Bad Boy

29 Silêncio


Notas iniciais
Hey!! Como vocês estão?? Ok, eu sei, desculpas nunca serão o bastante, mas mesmo assim as peço com toda a sinceridade......... DESCULPAAAAAAASSS!!! *ajoelha* mas eu realmente tenho meus motivos, além do bloqueio grudento. Eu prestei ENEM esse ano, tive muitas apresentações nesse período (de dança, de poesia, de ciências...) tudo somado a correria de fim de ano e BUM, impossível....mas desculpas, de verdade. Minhas aulas acabam daqui três semanas e, eu torço, deve me dar mais tempo para isso... -Queria agradecer imensamente a todo mundo que esperou, que acompanha até hoje...eu sei que é difícil acompanhar uma autora irresponsável, então agradeço imensamente. E também a minha companheira, amiga e aliada na dominação do mundo, Kanda Yuki, porque foi ela que me botou medo para que eu escrevesse hahaha não, sério, eu terminei pra hoje por causa dela haha -Ok, está corrido, estão complicado então eu não acho que revisei tudo direito. -O capítulo deu no word 34 páginas, com quase 13.000 palavras (outro motivo para eu ter demorado), então eu dividi em duas partes, significando que tem outro capítulo após esse que pessoas que não leem as notas podem acabar não lendo~ -Sem mais delongas, boa leitura o/

Eu era normal. Um ponto em uma reta. Um fio em um couro cabeludo. Uma gota em um oceano.

E eu era normal. Um erro em um plano perfeito. Uma curva em um quadrado. Uma lágrima em um sorriso.

Eu era branco.

E eu era preto.

Mas era vermelho, querendo fingir de cinza.

Eu era uma palavra em um livro de imagens.

Um mundo em uma galáxia de estrelas.

Uma antítese num soneto de metáforas.

Um culpado sem remorso.

E um peso sem culpa.

Eu era uma verdade em um mundo de mentiras. E uma mentira sem resquício de verdade.

–X-

–X-

–Lavi prefere vir alguns dias depois, por causa do clima estranho que fica por aqui e comigo. Ele nunca foi muito fã de climas estranhos.

–Ele vem todos os anos?

–Desde que eu o conheci...sim. É. Todos os anos. Ele, a Lena e o irmão dela. Todos os anos.

–Hm...

Allen primeiramente não entendeu o significado do aborrecimento de Kanda com aquilo, mas depois sorriu. Estava a caminho de seu lugar mais triste e ainda assim sorriu. Com todos os dentes e todos os músculos precisos no rosto. Ele sabia que era loucura em um momento como aquele, mas também sabia que era melhor ainda se deixar levar pelos momentos algumas vezes.

“Se eu ficasse triste o tempo inteiro, ela me daria um tapa e de quebra estaria de castigo”. Mas o sorriso não conseguia durar tanto quanto ele talvez duraria em qualquer outra situação. “Mas ela não pode me castigar ou me dar um tapa por enquanto...”.

Enquanto procurava o quarto no corredor, Kanda seguia seus passos com precisão. Allen ainda tinha o sobretudo dele no corpo mesmo que dentro do hospital a temperatura estivesse confortavelmente mais quente. O moreno não reclamou por ficar sem ele, então o albino nada disse também. Tinha momentos em que casacos era mais que um modo de espantar o frio, mas barrar algo que ele não queria sentir em si mesmo.

Estava dois dias adiantado, mas era uma causa especial. Uma causa muito especial. Allen sentia isso.

Parou em frente a uma porta. Havia decorado o local exato do quarto, por isso nem precisava verificar o número. Apontou o lugar, dando de ombros como se fosse algo trivial. Como se mostrasse seu quarto bagunçado ou seu trabalho de geografia mal feito. Mas não era.

Kanda sabia disso. Ele não precisava de palavras, até porque nunca foi muito fã delas.

–É aqui- Allen completou o gesto, lambendo os lábios por puro nervosismo. A porta, Kanda supunha, deveria ser branca assim como as paredes, mas tinha lá seu tom amarelado ao redor da janelinha fosca (que, ele também supunha, deveria ser transparente). O hospital, antigo porque ele conhecia de nome, nunca lhe pareceu tão ruim até perceber que a porta envelhecida significava tempo. E tempo naquele momento não era o melhor a se pensar.

O garoto demorou mais que o necessário para abrir, usando o cotovelo. Kanda notou que ele tinha os olhos fechados durante o gesto, só se abriram quando estava já dentro do quarto. Mas era como se estivessem fechados. Não tinha ali nada que ele quisesse ver.

Kanda muito menos.

–Lar.Doce.Lar-o albino resmungou baixo e, o moreno também supunha, era apenas um costume.

E apesar de não se esperar algo realmente “doce” de um lugar como aquele, não era de todo mal e decaído quanto Kanda esperava. O quarto estava bem iluminado através da janela aberta ao fim. Não era apertado, mas tampouco espaçoso. Era particular e por isso havia apenas uma cama, ao lado de tantos e tantos aparelhos diferentes, tubos correndo pelo colchão até os braços e o rosto, fotos, e flores que precisavam urgentemente de troca.

E era lá, naquele espaço, que ele a viu. Exatamente como se lembrava, sem um envelhecimento sequer na pele.

Até mesmo os olhos continuavam fechados...como desde então sempre estiveram.

Os olhos, Kanda supunha mais uma vez sem esforço algum, deveriam estar abertos. Vivos. E no entanto não estavam.

Allen tirou o casaco e se afastou para pendurá-lo em uma cadeira, observando se cada coisa, cada pétala das flores, cada foto estava no lugar. Kanda não conseguiu se conter em se aproximar, afinal, era aquela mulher que tinha criado um certo albino muito (e que ele mesmo não se ouça pensando isso) importante na sua vida.

A mulher estava deitada, calma, tão serenamente esperando que se não fosse pelos aparelhos, ninguém saberia de sua condição infeliz. Kanda ele mesmo não queria entender, mas por algum motivo tinha uma certeza extrema de que se aqueles olhos pudessem se abrir, seriam cinzas e brilhantes como de Allen. Os cabelos loiros estavam compridos deitados ao lado do corpo adormecido. Este coberto de tubos, pálido como se Allen tivesse herdado também a cor.

Perguntou-se se cortavam os fios loiros de tempos em tempos nessa situação. Se ela lembraria dos detalhes de sua vida. Se perdoaria, sabendo quem ele era. Perguntou milhares de ideias em um só olhar, mas só havia silêncio fora dali.

–Minha mãe- Allen chegou ao seu lado, apesar de não precisar de explicação alguma-Cherry.

–Como cereja.

–É-ele sorriu do jeito mais leve que Kanda já o viu sorrir-como cereja.

Kanda lambeu os lábios segurando o nervosismo inevitável. Era como encarar o passado deitado bem a sua frente, dormindo e ainda assim assombrando. O passado falando bem ao seu lado. Era passado para todo os lados e essa seria a exata situação de desespero. Mas ele não estava se sentindo mal como pensava que fosse estar.

Talvez fosse a respiração alheia que batia quente em seu ombro. Ou os dedos que vez ou outra trombavam com os seus. Ou saber que seu casaco estava protegendo alguém de algo, mesmo que apenas em sua cabeça.

O moreno encarou com expectativa o albino ao lado. Martirizava-se pelo que fazia e pelo que já fez, mas jamais conseguia se martirizar pelo que pensava em fazer. Talvez fosse por isso que mais tarde ele sempre vinha a se arrepender.

Mas no momento ele estava com um pé no bom senso.E isso já era suficiente para medir cada ato e cada palavra que quisesse ser colocado em prática. Ele podia sentir a fragilidade no ar, como pisar em um chão de vidro fino quilômetros acima do chão.

Ou vidro quebrado pontiagudo em cada centímetro do piso.

Afinal, a fragilidade vinha de quem?

–Vai ficar parado aí como uma estátua?-Allen riu, dando um soco falso no braço do maior. Ele acabou se deslocando dois passos para o lado, com o tanto de distração que tinha absorvido.

“Não, como se tivesse visto um fantasma”, Kanda quis corrigir, mas usou o bom senso para se frear.

O moreno olhou de um lado para o outro.

–É-concluiu, sem nenhuma vergonha-parece que sim-e então completou, pesando o olhar sobre o garoto-e parece que você também.

Allen sentiu a sensação de calor subir pelas suas bochechas. Kanda não estava lá muito diferente, mas nenhum queria perder muito em comparar um ao outro.

–É que você nunca veio aqui- o albino não conseguiu conter os dedos de coçarem nervosamente a nuca-é estranho. Você é uma daquelas pessoas com quem eu nunca pensei que iria passar por esse momento.

–Estranho-Kanda passou a mão pelos cabelos molhados em pontos de neve derretida- eu tinha uma leve impressão de que eu não poderia escapar disso tudo.

Não houve tempo para resposta, o moreno puxou a primeira cadeira que viu e a pousou ao lado da cama para se sentar. Seus cotovelos estavam apoiados nas coxas, uma posição que parecia compenetrada demais para Allen relaxar.

Ao invés disso, mesmo atentado pegou outra cadeira para se sentar ao lado dele, sem mais observar como o amigo se comportava. Podia se distrair com as próprias palavras se precisasse.

–Eu nunca vim um dia antes-disse, mesmo sem ter a certeza de que receberia alguma resposta sequer do outro lado-eu sempre vim no dia exato e nada mais. Eu só não estou acostumado em vir fora de hora- olhou de canto para o rosto cismado do amigo- e com uma companhia...hã...alheia.

–Não sou tão alheio quanto pensa-Kanda surpreendeu-o ao responder e se recostar na cadeira-não nessa situação.

Allen cruzou as duas pernas sobre seu assento, esperando que esquentasse as pernas tremulantes do frio que o capturou fora dali. Não funcionou, mas a posição dava-lhe uma sensação confortável e corajosa.

–Pois é-disse, com a voz firme e repleta de imposição-queria eu saber o que você quer dizer com isso.

–É exatamente aí que está o problema-ele riu sem emoção, mas só o gesto de se entregar a um riso mínimo já era assustador para Allen por ser extremamente nervoso-você sabe.

O albino mordeu com força o lábio inferior, contando até dez com os olhos grudados no teto. Impaciência nunca foi um problema para ele...não enquanto conseguisse guardá-la e suportá-la com empenho. O que, veja só, não era exatamente o caso se for para falar a verdade.

Repetindo quase palavras de ódio, ele respirou duas ou três vezes mais fundo do que costumava. Não era de seu feitio mergulhar em sensações, mas do que se faria um momento tão vazio se ele ficasse fingindo que estava tudo bem. Não estava tudo bem. Nem para ele e nem para Kanda e ele não precisava de super sentidos ou uma mente capaz de ler outras para saber que tinha alguma coisa muito errada.

Sempre tinha.

Esfregou os olhos com força quando nem ao menos se incomodou em suavizar o tom de avidez estranho na sua voz.

–Se você continuar com essas falas irritantes- seus dentes quase não se descolavam- eu juro, Kanda, juro pelo mundo e pelas graças de forças divinas ainda não cientificamente comprovadas que soco sua cara até você conseguir ver através de sua nuca.

E, não como se fosse uma surpresa, o moreno não se abalou com nada daquilo. Na verdade, e que isto fique apenas aqui, ver o outro usar da atitude o deixava até animado.

E mesmo assim tomou o cuidado de não se prender aos olhos cinzas ranzinzas ao seu lado. Não queria morrer tão cedo e sabia que se havia alguém capaz de matá-lo com um olhar, seria Allen. Não que isso precisasse ser verbalizado em voz alta também.

–Eu falo sério-o albino fez questão de ressaltar ao cruzar os braços, olhos rondando a figura familiar de sua mãe deitada na cama do hospital.

–Eu sei que fala-Kanda respondeu, também preso a mulher, com medo de tirar os olhos e acabar perdendo os objetivos. Foco. Foco. Sem medo-eu nunca disse que não falava.

–Então você sabe que foge demais das coisas- rosnou.

Kanda concordou com a cabeça, relutante.

Foco. Sem medo.

–E que é muito estranho.

Concordou.

–E que tem uma personalidade difícil.

Concordou.

–E que da próxima vez que resolver encostar as mãos em mim-pausou- ,se isso acontecer, você vai correr com o rabo entre as pernas para algum lugar longe e depois voltar e depois repetir e voltar e repetir...

Kanda fechou os olhos com força.

Foco. Sem medo.

Allen passou dois dedos pela cabeleira loira da mulher adormecida. Kanda também fez questão de não olhar nos olhos dele enquanto o viu fazendo.

–Tsc. Garoto irritante-resmungou, quase derrotado. Quer dizer, Allen nunca foi a tranquilidade em pessoa, mas de tempos para cá ele parecia ainda mais implicante. Ou seria ele quem estava ficando ainda mais implicado com tudo?

–Eu estou bem do seu lado. Tipo, literalmente, completamente, totalmente ao seu lado-ele gesticulou as mãos entre o pequeno espaço entre eles- eu consigo ouvir.

O moreno revirou os olhos.

–Eu sei disso, eu não falaria algo se fosse para mim mesmo.

–Mas você não fala com mais ninguém além do Alma, eu e alguns da sua laia.

–Porque não é necessário.

–E é por isso que você disse que ia falar comigo?-Allen virou levemente o corpo na direção dele, apenas para uma tentativa de fazer um diálogo apropriado- porque não é necessário?

Kanda fez três ou quatro caretas em dois segundos. O albino ergueu as sobrancelhas para a dificuldade dele em conseguir palavras. “Acho que devia arranjar algum livro de auto-ajuda”, resmungou em sua cabeça, “tipo, urgentemente”.

–Escuta- disse, por fim, o que para surpresa do Allen não veio como rosnado, mas com um tom palpável e macio- tem uma coisa muito errada.

–Grande Sherlock-Allen não se conteve na ironia-e meu cabelo é branco, agora é sua vez de novo.

Kanda não conseguiu ficar nervoso e isso já era um ganho completo para ele. Mas algo tremendamente preocupante para Allen.

–Ei- o albino percebeu a atitude (ou a falta dela) no moreno e calmamente se ajustou na cadeira para ficar mais perto- não está tudo bem mesmo, né?

Não foi uma pergunta. Apesar do tom, não foi uma pergunta.

Kanda fixou os olhos na cama e lá os deixou, procurando na mente confusa um modo de trazer coisas na sua mente a vida.

–E...-Allen continuou, com um tom entre o sugestivo, questionador e apoiador-suponho que tenha a ver com você se lembrando da data da...-engoliu em seco, temendo as palavras-...do incidente com a minha mãe?

“Bingo”, Kanda pensou, já começando a se martirizar sem realmente compreender o motivo dentre o mar de pensamentos que ainda afogava sua mente. Assim até parece que nunca havia se esforçado em pensar.

Allen também sabia ler sem precisar ouvir, então não necessariamente precisava de uma resposta para a pergunta. “Mas seria muito bom se ele simplesmente falasse”.

–Sabe, eu não vou te forçar a dizer nada, mas eu realmente estou ficando preocupado com o jeito que você fica quieto agora-resmungou, extremamente ansioso e incerto.

Kanda se curvou na barriga e cobriu o rosto com as mãos. Allen esperou até que ele voltasse a sua posição, esfregando a pele com força nas bochechas. O moreno soltou um sonoro “foda-se” antes de se virar com o cenho enrugado para o garoto.

O albino nem se moveu.

O moreno plantou o olhar firme no rosto dele, escorregando, escorregando na pele branca até encontrar os olhos prateados. Foi lá que se apoiou e lá que ficou.

“SeeunãofalarAlmamemataSeeunãofalarAlmamemata”, repetiu para incentivar sua mente a desbloquear os grilhões que o prendiam a insegurança. Ele gostava de ter cabelo e de nunca ver a fúria absoluta e assustadora que se vez em nunca plantava no rosto do amigo. Estava bem assim, vivo.

“Ele vai entender”, também repetiu, “ele vai entender, porque ele é A pessoa. Ele é uma boa pessoa. Ele vai entender. Ele vai entender.”. E Kanda nunca deixou escapar da mente a prudência e muito menos a bondade de Allen. Era o que ele era e era por isso que...

–Olha-suspirou-pra começar, eu não sabia disso quando nós nos vimos pela primeira vez.

–Ok-Allen sorriu, um tom entre melancólico e doce-eu também não sabia de muitas coisas quando te conheci e veja só isso tudo.

Kanda se permitiu sorrir um pouco.

–Eu sou uma pessoa terrível, moyashi-começou.

–Não-o albino balançou a cabeça-não, não, não. Não vamos ter a conversa banal sobre bem e mal e sobre valer a pena ou não. Sem clichê. Já basta ser um delinquente e um garoto idiota, com muito drama e melancolia, essa história não precisa de mais clichê para encher linguiça.

–Não é isso, idiota-rosnou, ainda que fraco-é importante.

–Eu sei que é...eu só não sou bom em clima de histórias importantes.

–É-suspirou, pensando em quantas vezes teria que passar por aquilo quando fosse contar algo a ele. Secretamente, ele queria muitas vezes-eu percebi.

Allen tirou o sorriso envergonhado do rosto, descendo os olhos até a mulher e depois até os dedos que brincavam com o tecido da calça. A boca pouco a pouco foi desmanchando-se em preocupação clara com algo do qual nem mesmo ele tinha certeza. Passado ou futuro ou presente, nada disso ele entendia ou queria entender mais. Ele só queria que o garoto ao seu lado pudesse se deixar entender e que ele quisesse entendê-lo de volta.

–E eu devo supor que isso também tem a ver com o fato de que eu tenho a impressão de que já te vi em algum lugar?

Kanda emburrou-se em séria confusão. Era por isso que ele não gostava de palavras, elas tinham efeito, tinham sensações. E tinham a ambiguidade plena e os truques escondidos nas entrelinhas.

Mas aquelas não eram assim. Eram claras, objetivas e precisas. E, do mesmo jeito, não deixavam de serem incríveis...

...incrivelmente confusas e aterradoras.

–O quê...?

Allen apontou com a cabeça para a porta.

–Não prefere conversar em outro lugar?

–X-

–X-

–Então, o que você quer dizer, Lavi é que...temos grandes problemas?

Alma estava usando a calça do pijama listrado com uma camiseta que nem de longe combinava com aquilo. A não ser que a nova moda fosse uma camiseta com estampa desbotada de tigre. E Lavi tinha quase certeza de que não era, tanto que seus olhos não desgrudaram das listras negras no tecido laranja.

–Sério, Alma-o ruivo contorceu o rosto-troca de camiseta. Isso tá horrível.

O moreno deixou que a expressão indignada caísse como uma pedra sobre a conversa.

–Lavi? Foco!

–É só que-tombou a cabeça para olhar o visual. Tão estranho que era uma verdadeira obra de arte do brega- essas cores são tão anos 70 e essas listras...

Alma suspirou, cansado das pessoas que o rodeavam. “Graças a Deus Allen tem a cabeça no lugar, pelo menos”.

–Falou o garoto de tapa-olho. Pensei que a moda pirata tivesse parado séculos atrás.

Lavi conseguiu tirar um momento para se fazer de ofendido, o que Alma queria que fosse uma sensação verdadeira, mas sabia que era apenas brincadeira. O moreno fez um gesto no ar para que deixassem a bobagem e insultos para lá.

–Foi você quem pediu para vir até o beco no meio da noite porque tinha notícias importantes, eu achei que era uma emergência e pulei da cama com a primeira coisa que vi pela frente.

–É por isso que você está com dois pés diferentes de tênis?

Alma olhou para baixo, vendo o detalhe que não havia notado antes. Um tênis branco, outro vermelho. Praguejou contra a vida é o próprio amigo, mas depois balançou a cabeça.

–Esquece isso!- retomou com força- problemas, Lavi. Problemas. Coisas importantes. Lembra?

O ruivo encostou na caçamba de lixo mais próxima. Era a que fedia menos, mas a diferença era pouca com o tanto de sujeira espalhada pelo local inteiro. Alma ainda tinha dificuldade em descolar as pálpebras e os fios do cabelo tinham uma falha exatamente onde ele colocava no travesseiro e assim ele chutou uma lata de refrigerante para o outro lado.

–Eu não sei se é verdade- Lavi se preveniu da culpa antes de qualquer coisa- mas Timothy me disse algumas coisas. E se ele me disse algumas coisas é porque ele ouviu algum adulto da minha família balbuciar aquilo, então... melhor prevenir que remediar, não é?

–Só fala logo, Lavi-Alma coçou os olhos colados por remelas- vemos a veracidade depois, quando tudo estiver contado e meu sono estiver revigorado.

O ruivo olhou de esguelha para a rua ao lado.

–Achei que fosse trazer o Yuu junto-ele voltou os olhos para o amigo- quer dizer, você sempre faz isso.

–Ele...-Alma rolou os olhos procurando alguma coisa não suspeita para falar. Até notar que a demora para responder já era suspeita-...não estava em casa.

Lavi perdeu a expressão no rosto. Não era a toa que tinham grande fé nele e em sua habilidade em dedução e decifração.

–Ele foi encontrar o Allen, não foi?- sua voz estava dura como aço frio.

Alma contorceu o rosto, não querendo mentir, mas não querendo dizer a verdade.

–É...talvez?-tentou.

Lavi descolou o corpo da caçamba, já começando a temer que chorume viesse a escorrer para sua roupa de alguma forma. Ele, diferente de Alma, não estava de pijama e assim não podia correr risco de manchar uma camiseta em perfeito estado.

–Que seja-disse- eu já entendi o recado.

–Friendzone...-Alma sussurrou.

–Eu ouvi isso- apontou o dedo para o moreno-mas falando sério- desarrumou os cabelos, tirando a bandana típica-eu ouvi falar de movimentos estranhos do submundo. Parece que alguém ou “alguéns” voltaram a ativa. E isso não é nada bom. Nada bom mesmo. Principalmente para o Kanda.

Alma coçou os olhos, passando a mão pela cabeça para abaixar os fios rebeldes e loucos que insistiam em sair do lugar.

–Eu sabia que vinha problema por aí... Eu já estou cansado de calmaria e tempestade e tudo que vem nelas- coçou as costas e caminhou com dificuldade nos tênis diferentes até a rua-Vou avisar os outros...depois de dormir.

–E trocar de roupa.

–E trocar de roupa.

–X-

–X-

Kanda não sabia se era apenas o nervosismo falando pela sua cabeça, mas ele tinha uma leve impressão de que Allen estava muito mais ansioso para falar algo que ele próprio. O modo como os olhos tremiam olhando para a mulher e como ele se apressou para fora do quarto de hospital lhe davam ainda mais pistas.

Não viu o rosto dele enquanto saíam do lugar, mas tinha quase certeza de que ouvia uma respiração pesada. Como se tivesse uma pressa terrível consumindo o ar que tentava aliviar cada célula do corpo.

O clima fora do hospital corrido continuava gelado, mas a afobação entre os dois era tanta que o casaco poderia ser dispensado. Estavam em uma correria sem um real precedente que se fechassem os olhos e deixassem cada palavra bagunçada ser dita, seriam confundidos com mais dois dos loucos das noites de uma cidade grande.

O céu continuava sem graça, o vento como uma brisa inofensiva que congelava-os até os ossos sem que sentissem e dois corações correndo contra o tempo, e ainda assim Kanda nunca teve um momento mais bonito em sua vida. Estava caminhando em uma corda bamba, correndo para a própria execução e tudo que conseguia pensar era em como a noite parecia bonita ao lado dele. Era esse o tipo de coisa que o fazia pensar que eram dois amaldiçoados por algum tipo de destino sacana que decidiu que fazer dois distorcidos colidirem na vida.

É. Não estava dando muito certo.

Estava tão frio e a noite parecia ainda assim tão perigosa (e quem era ele para falar? Afinal se era ele quem provocava perigo nos sentidos alheios) que Kanda temeu que Allen fosse sugerir o pior.

E disse mesmo. O albino esperou até que parassem, ofegantes pelo ar gelado que cortava suas gargantas, em frente ao semáforo fechado de pedestres na avenida para dizer.

–Está frio demais e tarde demais-ajeitou o sobretudo emprestado para cobrir mais seu pescoço, seus dedos do braço deformado acariciaram o tecido negro e duro- vamos lá para casa.

O pai estava com o tio. Pelo menos com isso Kanda pôde se aliviar. Já havia se rendido frente a mãe, imagine se tivesse ainda que encarar o pai com um tempo curto entre um evento e outro.

Alma dizia mil e uma palavras, mil e dois sermões em sua cabeça, confundindo qualquer coisa que por um acaso precisasse falar, obrigando-o a andar, andar e andar, seguir, seguir e seguir, esperando que entre os dois não fosse ele quem precisasse de consciência forte.

Seu forte nunca foi a cabeça, exatamente. E usar os punhos estava completamente fora de questão.

Até porque o passado já estava dando uma surra de graça nele.

Allen parou em frente a sua casa sem dar uma sequer palavra ao outro. Kanda achava que ele parecia mais alto do que se lembrava, ou teria ele apenas ignorado a altura dele esse tempo inteiro? Só sabia que deveria parar de se distrair com detalhes enquanto caminhava para a forca.

–Sinta-se em casa- o albino se preocupou em pedir, ainda que de nada servisse.

O moreno achou que o lugar estava diferente. As fotos estavam ali, hilárias, os móveis no exato lugar em que estavam e o cheiro de perfume e produto de limpeza continuava o mesmo. Mas o clima não estava feliz como estava da última vez em que esteve ali.

Olhou de um lado para outro na sala, sozinho enquanto o garoto arrumava alguma coisa em algum lugar que ele não ligava. Ficou parado no lugar, esperando algo útil acontecer, comprimindo a vontade de escapar pela porta da frente.

–Eu disse para se sentir em casa- Allen colocou a cabeça para o corredor de onde podia vê-lo-sente-se em alguma poltrona. Elas não mordem...a menos que não sejam minhas poltronas e estejamos em apuros.

E desapareceu de volta para... o que for que estava fazendo.

Kanda atendeu o pedido apenas porque estava um pouco cansado demais para recusá-lo. Afundou na poltrona que nem achava ser tão macia, com as pernas para cima e toda a posição estranha em que acabou escorregando na almofada “afundável” demais para seu gosto.

Levantou do lugar com a testa franzida. “Maldita poltrona”. Se não estivesse tentando aparentar-se educado, a almofada já estaria vazia em pedaços e o chão coberto do que for que a preenchia.

Se sentou novamente...afundando na poltrona do mesmo modo. Rugiu contra o objeto do demônio enquanto se levantava para ensiná-lo uma lição. “Não mordem o caramba! Essa poltrona está de brincadeira comigo!”.

E foi no cenário de guerra que Allen entrou na sala, paralisado ao ver sua almofada sendo socada pelo japonês. Precisava largar os copos em algum lugar, mas tinha medo de interromper o momento.

–Sabe? A almofada não está nem aí para o quanto você bate nela, sabia? Mas eu me sinto um pouco incomodado em te ver espancando a pobre coitada.

Kanda travou no meio de um soco para olhá-lo. Subitamente, sentia-se envergonhado por estar (de verdade verdadeira) pegando briga com uma almofada cinza e muito bem amortecida.

Jogou-a em cima da poltrona para dar espaço ao garoto que deixou dois copos cheios de refrigerante em cima da mesinha de centro.

–Ela que começou-resmungou escolhendo com destreza outra poltrona para se sentar.

Allen abafou uma risada, o que não contribuiu para o bem estar do moreno. Mesmo que geralmente o efeito devesse ser ao contrário.

Talvez fosse a falta de capacidade de rir com vontade naquele momento, o que se deixasse vir iria vir como algo estrangulado na sua voz amargurada. Por isso o albino abafou qualquer som que quisesse sair, estava determinado a ouvir o outro, porque tinha algo naquilo que não cheirava nada bem.

E não era porque ainda não havia tomado banho depois de trabalhar incansavelmente o dia inteiro. Nem, talvez, o cheiro terrivelmente alcoólico que Kanda exalava.

Entregou-lhe um copo de refrigerante, não sabendo se realmente iria aceitá-lo, mas não tinha qualquer outra opção de bebida além de água e Mana o fazia servir todas as visitas, quer sejam queridas ou não.

–Obrigado.

Kanda incrivelmente estava no meio termo. Ele assustava bastante, mas quando queria podia ser tranquilizador.

Allen só queria saber qual dos dois tipos estava frente a ele no momento.

O lugar foi invadido por um silêncio desconfortante enquanto fingiam estarem concentrados demais na própria hidratação para dizer qualquer coisa.

O moreno automaticamente tomou o copo inteiro antes que o esperado, colocando-o com o gesto mais delicado e calculado que pôde na mesinha. Não queria, sei lá, começar uma nova briga com o tapete ou coisa do tipo.

Ele tinha receio de encarar o garoto. Ele tinha aqueles olhos estranhos, pálidos e inteligentes que o atravessavam como uma faca se fosse preciso. Um cérebro prudente e bem equipado e um sorriso arrebatador e aterrador ao mesmo tempo. E, pelo amor de Deus, ele sentia uma atração incontrolável por ele.

Se tinha algo de que ele tinha medo, esse alguém era Allen Walker. Ele era um Alma com a capacidade de deixar para trás pelo menos nas aparências e isso fazia-o extremamente perigoso.

O garoto sorriu. Ou pelo menos tentou.

Kanda tomou aquilo como uma brecha para conversa. “Agora ou nunca”, pensou, já se arrependendo por alguma vez ter pisado naquele lugar.

Allen pensou a mesma coisa.

–Então...-disseram ao mesmo tempo, sem modo de continuar. Cada um esperou que o outro falasse, querendo adiantar o próprio assunto.

–Pode falar-em uníssono eles tentaram novamente- não, pode você primeiro. Você!

Suspiraram. Se existia algum tipo de destino, os dois sabiam que gostava de brincar com os dois como marionetes engraçadas.

–Ok, foda-se- Kanda rosnou, para ninguém em especial, mas para todos em geral-eu vou falar, porque você não está me deixando desde que eu me propus a falar e agora eu estou aqui e estou achando que isso parece um grande plano arquitetado para me encurralar.

Allen tremulou alguma mistura de sorriso preocupante. Deu de ombros, simplesmente.

–Acho que eu gosto de jogar no meu território-respondeu.

Kanda até gostaria de jogar em seu próprio território, mas o grande problema é que ele não sentia que tinha um. Não tinha um lugar em que ele pudesse sentir como seu próprio.

Assim, não tinha como se sentir a vontade em qualquer lugar que fosse.

“Foda-se a vida”, suspirou, se ajustando na poltrona para começar a falar.

–Só ouça, entendeu?- sua voz estava dura como aço, provando a rigidez do assunto que fazia seus olhos apertarem-eu sei que isso é estranho. E eu sei que você me odeia. E eu sei que tudo isso que aconteceu foi...hã...estranho.

–E repentino.

Como um flash. Como impulso.

–É...-concordou-repentino. Eu só não quero que você entenda mal, você pode fazer o que quiser com a informação, eu estou pouco me fodendo-mentira- mas Alma não vai me deixar em paz até que isso esteja falado.

“Ele tem que entender”, algo em sua mente suplicava, “ele é o único que pode entender”.

E as palavras simplesmente foram cuspidas, temendo que os próprios ouvidos pudessem ouvi-las.

–É...eu meio que já sabia quem você era antes de...tudo isso-gesticulou, como se na verdade quisesse dizer “toda essa merda de mundo”-Tsc. Você entendeu.

–E se isso tem a ver com a minha mãe...-Allen juntava cada peça em sua cabeça, uma luz se acendia na sua mente, declarando uma chegada que ele não sabia se era boa ou ruim.

–...eu posso contar com detalhes o que aconteceu com vocês dois.

Allen cruzou os dedos ao se curvar sobre os joelhos. Suas mãos unidas estavam cobrindo a boca e os cotovelos se apoiando nas pernas. Os olhos farejavam o espaço como um cão confuso.

–Então tente-demandou.

Notas finais
Alright, faz tempo que eu não escrevo BB, talvez eu tenha perdido um pouco da linha, mas certamente sei que o fim está próximo... -Gostaram? Não? Erros? Me falem, por favor :) -leiam as notas iniciais, por favor :) -Até o próximo o/