agora você precisa vir comigo. — Disse suavemente. — Ezra quer falar com a gente. — Me puxou para que pudéssemos sair dali e tudo que fiz foi assentir bobamente.

***

O caminho até o laboratório de Ezra não foi muito mais tranquilo porque a picape do pai de Hanna fazia uns barulhos bastante incômodos e tinha momentos em que eu achava que poderia alcançar o teto com os trancos que ela dava nos buracos das ruas. Hanna dirigia mal, dava para notar. No entanto, ela e Ali trataram de nos fazer esquecer as coisas ruins cantando músicas como Pump It do Back Eyed Peas com a maior animação possível, fazendo os motoristas dos demais carros nos olharem com aspectos assustados e alguns até riam. Spencer tentou disfarçar as risadas que dava, mas foi impossível não dar uma gargalhada deliciosa quando Ali colocou a cabeça para fora da janela e começou a cantar loucamente e batucar fortemente na porta da picape. Spencer a puxou de volta para o carro segundos depois, alegando que poderíamos ser presas por perturbação da lei pública enquanto Aria ria silenciosamente no banco de trás.

— Que bom que chegaram! — Ezra juntou as mãos com um sorriso reprimido, como sempre, quando já estávamos dentro de sua sala branca com cheiro de produtos de limpeza. Seu cabelo negro caia em uma onda charmosa por cima da testa, fazendo-o parecer mais jovem. Seu rosto possuía um misto de felicidade e ansiedade colidindo entre si.

Tomara que aceitem. A voz de Ezra preencheu minha cabeça de repente.

— Então — Ali suspirou —, qual é a da parada?

Ezra respirou fundo e fechou os olhos extasiados. Andou até uma mesa e pescou vários jornais e colagens em cadernos.

O que ele está fazendo? Um sussurro entrou pelo meu consciente. Aria estava pensando.

— Bem, como podem ver — Ele disse enquanto passava por nós e distribuía os jornais, como os professores faziam quando entregavam nossos deveres. —, Nova Iorque não é uma cidade muito pacífica.

Olhei o jornal que eu segurava nas mãos e me sobressaltei com a quantidade de manchetes negativas sobre as altas taxas de roubos e mortes na cidade. PREJUÍZO DE MAIS DE DUZENTOS MIL DÓLARES. O BANCO CENTRAL TENTA DECIDIR COMO SANAR A PERDA EM UM ASSALTO A SUA SEDE PRINCIPAL NA CIDADE. Dizia a manchete principal, que estampava a capa do jornal.

— O que isso significa? — Spencer perguntou.

— Vou tentar ser bem direto. — disse Ezra. — Não quero tomar mais do tempo de vocês. — Ele olhou para todas com a mesma ansiedade de segundos atrás, sua voz vacilava, hesitante. — Andei trabalhando em algumas coisas, gostaria que vissem. Sigam-me.

E o fizemos, todas em silêncio absoluto. Novamente, os pensamentos das meninas se embaralhavam na minha cabeça e suas vozes soavam inseguras e perdidas. Eu só não ouvia a voz de Ali, mesmo que ela aparentasse estar pensando, seus prováveis pensamentos não chegavam até mim. Ezra andava rápido pelos corredores vazios do prédio, me perguntei se ele tinha alugado esse lugar só para fazer seus experimentos de cientista e se ali não tinham outras pessoas.

Três corredores depois, entramos numa sala depois de as digitais de Ezra serem reconhecidas por uma aparelho embutido na porta. Essa sala era bem diferente da outra, e ao invés de frascos de formatos diversos com líquidos secretos dentro, havia ali vários computadores e todos realizavam funções diferentes. Vi lá imagens de todas as partes do mundo e todos seus desastres naturais e os causados pelos seres humanos. Era como se Ezra estivesse vigiando o mundo.

— O que você está fazendo? — Hanna perguntou quando ele começou a digitar furiosamente em um teclado. Mas não foi preciso que ele respondesse, pois a parede se abriu no meio, assim como nossas bocas, e como portas de correr deslizaram para os lados revelando manequins vestidos em trajes futurísticos.

— Estive fazendo isso, Hanna. — Ezra sorriu agarrado à sua empolgação enquanto a sensação de estar em um sonho esquisito e surreal crescia sem parar dentro de mim. Spencer estava com uma expressão confusa, assustada e curiosa; Aria tinha esbugalhado os olhos verdes cansados e Hanna tinha aberto a boca enquanto Ali sorriu contidamente. Eu quis sair correndo.

— O que é isso? — Spencer apertou o jornal que segurava nas mãos e deu um passo na direção dele.

— Criei essas “roupas” com uma única intenção: ajudar. — Começou com os olhos brilhando enquanto mirava através do vidro que guardava suas criações. — Cada uma delas foi adaptada de acordo com quem iria usá-las. — Estremeci imediatamente assim que ele terminou de falar. — Aquela, por exemplo, pode pegar fogo e isso não vai trazer dano algum à sua estrutura, porque ela foi projetada especialmente para isso.

Ele apontou uma das cinco que estavam lá, era um macacão justo de um vermelho escuro e aparentava ter um tecido de couro. Seu revestimento começava nos pés e terminava no pescoço, luvas pretas, botas de salto não muito fino, tudo incluso. Eu não podia negar que era realmente muito bonito e que parecia ter uma silhueta feminina impecável.

— Aquela outra se transforma em gelo caso a pessoa que a usa apresentar as células nde nitrogênio no tecido epitelial. — O traje que ele apontou dessa vez era azul-escuro, da cor do oceano e tinha os mesmos acessórios do anterior e também a mesma forma. Todos eram iguais, a não ser pelas funções e pelas “pessoas” que poderiam usá-los. — Aquela outra pode se dissolver em qualquer líquido, água, ácido, refrigerante, qualquer coisa desde que seja líquida. — Seu dedo se entortou na direção da roupa azul-marinho. — Esta aqui é a minha favorita. Ela pode suportar as mais altas altitudes, sem contar que é revestida com protetores corporais no caso de choques. — Apresentou o traje amarelo, depois andou para perto de mim com se quisesse que eu prestasse atenção no que ele iria dizer a seguir e olhou para o traje preto como asas de corvo. — Esta possui botas voadoras, com propulsores que possibilitam um voo seguro, além de protetores cerebrais, para que a mente esteja sempre em segurança.

Depois disso fez-se um silêncio agoniante na sala, dois minutos e não dissemos nada e ele pareceu sucumbir ao desespero.

Por favor, digam alguma coisa. Ezra pedia intelectualmente, até que Spencer deu um passo a diante e ficou de frente para o traje azul-marinho que se dissolvia em líquido, sendo imitada por nós. Hanna ficou a frente do traje vermelho; Aria do amarelo; Alison do azul-escuro e eu me pus à frente do preto. Ezra sorriu.

— O que isso quer dizer? — Spencer sussurrou num fiapo de voz, olhando-o de soslaio.

— Olhe o jornal em suas mãos, Spencer. — Pediu. — O mundo precisa de ajuda!

— Ainda não entendi o que nós temos a ver com isso. — Hanna protestou.

— Vocês têm tudo a ver, Hanna! — Ele vibrou. — Vocês podem ajudar o mundo, ou pelo menos parte dele.

— Isso é loucura... — Falei negando com a cabeça.

— Não, Emily, é brilhante! — Seus olhos faiscavam de empolgação. — Pensem comigo, cinco garotas com superpoderes salvando o mundo, não é incrível?

— Eu estou dentro! — Ali se moveu para perto de nós.

— Eu também. — Hanna anunciou alegre.

— Nós nem sabemos lutar direito, Ezra! — Spencer disse com toda sua sensatez visivelmente afetada. — Somos cinco garotas, somos cinco adolescentes! Nem sabemos nos defender direito e você quer que salvemos o mundo...

— Terão treinamento para isso. — Ezra insistiu, entortando a cabeça para capturar o olhar dela.

— E como vai fazer isso? — Descruzei meus braços, que estavam arrepiados com toda aquela conversa.

— Contratei um especialista na arte da luta e movimentos rápidos. — Ele disse simples e não pude deixar de idealizar a quanto tempo ele planejava isso. Dito isso, um barulho ecoou por todo recinto, o som de algo caindo apareceu e por trás dos computadores eu vi um corpo se agachar e pegar um telefone celular no chão. O garoto de olhos azuis nos olhou assustado e perplexo, apertando o celular que tinha apanhando nas mãos. Tinha um cabelo grande e liso que caia no rosto, usava uma camisa vermelha e uma jaqueta de moletom preta, que contrastava com sua pele dourada. Eu com certeza o conhecia. — Este é Toby Cavanaugh. — Ezra disse.

Toby? — Alison praticamente cuspiu o nome dele.

— Elas são as meninas que você falou? — Toby dirigiu a palavra a Ezra, que assentiu.

— Vocês se conhecem? — Ezra juntou o cenho.

— Toby é um velho amigo nosso. — Hanna olhou Ali de esguelha.

— Isso é ótimo. Vai ser mais fácil na hora de treinar. — Disse Ezra, contente.

Spencer começou seu típico interrogatório com Ezra, sendo apoiada por mim, Aria e Hanna enquanto Ali tinha puxado Toby para um canto da sala e cochichava algo com ele, depois olhavam para a nossa direção. Era estranho olhar para os olhos azuis fulgentes de Ali depois do que ela tinha feito mais cedo na biblioteca, meu pulso ficava agitado quando isso acontecia enquanto para ela tudo parecia normal, exceto pelos olhares e sorrisos que ela tinha me lançado na picape do pai de Hanna e nas vezes que sua mão tocou a minha.

— Então? — Ezra perguntou. — Aceitam a minha proposta?

Pensei a respeito por alguns segundos, idealizando nós cinco naquelas roupinhas apertadas e salvando as pessoas, sendo reconhecidas mundialmente... Mas isso ainda era surreal demais, pelo menos para mim, me imaginar fazendo coisas arriscadas. Essa não sou eu. A verdadeira Emily Fields nunca faria uma coisa dessas. Porém, as outras pareciam comovidas com a proposta. Aria exibia um sorrisinho e Hanna comtemplava os trajes a cada cinco segundos com os olhos brilhando. Toby tinha saído de mansinho, depois de muito cochicho com Alison, e sob o olhar desconfiado de Spencer, ele saiu pela porta em passos articulados e mansos.

Pensei, pensei, pensei... Oh, como pensei. Remeti toda minha vida, fato atrás de fato, minha família, minhas amigas... Olhei o rosto de Spencer e ela me assentiu, cabia somente a eu decidir o que eu queria. Soube no momento em que olhei para tela de um dos computadores e vi uma criança sob as mãos de um ladrão, ela chorava e ele agarrava forte a arma que tinha o cano virado sobre a cabeça do pobre menino de pele escura, no ímpeto de atirar na cabecinha infundada, inocente, alheia às podridões do mundo. Eu soube naquele momento que o mundo precisava da gente.

— Quando começamos com os treinos?

***

— Spencer, abra o porta-luvas. — Ali pediu enquanto passávamos pela April Rose Grille, mais um menos uma hora depois da visita ao laboratório de Ezra. Alison dirigia mais moderadamente dessa vez e Spencer estava ao seu lado enquanto Aria, Hanna e eu ficamos no banco de trás.

Spencer encrespou o cenho e fez o que ela pediu, retirando do porta-luvas uma garrafa de Smirnoff com o rótulo novo. Avaliei e percebi que tinha sido comprada a pelo menos dois dias atrás. Nesse mesmo instante, nossa motorista esticou o braço e aumentou o volume do rádio no máximo quando reconheceu 50 Ways To Say Goodbye da banda Train tocando. A música era animante.

— Ali, mas o que...

— Abre aí, Spence. — Foi interrompida por nossa motorista. — Você bebe primeiro.

— Eu não vou fazer isso.

Eu pensei que ela não ia fazer mesmo, mas fez. Afinal, ela não resistiu quando entoamos uma torcida para que ela bebesse e virou a garrafa na boca, engasgando quando terminou o primeiro gole. E agora, a garrafa estava nas mãos de Ali e ela segurava o volante só com uma mão, eu conseguia ouvir os gritos de Spencer e Hanna na caçamba da picape, estavam com os braços abertos e diziam que nada as parariam hoje. Sim, elas estavam na carroça da picape gritando com os braços abertos e os cabelos voando na cara.

Eu jamais acreditaria se alguém me contasse que as duas passaram pela janela, se penduraram na lateral do carro e pularam para a caçamba com a picape em movimento. Eu não me atrevi a fazer o mesmo, apesar de também estar meio loucona depois de descobrir outra garrafa de Gin e outra de Smirnoff no porta-luvas e me acabar na bebida junto com Aria e Alison.

Passamos pelo túnel vazio que levava ao Parque de Rosewood que ficava ao lado da Pista de Patinação no Gelo, Ali acelerou o carro bruscamente e eu ri tanto que quase me urinei com Aria ao meu lado. Ela se moveu para perto da janela, arrastando as pernas mais agilmente até ter sua cabeça para fora da vidraça. Infelizmente, o seu estado de demência mental por conta do álcool não a fez perceber que estava se apoiando na alavanca que abria a porta da picape e consequentemente a porta se afastou.

E com Lonely Boy do The Black Keys estourando no refrão contagiante e as meninas cantando junto na caçamba do carro e Ali gritando feito uma maluca no volante, Aria quase caiu do carro quando a porta se abriu, porém, mesmo com meus sentidos mais lentos do que o normal, consegui segurá-la pela jaqueta e puxei-a de volta para o carro, que permaneceu com a porta escancarada até Ali ultrapassar a cerca de proteção do Parque — que já estava fechado — e frear abruptamente na grama verde, fazendo um baita estrago.

Day Dreaming do Paramore tocava quando saltamos da picape, todas nós, inclusive Aria, que apesar de se mover com o meu auxílio segurando seus braços, andava lentamente para perto de uma árvore. As garrafas estavam vazias e jogadas na grama do parque quando nos deitamos no chão fofo e confortável. E apesar de correr o risco de ser presa e não ter a mínima consciência do que estava fazendo, me deixei levar pelo momento inusitado, o qual eu nunca havia experimentado nada igual. Começamos a rir, nos contorcendo em gargalhadas escandalosas de bêbadas. Entretanto, um vozerio me chamou atenção, uma voz conhecida e já muito ouvida hoje dizia alguma coisa na minha cabeça, mas meu atual estado de existência não me deixava reconhecê-la. Só vim saber que se tratava de Toby quando o vi andar até nós com seus olhos azuis no ápice.

— E aí, Toby... — Ali engrolou ao meu lado.

— Oi... — Ele entortou o nariz. — Vocês estão bem? O que estão fazendo?

— Comemorando! — Alison exclamou.

Ele apertou a alça da mochila velha que carregava nas costas e sorriu.

— Spencer, posso falar com você? — Perguntou. — A sós?

Demos risadinhas e nos sentamos junto com Spencer na grama, empurramos seu ombro até que ela se levantasse e seguisse ao lado de Toby para longe de nós.

Deitamos de novo, o parque estava escuro, estava fumacento, mas lindo, sendo iluminado somente pela lua cheia. De repente, Aria levantou as duas pernas para cima e contou até sessenta e cinco, depois as abaixou e começou a rir. Batemos palmas, mas as mãos de Hanna entraram em chamas e nós rimos de novo. Ironicamente, Firework da Katy Perry, começou a estimular na picape estacionada perto da árvore, Ali, no entanto, segurou forte nos pulsos da garota ao seu lado e as chamas foram diminuindo até apagarem.

— O que eu perdi? — Spencer perguntou, já se deitando de novo na grama, do meu lado direito. Estávamos Aria, Hanna, Alison, eu e Spencer deitadas uma ao lado da outra, respectivamente.

— Nada. — Disse Hanna. — O que nós perdemos?

— Ele me deu um presente de aniversário. — Ela disse, erguendo os braços para cima para que víssemos o recipiente de vidro que ela tinha nas mãos.

— O que é isso? — Hanna indagou.

— É um aquário.

— Porque ele te deu um aquário vazio? — Hanna voltou a perguntar.

Olhei para Spencer, ela parecia imensamente feliz e seus olhos castanhos vagavam pelas estrelas que enfeitavam o céu com a cor do oceano. Seus devaneios me pareceram convidativos o suficiente para que minha curiosidade vencesse a minha razão e eu os lesse.

— Tudo bem com você? — Toby perguntou.

— Claro. — ela disse. — Estou um pouco bêbada, mas o efeito já está passando por causa, você sabe, dos poderes. Ezra disse que nenhuma substância prejudicial ao nosso juízo fica por muito tempo no organismo.

— Isso é bom. — Os dois partilharam um sorriso tímido por um tempo que me pareceu curto, até Toby voltar a articular. — Eu tenho uma coisa para você.

— O que é? — Indagou curiosa, ficando nas pontas dos pés cobertos pela sapatilha marrom.

Toby remexeu a mochila hesitante, suas mãos tremiam. De lá ele tirou um vaso de vidro e a empolgação de Spencer evaporou, mas seu sorriso forçado não saiu do rosto.

— Um aquário! — fingiu felicidade. — Isso é tão gentil...

— Não conheço você direito, mas sei que é uma pessoa diferente. — ele começou. — Vejo no modo como age, no jeito que fala. E diferente é bom. Eu gosto do diferente. — Fez uma pausa. — Porém, eu não soube o que comprar para você, me desculpe.

Ele abaixou a cabeça, envergonhado.

— Ei. — Ela pôs o dedo indicador no queixo furado dele e o puxou para a olhasse nos olhos. — Agora só precisamos arrumar um peixe. — Os dois riram e Toby mostrou os dentes num sorriso adorável.

Ele é lindo quando sorri, eu sabia disso, ela pensou.

— Tome. — Ele estendeu o aquário na direção dela, mas o efeito do álcool ainda não tinha passado e ela quase derrubou o presente. Toby foi rápido e pegou o aquário antes que alcançasse o chão. Suas mãos se tocaram e Spencer sorriu, toda sua empolgação havia retornado com força total. — Feliz aniversário, Spencer. — Ele sorriu também.

— Ali, quando Toby perguntou o que estávamos fazendo, você disse que estávamos comemorando. — Aria levantou a cabeça e se apoiou nos cotovelos para olhá-la, fazendo com que as lembranças de Spencer voassem para longe da minha visão. — Porque estamos comemorando?

Aria tinha tirado as palavras da minha boca.

Temos que comemorar, Pequena Grande Aria. — Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Hoje faz dezessete anos que o ser mais irritante da terra nasceu. — Ela sorriu desafiadora e Spencer ergueu a cabeça para fitá-la também. — Não é, Spence?

A única coisa que Spencer fez foi sorrir abertamente junto com Ali, depois deitou a cabeça de novo na grama, contornou a borda do aquário com os dedos e relaxou, mas o sorriso de vivacidade não saiu do seu rosto até o fim daquela noite.

Notas finais
Gostaram? No próximo tem Haleb. E mais adiante, a primeira missão das meninas. Vocês não perdem por esperar, caros leitores!