Bad Girl II

19 Capítulo 18


Acordei com minha cabeça latejando tanto, que pensava que fosse explodir a qualquer segundo. Abri meus olhos lentamente, com medo da claridade machucar minha visão, e após alguns instantes consegui me adaptar à luminosidade no quarto. Ergui meu corpo um pouco, em um esforço para me levantar, mas parei abruptamente quando senti algo quente encostado em mim. Engoli em seco e virei a cabeça para o lado, pegando o vislumbre de uma mão. Uma mão masculina.

Merda! Que diabos eu fiz?

A última coisa que me lembrava da noite passada era de estar dançando com Drew depois de tomar a quinta dose de whisky. Não era para as coisas terem chegado àquele ponto, eu não queria ir para cama com ele. Não queria mesmo! Era para ser só mais uma provocação para ver se o Could acordava e voltava para mim, nada mais que isso. No entanto, veja onde minha estupidez me levou! Eu havia ido para cama com um cara que, fora o nome, era um desconhecido para mim. Agora que Could nunca mais iria querer algo comigo. Parecia que eu tinha a capacidade épica para arruinar as coisas.

Com muito cuidado e bem devagar, me afastei do corpo ao meu lado, e, fazendo o máximo de silêncio possível, me levantei da cama. O fato de ainda estar de lingerie não me passou despercebido. Será que, no fim das contas, eu havia apagado antes que rolasse qualquer coisa? Esperava que sim, mesmo que isso não fosse mudar o fato de eu ter trazido um desconhecido para a casa da Shantaw.

Entrei no banheiro e escovei os dentes duas vezes, depois entrei debaixo do chuveiro e deixei que a água gelada lavasse minha ressaca. Fazia tempos que eu não bebia daquele jeito, e não pretendia mais repetir. Fechei a torneira e abri a porta do box, vestindo um roupão em seguida. Eu não iria trocar de roupa agora, não se isso significava ter de encarar Drew dormindo na minha cama.

Saí do banheiro de fininho e, sem olhar para trás, abri a porta do quarto. Encontrei Shantaw na cozinha tomando café com um sorriso no rosto. Provavelmente ela não sabia o que eu aprontara ontem, porque a expressão dela seria outra se soubesse.

— Noite longa? — Perguntou, após depositar sua xícara na bancada.

— Nem me fale. — Resmunguei, indo até o armário e pegando uma xícara para mim. Em seguida, abri a gaveta de remédios e peguei duas aspirinas. A dor de cabeça estava piorando gradativamente, em vez de melhorar depois do banho. Servi-me de café e tomei um gole junto com as aspirinas.

— Então as coisas não estão bem?

— Péssimas — disse, sentando-me em frente a ela. — Olha, Shaw, eu preciso te pedir desculpas, porque violei uma das regras do apartamento ontem.

— Qual delas? — Ela questionou com um olhar estranho passando por seu rosto.

Suspirei pesadamente, antes de falar. Depois que pronunciasse aquilo se tornaria real, porque eu estaria admitindo que realmente aconteceu.

— Eu trouxe um desconhecido para casa. — Minha voz soou sofrida até para meus próprios ouvidos.

— O quê?! — Shaw sobressaltou-se. Eu sabia que isso ia acontecer. — Você disse um... desconhecido?

— Sim — falei, com culpa. — O Drew ainda está no meu quarto, a propósito.

— Drew? O cara com quem você estava dançando na boate? — Por um segundo eu cheguei a me perguntar se os olhos dela iriam saltar para fora do rosto, tamanha foi sua expressão de susto. Shantaw havia voltado para me pegar depois de eu ter demorado para aparecer, mas eu já estava acompanhada e acabei apresentando Drew a ela. — Você dormiu com ele?!

— Na verdade, eu não tenho certeza do que realmente aconteceu — falei cabisbaixa. — A última coisa que eu me lembro foi de estar dançando com ele, e hoje de manhã quando acordei notei que havia outra pessoa na cama. Eu não tive nem coragem de olhar para ele. — Admiti, envergonhada.

Um sorriso se espalhou por seu rosto, e eu estranhei.

— Você sabe, Anika, que não pode fugir de encará-lo, não é? E como você não tem certeza do que aconteceu? Mesmo sem se lembrar, seu estado quando acordou deve ter denunciado, não?

Olhei para baixo, para minha xícara de café praticamente intocado, e que agora deveria estar frio. Qualquer coisa para fugir do escrutínio de Shantaw.

— Bem... eu ainda estava usando calcinha e sutiã, então pode ser que eu tenha adormecido antes de... você sabe, rolar alguma coisa.

— Pode ser, mas isso não garante nada. No calor do momento, quem sabe o que pode ter acontecido? Umas pecinhas de roupa não iam ser impedimento para... você sabe, rolar alguma coisa. — Notei o tom divertido em sua voz e aquilo me irritou. Não havia nada nem remotamente engraçado naquela situação.

— Shantaw, você está rindo às minhas custas? O que há de engraçado nesta situação? Porque eu, sinceramente, não consigo encontrar nada! — Falei sem conter o ultraje em minha voz.

— Calma, Anika – ela ergueu as duas mãos. – Eu não estou rindo de você, juro. É que o modo todo nervoso como veio falar comigo, bem... foi meio divertido. Parece até que estava com medo de mim.

— Bem, você é assustadora, às vezes.

— É claro que sou – agora sim ela riu, abertamente. – Quero ser uma juíza bem intimadora um dia.

— Está no caminho certo – refutei.

— Certo, agora que já tiramos isso do caminho, que tal voltar para o seu quarto e tirar o Drew de lá? Como você mesma disse, violou uma das regras do apartamento, então trate de colocá-lo para fora daqui.

Suspirei pesadamente. Droga! Eu não queria ter que enfrentar todo esse negócio da manhã seguinte. Que situação constrangedora!

— Já estou indo — resmunguei.

Levantei-me da cadeira e me obriguei a colocar um pé na frente do outro em direção ao meu quarto. Hesitei por alguns instantes em frente a porta antes de abri-la, mas quando finalmente fiz isso quase tive um troço ali mesmo.

Não era Drew em minha cama, era Could.

Pisquei algumas vezes, para ter certeza de que o que estava vendo era real e não uma ilusão criada por minha mente. Ele ainda continuava lá, eu só não entendia como.

Fechei a porta atrás de mim, decidida a tirar esta história a limpo. Could estava dançando com outra mulher, passou um bom tempo com ela antes de eu aceitar ir pra pista de dança com Drew, e esta era minha última lembrança da noite passada. Então, como chegamos a situação atual?

— Acorda, Could! – Puxei o lençol que o cobria, e ele rolou de lado, cobrindo os olhos. – Could! – Bati em seu pé.

— Tô acordado, mas que droga! – Sua voz saiu abafada por causa do travesseiro em que escondia o rosto.

— Será que dá pra você levantar? Nós precisamos conversar. – Apertei as mãos em punhos, tamanha a vontade de sacolejá-lo para que saísse logo daquela cama e esclarecesse minhas dúvidas. Nem dor de cabeça eu estava sentindo mais.

— É muita irritação para uma pessoa só a essa hora da manhã. – Ele se sentou, encostando-se na cabeceira da cama e cruzando os braços sobre o peitoral nu. Foi preciso muita força de vontade para não ficar encarando seu corpo, coberto apenas por cueca boxer preta. Mas como o assunto era sério, não podia permitir que houvesse distrações.

Cruzei os braços sobre os seios, adotando uma posição impaciente.

— Eu vou ser direta, para tirar isso da minha consciência. Nós transamos?

Could começou a rir. Descontroladamente. Eu não via nada de engraçado na pergunta que acabara de fazer. Será que todos haviam tirado o dia para rir às minhas custas? Primeiro Shantaw, agora Could. Isso já estava começando a me irritar.

— Por acaso, eu falei algo engraçado, Could Montgomery? – Perguntei, aborrecida.

— Não, só... – ele disse enquanto ia parando de rir – só que você precisava ter se ouvido, Anika! Pra que tanto medo?

— Responda de uma vez!

— Fique calma, não rolou nada.

Foi como se um peso houvesse sido retirado de meus ombros. Caí sentada na beirada da cama e ele se aproximou de mim, colocando as mãos em meus ombros.

— O que aconteceu na noite passada, Could?

— Qual a sua última lembrança de ontem?

— Eu lembro de estar na pista de dança com o Drew... – Ele apertou meus ombros com força. – Ai! – Virei-me e bati em seu braço. – Dá para explicar o que foi isso?

— Eu ainda estou com raiva de você por ter tentado me fazer ciúmes com aquele cara.

— Ah, é? E você, dançando com aquela... aquela baranga?! – Levantei da cama, já me exaltando só de pensar que ontem ele estava com outra e agora estava comigo. O que me levava a questão que martelava em minha cabeça: como Could tinha vindo parar aqui?

— Ah, então eu consegui te deixar com ciúmes? – Perguntou com um sorrisinho cínico. Minha vontade de esbofeteá-lo só aumentou.

— Você é um idiota, e eu quero você fora daqui! – Apontei para a porta do quarto. – Agora!

Could não se moveu do lugar em que estava. Comecei a ferver de raiva. Ele havia torrado minha paciência. Que se dane se eu o amo!

— Eu disse para você sair – falei entredentes.

— E eu não vou sair daqui, não enquanto não resolvermos as questões que temos inacabadas. – Estreitei meus olhos e avancei em sua direção, determinada a tirá-lo da cama eu mesma, só que não previ que ele poderia usar isso contra mim e me prender lá.

— Me solte! – Me debati, mas, no fundo, não estava lutando de verdade. Meu corpo aos poucos estava se derretendo ao calor do seu.

— É isso mesmo o que você quer? – Não respondi nada, fui traída por minha mente distraída com seu corpo seminu.

— Eu só quero saber como chegamos nesta situação. – Falei quando consegui conectar minha boca e minha mente. – E nem venha com nenhuma insinuação!

— Eu não ia dizer nada de mais.

— É sério, Could, quero que você me solte. Precisamos mesmo conversar.

Ele suspirou, enquanto rolava para o lado, deixando-me livre.

— Eu sei que temos que conversar. Dessa vez não vamos deixar nada de fora. Mas não quero que seja aqui. Será que podemos ir pro meu apartamento?

Também não queria ter aquela conversa sob o teto de Shantaw. Queria poder gritar e esbofeteá-lo se precisasse sem me preocupar com alguém nos ouvindo.

— Só não irei me opor a isso porque não quero incomodar a Shantaw ainda mais. – Falei, já caminhando para o banheiro. – Você pode se trocar e ir na frente, eu chegarei logo depois.

— Nós não vamos juntos?

— Não. Quero ter a liberdade de sair na hora que eu quiser. – Não dei a oportunidade de ele dizer mais nada, pois fechei a porta, trancando-a.

Fiquei lá dentro tempo suficiente para ter certeza de que quando saísse não o encontraria mais no quarto. Sim, eu precisava me preparar mais antes de enfrentá-lo novamente. A conversa que teríamos seria decisiva. Ou nos uniria ou separaria definitivamente, pois sinceramente eu não estava a fim de jogos, não com ele. E acho que com ninguém mais. A Anika jogadora definitivamente havia se aposentado.

— E aí, como foram as coisas? – Shaw me abordou assim que entrei no corredor. Seus olhos brilhavam com expectativa pelo que eu ia dizer. Era quase como se ela soubesse que não era Drew que estava no meu quarto... Espere aí, será que este tempo todo ela sabia que era Could que estava lá? Agora fazia sentido seu sorrisinho de mais cedo.

— Shaw, eu não acredito que você sabia que era o Could e me deixou acreditar que eu tinha trazido o Drew para casa! – Shantaw deve ter percebido que minha raiva era real, pois o sorriso em seu rosto escorregou e ela recuou um passo para longe de mim.

— Bem...

— Estou esperando uma explicação.

— Vocês dois ainda não conversaram? – Ela estava tentando mudar o foco da conversa para mim? Sério?

— Não tente me enrolar, Shantaw Anderson!

— Oh, droga, quando você me chama assim é porque o negócio é sério. – Ela suspirou. – Desculpa, Anika, mas quando te vi agindo toda culpada, pensando ter trazido um desconhecido pra casa, não tive coragem de falar, quis deixar que descobrisse sozinha.

— Grande amiga você é! – Exclamei, indo em direção à entrada do apartamento. Parecia uma cena de novela mexicana, bastava que eu batesse a porta com força ao sair e o drama estaria completo.

— Espere um pouco, Anika! – Ela veio atrás de mim.

— Shaw, eu estou com a cabeça quente agora. Vou conversar com o Could e esclarecer as coisas, já que não tenho a mínima ideia de como diabos ele veio parar aqui. Depois conversamos, ok?

— Tudo bem – cedeu e soltou a porta que estivera segurando na esperança de me impedir de sair.

*** * ***

Meu estômago estava agitado, minhas mãos, suando. Estar nervosa era uma porcaria. Era apenas uma conversa. Nada demais. Apenas uma conversa com um cara que eu já tinha transado. Que diabos importava se essa era a maior aposta que eu já tinha feito até agora? Coração, quem ligava para isso? Mas que droga, esses pensamentos estavam me deixando mais nervosa ainda. Porcaria!

Respirei fundo duas vezes e limpei as mãos nas laterais da calça jeans que estava vestindo. Isso estava me lembrando da noite no hotel, quando tudo foi por água abaixo. E se hoje também desse errado?

Depois de deliberar e me torturar por mais alguns segundos, resolvi, enfim, tocar a campainha do apartamento. Se desse tudo errado eu ainda poderia mandá-lo se ferrar e afogar minhas mágoas com uma boa garrafa de whisky. Claro que trancada em meu quarto, sozinha e longe de qualquer meio de comunicação, para evitar fazer alguma burrada. De erros eu já estava cheia, principalmente bêbados. Minha cota deles havia extrapolada três anos atrás e eu não pretendia repetir a performance. Nunca. Jamais.

— Oi – Could disse ao abrir a porta.

— Oi – falei e me forcei a dar um meio sorriso.

Ele abriu passagem para que eu entrasse no apartamento, e dessa vez fui capaz de observá-lo com mais clareza – as paredes pintadas em um tom claro, os móveis bem dispostos pelo cômodo, onde predominava a cor preta -, já que da outra vez em que estive aqui não estava em meu melhor estado. Não que agora estivesse bem, só que eram estados de ânimo completamente diferentes.

Naquela noite, eu estava fragilizada, havia sido atacada tanto fisicamente quanto mentalmente, pois, como se não bastasse quase ter meu corpo violado, memórias antigas e dolorosas também ressurgiram naquele momento. Hoje, eu estava assustada, sim, mas de um modo distinto daquele que experimentara antes, uma vez que não se tratava de algo que temesse com a certeza de que iria me prejudicar. O que me assustava era a incerteza, não saber o que resultaria dessa conversa entre nós dois, apesar de ter esperança de que fosse algo positivo. Mas a esperança era um sentimento ignorante e impotente; ter esperança era esperar e não fazer nada para que aquilo se concretizasse, crendo que se determinadas condições forem favoráveis, irá se realizar. E eu odiava esperar. Preferiria mil vezes agir logo de cara e ver as consequências depois. No entanto, com relação a Could eu me sentia paralisada, com medo de dar um passo em falso. Por minha culpa já tínhamos nos separado uma vez, não queria repetir a dose.

— Sabe, você fica encantadora toda nervosinha assim – ele sussurrou em meu ouvido ao colocar as mãos em meus ombros. Engoli em seco, tentando ignorar a reação física em meu corpo pelo simples fato de ele estar me tocando.

— Está transparecendo tanto assim? – Questionei, virando-me para encará-lo. Era hora de deixar as muralhas ruírem.

— Não, para uma pessoa que não te conhece bem você pareceria natural, alguém que não está com nenhuma expectativa. Só que eu te conheço bem e aprendi a ler você.

Respirei fundo e mordi o lábio inferior, sem saber bem o que dizer. Toda minha experiência com o sexo oposto parecia não servir de nada neste momento.

— Acho melhor nos sentarmos – Could indicou o sofá com um gesto de cabeça.

— Err... também acho melhor – Essa minha falta de articulação estava me dando nos nervos! Eu parecia uma colegial falando pela primeira vez com o cara que gosta. Caminhei em direção ao sofá e me sentei um pouco mais afastada de onde ele se sentara. – Esse nervosismo é uma droga! – Murmurei depois de pensar em dezenas maneiras de iniciar essa conversa e não conseguir uma que fosse boa o bastante.

— Ah, deve ser mesmo. Principalmente para você, que odeia deixar transparecer suas emoções. – Que droga foi essa? Could do nada resolveu me atacar com um comentário ácido?!

Então eu percebi. Ele estava me dando uma alternativa. Could sabia que eu agia melhor quando estava com raiva; provocando e sendo provocada. A maior parte de nossas interações havia sido assim.

— Funcionou muito bem até agora! – Retruquei.

— Pode até ser, mas talvez nem sempre vá funcionar.

— Disso, cuido eu. – Rebati, a chama da impertinência crescendo em mim. Enfim conseguira voltar a estar no domínio de mim mesma. – Mas não foi para falar do meu modo de ser que vim até aqui. Temos questões a resolver, e algo está me inquietando desde que te vi na minha cama é como você foi parar lá. Me diga o que aconteceu, Could, porque eu não lembro.

Ele suspirou pesadamente.

— Nós dois erramos na noite passada ao usarmos outras pessoas para causarmos ciúmes um no outro. Você sabe disso, certo?

— Sim, eu sei. Mas foi você quem começou, eu apenas paguei na mesma moeda. Queria que você se sentisse da mesma forma que eu, ao vê-lo dançando com aquela lá.

— E eu sou o primeiro a admitir que errei. Mas, depois de você ter ignorado minhas tentativas de fazer contato, achei que me ver com outra surtiria algum efeito.

— E o que você queria que eu fizesse?! – Me irritei. Só faltava ele pensar que eu daria uma de mulher das cavernas e partiria para briga com a outra. – Eu já tinha te ignorado por duas semanas, não tinha direito nenhum de tentar impedir que seguisse em frente. – Não importava o quanto isso me machucasse.

— A Anika que conheci jamais se conformaria assim. Você me afastou de uma mulher em uma boate antes, lembra? Naquela época apenas movida por seu jogo. Por que não fez nada agora que havia sentimento, algo verdadeiro pelo que lutar?

— Porque eu não achava que te merecia! – Gritei, me erguendo, agitada, do sofá. Ele finalmente me fizera admitir o que estava enlatado em minha garganta. – Eu fiz você sofrer, Could. Te envolvi em um joguinho sórdido, para que ficasse no fundo do poço, e consegui. Pretendia fazer o mesmo com Will, mas não deu certo. Justo com ele, que merecia de verdade sofrer, principalmente em minhas mãos.

A sede de vingança outrora adormecida, ainda residia em meu interior. Eu a sentia querendo reviver, como um vulcão há anos extinto prestes a voltar à atividade.

— Isso é algo que nunca entendi. Me diga agora, por que, Anika? Por que você começou a fazer esses joguinhos, e por que Will era o principal a sofrer em suas mãos?

— Porque foi esse idiota quem me fez iniciar tudo isso! – Admiti. – Foi por culpa do Will que me tornei esse ser desprezível, que apenas queria ver o sofrimento dos homens.

— Anika, querida, como pode o Will ser o causador de tudo isto? Você não o conheceu a poucos meses, assim como os outros com quem interagiu? – A confusão era óbvia em seu rosto. Tadinho, veja só em que ninho de vespas resolvera se meter!

— Não, Could, eu não o conheci agora – respondi, pouco antes de me deixar cair sentada no sofá. – Will quebrou meu coração cinco anos atrás. Desde então, jurei fazer com outros homens o que ele fez comigo, aperfeiçoando minha técnica, para que ele pudesse experimentar do próprio veneno depois. E o idiota nem sequer imaginava que eu era a mesma garota que ele humilhou! Aquele babaca! – Senti uma lágrima descer por meu rosto, e a limpei rapidamente, com raiva. Aquele cretino já me fizera chorar demais.

— Ei, Anika, shh – Could se aproximou de mim e me abraçou. Fiquei um pouco tensa, mas aos poucos fui cedendo ao calor de seu corpo, deixando-o me confortar. – Não precisa se conter por minha causa, não deve haver segredos entre nós dois. – Mais lágrimas idiotas vieram, mas não as sequei. Deixei que as comportas se abrissem, levando tudo o que vinha me torturando. Não era apenas a Anika de agora chorando, mas também a garota de 15 anos ingênua que se entregou a um cara que não a merecia.

Em meio às lágrimas, agarrada a Could como ele fosse meu bote salva-vidas, acabei lhe contando toda a história.

— Está se sentindo melhor agora? – Ele perguntou, se afastando um pouco para me encarar, quando meu choro havia cessado. Eu devia estar horrorosa, com o rosto todo marcado e o nariz vermelho.

Apenas assenti, pois ainda não confiava que minha voz não sairia embargada.

— Agora eu entendo melhor o porquê de tudo o que você fez antes, apesar de ainda continuar não concordando. Mas de uma coisa tenho certeza: se eu já não gostava desse Will antes do que ele te fez agora, depois de saber o quanto ele te machucou no passado, passei a detestá-lo ainda mais.

— Eu só quero deixar isso para trás – falei depois de ter me recomposto. – Então, se você ainda quiser alguma coisa comig...

Ele me interrompeu com um beijo. Atordoada, por um instante, não correspondi, mas quando me recobrei do choque abri minha boca para dar passagem a sua língua, que logo se enroscou à minha. Enquanto nossas bocas voltavam a se reconhecer, aproveitei para memorizar seu rosto com as mãos. Cada minúcia foi explorada pelo tato, gravada para sempre em meus sentidos.

— Espero que isso seja resposta suficiente – murmurou quando nos afastamos em busca de ar.

— Nem de perto! Preciso de mais – o puxei para outro beijo, desta vez com maior intensidade. Não era mais um reconhecimento, mas duas almas que queriam se fundir em uma; o reencontro de dois amantes há muito separados.

Estávamos dando um salto no escuro; um mergulho direto do precipício que poderia no destruir ou nos tornar mais fortes. No entanto, naquele momento isto não importava. Eu o tinha, finalmente. E tudo que mais queria era sentir sua pele contra a minha. Lidaríamos com as consequências depois. Bem, bem depois.

Afastei-me para que pudesse tirar minha camiseta e a dele. Seus batimentos cardíacos estavam tão acelerados quantos os meus, nossa respiração, superficial. Eu sentia uma linha invisível puxando-me em sua direção; havia uma necessidade incontrolável sob minha pele, que não queria esperar nem mesmo que eu me despisse direito. E o fato de saber que ele me desejava com o mesmo desespero me dava a confiança para deixar tudo o que não importava para trás.

Notas finais
Mais um capítulo. E finalmente, finalmente eles se acertaram ♥