Notas iniciais
Yey!!! Antes do "como vai você?", sei que tem muitos que estão super bravos comigo T^T peço perdão de joelhos, curvada ao máximo, de testa no chão!! Culpa? Minha, pelo bloqueio terrível que me atingiu, da atolação em coisas para fazer (de verdade verdadeira). Os capítulos vão sim demorar para sair, mas eu nunca, NUNCA, abandonaria uma fic, fiquem mais tranquilos :) Só Pure Imagination que sai mais rápido porque é mais fácil de escrever e ainda está no começo hahaha -Não foi, de maneira nenhuma, revisado. Como eu fui escrevendo de pouco em pouco, pode ser que esteja um pouco recortado ou sei lá. Talvez a história tenha ficado um pouco assim, e eu espero que a escrita não tenha sido prejudicada pela minha falta de jeito, mas eu realmente não tenho tempo para reler o cap hahaha qualquer erro terrível, me avisem, por favor :) -O azar foi que, na semana que eu tinha separado para escrever BB, eu fiquei doente , de repouso por 3 dias e entalada de coisas para fazer no resto... dei um jeito e aqui está haha -Estou com um pouco de pressa agora, desculpe se não esclareci muita coisa nas notas haha muitos me pressionaram para trazer esse capítulo hahaha -Boa leitura o/

Eu já vi você se quebrar em míseros pedaços de uma tristeza traçada de vermelho vivo.

Trançamos nossas vidas.

E cortamos a esperança.

Se você se lembra dos olhos negros assombrando aquele dia, no canto daquele beco, será que mais uma vez você não cairia em pedaços?

Mais uma vez. Caindo. Sangrando.

Sem conserto. Sem volta.

Sem inteiro.

Eu não aguentaria ver

O branco manchado de vermelho.

–X-

Kanda estava bravo. Para não dizer um palavrão, ele estava bravo. Só bravo. Muito bravo. Muuuito bravo.

É como se o mal o perseguisse para todos os lados. O mal tinha nome: mãe. Ou melhor, Mayumi, já que estava terminantemente proibido de mencioná-la como parente próxima.

Também tinha plena consciência de uma das regras fundamentais do universo: um erro cometido pode ser sem mais volta. Mas, sabe, ele já cometia muitos desde sempre, por isso criou sua própria lei fundamental de resposta, uma solução para tudo: foda-se.

“Kanda, você é de uma família importante, aja como tal”. Foda-se.

“Kanda, você não gosta de manteiga”. Foda-se.

“Kanda, você não devia explorar becos de subúrbios enquanto criança”. Foda-se.

“Kanda, seu pai está morto por sua causa”. Foda-se.

“Kanda, sua mãe te odeia e te expulsou de casa”. Foda-se.

“Kanda, você devia sair mais do quarto”. Foda-se.

“Kanda, você machucou muitas pessoas”. Foda-se.

“Kanda...o moyashi...”. Fod...

...

Talvez as regras nunca possam se aplicar a tudo, afinal.

Sentiu sua tão louvável vontade de estourar alguns rostos subir pela cabeça. Era o que sempre fazia quando estava em conflito: machucar.

Estava em sua alma. Um bad boy nato que não se prende e muito menos se deixa levar por outros. Segue seus próprios mandamentos e (incluindo novamente sua lei fundamental) fodam-se as regras de outros.

Odiava pensar nas consequências. Então, para ele, elas não existiam.

O Sol já subia mais confiante para o centro céu. Apesar do calor do dia anterior, Kanda previa mais frio. De todas as maneiras possíveis de se ter frio ou senti-lo.

Queria acabar com tudo. Sua mãe, seus problemas, seu passado, sua vida. Só não sabia em que ordem começar. Apenas isso.

E ainda tinha o problema com o garoto albino. Ele nem sabia o que pensar sobre aquilo. Se o amava? Não sabia. Não deveria. Quando depois de encontrar sua mãe resolveu falar-lhe aquelas maldades, pensava estar falando a verdade. A mais pura verdade que tinha para contar.

Que não gostava dele. Que não o queria. Que fora apenas mais um caso daqueles que pessoas como ele tinham periodicamente, sem repetir.

Mas quando o viu magoado. Não estava nos planos o aperto que sentia no peito.

Algo mexeu, algo bateu dentro de si.

Estranho... achava que estava morto...

Seu impulso o fez se desculpar. Seu impulso o fez dizer coisas melosas e idiotas que nunca diria em sã consciência. Impulso de vida.

Tentou convencer-se muitas vezes a noite “o sexo é mais prazeroso, apenas isso. Ele é mais apertado que garotas, apenas isso”.

Apenas isso. Isso, apenas.

Mas algo em si convencia-se, em negação, com uma teoria que o fazia querer vomitar: destinos traçados. Talvez não fosse de agora a atração que tinham, mas de um desespero antigo em um momento terrível e marcante. Um momento e sensação mútuos, compartilhando as dores que durariam por anos.

E marcariam suas vidas em ferro quente. Carimbaria a tristeza e deformação deles próprios.

Ironicamente, encaminhou-os a um novo encontro.

Um novo...sofrimento?

Kanda não sabia o que procurava enquanto caminhava decidido pela cidade, logo depois de ter recebido a pior notícia possível e saído do quarto. Estava sendo sufocado lá dentro, mas estar vulnerável fora de lá parecia ainda pior.

Não fazia a menor ideia, mas mesmo assim continuou andando. Rua por rua. Esquina por esquina. Seus pés sem querer o levaram para perto da praia, onde a brisa soprava mais fria, mas o clima ainda estava abafado.

Odiava o litoral e odiava viagens.

Só queria voltar para seu território de conforto. AQUELE lado da cidade, onde podia fazer o que viesse a cabeça. Onde podia se libertar de qualquer amarra. Mas, ultimamente, nem lá tem sido contentador o bastante.

Aquilo estava ficando irritante. Queria voltar e deixar toda essa baboseira de viagem acabar, queria que o dia acabasse, para então poder voltar.

Queria voltar o tempo e mudar tudo. O que mudar? Nem ele mesmo sabia. Mas sabia que queria mudar algo.

Mas, como máquinas do tempo ainda não foram criadas com sucesso, caminhar um pouco e se isolar ajudava bastante. Talvez não o suficiente, mas bastante.

Ele conseguia ouvir as fracas ondas batendo na areia. Viu quando a família chegou à areia, as crianças correndo em direção ao mar, a garota afrontando uma pequena onda, o garoto rindo quando a irmã rolou em cambalhotas na água. O pai e a mãe observavam da areia, não se preocupando em se instalar, mas em aproveitar como a brisa soprava fresca de tempos em tempos.

Antes que percebesse completamente, estava parado na calçada, observando cada movimento das pessoas que se aproximavam para sentir o oceano.

Revirou os olhos. Já estava na hora de parar de se enganar com esse tipo de coisa.

Ah, ele sabe o que é ter ilusões esmagadas eternamente. E a sensação não era nada boa.

Encarar cenas de uma vida passada como ele fazia no momento não era nada saudável para seu interior.

Começou a andar de novo, devagar, já cansado de encarar o horizonte tão sem objetivo, como se as ilhas se movimentassem como tartarugas gigantes.

Era o que gostava de imaginar quando menor.

Antes que qualquer coisa pudesse lhe abater, algo lhe bateu. Bateu no ombro, com pouca força, mas necessária para alertá-lo de que estava distraído demais. Percebeu dedos envolvendo sua área perto da clavícula e ouviu uma respiração pesada atrás de si.

Reconheceria aqueles dedos pálidos em qualquer situação.

–Moyashi?- perguntou, recebendo segundos de respiração intensa como resposta.

–Arf...Kan...eu...só...espera um pouco...arf.

Ficou um tempo assim, parado, sentindo os dedos no seu ombro espalharem um formigamento estranho que lhe diziam para fugir. Mas fugir para perto dele.

Allen engoliu em seco quando o fôlego voltou.

–Ufa. Obrigado por parar. Você estava indo rápido.

–Eu estava andando.

–Então estava andando rápido.

O garoto demorou longos segundos para escorregar os dedos para longe de Kanda. O moreno desandou a andar novamente, sem se preocupar com o albino. Ou assim aparentava, pois tentou diminuir sua velocidade de caminhada para que ele não se afastasse. Se isso foi consciente ou não, ninguém saberia dizer.

–O que está fazendo?- rosnou de volta ao garoto, percebendo que o mesmo estava colado a ele.

–Ah, Lavi, Tiedoll e Alma estavam falando de coisas chatas que eu não entendo. Resolvi dar uma escapada e acabei trombando em você.

“Que tipo de pessoa perde o fôlego só de trombar ao acaso em uma pessoa?”, pensou o moreno, mas logo afastou suas sugestões.

–Que seja.

Ele nem precisou olhar para saber que o pequeno o encarava com intensidade. Antes, teria logo socado seus olhos até que não pudesse mais abri-los de tão inchados e roxos, mas não tinha qualquer ação contra ele.

Irônico, Kanda Yuu, uma pessoa que tanto machuca outras sendo dominado por uma criatura albina e baixa.

Mal sabia e mal pensava em imaginar que Allen havia apenas escapado do quarto para procurá-lo, preocupado demais com qualquer sinal de tristeza que pudesse captar no moreno. Vagando sem parar pelas ruas que acabaram por perdê-lo novamente, foi com total satisfação que o encontrou parado perto da praia. Era o último lugar que pensou que o encontraria, mas nem pensou nisso enquanto se aproximava. Até que chegou perto o bastante para observá-lo melhor. Captou algo ruim na sua observação distraída e intensa ao horizonte, mas nem pôde identificar sua origem ou constituição, suas pernas foram mais rápidas.

Por isso, achou estranho que tudo estivesse tão normal quando estava perto dele, mas limitou-se a segui-lo em silêncio. Sabia que ele odiava tagarelas.

Apesar de o silêncio incomodar, nenhum dos dois tinha como começar uma fala qualquer. “Como vai você?”, “E a sua mãe?”, “O mar está bonito hoje”. Permaneceram quietos enquanto andavam.

Allen prendeu sua atenção momentaneamente nas pessoas na praia. Despreocupadas, seguiam a vida, usufruindo da diversão que tanto dispunham. Mal sabiam elas do quão quebrados eram os dois garotos lado a lado, ombro no ombro.

O albino também percebeu os olhos negros e fundos caminharem o percurso inteiro do mar, observando definitivamente o casal com seus filhos construindo um péssimo castelo de areia molhada, antes de prender o olhar nos olhos incolores que o encaravam de abaixo.

Kanda sentia que lhe devia tanto.

Foi quando ouviu um grito longo. Não era do mal, muito menos de medo ou desespero. Era um chamado. E ouvia claramente a entonação de seu nome.

–Yuuuuuuuuuuuuu- ouviu. Aquela voz só poderia pertencer a uma pessoa.

Kanda se virou de corpo inteiro, trombando o ombro com força no de Allen. E a viu se aproximando e passos largos. Cabelos castanhos, olhos brilhantes, aquela só podia ser...

–Cho?- Kanda sussurrou, um pouco contrariado. Allen ergueu uma sobrancelha para a cena, mas só observou.

A garota foi se aproximando, Allen de primeira não notou nada nela que fosse incomodar seu conforto. De primeira. Uma garota que sorri para Kanda e o deixa sussurrando não é algo fácil de se ver e fazia o interior do garoto espalhar uma sensação estranha demais. Uma sensação que ele conhecia, mas nunca admitia: ah, ciúmes. Ela, sem tirar o sorriso, os alcançou. Usava um vestido simples de flores e o albino tinha certeza de que deveria usar uma roupa de banho por baixo.

–Yuu...- ela disse- te encontrei. Eu te encontrei.

–Hã...é- o moreno respondeu sem deixar brecha para entender e sem tirar os olhos da garota.

A menina pulou no pescoço do moreno, apertando-se contra seu corpo. Mas o que deixou Allen sem saber o que fazer, mais do que estar na presença de uma cena um tanto constrangedora, foi que Kanda nem ao menos reagiu como esperava.

Conseguiu ouvi-la falando com a voz abafada pelas roupas e corpo do maior.

–Ah, foi uma surpresa te encontrar. Eu estava com saudades. Mamãe me falou para dar uma volta na praia, mas quem diria? Yuu...

Kanda nem ao menos respondeu. Mas Allen estava incomodado demais para ficar calado.

–Hã... Kanda?- perguntou cautelosamente, vendo que a mão do moreno ia parar nas costas da garota- você...? Ela...? Tá tudo bem aí?

Adicionou a última parte porque o moreno parecia um pouco desesperado e dividido na cena.

A garota se desvencilhou do abraço (já que a maior parte do abraço era por sua parte) para observar quem era o ser desconhecido que não havia notado antes. Allen congelou na hora em que seus olhos pousaram no dela: era diferente, mas tinha algo igual.

Seus peito borbulhou.

–Olá- ela disse, estendendo a mão- Cho. Cho Kanda.

Allen franziu o cenho antes de cumprimentá-la.

–Allen Walker. Hã... eu...é...

–É, eu sou irmã do Yuu.

–Irmã?

Allen tentou esconder a expressão e tom de surpresa. Sabia que Kanda mal falava sobre ele mesmo, mas tudo continuava confuso. Fingir não estar um pouco deslocado por não saber de nada era difícil.

–Uau. Irmã...

E tentou esconder o tom pouco magoado.

Mas Kanda não se preocupou momentaneamente com o jeito que o albino agia. Tinha uma coisa pior para perguntar.

Só precisava de um momento oportuno.

Cho apertou a mão de Allen, apenas por costume, nunca deixando o sorriso do rosto. Estava acostumada a sorrir toda vez que podia.

Kanda mandou se foderem os “momentos oportunos”.

–Então ela está aqui?

A garota amoleceu o rosto. Pega de surpresa? Sim ou claro? Mas já tinha noção de que as chances desse tipo de pergunta surgir eram existentes.

O problema era o que vinha depois.

–Está, sim. No mercado. Mas acho que deve ter ido ao quiosque ali na frente. Por quê? Você...

–O dinheiro...

–Hã? Que dinheiro?

Tiedoll estava certo. Mayumi nem ao menos se deu o trabalho de avisar Cho: gostava de ser rica, nem que fosse apenas na palavra.

Cho suspirou, parecendo pesar suas próprias palavras com o maior cuidado.

–Você que vê-la?

–X-

“Você quer vê-la? Quer resolver tudo de uma só vez?”

Falar é fácil. Fazer é que são elas.

O problema de Kanda nunca foi a mãe em pessoa, sempre foi o que ela trazia: a loucura, a decepção, o medo, todos igualados em um furacão temeroso de lembranças guardadas e mal contadas.

Perto demais, próximo demais e ao mesmo tempo ainda longe viu a figura de Mayumi sentada no quiosque. Um ponto colorido sentado na cadeira. O lugar vazio, sem nem ao menos trabalhadores ainda, era silencioso.

Só sabia que era sua ex-mãe porque Cho havia apontado. As roupas da mulher escondiam seu rosto com um chapéu largo e óculos escuros.

Era estranho. Dali, ela parecia apenas uma coisa frágil e desesperada.

Mas era isso que ela era. Quebradiça.

Quem dera ele tivesse percebido épocas antes. Teria evitado vítimas demais.

....inclusive ele mesmo.

Allen adiantou-se a agarrar o ombro do maior. Não sabia nem de metade do que aquilo significava, mas sabia que era grande. Se pudesse dar-lhe o apoio para enfrentar um mundo inteiro, daria. Mas só podia esticar seu braço até um ponto.

Sentiu a respiração de Kanda demorar, para depois seus ombros relaxarem. Repreendeu-se por fixar por um bom tempo os olhos na figura do moreno, tentando ler e confundir-se com a imagem. Mas não parou de encarar.

Olhar não arranca pedaço, certo?

Droga. Desde quando havia começado a pensar como Lavi?

Cho, a garota que agora sabia se tratar de uma familiar, esfregou a mãos nas costas do japonês. Allen viu as semelhanças nas feições de ambos, mas encontrou-as tão mescladas nas diferenças.

Ficaram um tempo assim, apoiando-se e observando. O primeiro movimento veio de Kanda, mas, surpreendendo Cho e Allen, não se movia para frente, apenas desvencilhou-se dos braços e virou se costas para a figura de sua própria “mãe” sentada longe dali, mas ainda visível.

Seus olhos continuavam duros, como sempre foram e seriam.

–Não preciso disso- ele disse, a voz mais profunda pelo tom baixo- é só olhar para ela. Tsc. Patético.

Allen olhou para a figura solitária, mas não sentiu nada. Sabia que aquilo vinha de Kanda e de sua história.

Poderia ser uma sombra, mas pensou ter visto a ilusão de um pequeno sorriso.

–O quê...?- Cho olhou de um lado para outro- Yuu? O que você...?

O moreno parou de andar.

–Ah, Cho. Pergunte para ela sobre o que aconteceu com o dinheiro da família- ele sorriu de canto- ela vai adorar responder.

A garota ergueu uma de suas sobrancelhas. Allen nada mais pôde fazer senão seguir Kanda enquanto este se afastava do lugar, passos aumentando cada vez mais de velocidade, fazendo barulho na calçada exclusiva para bicicletas.

Allen poderia pedir a Kanda para sair da ciclovia, mas não achou que fosse a melhor coisa a se dizer no momento.

Antes que percebesse, já tinham se afastado consideravelmente do lugar em que estava a tal mãe de Kanda.

Allen tinha conseguido apenas um vislumbre de sua imagem. Coberta de roupas com certeza caras, mas também praianas, ele sabia que os óculos escuros escondiam íris negras e frias, sabia que o chapéu largo carregava os cabelos lisos escuros que tanto plantavam a imagem do moreno na sua mente, sabia que a pele pálida que o sol não resolvia era um reflexo da alma mal cuidada.

Só sabia.

E sabia que um dia saberia sobre ela. Quando conseguisse alcançar o moreno.

Kanda encarou por um tempo o horizonte, novamente. Não sabia o que fazer e muito menos o que dizer. Tinha acabado de rejeitar sua ex-mãe, porque sabia que se fosse para encará-la...sangraria. Sua mente iria explodir e seu coração ia disparar. De medo, de raiva, de desgosto, de saudade...ele pouco se importava.

Sua mente já explodia e seu coração já disparava por outra pessoa.

“Droga”, pensou, apertando os pulsos, “já estou pensando coisas idiotas como essa”. Estava perdido. Mas não podia se importar menos.

Seus olhos vagaram o tapete de areia até o quiosque em que Cho acenava com cuidado.

Não era uma fuga. Aquilo ali era superação.

Se era para viver tentando resolver a desgraça de seus problemas, sendo que, ele sabia e todos sabiam, ela não tinha solução, era melhor sair de perto.

Não voltar. Não pensar.

Já havia sido rejeitado. Só não sabia que aquela era a melhor coisa que poderia acontecer, talvez.

Só aceitava aquilo. E ia.

Não tinha outra solução para uma cabeça tão esmagada como a de sua mãe. Desculpe: ex-mãe.

Se algum dia, por algum motivo, voltar a vê-la, não seria com os próprios olhos. E muito menos cedo assim.

Conversaria com Cho mais tarde, quando com certeza ela teria perguntado sobre o dinheiro para a mãe. Seria divertido ouvir a reação.

–Kanda- ouviu a voz de Allen sussurrar ao seu lado, como se temesse provocar a fera. Quase revirou os olhos, vendo o quanto assustava o pequeno- onde você vai?

–Embora.

O moreno pisou em direção à rua, mas apenas uma vez, pois um punho apertou seu ombro.

–Não. De novo, não.

Se não fosse pela brisa zumbindo, diria com certeza que o menino tinha desespero estampado, mas pensou estar confundindo com seu próprio.

Allen puxou o braço de Kanda com calma, o moreno tampouco protestou, seguiu o menor em passos agora lentos enquanto andavam pela calçada, em direção ao hotel.

–Sua irmã...- o albino começou- ela...parece ser uma...pessoa muito legal...

–Não tenho certeza. Não a vejo há anos.

–Hã?? Quê? Anos?? Você...- sua voz morreu na dúvida, mas não era preciso que terminasse de perguntar.

Kanda balançou a cabeça.

–Longa história, moyashi.

–É Allen. AL-LEN. A-lle-nnnn~

O albino mostrou sua língua para o maior. Não porque queria melhorar o clima abafado, mas conseguiu sem querer, pois o moreno sombreou uma risada.

–Continua um moyashi. Só um moyashi.

–Um moyashi que pode te vencer no poker.

–Um moyashi que fica bêbado em dois copos de bebida.

–Ei! Foram mais, ok?

–Tsc. Como você pode saber?? Você tava bêbado... me seguindo até esses lugares como um cachorrinho...tsc. Você só pode ter merda na cabeça.

–Bakanda!- sorriu de canto-diz aí, você não queria entrar na água porque tinha medo de bagunçar esse cabelão, né?

–Não fui eu que tinha medo de torrar no sol...

–Argh. Idiota...

–Moyashi.

Tentando impedir a veia saltar em sua testa, de raiva, provocou um bico nos lábios.

–Ué, você estava muito melhor se desculpando no parquinho...

Kanda revirou os olhos. Seria melhor se ninguém falasse mais de suas tentativas melosas...

Ok, o moyashi tinha pegado pesado agora...

–Tomara que você tenha aproveitado aquele momento, então- concluiu, sentindo uma veia saltar rapidamente de sua cabeça- não vai acontecer de novo...

Allen aumentou o bico. Kanda usou o tanto de força que tinha para não olhar para o menino ao lado, por mais que o albino o encarasse intensamente, tentando-o a olhar.

O moyashi podia ser o demônio em pessoa, Lavi já tinha dito isso em algum momento para ele. Mesmo que Kanda, pelo que ele pensou, não tivesse realmente passado por isso de verdade.

O moreno já sentia o que Lavi queria dizer com demônio.

–Por quê? Você quer tanto que isso aconteça de novo? Tsc- tirou sarro, girou os olhos, enquanto atravessavam a rua, já vendo o prédio do hotel mais perto.

O que dava no pequeno para trazer isso a tona tão de repente assim? Incompreensível.

Mas quando aquele garoto não era?

E quando ele mesmo era?

Nada era compreensível na vida. Já devia ter superado há muito tempo.

–Ah, seria bom- Allen sorriu, ainda que fosse de canto. Estava feliz por não ver o brilho estranho nos olhos de Kanda que via alguns minutos atrás.

–Que pena- Kanda apressou o passo, apenas para sair do lado dele- não vai acontecer de novo.

Ali estava, de novo. O bico nos lábios do garoto.

Kanda revirou os olhos para a cena que ele fazia.

–Para com isso.

–Parar com o quê?- perguntou, fingindo sua melhor inocência.

A Kanda ele não enganava. Inocência. Pffft.

–Com esse drama todo. Como foi parar nesse assunto?

–Nenhum drama... Nada, nada. Só cheguei nesse assunto.

“Estranho momento para trazê-lo”, pensou o moreno, mas nem se preocupou em fazer fala.

–Você está pedindo, moyashi...- sussurrou, sem ter certeza de que o menino ouvia.

Allen correu os olhos no horizonte, dando voltas nas ilhas que pontilhavam a linha de encontro azul escuro e claro.

Seus pés pararam de andar e Kanda só percebeu a falta de companhia alguns passos à frente.

–Eu sinto...- o albino ainda rolava os olhos ao longe, tentando entender-..eu sinto uma estranha falta.

Kanda resolveu arriscar apenas pela estranheza da aproximação do pequeno e da conversa mal colocada.

–Da...sua mãe?

Ah, ele se lembrava de cada detalhe daquela história: estava lá, presente, tentando se esconder.

O albino franziu o cenho.

–Não, babaca, de você.

A voz que saía quase como sussurro, deixou-se levar pela brisa. Mas não desapareceu por completo. Kanda havia ouvido, só não certamente acreditado.

–Você já pediu desculpas- o albino concluiu- eu só...- suspirou, pensando no moreno e na tal família que ele teria- só preciso ouvir de novo. Sabe...que o que você disse era mentira... tudo aquilo...

O pequeno tremeu, mas quem mais se abalou foi o maior. Nenhum deles encarava o outro. Os prateados encaravam o mar calmo, ainda e os negros não focava em ponto nenhum na rua.

–Tsc.

O albino deixou-se distrair pela força da brisa.

Terrível erro. Mal pôde responder quando os braços o atingiram.

Não precisavam de explicações momentâneas, muito menos de razões.

Esse tipo de coisa pode ser encontrado mais tarde.

Quando menos se percebeu, suas costas doíam, pressionadas contra o muro de uma casa qualquer. Aos seus dois lados, as mãos de Kanda apoiavam o corpo grande a sua frente.

Allen não podia mentir. Tinha se assustado bastante.

Mas logo seus pensamentos correram até o primeiro dia. O beco, o garoto encolhido e ferido perto do lixo, o sobretudo negro.

Agora, Kanda usava apenas uma camisa e uma calça. Mas continuava ameaçador como sempre, usando aquela expressão franzida e fechada de sempre.

Diferente do que pensava, as mãos afrouxaram no apoio, correndo toda a direção do seu ombro até os dedos finos. A expressão era a mesma, mas também podia dizer que tinha até se acostumado à ameaça iminente naquele jeito de agir.

Só tinha um jeito de terminar com aquela queimação no peito.

O ataque afrouxou seu aperto. Allen identificou uma brecha para subir os dedos até o rosto do maior. Tocou cada traço como se pudesse assim pudesse tê-los para sempre.

Era estranho. Assim que olhava nas íris escuras, sentia uma nostalgia. Má, boa. Gostosa, terrível.

Ele se lembrava de algo, como se já as tivesse visto. Só não lembrava como nem onde.

Sem terem como parar, mergulharam os rostos juntos. Juntaram os lábios pela primeira vez em muito tempo. Pouco tempo que era muito.

A primeira coisa que sentiram foi a textura dos lábios. Depois, já nem sentiam direito, só afundavam naquilo.

O beijo foi calmo, foi lento. Os lábios juntos e bem encaixados moviam-se com paixão. Kanda mal controlava seus dedos que afundavam na nuca do albino e este mal percebeu os dedos acariciando a bochecha do maior.

Era a melhor sensação dos últimos dias.

Mas, como todas as boas sensações, ela teve que parar.

Separaram-se em um estalo, sem tirar as mãos de onde estavam e sem se preocuparem com o lugar em que estavam.

Os olhos não se abriram e nem se encontraram de imediato. O rosto do albino fervia, mas o moreno não estava muito melhor nesse quesito.

Encostaram as testas, como para recuperar a energia gasta na combustão. Só segundos depois que os olhos se encararam.

Surpreendentemente, Kanda soltou uma risada. O som soprado bateu no nariz do menor e esse acompanhou com um riso também.

Os dedos do moreno subiram de volta ao pescoço do outro.

–Desculpa-sussurrou, totalmente contrariado, mas derrotado pela sensação- Tsc. Essa é a última vez que eu falo isso.

Allen sorriu de canto.

–Ok, ok. Entendido. Eu também peço desculpas. Eu sei que tenho minha própria culpa nisso.

–Tá, tá...- seu tom era impaciente- Tsc. Será que a gente pode parar de se desculpar e voltar para o que estávamos fazendo?

O sangue subiu pelo rosto do albino. Kanda mal conteve seu sorriso, mesmo recebendo um chute fraco na canela.

–Bakanda!- gritou sussurrado.

Mas mesmo que tenha ficado “irritado”, não recusou o selar rápido dos lábios que Kanda deu.

–Cala a boca, moyashi.

–A-LLE-N~! Já disse isso, seu idiota.

–Tá, tá... claro- revirou os olhos.

Kanda disparou na frente, sem esperar que o menor o alcançasse.

Tentava esconder o sorriso tão descaracterizado que plantou nos lábios sem querer.

O que era aquele idiotice toda?

Notas finais
Era para ter escrito mais um pouco, mas decidi parar por aí porque achei mais certo na história :P Reviews?? Prometo tentar a máximo escrever mais rápido, mas nada garantido... Qualquer erro terrível, me avisem, por favor! hehehe -O próximo deve focar um pouco no Lavi também. Sinto falta daquele ruivo haha Muito obrigada por lerem!! E ainda mais se comentarem! Até! o/