Bad Boy
21 Sorrisos
Notas iniciais
–Você tá bem?
Lavi levantou as esmeraldas para encontrarem os olhos do autor da pergunta, Alma estava olhando preocupadamente para ele, encostando as costas na parede de azulejos brancos.
Levou um tempo para raciocinar a pergunta. A cabeça estava cheia, de nada e de tudo. Quando conseguiu, prestou atenção à razão pergunta.
Podia ser por causa do fato dele estar no banheiro há um tempão desde que saíra da mesa do café. Mas bastou um olhar nos olhos dele para Lavi perceber do que ele estava falando. E não tinha nada a ver com o fato de sua bunda estar doendo de tanto ficar sentado na pia.
–A gente conversa demais no banheiro, né?- respondeu.
–Mas você está bem?
O ruivo suspirou.
–Se era para perguntar mesmo sabendo a resposta, era melhor você não ter ficado do lado dele.
Sorriu, amargamente, enquanto descia da pia de mármore. Alma sentiu o pesar de suas escolhas. Era como deixar de lado um amigo para ajudar outro. Era como prejudicar os sentimentos de um para melhorar os de outro.
–Lavi, eu...
–Eu sei- ele cortou, o sorriso amargurado ainda estampado com toda a força no seu rosto- eu sei. Ele precisava disso. De ajuda. De Allen.
O tom de voz começava a morrer na fala. Enterrou-se em um suspiro longo e mórbido.
–Não tinha jeito...- sussurrou para si, como se quisesse confirmar a veracidade das palavras- era pelo bem dele.
“Mas e o meu próprio bem?”, pensou, antes de afastar as palavras que bagunçavam sua mente.
–Tenho que ir.
O ruivo tentou ser o mais rápido possível em sair dali. Alma quase deixou que ele se fosse sem dizer nada, mas falou:
–Isso não quer dizer nada.
E Lavi paralisou, os dedos finos a centímetros da maçaneta.
–Quem disse que eles estão juntos?- engoliu em seco- e-eles não disseram nada. Nem voltaram ainda.
–E precisa?- Lavi praticamente gritou- não, não precisa.
–Mas eles brigaram. Do jeito que o Allen é, duvido que aceite voltar assim. E do jeito que o Kanda é... talvez não encontre todas as palavras para...
–Para- Lavi disse, calmo, mas quase implorando- sério, para. Eu estou sério.
–Eu também estou sério.
Lavi suspirou. Incrédulo, mas quase acreditando, abriu bruscamente a porta e fechou tão rápido quanto.
Finalmente havia saído daquele banheiro.
E não se sentia nada bem.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Kanda estava indo à escola.
Logo na segunda-feira, Allen invadiu a sala de Lavi, com o tanto de ânimo que a segunda feira nos proporciona. Ou seja: ânimo de um zumbi molenga e esfomeado que acabou de acordar depois uma maratona.
De fato o albino se ARRASTOU até a classe do amigo.
Mas realmente precisava pedir uma gramática para fazer uma maldita prova. Por isso teve que fazer um esforço para levantar a cabeça da mesa e, bem, abrir os olhos.
Com os cabeços desalinhados e emaranhados, forçou a voz a chamar pelo ruivo. Ele veio como um raio até a sua pessoa.
–Alleeeeen-disse enquanto envolvia o pequeno em um famoso abraço de urso- você fica tão fofo desse jeito “acabei de acordar depois de uma noite selvagem”.
Allen tinha que admitir, não tinha forças nem para rebater os comentários do amigo quando era segunda. Então, ignorou.
–Preciso de uma gramática...
–Aaah, somos dois. Também esqueci a minha.
–Mas eu tenho uma prova na próxima aula...
–Allen, sua voz fica muito estranha quando você tem uma noite selvagem...
–Eu não acordei de uma noite selvagem... eu só...- bocejou- acordei.
–É... acordar é o mínimo que você pode fazer em um dia...- o ruivo resmungou divertidamente.
–Gra...mática...
–Ah, é. Mas eu não tenho, Allen.
Allen ia resmungar mais um pedido à Lavi, mas sentiu algo pesar em sua cabeça. O tronco se curvou contra sua vontade.
–É isso aqui?
Allen virou a cabeça e encontrou um tronco familiar. Como estava encurvado, teve que erguer a cabeça para ver quem era.
–Kan...da?
–É isso aqui?- insistiu.
O albino observou o peso que ele havia colocado em sua cabeça. Uma gramática intocada. Imaginava que ele nem ao menos havia se incomodado em abrir o próprio livro, não havia sinais de alguma vez ter sido manuseado...
–Ah, é sim- disse, confuso, mas ainda assim pegando o objeto- obrigado.
Kanda soltou um sorriso tímido, mas ainda existente, que deixou até Allen sem jeito.
–Oh, Allen- Lavi abraçou o pescoço do pequeno- você vai voltar para a sala?- choramingou- mas eu queria você aqui. Você tá tão bonitinho hoje...
–Lavi, você já disse is...
–Rá!- Kanda riu- bonitinho? Com esse cabelo espetado você parece o capet...
O albino virou, claramente ofendido, esperando com as sobrancelhas erguidas o complemento da frase.
Foi aí que o moreno percebeu o que estava dizendo. O orgulho havia resolvido novamente atrapalhar seus planos e estava prestes a ofender o garoto. Lavi sorria vitoriosamente quando uma veia pulou de raiva na testa do pequeno.
–Argh, eu sei, eu sei- o albino disse, tentando gesticular as mãos, mas a preguiça falava mais alto- já vou. Tchau, Lavi, obrigado.
Então girou o corpo e quase amaldiçoou o fato de agir como um zumbi, porque as mãos de Kanda o alcançaram antes que ele pudesse passar pela porta. A cabeça tombou para trás e o corpo quase foi junto.
–Ai! O que foi?
–Não foi o que eu quis dizer.
Allen olhou, estava confuso demais. Vamos dizer que o albino não era lá muito rápido de raciocínio nesses momentos.
–Eu...
–Ah.Você quer a gramática de volta?
Allen, Allen. Surpreendendo Kanda a cada segundo. De um modo ruim.
Foi a vez do moreno ficar confuso.
–Quê...? Não, pode levar- confirmou- é só que...
–Ah, obrigado, então- A cabeça de Allen desviou o corpo de Kanda a sua frente para observar o amigo- Até o intervalo, Lavi. Espero que encontre uma gramática. O professor já deve estar na minha sala...
E o albino virou e sumiu pelo corredor. Fechando a porta bruscamente e deixando o japonês atordoado e sem fala. Além de um ruivo risonho.
–Parece o capeta, Yuu?- ele repetiu a fala do moreno com um tom divertido- é assim que se faz para conquistar uma pessoa... doce como sempre.
–Cala a boca- respondeu, rápido e sinceramente.
–Eu achei que vocês tinham voltado...
Kanda percebeu o que ele estava fazendo.
–Não.
–Por quê?
Trincou os dentes.
–Ele não quis.
–Ora, ora. Mas que pena, né?
Kanda trombou seu ombro no dele, fazendo questão de ser doloroso. O ruivo resmungou um “ai” e bateu as costas na lousa em um pequeno estrondo.
O moreno nem ao menos questionou o porquê dele saber que algum dia já houve alguma relação entre ele e o pequeno... estava ocupado demais estraçalhando um certo ruivo caolho em seus pensamentos.
Sentou na cadeira dos fundos, sempre desocupada, e aquietou-se. Pelo menos por fora. Por dentro ele queria se jogar do terceiro andar e se enfiar em um buraco qualquer. Mas a janela estava trancada...
–Tsc. Moyashi idiota...
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
–Fique alegre, Allen!- Lenalee puxou as bochechas macias do pequeno ao seu lado- última semana de aula!
–Vocês veem a semana como um pequeno passo para a liberdade, mas eu vejo como a semana do inferno. Prova, prova, prova, trabalhos, estresse, notas... Argh. Queria poder ligar o foda-se pra essa parte e esperar passar...
–Ora, eu já fiz isso- Lavi riu ao lado.
–Isso nós já sabemos, Lavi... mesmo que você continue tirando as melhores notas sem se importar...
–Quem disse que eu não me importo? Eu me importo, só não...hm... faço com tanta dedicação.
–Ah, ok... se você diz. Mas e você, Kanda?
Os olhos dos quatro, Alma, Allen, Lenalee e Lavi, que conversavam animadamente em uma rodinha fechada, voltaram os olhos para o corpo encostado na árvore. Estava a metros de distância, sentado na sombra que se confundia com a própria pessoa e com uma posição de “tô pouco me fudendo procêis”.
Kanda não percebeu de imediato, estava ocupado demais observando as formigas andando por entre as folhas de grama em fila. Apenas quando alguém pigarreou, alto e propositalmente, segundos depois, ele levantou os olhos dos insetos.
Suspirou pesadamente.
–O que é agora?
–Como?- Lenalee perguntou.
–Como o quê?
–Que você vai fazer?- Allen completou.
–O quê?
–Passar de ano- Lavi terminou- você SÓ veio na última semana.
Suspirou.
–Eu consigo.
–Como?- Allen levantou uma sobrancelha.
–Métodos.
–Como?- Lenalee perguntou de novo.
O moreno já estava ficando irritado. Eles estavam parecendo crianças com sua brincadeira de “Por quê? Por quê?”. E, caso você nunca tenha passado por isso, tenha certeza de que é irritante. Tanto que, no momento em que você vê que não vão parar em um primeiro “por quê?”, você tem vontade de soltar um “Porque eu vou te matar se você não calar essa boca e aceitar que não há um porquê para toda a merda que você perguntar...e você é adotado”. Bem, se você não conhece a situação, agradeça. Você é um sortudo.
Kanda suspirou, tentando desviar-se da vontade de meter um punho fechado no nariz da pessoa mais próxima.
–Os professores vão me passar provas durante as tardes inteiras. Valendo por quando faltei.
Ele não imaginava que era algo para se impressionar ou se surpreender, mas Lenalee e Allen abriram uma boca do tamanho de uma bola de boliche.
–Provas a tarde inteira, todas as matérias, todas das últimas semanas...- Allen resmungou como se fosse uma maldição ou uma profecia e morte- eu não sobreviveria.
–Hm...- Kanda resmungou, mais atento do que estava antes- eu dou um jeito.
Lavi riu.
–Aposto que dá...Yuu.
Kanda não disse nada em resposta. Apenas levantou os olhos devagar, como se estivesse contendo o seu olhar mortal, e os fixou no único olho esmeralda brilhante do ruivo.
–Pode apostar que consigo...Usagi.
Allen não tinha certeza, mas teve um pequeno pressentimento de que eles não falavam sobre provas. Muito mais. Imaginou que as palavras que disseram não tinham nenhum sentido, estavam transmitindo coisas pelo olhar.
–Mas...- Lavi disse, arrastando as letras- depois de toda essa mancada e tempo longe... talvez você não tenha CHANCE nenhuma.
–Não se preocupe, Usagi. Eu sempre estive à sua frente. Quem tá fora é você.
–Não em questões escolares...- resmungou baixo e depois aumentou o tom para ser ouvido- alguém que não liga e nunca ligou pra esse tipo de coisa e JOGA fora, não tem direito de falar nada.
–Rá- riu- eu ligo agora. E foi você que disse agora a pouco que liga o “foda-se”.
–Hmmm...- Lenalee resmungou um pouco recuada, ela já devia pressentir a luta escondida nas palavras- eu vou atender o celular...
–Rá- Lavi riu, os dois continuavam como se ninguém estivesse lá- eu também disse que ME IMPORTAVA.
Kanda ia abrir a boca para falar algo, mas os sons dos passos da chinesa voltando interromperam. Ela veio desligando uma chamada no celular e chamando os nomes deles.
–Hm...gente. O que acham de ir à praia nas férias?
Todos viraram os rostos, totalmente confusos para a garota. Ela ergueu os olhos do celular agora desligado e sorriu desconcertadamente.
–Só uma sugestão. Meu irmão estava falando nisso...
Iam dizer que Komui provavelmente estava falando dos dois irem para a praia só eles, como família. Mas Allen levantou em um pulo.
–Nunca fui para a praia.
E os olhos, ainda mais surpresos, mudaram de lado e encaixaram no rosto do albino.
–Também nunca fui- Alma respondeu.
–Vocês não existem...- Lenalee respondeu- eu sempre achei que...
–Então acho que agora temos que ir, obrigatoriamente- Lavi disse.
–O quê??- havia levado um tempo para Kanda perceber o que estava acontecendo- o que vocês...
–Então, está decidido- Lenalee bateu palmas.
–Eu- Lavi disse, antes que desse brecha para Kanda falar algo- Alma, Lenalee, Allen e Kanda na praia!
–Vai ser divertido!- Alma gritou.
–Meninas de biquíni, Allen de roupa de banho... que delícia- o ruivo contornou os lábios com a língua.
–Eu nunca disse que ia!!- Kanda levantou a voz como nunca tinha feito, achando que teria algum efeito sobre eles, mas apenas Lavi se incomodou em olhar para ele.
–Que foi? Medo de mostrar seu corpo flácido?- o ruivo riu- medo de queimar a sua pele preciosa de bebê?- e seu aproximou para sussurrar- ou já sabe que perdeu para mim e desistiu, hein.
Kanda mordeu o lábio inferior com força.
–Eu nunca disse isso. Só acho que essas baboseiras de praia que idiotas adoram fazer são um merda.
–Ah, desculpa, Kanda.
Aquela voz não era de Lavi. Quer dizer, a não ser que o caolho conseguisse mudar a voz e falar sem mexer a boca. Mas o som vinha das costas do moreno.
Ah, não.
–Moyas...?
–Tudo bem, você não precisa ir. Eu só achei que seria divertido. Todo mundo junto...- e suspirou, Kanda podia achar que ele estava fazendo de propósito- eu nunca fui, mas eu sempre achei que fosse mais divertido com todos os amigos juntos...
–Oe... você...
–Vai fazer falta...
Kanda engoliu em seco e podia sentir que Lavi estava prestes a explodir em risadas atrás dele. O albino tinha abaixado a cabeça e mexia o pé em cima de um formigueiro. Argh, o moreno odiava o fato de o garoto tê-lo em suas mãos às vezes. Bastava fazer uma cara chorosa e pronto. As mãos do moreno formigavam querendo tocar qualquer parte do corpo. Ele ergueu a mão e ia colocá-la em meio aos fios prateados que escondiam seu rosto...
...Mas Allen levantou a cabeça bruscamente. Além de bater violentamente na mão de Kanda, atingiu o queixo dele também. Lavi explodiu em gargalhadas quando Kanda gemeu de dor.
–Bem- o albino sorria como se não tivesse quase matado uma pessoa- ainda bem que, além da Lenalee, o Lavi vai estar lá, né? Pena que você não vai...-e então voltou-se para o ruivo- Estávamos separando os quartos para o caso de termos que ficar em quartos de dois ou mais, agora. Lavi você fica comigo, certo?
O ruivo, que havia acabado de sair de uma crise de risos, ergueu os olhos para o moreno antes de olhar para Allen.
–Sim, com certeza. Nos divertiremos bastante juntos.
Ah, ele estava provocando demais.
Kanda odiava perder mais do que tudo.
–Eu nunca disse que não ia.
–Você perguntou quem tinha dito que você ia...- Lavi disse, confuso, tanto quanto Allen.
–Eu nunca disse que ia- rebateu- mas eu estou dizendo que vou, agora.
Lavi ergueu uma sobrancelha, ameaçado.
–Awnt~pelo Allen, Yuu?
Tanto o albino quanto o moreno estremeceram. Por motivos pouco diferentes.
–N-Não- respondeu, tentando ser ao máximo convincente – claro que não. Hm... é...porque... eu não tenho nada pra fazer nas férias, mesmo. Eu...não quero ficar em casa com o meu tio enchendo o saco o tempo inteiro.
–Hm...tá...- Lavi respondeu.
Allen tornou a olhá-lo nos olhos. Kanda engasgou com a própria saliva quando o albino abriu os lábios em um sorriso largo e sincero. Tal foi o susto de animação que seu pé afundou em um formigueiro.
–Ainda bem que você vai, Bakanda. Garanto que será divertido! Eu prometo.
Kanda sentiu os dedos formigarem com vontade de...
Allen deu as costas rapidamente e foi conversar com Lenalee que explicava para Alma sobre a água salgada. Deixando um moreno quase arrependido para trás, observando as formigas fugirem do monte de terra que um dia foi sua casa.
OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO
Midnight Mercy estava mais vazio que o normal. Apenas três dos banquinhos capengas perto do balcão estavam ocupados e não havia o barulho de risadas e bagunça ensurdecedor de sempre.
Kanda balançou um copo quase vazio de bebida, em movimentos circulares, se divertindo com a espuma e o líquido amarelado colorindo momentaneamente uma parte diferente do copo.
Quando cansou de observar o líquido, virou-o todo na garganta. Bateu o copo vazio no balcão e Tyki tomou o sinal como um”quero mais”, pegou o copo e tombou uma garrafa nele. Como todo bom barman, ele sentia os problemáticos de longe, então disse:
–Faz algum tempo que não aparece por aqui, pensativo.
–Hm. E que há de interessante nisso?
–Da última vez, você quase levou uma surra do Alma, se me lembro bem.
Kanda suspirou. Tyki deslizou um copo cheio pelo balcão, que freou na frente das mãos do moreno.
–E da outra vez você tinha acabado de deixar alguns caras à beira da morte. Hm... faz tempo que você vem sem ser para se meter em encrenca.
O japonês revirou os olhos, agarrou o copo com força e bebeu o que tinha lá dentro.
–Eu acabei de chegar, como pode saber que eu não vim por encrenca?
Tyki sorriu sardônico, como sempre fazia e foi atender outro cliente.
Kanda tinha sido deixado no vácuo ou Tyki acreditava que ele conseguia ler um sorriso como resposta? O problema era que o moreno estava cansado demais para TENTAR ver algo. Barmen e seus mistérios...
Mesmo assim, deu de ombros e tomou mais um pouco do que quer que estivesse naquele copo.
A cada gole, sua mente trocava o assunto. Sua mãe, seu pai, Cho, Lavi, Allen, férias. Parecia uma TV, mas tudo que ele queria era cair em um canal que não estivesse pegando. Queria uma mente livre das preocupações...
–Olá, pega-pupilo.
...mas isso estava longe de acontecer.
–Pega-pupilo?- Kanda perguntou, a ameaça saindo como laser de seus olhos.
–Ué- Cross Marian debochou, acenando um pedido para Tyki- da última vez que te vi estava carregando meu pupilo bêbado para casa, acho.
–Ah, esse pupilo...- e sua cabeça pesou em seu pescoço. Tinha vontade de esmagá-la contra a madeira do balcão.
–Allen é...- Cross continuou, sem se importar com a depressão ao lado-...idiota.
–Hm?- e Kanda mal podia acreditar que estava REALMENTE tendendo a conversar com ele.
–Ele não consegue acreditar nas pessoas. E ele é lerdo demais às vezes.
Quem sabe ele dissesse algo que ajudaria a clarear sua mente...
–Hm...
–Mas bem agressivo.
–...
–Quando ele era menor, toda vez que Mana me deixava para cuidar dele, o pirralho teimava em brigar de luta. O maldito arranhava toda a minha cara e quebrava os meus óculos. Sempre tinha que comprar um novo por causa do filho da mãe.
Kanda, mal se preocupou em imaginar Cross, o bêbado mulherengo, usando óculos como uma pessoa civilizada.
–É por isso que odeio crianças...
E continuou por dez minutos sem parar contando como Allen costumava atrapalhar-se com as coisas menores e aqueles tipos de histórias de crianças abestadas e encapetadas de sempre. O moreno, ou parte dele, queria ouvir, mas também queria que ele calasse a boca logo. De repente, mudou para algo sobre bancos e depois sobre mulheres ou ago do tipo. Kanda deduziu que ele deveria estar lá há bastante tempo, um bêbado e suas conversas de tópicos universais.
Enquanto o moreno bebia mais um gole ele xingava Cross mentalmente. Em parte porque o cabelo ruivo, unido à quantidade de álcool que Kanda já havia ingerido e sua raiva sempre presente, lembrava Lavi. Em parte porque a conversa dele não parecia ter nexo.
–Mas, enfim- ele disse, como se Kanda pudesse tirar uma conclusão de tudo aquilo- Allen, naquele dia- e o moreno levantou as sobrancelhas, vendo que ele havia voltado o tópico do pupilo- quando ele acabou indo para o hospital, o olho rasgado em uma cicatriz e o corpo espancado por aqueles delinquentes, quando a mãe dele ficou em coma, ficou horas e horas falando e balbuciando sobre um garoto.
Cross, que até então ficava falando e rindo escandalosamente com sua voz grossa, virou para Kanda com olhos tão sérios que o moreno quase se arrepiou.
–Um garoto de olhos e cabelos negros que ele viu naquele beco, observando-o de longe.
Kanda largou o copo longe.
–Olhos e cabelos negros- Cross repetiu- ele disse que enquanto a visão embaçava por causa do sangue, ele viu o garoto olhando assustado. Ele ficou um tempão descrevendo e falando dele.
–Olhos e cabelos negros- Kanda repetiu, surpreso.
Cross abriu um sorriso estranho. Levantou-se e saiu do bar, deixando o garoto preso em seus pensamentos novamente e uma nota de 100 dólares.
Kanda balançou a cabeça e virou todo o líquido que havia no copo de uma vez só.
As pessoas tão sorrindo misteriosamente bastante hoje, não?
–x- E assim o ano se seguiu até o encerramento das aulas: duvidoso e cheio de expectativas misteriosas.
Fale com o autor