Bad Boy
35 Pesadelo
Notas iniciais
Eu tive um sonho
Você estava nele.
Só por isso sei que não era um pesadelo.
—X-
oOo
—X-
Alma acordou com vontade de comer ovos mexidos e panquecas cheias de cobertura doce e quente.
Comeu meio pão francês velho sem nada para colocar dentro assim que se levantou.
Sentou-se perto da mesa acoplada a parede. O bom de morar em um trailer era que com um braço esticado ele alcançava a cozinha e com outro fechava a pia do banheiro. Imaginou se seu pai estaria dormindo, mas na realidade era puro teatro. Alma sabia que ele estava dormindo, não havia paredes num trailer que trouxessem privacidade o bastante para acionar esse tipo de imaginação. Porém, Alma gostava de fingir.
Fingir que mastigava uma boa refeição. Fingir que tinha paredes para tapar seus ouvidos dos roncos do pai.
O garoto engoliu o pão sem nem empurro de água, o enfiou goela abaixo e catou uma caneta depressa para rabiscar um recado num papel que rasgou do saco de pães. “Volto para a janta”, lia, apesar de saber que o velho nem colocaria os olhos naquelas letras. Pelo menos havia avisado, ainda que não plenamente, e estaria pronto para provar caso fosse injustamente acusado.
Deixou um prato limpo na mesa para o pai não derrubar migalhas no chão, que havia limpado no dia anterior, quando atacasse a comida. Alma saiu do trailer com rapidez, ainda que não houvesse mais que planos vagos, o dia era mais livre que ele.
Ainda queria ovos mexidos, mas não achava que iria comer algo parecido tão cedo.
—X-
oOo
—X-
Lavi avistou Alma do outro lado da rua.
Tinha acabado de sair da papelaria e tinha sacolas pesadas puxando e arranhando os braços. Tentou acenar, mas o movimento parou em um instante inútil, quase levando-o de rosto ao chão molhado de pós-chuva.
Apartou a dor e o vermelhaço formado no braço mais judiado antes de gritar o nome do amigo o mais alto possível, rendendo-lhe algumas reclamações dos apartamentos próximos, além da atenção do garoto. Alma parou bruscamente, quase que num salto de preparo para fuga, antes de constatar que não havia ameaça, apenas Lavi tentando andar, respirar, gritar, se equilibrar do outro lado da rua e não se preocupando com o ridículo.
Aliviado, atravessou-a com rapidez para impedir que o outro se esborrachasse na calçada e fizesse da situação pior do que estava. Eram poucas as sacolas, no entanto estavam cheias e esticadas, então Alma tomou duas nos braços, aliviando pela metade o peso do amigo.
-Lavi, você tá bem?- perguntou, apenas por precaução.
O ruivo riu, como era costume seu.
-Não sei se estou bem- falou- mas não caí e meu físico está intacto, então acho que é um bom começo.
Alma pensou em rir, porém aquilo era tão verdade quanto piada.
O clima para eles era chuvoso e tenso até que esse temporal violento passasse. Não havia espaço ou definição para “estar bem” e a pergunta quase retórica virava uma máscara medrosa que todos se atreviam a usar.
-O que você estava fazendo?- Alma perguntou.
-Em uma loja? Saindo com sacolas? Acho que comprando coisas.
Enquanto o ruivo aconchegava os braços numa posição mais confortável, Alma ignorou o sarcasmo e notou o conteúdo das sacolas que tinha nas mãos. Seu humor que estava neutralmente confortável desabou por completo no instante em que percebeu o que era, não por si mesmo, mas pelo que pensava estar na cabeça do outro. Ele não sabia o que dizer, pois sabia que seriam palavras más e sem coração e Alma não gostava de nada que viesse sem o pulsar de sentimento.
Lavi percebeu a inquietação e não pôde deixar de rir. A esse ponto do jogo e Alma ainda tendo cuidado com palavras não era algo hilário, porém era definitivamente para se contentar.
-Lápis, livros, um caderno...- o ruivo surpreendeu o amigo vocalizando tudo que ele estava vendo na sacola- é, é meu material escolar.
-Ah, sim...- foi o que Alma conseguiu falar, sem ter tempo para pensar muito. Não era o que era aquele material, mas o que ele significava.
-Eu sei o que vocês está pensando- Lavi suspirou- não é algo para se fazer agora e eu sei que é anormal...comprar algo sem saber se eu vou estar vivo ao final de tudo para poder usar- falar era muito diferente do que pensar e ouvir foi um pouco pior para Alma- mas que se fodam! Eu não vou largar os pequenos pedaços de normalidade que eu posso ter pensando que não valem a pena. Não vou deixar a gente morrer assim, pouco a pouco, até que eles tenham vencido. Eu não morri ainda, não vou agir como se estivesse morto. E não acho que você deva fazer o mesmo.
Alma concordou com a cabeça, querendo saber sentir aquilo.
Lavi poderia estar gritando, porém qualquer um veria o quão hesitante ele parecia. Aquelas palavras vinham tão rápido que era claro que ele as vinha recitando na cabeça enquanto comprava apontadores e lapiseiras. Um mantra, para lembrar-se de que era uma escolha certa.
O ruivo expirou um xingamento esfregando a mão no rosto num gesto nervoso.
Alma apenas bateu em seu ombro e gesticulou para que começassem a andar, não olhando para o outro enquanto ele se recuperava dos próprios pensamentos.
-Para onde estamos indo?- parecia uma pergunta racional para fazer ao ruivo.
Ele apenas deu de ombros, o que não era bem costume, no entanto estava vindo a ser um. A dúvida, isto é.
-Allen disse que ele e Kanda estão tomando café em um lugar próximo daqui. Pensei que talvez deveríamos passar por lá?
Alma, para responder, deu de ombros.
-Não é como se fôssemos fazer muito se não formos.
Com aquela frase pequena, queria dizer que se ficasse por muito sozinho, não teria segurança nem em sua cabeça. A paranoia ia se instalar com força e o medo do deslize iria comprometer suas ações. E ações comprometidas nessa situação podia significar a inexistência de segundas chances.
Para qualquer um deles. Ou até mesmo todos.
Já estavam inseguros em números, quem diria se dessem um passo sequer errado. Sem pressão.
Lavi apertou firme a sacola, gostando de sentir a força em suas mãos. Queria usar dela em tantas pessoas, quebrar narizes e quem sabe costelas, apenas pela chance se sentir-se em proteção, poder dormir por uma noite inteira e tirar um momento para chorar pela morte de um amigo.
Tudo poderia acabar hoje e a ele pouco importava o caráter do fim, desde que pudesse virar a página.
-Tudo certo para hoje?- perguntou, tentando firmar as tremedeiras da voz, mesmo que sentisse os dedos cavocando a palma da mão.
Alma pareceu abatido por um ou dois segundos.
-O que poderíamos dar por certo...?- sussurrou, no entanto Lavi escutou alto e claro, a rua estava vazia e silenciosa.
Quando Lavi pensou em rebater o pensamento, percebeu que seria melhor abater-se nesse momento que mais tarde. Era bom para qualquer um trocar seus negativos com o ambiente, desde liberasse o que acumulou, amontoou e abarrotou as entranhas.
Apenas fingiu não ouvir até Alma voltar a falar alto.
-Eu não estou pronto pra hoje- ele concluiu- mas tampouco acho que estaria pronto para isso em qualquer momento da minha vida, não importando o quanto me preparasse.
Principalmente porque não é algo para o qual se prepare. É um momento de combustão para ser vivido não mais que nele apenas.
Lavi riu alto, só agora afrouxando o aperto na sacola. Indicou para que dobrassem a esquina para a rua do café.
-Eu acho que ninguém está pronto para isso.
Alma soprou forte o ar, tentando ver se estava soprando fumaça branca, mas nada além do invisível.
Deu de ombros, com certa dureza.
-Kanda está pronto.
Lavi apenas concordou com a cabeça e seguiram andando.
—X-
oOo
—X-
Kanda não estava pronto.
Ele dizia que estava, se recusava a falar sobre isso e posava com uma certeza convincente de quem sabe o que faz e o que fará, porém Allen apenas sabia que não estava. Poderia passar despercebido talvez até mesmo por ele se, por causa das circunstâncias, não estivesse concentrado em memorizar cada detalhe do homem a sua frente, como se a qualquer instante pudesse perde-lo para sempre de vista.
Era aquele pensamento que não se pensa alto, no entanto está presente em cada movimento e decisão. Ninguém gosta de pensar na efemeridade de um momento, quem dirá de uma pessoa, e Allen não conseguia tirar da cabeça que se talvez tivesse mais consciência disso, teria feito muito mais pela sua mãe, por Daisya.
Kanda não estava pronto. Allen estava muito menos, mas ele, pelo menos, sabia organizar a cabeça.
O albino sorriu para o japonês. Kanda estava com os olhos na rua vazia, intenso o tempo inteiro, tão concentrado que a janela ao lado de sua mesa ficava embaçada por sua respiração. Só se voltou para ele quando fez os pés trombarem carinhosamente.
-Então- Allen falou, agarrando o menu em mãos- Já sabe o que vai pedir?
Kanda apertou os olhos, sobrancelhas afundando acima deles. Allen apenas virou página por página, até o japonês entender que ele realmente teria que dar sua opinião.
Ele suspirou, derrotado e pegou seu cardápio.
-Eu não estou com fome- disse, parecendo mais uma criança petulante do que realmente queria parecer.
Allen revirou os olhos.
-Então não pegue nada mesmo, mas eu vou pegar porque eu estou morrendo de fome- ele gesticulou para a garçonete, fazendo o mínimo de cumprimenta-la com um sorriso gentil e a educação que lhe foi dada.
-Grande novidade...-Kanda resmungou, encarando enraivecido a garçonete apenas pelo fato de ter sorrido para seu namorado.
Nada poderia prepara-la para a lista que o garoto lhe indicava direto do cardápio, Um por um os pedidos do garoto miúdo se acumulavam e quem diria que havia tanta comida no menu!
A mulher saiu um tanto atordoada e Kanda até ficou feliz que pelo menos nas refeições Allen estava se saindo normalmente. Ou assim ele esperava. Não iria querer que o outro estivesse se esforçando para fingir estar bem, por mais alívio que essa aparência fosse lhe dar. Só restava confiar em seu instinto e em Allen, como sempre.
Kanda nunca achou que desconfiaria das ruas, achava que a única certeza que tinha era a de que pertencia a ela. Agora, ela clamava pelas vidas que criara, como dívidas e empréstimo a juros caros, teria banho de sangue se ela tivesse sede. Ele poderia não ser o santo, poderia não ser o justo, no entanto, sabia reconhecer o inimigo.
Ele sempre achou que nascera para ser destruidor, mas apenas porque não havia encontrado algo além de si para salvar. E agora sabia que tinha.
O albino notou como o olhar do outro havia mudado e tratou de mudar-se deste lado para o outro, não o assustando nem um pouco quando sentou ao lado no banco de couro acolchoado. Kanda apenas esticou a mão, como havia aprendido depois de Allen tanto fazê-lo fazer, e esperou pelos dedos quentes do garoto cobrirem os seus.
O albino baixou a testa até seu ombro, respirando o cheiro forte de seu aroma como se a qualquer segundo pudesse acabar mudando.
-Eu sei que a proposta era não falar sobre até os outros chegarem- ele falou, a voz um pouco abafada pelo casaco do moreno- mas eu não acho que não falar resolve muito se nenhum de nós consegue deixar de pensar. O que vai acontecer vai acontecer, nós fizemos o que pudermos e a gente sabe que não íamos conseguir fugir disso por muito tempo. Essa é a vida. É terrível, mas é. Só fico feliz porque você está aqui e eu vou estar aqui por você também, é o que podemos fazer.
Na melhor resposta a la Kanda, o moreno apenas bufou.
-Você e os outros tem que parar de ser tão dramáticos.
Allen lhe deu um soco no ombro, lembrando-o de que ele, por mais que menor, tinha uma força impressionante. Especialmente no braço esquerdo.
-Cala a boca, Bakanda. Isso é um diálogo importante. Diálogo, sabe? Um fala, o outro responde. Tenho certeza de que já te ensinaram isso em algum momento.
-Tsc. Eu te respondi.
-Não respondeu certo!
-Agora tem uma resposta certa pra cada fala, Moyashi? Tsc, que insolente.
-Não, idiota, o que eu quis dizer é que você não respondeu direito.
Kanda nem se dignou para uma resposta, apenas rolou os olhos e terminou plantando um beijo na testa dele.
Allen respirou fundo antes de melhor se aconchegar. Ele nunca entendeu o que as pessoas diziam sobre o frio ser melhor para os casais, mas agora ele começava a compreender. Um corpo quente era melhor que todos os casacos de lãs.
-Você poderia me chamar pelo nome, sabia?- disse.
-É, eu poderia- foi tudo que ele disse, com um sorriso que fez Allen acotovelar sua costela.
Ao mesmo tempo em que a garçonete voltou (equilibrando o máximo de pratos que conseguia nos dois braços), irromperam pela porta, trazendo o vento da rua e sacolas nas mãos, Alma e Lavi.
A ventania momentânea quase fez a mulher derrubar o que por pouco não estava no chão, no entanto nenhuma comida, nem pessoa, foi ferida e Allen conseguiu comer tranquilamente.
Quer dizer, o mais tranquilo que ele conseguia estar.
Alma e Lavi tomaram os lugares vagos na mesa e aliviaram os braços do peso. Estavam ofegantes e a pele cintilava com um pouco de suor e garoa.
-Fofês efão bem?- o albino perguntou, mastigando três sanduíches ao mesmo tempo. Kanda o achava incrível quando fazia isso, só não falaria em voz alta.
Os dois resmungaram em uníssono.
-Não essa pergunta, por favor- Alma expirou.
-Deixe essa pergunta pra amanhã, Allen- Lavi completou- No momento sou incapaz de formar uma resposta coerente e curta pra essa pergunta.
Allen engoliu antes de falar dessa vez.
-Eu entendo vocês.
Lavi ergueu a mão para pedir algo para beber e aliviar a garganta. Quem sabe irrigando os músculos com água eles voltavam a funcionar normalmente.
-Tudo o que posso dizer- Alma se pronunciou- é que o Lavi fez a gente se perder. Demos uma grande volta.
-Não fiz nada- o ruivo retrucou, sem energia ainda- o google cometeu um deslize e isso custou as nossas pernas.
-E braços.
-Sim- ele massageou os próprios ombros- os braços.
Allen se permitiu rir um pouco. Ele gostava de como eles, principalmente Lavi, conseguiam amenizar o humor. Era isso que tanto ele gostava no ruivo. Apesar de muitas vezes ele forçar o humor a sair da boca, fazia isso porque achava que era o melhor para fazer os outros se sentirem bem. Para quem o via, ele era simpático sempre, mas para quem o conhecia ele tinha tristeza na alegria.
O riso morreu pouco a pouco, até que a mesa ficou em silêncio, com cada um encarando um ponto qualquer em qualquer lugar.
Allen mastigava com cautela, temendo que o barulho fosse atrair atenção para si. Não tinha nada bom ou engraçado para falar e se contentou em apertar a mão de Kanda com os dedos livres e o moreno devolvia o ato em maior intensidade, até que pareciam competir.
Na outra ponta da mesa, Alma olhou de lado a lado e limpou a garganta tossindo. A interrupção do silêncio atentou os três garotos para a conversa que todos sabiam que viriam.
-Vocês falaram com Tyki?
Kanda cruzou os braços, o rosto fechado ponderando seriamente sobre uma coisa ou outra. Usava a mesma expressão enojada de quando ouvia falar do barman, como se penasse a ele admitir sua existência.
-Eu falei- resmungou, como quem gostaria de absolutamente não o ter feito. Porque, bem, gostaria de não o ter feito.
-E...?
O japonês rolou os olhos.
-Ele decidiu tentar uma solução diplomática...
Alma franziu o cenho quando Allen largou o copo de bebida doce na mesa.
Lavi, então, passou o olho de um a outro e a outro.
-Algo me diz que vocês não estão tão confiantes nisso- o ruivo disse.
-É do Tyki e dos Akumas e Noahs que estamos falando- o albino explicou, parecendo uma criança pega furtando doces da geladeira antes do jantar- eu não sei o que pensar. Se pudermos sair dessa sem ninguém se machucar, eu ficaria contente- ele torceu o rosto- Mas mesmo assim...
-Ele vai resolver- o japonês interrompeu, a voz firme ricocheteando a conversa de uma vez. Um ponto final implícito e uma capa fechada.
Alma, apesar de tudo, resolveu confiar. De tempos para cá, ficava claro que Kanda não seria capaz de cometer qualquer deslize que colocasse principalmente Allen em perigo. Não importava quão lerdo da cachola ele fosse nem quão forte o albino fosse.
-Então por que estamos tão tensos?- Allen enfrentou. Era uma questão racional, que apenas havia ficado no ar.
-Porque ele ainda vai resolver. Nada foi resolvido ainda- Kanda respondeu, priorizando olhar nos olhos dele, apenas por causa de seu instinto de fazer o possível para sanar suas preocupações.
Allen tentou procurar nos olhos escuros algo que pudesse contradizer, mas tanto olhou que esqueceu do real motivo de estar admirando aquela cor naquele momento.
-Então é isso?- Lavi perguntou com apenas um teco de indignação na voz- Nós só ficamos sentados e o Tyki resolve tudo?
Kanda, metade por fazê-lo ter que tirar os olhos do albino e metade por realmente irritá-lo, virou-se sem paciência para o ruivo.
-Você prefere resolver com eles você mesmo? Vá nessa. Tsc, eu estou muito bem com as possibilidades. Não estou nem aí para o que aconteça com aquele cara. Se algo der errado, vai ser com ele, não comigo e prefiro assim.
O caolho pareceu ponderar por curtos segundos, mas fechou a boca. Era óbvio que se pudesse não arriscar sua vida ou a de qualquer um naquela mesa, estaria mais que bem em passar a noite às claras na própria cama, torcendo para que a manhã chegue sem nenhum empecilho. Parecia egoísta, e talvez realmente fosse, mas ele não viu em si mesmo força para contrariar.
Alma aparentava no rosto uma raiva maior que em qualquer outro, conquanto apenas trincou os dentes e fechou o rosto. Estava vencido, era a realidade. Não tinha o que acrescentar, então não o fez. Não por hipocrisia, porém porque reconhecia em Kanda a mente suficiente para tomar uma decisão, por mais difícil que esta fosse.
Kanda, mais do que ninguém, queria empunhar a espada e sujar as mãos e se havia decidido por não o fazer, era porque não poderia.
Allen, por sua vez, estava estranhamente quieto e o moreno, em vários modos preocupado, tomou como razão o grande estresse de um grand finale. Ele mesmo tinha um frio na pele que nada tinha a ver com o clima.
Lavi assentou-se:
-Então que seja...
Não era como se amargura fosse novidade.
-Não era como se fôssemos páreos, não é como se fôssemos lhes dar mais que uma nova contagem de cadáveres- Alma engoliu em seco ao terminar a frase, tentando livrar a cabeça da culpa enevoada, procurando a razão pela sobrevivência acima de todos seus instintos- Apesar das condições, eu acredito que de todos o Tyki seja o único que tem possibilidades de conseguir algo. Ele os conhece.
Alma fechou a boca em um estalo súbito. Já doía falar aquele pouco e tentou limitar sua cabeça dessa dor. Ele sabia que não era justo, no entanto, sabia mais ainda que era o que tinham.
-Se Tyki concordou, tenho certeza de que ele sabe o que está fazendo- Allen completou, apesar da clara hesitação.
Kanda não era idiota, percebeu ao olhar de um lado a outro que apesar de falarem em concordância, tinham na mente mil razões criadas para dizer não. Porém, ele também sabia que nenhum deles era suicida o bastante para se jogar numa luta perdida, então deixou por isso. Assim, nessas condições, teria a todos, talvez não sãos, mas salvos.
Daisya não gostaria de reencontrá-los assim, tão cedo.
-E agora?- Lavi perguntou- A gente faz o quê?
O moreno tirou do bolso algumas notas que poderiam pagar o consumo e ainda deixar uma gorjeta generosa.
— Vão cuidar de suas vidas e deixem o cara resolver seus problemas-Kanda levantou-se com resquícios de um sorriso cínico- Esse é o meu conselho.
O moreno, mesmo sabendo que Allen odiava ser mandado mais do que tudo, pegou a mão do albino e com calma o pressionou para sair dali. Era Kanda que queria sair. Ele seguiu sem resistência, a cabeça em outro lugar só lhe deu tempo para se despedir dos dois outros amigos antes de ir de encontro ao frio da rua.
A brisa foi um baque na consciência e ele pôde recuperar-se o bastante para deixar de ser arrastado e devolver o aperto na mão do moreno. O ar que expirava virava fumaça branca. E, mesmo que estivesse quente o bastante em seu casaco, abraçou Kanda com um braço para se aproximar dele. Ele sentia que não só ele, mas o moreno, precisava daquilo naquele momento.
Os passos diminuíram de velocidade e, em retribuição, o albino beijou-lhe a bochecha, notando como ficavam vermelhas e quentes com esses pequenos gestos.
Se tinha algo egoísta que não vocalizaria, era que com essa decisão ao menos não precisava pensar em um toque ou beijo como último.
Ou assim ele esperava.
—X-
oOo
—X-
Kanda ficou observando a luz do sol tingir o horizonte em laranja da janela do quarto de Allen. Já havia se acostumado com o ambiente e notaria decerto se qualquer objeto fosse realocado tanto tempo passou a ficar ali.
O albino entrou no cômodo carregando dois copos de chá quente e os dispôs com pressa no criado-mudo vazio antes de largar-se deitado na própria cama, um suspiro raso, mas forte.
-Mana disse que se quiser jantar por aqui, temos espaço sobrando na mesa. Mas eu disse que você já tinha comido e não queria ganhar peso para manter o corpaço.
Kanda lançou-lhe um único olhar sardônico e mortal. O garoto notou que estava sendo observado e sorriu indignado.
-Estou brincando. Apenas disse que você já tinha comido.
Kanda continuava observando, estático, e Allen revirou os olhos.
-Pedi para ele não pedir delivery, apenas por precaução. Não quero abrir a porta mais que o necessário. Eu estou sendo precavido, Bakanda. Relaxe.
-Tsc- ele acuou-se, descoberto e exposto- Se você diz.
-Eu digo.
O ponto final foi notável pela firmeza na voz. O albino tornou a se levantar, engolindo com força goles e goles de chá, o que não parecia ser algo saudável ou ao menos normal, no entanto Kanda já tinha cansado de se importar com essas coisas estranhas que ele costumava fazer. Afinal ele mesmo era um garoto que carregava uma espada para lá e para cá.
Ainda assim, o mero fato de não se incomodar com o barulho irritante que faziam os goles era de se preocupar, porque significava que estava anestesiado. Desde que fosse Allen.
-Eu vou ficar por aqui hoje à noite.
Allen olhou-o de cara feia, o que não tomava o efeito imediato, porque as bochechas estavam infladas de chá enquanto ele tentava engoli-lo o mais rápido possível.
-Não, você não vai- respondeu com o rosto franzido.
Kanda estranhou, achou que era uma oferta mais que razoável.
-Sim, eu vou- insistiu.
-Hã... Não- Allen firmou- Não, você não vai.
Antes que ele pudesse retrucar, porque, ora, eles eram Kanda e Allen, se um fala o outro retruca, o albino já o havia alcançado.
-Você vai para casa, ficar com Tiedoll, que é seu tio, e garantir que nada vai acontecer com ele.
Kanda não gostou muito da ideia. Queria estar por perto, caso algo acontecesse, ou, quem sabe, apenas estar lá. Abriu a boca para retrucar novamente, mas o albino estava um passo à frente e o interrompeu.
-Ou você vai ou, não sei, talvez uma dica surja na polícia de que um certo japonês de cabelo comprido e seu tio tenham, não sei, assaltado pessoas na rua e vocês tenham que ficar sob custódia e salvos na delegacia até amanhã quando provarem o contrário e que a carta era apenas um engano.
Kanda gostou ainda menos dessa ideia.
-Você não...faria.
Allen encolheu os ombros, uma expressão suspeita no rosto.
-Allen Walker? Não... Já uma pessoa anônima...
-Tsc- Kanda declarou-se derrotado- você é tão irritante. Tudo bem, eu volto para casa.
Allen sorriu, nada suspeito, e abriu os braços para um abraço que foi bem acomodado.
-As coisas que eu faço por amor- brincou, o rosto contra o peito do maior.
-Você diz isso porque não é quem tem que aguentar você- o japonês falou- e o pior de tudo é que eu sei que você mentiria para polícia sem pensar duas vezes.
— Seria meu modo de deixar vocês dois em segurança e ao mesmo tempo fazer da sua vida um inferno de uma só maneira.
— Eu imagino.
Allen livrou-se do aperto sem pressa, porque via o sol desaparecer no horizonte cada vez mais.
-Acho melhor você ir. Daqui a pouco já será noite.
Kanda assentiu, apenas tomou o resto de chá que lhe restava e, pegou a espada que tinha carregado e dirigiu-se a porta.
-Quer que eu te acompanhe?- Allen perguntou, encostado à porta do quarto.
-Não, fique e descanse. Se precisar, me chame.
O albino fez um gesto generalizado e sorriu.
-Idem.
Plantou um beijo rápido no outro, para que não demorasse a ir.
-Boa noite, Kanda.
E o outro apenas assentiu e se foi.
—X-
oOo
—X-
Estava claro que Kanda iria passar a noite acordado e atento quando em plena madrugada ainda encontrava-se de olhos bem abertos na cama e sem nada produtivo para fazer além brincar de jogar uma bolinha no teto do quarto. Ele imaginava que mais ninguém teria uma boa noite de sono, até mesmo Lavi, que tinha a incrível superhalibilidade de dormir em qualquer momento e em qualquer lugar.
Mantinha o ritmo contante, o tum-tum-tum de jogar a bolinha, batê-la no teto, captura-la e recomeçar, deixando um único ponto no teto manchado, bem acima de sua cabeça. Na primeira hora, isso deixava a cabeça ocupada, porém agora os movimentos passavam a ser automáticos e cria que poderia fazê-los de olhos fechados.
Ao jogá-la novamente, porém, atingiu outro ponto do teto e a bolinha ricocheteou e rolou para outro canto inalcançável do quarto.
Kanda suspirou, pensando mil e um xingamentos irracionais para falar para a Vida. Mesmo assim, levantou. Estava ali no canto sua única fonte de distração para essa noite, então tinha que recuperá-la.
Conseguia vê-la debaixo de um móvel, no entanto não a readquiriu. A noite exibida na janela cravou sua atenção antes e não havia nada anormal nela. A lua estava minguante, não estava brilhosa, não havia luzes acesas nas casas vizinhas e ele nem sentia a brisa fria que sempre batia, porque havia um vidro entre ele e ela.
Kanda empurrou a tranca e de súbito o vento correu forte pelo quarto, derrubando folhas e tudo que pudesse carregar. Olhou para baixo, onde galhos finos decepados de árvores corriam em círculos com a brisa, trazia um cheiro de mato cortado. Os grilos estavam agitados como sempre, mas, talvez pela hora, talvez pelo cansaço, o moreno conseguia distinguir uma entonação ruim.
A noite, tão normal e tão cotidiana, estava lhe dando um mau pressentimento.
-Idiota- disse, provavelmente para si mesmo, pois voltou a fechar a janela e pegou a bolinha, sem se preocupar em arrumar as folhas desarrumadas que se espalhavam pelo quarto.
Estava agora tão quieto o ambiente que, óbvio, o telefone escolheu aquela justa hora para tocar.
O mau sentimento que tinha na cabeça desceu para o estômago.
Kanda o atendeu.
-Quem é?- resmungou.
-Kanda?
—Acho que sou eu- respondeu, com a pouca paciência que lhe era característica.
-Kanda, é o Mana.
Já era preocupante o homem ter ligado, porém o que deixou Kanda mais apreensivo em questão de segundos foi o tom de sua voz. Parecia temeroso, talvez esperançoso.
-Está tudo bem com o Moyashi?
-Espera...ele não está aí? Eu achei... achei que ele estivesse na sua casa.
O japonês sentiu um aperto no peito.
-Não, ele não está aqui- o moreno andava rápido pelo quarto, procurando pela espada e por sapatos-Faz tempo que você o viu?
-Eu não sei... talvez...provavelmente- o homem suspirou, claramente exausto física e emocionalmente- meu deus, eu deveria saber...eu deveria-
—Tudo bem, nós dois sabemos que se ele quisesse sair, ele conseguiria de uma forma ou outra- Kanda, não menos exausto, esfregou com força a mão no rosto cansado- só...vai dormir, eu vou encontrar o Moyashi, aquele idiota.
-Eu...- Mana suspirou fundo, claramente se acalmando- Obrigado, Kanda. Não hesite em me ligar caso precise.
—Eu farei isso.
Assim que desligou o telefone, o moreno precisou de um tempo para sentar e ponderar sobre sua vida. As mãos estavam geladas contra seu rosto e pouco a pouco o atrito ia aquecendo a pele, mas não o bastante. No entanto, ele sentia que precisava sentir a sensação congelante no rosto, acordando-o para o que sabia que estava acontecendo.
-Moyashi, desgraçado. Mentiu na minha cara.
Com a espada na mão, decidiu pular pela janela para não ser visto pelo mordomo ou seu tio.
Já tinha certeza de onde tinha que ir e não estava nem um pouco feliz por isso.
Só tinha que chegar lá o mais rápido possível.
—X-
oOo
—X-
O celular de Allen vibrou pela décima quinta vez. Não se preocupou em atender, pois imaginou ser seu pai, preocupado. Se ele fosse Mana também estaria, mas não era por isso que deixaria sua missão.
É claro que ele se sentia mal por fazer isso. E com “isso” queria dizer “exatamente o que tinha dito que não iria fazer, mas obviamente estava fazendo”.
Não era como se ele não tivesse o mínimo de bom senso para saber que era uma ideia estúpida, ele sabia, porém não tinha bom senso o suficiente para se reprimir a realiza-la.
Agora, estava se escondendo em um beco perto de Midnight Mercy. De madrugada. Em um lugar que ele sabia que dali alguns minutos estaria infestado de pessoas violentas capazes de coisas horríveis. Apenas perto o bastante para ter uma boa visão das sombras que apareciam da janela a porta, nenhuma ainda pertencente a Akumas. E o coração estava a mil.
Estava confiante no lugar em que estava. Camuflado perto de algumas lixeiras, até seu cheiro devia estar imperceptível. Então, decidiu assentar o traseiro e desligar-se um pouco dos arredores, seu desconforto apenas o fazia mais suspeito que o normal e o deixava ainda mais desconfortável.
Estava tentando captar sons de dentro do estabelecimento quando ouviu algo. Um som de algo rolando pelo chão.
Ao, por reflexo, virar a cabeça na direção, viu nada mais que o vazio completo da rua. Imaginou que o vento frio da madrugada tivesse pregando peças em seu frágil estado emocional, jogando lixo de um lado a outro.
Mesmo assim, tomou a pior decisão de sua vida: decidiu ir verificar. Era como se filmes de terror não fossem bem enfáticos sobre isso. Mais especificamente sobre NÃO fazer isso.
Era óbvio que Allen não estava pensando como um sobrevivente, então em passos curtos e leves percorreu as extensões do beco escuro em direção à rua, de onde certamente viera o barulho.
Tirou da mochila que carregava nas costas um cano de ferro enferrujado, apenas por precaução, claro. Era óbvio que o vento estava lhe pregando peças de mal gosto, certo?
Ouviu o barulho mais uma vez. Contou até três antes de respirar fundo e pulou direto para a rua, segurando um grito de ataque (porque isso sim seria estupidez demais até para ele).
O que lhe surpreendeu foi nada mais que a vastidão de uma rua vazia a não ser por um gato imundo arrastando para lá e para cá uma lata vazia.
Podia não ser o vento, mas sua própria paranoia pregando-lhe peças?
Suspirou de alívio e abaixou o cano, já que claramente não precisaria daquilo tão cedo. A não ser para tirar a lata do alcance do gato e impedir que o animal de cortasse com o alumínio.
Estava a fazê-lo em silêncio, sussurrando para o bichano deixar de birra e largar o objeto quando duas mãos enluvadas se fecharam em sua boca.
Talvez não fosse apenas sua paranoia.
Fale com o autor