Bad Girl II
20 Capítulo 19
Havia uma sensação de paz em meu interior, um sentimento bom, mas tão bom, que eu me sentia mais leve. Eu não conseguia me lembrar da última vez em que me senti assim, feliz de verdade.
— Em que está pensando? – Could perguntou, dando um beijo em minha testa e se sentando ao meu lado no colchão.
Algumas horas haviam se passado desde que fizéramos as pazes e aproveitamos esse tempo para curtir um ao outro. E, claro, também para comer. Não dava para viver só de amor, isso era fato.
— Em tudo. Em nada. Apenas aproveitando essa sensação boa – respondi, colocando a cabeça em seu ombro.
Ele rodeou meu corpo com os braços e ficamos assim, em silêncio, por um tempo. Até que me lembrei de algo. Algo fundamental que me atormentara pela manhã e que acabei esquecendo.
— Sabe – virei-me, de modo que pudesse ver seu rosto -, você não chegou a responder minha pergunta.
— Que pergunta?
— A que fiz hoje cedo: como você foi parar no meu quarto? – Encarei-o, esperando sua resposta.
Could suspirou. Ele havia feito a mesma coisa mais cedo, quando perguntei pela primeira vez. Mau sinal.
— Como fui parar no seu quarto? – Repetiu o questionamento. – Simples. Você se excedeu na bebida, estava bastante alegre na companhia daquele cara. — Ele fez uma careta. – Quando percebi que estavam se dirigindo à saída juntos, quase enlouqueci. Abandonei Sylvia na pista de dança – ah, então esse era o nome dela? – e fui atrás de vocês. Se eu não tivesse te impedido, Anika, você teria ido embora com ele. Estava animada com a ideia, como fez questão de esfregar na minha cara. – A raiva era perceptível em sua voz, e eu engoli em seco. – Quando Shantaw me disse para ir naquela boate para que eu me acertasse com você, não imaginei que teria que te desgrudar de outro homem!
Espere um pouco. Eu ouvi direito? Shantaw? Shantaw havia planejado me juntar de novo com o Could?
— Desde quando Shantaw e você são amigos?
— Não somos – ele riu de forma seca. – Ela me tolera, para usar um termo gentil. Só que não estava aguentando mais sua miséria, nas palavras dela, por isso me procurou na faculdade e falou que eu precisava me acertar com você. Daí explicou que te levaria para aquela boate e que eu devia dar um jeito em nossa situação.
Inacreditável! Minha melhor amiga agindo pelas minhas costas! Tudo bem que ela tinha boa intenção, mas ainda assim, foi de mais.
— Então, se não fosse pela Shantaw ter dito para você agir... – falei me afastando. – Você não teria feito mais nada? Teria desistido de mim?
— Anika...
— Responda, Could! – Já estava agitada novamente. A sensação de paz havia desaparecido com uma rapidez incrível.
— Eu estava dando mais um tempo para você, que droga! É claro que não iria desistir tão fácil de você. Shantaw só indicou que era o momento certo para agir, só isso. – Ele me abraçou novamente, mas permaneci rígida em seus braços. – Deixe de ser desconfiada, caramba!
Suspirei e permiti que meu corpo relaxasse contra o dele.
— Você não terminou de contar o que aconteceu – o lembrei.
— Ah, sim, certo – Could se moveu para perto da cabeceira da cama e me puxou junto, de modo que eu ficasse entre suas pernas. Deitei a cabeça em seu ombro, esperando que ele continuasse o relato.
— Você não queria ir comigo, estava com raiva de mim. Ficou repetindo o tempo todo que eu devia voltar para a outra e que não prestava, como todos os outros homens. Foi uma cena e tanto, tenho de admitir.
Oh, merda! Eu era uma bêbada terrível. Isso me fez imaginar o que eu teria dito naquela noite, tantos anos atrás. Assim como hoje, acordei no dia seguinte sem lembrar de nada, mas logo descobri a burrada que havia feito. Nunca me importei em saber o que, de fato, havia acontecido. Só quis me livrar o mais rápido possível daquele problema.
— No entanto, logo depois que entramos no carro você adormeceu e só acordou quando chegamos em frente ao prédio da Shantaw. Mas não estava bem, percebi isso assim que me encarou. Seu rosto estava mais pálido que o normal, e você tremia. Mal entramos no apartamento e saiu correndo para o banheiro...
— Tá, não precisa terminar. – Que vergonha! Eu não acredito que o Could me viu vomitar, não acredito! – Não me admira que você tenha rido quando perguntei se havíamos transado na noite passada.
Ele começou a rir e eu enterrei meu rosto em seu pescoço, sentindo-me contente de estarmos juntos. Contudo, havia uma vozinha lá no fundo que não queria me deixar acreditar que tal felicidade pudesse ser real; que eu não sabia ao certo como as coisas estavam entre nós, pois nossa conversa havia esclarecido apenas fatos passados, mas nada sobre o futuro.
— Could, onde tudo isso nos deixa? – Questionei, ao me afastar, depois de um tempo.
— Como assim?
— Nós esclarecemos tudo agora, mas e depois?
— Eu pensei que isso tivesse ficado claro. – Disse ele, entendimento clareando suas feições.
— Se tivesse ficado claro, eu não precisaria perguntar.
— Tudo bem, se você precisa que eu diga. Nós estamos juntos.
— Juntos? Simples assim?
Could olhou-me confuso.
— O que mais você queria? – Antes que eu pudesse responder, ele mesmo disse o que eu estava implicando. – Ah, entendi. Você quer que eu faça o pedido, não é?
Apenas assenti. Podia parecer bobo que depois tudo o que havia acontecido entre nós dois eu esperasse um pedido de namoro, talvez ele nem mesmo esperasse que eu quisesse isso, já que não aparentava ser romântica, mas não podia negar que, por trás de minha pose de durona, ainda residia em mim desejos de menina, e este era um deles.
Colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, Could acariciou levemente meu rosto. Encarei seus olhos, e por um momento me perdi em sua profundidade azul.
— Anika Olsen, nós já tivemos muitos desencontros, algo que jamais quero repetir, mas apesar de tudo continuamos nos amando. Não quero que existam mais mal-entendidos entre nós dois, então vou perguntar de uma vez: você quer namorar comigo?
Um sorriso se espalhou por meu rosto.
— Sim! – Praticamente gritei, jogando meus braços sobre seus ombros e começando a dar repetidos beijos em seus lábios.
Segurando-me firmemente pela cintura, ele me colocou em seu colo, assim não haveria espaço entre nossos corpos.
— Eu te amo, Anika.
— Também te amo, Could – murmurei, antes de começarmos a nos beijar. Nosso primeiro beijo oficial, prenúncio de muitas outras coisas que viriam naquela noite.
*** * ***
Me aconcheguei mais no travesseiro quentinho e firme em que dormia, não querendo sair do lugar. O travesseiro se moveu, e eu ouvi uma risadinha. Abri os olhos, a contragosto, e me deparei com um peitoral forte e bronzeado. Could. Senti um sorriso tomar conta de meu rosto ao relembrar a noite passada. Nós finalmente estávamos juntos, depois de tudo.
— Então é assim que você acorda depois de uma noite de sexo? Bom saber. — Could disse com a voz ainda grossa do sono.
— Idiota. — Dei um tapa em seu peito. Ele pegou minha mão enquanto se inclinava sobre mim.
— Posso até ser idiota, mas sou o seu idiota — tentou me beijar, mas eu virei o rosto. — O que foi?
— Agora não, eu ainda não escovei os dentes.
— Deixa de besteira, eu não me importo com isso.
— Mas eu, sim! — Tentei afastá-lo novamente, entretanto Could era mais forte que eu e, antes que me desse conta, sua boca já havia atacado a minha. Eu me entreguei completamente ao beijo, esquecendo totalmente o motivo de minha recusa inicial.
Usei minha mão que não estava presa por ele para acariciar suas costas, descendo até chegar à sua bunda firme, que apertei sem pudor algum. Ele foi parando o beijo aos poucos, com um sorriso.
— Você acabou de apertar a minha bunda?
— Mas é claro, ela estava praticamente me implorando isso.
— Você está muito safada, srta. Olsen.
— Você ainda não viu nada, Montgomery. Não viu nada! — Puxei-o novamente para um beijo, este mais voraz que o outro. Meu corpo inteiro estava pegando fogo e eu precisava que Could me penetrasse, para acabar com essa ânsia.
A necessidade por oxigênio nos obrigou a desgrudar nossos lábios, e Could passou a descer beijos por meu pescoço, fazendo com que eu arqueasse meu corpo em direção ao seu. Essa demora estava me enlouquecendo, e talvez fosse essa sua intenção, me enlouquecer. Cravei minhas unhas em sua bunda, tentando impulsioná-lo na direção que queria, contudo, neste momento um celular começou a tocar.
E não era qualquer celular.
Era o meu. E o toque indicava que era Adam ligando. Porcaria!
— Ignore — Could disse em meu ouvido, tentando me manter no lugar, mas era inútil. Aquela barulho irritante era o prenúncio de dores de cabeça e havia sido como um balde de água gelado em minha pele febril.
— Não posso, desculpe — falei, tirando seu braço de cima de mim e me inclinando na direção do criado mudo para pegar meu telefone. Adam era um maldito! Sabia a hora certa de me incomodar.
Could rolou para seu lado da cama, parecendo tão frustrado como eu. Teria de recompensá-lo depois. Não tínhamos nem um dia de namoro direito e ele já estava sendo deixado de lado por causa de uma ligação.
— O que você quer? — Deixei minha que minha ira transparecesse em minha voz.
— Nossa, quanto mau humor, irmãzinha, que bicho te mordeu?
Não estava no clima para ouvir suas provocações sem graça. Queria poder me livrar logo de sua inconveniente interrupção e voltar ao que tivera de parar. Olhei para Could no momento em que ele se levantava da cama. — Vou tomar banho — ele murmurou, se encaminhando ao banheiro.
— Adam, vou repetir a pergunta, pois não estou com tempo disponível para enrolações. O que diabos você tem para me dizer, que precisava me ligar a esta hora da manhã?
— Só queria avisar que o contrato está pronto e que iremos assiná-lo, no mais tardar, amanhã.
Sinceramente eu não acreditava que ele tinha me ligado apenas para isso, algo que podia ser feito por e-mail, — juntamente com uma cópia do documento que eu devia assinar, e que depois enviaria por fax — e foi justamente isso que respondi.
— Querida, você acha que eu perderia um momento épico como esse? O documento será assinado pessoalmente. — Sua entonação prepotente aumentou meu nível de estresse para valores absurdos, e eu não duvidava nada que fosse capaz de esbofeteá-lo se o encontrasse naquele momento.
— Se você pensa que vai me fazer viajar de novo para Nova York está completamente enganado!
— Não se preocupe, não quero mais sua presença desagradável em minha empresa. Estou indo para aí amanhã. Margareth enviará os detalhes por email em breve.
Se pudesse, evitaria ter de vê-lo novamente, mas como aparentemente não era uma opção, era preferível que ele estivesse em meu "território". Não me prolonguei mais no telefonema, apenas disse que terminaríamos com isso amanhã e joguei o celular do outro lado do colchão. O som da água batendo no chão, seguido da voz de Could entoando alguma canção que eu desconhecia, me impulsionou para o banheiro. Eu merecia uma recompensa depois do aborrecimento de lidar com Adam e, como a gananciosa que era, estava indo obtê-la.
*** * ***
Quando saí do banho Could não estava mais no quarto. Tirei a toalha que envolvia meu corpo e vesti uma camiseta dele. Eu nunca havia feito isso antes e achei a sensação... diferente, para dizer o mínimo. Resolvi não usar roupas íntimas e me encaminhei para fora do quarto.
Um cheiro delicioso estava no corredor e eu o segui, indo parar na cozinha. Could estava de costas para mim, fritando bacon. Fiquei admirando-o de onde estava, e me apoiei no balcão. Ele estava usando apenas um short de basquete, que estava baixo em seus quadris, e quando se virou cravei os olhos em seu abdômen. Ser gostoso assim deveria ser ilegal. Certamente os pensamentos que estavam passando pela minha mente naquele momento totalmente eram. Eu o queria de novo. Muito.
— Apreciando a vista? — Ele perguntou, rindo.
— Você não imagina o quanto! — Respondi erguendo meus olhos para ver sua expressão risonha.
— Fico feliz que goste, mas... antes de fazer o que sua mente suja está pensando nós precisamos comer. — Could disse já colocando o conteúdo da frigideira em guardanapos para que absorvessem o excesso de óleo.
— Estraga prazeres! — Resmunguei cruzando os braços.
— Você fica tão bonitinha assim — ele veio até onde eu estava e passou os braços ao meu redor. Afastei o rosto quando ele tentou me beijar e saí do seu abraço, sentando-me em uma das banquetas. — Já ficou brava, esquentadinha?
— Odeio quando você me chama assim. Faz parecer que sou explosiva.
— E, não é? — Could riu. — Principalmente na cama, não tenho do que reclamar.
— Eu estou com fome, vai me servir ou não? Já que você não vai saciar minha outra necessidade, pelo menos me alimente!
— Quem disse que eu não vou te saciar, hein? — Ele arqueou uma sobrancelha, me puxando para fora da banqueta e me jogando por cima do ombro.
— Could! — Gritei me debatendo e rindo.
— Vamos ver se agora você terá do que reclamar — disse ele e deu um tapa em minha bunda, enquanto caminhava pelo corredor.
— E a comida? — Questionei quando ele me colocou na cama.
— Pode esperar, mas você... aparentemente, não.
— Que bom — sorri maliciosamente, empurrando-o para que pudesse subir em seu colo. — Porque se eu tenho um namorado gostoso como você, eu quero apreciar cada momento que puder.
Comecei a distribuir beijos por seu peitoral, descendo por seu abdômen sarado, adorando a maneira como seu corpo se retesava sob o meu. Quando cheguei ao cós do seu short, no entanto, ele me virou, de modo que agora eu estivesse por baixo.
— Quem estava impaciente na cozinha era você, Anika. Nada mais justo do que eu cuidar para que você permaneça satisfeita. — Dizendo isto ele ergueu a camiseta que eu estava vestindo e lançou um olhar apreciador ao meu corpo nu. — Adorei ver você usando minha camisa, mas prefiro vê-la nua.
— Could... — comecei a repreendê-lo, quando ele afastou minhas pernas e começou a mordicar minhas coxas. Tão perto do lugar em que eu o queria, mas ainda tão longe. Frustrante! Eu podia sentir minha excitação subindo a um alto nível, me enlouquecendo. Could tinha que se apressar e me dar logo o que eu queria, caso contrário, meu corpo iria entrar em combustão instantânea, tinha certeza.
— Tão gostosa — ele pronunciou com a voz rouca, o rosto pairando próximo de onde eu precisava dele. No entanto, não precisei esperar muito tempo, pois Could logo começou a me beijar lá embaixo e a linha de pensamentos coerentes desapareceu. Naquele instante eu apenas sentia. A forma como ele alternava entre língua e dentes, me atormentando da melhor maneira possível; o modo como meu corpo estava febril, enquanto eu me remexia na cama, agarrando os lençóis. Estava tão perto... tão perto. Então Could começou a brincar comigo usando os dedos, além da boca, e eu atingi o clímax, minha visão explodindo em milhares de cores, como fogos de artifícios.
— Deliciosa como sempre. — Could sussurrou, a boca já em meu pescoço, e eu senti meu rosto corar. Só ele mesmo para conseguir essa reação do meu corpo.
— Mmmmm — murmurei, desconexa.
— Deixei você sem palavras? – Ele riu e me puxou para seus braços, aninhei-me em seu peito de bom grado. Estava praticamente nas nuvens.
— Acho que agora é a minha vez de cuidar de você, hum? – Falei, quando consegui articular mais que duas sílabas, já me separando de seus braços. Eu estava adorando ficar ali, com seus dedos fazendo carinho em meu cabelo, mas também queria deixar meu homem com o mesmo êxtase que eu.
Comecei a dar beijos em seu abdômen, me dirigindo ao sul de seu corpo. Estava baixando o elástico de sua cueca quando a campainha tocou. Mas que porra é essa?
— Você está esperando alguém? – Perguntei, ao erguer minha cabeça. Desconfiança inundou meu corpo. Nós só havíamos feito as pazes ontem, me dá um desconto!
— Não – ele parecia tão confuso quanto eu.
— Quem sabe se fingirmos que não tem ninguém em casa essa pessoa não vai embora? – Sugeri. Bem nesse instante a campainha tocou de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Quem quer que fosse era bem obstinado (leia-se chato pra caralho).
— Acho que é melhor eu ir ver quem é. Volto logo.
Senti uma sensação estranha ao vê-lo colocar um short e uma camiseta rapidamente e sair do quarto. Recostei-me contra a cabeceira da cama e suspirei. Meu primeiro dia de namoro não estava sendo como imaginei.
Não consegui ficar parada muito tempo, e resolvi ir ver quem havia interrompido minha segunda rodada de sexo matinal. Não importava que Could e eu tivéssemos tido um bom momento no banho, eu queria aproveitar o tempo com meu namorado de novo.
Peguei uma calcinha em minha bolsa e vesti novamente a camisa de Could. Eu só pretendia dar uma olhadinha, de longe, a pessoa do outro lado não iria me ver, eu não queria. Claro que seria diferente se fosse Stefany na porta, pois eu faria questão de mostrar quem havia conseguido ficar com Could no fim das contas.
Contudo, mal coloquei um pé no corredor e ouvi uma voz masculina um pouco alterada, que não era a do meu namorado, e eu não conhecia.
— Eu não entendo por que você está demorando tanto para voltar para casa, Could! Você disse que resolveria rápido seu problema com a ruiva. Mesmo eu não concordando com seu plano absurdo, esperava que voltasse logo.
— Matt, entenda, aconteceram algumas coisas. A situação foi um pouco diferente do que eu esperava e...
— Eu não posso acreditar nisso! – O cara que estava conversando com Could gritou de repente. – Eu não posso acreditar que você caiu de novo nas garras dela! Por favor, me diga que não é ela, a ordinária que te enganou, que estou vendo ali no corredor. – Oh, merda! Eu não tinha percebido que havia me aproximado tanto da sala, a ponto de ser vista.
Could virou-se na direção em que o olhar do tal Matt estava e me encarou. Quem era esse Matt, e por que achava que podia cobrar alguma explicação de Could? Aliás, e por que raios ele estava me chamando de ordinária? Eu não gostei nadinha disso!
Como a garota destemida que a vida me ensinou a ser, dei os passos que faltavam para entrar completamente na sala, e enfrentei o “intruso” com um olhar de desafio.
— Quem é esse Could, para chegar na sua casa a essa hora da manhã exigindo explicações?
Could olhou de mim para o tal Matt e suspirou.
— Matt, é complicado explicar agora, mas essa é a Anika, sim. – Virando-se para me olhar, disse: — Anika, esse é meu primo, Matt.
Matt? Ele nunca havia mencionado nenhum primo Matt.
— Inacreditável, Could. Inacreditável! – Matt falou alterado. – Depois de tudo o que ela fez com você, não consigo acreditar que possa ser tão burro. – Seus olhos estavam febris, pura fúria emanava deles. – Você – disse olhando diretamente para mim -, você tem ideia do inferno que meu primo viveu por sua causa? Por causa da sua vontade de brincar com os sentimentos dos outros, Could foi parar no fundo do poço. Eu não sei o que está se passando na mente dele agora, para ter caído na sua teia, mas é melhor ficar longe dele. Eu não vou deixá-lo afundar de novo por causa de uma vadiazinha qualquer!
— Matt, já chega! – Could bradou. – Eu não vou deixar você ofender minha namorada assim.
— Namorada? – Matt recuou um passo, como se tivesse levado um golpe físico. – Você está namorando com ela, mesmo depois de tudo o que ela te fez passar?
Could respirou fundo, acho que tentava se acalmar.
— Anika, meu bem, você se importa de me esperar no quarto? – Eu queria dizer que ficaria ali, encarando seu primo, pois tinha força o suficiente para continuar enfrentando-o, mas isso seria mentira. Apesar de ter ideia de quanto dano havia causado a Could no passado, ter alguém me dizendo isso era como levar um tapa na cara.
— Eu vou sair daqui sim, porque parece que vocês precisam se entender. Mas só quero deixar uma coisa bem clara, Matt: o meu relacionamento com Could só diz respeito a nós dois, a ninguém mais.
Provavelmente ele ia dizer alguma coisa para mim, algo grosseiro, entretanto, não fiquei lá para ouvir, voltei para o quarto de Could e sentei na cama.
Realmente, o que mais faltava acontecer? Parecia que Could e eu mal ficamos juntos e já estávamos começando a enfrentar problemas.
Suspirei, frustrada.
O que eu não precisava agora era dos parentes dele me enchendo o saco pelo modo como o tratei no passado. Could e eu já havíamos passado por tanta coisa, antes que finalmente deixássemos de ser cabeças duras e ficássemos juntos. Mais drama era totalmente desnecessário. Eu só queria poder curtir meu namorado como uma pessoa normal.
A conversa com o primo não demorou muito. Ainda pude ouvir algumas palavras ditas em tom mais alto, depois o silêncio.
— E o Matt? – Questionei quando Could entrou no quarto.
— Mandei ele embora. Tomara que tenha voltado para casa. Não preciso dele aqui, se metendo no nosso relacionamento.
— Ele estava com muita raiva. – Falei simplesmente.
— Sobre isso, eu te peço desculpas. — Could disse ao se sentar ao meu lado na cama.
— Não foi culpa sua.
— De certa forma, foi sim — ele contestou. — Se eu não tivesse te descrito como o diabo, ele não teria reagido assim ao te ver.
— Se formos levar pra esse lado, Could, então eu não posso dizer nada, a não ser que mereci o que ele disse, porque o que eu fiz com você foi horrível. Nós dois sabemos disso.
— Sim, Anika, eu sei. Mas combinamos de deixar o passado para trás. Meu primo não tinha o direito de falar aquelas merdas para você. Nada do que passou importa, okay?
— Eu sei — encostei a cabeça em seu ombro. — Mas o que aconteceu hoje mostrou que não importa o que eu faça, o passado sempre vai estar ali, para me assombrar.
— Só que eu vou estar do seu lado a cada momento, não se esqueça disso.
Sorri, bobamente, e depositei um beijo em seu pescoço. Eu tinha cometido muitos erros em minha vida, entretanto, tive a sorte de encontrar alguém que me aceitava do jeito que sou e me apoiava. Agora que eu o tinha, nada o tiraria de mim.
*** * ***
— E este sorriso de menina apaixonada, hein, dona Anika? — Claro que eu não ia escapar de ser investigada por minha adorável amiga metida a cupido.
— Você sabe que se meter nos relacionamentos dos outros é muito feio, não é? — Ainda estava um pouco indignada com sua audácia de arquitetar um modo de Could e eu ficarmos juntos.
— Não vou pedir desculpas por isso, sua cabeça dura. Se eu não tivesse mexido meus pauzinhos vocês dois ainda iam estar se comendo com os olhos, mas sem querer dar o braço a torcer para ficarem juntos.
Revirei os olhos.
— Que exagero! Nós não estávamos...
— Estavam sim – ela me interrompeu. – Agora, me diga, está tudo certo entre vocês dois? Quero saber tudo o que aconteceu de ontem pra cá!
— Vou te dizer só o que precisa saber, enxerida. – Retruquei, me sentando no sofá. Ela tomou o assento ao meu lado, os olhos brilhando de ansiedade. – Could e eu estamos namorando! – Soltei de uma vez, como uma adolescente louca para compartilhar uma fofoca. Na verdade, desde ontem eu me sentia mais jovial, mais leve. Claro, desconsiderando a visita nada agradável do primo do Could, que havia azedado um pouco minha manhã. Depois da aparição de Matt, eu não demorei muito a sair, tomei apenas o café da manhã, dei um beijo rápido (ou talvez nem tão rápido assim) no meu namorado e voltei para o apartamento da Shantaw.
— Ah, mas isso eu já sabia. Queria saber algo mais... não sei, algo mais informativo que isso!
— Ah, Shaw, eu não vou contar meu “conto de fadas” para você assim, de graça – Falei desdenhando. – Se quiser saber mais informações, vai ter que dar algo em troca.
— Mais do que eu já fiz? – Ela cruzou os braços na frente do corpo, fazendo uma pose de indignada. O coque em seu cabelo balançou de um lado para o outro, quando fez um gesto de negativa com a cabeça.
— Ser abelhuda não conta. Eu estava pensando em algo mais alcoólico mesmo.
— Álcool a essa hora, Anika? Eu pensei que você tivesse feito as pazes com o Could.
— E fiz, mas estou precisando de coragem líquida agora. Por favor, não me julgue. – Eu precisava de algo para me ajudar a lidar com o que havia acontecido mais cedo, pois embora Could houvesse me dito palavras lindas de incentivo, nada apagava o que eu fiz, nem tampouco o que ele havia sofrido. Matt apenas tirara a tampa da caixa de pandora. Então, se eu ia contar o que havia acontecido desde o momento que fui para a casa do Could, e isso incluía a visita desagradável do Matt, álcool era um item obrigatório. Pelo bem da minha sanidade.
— Tudo bem, tudo bem – Shantaw suspirou, já se levantando do sofá e indo em direção ao armário de bebidas que havia na sala. – O que você vai querer beber?
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