Notas iniciais
Heey! Tudo bem com vocês?? Adivinha quem resolveu, em meio ao tumulto dos vestibulares, vir cumprir o que prometeu, meio tarde, e terminar uma fanfic. É, pois é, DESCULPA de verdade pela outra demora. É que realmente é uma loucura de pressão, meu cabelo tá até caindo e eu já roí todas as unhas das mãos. Mesmo assim, gente, DESCULPAAAA!! Mas eu fiz o que prometi e agora não devo mais nenhum capítulo a Bad Boy, porque eu acabei de terminar a história!! Esse é o penúltimo e eu já irei postar o último agora mesmo, pois já está pronto e não tenho motivos para segurá-lo. Enfim, eu dei uma relida, mas erros sempre escapam, por favor me falem se encontrarem um. Por favor!! Falo mais no último capítulo!! Boa leitura!! o/

Quando as mãos se fecharam em sua boca, Allen ficou dividido entre gritar ou ficar quieto. Fazer barulho seria o ato reflexo, mas ele não achava que seria o mais esperto quando estava tentando não chamar atenção de possíveis malfeitores que poderiam chegar a qualquer momento no bar. Que ele estava tentando vigiar, a propósito.

Ele ficou entre uma exclamação e reticências, o grito baixo sendo abafado pela mão em cima de sua boca e o braço rodeando seu ombro enquanto se debatia com o mínimo de barulho.

Ele levou dois ou três segundos de pânico para perceber que, na realidade, os braços não o seguravam com força. Parou de se movimentar e com dúvida e raiva súbita, tirou-os de seu corpo. Sem nenhuma dificuldade. E então ele soube quem era.

Saber quem era antes de se virar para olhar não tirou de si o direito de alimentar a raiva que crescia como um copo de água entrando em ebulição.

Allen deu um soco no peito de Kanda.

Ele teria acertado seu rosto, por ele ter lhe assustado desse jeito, mas temeu os desdobramentos de uma emergência médica logo naquele lugar, naquela hora. Pelo menos sabia que o soco que deu tinha sido bem dado, porque o moreno recuou alguns passos com a mão no peito e uma expressão dolorida no rosto.

O albino não esperou que ele se recuperasse do baque para desandar a gritar. Em sussurros, porque não podia arriscar seu sigilo e sua vida por um susto rápido. Mas esteja esclarecido que eram sussurros bem agressivos, que fizeram Kanda recuar mais um pouquinho enquanto desviava dos gestos violentos que o seguiam.

Como não conseguia entender nada do que o albino estava falando (apenas que eram palavras bem mal educadas), retampou sua boca com sua mão até que se acalmasse e indicou com a cabeça para um lado mais deserto, mais longe do bar e do perigo, e Allen o seguiu, borbulhando na cabeça os próximos insultos.

—O que você tem na cabeça? Se é que você tem alguma coisa?- o albino perguntou, ainda em murmúrios, porém em tom mais excessivo.

Kanda franziu a sobrancelha do modo como sempre fazia quando algo o tirava de sua inércia já resmunguenta: franzindo o rosto inteiro.

—O que VOCÊ tem na cabeça, Moyashi?

O albino sentiu-se acuado pela legitimidade da pergunta, encolheu os ombros.

—Uma má ideia- admitiu.

—É, uma ideia idiota- Kanda esfregou as mãos no rosto- pelo menos isso você entende.

Por algum motivo, aquilo deixou o garoto mais nervoso.

—Ei, foi você quem resolveu me assustar ao invés de ser cauteloso. E eu não pedi para você vir. Eu nem queria que você viesse.

—O pai do meu namorado liga para mim de madrugada falando que ele não está em casa e não se sabe onde ele está, justamente quando havíamos combinado que hoje era o dia mais perigoso para se estar nas ruas como membro dos Exorcistas, e eu devo fazer o quê? Voltar a dormir?

Allen espremeu os olhos. Ele tinha um bom argumento.

—Talvez...

Kanda suspirou, obviamente não tinha dormido nada porque seus olhos estavam cansados e olheiras despontavam escuras debaixo deles. Ele também não tinha dormido nada, por isso estava ali: privado de sono e tendo péssimas ideias.

—Que seja. Vamos embora- o moreno gesticulou para que o seguisse pelo caminho de volta.

No entanto, Allen plantou os pés no chão.

—Hã...Não.

—Como assim não?- a paciência de Kanda estava por um fio, mas ainda assim ele falou com uma calma inesperada- Você mesmo disse que era uma ideia idiota. E acho que não é difícil perceber isso se você tem um pedaço de cérebro.

Allen ignorou a última parte da frase e se manteve firme em seu lugar.

—É, eu sei que é uma má ideia, mas é a ideia certa. Pra mim. Eu acho. Eu vim aqui com um propósito, eu não vou sair daqui sem saber que tudo correu bem com o Tyki. Quer dizer, ele é suspeito? Sim. Ele é arrepiante? Com certeza. Mas... eu não quero que dê errado.

—E o que você vai fazer? Se algo der errado? O que você ia fazer? Entrar lá e conversar com eles?

—E o que você quer que eu faça?! Fique em casa olhando o teto enquanto ele faz isso sozinho?! Alguém tem que estar aqui!

—Moyashi, acho que você não entendeu. Somos Exorcistas. Nós não somos salvadores, nós destruímos.

—Ainda assim, Kanda! Eu sei o que nós somos, eu leio jornais, eu sabia desde antes...mas ainda assim. Eu queria ser alguém capaz de salvar- o albino respirou fundo, de repente sem ar- E eu sei que você também quer.

O rosto do moreno se fechou ainda mais. Ele percebeu definitivamente que o garoto não mexeria um pé de volta para casa enquanto ele não visse a os acordos feitos e nenhuma vida desamparada.

—Tsc. Tá- respondeu, contrariado- mas eu vou ficar aqui também. Já estou aqui mesmo.

Allen exibiu um sorriso pequeno, de quem vence mesmo, e beijou-lhe no rosto, não deixando de notar como o rosto do mais alto ficava vermelho mesmo na rua escura. Quase o fazia ficar fofo.

O albino gesticulou para que voltassem ao lugar onde antes estava, em que podia ver as sombras se mexendo dentro do bar. Não era muito, mas deixava Allen mais tranquilo e assim que tudo terminasse poderia descansar tranquilamente em casa. Iria abraçar seu pai, desabar em sua cama com muita comida e dormiria até tarde.

Tyki só tinha que sair daquele lugar com um sorriso no rosto.

Era sua única esperança.

—Ei, Kanda- Allen sussurrou, enquanto o moreno tentava se aconchegar no calor humano, ocupado demais em sentir o corpo para olhar no rosto dele.

—Hm?

—Por que você acha que eles aceitaram tentar um acordo?

O maior viu em seus olhos a plena dúvida. Na realidade, nunca havia considerado que essa era uma boa pergunta, mas cá estava, sem resposta.

Abriu a boca para responder, no entanto antes de poder saber o que estava prestes a falar, ouviu um barulho.

De súbito, Allen empurrou ambos para o chão, onde ficaram agachados, observando enquanto homens obviamente criminosos entravam no bar. Tinham corpos altos e robustos, braços grossos cobertos de tatuagens e carregavam armas nas mãos, sem a menor vergonha.

Eram poucos, ao menos. E entre eles um homem destacava-se. Usava terno e carregava uma bengala. Na mão, uma cartola. Parecia vindo de outro século e não saído de uma gangue de rua.

—Quem é o aristocrata inglês de romance histórico?- Allen sussurrou.

O moreno mantinha uma postura rígida, observou o homem em questão de cima a baixo até que este entrou no bar e sumiu de vista, seguido por seus poucos capangas ameaçadores.

Kanda queria muito sair dali, pegar Allen nos ombros e leva-lo para algum lugar seguro. No entanto, seus pés permaneciam plantados, os olhos curiosos grudados nos movimentos ditados pela luminosidade.

Uma horda de pessoas irrompeu pela porta do Midnight Mercy, tropeçando uns nos outros, correndo pelas suas vidas, parecia uma boiada assustada. Tão desesperados fugiam que Kanda e Allen tiveram que se apertar contra a parede para evitar serem arrastados.

Até o último homem correr e sumir pelo fim da rua, ficara claro que tinham expulsado a clientela pela privacidade. O que não era algo surpreendente de se fazer, mas poderia não ser um bom sinal.

Allen pensou nisso e apertou a mão de Kanda que se envolvia na sua. Às vezes o moreno o tocava sem nem perceber, um ato de certidão e segurança. O que lhe preocupava, obviamente, era o silêncio que tinha se estabelecido.

Os dois ouviam sussurros incoerentes de dentro do lugar, pareciam estressantes, talvez pela complexidade da situação. Talvez não.

—Devo me preocupar com o fato de você não estar respondendo minhas perguntas?

O maior levou quis tapar sua boca com a mão (ou quem sabe com um beijo), no entanto tinha consciência de que o garoto ia revidar e então ele teria que retrucar e tudo que eles menos precisavam era uma nova confusão. Apenas colocou os olhos dele e, por mais que fosse o pior momento possível, teve a súbita realização do quanto era sortudo.

Foi naqueles olhos cinza, concentrados e assustados, que percebeu. Estava se escondendo em um beco escuro de madrugada, observando um acordo entre uma gangue perigosa e um barman, portando nada mais que uma espada, e ele se considerava sortudo por quem tinha nos braços. Tinha conquistado coisas que ele nunca imaginaria, que nunca imaginou valorizar. E que definitivamente nunca vocalizaria.

Apesar de tudo, era grato por ter se enfiado naquele beco, naquela noite meses atrás. Por ter encontrado o garoto.

Antes que percebesse, um sorriso já se modelava, tímido, em sua face.

Allen, como sempre, só foi capaz de retribuir. Esses momentos se tornavam mais e mais comuns. E isso com certeza não era uma reclamação, mas sim uma alegria, posto que o moreno tinha o sorriso mais raro e mais bonito que já tinha visto.

Chegaram a esquecer onde estavam e o que faziam, não conseguindo impedir a mão de querer tocar o rosto do outro e por isso quando soaram os três tiros estrondosos se espantaram um para cada lado.

O albino bateu na lixeira e derrubou os sacos cheios direto ao chão. Seu coração estava batendo tão rápido que não sabia se eram as sombras da noite ou sua visão que ficara turva, contudo pensou ver as pessoas dentro do lugar vindo na direção da porta e passos da rua.

O corpo de Kanda entrou em alerta, gritando para que fugisse sem olhar para trás, no entanto olhou para o namorado, que desesperado olhava para a janela do bar, e recusou as ordens de seu próprio sistema por outra mais importante. Ficou. Pegou o menor pela mão. Correu em passos fortes, sem preocupar com o barulho, pois o estrago já estava feito, era apenas uma questão de tempo. E, pela escada de emergência no muro, pulou pela janela quebrada do andar de cima, diretamente para dentro do Midnight Mercy.

—X-

oOo

—X-

Allen e Kanda rolaram alguns metros pelo chão de madeira do cômodo pelo impulso que tomaram para passar na janela. O albino silenciou o namorado e juntos se encolheram em um canto. Temiam que as velhas estruturas da construção tivessem feito barulhos que o denunciassem, no entanto, não houve mais nenhum tiro e a movimentação parecia estar somente no andar de baixo.

A sala estava repleta de suprimentos do próprio bar, fedia a mofo, comida estragada e bebida alcoólica. Kanda ficou com nojo ao perceber que era nesse lugar que os produtos que eles ofereciam ficavam, mas não era como se ele não soubesse da péssima qualidade. As paredes estavam descascadas, repletas de musgo e delas despontavam pedaços de canos reparados com fitas e panos amarrados. Nenhuma janela além daquelas que haviam usado para entrar, por onde ouviam-se vozes dos que foram averiguar o barulho. Havia uma porta que constatou estar fechada ao tentar abrir.

Com mais disponibilidade, ele poderia arrombar, porém tudo que menos queria agora era o barulho de uma porta sendo quebrada e vibrando as paredes até os ouvidos dos negociantes.

Estavam sem saída.

Ao se aproximar novamente, o moreno sentiu algo molhado nos dedos que abraçavam o garoto e pensou que fosse obra das falhas nos canos. No entanto, a respiração de Allen estava pesada, o peito tremia como uma tarefa dolorosa e incompleta.

Kanda viu sangue nos dedos e um corte feio nas costelas do garoto.

—Moyashi- sussurrou, não tentando esconder a preocupação quando pressionou o ferimento.

O rosto de Allen contorceu com o contato.

—Tá tudo bem, eu só cortei no vidro da janela. Você também se machucou, sua testa tá cheia de sangue, Kanda.

O moreno tocou o rosto e sentiu arder o machucado, mas ainda assim, o de Allen parecia pior e não parava de sangrar.

—A gente tem que sair daqui.

—Nossa, Kanda. Nem pensei nisso- até sua voz sarcástica saía com um pouco de dificuldade.

O moreno, relutante, tirou as mãos dele e foi até a janela. Lá embaixo, via alguns homens revirando as latas de lixo e segurando um gato de rua pelo cangote.

Ele iria esperar até que se separassem em grupos menores, de poucos ele podia dar conta sem grandes problemas. Era para isso que a Mugen estava ali e fazia tanto tempo que não entrava em ação.

—Eu vou tirar esses homens dali, aí te levo até um hospital.

—Quê? Não- Allen se levantou, com o cuidado de não soltar o ferimento, que não era profundo, mas sangrava bastante- A gente não pode.

—Por que não?

O albino acenou a cabeça para baixo, para o chão esburacado que trazia filetes de iluminação insuficiente. Havia um buraco do tamanho de um olho.

—Os tiros que ouvimos.

Kanda tentou enxergar pelo buraco, a visão ficava limitada a um espaço, mas o que precisava ver estava bem abaixo de onde pisava. Viu restos de vidro no piso sujo do bar, onde Tyki deitava-se numa poça de sangue crescente jorrada de seu abdome e ombro feridos. Se tivesse que adivinhar, diria que o outro tiro teria acertado os copos antes empilhados no balcão.

Apesar de verificar que o homem continuava vivo e acordado, a quantidade de sangue denunciava a seriedade. O chão de Midnight Mercy já foi copo de muito sangue, mas nunca nessa quantidade.

Se Kanda fosse chutar, diria que Tyki tinha provocado com algumas palavras de ironia bem inconvenientes.

—A gente não pode deixar o Tyki- Allen falou, escondendo a dificuldade em respirar com a ardência nas costelas – Você sabe que seremos nós, Lavi e Alma os próximos. Isso tem que acabar aqui, ou qualquer um pode virar alvo. Até meu pai e seu tio. Kanda, eles estão bem aqui, se o Tyki morrer...a gente não poderá fazer mais nada.

O moreno sabia que ele estava certo. Claramente eles não estavam interessados em negociações e o barman era a alternativa de paz sem tanto derramamento de sangue. Sabe-se lá o que teriam que tirar da manga, de que tipo de humanidade teriam que se desfazer caso essa chance escapasse pelas mãos logo em sua frente.

Além disso, só ele sabia o quanto pesaria para Allen deixar o peso na consciência pela culpa de ver alguém sangrar até a morte logo abaixo de seus pés.

O albino já tinha pesos o suficiente na costa, tão corajoso era.

O japonês afirmou com a cabeça, ofereceu sua mão para que o albino levantasse, mas em segundos ele já estava de pé.

—Amarra o casaco ao redor do ferimento, bem forte só pra garantir- pediu ao garoto, que o fez rapidamente.

Os dois, confortados nos braços um do outro, moveram-se para longe dos buracos, temendo que a fragilidade maior do chão pudesse denunciar sua existência. Apoiaram-se em caixas empoeiradas de cerveja barata, no canto mais escuro do pequeno cômodo. Tão próximos, o moreno se confortou no cheiro suave que destoava do ambiente, como se estivesse desgrudando do maldito odor sangrento que também o infestava.

—Como a gente vai fazer isso?

Apesar da situação, Kanda passava as mãos nos fios do outro, sujando-os um pouco, porém pouco importava a qualquer um.

—Não podemos usar a porta- o moreno concluiu- só temos a janela.

—A gente tem que dar um jeito no líder, é a única maneira.

—Tsc. O cara de terno.

—É, foi o que eu pensei. Era claro que ele estava ordenando os outros quando vi pelo buraco. Não acho que foi ele que atirou em Tyki, mas tenho certeza que foi quem ordenou.

Kanda se lembrava de alguns boatos, estes viajavam rápido na rua, sem papel, sem impressão. Nunca deu bola, muitos nomes que se criava não faziam jus à realidade e apenas serviam para criar lendas para tirar crianças da rua. Kanda, ele mesmo, já era um próprio monstro e não dava atenção a outros.

Agora, no entanto, é coisa diferente.

—É o Conde do Milênio- falou, odiando como as palavras soavam- eu não achei que fosse verdade, mas parece que as pessoas são realmente idiotas.

—Não parece um nome muito simpático.

—É um nome imbecil- afirmou- mas eu ouvi falar que ele era meio louco. Faz sentido que ele trouxe os imbecis dos Akumas de volta.

—E explica as roupas excêntricas- Allen concluiu, parando para controlar um acesso de dor- então só precisamos tirar o Charles Dickens de cena.

—Não, acho que esse exagero vem do dinheiro do tráfico – Kanda ainda achava que arrebentar todo mundo com a espada era a melhor opção, mas duvidou que isso fosse deixar o namorado feliz.

Allen vagou em passos leves pelo lugar. Conseguia andar sem dificuldades, o corte, como pensava, parecia feio, no entanto não estava tão grave ou talvez não conseguisse se movimentar. Ainda assim, não seria louco de desamarrar o casaco, presava as maiores chances de viver e estranhamente se sentia o Napoleão Bonaparte com a mão repousada em cima da queimação.

Parece que seu sangramento estava a parar, o que era um bom sinal.

Arriscou olhar pela janela, o movimento fluía menos, poucos homens vagando. Não seria difícil esperar que a maioria fosse procurar em outro lugar e arriscar outra janela do Midnight Mercy.

-Ok, acho que tenho um plano- o albino revelou, sem muita segurança- é um plano idiota. Provavelmente dará muito errado e ainda temos chances de morrer essa noite. Mas é um plano.

Com palavras tão encorajadoras e seguras, Kanda desgrudou do lugar onde estava apoiado, por reflexo colocando a mão na bainha da mugen. Estava pensando em quantas pessoas cortaria para sair dali e em quantas queria cortar pelo ferimento indireto que já provocaram no albino.

-Fala, Moyashi.

O chão rangia enquanto andava, madeira podre e frágil.

-Ok- pelos vidros despedaçados que apontava, corria uma mancha pouca de sangue com certeza veio de sua pele- vamos esperar a rua ficar mais tranquila, acho que daqui dessa escada podemos alcançar a outra janela do bar, com sorte a porta dali vai estar aberta e o cômodo talvez não cheire a enxofre. Então podemos descer as escadas que eu presumo estar-

CREC.

Não terminou a frase. Mal teve tempo para raciocinar o que acontecia, ouviu o chão escaqueirar em estrondosos craques, que caíram em estrondosos baques, em algum lugar atrás de si.

O cômodo ficou mais iluminado com o novo buraco de luz e foi por isso que, vendo até os cantos antes obscuros, constatou seu medo.

Kanda não estava ali mais.

TUM.

O moreno tinha acabado de ruir um andar abaixo, caindo logo em frente aos inimigos em uma entrada miserável, mas triunfal.

—X-

oOo

—X-

Kanda só percebeu o que tinha acontecido quando sentiu as costas baterem no chão. Com o rosto para cima, viu o buraco que deixou por onde caíra, pequenos pedaços de madeira ainda caíam direto em sua face, mas nada o machucou. Apesar da dor e da tontura, não teve dificuldades para se levantar. Achou que seria hora de agradecer mais que nunca pelo bar ter um teto tão próximo do chão.

Antes que pudesse colocar-se apropriadamente sobre dois pés, uma voz o chamou.

—Ora, ora, parece que algo acabou de cair pra nós do céu. Literalmente- o tom rasgava como faca em carne, explodiu dentro dele em pura raiva e desgosto, que ele mal fazia questão de esconder.

O moreno quase rosnou para o Conde do Milênio, não pensou duas vezes antes de sacar a espada e pular em sua direção. Bem em sua frente estava a solução dos seus problemas, precisava apenas enfiar a lâmina em seu pescoço, danem-se os princípios humanistas.

Bem em sua frente estava o homem (ou monstro) que trouxe de volta à vida seu pior pesadelo.

Kanda mirou o golpe na garganta, iria ser um banho de sangue que ele tomaria com prazer, no entanto, antes que pudesse atingi-lo, outro corpo com força e impulso foi de encontro ao seu. O impacto o derrubou em cima de uma mesa vazia, que de podre quebrou ao meio e o levou de novo ao chão.

Dessa vez, antes de qualquer movimento, foi capturado por diversos braços que apertavam sua carne com violência ao puxarem-no para longe do Conde. Kanda mal tinha espaço para se debater, tantas eram as mãos o carregando, chegaram a cobrir até sua boca após cuspir tantas palavras mal educadas.

-Eu reconheço você- o Conde disse, com a calma de quem sabe o poder que tem. E ele tinha, tinha olhos malucos e nem portava armas. Sabia que precisava apenas de boas palavras para fazer estrago, e talvez nem quisesse mais que isso. Ele se aproximava apoiado em uma bengala escandalosa, passos de um caduco tal como ele aparentava ser.

-Você é o garoto dos Exorcistas- ele sorriu- eu vi você, sim, vi nos jornais. Faz tempo, faz algum tempo já. O que foi? Já deixou a rebeldia de lado? Acho que não.

Todas as palavras e as ameaças de morte que Kanda gritavam não passavam da mão que cobriam seu rosto. Ele queria que elas o atingissem, que ele visse que estaria morto se ele se soltasse, nem que custasse sua vida. Tudo que ele viu foram suas falas tornando-se grunhidos e o homem odioso sorrindo, como se estivesse diante da cena mais feliz da sua vida.

Num canto, num estado de quase morte, Tyki ainda tinha forças para parecer surpreso, segurando as tripas e o sangue para dentro de seu próprio corpo.

-Você tem olhos furiosos- ele comentou, o que deixou Kanda ainda mais furioso- eu gosto disso. Você tem olhos de assassino.

Nunca essa palavra o teria atingido de tal forma se não tivesse conhecido Allen. Como mágica, ao lembrar do garoto, que pelo que parecia ainda estava no andar de cima, o moreno parou de se debater.

Conde pareceu levar isso para outro lado.

-Desculpa, te ofendi?- perguntou, mas não parecia que sentia muito. Ou que sentia algo no geral- Não tive outra intenção senão elogia-lo com sinceridade, Yuu Kanda. Desde que seu pai morreu, você tem se tornado cada vez mais incrível, que pena que não tenho te visto estrelar as páginas dos jornais como antes. É realmente uma pena- suspirou- no entanto, agora eu estou mais preocupado com o que você estava fazendo no andar de cima para ter caído numa hora tão oportuna.

Era óbvio, Kanda estava se recusando a falar. Podiam surrá-lo, podiam tirar-lhe sangue, dizer-lhe as mais horríveis coisas, mas tinha a certeza de que não falaria, ou quem estaria em perigo seria sua pessoa mais importante e agora o único membro em operação nessa tão idiota e mal planejada missão.

Fez o óbvio, calou a boca.

E, apesar de tudo, foi como se acendesse uma luz nos olhos do Conde, ele pegou nas mãos o queixo de Kanda e sujou a pele em mais sangue que escorria por entre os dedos enluvados.

-Você se enfiou aqui sozinho? Ou por um acaso trouxe companhia?- perguntou, olhando fundo nas íris negras com seus olhos peçonhentos. O moreno podia sentir que ele procurava respostas rápidas e tentava desviar o olhar para todos os pontos, no entanto não era fácil quando estava sendo limitado por capangas.

Felizmente, o Conde não parecia ter paciência, não se manteve nesse embate por muito tempo. Largou o rosto de Kanda em segundos, dando espaço para que o moreno cuspisse com gosto em sua face.

Esse ato, no entanto, conseguiu abaixar o sorriso que o homem mantinha. Surgiu no lugar uma expressão sombria e fria que, apesar de nunca admitir, fez o moreno naquele momento começar a temer pela morte ou o que viria.

O que veio foi a bengala que com um golpe forte o pegou de surpresa na bochecha, sua cabeça virou tão rápido com o impacto que sentiu algo trincar no pescoço e não teve tempo de fechar a boca para evitar morder a língua. Doeu-lhe muito, mas apenas saber que havia mexido com o homem e o distraído da possibilidade de existir companhia deu-lhe muita felicidade. Foi capaz de cumprimentar o Conde com um sorriso vermelho que derretia em gotas direto ao chão, uma gargalhada que espirrava no traje de gala.

O homem se contorceu inteiro, como uma criança querendo doce caro no mercado, e disparou novos golpes desalmados. Na cabeça, no estômago, nos braços, repetidas vezes.

Por um motivo ou outro, aquilo lhe fazia ter vontade de rir.

Quanto mais eles se preocupavam com ele, mais tempo e brechas surgiam para Allen fugir para um lugar seguro.

Desde que o garoto estivesse a salvo, poderiam fazer o que quisessem com ele.

-Não vai falar nada?- o Conde rosnou, após uma golpeada que o fez ter que cuspir a mistura de sangue e saliva acumulada – Se você não for servir de nada, não precisamos de você. Quem sabe se você falar o que estava fazendo aqui nós possamos soltá-lo?

Era impossível confiar naquelas palavras. Não quando o moreno olhava de canto para Tyki, que negava com veemência em seu rosto e os capangas tão fedidos e nojentos cheiravam a idióticas mentiras.

Sua espada estava longínqua no chão podre, largada e esquecida.

Apesar de doído, deu de ombros.

-O que as pessoas fazem num bar? Eu estava tentando beber.

-No sótão?

-Não disse que estava querendo pagar pela bebida.

As mãos dos capangas que apertaram sua garganta enquanto o Conde arrumava suas luvas não o surpreenderam. Ele permaneceu estoico, equilibrado, como nunca tinha se sentido antes.

Talvez fosse o cheiro de sangue, confortável. Talvez fosse o fato de estar sob as mãos daqueles que destruíram sua vida. Quem dera sua maldita mãe pudesse testemunhar, talvez a faria ferver de nervosa.

-Se não quer falar, tudo bem- o homem disse, tão remansado que causava aflição nas entranhas, se movia para longe de Kanda- Sabe? Sempre pensei bem de você, Yuu Kanda. Você é como muitos de nós, não tem ninguém além da própria dor e seus instintos para seguir. Você é um animal de rua, um demônio liberto. Você é mal e cruel, violento. Você não se retraiu diante da maldade que viu, do sofrimento eu teve, você se tornou tudo aquilo que todos odeiam- suspirou, profundamente- Quer saber? Você pode ficar e assistir agora- ele repousou a mão no ferimento de Tyki, o fazendo se contorcer e gritar de dor- a ruína da paz.

Em uma primeira instância, Kanda nada fez. Não tinha o menor resquício de empatia por Tyki, o consideraria, em uma instância ilusoriamente máxima, um conhecido que o vendia soluções de álcool em copos de preocupante higiene. Sabia que talvez Allen fosse ficar decepcionado com esse tipo de atitude (ou falta de), porém também sabia que não teria modos de arriscar arruinar os ínfimos momentos que tinha de vida por alguém que mal considerava. Não era do seu feitio nem sua vontade.

Não, o que o fez piorar a situação não teve nada a ver com Tyki.

Quando Conde voltou suas torturas para Tyki, Kanda ganhou uma pausa da violência. Obviamente, os capangas não o deixaram livre e nem afrouxaram o modo como o seguravam, porém não estava sendo espancado, então era um bom começo.

Estava observando as luvas de seda do Conde ficarem vermelhas e vermelhas quando ouviu o chão do andar de cima ranger.

Ficou paralisado, naquele momento teve medo de verdade, temendo que os outros tivessem ouvido e chegassem rápido a uma conclusão. Não saberia o que seria capaz de fazer, que crimes seria capaz de cometer se algum deles pusesse as mãos hediondas em Allen.

Olhou calmamente para um dos que o seguravam, suava frio e não queria que ninguém, percebesse seus claros sinais. O que era difícil, porque tinha braços segurando-o pelo peito, perto do coração desesperado.

Foi quando viu o homem robusto olhar para cima, perguntando a alguém se havia ouvido também aquele estranho barulho que parecia vir do teto. Seu coração parou.

Sua visão foi coberta de vermelho.

Antes dos pontos serem conectados, tinha que tomar algumas atitudes drásticas. E essa era sua especialidade: agir sem pensar.

Kanda usou da única arma livre e mordeu com força a mão que tampava sua boca, até sentir os ossos roçarem e o gosto metálico e renhido. A pessoa gritou e rugiu de dor, o que assustou os colegas, e então o moreno se viu livre. Livre o bastante para golpeá-los para longe de si e alcançar a espada que esperava pacientemente jogada no piso.

Assim que a tinha em mãos, aqueles que estavam vindo para cima do moreno, pararam para pensar duas vezes em quão eficientes seus punhos crus seriam contra uma lâmina. Um deles segurava a mão ensanguentada e nem parecia pronto para tomar qualquer ataque.

Parecia estranho que mesmo os que portavam armas não as sacaram, apesar de manter as mãos prontas para tomar ação. Ficou claro que o que os mantinha parados era a pura falta de ordens. Eles esperavam ordens do Conde antes de ataca-lo. Tinham medo de mata-lo e acabar enfurecendo o líder.

O Conde, no entanto, largou o colarinho de Tyki, que destruído caiu com um baque de volta no chão. O barulho parecia estrondoso no silêncio que havia se instalado, porém Kanda mal o ouviu, tão forte e tão alto respirava para tentar se manter racional.

Ele precisava de mais barulho, ou qualquer um deles poderia ouvir a movimentação no teto.

Kanda manteve-se firme, a espada apontada diretamente na direção do Conde do Milênio. Com a boca livre, conseguiu finalmente cuspir o resto de sangue acumulado com a saliva, a mistura caiu e bateu nos cacos de vidro, se misturando em outras poças de sangue que sinceramente poderia pertencer a qualquer um naquele lugar. Menos o Conde. Kanda achava que esse homem precisava de alguns ferimentos e estava mais que pronto a fazê-los.

-Vejo que não é de muitas palavras, mas é de muitas ações- o Conde falou, tranquilo, mas claramente raivoso- Porém, temo que sua mãe está certa. Você não é muito de pensar, não é?

Os dentes do moreno rangeram, a raiva convertendo-se em calor que subia pelo corpo com a vontade de ver sangue.

-Não somos muitos, mas somos vários- o Conde disse- você é um só. E não falo apenas desse exato momento... você já perdeu um amigo, todos os outros debandaram. Seria apenas uma questão de tempo até só restar você, mas já que você resolveu de adiantar...

Suavemente, o homem fez um sinal com a mão que Kanda não pôde impedir. Em instantes, todos que podiam estavam sacando as armas diretamente em sua direção.

O moreno ferveu de raiva, tudo que queria era cortar aqueles braços levantados em sua direção e estava prestes a fazê-lo, quando ouviu novamente o teto ranger. Dessa vez, podia mexer a cabeça, já que não havia ninguém segurando seu queixo, então decidiu olhar para cima.

Ele pôde ver de um dos buracos que pontuavam a construção frágil uma mescla cinza e azul que reconheceria em qualquer momento. Allen estava observando-o lá de cima e isso lhe deu uma paz tremenda. O olho estava arregalado, como se estivesse tentando piamente transmitir uma mensagem que Kanda imaginou ser algo como “tudo bem”. Apesar de que ser ameaçado por diversos criminosos armados em um bar imundo demandasse mais que uma frase quebra-gelo de mensagem de texto. Encarecida e fatalmente, implicou-lhe com o rosto para que saísse dali, agora todas as forças estavam concentradas dentro do bar e não devia restar capangas do lado de fora. Em alguns segundos demorados, o buraco estava vazio.

Tranquilizava-o saber que Allen estaria a salvo, longe daquele lugar. Nem que isso apenas proporcionasse ao garoto poder velar sua morte. Morreria sabendo que salvou quem o havia salvado.

-Por que está olhando para cima?- o Conde perguntou, fazendo Kanda voltar sua atenção para ele. O moreno viu Tyki observando-o do chão, um olhar confuso e desesperado, porém aliviado por ter sido esquecido.

-Porque é a única direção em que eu não tenho que olhar pra essa sua cara desfigurada.

O Conde expandiu um sorriso, que não parecia feliz, nem humorado.

-Vejo que ainda tem humor- o homem concluiu- e, na minha experiência, isso só pode significar duas coisas: ou você ainda acha que vai vencer ou já aceitou a derrota. Quer saber em qual dos dois Daisya se encaixava?

Um ponto na testa de Kanda latejava e ele sabia que era puramente fúria conservada. Não estava ali para um jogo de perguntas e respostas, mas tinha que os distrair para que não percebessem a escapada de Allen.

-Por que matou meu pai?

Claramente sem esperar por essa pergunta tão direta, o homem exibiu o sorriso mais sincero da noite. E não era um sorriso bondoso, tinha o ar sádico de quem aprecia de perto as monstruosidades que cria.

-Como sabe que o matei? Nunca disse que estava com os Akumas naquela época.

Porque ele gosta de contemplar as más criaturas que fez e por isso o mensura com tanto sabor. Uma de suas criações malditas.

-Não importa como eu sei.

-Parece justo- ele disse, e, no momento em que sua expressão se tornou perversa, Kanda percebeu que algo estava errado- então não vou te contar como o matei- pontuou- Nem como sei do seu namorado, nem como vou mata-lo também. Allen Walker, não é? Só revelo que será bem degradante.

Não aguentando ouvir aquele nome na língua imunda, Kanda avançou prontamente com a espada, não se importando com as armas apontadas para si. Estava pronto para morrer, desde que levasse pelo menos uma dúzia consigo. Queria ver aquele rosto prepotente manchado de sangue, sem vida.

Oscilou a lâmina rapidamente, cortando os mais próximos e espirrando mais sangue em si mesmo. Ouviu tiros, que passaram de raspão. Movia-se rápido entre eles, acertando tudo que se movia, porque estava cego, a visão vermelha, as mãos descontroladas.

Ouviu mais um tiro e esse o pegou na perna, em cheio. Sem conseguir pisar, caiu em um joelho, mas não sentia uma dor ardente como achou que sentiria. Estava furioso, aceso, frenético e não largou a espada, porque se fosse morrer queria que fosse empunhando aquela lâmina. Gritou, alto como um rugido e diretamente para o homem.

Então, um barulho. Lá fora. Como latas de lixo sendo derrubadas e ele saberia porque ele e Allen tinham evitado fazê-lo quando estavam escondidos...

-Não...

Seu coração parou e se viu paralisado. Temeu que tivesse sido alto o bastante para ouvirem e soubessem.

Foi, o Conde ouviu o barulho e apreciou o claro temor estampado no rosto do moreno. Uma súbita realização subiu visualmente pelo corpo dele, das pontas do pé para o rosto macabramente feliz, como se os pontos estivessem conectando em seu plano maquiavélico.

-Seria algum conhecido seu lá fora tentando escapar talvez? Irmão de gangue? Espião? Outro aliado?- então os olhos dele brilharam, como um anzol num lago de peixes- Ou seria talvez seu namorado lá fora? Acho que meus capangas o encontraram.

O homem sinalizou para que alguns saíssem do bar para verificar também. Bem armados. Kanda os viu ir sem conseguir fazer muito além de tentar segui-los e ser pego desprevenido por vários braços que apertaram seu ferimento.

Estava preso naquele inferno.

-Olha só, parece que vocês poderão morrer juntinhos. Que romântico.

O moreno sentia como se seu coração estivesse quebrando em milhões de pedacinhos miseráveis. Não era para a noite ser assim.

Era para terem ido dormir, ou tentado, terem acordado com boas notícias e irem para aquele café perto do qual Allen trabalha, comemorarem sozinhos com muita comida que ele gostava. Kanda poderia estar ao seu lado com tranquilidade, aproveitariam os resquícios que tinham de dias sem aula juntos e discutiriam muito, bastante, porque era assim que era seu relacionamento. E de nada seriam sem ficarem batendo de frente o tempo todo para depois reconciliarem boca a boca.

-Não, ele não...- implorou para algo ou alguém. Qualquer ouvido!

-Não achei que era do seu feitio, Yuu Kanda. Implorar. Mas eu gostei, deveria fazer mais disso.

E não era. Nunca foi. Ele pensou que nunca seria.

Era como se seu mundo tivesse ruído.

Podiam tirar-lhe a pele, os ossos, drenar-lhe o sangue até a última gota, decepar-lhe as mãos, os pés, mas ele não poderia aceitar que lhe tirassem o coração. Não agora que tinha voltado a bater, como se estivesse vivo.

-Tragam-no para cá!- gritou. E depois disse baixo, como se falasse apenas com Kanda- Vamos coloca-los lado a lado para uma última despedida. Assim ganhamos um belo show e ao mesmo tempo o domínio dessa área! Péssimo dia para ser um Exorcista, não é mesmo Kanda? Um belo dia para ser um Akuma. Sim, dessa vez é um grande dia.

O moreno não tinha forças para responder, o monólogo egocêntrico do Conde virava um ruído distante do ambiente. Ele fechou os olhos porque sentia tudo fora do lugar e tudo que ficou em suas impressões foi um zumbido. Tinha energia acumulada, raiva líquida correndo pelas veias, mas o furo na perna esvaziava-o.

Ele podia admitir, estava derrotado.

Quando decidiram usar sua maior força e maior fraqueza contra ele, foi derrotado.

Ele não gostava de pensar que um dia isso poderia acontecer, mas quando pensava, sabia que queria cair sozinho. Nunca com Allen. Ele era para viver plenamente com ou sem ele.

Sempre tinha na ponta da língua as palavras que tinha pra dizer, no entanto poucas vezes vinha a verbaliza-las. E agora se arrependia, porque olhe onde estavam? Se não lhe dava a culpa, daria a quem?

Sabia o tempo todo e, mesmo que pensasse, no fim nunca chegou a avisar. Chegou ao quase, mas nunca ao feito. Quando lhe tinha as mãos nas suas, tarde da noite, quando ele lhe contava algo triste ou engraçado capaz de tirar suas emoções do baú, quando dividiam algo, seja sentimentos ou um pedaço de bolo gelado, quando na cama, quando olhava nos olhos dele por mais de cinco segundos sem dizer nada. Abria a boca, depois renunciava e fingia ser nada com uma desconversa.

Claramente não mais passava de puro nada.

Queria avisar-lhe novamente dos perigos, do seu passado e dos seus males do presente. Não era seguro, ele não era confiável. Ele era tóxico e mal, violento. Uma verdadeira criatura.

Mas Kanda era egoísta. Queria que ele fosse feliz, porém queria que fosse com ele, para ter o prazer de testemunhar um sorriso que não se assustava com o seu.

Nunca resignado, debateu-se descontroladamente, seus rugidos assolando os próprios tímpanos. Até que uma dor excruciante o obrigou a parar. Conde o observava com falsa misericórdia no olhar, o sapato caro apertava o ferimento sem o mínimo vestígio de compadecimento.

Kanda não iria mentir nem usar eufemismo, aquilo doía pra porra!

-Olhe só, lá vem eles- o homem, sem tirar os olhos de onde deveria ser a porta (Kanda não via, por mais que tentasse, seus olhos estavam embaçados de tanto apertá-los em dor), enfiou-lhe a bengala no buraco da bala, nem piscando ao volume do grito de dor aumentar.

O que fez foi dar-lhe outro sorriso sinistro.

Era um gesto parecido, mas tão diferente do que o Moyashi fazia. O sorriso do garoto o fazia feliz.

Este o fazia ver vermelho.

-Pronto para rever o namorado?

A pressão na perna diminuiu ao ser retirada a bengala, causando um choque de dor que se perdeu na insanidade de tantas outras acumuladas. O rosto de Kanda encontrou o chão eivado, havia muitos pontos vagando pelos seus olhos e mais sangue no chão que em seu corpo.

Seguiu com os olhos ferventes a direção em que o Conde apontava, visualizando apenas borrões de movimento. Pensava estar morrendo, tudo se movia lentamente, como pedaços fugitivos de luz rodando pelo lugar. Isso e a dor que escorria líquida pelo seu corpo.

Queria apenas ficar vivo o suficiente para ver Allen de novo, mas não podia deixá-los tê-lo.

Surgiram borrões pela porta, cambaleando em movimentos descompassados e batendo nos móveis ao redor. Kanda piscou e piscou, até que a visão se normalizasse e pudesse distinguir um corpo do outro.

Prontamente, achou estar com a cabeça ainda confusa.

-E aí, Yuu? Alguém nos ligou com uma emergência. Não sabia que ia estar tão agitado por aqui- Lavi, com o lábio trincado e sangrento acompanhando o olho roxo, despontava entre um capanga e Alma, igualmente ferido, mas nem de longe portando o mesmo sorriso.

E nem de longe Allen.

-O q-... Cadê o garoto?- o Conde indagou em tom de ordem e confusão.

Kanda apenas escorregou as mãos para envolver a bengala que afundava em sua perna.

-Eu tenho quase certeza de que eu tenho um nome- a voz soou pelo bar, entregando todos a um silêncio surpreso. Exceto, é claro, o moreno.

O Conde virou-se para o fundo do bar, como todos, observando os dois capangas desacordados que deveriam estar guardando as portas do fundo e a cozinha.

-É Allen, a propósito- o albino falou, ao lado dos homens desacordados. Tinha nas mãos um isqueiro e uma garrafa com um pano no interior. Por um milésimo de segundo, seus olhos cruzaram com o do moreno e Kanda soube imediatamente o que fazer.

O Conde abriu a boca, certamente para esbravejar ameaças, mas antes que o fizesse, Allen sorriu e ateou fogo no pano na garrafa. E a jogou pelo bar.

Distraídos pelas chamas brilhantes que corria pelo ar até espatifar em explosão no chão, ninguém impediu Kanda quando ele empurrou a maldita bengala de sua perna ferida. Pelo canto do olho, viu Lavi e Alma dos que estavam segurando seus braços, aos socos e chutes rápidos.

O moreno estava ocupado demais tentando se levantar e encontrar Allen para ajuda-los. De fato, estaria mais preocupado com o sangramento que estava deixando-o tonto, ziguezagueando pelo fogo que se alastrava, porém por sorte recuperou a espada que jazia sozinha no chão.

Das chamas gritantes que fechavam seu caminho, avistou o albino golpeando dois homens mal encarados com o cano que carregara na mochila. Golpes certeiros e nem um pouco bem intencionados.

-Moyashi!- gritou, o máximo que conseguiu no momento, que muito não era, mas ele não pareceu escutar.

-MOYASHI!- tentou mais uma vez, mas foi interrompido pelo fogo estalante que roía a madeira do estabelecimento. Desviou de pedaços que caíam sozinhos do teto, direto no chão, alimentando ainda mais o fogo alastrante. Por pouco não perder de vista o garoto enquanto tentava avançar, ainda que pouco, pelo labirinto fumegante em direção ao conflito maior.

A fumaça e a luz começavam a distanciar sua visão do garoto, cada vez mais cercado e visualmente cansado. O calor começava a alcança-los, atacando sua disposição física que tanto precisavam para sair de lá com vida e a fumaça invadia seus pulmões, envenenando-os.

Kanda tentou chama-lo, cegamente, estancando com a mão o sangue que escorria pela perna e traçava um caminho pelo chão. Precisava tira-lo daquele lugar o mais rapidamente possível. Ele era uma coisa que não poderia perder.

-ALLEN!

O garoto finalmente o ouviu, encontrou seus olhos no meio das chamas, surpresos, mas ainda sorridentes ao despontar o rosto conhecido e por ter ouvido seu nome de alguém que nunca o havia falado. Expressão que não durou muito tempo, quando Allen apontou-lhe com temor para algo atrás de si.

Kanda virou-se rápido o bastante para ver o Conde, ainda vivo, como uma barata típica da podridão. Era uma aporrinhação que não acabava, fazendo o moreno resmungar baixo vários xingamentos inéditos.

-Não tem o que fazer agora. Não tem para onde ir, Kanda- o homem disse, andando preponderante como se o lugar ao seu redor não estivesse incendiado.

-Você também não tem.

-Por que você não vai embora? -à medida que ele se aproximava, Kada sentia que tinha que andar para trás, mas permaneceu firme em seu lugar- A porta está bem ali. Se ficar para resolver, vai acabar morto. O que acha que quer dizer esse tanto de sangue saindo da sua perna?

Kanda pensou em reposta bem mal educadas, no entanto viu-se sem força nenhuma para abrir a boca, sua consciência se desapegava da realidade a sua volta.

Antes que o Conde desse mais um passo, claramente percebendo sua atual fraqueza, o moreno firmou-lhe o katana, cuja ponta cortou raso o nariz do homem. Distanciado pela espada, ele apenas riu.

-É, agora seria uma boa hora para me matar. Jogar meu corpo no fogo, apagar as evidências da covardia- concluiu- É, parece que no final você é realmente apenas um animal assassino. Tão mau caráter quanto sua mãe já dizia.

-Não- a terceira voz surpreendeu os dois. Viram atrás de Conde a sombra de Tyki, pálido, cambaleante como se estivesse nos últimos delírios, a roupa fumegante e queimada. Na mão, uma arma apontava diretamente para o Conde.

-Ele não é- Tyki firmou, enfim- Mas você e eu, no entanto...

O Conde pareceu finalmente alarmado.

-Tyk-

Soou o tiro e o homem estava no chão, agonizando.

Kanda mentiria se não dissesse que sentia o mínimo de satisfação com aquilo. Só não precisava falar para o Moyashi.

Tyki acenou com a cabeça para que começassem a ir para fora o mais rápido possível. Em última instância, Kanda chutou a bengala do conde para o fogo, nem pensando em encontrar os olhos do homem que finalmente havia calado a boca.

Mentalmente, o moreno agradecia Tyki por ter feito algo terrível que ele provavelmente teria acabado fazendo e estragado sua vida. Ainda havia muito caminho a se percorrer para que tornasse ao lado bom, mas esperava por isso.

Não havia sinal de Allen pelo lugar.

Lavi percorreu as chamas para apoiar o corpo do barman e ajuda-lo a andar pelo caminho tortuoso para fora do lugar.

-Alma chamou os bombeiros- avisou- temos que sair daqui logo.

Kanda alcançou-o e apertou-lhe o braço, estava ofegante demais para formar uma frase coerente, mas tentava.

Lavi sorriu.

-Ele está lá fora, foi difícil tira-lo daqui de dentro quando você ainda estava aqui.

O moreno concordou com a cabeça e tornaram a andar.

—X-

oOo

—X-

O baque do ar fresco em contraste com a brisa fria da madrugada na rua era refrescante e desesperador. Doía na pele.

Allen esperou, ainda que não pacientemente, do outro lado da rua.

Alma o abraçava por perceber o quão inquieto estava, não tirando os olhos da porta do bar. Parecia uma lareira enorme, brilhando e aquecendo o bairro. Moradores de rua chegavam aos poucos para pegar um pouco do fogo que o prédio em chamas oferecia, mas logo iam-se.

Quando viu figuras cambaleando pela porta e desabando direto ao chão na rua, todas juntas, não pensou duas vezes e correu para aquele lado.

Sua perna estava dolorida, mas ainda assim saltou em cima do namorado que estava caído no chão. Kanda sorriu um pouco assim que identificou a massa que o abraçava tão forte, porque apesar de Allen cheirar a cinzas e estar coberto em suor, o moreno não pensou em nenhum outro momento em que havia ficado tão feliz por tanto contato humano.

-Eu podia jurar que ouvi você falar meu nome lá dentro.

-Eu falei. Allen.

O garoto se desvencilhou do pseudo-abraço para olhá-lo diretamente nos olhos, tinha um misto de confusão e surpresa estampado na expressão, o que impediu Kanda de evitar um meio sorriso.

-Sorrindo e falando meu nome. Bem que a gente podia ter colocado fogo num bar cheio de criminosos antes.

O moreno revirou os olhos, ainda que de fato não estivesse irritado, mas porque suas forças se esvaíam e estava tentando poupá-las para ficar acordado. Seu sangue começava a manchar a mão de Allen, estacionada sobre a sua no ferimento.

-Não acredito que você aguentou todo esse tempo com um buraco na sua perna.

-Você preferiria que eu não tivesse aguentado?

-Eu preferiria que você NÃO tivesse um buraco na sua perna.

-Tsc. Vaso ruim não quebra.

Allen riu e, apesar de conhecer o quão durão era seu namorado, não podia deixar de se preocupar com o tanto se sangue que ainda escorria.

-Ok. Agora fica quieto, Bakanda.

O albino aconchegou-se no chão frio, ao lado dele, para esperar a ajuda chegar. Se ele se concentrasse bastante, podia ouvir sirenes se aproximando, mas o som era abafado pelo estalar do incêndio crescente atrás de si.

-Vai ficar tudo bem- ele sussurrava para o nada, com a mão ainda pressionando o ferimento alheio- vai ficar tudo bem...

Mas Kanda não soube se tudo ficou bem, porque apagou de repente.

—X-

oOo

—X-

Incrivelmente, os paramédicos não questionaram absolutamente nada sobre a situação. Percebeu-se que provavelmente já tivessem em mente o que acontecia desse lado da cidade, porque simplesmente removeram Kanda, Alma e Tyki do chão e os enfiaram na ambulância, não perguntando mais que a atual condição de saúde dos outros.

Mesmo com o ferimento na costela, Allen não precisou ser levado. Os paramédicos o avisaram de que não se tratava de algo grave e trataram imediatamente.

Lavi teve que chamar um táxi para que fossem ao hospital, já que, tão rápido a ambulância chegara, fora embora, com medo.

O albino e o ruivo irromperam pela porta do hospital já encontrando Mana e Tiedoll sentados nas cadeiras de espera. Os dois sabiam que alguma conversa repreensiva estava por vir, principalmente tomando como ponto o claro desastre que a noite havia se tornado, mas surpreenderam-se quando a primeira reação dos adultos foi apertá-los no abraço coletivo mais sufocante e demorado que já presenciaram.

-Eu juro que se vocês já não tivessem sofrido o bastante, eu te daria um tapa na nuca, Allen Walker!- Mana disse, lambendo o dedão para limpar o rosto sujo do filho.

-Isso... parece justo -Lavi falou, de onde Tiedoll apertava-lhe a orelha.

Allen olhou para o fim do corredor, de onde médicos e enfermeiros iam e vinham numa dinâmica que ele não saberia dizer se era de boas ou más notícias.

-Como eles estão?- o albino perguntou para o pai, sem tirar os olhos do movimento profissional que acontecia no fundo.

Foi Tiedoll, no entanto, que respondeu:

-Ainda estão tratando. Mas... mas nós sabemos que se alguém fosse sobreviver a um ferimento grave ignorado por tanto tempo, seria o Yuu. Aquele teimoso.

Allen riu, porque era a mais pura verdade.

-E Alma não estava tão grave, estão procurando por concussões já que ele levou uma bela pancada na cabeça- Tiedoll suspirou. Pela primeira vez Allen o viu expressar algo como raiva — sinceramente, sabia que vocês eram loucos, mas não a ponto disso. Vocês têm sorte por terem saído dessa situação com vida e espero que não voltem a achar que isso é um bom comportamento-suspirou, preocupado- Agora...é só esperar e torcer para o melhor.

-É...- o albino apertou as unhas na palma da mão, olhando para como Lavi estava cansado e como seu pai e Tiedoll estavam exaustos. Tyki e Kanda estava em cirurgia e todos sabiam o quanto ele odiava hospitais, Alma estava sendo examinado e quem sabe o que podia surgir dali.

Ele mesmo poderia ter sido quem teria parado nas mãos do Conde, se o chão tivesse quebrado alguns metros em sua direção. E se ele também tivesse sido descoberto?

Uma sensação apertou seu coração, fazendo-o sentir como se tivessem enfiado um punho para agarrá-lo direto em seu peito. Apertando. Ele odiava chorar, mas estava difícil segurar tudo que tinha acontecido. Não queria fazer isso agora.

Ele abriu a boca, mas voltou a fechá-la. Apenas sentou em uma das cadeiras da sala e pousou a cabeça nos joelhos.

Sentia-se tão culpado por estar bem. Seu pulmão parecia se reduzir a nada.

-Pelo menos- Lavi disse- está tudo acabado agora de uma forma ou de outra. Independente do que aconteça.

O albino ouviu em silêncio, de onde nem se mexeu, apertando a cabeça e fechando os olhos com a mão do ruivo pousando firmemente em seus ombros.

-O Yuu está livre.

Allen, sem ninguém perceber, chorou.

Notas finais
Nos vemos no último capítulo! Clique já aí no próximo capítulo!! :)