Bad Boy
24 Xeretas
Notas iniciais
“Foi aí que Kanda acordou do pesadelo.
E entrou em outro.”
O moreno sentiu os olhos abrirem rapidamente.
Era aquela sensação de cair atingindo-o no meio do pesadelo.
Estava um silêncio confortável. Sabia que estavam todos dormindo, apesar de já amanhecer lá fora.
Quase deu um soco no próprio rosto por se permitir ter sonhos tão estranhos desse jeito. E olha que nem ao menos tinha bebido algo alcoólico antes de tudo isso.
Agradeceu por ser apenas um sonho. Odiava paçoca.
Ainda sonolento e fechando novamente os olhos, virou-se de lado na cama procurando uma posição confortável em que provavelmente não sonharia com Backstreet Boys quando caísse novamente no sono.
Quando seu corpo rolou na cama, suspirou pesadamente. Só precisava dormir de novo e esperar até que os outros o acordassem.
E foi quando estava prestes a cair no mundo dos sonhos novamente que sentiu algo em seu rosto. Uma respiração baforosa.
Lembrou-se, só então, do pesadelo em que estava vivendo no momento.
Abriu os olhos novamente. Com raiva. Só para encontrar um ruivo babando no travesseiro e respirando no seu nariz.
Lavi. O maldito.
E ainda roncava ruidosamente.
Sua única felicidade na viagem inteira seria poder ter o pequeno ao lado e ,na chance que teve, pensou que as camas de casal poderiam providenciar uma noite de...reconciliação...
Se Alma não tivesse imposto sua autoridade como pessoa perigosamente próxima de si, talvez isso estivesse acontecendo.
E aquele beijo não seria só um sonho.
Agora tinha que dormir ao lado de um ruivo babão enquanto Allen e Alma dormiam agarrados (e Kanda se assustou pelos dois dormirem tão abraçados daquele jeito) na cama ao lado.
Queria esmurrar o nariz melequento de Lavi e acabar logo com isso.
Percebendo que não conseguiria mais buscar refúgio no sono, levantou-se da cama (sem o cuidado para não acordar Lavi, mas mesmo assim o ruivo continuou a roncar) e foi praticar higiene matinal.
Abriu a porta do banheiro e a fechou atrás de si, para evitar que muito barulho acordasse os outros (não estava exatamente sendo gentil, só queria ficar sozinho e para isso precisava deles “inconscientes”, por bem ou por mal). Jogou água em todo o rosto, sentiu a água fria contrastar com a temperatura quente da agitação que teve enquanto sonhava com pôneis. Quando seu rosto encontrou o próprio reflexo, não pôde evitar de se concentrar nele mesmo.
Os traços japoneses que tanto lembravam-no da mãe, as olheiras não tão profundas, mas existentes, cabelos emaranhados...Ele estava mais interessado em outra coisa no seu rosto.
Não as linhas, nem os contornos... mas a essência, a expressão.
Sobrancelhas que sempre se enrugavam, olhos agressivamente negros e apertados.
E a boca. Nunca curvada para onde devia: para cima.
As mãos se moveram quase que involuntariamente, os dedos tocaram os próprios lábios.
Para cima.
Os dedos seguiram um contorno apontando para o teto. Logo, sua boca tentou esboçar-se do mesmo jeito.
Um sorriso improvisado.
Não saiu como ele queria. Lábios tortos que tremiam em inexperiência, querendo voltar a posição entediantemente reta.
Pode parecer algo estúpido, a inexperiência em sorrir. Mas é algo sério.
Ele fechou a expressão de novo. Apenas esqueceu disso e secou o rosto com a toalha macia ao lado.
Saiu do banheiro, procurando um único lugar naquele quarto em que não precisaria se preocupar com roncos alheios: a sacada.
Deslizou a porta de vidro e só a fechou quando estava lá fora. Não era um espaço grande, nem pequeno, mas o suficiente para caber uma cadeira reclinável em que ele se sentava. Podia claramente ver o amarelo alaranjado do sol subindo se misturar ao azul claro e sereno que era a cor do céu de manhã. O ar frio que sopra ao amanhecer, deixando de lado o tanto abafado que fazia no inferno de dia.
Aquilo acalmava qualquer um. Por isso Kanda se deixou suspirar pesadamente.
Só precisava acalmar-se das tensões da viagem. E da vida.
Não tinha o que fazer. No fim, os problemas sempre voltavam para ele.
Sempre voltavam...
Só era preciso ser paciente o bastante, mas não que ele quisesse os problemas de volta.
Só se acostumou com as desgraças. Um hora você se acostuma.
Estava tentando ao máximo amolecer, mas é difícil deixar o jeito de ser para trás. Tem coisas que é impossível deixar na personalidade... por isso, sentiu-se tão exausto no dia anterior, quando se esforçou (acredite, ele se esforçou) para ser “sociável” ou “doce”.
Sentiu um frio passar pela sua espinha.
Odiava aquelas palavras.
Porém aquelas palavras eram exatamente as que descreviam a pessoa que mais lhe incomodava no momento (por bem e por mal): Allen Walker, também popularmente conhecido por moyashi.
–Tsc- resmungou, quase sem querer.
Sua vida era uma merda.
–Resmungando já a essa hora da manhã?
Nem teve a vontade de se virar. Não precisava. Só continuou olhando para o nada no horizonte.
–O que quer, Alma?- perguntou, rosnando.
–Grosso já de manhã...como sempre.
Duas frases, apenas. Mas Kanda sentiu-se encher de raiva.
–Morra, Alma- respondeu.
Ao invés de se jogar da sacada e morrer, como Kanda queria que ele fizesse, Alma sentou-se apoiado na porta de vidro fechada, bem ao lado de Kanda.
–Dormiu bem?
–Hm.
–Eu tive uns sonhos legais com a escola- riu- muito estranho! E você?
–Paçocas falantes, duendes, minhoca e pó azul.
–Quê?
–Nada- suspirou.
Alma ajeitou-se mais, dobrando os joelhos. Aquele jeito de sentar-se o lembrava tanto de Allen que ele quase fez o amigo desdobrar as pernas à força.
–Está mais fresco aqui fora...
O japonês pensou em decepá-lo e jogar os restos pela janela. Mas só não o fez porque era manhã e aquela cadeira era demasiada confortável para se levantar por um motivo desses.
–Imagino que seja bem mais fresco aqui fora, onde o moyashi não tá te abraçando.
Ele não teve vontade ou necessidade de olhar no rosto do amigo. Alma o olhava de sua baixa perspectiva, agachado no piso, incrédulo e divertido como sempre o fitava nesses momentos.
Se os dois não fossem conhecidos de tanto tempo, Kanda já teria enfiado a mugen goela abaixo ao primeiro olhar sarcástico do garoto.
Era isso que o sentido de “amigos” (mesmo que ele não considerasse, em voz alta, ninguém desse jeito) tinha para ele: algo como, evito de matar....por razões éticas ou preguiçosas (ou porque não quer sujar a mugen).
Por isso, ele se concentrou demais na paisagem, querendo fechar os olhos e meditar como sempre costumava fazer em horas de estresse ou tempo livre. Mesmo que, alguns dias atrás, nem mesmo a meditação conseguiu salvá-lo de machucar os outros.
Ironicamente, era um costume que pegou de sua mãe.
–Nunca imaginei que você ficaria DESSE jeito, Yuu.
Ele podia não dizer o que significava, mas o japonês sabia do que ele estava falando...porque ele ria da sua cara. O garoto estava tremendo no chão, ao seu lado, tentando conter as risadas, minimamente e só por educação porque ele adorava soltar risadas para o moreno. Ainda mais se fosse para rir dele.
Kanda começava a sentir que Alma abusava demais do controle de paciência que ele tinha.
–Quer dizer- Alma continuou- vocês não se conhecem há TANTO tempo assim! Parece que foi de uma hora para outra e...vocês nem se importaram por serem....serem dois homens. Quer dizer, qualquer outro esconderia isso e... nunca falaria, iria desistir, sei lá! Mas você...de todos os outros...
Kanda podia ter imaginado, mas pensou ter sentido um pouco de tristeza nostálgica na voz divertido do amigo. Ignorou. É o que ele sempre faz.
“Se algum idiota quer falar, que ele crie coragem nessa porra para falar. Não espere que eu pergunte pela sua bunda. Tsc.”- Kanda, Yuu. Provérbios de sabedoria.
Alma se preocupava demais com as pessoas. Era por isso que sentia solidariedade pelos dois.
–Conheço ele há mais tempo. É por isso- respondeu, fechando os olhos.
Se ele imaginou o rosto surpreso de Alma? Sim, imaginou. Se Alma realmente estava fazendo essa expressão. Estava.
–Mas- continuou- talvez ele, conscientemente, não se lembre de mim.
O garoto encarou o rapaz. O japonês abriu os olhos, encarando de novo o sol subir timidamente no horizonte.
Alma queria perguntar, mas Kanda foi mais rápido.
–Pronto? Feliz?- disse, rudemente- Saia. Quero meditar.
Ouvindo essas incríveis frases com no máximo duas palavras, Alma resolveu deixá-lo. Se ele precisava de tempo, que seja. Mesmo assim, aquele lugar era tão fresco e confortável que ele demorou a levantar-se.
Saiu e fechou a porta de vidro, sem deixar de verificar, com um suspiro de “o que eu faço com esse cara?”, o moreno dobrando as pernas e ajeitando-se acima da cadeira para meditar.
Odiava quando ele fazia isso de se desligar para o mundo.
Pelo menos dessa vez ele avisou que iria meditar, outras vezes Alma passou minutos falando sozinho para o moreno estar de olhos fechados e pernas cruzadas, sem ouvir nada do que falava. E nem ao menos tinha a sensatez de fingir que ouvia.
–Chato...- resmungou baixo, enquanto sentava-se em uma das poltronas.
Seu corpo deslizou suavemente, para ,quando ver, a cabeça estar quase na altura das pernas dobradas na poltrona.
Enquanto se esforçava em levantar-se e assumir uma postura menos prejudicial à coluna vertebral, ouviu alguém abrir a porta do banheiro.
–Ah, Alma. Aí você está.
O garoto encarou, ainda sonolento, Allen Walker sair de lá de dentro, enxugando o rosto com a toalha macia e felpuda que o hotel lhes emprestava. Ele sorriu, mas ainda dava para enxergar o ar de recém-acordado nos movimentos preguiçosos e nos olhos prateados.
–Ei, Allen.
O albino desabou, em um suspiro aliviado, na poltrona ao lado da de Alma.
–Quente demais por aqui...
–Lá fora está mais fresco- Alma se espreguiçou- mas tem um samurai idiota ocupando a varanda.
–Hm.
–Dormiu bem, pelo menos?
–Ao máximo que consigo quando está abafado demais.
Alma riu.
–Kanda disse que nós dormimos agarrados demais.
O moreno pôde sentir um desconforto só de mencionar o nome para ele. Podia jurar que Allen revirava os olhos.
–Kanda é complicado, tenha paciência- Alma disse.
–É. Paciência.
–Lavi ainda dorme?
–Como uma pedra. Aquele preguiçoso...
O albino bocejou. Alma ajeitou as pernas na poltrona, encontrando uma posição que compensasse o desconforto de ter que fazer uma pergunta.
–Então, uma pergunta inocente- disse, querendo aproveitar o fato de ter duas vítimas e poder juntar partes de repostas- você já conhecia o Kanda antes?
Ele esperou que Allen ficasse surpreso, que risse, ou talvez que se assustasse com a pergunta de movimento tão direto que ele fazia tão de repente e sem contexto.
Mas Allen franziu as sobrancelhas. Ficou mais do que claro que ele também estava confuso. Coçou a cabeça, parecia mais pensativo do que Alma esperaria com uma pergunta daquelas.
Seria o sono? Seus olhos cinzas pareciam perdidos.
–É o que gostaria de saber- resmungou, mais para responder a si próprio que Alma.
–Mas...
BAM
Foi quando a porta de vidro abriu-se com força. Podiam jurar que ela tinha arrastado-se até quebrar, mas continuava inteira. Apesar de ter sido deslizada (como se fosse firme o bastante para tal) pelo japonês que encarava Alma e Allen como se pudesse invocar um terremoto para engoli-los.
“Hã...ciúmes?”, pensou Alma, mas no segundo seguinte percebia que o olhar raivoso não era exatamente para eles. E logo estranhou o fato da meditação ter durado tão curtos minutos.
Kanda caminhou a passos duros em direção até eles. Ele parecia extremamente intimidador, mesmo usando apenas a parte debaixo do pijama. O que ue valia era o olhar de expressão agressiva dele.
–Tira. Dali.- disse, ou melhor, rosnou.
Allen olhou para Alma, esperando explicações, porque não tinha a menor ideia do que poderia aparecer na varanda para fazer o japonês ordenar algo do tipo. Mas Alma parecia tão impressionantemente confuso também.
–Tirar o que, Yuu?- perguntou, calmamente porque o rosto do moreno não estava nada amigável para se levantar a voz- tem uma aranha? Uma barata? Você nunca teve medo de insetos, por que você quer que eu tire?
–Na verdade- Allen disse, cautelosamente- aranha é um aracnídeo.
–Ah- Alma disse, sarcástico- obrigado, senhor nerd.
Allen poderia sentir-se ofendido, mas Kanda não deu tempo para isso. O japonês agarrou o colarinho de Alma com força, fazendo com que o corpo batesse na poltrona e deixasse o pobre garoto totalmente assustado.
–Tira. Dali.- disse, ainda mais ameaçadoramente, tanto que Allen sentiu suas costas colarem na poltrona, mesmo não sendo ele o ameaçado.
–T-tirar, certo?- Alma perguntou, perguntava pela sanidade do rapaz, mas resolveu ao menos checar. Levantou-se um pulo e correu em passos apressados até a porta de vidro. Em um piscar Alma estava lá fora, examinando o local.
O japonês afundou o rosto nas mãos juntas em concha. Allen não pôde deixar de notar isso, perguntando-se, enquanto relaxava as costas na poltrona, o motivo de todo aquele ataque. Os olhos negros do rapaz ainda pareciam totalmente conturbados com o que quer que estivesse lá fora. Não pareciam amedrontados, mas sim, raivosamente incompreensíveis.
Alma voltou sorrindo.
–Já entendi- riu, o que fez Kanda contorcer o rosto, querendo matá-lo- vou lá.
Allen ficou mais confuso quando Alma colocou um casaco e uma calça para esconder o pijama. Ainda rindo, saiu do quarto na maior calma do mundo
“Ok”, o albino pensou, “que tipo de aranha pede para ser buscada na porta do hotel?”.
–Kanda-disse, na maior calma que conseguia- o que o Alma foi fazer?
O moreno revirou os olhos, Allen percebeu que ele mexia os dedos em uma caixa de cigarros.
–Amparando idiotas sem noção.
“Como se isso fosse uma resposta decente”, pensou.
–Seria muito melhor se você falasse coisa com coisa, Bakanda.
–E seria muito melhor se você simplesmente cuidasse da sua vida, moyashi.
O albino suspirou. Era impossível que não se sentisse irritado quando as pessoas gostavam de excluí-lo dos assuntos. Não que sempre esperasse que as pessoas tivessem que incluí-lo, mas há coisas que simplesmente ferem caso omitidas, mais do que se faladas. Não se esconde coisas importantes e essenciais.
E, se tem uma coisa que ele percebeu, é que Kanda gosta de omitir coisas.
–Quando eu era menor- disse- eu costumava obrigar meu pai a comprar um sorvete na esquina da rua, porque eu tinha vergonha do sorvete ser rosa- suspirou- Pronto. Sua vez agora.
Kanda guardou os cigarros no bolso, suspirando cansado. Allen só queria que ele soltasse a verdade, agora que contou algo sobre si. Talvez fosse assim que fizesse funcionar. Uma troca de favores, mas de verdades. O moreno apenas jogou a caixinha com tudo para longe, fazendo Lavi (atingido em cheio) remexer-se no sono e voltar a roncar.
–Tiedoll e o mordomo, malditos- disse, rosnando cada palavra- estão lá fora.
Allen segurou uma vontade de rir, porque, pelo jeito que o moreno batia no sofá com um cigarro, não era uma boa hora para rir e sair vivo.
–Fazendo o que?
Kanda o encarou como se ele fosse a espécie mais burra do universo.
–Xeretando minha vida. Aqueles filhos da puta, tsc.
–Resumindo, eles vieram ver como você estava?
Não precisou de confirmação, Kanda esmagou o cigarro com os dedos.
–Entendi...
Lavi revirou o corpo. Os dois realmente acharam que ele estaria acordado, mas ele só respirou fundo e voltou a respirar pesadamente.
Era duro sustentar um silêncio tão abominável quanto aquele que acabava de se instalar no quarto. Se tinha algo que Allen odiava eram os silêncios incômodos, o problema especial era que era impossível acabar com a quietude quando estava ao lado DELE.
Kanda era ameaçador. Sempre foi e sempre será.
Mesmo assim, ele conhecia os olhos negros bem.
Bem demais.
Já fazia tempos em que se pegava pensando no porquê de tudo aquilo. Apaixonou-se por um garoto em alguns dias depois de encontrá-lo em um beco e quase ser morto.
E não havia experimentado o limite da matança que ele era capaz
Sentia-se tão familiarizado com ele que mesmo quando o havia encontrado em um beco, por mais estranho que a situação lhe permitia ser, sentiu que havia algo a prendê-lo naquele rapaz.
E já havia até...(engoliu em seco de vergonha), estado nos seus lençóis.
E ,tão de repente quanto havia começado, havia sido rejeitado.
Ele não podia mentir: nunca, nunca desde que havia começado aquela relação imaginou que fosse realmente ficar magoado caso se separassem.
Era como se fosse um teste.
Por outro lado, para Kanda Allen também fora um teste.
Mas o moreno sabia que o encontro deles não poderia ser menos do que uma brincadeira da linha do destino. Ele conhecia o garoto desde tanto tempo. Fora só um olhar. Só um encontro de olhar quando eram apenas crianças.
Mas fora um dia importantíssimo (na mais triste maneira) para a vida dos dois. Um dia que marcara a pessoa que ele era hoje.
–Vou fumar- disse- não ouse reclamar, moyashi.
O moreno se levantou.
–Espero que o imprestável do Alma tenha espantado aqueles idiotas.
–Por que Tiedoll veio até aqui? Vamos estar de volta amanhã.
–Ele é um desocupado desgraçado.
–Mas eu duvido que Alma consiga espantá-lo. Na verdade, acho que ele vai mandá-lo subir.
–É...tsc, imprestável.
–Não pense que vai escapar. Largue esse cigarro.
Kanda arqueou as sobrancelhas, mas o albino devolveu o mesmo movimento.
–Quem você acha que é? Minha mãe?
–Talvez eu seja. Quer fazer teste de DNA?
–Quê? Pare de ser idiota, moyashi.
–Tá, eu não sou sua mãe.
Allen levantou da poltrona e o interceptou antes que pegasse um cigarro da caixa que recuperara.
–Eu odeio cigarro.
Ficaram um tempo parados, os dois com as mãos no cigarro, travando a tão comum batalha de olhares furiosos e desafiadores. Nem perceberam que nunca parariam em lugar algum com aquilo.
Kanda foi o primeiro a se desvencilhar, colocou um cigarro entre dois dedos e o apontou direto no nariz do pequeno.
–Problema seu.
O albino estava pronto para revidar, mas Alma chegou antes disso.
Irrompeu pela porta tentando fazer o mínimo de barulho...mas Tiedoll e o mordomo nem se preocuparam com isso.
Kanda trincou os dentes quando o tipo apareceu acompanhado do criado, escandalosamente cumprimentando os dois.
–Yuu! Allen!- disse, aproximando-se para dar-lhes o abraço de carinho- vim ver vocês. Como estão? Está um calor aqui, não? Abafado... Queria ir na praia um pouco, o trabalho não me dava brechas para aproveitar esses dias. Kevin veio me acompanhar também, ele está aqui para que eu não fique rodando por aí sozinho de carro. Eu poderia me perder nessas ruas e estradas. Viemos de carro, acordamos de madrugada. Fazia tempo que não ficava tanto tempo assim no carro. Ah, a gente parou em um lugar da estrada para comer e você tinha que pegar uma comanda de plástico e eles anotavam o que você pedia. Fazia tempo que eu não ia em um banheiro de estrada. Tinha bastante gente lá! Eles estavam vendendo artesanatos na saída e eu não resisti, comprei umas quinzes garrafinhas cheias de areia colorida. Uau. Era tão bonitinho. Depois eu te mostro. Comprei até um pacote de chiclete sabor melancia. É estranho porque não tem sabor de melancia! Sabia, disso? A embalagem dizia que era bom para os dentes. Será que era mesmo? Ah, será que eu deveria ter comprado para você também, Yuu? Ah, talvez eu compre mais na volta, para você poder experimentar! E a gente passou por um lugar que só vendia coisas feitas de milho! Como será que eles se sustentam apenas com um ingrediente, desse jeito? Uau, depois perguntarei a eles as suas técnicas e...
–Cala a boca!- Kanda esfregou as têmporas com força- Só cale a maldita boca! O que você quer?
–Que grosso, Yuu- Tiedoll choramingou, tentando mostrar uma garrafinha cheia de areia colorida- quis visitar vocês.
Kanda soltou um riso sarcástico, ainda revirando o cigarro nos dedos. Allen podia jurar que viu uma melancolia brilhar nas íris negras.
–Ela tá aqui, não tá?
Tiedoll fez o possível, mas seu sorriso alegre tremulou querendo se desmanchar. Ele guardou o frasco no bolso com todo o cuidado, como se quisesse gastar o tempo de explicação arrumando a garrafinha.
O clima ficou tão tenso que eles mal notaram que Lavi já havia acordado e estava sentado, imerso na “conversa” tanto quanto seus olhos teimavam em fechar de segundo em segundo.
Alma baixou o olhar, mas Allen continuou a encarar o rosto de Kanda. “Ela”. Quem raios era “ela”?
Só esperava que não fosse uma ex-namorada, seu estômago borbulhava só de pensar nisso.
E se uma ex-namorada conseguia deixar tudo tão mal assim só de mencionar, ele agradecia por gostar de um homem.
Não que Kanda fosse muito melhor no quesito “deixar melhor”. Ele conseguia deixar tudo pior.
“Legal”, pensou, “pensar em gostar de homem me deixa depressivo...”.
Allen se sentia uma daquelas pessoas que namora delinquentes e os pais e amigos vivem tentando convencê-las do contrário. Como nos filmes e histórias contadas. O problema foi ninguém ter tentado convencê-lo a parar. E agora estava ali, em uma viagem confusa (metaforicamente e literalmente, você escolhe qual interpretar), tentando não prestar atenção no silêncio do quarto.
O problema? Histórias assim geralmente terminam em assassinato.
Kanda estava tão indescritível, estava agora vestindo uma camiseta qualquer somente para não ficar exposto, e Allen não tinha certeza se ele estava incomodado com tudo aquilo e “ela” ou se estava realmente despreocupado quanto parecia.
Ele jogou o cigarro na mesa, vendo que não dariam folga para que pudesse fumar, e agarrou uma latinha de refrigerante (Alma havia proibido que ele bebesse qualquer coisa alcoólica) na geladeira. Estavam todos a observar quaisquer passos dele, até Lavi acordou totalmente sem dizer absolutamente nada e ficou quieto, sentado na cama com aqueles fios ruivos amassados, mesmo que Allen estivesse totalmente deslocado no assunto.
Kanda se jogou em uma poltrona, ficou um tempo engolindo a bebida gasosa como se não houvessem pessoas esperando sua fala e apenas quando parou deu atenção aos outros. Arqueou as sobrancelhas e desceu a latinha até a cômoda, cruzou as pernas e apoiou o cotovelo no braço do sofá. Parecia ter todo o tempo do mundo para eles, mas não queria de modo nenhum gastar esse tempo ouvindo os amigos. Encarou-os com uma dúvida arrogante expressada no rosto inteiro.
–O que foi?- perguntou, batendo os dedos no braço apoiado.
Tiedoll parecia bem conturbado.
–Como você sabe que ela...?
–Dedução. Você está aqui, afinal- suspirou- mas ela sabe que eu estou aqui?
–Creio que não- respondeu rápido- mas você não está...hm...nervoso com isso?
Kanda pareceu pensativo por um instante. Seu rosto desceu até poder esfregá-lo nas mãos.
–Pensei bastante. Andei pensando esses dias.
Tiedoll ficou por um bom tempo analisando o rapaz, como se ele tivesse um chifre na testa ou algo do tipo. Não parecia convencido, mas minimamente comovido.
–Fico feliz- disse, mas tudo que queria saber era se Kanda havia aprimorado sua habilidade de farsa ou saber o que ele realmente sentia.
Kanda suspirou. Se Allen, Alma e Lavi sabiam de alguma coisa sobre o moreno, era que ele não chegava a ter uma paciência tão grande em se tratando do tio.
E se Kanda tinha uma certeza sobre ele mesmo era que ele odiava pessoas que se preocupavam com ele. Xeretas.
–O que mais?- disse, ainda rude.
Tiedoll parecia prestes a se quebrar. Estava mais que exposto em suas expressões e modos que ele havia ido apenas para impedir que Kanda soubesse. Agora, só lhe restava alcançá-lo.
–Cho- disse, pesadamente e rápido demais- Cho está aqui, também.
Tiedoll parecia estar confessando malfeitos, porque estava abatido em dizer tudo de uma vez. Parecia uma confissão de pecados para Kanda, como se a posição houvesse invertido e o tio agora fosse um adolescente admitindo o que havia feito na noite passada para o pai rigoroso. Só soltava tudo que não planejava falar.
–Quem é Cho?- Allen deixou escapar.
Tentou não deixar o tom meio magoado e meio desesperado sair, mas Lavi percebeu. O caolho ajeitou-se confortavelmente na cama.
–A irmã dele- o ruivo respondeu, foi a primeira coisa que disse desde que acordou e ainda parecia tentado a dormir novamente- Cho Kanda.
–E a mulher que está aqui...?
–A mãe- Alma respondeu, encarando algum ponto aleatório no tapete-Mayumi Kanda.
Parecia uma grande confissão coletiva. Allen queria afundar e dormir, odiava climas pesados e parecia que estava enfiando-se onde não devia.
Na verdade, queria perguntar, mas : 1, não era da sua conta, 2, ninguém parecia querer falar nada.
Cada fala seguia-se de um silêncio, como se esperassem a próxima revelação.
–Não pergunte- Kanda disse, com seu tão seguro tom de ameaça.
Allen confirmou com a cabeça, obedecendo sem nem pensar.
–Não vou perguntar- disse.
Kanda tornou a se virar para o tio.
–E por que elas estão aqui?
–Não sei. Férias?
–Como? Mayumi não estava sem dinheiro?
–Você conhece sua mãe. Não gosta de demonstrar que lhe falta coisas.
–Na verdade, não conheço.
Kanda jogou a lata, agora vazia, em cima da cômoda. As palavras eram duras, mas ele parecia convicto de tudo isso. Estava acostumado.
Mas estar acostumado não é algo bom.
O moreno suspirou. Como tudo consegue dar voltas e continuar ruim para ele?
–Tsc. Vou dar uma volta. Vocês são um porre de tão barulhentos. Que saco.
O moreno se levantou, sem tomar o menor cuidado com a poltrona riscando o chão com força. Sem mesmo esperar qualquer comentário (não que alguém fosse comentar, pois tudo ficou em silêncio novamente) saiu para o corredor, deixando para trás apenas o estrondo da porta fechando.
E a quietude desconfortável.
–Ai, ai- Tiedoll choramingou, depois de longos três minutos de total silêncio- estraguei tudo.
–Nem pense nisso-Alma respondeu- o que você fez foi válido. Kanda é que ultrapassou as expectativas- suspirou- eu devia prever isso.
–Hey, hey, hey- Lavi disse- vocês estão se penalizando sem sentido algum.
Os dois concordaram, mas ainda preocupados.
Allen achou incrível o modo como eles se preocupavam com Kanda. Pareciam sincronizadamente preocupados até em suspiros. Em qualquer outra situação, aquilo poderia ser cômico.
–Mas é verdade mesmo?- Lavi perguntou- Mayumi está aqui?
–É- Tiedoll respondeu com amargura extrema- soube por um vizinho dela. Ela e Cho viajaram para cá- suspirou- somos extremamente azarados.
–Kanda é azarado-Alma completou, mas sussurrou depois- e idiota...
O amigo rolou os olhos para o albino do outro lado do amontoado de poltronas, como que para completar sua última frase.
–Ele mentiu, não mentiu?- Lavi perguntou- sobre estar calmo...
Tiedoll incomodou-se.
–Não sei.
–Não sabemos- Alma completou.
–É o Kanda, afinal.
–Ok- Allen disse, mais para si mesmo do que para qualquer outro, era a primeira vez que falava na conversa- isso tudo é muito confuso.
–Sim, é...-Lavi resmungou, jogando-se deitado de volta na cama.
Alma faiscou os olhos castanhos.
–Resolvendo isso, resolvemos vocês- disse para Allen, querendo conter um sorriso de tristeza feliz.
Allen ergueu uma sobrancelha.
–Isso?
–Nada- Alma disse, mas só quando Lavi lançou-lhe a advertência pelo olhar: “Não o meta”.
Allen podia estar enganado, podia estar sendo precipitado demais, mas podia jurar que um brilho sugestivo passou pelas orbes de Alma quando seus olhos encontraram-se rapidamente.
Aquilo que todos eles estavam fazendo ali era mais do que uma conversa.
Era um debate um tanto silencioso demais.
E tudo que Allen conseguia pensar no momento era em como gostaria tanto de resolver o “vocês” que Alma mencionou.
Já para Kanda...
... havia coisas a serem desenvolvidas e resolvidas.
E o motivo de querer mudar tanto era uma delas.
Fale com o autor