Bad Boy
15 Sol
Notas iniciais
Ódio é uma emoção que se desencadeia tão fácil, mas tão difícil de conter. Chegaa ser uma injustiça.
Eu me odeio. Odeio a ela. Odeio a ele. Odeio a todos. Mas principalmente a mim, eu devo ser a pior das pessoas.
Mas quando começo a pensar em todo o ódio desse mundo, vejo que o mundo está podre. Eu sou podre, ela é. Todos somos.
Eu agia desse jeito, renegando todo o ódio com o meu ódio. Renegando o mundo inteiro, horrível e perdido na podridão dos pensamentos e crimes.
Adultos são idiotas. Os piores dos piores. Gostam de se pôr acima dos outros em tudo, gostam de fingir que sabem de tudo, gostam de esclarecer para as pessoas que crianças não entendem o que eles entendem tão bem. Mas elas entendem, e muito bem, mas às vezes não gostam de saber, nem um pouco, por isso agem como se não soubessem de nada. Como “crianças” idealizadas por esses adultos. Ainda mais quando a verdade é esfregada em suas caras, a verdade da podridão do mundo e das pessoas que nele vivem.
Só querem ser amadas, só isso. E se para isso tem que agir como se não fossem capaz de saber, assim o fazem.
Às vezes não lhe dão amor, afeto, felicidade, ou qualquer resquício disso nem por um momento. Às vezes lhe dão tudo isso, lhe dão a ilusão de que vai ser um caso diferente, que vai poder alcançar aquelas famosas famílias que aparecem juntas na televisão, sorrindo para o pão coberto de margarina. Mas tiram tudo de você em um piscar de olhos, arrancam pela raiz, para que você comece a sentir o desespero de ficar perdido no meio da multidão podre deles.
Somos criados por esses adultos, somos modelados por eles. Sabemos mentir, sabemos fingir, sabemos “saber” e “não saber”.Sabemos odiar. E, pior ou melhor, sabemos que há coisas que não podemos alcançar, por mais que tentemos, sabemos que felicidade não passa de uma fachada.
E aprendemos a saber que a “culpa é nossa”.
O mundo é cruel. Ele age como esses adultos.
OoOoOoOoOoOoOoOoO
Kanda respirava pesadamente ao olhar o corpo quase morto do rapaz a sua frente. Jogou o cano sujo de sangue em sua mão, o objeto fez um baque metálico que, apesar de não ter sido tão alto, pareceu ecoar trezentas vezes mais naquele beco deserto quando bateu no chão, onde jaziam pequenas poças se sangue que o rapaz cuspira enquanto implorava a Kanda que parasse.
Tinha feito de novo. E o pior de tudo: não se arrependia.
Se você perguntasse a alguém o que fazer quando se vê em frente a um conflito, ela provavelmente responderia algo como “tenha calma”, “pense bem”, “soque um travesseiro”, “converse com um amigo”... Bem, a alternativa de Kanda é bem parecida com a terceira. Mas não é um travesseiro que ele soca.
Não sabia quem era, não queria saber. Só sabia que o azarado que agora estava inconsciente a sua frente foi a vítima da vez, aquele que teve a má sorte de aparecer a sua frente naquela hora, bem naquela hora.
Estava escuro, era noite, óbvio. Por isso, não sabia se tinha socado tanto o rapaz com aquele cano que ele seu rosto estava um tanto desfigurado e machucado, ou se a escuridão não deixava que ele fosse reconhecido.
O rapaz largado naquele chão frio e molhado, os braços largados, os joelhos encolhidos, o sangue escorria dos ferimentos visíveis. Com certeza iria ficar roxo.
O moreno olhou bem para suas mãos, com respingos de sangue. E logo tirou o suor que escorria da testa para os olhos, sem se importar com o fato do sangue que antes estava em suas mãos agora tingir também um pouco de sua testa.
Não que estivesse tão cansado que suava. O rapaz não tinha uma condição física que pudesse se comparar a dele. Mas Kanda já estava suando antes de começar a briga, de tanto estresse que sua cabeça transbordava.
Logo que Alma contou sobre o contato que ela teve com seu tio na escola, o moreno não esperou nenhum segundo, saltou todos os degraus que faltavam para acabar a escada e saiu em disparada, ignorou os seguranças escolares, o portão e correu o quanto pôde até sua casa.
Como um gato assustado.
Aquilo tinha sido um choque e tanto para ele, que pensou que tudo aquilo já estava acabado.
Mas aquilo só podia ser mais uma ilusão de felicidade, momentânea e efêmera, talvez. Estar com Allen lhe fazia ter uma ilusão de amor.
Agradeceu por seu tio não estar em casa naquela hora, escondeu-se em seu quarto, por não ter aonde ir. Esperou a noite chegar, para voltar ao lugar ao qual pertencia: ao subúrbio daquela cidade.
E aqui estamos. Em um beco do subúrbio, contemplando o quase cadáver de um homem desconhecido. Digo quase porque Kanda nem ao menos checou se estava vivo, vamos esperar que esteja...
Simplesmente Kanda não é um homem muito equilibrado, e quando tende para o lado raivoso, o primeiro azarado que estiver por perto leva a punição. Aquele rapaz o encontrou logo que o moreno saiu do bar, trombou com ele. Um ato trivial que foi seguido por uma trivial desculpa. E desencadeou a raiva que ele tentava conter, entre aspas, pois obviamente Kanda queria soltar aquela raiva a qualquer custo.
Não queria vê-la, não queria falar com ela, não queria sequer ouvir alguém a mencionando na sua frente.
Então limpou o pouco de sujeira que havia em seu queixo, olhou mais uma vez para o corpo, soltou um “tsc” estalado e saiu para a rua. Esperando que seus pensamentos ficassem largados juntos aquele rapaz no chão.
Ajeitou o sobretudo enquanto tentava inutilmente esvaziar a mente. Apesar de Alma estar preocupado com o moreno, não tinha a menor ideia do que ele estava fazendo agora.
O japonês tentava não pensar no que Allen pensaria dele fazendo essas coisas por aí. Não iria perdoá-lo. Mas, fazer o quê? Já tinha feito e não era a primeira vez. Nem uma das primeiras vezes.
Ignorava o caminho de casa, andou um pouco cambaleante pela calçada.
Um grupo de amigos vinha conversando a sua frente, riam. Não os viu, só ouvia suas vozes chegando cada vez mais perto, porque escondia seu rosto no capuz e encarava o chão escuro e escorregadio.
Não tinha como evitar, uma hora ou outra teria que falar com ela, mesmo que tivesse até agora acreditado que a pessoa que ela mais queria esquecer era ele. E vice versa, claro.
Só de pensar nisso, tinha a vontade extrema de gritar para o mundo o seu ódio.
Mas não o fez. O mundo já era podre por si só, não precisava de seus gritos de raiva para decair ainda mais.
Kanda bufou para a Lua, enquanto avistava outro grupo de pessoas virar na esquina, rindo, falando normalmente sem imaginar o que havia naquele beco. Virou as costas e seguiu seu caminho, para o lugar dos misericordiosos: Midnight Mercy.
Iria para lá. Passar o tempo, esquecer, zombar. Apagar de sua mente. Talvez não fosse hoje, nem amanhã ou depois que falaria com ela. Talvez nunca chegaria.
Isso esperava. Mas sentiu o aparelho vibrar no bolso do sobretudo negro. Sacou o celular e colocou em seu ouvido com certa relutância.
–Alô- a voz feminina e juvenil soou robótica do outro lado da linha. Kanda hesitou em dizer qualquer coisa, era como se não quisesse que ela pensasse que existisse.
A garota esperou resposta, que não veio.
–Yuu...onii-san...?
OoOoOoOoOoOoO
–Chegaaaa de Soooool!!!
Kanda gritava para a estrela emanando calor há 150 milhões de km de sua pessoa. Não obtinha resposta, obviamente, mas mesmo assim o garoto reclamava.
Seu pai, bem mais a frente, assobiava uma música aleatória. Sua mãe, logo atrás, carregava uma cesta repleta de lanches para todos. E sua irmã mais nova acabava de se agarrar ao tecido de sua camiseta, surpreendendo o moreno.
O japonês, em seus oito anos, odiava a luz que teimava em bater em seus olhos. A claridade desnecessária fazia aquele cenário familiar de piquenique em um parque verde se assemelhar a um comercial estúpido de margarina. Mas Kanda odiava margarina naquela época, por isso sua mãe se preocupou em adicionar um pote de manteiga na cesta que carregava.
Cho espirrou em sua blusa, seu nariz estava irritado com o pólen da época de primavera. Kanda bufou antes de tirar um pedaço de papel de seu bolso para ajudá-la a limpar a sujeira, na verdade, adorava o fato de sentir-se irmão mais velho naquelas horas.
O pai, Jun, gritou mais a frente, o que fez Kanda derrubar o papel no chão, imaginando qualquer tipo de estrago que poderia ter acontecido metros à frente.
–O que foi que aconteceu, pai??- o moreno gritou, mas tudo o que viu foi o homem correndo como um louco pela grama de um campo.
–Yuuuuuu!!- Jun chamava o filho, mas não parava de correr, tantas voltas deu que sua voz começava a ficar cansada e ofegante- Yuuuuu~
O moreno andou para mais perto do pai, claro que manteve uma distância segura, onde achava que a loucura do pai não fosse contaminá-lo. Nem ao menos imaginava como Jun conseguia correr e pular naquele Sol escaldante e usando seus típicos terno e gravata negros. Pensou duas vezes, mas mesmo assim perguntou ao homem saltitante a metros dele mesmo:
–O que foi...pai?
Apesar de o garoto estar feliz pelo grito não ter sido causado por nada mais grave, confessa que sentiu um pouco de raiva quando o homem sorriu para ele ao parar de se mexer.
–É um lugar perfeito para piquenique, Yuu!!!-respondeu apontando para o lugar que parecia insignificante e comum para Kanda. Um pedaço de grama em meio a vários pedaços de grama de um campo. Na insistência do pai, que continuava a sorrir, acenando com as mãos e com a cabeça para a grama debaixo de seus pés com tanta animação que parecia que havia feito a descoberta do século ( e Kanda não duvidava de que ele realmente pensasse assim), o garoto deu de ombros. Sua irmã soltou sua blusa e correu em direção ao pai que a recebeu com um abraço forte e aconchegante.
Jun, o pai da família, tinha seus cabelos castanho-claros e mais ondulados esvoaçantes em meio ao campo. Os olhos verdes cor de esmeralda tinham um brilho especial quando o Sol estava amarelo daquele jeito. Mas a sua personalidade estava sempre brilhosa todos os dias, Kanda mal podia acreditar que era realmente filho dele. Mas Cho, sua irmã de três anos, era muito mais parecida com o pai, os cabelos castanhos e lisos e os olhos verde escuro, além da personalidade mais extrovertida que a sua.
Kanda chegou até os dois a tempo de ver seu pai levar um tombo de tanto pular. O homem caiu na grama em um “PLAFT” desengonçado, de tal jeito que Kanda mal conseguiu conter sua risada, gargalhando junto a irmã e sua mãe, que acabara de deixar a cesta de comida no chão.
–Jun, comporte-se!- a mãe disse em meio as risadas, havia acabado de pedir ao marido para que toma-se cuidado para não cair quando ele derrubou seu corpo no chão afirmando com convicção que “não sou tão idiota a ponto de tropeçar na grama”.
–Yuu, me ajude, sim.- Kanda pegou a outra cesta da mão de sua mãe, tirou o pano xadrez e o esticou na grama.
Mayumi, a mãe, é a única da família cujo nome tem mais de uma sílaba. Não que isso seja importante, é apenas um detalhe divertido. Kanda se assemelhava muito a ela, os cabelos lisos e negros, o rosto fino e belo, a pele clara, os olhos mais escuros. Uma mulher extremamente bela, assim como o pai era um homem extremamente belo.
–Cho- o pai disse à filha que se agarrava a sua perna- retire a comida da cesta para o papai.
A garota rapidamente abriu a cesta, tirando os sanduíches e condimentos e dispondo-os em cima da toalha. Kanda tirou bebidas e o pai somente continuava deitado no chão a observar os pássaros amarelos voarem no céu acima de sua cabeça.
Um típico piquenique de domingo. Monótono demais para Kanda naquela época, pois todo domingo, sem pular nenhum, todos iam para aquele mesmo parque com aquela mesma cesta sentar-se na grama para se deliciar dos lanches preparados por Mayumi.
Quem iria imaginar que lembranças como essa se tornariam uma tortura para ele?
Afinal...
OoOoOoOoOoO
O Midnight Mercy sempre ficava cheio a noite, mas hoje o bar estava muito mais lotado que o normal. Kanda seguiu a porta de onde fios de fumaça de cigarro se esgueiravam, seguiu as risadas escandalosas típicas dos bêbados daquele lugar. Só precisava sentir que podia ficar perto de pessoas.
Estava quase na porta, arrancou as luvas negras, tingidas do vermelho do sangue de sua vítima, e jogou com força na caçamba de lixo do outro lado, expulsando inconscientemente o gato magro que procurava seu jantar fedorento do dia.
As risadas foram ficando cada vez mais altas. Assim que Kanda empurrou a porta com o pé, o barulho pareceu invadir seus tímpanos de forma violenta e brusca, as risadas, os copos tilintando, as cadeiras rangendo... Para ele, as noites lotadas no Midnight eram as piores.
Mas, para onde iria naquele momento? Para a casa do tio, ter que ficar fingindo estar bem? Para Alma, que só lhe encheria ainda mais o saco? Para Lavi, depois de ter confirmado sua paixão pelo moyashi?
Para o moyashi, ter que aguentar a humilhação de conviver com a pureza de Allen mesmo depois de que...?
E não aguentaria nem mais um segundo ficar naquelas ruas. Quem seria sua próxima vítima, o que aconteceria, nada era certo.
Sim, porque foi naquele exato momento, enquanto afundava seu punho no rosto do homem desconhecido, que o rosto de Allen veio à tona na sua mente. Tão de repente, tão sem hora, que ele paralisou antes de voltar a espancá-lo.
Kanda sentou no mesmo banco de sempre, mas daquela vez não realmente esperava que fosse ser atendido. Só queria ficar ali em meio a toda aquela confusão, esperando que pudesse ser esquecido.
Ou finalmente lembrado.
Viu os homens ao seu lado balançarem os copos cheios de bebida, Tyki correr de um lado para outro tentando suprir os pedidos. Cobriu os olhos com as duas mãos, encostando os cotovelos no balcão. Ouviu o som das bolas de sinuca batendo uma na outra, um copo se quebrando no chão, um bêbado tentar falar uma frase intelegível sem sucesso... E o som cessou. Parecia distante de onde estava, como se ele não pudesse conviver com outras pessoas, como se estivesse confinado e condenado a observar de longe. Mas, na verdade, ele havia acabado de se desligar do mundo por vontade própria.
Sentia ódio de tudo ao seu redor.Um terror profundo de seu celular. Um medo horrível “dela”.
Um amor incontestável por ele.
Tentava esquecer todas aquelas inúteis lembranças no parque, em casa, em família.
Porque adultos eram cruéis, hipócritas e faziam do mundo uma peça de teatro.
“Kanda...Kanda...”, estranhou ouvir uma voz ao fundo, o chamando como se a pessoa fosse quase muda. Estava quase claro para ele que estava tão preocupado que podia ouvir a voz dela o chamando.
“Yuu...Yuu..Yuu...”, chegando cada vez mais perto... Era suave e reconfortante... Tão próxima que...
–YUUUUUUU!!!! YUU NO PATSU!!!
Ah, estava enganado. Aquela voz não tinha nada de bom ou reconfortante. A mão de Lavi bateu nas costas de Kanda no momento em que gritou, tão alto que quase vez eco no bar cheio. Quando os cotovelos do moreno tremeram com o impacto, seu nariz foi de encontro com a madeira do balcão, sem chance de impedir.
Seu rosto fez um “BONC” doloroso. Nem mesmo o ruivo achou que ele realmente estaria tão distraído a ponto de deixar que ele lhe desse um tapa, só sabia que o havia derrubado e não sabia se ficava com medo do que estava por vir ou feliz com o feito.
–Er...Kanda...?- disse. O bar inteiro havia parado ao ouvir o grito do caolho e agora olhava o moreno se levantar lentamente e assustadoramente a cabeça.
–...rer...- ouviu Kanda pronunciar.
–Quê?
O moreno levantou a cabeça, o nariz escorrendo gotas de sangue. Lavi não sabia se era alucinação, mas podia jurar que viu os olhos dele ficarem cor de sangue de tanta raiva.
–VOCÊ QUER MORRER??? BAKA USAGI!!!
Lavi pulou para trás em um reflexo. Toda vez que Kanda erguia a voz era porque alguém sairia com algum membro quebrado...se tivesse sorte.
–Y-Yuu... É só que parecia que você estava passando mal, então eu pensei que... Bem, na real você desapareceu. Tava todo mundo preocupado. O Alma, o Marie, o Daisya, o Tiedoll...- Lavi bufou, os olhos reviraram e a voz ficou mais baixa- e o Allen também...ele estava extremamente preocupado...
O coração palpitou. Tudo o que queria era vê-lo. Sim, queria, mesmo que tivesse extrema vergonha de admitir isso para si.
–Olha, só o fato de eu ter vindo contar isso pra você é uma humilhação das piores...- Lavi reclamou-, mas não é legal, sabe? Deixar as pessoas sozinhas... Mesmo que você goste de ficar se isolando por aí, se isso fizer mal ao Allen eu vou ficar furioso!
Mas o problema é que, lá no fundo, ele não queria ficar sozinho. E não podia falar sobre o teatro dos adultos, porque desde que o viu pela primeira vez, naquele beco, ele já sabia a verdade. Toda ela.
OoOoOoOoO
Sol.Sol.Sol. Nos últimos dias apenas fazia calor naquela cidade. E como Kanda odiava calor naquela idade.
Nunca havia estado naqueles lados da cidade, tão sujo, tão diferente da cidade com que estava acostumado. Os bairros chiques, repletos de luxo e carros importados em cada garagem. Por falar nisso, eles haviam acabado de descer de seu carro importado. As pernas curtas cambaleavam devido ao cansaço e calor do garoto. Mas mesmo assim ele acompanhava o pai.
As paredes pichadas, prédios escuros e deformados erguendo-se em muralhas feias de concreto, varais que ziguezagueavam acima de sua cabeça, a água que escorria de canos expostos, ratos que corriam perto de seus pés... Era um aspecto tão sombrio que não imaginava de onde vinha todo aquele calor que sentia.
–Yuu, Yuu...- seu pai disse, esfregando a cabeça do filho- eu sei que aqui não é um lugar muito bonito, mas não é por isso que deve ficar apreensivo... Logo, chegaremos lá, não se preocupe.
Kanda não lembra porque estava andando por lá. Acha que iam visitar um amigo de seu pai, ou estavam a trabalho... Mas não é a parte importante.
De qualquer modo, seu pai sorria do mesmo jeito de sempre. Usando o mesmo terno de sempre, elegante e bonito.
Jun parou em frente a uma loja, parecia um pouco decadente, mas era a que mais parecia arrumada na rua.
–Yuu- Jun lhe deu um toque- espere por mim aqui, sim.
E ele entrou na loja, ao som de um pequeno sino na porta de entrada. Kanda ficou parado por um tempo, mas logo bufou e tentou observar a paisagem, ou o nome qualquer que dessem para aquele lugar do subúrbio. Estava um pouco preocupado. E se fosse assaltado? Raptado?
Estava tudo bem, estava tudo bem. Os mesmos ratos rastejando, as pessoas levando suas miseráveis vidas nas costas. Estava tudo bem, estava tudo bem.
Bem para ele. Mas logo ouviu um grito. Baixo, vindo de mais longe. Olhou de um lado para outro, mas ninguém parecia ouvir, ou se importar. Então, ignorou.
Mas o grito era insistente. Era agudo, infantil.
Implorava por ajuda, tinha certeza.
Ignorando suas preocupações, seguiu o grito, correu pela multidão, trombou em várias pessoas, o corpo suava com o calor e a quantidade de roupas de marca que usava. Mas não parou.
Virou naquela esquina, estava ofegante. E o que viu lá, considera o começo do fim.
Delinquentes. Marginais. Criminosos. Rodeando alguma coisa, rindo, falando, como se fosse algo divertido e sem importância. Trivial.
Mas Kanda não sabia o que era. Ele sabia que o grito vinha de lá, algo lá dentro lhe dizia para agir, para fazer algo. Para salvar.
Uma mulher, esbelta, linda, caída no chão ao longe. Cabelos louros que tampavam seu rosto, como se estivesse dormindo naquela calçada. Mas o moreno tinha certeza de que estava ferida. E talvez morta.
Pensamentos terríveis inundaram sua cabeça. Fuja. Aja. Um pressentimento horrível inundou seu peito, ele tremia, ele cambaleava.
Os homens riam. Riam. Riam. E faziam com que Kanda se sentisse ainda pior.
E lá, no meio da roda de delinquentes, Kanda tinha certeza, apesar de sentir as pernas e a visão falharem, sendo espancado, machucado, torturado. O dono dos gritos.
E eles machucavam o rosto preenchido de lágrimas dele.
Havia um belo menino de pele clara e cabelos reluzentes de tão brancos. Que se tingiam de vermelho sangue tão facilmente.
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