Bad Boy

12 Secret Garden


Notas iniciais
Yey!!o/
Esse nome do capítulo hehehehe será que alguém aí pensou no dorama?? Não? Só eu? Ok...hhaha
Enfim, agradecendo aqui, super animadamente-mente pela (OMG) sexta recomendação!!!! Ah, meu Deus eu nunca achei que fosse receber uma recomendação e recebo seis?? *-* é muito emoção...
É da Yuumi!!! Lindaaaaa!!!! Eu sei que a gente nem se falou muito e tals nos reviews, mas eu estou mto feliz :3 hhehehehe
Pra falar a verdade eu não gostei tanto desse capítulo, sei lá, não achei que ficou tão bem escrito quanto os outros... Mas tá aí hahaha
Enfim, só avisando que no próximo capítulo estará disponível o tão esperado lemon, ok? Pq já chega de inocência nessa coisa U-U hahaha
Boa leitura!!

Allen abriu os olhos com certa relutância. Sonolento. Mas a janela aberta deixava o Sol acordá-lo. Não queria acordar.

Não estava em casa, sua cabeça doía como se tivesse sido atingida por um carro. Bem, não poderia garantir que não tinha sido, tinha apenas algumas lembranças do dia de ontem. Vagas.

Queria saber onde estava. Olhou o teto, alto, sem nenhuma mancha ou rachadura. A janela com uma paisagem diferente da que costumava ver ao acordar. A cama king size em que se deitava, gigante, enorme.

Ouviu o ranger da porta. Kanda entrou.

-Hã?Tá acordado moyashi?

-Hã? Sim...

-Eu...liguei pro seu pai, avisei que você estava aqui.

-Hm...- Allen se espreguiçou- que horas são?

-Quase meio dia.

–Acho melhor levantar.

O garoto apoiou seu corpo na almofada. Mas sua cabeça ainda doía, e muito.

-Nunca ficou de ressaca?- Kanda riu- que fracote.

Allen esfregou a mão em seus próprios fios, como se isso pudesse fazer a dor passar.

-Anda, para de manha- Kanda mandou.

A porta abriu novamente.

-Kanda-sama, ouvi barulho aqui em cima- Kevin entrou, carregando uma xícara-pensei que talvez Allen-sama estivesse acordado.

-Ah, Kevin.

Allen se esgueirou pelo corpo do moreno, ele tampava sua visão da pessoa que estava agora na porta do quarto. Não reconhecia aquela voz e queria saber quem era a pessoa que se dirigia a ele daquela forma tão formal.

Allen viu o rapaz jovem parado à porta com a xícara. Usando um terno negro, destacava seus cabelos curtos e loiros, alinhados, tanto quanto sua postura.

-Q-Quem é, Kanda?

-Bom-dia, Allen-sama. Sou Kevin mordomo da família de Tiedoll e Kanda.

-T-Tiedoll?- Allen perguntou- K-Kevin?

-Tsc. Ele é apenas um cara sem nada melhor para fazer.

-Gostaria de tomar chá, Allen-sama?

-Er...C-Claro...

O rapaz derramou o líquido do bule que carregava em uma xícara de porcelana decorada e entregou ao garoto. Allen tomou o líquido quente e suave em goles rápidos, de tanto nervosismo. Nunca havia recebido tal tratamento. O chá lhe entregou um alívio que procurava, apesar de não aliviar totalmente a dor.

-Logo estará servido o almoço, Allen-sama e Kanda-sama.

-S-Só Allen tá bom...

O mordomo analisou o pedido do garoto e assentiu com a cabeça.

-Como quiser, Allen-sa...Allen. Mas Tiedoll-sama pediu para que vocês dois desçam.

Allen esperou até que Kanda se mexesse para segui-lo. O moreno bufou, pensando nas coisas que seu tio teria aprontado, então passou pelo mordomo, seguindo escadas abaixo até a sala onde almoçava. Allen nem ao menos tirou a roupa que usava, seguiu como pôde o japonês descendo as escadas.

Se já estava impressionado com o quarto, o corredor preenchido de obras famosas lhe pareceu muito bonito. Mas quando desceu as escadas, o cômodo enorme em que parou era muito melhor, sofás cinzas espalhados, janelas gigantes de vidro nas paredes, pedaços de madeira davam um aspecto bonito, mesas de cristal com flores e doces... Mal teve emoção para examinar cada detalhe daquela fortuna, pois uma fila de empregados os recebia às reverências. Um exagero de recepção que parecia radiar de tão estranho e formal o modo como todos aquelas pessoas se curvavam à ele e o recebiam.

-Bom dia, Allen-sama.

Allen sentiu sua cabeça revirar quando se viu em um ambiente que o tratava como se fosse alguma pessoa importante.

-J-Já disse que só Allen tá bom...

O albino estava tão confuso que mal sentiu a aura negra pairando sobre o moreno.

-Tio...- o rapaz rangeu.

-Yuu?

Tiedoll se sobressaiu da multidão de empregados na sala, calmamente tomando chá ao fundo da sala.

-O que significa isso?!

-Ué?- Tiedoll largou sua xícara vazia na bandeja de Kevin ao seu lado- só uma amostra de nossa hospitalidade ao nosso querido convidado. Ou você já cuidou dessa parte, hm?

-Mas necessita de tudo isso?

-Hm? Por quê?- Tiedoll olhou ao seu redor- eu achei perfeito.

-Eu não achei- Kanda retrucou, estava envergonhado pelos empregados que rodeavam o ainda perdido albino- É muita coisa pro moleque...

-Ué...- Tiedoll coçou o queixo- eu achei que fosse apropriado recebê-lo da melhor forma. Quer dizer, a pessoa que tem o nome resmungado por você nos sonhos...

-Eu já disse! V-Você deve ter ouvido errado! Eu não resmunguei nomes coisa nenhuma...

-Hm...Ok, se é assim...Mas é que, de qualquer jeito, você nunca traz amigos para casa.

-Hã? E o Alma?

-Quero dizer, por conta própria. Alma sempre aparece por aqui sozinho. Ah, mas isso supondo que Allen seja um amigo...

-O que quer dizer com isso?- o moreno desconfiou, porque nunca era seguro ter certeza ou deixar de pensar sobre as afirmações e suposições de seu tio.

-Hm, nada- Tiedoll deu de ombros, mas Kanda viu que ele dava um sorriso diferente- considerando as condições em que o encontrei no seu quarto...

-Hã?

Kanda não foi respondido, seu tio não o ouviu. Ou fingiu não ter. Virou-se para pedir aos empregados (que entregavam diferentes objetos à Allen e lhe perguntavam diferentes coisas, para maior desespero do albino) que deixassem o garoto em paz.

O moreno observou de seu lugar o tio chamar Allen para comer. Só então percebeu que ele ainda usava suas roupas, largas no corpo do garoto.

Considerando as condições em que o encontrou? Seria então...

Na sua cama.

Deitado e dormindo.

Usando suas roupas.

Tarde da noite.

...

Na sua cama.

Sua cama.


Não era realmente uma boa imagem a passar, para a primeira vez que o viu.

Ainda mais somado ao fato de tê-lo ouvido resmungar o nome dele.

Estava encrencado. Encurralado, na verdade.


Do mesmo jeito, seguiu os dois até a sala onde comeriam. Olhou para trás, encarando com rancor os empregados que há segundos recebiam o albino. Tão concentrado estava em fazê-los se sentirem com medo que bateu no corpo parado a sua frente. Batia em seu peito, então teve que olhar para baixo para ver quem era a pessoa que interrompia seu caminho.

Allen olhava maravilhado para a fileira enorme de pratos na mesa. Seja pela diversidade ou pelo tamanho e quantidade de cada um (ou talvez uma soma de todos), o garoto parecia ter seus olhos aumentados, brilhantes de tão emocionados e esfomeados. Podia jurar que o garoto estava babando.

Empurrou o ombro para despertá-lo.

-Oe- disse, agora que tinha certeza de que podia entender- vai comer ou vai ficar só olhando? Você tá babando no carpete...

-Ah- Allen passou a mão no queixo para limpar qualquer resquício de saliva e prova de que realmente causara algum tipo de estrago no carpete (que imaginava custar fortuna)- me desculpe.

-Venha, venha- Tiedoll chamava aos pulos em uma das cadeiras- pode vir, Allen.

Kanda assentiu, então garoto se sentiu mais a vontade em acompanhá-lo até um dos lugares.

-Licença...- pediu, quando se sentou ao lado dos dois.

O albino observou o prato vazio à sua frente com certo receio em preenchê-lo. Mas estava, de fato, esfomeado e ver todas aquelas delícias tão próximas de si parecia uma tortura.

Por isso, quando Tiedoll permitiu que ele comesse, não hesitou mais nem por um momento. Atacou a mesa colorida de pratos deliciosos, encheu o seu com tudo que tinha direito.

Kanda ainda se impressionava com a quantidade de comida, mas seu tio parecia se divertir mais com o garoto se inclinado sobre a mesa e saltando de comida em comida.

O moreno agarrou seu mísero pote de sobá, sua comida preferida para todas as refeições e ignorou o fato do garoto devorar tudo que colocou em seu prato, de um jeito tão escandaloso.

Dez inacreditáveis minutos e os assados, pratos de salada coloridos, arroz de vários tipos e alimentos tão diferentes e luxuosos que Allen não saberia dizer o nome, já deixavam apenas sobras.

-Uau- Tiedoll riu- você estava com fome, hein.

-Ah- Allen coçou a nuca, estava um pouco sem graça por ter sido visto de um jeito guloso daqueles- desculpe, é que eu sou desse jeito. Eu sempre como demais.

-Não precisa se desculpar!- o tio riu mais ainda,isso fez o moreno (que acabara de terminar sua refeição) rolar os olhos- Pelo contrário! Eu gostei da atitude.

-Ah, ainda bem- o albino riu.

-Me diga, você,então, estuda na mesma escola que o Yuu, né?

-Sim.

-Já está melhor, né?

-Hã? Sim, sim. Já me sinto bem melhor.

-Não se preocupe, falei com seu pai, tá? Ele entendeu tudo e ficou mais tranquilo.

-Obrigado. Mana iria ficar uma fera se não avisasse.

-Me diga, quer sobremesa?

-Ah, se o senhor também for querer. Eu não quero incomodar...

-Que isso, que isso?! Não é nada disso. Nós dois já sabemos o quão abrangente é seu apetite, não? Vou pedir para trazerem.

-Obrigado, senhor...

-Tiedoll, tio do Yuu.

O albino estava tão confortável conversando com Tiedoll enquanto esperavam os doces chegarem. Na verdade, quando acordou naquele espaço luxuoso e diferente, acreditou que iriam ser pessoas tão arrogantes quanto o moreno, ou como as pessoas divulgadas na mídia. Enganou-se. O tio de Kanda se assemelhava de vários jeitos com seu pai, e o deixava muito confortável. Tanto que,minutos discutindo sobre assuntos banais e interessantes aos dois, já havia esquecido da existência do moreno ao seu lado. E ele estava, para sua própria surpresa, um pouco nervoso em ser ignorado da conversa, ficou mexendo com seus hashis no prato vazio de sobá. Apenas ouvindo a risada de Allen sobre comentários do tio.

A porta irrompeu atrás, algumas mulheres entraram com potes de sobremesa diferentes. Ao ver os tão desejados doces a caminho, Kanda não pôde evitar de olhar pelo canto do olho para o albino. Achou engraçado o modo como ele não se aquietava na cadeira e os olhos cinzentos acompanhavam o caminho dos potes até sua frente. Parecia uma criança animada. Bem, de fato Allen era uma criança muito animada no momento.

Sorvetes, cremes, bolos, tortas. Não importava, pois Allen topava devorar qualquer um. Principalmente por que a forma delicada de cada prato dava um aspecto ainda mais delicioso. Era de encher os olhos.

Mais surpresamente ainda, ver o albino sorri a cada mordida fazia Kanda querer sorrir também. Daquele jeito radiante. Quando viu, seu tio o encarava. Porque o moreno esboçava um sorriso torto e tímido sem que soubesse.

Para sua salvação, ouviu o telefone tocar. Não precisavam atender, pois Kevin o faria, então apenas ficaram ouvindo a chamada. A porta irrompeu novamente e Kevin chamou Tiedoll para atender.

O albino nem mesmo notou a saída do homem, tão concentrado estava no fim de sua refeição.

-Dormiu bem, moyashi?- Kanda perguntou.

-Hã?- Allen acabara de terminar seu último pote- sim, sim. Muito bem.

O garoto riu, então o rapaz não pensou ser um bom sinal, considerando o jeito como a manhã estava indo. Lembrava o modo como Allen ria com seu tio momentos atrás, enquanto Kanda era ignorado.

-Do que está rindo?!- se irritou.

-Ah, nada- o albino abafou a risada- é só que... eu tive um sonho muito, muito bom.

-Sonho...?

As imagens da noite passada voltaram na cabeça de Kanda em um flash. Um abraço, um nome, um choro, um beijo.

Um sonho que na verdade era realidade. Será que era desse sonho que o albino falava?

Kanda cobriu a boca para não mostrar que sorria.

-Eu também- o moreno disse- tive um sonho muito bom.

-Ah, é?

-Sim. Como eu queria que isso fosse verdade.

Allen teve uma pequena lembrança.

“Ter você assim, chamando meu nome, me beijando e me amando. Como me deixa feliz. Muito feliz. Eu gostaria disso. De verdade. Um sonho. Um sonho muito bom, Kanda. Tão bom, que eu não quero acordar nunca mais.”

“Como eu queria que isso fosse verdade”.


Allen estranhou. Já ouviu aquela fala... Deja vu?...

–Era seu pai, Allen.

Tiedoll surpreendeu os dois, voltando tão de repente da sua conversa pelo telefone.

–Meu pai?- o albino largou a colher em seu prato vazio.

–Sim, ele mesmo. Nós trocamos algumas ideias...

O tio deu um olhar significativo para Kanda. O sorriso que ele deu alertou o moreno de que alguma coisa estava tramando. A questão era se seria boa ou ruim para sua pessoa. Bem, geralmente era mais a segundo opção, apesar das intenções serem sempre boas. Ainda mais com a dúvida de que tipo de ideias eles teriam trocado.

–Seu pai vai passar aqui rapidinho mais tarde.

–Hm? Aconteceu alguma coisa?

–Sim. Ele me pediu para que você dormisse aqui novamente, já que estava aqui mesmo. Ele estava procurando um lugar para você ficar hoje à noite. Espero que não ligue sobre o fato de eu ter oferecido a sua estadia por aqui.

–Waaaehh? Por quê?

–Algo sobre passar a noite na casa de seu tio, ele estava indo para lá. Vai passar aqui para deixar roupas e coisas que você precisa.

O garoto bufou.

–Ah, obrigado por me deixar ficar aqui. E me desculpe pelas atitudes precipitadas e sem sentido do meu pai.

–Nem se preocupe, fico feliz que você possa estar conosco. Sabe, às vezes eu sinto saudade de ter alguém mais comunicativo.

O moreno sentiu uma veia saltar em sua testa. Provocações e as tramações de seu tio. Coisas que o irritavam profundamente.

–Bem, eu já tenho que ir- Tiedoll se levantou- trabalho. Espero que não tenha problema em ficar sozinho com o Yuu.

–N-Não tem problema. Pode ir.

O tio levantou, mas antes de ir tentou mais uma vez dar um beijo de despedida no sobrinho. O problema era que Kanda sabia esquivar muito bem. Sem mais tempo, ajeitou o paletó e saiu pela porta da sala de jantar.

–Quem disse que a gente vai ficar sozinho?- Kanda bufou- Sozinhos: eu, você, Kevin, Margot, Jane, Jessica, Brian...

–Hm...- Allen pensou, tinha certeza de que ele mencionara alguns empregados- tem razão...Sua casa...é bem grande, né?

–Quem disse que é a minha casa?- o moreno acenou para que Allen levantasse e ele o fez- é a casa do meu tio.

–Mas você mora nela.

Empregados abriram a porta para que eles passassem no caminho para a sala de estar. Allen já deixou de se impressionar com a magnitude da mansão, então passou pela sala sem parar de susto, apenas concentrado em seguir o moreno até o sofá macio onde sentara.

–Mas por que essa não é a sua casa, então?- Allen perguntou, assim que se jogou ao lado dele.

–Por que seria?

–Porque ele é seu tio. Você mora nela. É o seu lar, onde você pertence.

O moreno só riu.

–Eu não pertenço a lugar nenhum.

Allen decidiu não falar mais nada. Se todas as respostas do moreno eram sempre assim, não havia porque ficar perguntando. Concentrou-se em deixar seu estômago digerir o almoço em silêncio, enquanto Kanda ficava mudando de canal em canal da TV que mais parecia uma tela de cinema. Por um momento esqueceu que estava acompanhado, afinal, Allen não falou mais nada e encarava sem objetivo a empregada regar os vasos de planta.

–Se você...- Kanda falou, já que percebeu como o garoto estava quieto ao seu lado- quiser colocar suas roupas, eu deixei ela lá em cima.

–Hã?- Allen se lembrou que usava roupas do moreno-hm, depois eu troco. Pode deixar.

O albino ficou quieto novamente. E como isso deixava Kanda ansioso...

–Er...- o moreno resmungou- se quiser escolher algum canal...

–Ah, não, pode colocar qual você quiser...

–Tá...

Silêncio. No fim, quem mais estava desconfortável era Kanda. Do que servia a casa cheia de funcionários se no fim pareciam estar sozinhos?

Clic. Ele desligou a TV.

-Você... quer ir lá fora?

Kanda percebeu a hesitação no garoto, dando de ombros em todas as opções. Deixava tudo mais nervoso.

-Tá fresco lá fora- Kanda completou- achei que gostaria de ver o jardim...

Allen parecia um pouco mais motivado, mas mesmo assim não se levantou.

-Vamos lá. Ou você prefere ficar aqui parado sem fazer nada?

O moreno o puxou pelo braço. Achou que seria um esforço necessário puxá-lo até lá fora para garantir que ele fosse. Allen não resistiu, mas também não largou a mão de Kanda enquanto passava por portas e portas até chegar aos fundos.

Sentiu o clarão da luz do Sol bater em seus olhos e cegá-lo momentaneamente quando chegou ao quintal. Mas quando a sensação de queimação se dissipou, surgiu a sua frente o mais belo quintal que já viu. Grande, tão enorme quanto o terreno lhe permitia. A grama tão verde, cantos de flores coloridas sendo tratadas por jardineiros, borboletas, pássaros, árvores de copas cheias, o chão trazia um caminho de pedra. Tudo coberto pelo céu azul e o Sol radiante.

Mal pôde deixar de segurar o queixo para que não batesse no chão quando sua boca abriu em um “O” maravilhado. Era lindo.

-É lindo, Kanda!

No fim, valeu a pena ter carregado o garoto. Só pela animação dele que contagiou até mesmo o japonês.

-Na verdade, esse não é todo o jardim- Kanda completou, seguindo Allen pelos cantos- e tem um jardim mais estilo japonês ao fundo. Um jardim...secreto.

Os olhos de Allen brilharam. Então havia mais daquilo?

Kanda o chamou mais a frente. Ele estava à frente de várias árvores. Allen se assustou ao pensar que havia até mesmo uma floresta naquele quintal.

O moreno empurrou o corpo do albino por entre as árvores. Não eram muitas, não era uma floresta. Era um esconderijo. Eram como uma cerca, pois ao passar por elas, ele se viu no mais bonito jardim que já vira.

Uma fonte de água brotava em meio às rochas. Caindo na reserva de água cristalina, povoada por grandes carpas coloridas. Uma ponte de madeira vermelha passava pelo lago, dando caminho a uma ilha com uma casinha e onde uma árvore de flores rosas os esperavam. Tudo tão verde, mas como era cercado por árvores, que muitas vezes se curvavam sobre o local, não era muito claro e deixava o lugar um pouco escuro.

E tudo ligado a eles por um caminho de pedras. Sem demora, Allen sucumbiu à vontade de ver mais de perto toda aquela natureza rara.

Kanda seguiu o garoto, desesperado em tocar as pedras, observar as carpas nadarem, molhar as mãos na fonte. Por mais incrível que fosse, a animação do albino contagiava o ambiente.

-Está um pouco abandonado- Kanda explicou, reparando na quantidade de limo e musgos, a grama um pouco grande demais- é que faz tempo que não aparece alguém por aqui...

-É lindo, Kanda!

-Vem.

O moreno puxou Allen pelo braço. Se estava ali, deveria ao menos visitar o seu lugar preferido. Então, em alguns segundos, já estava atravessando a pequena ponte.

A casa, só de teto, era muito escura. Estava um pouco mal cuidada, cheia de teias de aranha emaranhadas em seus cantos. A madeira escura e úmida, assim como o banco, coberta em musgo. Fazia muito tempo que não se motivava em visitar essa parte, apesar de ter sido por anos de sua infância o único lugar que parecia um refúgio para si.

E ali estava. O que mais queria mostrar ao garoto. Esperando logo atrás do banco, perto do fim daquela ilha. E continuava tão viva e tão bonita quanto se lembrava.

Sem demora, agarrou mais uma vez o braço de Allen. Tirou-o do escuro da casa, para levá-lo até aquele banco.

Allen observou as pétalas rosadas das flores daquela árvore preencherem o chão verde de grama. Era lindo. Sentou no banco, ao lado de Kanda, sem tirar os olhos das flores que cresciam tão magicamente nos galhos que ficavam sobre suas cabeças.

-Como é que ninguém visitou esse lugar por algum tempo??- Allen questionou.

-Por algum tempo, eu fui o único a visitá-lo.

O moreno bufou.

-Esse lugar- Kanda disse- era meu refúgio.

-Imagino o porquê. É de acalmar as emoções, não?

-Só algumas emoções...

O vento levantou as mechas albinas de Allen e as negras de Kanda chicotearam no ar. Mais uma leva de pétalas rosadas choveu em suas cabeças.

A calmaria que os borrões coloridos das pétalas em contraste com as cores da paisagem de fundo proporcionava era sem igual. Ou seria o fato dos dois terem as pessoas que mais gostariam de ter ao lado?

Não sabiam. Não importava.

Allen fechou os olhos para sentir mais daquele lugar. Queria sentir até mesmo a aura da pessoa ao seu lado. Mas tudo que sentiu foi algo tocar seu cabelo. Abriu os olhos tão logo sentiu algo escorregar por eles. Era nada mais nada menos que a mão de Kanda arrancando uma pétala enroscada entre seus fios.

E só quando sentiu o calor dos dedos do moreno deixarem de tocar sua pele que percebeu que gostaria que houvessem mais pétalas para ele tirar. Desde que ele o tocasse novamente.

-Cherry...- Kanda resmungou.

-C-Cherry...?

-É o nome de sua mãe, certo?

-Sim, Cherry...

-Como cereja?

-Exatamente...

Kanda riu.

-Pois lhe apresento- O moreno ergueu as mãos para os galhos em acima de suas cabeças- uma cerejeira.

Allen ergueu os olhos para a árvore, tão semelhante à pessoa que quase perdeu totalmente anos atrás. Bonita, calma, gentil. Uma cerejeira.

-E essa...- Kanda tirou mais uma pétala das mechas brancas- é uma pétala de flor de cerejeira.

O albino agarrou a pétala na mão do moreno. Era macia, era bonita. Tão confortante de observar.

-Você...- Kanda falou, enquanto Allen se distraía com a árvore- foi vê-la esses dias, não?

-Hã??

-Sua mãe.

Allen estranhou.

-S-Sim, como você sabe?

-Você me contou.

-Não, não contei.

-Você disse que foi vê-la, que pensou no quanto era horrível vê-la daquele jeito, de corpo vivo e mente morta, que não achou que conseguiria desligar os aparelhos...

Allen não disse nada. Continuou mexendo nas flores caídas no chão. O moreno bufou.

-“Eu quero ser forte. Eu quero ser útil. Não quero que eu continue desse jeito, sem poder fazer nada, nem ao menos para proteger meu pai da tristeza. Ou libertar minha mãe do sofrimento”.

O albino tinha uma sensação estranha ao ouvir aquelas palavras. Deja vu...?

-Lembra disso?- Kanda comentou, sobre as palavras que disse antes- foram besteiras que você falou ontem à noite.

-Eu...

-Eu disse que você precisava sorrir para que tudo ficasse bem. Só isso. Lembra?

Allen não estava ouvindo muito bem. Estava muito ocupado lembrando. Ou pelo menos tentando. Forçava sua cabeça o limite, era uma conversa muito importante para ser perdida de sua memória. Tinha pequenos flashs de lembrança.

Um sonho.

Se aquela conversa aconteceu ontem à noite. Quer dizer que...

-O sonho também é real.

Allen ergueu os olhos para a pessoa que falou. Kanda encarava o nada, lá longe, para evitar ter alguém lendo os seus olhos naquela hora. Mas era quase inevitável encarar os olhos do albino, que estavam fixos em sua pessoa naquela hora. Então o fez.

- Q-Que sonho...?- Allen tentou disfarçar, mesmo que seus olhos tremessem junto à sua voz.

-Preciso adivinhar qual foi seu sonho?

Kanda ouviu o albino engolir em seco.

-Você me pediu para que ficasse até você dormir, você falou de sua mãe, eu falei que era idiotice se preocupar. Eu te abracei, eu chamei seu nome até não poder mais, eu te beijei... E no fim, você achou que foi tudo um sonho...

Allen tremia um pouco. Os olhos foram se arregalando a cada palavra. Igual. Era igualzinho ao seu sonho. Como ele sabia? A menos que ele fosse vidente, não tinha como ele saber.

A não ser,é claro, que não tivesse sido um sonho.

-Eu vou te dizer por que nós dois tivemos um sonho bom- Kanda continuou- porque nós dois tivemos o mesmo sonho, não? Você até disse que não queria acordar mais, que queria que fosse verdade.

O moreno aproveitou o momento de fraqueza do garoto para se aproximar. Esfregou a mão no cabelo dele, mas dessa vez não era para retirar pétalas e sim para sua satisfação da necessidade de toque.

-Pois é- disse- acho que no fim sonhos podem virar realidade...

Allen estava muito envergonhado para conseguir levantar sua cabeça. Agradeceu pelas pétalas rosas disfarçarem a vermelhidão de suas bochechas.

-Hm?- Kanda tombou a cabeça- você ainda não acredita?

O albino sentiu o rosto ferver mais ainda, Kanda estava retirando uma outra pétala do seu cabelo. Mas, dessa vez, os dedos foram tão lentos ao tocar em sua pele, prender mechas atrás de sua orelha e contornarem sua bochecha. Agora, Kanda tinha uma visão melhor do rosto tímido do garoto.

Foi quase impossível impedir o rapaz de sorrir maliciosamente

-Será que eu devo...

O moreno se aproximou ainda mais. Allen sentiu a respiração bater no rosto.

-Te mostrar como foi o sonho, então?

Allen virou a cabeça para impedir.

Mas não conseguiu.

Na verdade, desistiu de impedir.

Porque seus lábios estavam fazendo uma coisa mais importante ainda. Uma coisa muito melhor, muito mais necessária.

Ao estarem beijando tão apaixonadamente a boca de Kanda.

Notas finais
Até o próximo!!! >3