Bad Boy
34 Uivo
Notas iniciais
São mil luas velejando no céu noturno. Só um barco real, fundo no lago, mar da noite e congelado.
Retorcido... Inalcançável...
É o barco fundo no céu molhado.
–X-
oOo
–X-
Como se o tempo soubesse, o céu ficava cada vez mais escuro. A noite e o dia viravam e rolavam, choravam para preencher o caminho com o reflexo brilhante no asfalto.
Cinza refletindo cinza.
Allen gostava de chuva. Nisso ele concordava com Kanda.
O tempo refrescava, as gotas batiam no chão numa sinfonia calmante, as janelas viravam cadernos de desenho e o cobertor uma extensão do corpo. No entanto, depois de dias sem conseguir sair de casa, com a chuva ensurdecedora ameaçando a terra lá de cima, como se avisasse, como se se aprontasse por ele, o céu colorido de cinzas não dava brecha.
Daisya foi cremado.
Foram poucos vê-lo num velório de poucos momentos e pouca vida. Deitado num caixão como se não fosse mais que infortúnio, como se estivesse descansando em sua própria terra antes de queimar e sumir pelas suas formas. Não havia pai nem mãe que viesse. Apenas moleques que antes se pensavam vitoriosos, reis da rua e de mais ninguém.
Bem, agora um rei a menos, certo?
A mãe de Allen, por outro lado, foi enterrada. As lágrimas estavam secas e pegajosas ao redor do rosto, ele estava cansado delas e não ficou mais que até o caixão sumir debaixo da terra e o céu enegrecer pela primeira vez.
A partir daí, tudo ficou escuro.
Sem imaginar nem pensar, passaram três dias. E então cinco. E então sete. Talvez mais.
Às vezes, Mana aparecia na porta, algo quente na mão ou mesmo vazio, deitava ao lado do filho e o coberto virava cabana quente de acampamento. Sem fogueira, nem qualquer fogo que pudesse acabar com aquilo que queimava em gelo o coração. E tão incapaz estavam, que ninguém falava nada e todos sumiram cada um com seu lado.
E era só isso, Allen pensava. Era só isso que era preciso para acabar com eles.
–X-
oOo
–X-
As pessoas diziam que estava frio, mas Kanda não se chamaria exatamente friorento. Ele usava roupas pesadas não importando o clima, calça e casaco, simplesmente porque queria.
Por isso, parado em frente a porta dele, observando as pessoas passarem cobertas em tecidos grossos e armadas com guarda-chuvas e capaz transparentes como se o mundo estivesse para acabar e ácido estivesse para chover de lágrimas do céu morto e sem esperanças...ou algo do tipo.
Como um temporal.
Kanda enfiou as mãos no moletom, porque nunca achou que fosse o tipo nervoso, mas subitamente suas mãos tinham que ficar se mexendo. Elas precisavam parar.
Resistiu a necessidade de tocar a campainha mais uma vez apenas porque ouviu passos lentos, quase como se doesse andar ou qualquer movimento além da respiração (ou incluindo-a).
Nesse momento, ele já estava crente de que Allen estava vindo abrir a porta, mas quando Mana a destrancou e tentou um sorriso, Kanda pensou em fingir não estar tão surpreso. Até porque sabia que o sofrimento de um significava o do outro, era assim que eles agiam como pai e filho.
A esse ponto, Kanda nem podia sentir inveja, apenas o sentimento quente de que mesmo ele estando longe do garoto, havia alguém que podia cuidar dele.
E, além de tudo, Mana o tratava como um a mais. Não anexo, mas como adição.
Por isso, ele sentiu-se mal quando Mana inventou um sorriso. Também porque isso significava que Allen estava terrível. E...muitos motivos mais.
Kanda não exercitava muito os músculos do rosto, mas pelo menos um pouco ele devolveu. Cada coisa a seu tempo.
–Olá, Kanda- Mana falou, a voz quieta como se fosse um segredo, algo frágil que não pudesse ser manuseado. Kanda abriu a boca para responder, falar qualquer coisa que achasse necessário, mas o adulto foi primeiro e mais rápido.
–Veio para ver o Allen?-não foi uma pergunta. Ele olhou para dentro, o olhar vago tentando como se calculasse males e bens antes de voltar a expor o sorriso- Ele está lá em cima. Pode entrar.
Kanda acenou com a cabeça, um cumprimento que podia dispensar as necessidades e entrou, seguindo o mais velho passo por passo. Mana suspirava bastante, os cabelos estavam amassados como se tivesse acabado de sair de um sono longo e duro.
Kanda sentiu a necessidade inerente de ver Allen.
Antes que pudesse pensar em qualquer coisa, o adulto apareceu com um copo na mão. A fumaça denunciava quentura e o cheiro suavidade calmante. Kanda recebeu o chá com outro aceno e arriscou um gole, imaginando que sim, talvez precisasse se acalmar com isso.
Seus olhos prenderam na escada, sem perceber o rosto franzido. Mana percebeu.
–Ele tem andado terrível- ele disse, Kanda ouvia com atenção, mas não tirava os olhos dali- eu sei que você sabe disso. Allen leva um tempo para lidar com perdas, mas ele consegue.
–Ele é um garoto forte- Kanda quase riu, não por maldade ou mentira, mas por outros motivos.
Mana se apoiou na parede e esfregou o rosto sem tirar dele o cansaço. Não havia mais dúvidas de que ele havia acabado de levantar da cama.
–Ele está trancado no quarto desde hoje cedo.
–Isso explica porque ele não responde minhas ligações.
Mana sorriu, o mais verdadeiro que Kanda havia visto no dia.
–A coisa mais próxima da produtividade que temos feito nos últimos dias foi uma maratona de séries antigas e mesmo assim ele não gosta de abrir a boca. Ele às vezes fala e tem brilho nos olhos dele e eu penso que tudo ficou bem, mas acho que ele percebe que está um pouco feliz e se fecha novamente- ele suspirou, subitamente, mas nem tanto, desejando uma bebida quente- Na realidade, ele está há um bom tempo preso no quarto, sem sair... Sua companhia vai fazer bem a ele.
Mana disse, certamente querendo a certeza, mas tinha um quê mais de esperança que qualquer outra coisa em sua voz. Cansaço talvez entre elas.
Kanda tomou o aceno de cabeça como um sinal para ir, largou o copo com bebida pela metade e subiu.
A casa estava cinza escura. De luzes apagadas, o corredor parecia ainda mais estreito e os cantos ainda mais escondidos. Tudo tão quieto que era como se nada estivesse ali, nada mais que um homem preso no vazio.
Aquilo lhe dava calafrios. Era como estar mais uma vez em uma casa. Vazia.
Tão reconhecível que assustador.
Kanda sabia qual era o quarto sem que precisasse olhar duas vezes, os pés já conheciam o caminho. Ele parou em frente, esquecendo dos tempos em que não precisava pensar antes de fazer. Suas mãos estavam suando? Ou era o frio que passava pelo corredor? Era mais uma das perguntas que não possuíam respostas.
Como vida em outros planetas.
Ou...para onde vão os mortos.
Bateu duas vezes, nem parando para pensar que aquela devia ser a primeira vez que se preocupava em bater antes de entrar. Não houve resposta. Tentou outra vez. Nada além do silêncio não característico.
Kanda segurou o nó na garganta e bateu uma vez mais forte, dessa vez outra sonoridade.
–Moyashi?- perguntou, boca quase colada à porta. A voz tendenciosa.
Estava pronto para arrombar o lugar, a cabeça cheia das piores possibilidades. Mal podia pensar no que o garoto estaria pensando, pelo que estaria passando. Ele não tinha o mesmo acompanhamento sangrento de vida que ele, não passava por corpos na rua diariamente nem costumava abrir buracos em pessoas. E a porta se abriu.
Kanda quase caiu, mas se recompôs assim que o apoio se distanciou.
Teve que se segurar bem, porque Allen, aquele mesmo que estaria de olhos fundos, que não se desenrolaria do cobertor, estava com o rosto perfeitamente saudável (na medida do possível, claro, estamos falando de adolescentes) e um sorriso nem tão perto do que ele imaginava.
Allen não estava “morto”.
Kanda se sentiu desnorteado. Até notar que o garoto estava falando com ele, já presumia ter se passado um bom tempo.
O japonês encarou o namorado com o máximo que conseguia tirar de uma expressão certa.
–É. Sou eu- ele disse rapidamente e então notou que estavam os dois parados na porta- Não quer me deixar entrar?
Allen esticou um canto da boca e acenou com a cabeça. Em seu moletom escuro cheio de migalhas, ele abriu a porta o mínimo para que Kanda passasse.
A primeira impressão do moreno foi a de que o quarto...cheirava a papel e pó.
Não por nada, mas porque, bem, o visual já era bem impactante. Havia papéis por todos os lados, livros jogados e Kanda sabia que Allen não era exatamente o garoto mais organizado (ok, ele não era nem um pouco organizado) comparado a sua simplicidade. Mas...havia mapas cheios de riscos grudados à parede e jornais no chão e o computador estava ligado e uma música saía dos fones conectados e...
Kanda virou-se pelos calcanhares, encontrando Allen encostado à parede encarando-o com um sorriso de canto que simplesmente era confortante.
–Seu pai disse que você não saia do quarto faz um tempo- disse, uma afirmação que agora não mais fazia sentido.
Allen deu de ombros.
–E é verdade. Eu não saio faz uns dias- ele lambeu os lábios, claramente pensativo ao olhar para um canto do lugar com tantas coisas nos íris- mas também faz dias que eu parei de ficar deitado de luto.
O garoto passou de uma parede a outra, pegando nos dedos um pedaço de papel impresso.
–E agora eu estou de luto em pé.
Allen amassou o papel e o lançou no ar. Kanda seguiu o trajeto até ele bater no mapa na parede e cair. Foi então que ele notou as marcas de caneta perfurando o desenho cheio de nomes e retas. Havia números, havia letras e havia círculos.
Kanda levou os dedos àquilo, sem notar enquanto Allen se aproximava para ficar mais ao seu lado. O garoto cruzou os braços e suspirou, esfregando as olheiras fundas que cavavam seus olhos claros.
–Meus amigos. Eles dizem que meu luto tem uma letra errada- ele disse, riscando um lugar no mapa com um círculo rápido em caneta vermelha. Acima, estava assinalado: “Mid. Mercy”.
–O “o”- ele continuou- o “o” está errado – Allen esfregou os olhos fatigados, tão inchados e profundos que se confundiam com noite — Meu luto é uma “luta”. É uma péssima analogia, eu acho engraçado.
Kanda sabia que muitos não o fariam, mas ele não era nada parecido com o mundo, então sorriu. Aconchegou um beijo rápido, porém não tanto, na boca do garoto finalmente pronto para admitir que conseguia sentir a força dele.
E Kanda nem estava falando dos bíceps treinados.
Quer dizer, não apenas deles.
Afinal, o que seria de Yuu Kanda e Allen Walker se nenhum deles fosse forte?
O moreno plantou um beijo nos cabelos prateados, tentando queimar todos o desejo de poder ter permanecido daquele lado. Fechou os olhos, aproveitando o som da risada calma dele, os braços correndo pelas suas costas e pela milionésima vez Kanda desejou que o mundo pudesse parar por um instante, para que pudesse catar os cacos que caíram no chão e se esparramaram, antes que tivessem que girar em cima deles de novo.
Aquilo não era uma parada. Era apenas o mundo girando mais devagar.
Kanda não percebeu até quando estava com o garoto nos braços até ele reclamar do sufoco. O moreno nunca achou que fosse um dos que gostavam do contato constante, mas parece que estava um pouco errado. Porque parecia certo demais.
O japonês se deslocou do abraço (mas fez questão de manter a ponta dos dedos nos ombros do namorado) para mais perto do mapa. Ele já havia estado lá, obviamente, e não se lembrava de nenhum mapa grudado na parede (mesmo que as circunstâncias fossem mais fáceis de distraí-lo), o que só poderia significar que havia sido colocado ali com um propósito.
E se as palavras de Allen não fossem o bastante, Kanda poderia dizer que a convivência com ele era o bastante para entender.
–Azul, vermelho...?- Kanda perguntou, sem perguntar.
Allen entendeu rapidamente, colocando os dedos nos de Kanda que estavam sobre seus ombros. Ele até poderia não dizer, mas o toque o deixava muito mais calmo que o sono de horas que por vezes tirava.
–Azul é do mês passado, vermelho desse mês. Quanto mais escuro, mais recente- ele disse, falando sobre as cores de canetas que marcavam em formas, símbolos e traços.
–Eu assumo que você não tem muitas cores de caneta?
–Eu assumo que eu não vejo muita diferença em padrão para gastar mais cores. As cores distanciariam as semelhanças. Acho muito mais fácil desse jeito. Por enquanto tempo é a única coisa que os separa além da localidade.
Kanda moveu-se para o criado mudo para encostar o corpo. Allen ficou parado onde estava antes, olhando para onde olhava antes, pensando o que pensava antes. Foi a primeira vez desde que havia passado por aquela porta que o moreno havia notado como as mãos tremiam, dedos mal encaixados um sobre os outros, olhos presos, mas nem tanto parado quanto uma euforia. Ou histeria.
Não foi a primeira vez que havia se preocupado da porta até aquele canto, mas certamente foi quando se moveu a falar.
–Tem certeza que está tudo bem?- e ele tinha noção do quanto àquela questão não fazia sentido. Era óbvio, era claro, não era como se tempo fosse simplesmente fechar a porta e perder a chave para que o caminho pudesse continuar sem lembranças.
Allen escorregou os olhos até ele e depois voltou ao lugar.
Os dedos não pararam.
–Já se passaram duas semanas.
–Três.
O garoto desenrolou-se da postura para esfregar os olhos e apesar de Kanda ter visto as olheiras e ter vislumbrado o quanto estava fosco, ele não tinha visto uma imensidão quanto esse gesto.
–Tá. Três semanas- ele repetiu, como se estivesse bravo com aquilo. Ou qualquer outra coisa.
–Bom- Kanda disse, deixando escapar o tom ruim e mal, porque apesar de ele sentir por aquela pessoa, não era o bastante para deixar de ser o que é – Mas não foi isso que eu perguntei.
E Allen, não mais nem menos do que ele esperava, bufou para sua afirmação.
–E não é isso que eu vou responder agora.
Kanda revirou os olhos. Não agressivamente, claro, ele sabia melhor do que isso. Apenas do jeito que sempre fazia e sempre fará, o gesto preocupado com as palavras que um dia Allen disse que gostava de tirar dele. Agora a situação se revertia e ele não poderia se sentir mais incomodado com a sensação desgostosa que era.
Agora ele entendia.
–Ok- respondeu, não vendo muita saída- eu vou interpretar isso como um “não”.
Allen expirou uma risada fraca que não deixou nenhum sabor além do espaço comprimido.
–Desde quando você gosta de falar com as pessoas e ter respostas? Acho que nunca te vi investir tanto em um diálogo.
Kanda deu de ombros, tentando ou não esconder a expressão presunçosa que se apossava de seu rosto.
–Acho que nunca pensei em você como alguém que planeja vinganças depois de funerais.
O clima claramente se afetou pelas palavras (ou palavra). Allen mordeu o lábio, o rosto inteiro se contorcendo do modo como ele fazia quando tudo que desejava era, bem, socar a cara de Kanda. Mas o moreno sabia que ele não o faria, porque quando ele estava prestes a fazê-lo, ele sorria. Era o sorriso mais esquisito e assustador de todos.
Não havia nenhum rastro de sorriso naquilo.
Allen engoliu e cuspiu ar várias vezes, mas Kanda não desistiu de observá-lo.
–Eu preferia as conversas com as suas sobrancelhas –ele disse, ainda que não tivesse nenhuma pista de piada e o moreno imaginava se ele realmente estava falando sério sobre isso.
Kanda baixou os olhos por um único momento, buscando os papéis que se acomodavam no esmagamento de seu peso. Manchetes, imagens, nomes.
–Minhas sobrancelhas estarão ouvindo.
Allen riu mais sonoramente, ainda que parecesse muito com a risada que sucumbia e uma mentalidade branca e vazia. Simplesmente reflexo de preenchimento de diálogo. Kanda odiava quando ele fazia isso mais do que quando ele sentia vontade de falar demais.
–Eu não estou bem- ele disse, enfim, mordendo a carne do lábio inferior como se fosse ela a causa de tudo. Do não saber. Do saber demais. Do não saber como saber.
Era óbvio que não estava bem. Essa frase não foi falada, mas ficava quieta no ar. Como alguém podia estar bem, depois de perder tanto e não ter muito?
–Eu também não- Kanda confessou, baixo, como se estivessem mais uma vez enfurnados em um espaço cheio de presença, como se qualquer um fosse escutar e gritar os pecados de um homem sem crença alguma.
Allen levantou a cabeça em um flash de movimento. Daquele ângulo baixo, as sombras que se arrastavam pelo seu rosto pareciam ainda maiores. Ele sorriu de canto, as sobrancelhas olhando-o com afeição .
–Eu percebi- ele respondeu e fez um gesto curto e pontual para Kanda, ou melhor, seu rosto- você está péssimo.
O moreno carregou a mão até o rosto, mesmo consciente de que era improvável que sentisse a mudança pelo toque. Ele admitia não ter tomado seu tempo para olhar no espelho e examinar seu complexo. Estava ocupado pensando em como agir, no que fazer, em como Daisya era daqueles que se passava por imortal, um espírito das ruas que correria sem fim. Agora, ele assombraria todos os becos e Kanda não poderia fazer nada a respeito.
Kanda dispensou o comentário rapidamente, antes que começasse novamente.
Ao invés de falar tudo que correu pela sua cabeça, resolveu apontar para algum ponto do quarto. Não importava qual. Todos tinham algo para ser apontado.
–Não vai me contar o que conseguiu de tudo isso?
Allen virou a cabeça de onde espiava o mapa gigante, analisou o outro com olhos grandes e atentos como sempre, mãos fundas no bolso quando balançou a cabeça em um riso qualquer, o corpo desbalanceando um pouco, mas o bastante.
–Será que podemos adiar a consulta?- ele perguntou ao invés de responder- Tem um documentário muito bom passando agora sobre ufologia que eu não gostaria de perder. Esperei uma semana inteira.
Kanda preferiu ignorar a mudança de assunto (e muito menos as palavras “documentário” e “bom” em uma mesma frase sem estarem interceptadas por uma negação) e partiu para o lugar seguro da conversa. Que era justamente a concordância.
Apesar de ele querer mais que tudo confirmar e concordar, nada se comparava com a necessidade inerente de ver aqueles olhos cintilando vivos e ferventes do modo como faziam quando ele...
–Claro que não.
...discordava.
E, ok, talvez tivesse um quê de preocupação estagnado naquilo, mas se fosse para o mundo pensar muito, ninguém se moveria de medo das bactérias se arrastando pelo corpo e o Universo inacabado e infinito e como não se formula a imagem do vazio e nos órgãos que trabalham no corpo...
É. Pensar muito é um grande “NÃO” por enquanto.
Allen olhou para ele assustado por um curto momento, antes de trocar por uma expressão que mais parecia de eu-já-devia-ter-imaginado, daquele jeito prepotente e zombeteiro que lhe jogava apelidos dos piores só com o olhar. Aquele que dizia “Eu sou Allen Walker, tenho cabelos brancos e olhos prata, mas não tenho tempo para olhar na sua cara”. Kanda adorava isso.
–Bakanda...-ele murmurou não quietamente o bastante para não ser escutado, mas o bastante para deixar o gosto familiar e generoso.
–Moyashi –Kanda encolheu os ombros, como quem não sabe de nada.
Às vezes, Allen queria que ele não soubesse de nada. No entanto, ele logo percebia que não faria sentido e muito menos bem. Ele tamborilou os dedos no próprio antebraço.
–Venha comigo- ele disse, capturando um casaco qualquer na pilha de bagunça e gesticulando para que o outro o seguisse. Allen ignorou quando tropeçou em três ou quatro montanhas de (roupas? Cadernos? Folhas? Comida?) desorganização e abriu a porta.
Kanda estava se levantando e expulsando migalhas que de alguma forma foram parar em seu colo quando notou que Allen continuava parado na porta aberta, na mesma posição, sem um pé para frente nem para trás. Os olhos, não fixos, não pontuais e sem objetivo, não se contentavam com o que viam. E, a não ser que ele nunca tenha notado o quadro horrível de animais pendurado na frente de seu quarto, só podia significar algo interno.
O moreno pensou em chamá-lo, mas assim que abriu a boca sem ter noção do que iria passar por ela, Allen largou a porta subitamente e olhou quietamente para o chão. E depois para ele.
Recorreu ao moreno que era a primeira vez em tempos que ele se esforçava para sair do quarto. E ele não pensou duas vezes em deixar o fato arquivado na cabeça e pisar em pernas longas pelo caminho nem-tão-longo-assim. O moreno dividiu um tapa na cabeça e um nos ombros e saiu andando na frente, como se assim, apenas assim, ele tentasse acordar o albino do torpor furacão que assolava sua mente.
–Guie-me- ele disse, não sentindo nenhum peso nas palavras como sentiria tempos atrás ao se submeter. Ele aprendeu que aquilo não era submissão. E se fosse, não importava. Era importante.
Allen nem tomou sem tempo para ficar surpreso, apenas aproveitou o fantasma do toque rápido, sabendo que o outro também o sentia, e se esforçou de um passo a outro. O que lhe importava se estava ainda com pijama por baixo do casaco, ninguém devia estar na rua com esse tempo. Eles não deveriam sair à rua com esse tempo.
O albino olhou para o quarto em tempo duradouro. Era o seu “pensar duas vezes”, sua garantia, o medo de colocar os pés fora de quatro paredes quentes, se submeter à maldição do asfalto e dos corações andantes, pulsando ao seu redor sem que ele possa saber inimigo de amigo.
Não. Ele sabia.
Daisya não sabia.
Sua mãe sabia.
Ele se afastou até as escadas e esperou para que Kanda chegasse até ele. O moreno grudou a mão entre seus fios e apenas deixou lá, um ponto aquecido que ambos precisariam quando saíssem na garoa. O japonês fechava o queixo, um gesto que, combinado com as sobrancelhas que sempre insistiam em enrugar o rosto, o deixava sempre com o ar mais destemido possível. Como se ele fizesse o próprio piso que pisava e as regras que seguia, um mundo próprio.
Allen agradeceu pelos olhos negros estarem olhando muito para frente e não para ele, porque isso o instigava a também manter o olhar longe do dele. Assim, ninguém prestava muito atenção nas marcas dos corpos fatigados que descansavam há dias. Não. Olhando para frente era muito mais fácil descansar, perceber que a mente estava pronta, a largada montada. A corrida longa.
Os dois desceram as escadas correndo, ninguém pensando muito em como as pernas tentavam de acostumar com movimentos. Latiram uma despedida quase alegre para Mana, que jazia em sono profundo no sofá.
Antes de abrir a porta, ou assim que a abriu, Allen agarrou Kanda pelo pescoço, tentando trazer o rosto para mais perto. O moreno não precisou olhar duas vezes para entender e nem dos dedos longos para moverem-no. Eles se encontraram a meio caminho num beijo que não era nem calmo nem agressivo. Só...era.
Kanda evitou sorrir um pouco, mas era inevitável. Allen fingiu não notar como a fileira de dentes encostava em seu lábio e como as sobrancelhas (as tão comentadas e comunicativas sobrancelhas) desfizeram a carranca-quase-constante. Um sorriso não era tão amedrontador quanto costumava ser no começo, agora era como mais uma mão acariciando a pele do rosto.
Tudo podia ficar bem. Tudo bem.
Quer dizer... se eles fossem pessoas normais.
–Você sabia que lobos ômegas urinam de cócoras?- Allen murmurou na boca alheia sem beijo, observando (e ignorando a injustiça por ser o único vendo) como Kanda parecia calmo de olhos fechados.
E o moreno realmente queria que aquilo fizesse sentido, mas...
–Quê?- ele perguntou, abrindo apenas um dos olhos antes de se deparar com o outro e resolver abrir os dois.
–Lobos tem um olfato cem vezes melhor que os seres humanos.
Allen sorriu mais. E não era um sorriso calmo, era, e Kanda não sabia se se sentir bem com aquilo era um bom sinal, um sorriso de pura gozação. Mas era um sorriso.
–Faz parte da hierarquia das alcateias –ele falou, como se a explicação fosse, hã, explicar tudo. O que incrivelmente não fez- os lobos possuem um macho ou fêmea alfa, o mais alto na hierarquia, como se fosse um comandante, o lobo ou loba mais forte. O mais baixo da hierarquia é o ômega, que é alvo dos outros lobos. O macho alfa pode urinar com a perna levantada. O ômega tem que ficar de cócoras. O alfa anda em uma posição ereta. O ômega anda em uma posição relaxada e submissa, muitas vezes eles se separam da alcateia e ficam sozinhos. E assim vai.
Kanda concordou lentamente.
Estava claro que nada fazia sentido. Kanda temeu pela sanidade do garoto como sempre deixava de temer pela sua. Ele devia saber que atraía os mais malucos.
–E há o beta- Allen continuou, agora o tom firme e expectante, como se fosse uma parte importante para entender, mas como se lembrasse do assunto principal- ele é como o segundo em comando. Um meio caminho entre o alfa e o ômega. Ele é quem pode desafiar um alfa e tomar seu lugar, principalmente quando o alfa já está velho e fraco- ele deu uma pausa para respirar fundo, se desvencilhando do que dizia. E do sorriso- O que eu estou dizendo é que as alcateias tem uma hierarquia, um sistema de relações sociais que funcionam como uma sociedade caçadora baseada na força. E uma coisa muito importante para essas alcateias? Território. Elas têm seu território e devem proteger de outras ameaças, disputá-lo. Eles precisam do olfato para as informações de quem esteve lá, por quanto tempo. Faz parte da funcionalidade do grupo.
Algo clicou na mente de Kanda, porque apesar de parecer muito com uma aula de biologia rápida e desgastante, se Allen estava falando era porque era importante. Ele não sabia se podia arriscar falar.
–Então...-ele disse, olhando fundo nos olhos expectantes- você está comparando os Exorcistas com uma alcateia...? Você percebe que eu não faço ninguém mijar de cócoras, certo?
Allen revirou os olhos. Era um gesto triste, mas humoroso.
–Aquele foi um detalhe explicativo- ele disse, como se estivesse encarando algo de outro mundo- e eu não estava comparando apenas nós com lobos. Estou falando deles também.
O tom cuspido e mastigado da palavra não deixava dúvidas de quem era.
–Isso me faz um alfa.
–Eu estava pensando mais em um casal de alfas, mas...detalhes!
Kanda sorriu um pouco, deixando os dedos rolarem pela pele alheia.
–Isso dá a eles um alfa também. E um território.
O moreno teve a visão de um mapa preso à parede de um quarto, cheio de canetas e nomes. Ruas conhecidas. Cores explícitas. Marcas.
–Que seria o mesmo que o nosso território. E...olfato...?
Kanda pensou em anotações reviradas pelos cantos, marca-textos, olhos pesados de pesquisas que faziam um quarto cheirar a papel e cortes.
O moreno ergueu as sobrancelhas. Estava impressionado e...não, não estava.
–Então você os farejou. Esse tempo inteiro? Onde estavam, fazendo o que, por quanto tempo...Você fez uma metáfora só para me dizer que você sabe o que eles estão fazendo?
–Não- Allen revirou os olhos. Como se fosse fácil adivinhar algo com personagens ao invés de falar logo o que estava pensando – eu inventei uma metáfora porque foi dela que eu tirei como vamos sair dessa situação e garantir nossas ruas.
Kanda precisava aprender a esconder a alegria que contaminava sua aura estoica toda vez que o albino dizia alguma variação de “nós”. Mas, tudo bem, foco na fala.
–Que seria...?- sério, muito cedo para isso-quer dizer, você fez uma metáfora só para explicar um plano?
–Bakanda, cala a boca- Allen disse, quase sério- O que eu disse sobre hierarquia é muito importante, assim como o fato de todos sermos territoriais. Então temos em mente a organização do grupo e o objetivo. E estudando a alcateia, nós temos uma forma de desestruturar isso.
–Você está sugerindo que...um beta mate o alfa?
–É... –ele contorceu o rosto- nós não temos um beta de Akuma do nosso lado, temos?- ele mais afirmou que perguntou e por um momento Kanda pensou que aquilo não passava de um deslize, um pensamento correto enquanto na cabeça, mas fora dela um completo erro.
–Mas...-Allen disse cautelosamente- nós temos um ômega.
Ok, talvez seja louco. Mas aquilo tinha convicção e sentido, mesmo que a metáfora seja longa.
–Você quer que o Tyki tome as rédeas daquilo? Tyki? O Verruga? O em que não devemos confiar cegamente?
–E o que se desvinculou deles por um motivo. Nova liderança, novas regras- ele suspirou e o moreno achou que nunca o tinha visto tão exausto e tão pesado, como se aquilo fosse tudo que lhe restava e não fosse nada- é o que eu tenho. Nada mais.
Kanda encarou-o dentro dos olhos. Era estranho pensar em cinza como uma cor de água. Cor de um lago gelado e fundo que se colore na lua cheia e esconde os naufrágios. Era uma cor bonita.
Era uma cor convicta.
Então, quando ele terminou a fala, Allen estagnou, paralisado no movimento. Olhos redondos e assustados. Aterrorizados. As mãos abriam e fechavam os punhos e Kanda viu marcas de unhas fincadas nas palmas que o quebraram por dentro. O garoto franziu as sobrancelhas, parecendo miserável, os lábios mexendo-se sem humor nem sentido e foi quando o japonês percebeu que o albino havia percebido.
Allen afundou o rosto no ombro de Kanda, cortando a conexão dos olhos negros sem aviso, e suspirou aquele resto de pele exposta. Buscando por ar que ele gastava em existir, em fingir que estava tudo bem, que não doíam as pontadas na cabeça e a sensação vazia que se apoderava do olhar.
Doía quando pensava. Doía quando deixava de pensar.
Imaginar que podia levantar da cama e comer, olhar no espelho e sentir o frio da janela aberta. Imaginar que podia pisar no chão gelado, chorar, cortar-se com papel, ver o sol nascer e o sol se pôr, o mundo girar, o tempo ser previsto e a previsão ser errada.
Imaginar que podia acordar e esquecer-se da cor do cabelo dela, ou de como era sua voz quando estava brava. Imaginar que podia comer e esquecer-se do som do sino que carregava, ou do som da risada dele quando conseguia algo que queria.
Imaginar que podia esquecer momentaneamente, aquele segundo, aquele lapso do dia, que podia não pensar em qualquer um deles e isso seria definitivo. Eles iriam embora, nem mais como memória.
Perceber que a vida continua. Mas apenas para alguns.
Daisya e a mãe estavam mortos, na terra e no céu. Não eram papéis, ou mapas, ou péssimas metáforas que tirariam isso da verdade.
Kanda só notou algo errado quando ao invés de continuar a, bem, ficar parado, ele sentiu algo apertar a pele de seu quadril, o fim de sua camisa. E então vieram os tremores e a sensação quente (mas não calorosa, veja) escorrendo pelo seu ombro.
Sentir Allen chorando esmagou seu interior em mil pedaços irrecuperáveis.
Kanda engoliu a sensação o mais rápido que pôde, incomodado consigo mesmo e em como sentia a vontade de ser um garotinho novamente. Um garotinho que pudesse com convicção libertar a si mesmo para se encolher em um quarto escuro e ficar triste, sentir a tristeza. Ficar de luto.
Por si mesmo. Pelo que ele faz. Pelo que ele é. Pelo seu pai.
Por Daisya. E tudo que nenhum deles jamais será capaz de fazer.
Allen ofegava controladamente.
Kanda olhava para a luz no teto esperando as lágrimas se acalmarem. Pensando, não agora, não nessa vida, por favor.
–Ele não vai voltar- o albino resmungou, apagado pelo tecido, pela pele e pela própria garganta- Eles não vão voltar. Não importa...Nem se... Tyki consiga. Se todos eles morram. Ou se todos nós morramos. Nenhum deles vai voltar, porque eles morreram... Eles se foram. E mortos não voltam...
Era algo importante, ele pensava, perceber que nesse mundo, nesse lago, nesse céu e nesse barco você é um ser impotente. Pode espernear, pode abrir um processo, no entanto o prazo já foi. A validade passou. Você é impotente, frouxo. Fraco.
Os dois são impotentes.
Mas, então, não só Kanda, porém Allen pensou, ambos de olhos vermelhos, raiva fulminante e combustora . Eles também são.
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