Bad Boy
26 Grupo de suporte
Notas iniciais
–Ahn- o albino fechou os olhos enquanto degustava o sabor com todos os sentidos possíveis- cara, isso é muito bom! Onde você estava esse tempo todo, pedaço do paraíso?
Allen queria engolir todo o prato de pães que tinha a sua frente, mas ao mesmo tempo queria mais que tudo que o gosto perdurasse na boca.
Oh, vida. Oh, indecisão.
Engoliu rapidamente, antes que mudasse de ideia, e logo tinha outro pedaço em mãos. A vontade foi, como sempre, mais forte que sua mente e para ele sempre foi mais difícil pensar nas melhores alternativas quando se sentia instigado a preencher o estômago vazio antes de qualquer outra necessidade qualquer.
Kanda não podia dizer que repulsava o ato guloso do garoto. Mas que estranhava, estranhava. E muito. Por isso, sentado em frente a ele na pequena mesa para dois, encarava-o com os mesmos olhos divididos entre o impressionado e o confuso.
–Sempre me pergunto para onde vai tudo isso...- murmurou, sem mexer a expressão dura.
Allen nem esperou engolir para responder. Sabia que logo depois de engolir não era hora de falar, mas de mastigar outro pedaço.
–Ora, Kanda- falava com dificuldade, o tom obstruído pelo espaço que o pedaço de pão recheado ocupava dentro de sua boca- se você quiser, eu te conto sobre como o corpo humano funciona depois, mas agora eu estou mais para comer isso aqui.
O moreno arqueou uma das sobrancelhas ao vê-lo engolir ao mesmo tempo que outro pedaço entrava na boca. Rápido e sem cerimônias. Exatamente como o próprio garoto.
Que ironia.
–Quem diria que um posto no meio da estrada poderia satisfazer os gostos do Allen tão facilmente, não? Desde que eu fui e voltei, acho que esse é o..terceiro prato?
Alma voltava do banheiro. Tinham parado na volta para casa justamente por causa dele e do albino, que reclamavam o tempo inteiro das necessidades básicas de um ser humano. Um reclamando com a boca, outro com o maldito estômago barulhento.
–Ah, o Allen come qualquer coisa desde que possa ser mordido- Lavi surgiu ao lado deles, carregando uma sacola de salgadinhos que tinha acabado de pegar- e com a fome que ele estava, talvez até o que não possa.
E tinha Lavi. Que tinha aumentado os pedidos de uma parada porque com o banco de trás cheio e apertado, Kanda esmagava sua perna (talvez propositalmente, mas ninguém deu o braço a torcer). Segundo ele, sentia que já a tinha perdido, mas não sabia, porque não tinha um grande campo de visão e não mais sensibilidade.
Não foi surpresa saber que a perna estava apenas dormindo. E todos reclamaram sobre como o ruivo era dramático quando na verdade só queria parar e descansar.
Os dois puxaram cadeiras e anexaram à pequena mesa. O moreno teve que se segurar para não bufar e soltar um “estão atrapalhando”, porque eles não deveriam estar atrapalhando nada. É. Isso mesmo. Não estava acontecendo nada. Nadica de nada. Era só a mente do moreno querendo criar intenções para tudo. Portanto, deixou que o ruivo e o outro ocupassem lugares ao lado dos dois.
Allen não ligava. Estava muito ocupado matando a fome para ligar para companhias. E talvez (só talvez) Kanda ligasse bem mais do que deveria.
E isso não tinha nada a ver com o fato de o Maldito Usagi estar sorrindo atentamente para o moyashi. Aquele sorriso indecente...
NADA A VER.
–Oe- resmungou, assim que eles posicionavam as cadeiras- o que estão fazendo?
–O que você acha, Yuu?- Alma perguntou deixando que o tom irônico transparecesse bem mais do que queria- sentando, né? Idiota...
–Do.Que.Você.Me.Chamou??- o moreno rosnou pouco a pouco.
–Ei, ei, Yuu- Lavi sorriu-Não vamos brigar, ok, Yuu?
– E você! Não me chame pelo nome!
–É- a voz do albino estava difícil de ser entendida entre as mordidas- Kanda, sem brigar. Não quero ser expulso daqui no meio da refeição.
–Ah, então você não deveria andar muito perto do Yuu, não- Lavi riu- ele já falou porque está proibido para sempre de entrar no Burger King? A turma inteira tinha ido lá e quando fomos fazer o pedido o Ka-
–Eu se fosse você, usagi, calava a boca antes que a perca para sempre.
–Ui- ele nem tirou aquele sorriso de sempre, mas mesmo assim levantou as mãos em um sinal de rendimento- o Yuu é as-sus-ta-dor~
O moreno deixou-se carregar a raiva até pegar o copo cheio de água na mesa. Beber o fazia tranquilo. Mas beber água não fazia efeito algum. Percebeu isso assim que o líquido jorrou para todos os lados ao apertar o plástico em mãos e estraçalhá-lo.
Talvez fosse isso que precisasse: esmagar alguma coisa até explodir em suas mãos.
Algo como, sei lá, a cabeça de um certo caolho.
–Eu vou arrancar esse seu sorriso presunçoso- rosnou, em um sussurro raivoso que se refletia demais como sua personalidade.
–Hã? Que sorriso presunçoso, Yuu?- provocou sorrindo.
“Esse que você nunca tira da cara”, pensou, “mas eu vou tirar à força...”.
–Ei, ei, ei- Alma bateu na nuca dos dois, sem força, sem raiva, só tédio-parem com isso. Não vamos reviver a tragédia do Burger King, certo?
“Eu não sei”, Kanda se pegou serrando os dentes, “Eu estou muito afim de fazer uma tragédia maior na cara desse usagi”.
–Sem tragédias, ok?-Allen respondeu, com a voz normal agora que o prato altíssimo havia sido diminuído a poucas migalhas-já basta o rosto feio do Bakanda.
Plic. Uma veia estourou.
–O que disse, moyashi?
Kanda percebeu que estava cercado de sorrisos presunçosos assim que o albino satisfeito mostrou-lhe os dentes.
–Que já basta a sua cara feia, Ba-kan-da. Agora está surdo também?
–Eu estou surdo?- o moreno provocou, tentando falhamente esconder a raiva- Será que você está com amnésia para esquecer o que meu punho pode fazer com a sua cara?
Allen tombou a cabeça. Era estranho como as ameaças de Kanda agora se perdiam na sua mente sem precisar causar alvoroço. Por algum estranho motivo, ele não sentia mais medo, mas sim familiaridade. Uma coisa boa, mas talvez perigosa.
Sorriu.
–Ok, ficarei quietinho-ergueu as mãos em rendimento- vocês dois já comeram?
Alma observou com admiração as migalhas do prato.
–Não. Não estou com fome- respondeu sem tirar os olhos.
–Eu também não- Lavi completou- eu só quero voltar logo, bateu um sono terrível agora.
– De novo...Você só dorme, Lavi- Alma repreendeu- você é o que mais dorme entre nós.
–Ah, eu dormiria mais se pudesse- sorriu- mas como vocês colocaram o Bob Kanda Calça Estressada do meu lado, eu não consegui pregar o olho por mais de doze horas! O Yuu ficava se revirando para lá e para cá e resmungando xingamentos sem sentido. Ele fala enquanto dorme!
–Doze horas já dormir demais, usagi idiota.
Alma jogou os guardanapos que estavam espalhados pela mesa dentro do prato vazio enquanto se levantava.
–Tiedoll está vindo. Acho melhor continuarmos viagem ou não chegaremos à cidade antes das duas da tarde. Temos coisas para comer aqui, Allen- levantou a sacola cheia- se continuar com fome no carro.
–Ah, obrigado, Alma!- envolveu o pobre garoto com seus braços, já sentindo bater a fome novamente.
–Tá, tá- Kanda se levantou- só vamos logo.
O albino o observou disparar em passos lentos na frente. Ele podia falar o que quisesse, negar o quanto quisesse, mas era mais que compreendido que Kanda era o que mais queria voltar logo e sair do estresse de viajar. Queria encontrar-se de novo entre as paredes sujas e a rua turbulenta, naquele clima frio e de luz escassa. Ele era daquele lugar. Uma parte da sujeira.
–Allen, vamos?- Lavi agarrou-o pelo braço.
Ele queria ser capaz de entender tudo que se passava naquela cabeça. Mas Kanda não passava de um delinquente quando queria. E ele não passava de um garoto confuso o tempo inteiro.
Às vezes, pegava-se pensando no por que dessa relação ter em um momento acontecido. Mas o conflito nunca acabava. E foi por pensar nisso que quando entrou no carro de Tiedoll dormiu calmamente com a cabeça na janela, sem se importar com a bagunça que Lavi queria fazer ou nas reclamações de Alma e ameaças de morte de Kanda.
Quando foi acordado ao chegar em casa, já passavam das duas da tarde, o Sol estava forte e as ruas cheias de gente. O carro estava quente e abafado e apenas o mordomo estava na parte da frente. Estavam apenas ele e o ruivo no banco de trás.
Kanda já havia ido. Sem despedidas e sem notícias.
Muito menos um beijo.
–X-
Kanda conseguiu passar uma semana e alguns dias sem ver Allen. Tiedoll havia se tornado ainda mais insuportável entre as quatro paredes da mansão (se é que isso é realmente possível), por isso suas idas àqueles lados da cidade ficavam mais frequentes. E quando digo frequentes, quero dizer diárias e pernoitadas.
Tiedoll e todos seus conselhos e assuntos irritantes não podiam segui-lo até lá. O problema era que outros podia segui-lo. E quando digo outros, estou falando principalmente daquele que atualmente ocupa muito bem a posição de “mãe-pai-adotivos/amigo” do Kanda: Alma Karma.
–Yuu, faz três dias que você dorme aqui, tem que voltar para casa pelo menos hoje. Estou falando sério.
Kanda girava o copo entre os dedos. O líquido amarelo e alcoólico girava conforme seus movimentos. E, melhor, o distraía do amigo tagarela que o seguia para lá e para cá.
–Yuu, está me ouvindo?- Alma cansou de esperar respostas e deu-lhe um tapa bem dado na nuca. Bebida voou do copo para o balcão do bar.
–O que pensa que está fazendo, Alma?-rosnou, pousando o copo agora com menos conteúdo na madeira. Já fazia um tempo que o amigo estava a chamá-lo e a repreendê-lo, mas tinha conseguido chegar ao limite depois de quatro horas assim.
–Te acordando para a vida- deu-lhe outro tapa-literalmente!
Antes de ele responder, ouviu-se a risada esganiçada característica de Daisya. O rapaz tomou um copo inteiro ao lado deles e já pedia o próximo com entusiasmo fora do normal. Quer dizer, considerando o sempre “entusiasmado” Kanda, qualquer demonstração pequena disso perto dele pareceria estranha. Sem o capuz cobrindo a cabeça, não ficava tão assustador quanto parecia ser. Os cabelos castanhos e bagunçados cobertos por uma bandana branca (como Lavi sempre usava também) e as tatuagens lilás que desciam pelos olhos deixavam-no exótico, mas não tão ameaçador.
Kanda lembrou-se que Allen uma vez o havia dito a mesma coisa sobre Daisya. De repente, sentiu vontade de beber uma jarra inteira e forte de uma só vez.
Dai inclinou-se no balcão para falar com os dois.
–Deixe-o, Alma. Esse é o nosso Kanda! Qual é? Ultimamente ele até tem estado mais manso que antes, que custa deixa-lo quieto um pouco?
Alma franziu o cenho.
–Custa os miolos dele!- respondeu- Kanda, pelo menos volte para casa hoje. Tiedoll já deve ter adormecido, apenas Kevin vai estar acordado. Você dorme e volta. Só para dar notícias por lá.
–Para quê?- o moreno rosnou, roubando de quebra o copo que Daisya estava para tomar.
Alma olhou para os lados.
Midnight Mercy estava movimentado aquela noite. Desempregados e empregados de férias brindavam a favor de nada em especial e no balcão Exorcistas pediam bebidas desesperadamente. Tyki contava nas mãos todo o dinheiro que recebia e seus olhos demonstravam a felicidade na expectativa de receber mais.
O menino se inclinou para sussurrar, entre os barulhos que vinham de cada canto do lugar.
–Por causa do Allen, poxa.
Kanda nem desviou o olhar do copo. Um desvio, um piso em falso e Alma entenderia tudo. O amigo era assim, esperto e observador, o único que podia bater de frente com o japonês e sair inteiro usando somente as palavras e (por que não?) agilidade suficiente.
–O moyashi está bem- respondeu, querendo na verdade completar com “...não está?”.
Alma esfregou as têmporas com tanta força que se avermelharam.
–Pare de ser idiota.
–Não estou sendo.
–Mentira.
–Alma, para com isso ou eu vou quebrar esse copo no seu olho. Eu falo sério.
O outro bateu a mão no balcão.
–Eu também estou!
Daisya bateu a mão em seguida.
–Eu também!- ele disse- Não que eu entenda alguma coisa, mas vocês estão falando do menino albino?
Kanda o encarou ameaçadoramente, mas Dai sorriu de canto. Encarou Alma, mas este franziu as sobrancelhas. Desde quando havia perdido o poder sobre os outros desse jeito?
Alma desfez o olhar pontiagudo quando se dirigiu a Daisya com seu olhar preocupado de sempre.
–O que quer dizer, Dai?
Ele deu de ombros.
–Muitas coisas.
–Não enrole- Kanda ameaçou com o tom de voz, percebendo que um pouquinho, só um pouquinho, ainda conseguia ter seu jeito forte sobre eles- o que tem o moyashi?
–Não fique bravo, Kanda- o moreno teve que engolir a vontade de explodir a garrafa na cabeça no outro quando este bateu em seu ombro- mas eu suspeito de coisas e você sabe que eu tenho um bom instinto.
Alma e Kanda franziram as sobrancelhas ao responderem juntos:
–Não tem não.
–Poxa! Eu tenho, sim! Pergunte ao Marie!
–Não é preciso...nós já sabemos a resposta- o japonês esfregou as têmporas. Talvez tivesse bebido demais para ter que aguentar os momentos tagarelas que sempre estavam a sua volta. Por que não podia ser como um “lobo solitário” e andar sem um grupo?- Daisya, o que você quer dizer?
–Que você...- apontou-lhe o dedo no nariz- PEGOU AQUELE MENINO!
Não foi só o moreno e Alma que congelaram. O bar praticamente parou de se mexer ou falar e ouviram alguém lá no fundo cuspir um jato de alguma bebida. Kanda teve que esfregar os olhos com força para tentar se controlar. Daisya conseguiu. Conseguiu ultrapassar Lavi no seu conceito de ser um idiota completo.
–Ah- Alma levantou em um salto, observando seus lados- hã...você quer dizer que ele...pegou aquele menino para BATER NELE ATÉ SANGRAR E CUSPIR AS TRIPAS? ESSE É O NOSSO YUU. É...foi exatamente isso...Muito bem, Daisya...
Todos voltaram a cuidar de suas vidas no momento em que perceberam que não passava da normalidade de sempre. Kanda batendo em pessoas e pessoas cuspindo tripas. Tudo normal.
Daisya balançou a cabeça, corrigindo em voz alta.
–Não estou falan...-diminuiu o tom de voz e se inclinou para frente- Não estou falando disso...
Alma articulou com as mãos, mas Kanda foi rápido em virar o copo na boca e batê-lo vazio no balcão.
–Então não sei do que está falando- o moreno disse, com sua voz firme e forte de sempre- Daisya.
Um subordinado qualquer de Tyki passou correndo e levou o copo vazio, mas Daisya esfregou o rosto com as mãos, nem percebendo que espalhava o cheiro de bebida pela face inteira.
–Ok. Eu ouvi Alma e Lavi conversando no banheiro.
Foi a vez de Alma cuspir um jato de água. Água mesmo, ele não gostava de beber e sempre pensou que era necessário uma pessoa sóbria pelo menos no grupo.
–Ah- Kanda girou o rosto até o amigo que limpava a boca apressadamente- conversando no banheiro?
–Conversando no banheiro- Daisya confirmou.
–E sobre o que falavam, hein, Alma?
–Quê?- Alma negou com a cabeça- quando você ouviu, Daisya?
–Ontem- o rapaz bebeu do copo de uma pessoa qualquer que estava ao lado, devolvendo-o vazio antes que esse percebesse que havia sumido- aqui mesmo. Algo sobre “Kanda devia voltar para o Allen”, “Kanda devia parar de evitar o Allen”, “Kanda amoleceu por causa do Allen”...
O japonês arregalou os olhos.
–Amolec-
–...”Se o Kanda não agarrar o Allen de novo, eu pego” e, o melhor, “Kanda é um idiota porque ele não merece o Allen”.
Alma cerrou os olhos com força, esperando o pior, abriu um olho na curiosidade, mas manteve a cautela na observação e ação. Kanda, por outro lado, rasgou a madeira à unha. Foi quando o garoto percebeu que estava totalmente perdido.
–Então...-Kanda rosnou- Você tem fofocado com o Lavi, Alma?
–Você não entende, Yuu.
–Ah, eu totalmente entendo.
–O Lavi precisa disso. Você tem...uma coisa que ele não pode. É óbvio que ele vai ficar chateado.
–Então você vai entregá-lo?
–Eu nã-
–Vocês estão falando do Allen??- Daisya se adiantou-Porque isso faz todo o sentido. Todo mesmo.
–Que sentido, Daisya?- Kanda praticamente serrava as palavras entre os dentes.
–Marie uma vez tinha dito q-
–Puta que pariu!- o japonês rosnou entre o grito e o sussurro nervoso- será que não tem ninguém nessa porra que pare de xeretar a vida dos outros??
–Ah- Marie, que não havia se pronunciado até agora mesmo estando em um dos lados de Alma, surgiu na conversa- então ERA verdade.
O japonês se afundou nas próprias mãos. Era azar. Só podia ser. Todos aqueles malditos que não tinham mais a fazer da vida do que ficar a vigiar sua vida, sem preocupações e sem arrependimentos. Quer dizer, não ainda.
“Eu vou fazê-los se arrepender”, pensou serrando os dentes,“vou fazer cada um deles”.
Sentiu tocarem suas costas. Mãos grandes e nunca turbulentas que só poderiam pertencer a uma pessoa da gangue.
–Não fique assim, Kanda- Marie disse- nós meio que temos uma grande percepção quando se trata de você. Todo mundo fica te observando e eu me lembro de uma ou duas coisas sobre o garoto.
–Ah, é?- ele zombou- então por que não me diz mais sobre mim já que sabem tanto sobre?
“Já que eu nem sei mais...”, completou apenas nos pensamentos.
Marie coçou a nuca e olhou de esguelha para Alma, buscando ajuda que ele sabia com toda certeza que conseguiria. O japonês também o encarou por ajuda, sabendo que se o amigo mantivesse a boca calada, não precisariam entrar nesse assunto.
Porém ele sabia que Alma estava se matando para falar alguma coisa sobre.
–Faz uma semana que eles não se falam. Estava tudo indo muito bem na viagem e eu até achei que o clima entre os dois tinha melhorado consideravelmente, eles conversavam e discutiam, mas ainda era aquele jeito de conversar e discutir, sabe? Foi só chegarmos e BUM, cada um foi para um lado e cá estamos nós. Os dois estão se isolando e não importa o que eu fale o Kanda não quer voltar para casa e Tiedoll vai surtar. Me ajudem porque eu não estou mais conseguindo e nem Lavi veio hoje.
–Traidor...-o japonês sussurrou para ele.
–Bem...- Daisya concordou com a cabeça- parece que a situação está complicada.
–Complicada?- Marie puxou o banco para mais perto, fazendo uma roda junto a eles perto do balcão- Kanda, porque nós não ficamos sabendo de nada disso?
O japonês mal abriu a boca. Estava determinado a garantir que pelo menos ele mesmo se safasse de não decair ainda mais em sua situação. Mas Alma, por outro lado...
–Pelo mesmo motivo que ele não contou direito sobre a situação com a mãe dele e muito menos sobre o Allen...-Alma estreitou os olhos, resgatando pensamentos que ele tinha deixado escapar há um tempo- ele tem receio!
Marie e Daisya gemeram em descontento e em uníssono. Kanda quase finalmente afundou o punho no rosto deles ao descobrir que estavam ultrajados.
–Por nós, Kanda?
–Não precisa disso, não!
–Poxa!
–Não faça isso, cara.
–É, somos todos um só. Um por todos, todos por-
–Tá, tá, tá- Kanda afundou novamente as unhas no balcão. Por que mesmo que ele tinha ido ao bar?-só calem a boca. Você também, Alma. Pare de falar besteira e fazer a cabeça deles. Por que motivo vocês realmente acham que eu pegaria o moyashi?
Os três se entreolharam. O japonês sentiu ainda mais raiva quando abriram todos um sorriso bobo.
–Porque nós observamos você, Kanda- Marie e Daisya disseram.
“São só idiotas”, pensou, enquanto repassava todas as coisas que destruía em si mesmo só de ter estado com o garoto. Tudo ruía.
–Sabe, Kanda...-Daisya apoiou o a cabeça na palma da mão e o cotovelo no balcão- você é nosso chefe, mas ainda sim é aquele que nos une e nos aceita. Nós só queremos que você seja feliz.
O japonês engoliu em seco. Desde quando eles se tornavam tão melosos desse jeito? Era de querer arrancar alguns dedos.
–Idiotas...- foi o que conseguiu resmungar- só você para falar essas coisas vergonhosas, Daisya. Crie vergonha na cara.
–Desculpa...
–Mas ele falou sério- Marie concordou- falou por todos nós.
Kanda olhou do amigo para o resto da fileira. Tantas pessoas de negro bebendo e gargalhando que quase pareciam voltar aos tempos bárbaros de uma taverna. E ele estava lá, era o líder daquilo.
–Vai nos contar o porquê?- Alma chamou sua atenção- Por que está evitando o Allen?
O japonês demorou a dar ouvidos a sua pergunta. Quando os viu, estavam olhando em total expectativa, como se estivessem em um mini-grupo de suporte. Suspirou antes de esfregar as têmporas.
–Talvez...- começou, relutante- talvez eu tenha receio.
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