Bad Boy
31 Recomeço
Notas iniciais
Primeira lição: nunca ser o sussurro que quer agir como grito de guerra.
Segunda lição: saber silenciar as próprias palavras, porque é aquilo que não se vê que cega dolorosamente.
Terceira lição: nunca abrir uma caixa com as mãos atadas, mas com as palavras certas para o homem que a fechou.
Quarta lição: saber recuar do perigo anormal e impossível, afinal correndo para um lado sempre haverá um retorno imprevisto.
Quinta lição:
–X-
oOo
–X-
Quando Kanda esticou o braço a procura de pele quente pela manhã, não encontrou nada mais que o colchão frio. Seus olhos, mesmo preguiçosos tiveram força para rodar o quarto inteiro à procura do que deveria estar ali, ao seu lado.
Se ele não estivesse em um quarto diferente, em uma cama diferente, com um cheiro diferente e ainda por cima nu, poderia considerar a noite anterior um sonho realista e distante. Mas ele estava lá, com os olhos quase colando as pálpebras pesadas, na cama de Allen Walker.
Era quase impossível deixar de sorrir, pelo menos um pouco. Sua boca não se esticava muito se não fizesse um esforço cansativo. E cansado ele já estava.
Após reconhecer suas roupas entre as peças jogadas pelo piso, pôde descer sem medo de encontrar por acaso o pai do garoto ou qualquer outra intrusão que por azar estivesse ali para visitar com um visual nem um pouco decente. Mas estavam sozinhos ainda.
Não passava de meio dia.
–E aí? Então já acordou.
Allen o chamou da cozinha, de onde um cheiro caloroso se esticava até a sala. Kanda não percebeu que estava morrendo de fome até seu estômago reagir furiosamente em relação a isso, como se finalmente acordasse do torpor em que os dois se enfiaram desde o fim da noite passada.
Sem pensar duas vezes, guiou-se pelo cheiro e pelo barulho rápido de metal e vidro para encontrar o albino também vestido com as roupas anteriores- com certeza por preguiça de arranjar um novo conjunto- mexendo no fogão e arranjando pratos. Foi recebido com um sorriso brilhante, mas apressado e percebeu que os cabelos brancos estavam molhados.
Martirizou-se por não ter acordado mais cedo para cavar um banho junto dele. O cansaço valeria a pena.
–Seu cabelo fica bonito quando acaba de acordar-o albino observou sobre os fios desleixados, explicando o sorriso- espero que coma misto quente? Nem Mana nem eu tivemos a audácia de ir ao mercado...ou a vontade.
–Como-Kanda se sentou na cadeira da mesa à qual Allen apontava entre arrumar um sanduíche e esquentar o outro no fogo.
Os olhos do moreno vagaram pelo lugar inteiro, lembrando-se de que já esteve lá uma vez. Era uma disposição de uma simplicidade comum, mas ainda assim capaz de tirar dele uma sensação boa.
Ele sempre achou que não merecia a riqueza em que seu tio o fazia viver.
Tão distraído estava com os detalhes da cozinha -principalmente os ímãs de personagens colados na geladeira e os recados de duas caligrafias diferentes prensados num mural na frente da pia- que mal notou quando Allen deslizou um prato e um copo cheios na sua frente. Até que o cheiro subiu fumacento pelo seu nariz e o estômago deu um novo pulo.
Ele observou o garoto parado ao seu lado com o próprio sanduíche já na boca, tentando ser mastigado compulsivamente. O que deveria ser uma visão até desagradável estranhamente lhe pareceu adorável quando era Allen estufando a boca com sua comida.
–Não vai sentar?-questionou, vendo a rapidez com que o garoto já engolia. Ele não podia ser o melhor especialista em etiquetas, mas na sua mente ele sempre pensou que as cadeiras ao redor de uma mesa serviam para serem usadas quando vagas. Principalmente durante uma refeição.
Allen sorriu, os dedos coçando a nuca para buscar aliviar os nervos.
–Não consigo-ele explicou quase como um sussurro de um segredo, torcendo os lábios em um gesto que mais parecia automático que significativo.
Kanda tomou seu tempo para pensar sobre isso antes de entender. A realização caiu como um peso enorme que ele nunca achou que fosse ser satisfatório. Não sabia se estava corado, mas definitivamente estava sentindo um calor anormal no rosto.
–Ah-foi tudo que ele conseguiu dizer, vendo o garoto virar de costas para lavar suas coisas na pia. Ele não encontrava nada para falar que soasse inteiro -desculpa.
Como não podia ver o rosto do outro, não teve certeza sobre a natureza da risada que se seguiu, no entanto sem pensar muito podia jurar que estava nervoso. Principalmente quando notou as orelhas pegando fogo entre os fios brancos molhados.
–Não é como se fosse apenas sua culpa.
Desconcertado em continuar a conversa por rumos estranhos, Kanda se ateve a devorar o misto edição limitada que Allen Walker o próprio havia feito para ele. Talvez fosse a localidade, as circunstâncias ou o cansaço abatedor que trazia um fome de doer, mas ele não conseguiu encontrar nada na memória que tivesse um gosto tão bom na sua boca.
Quer dizer, nenhuma comida. Ele podia pensar em uma extensão de pele perfeita que ficaria muito boa em sua boca.
Não houve mais nenhuma turbulência até terminar a refeição e lavar os pratos. Ou pelo menos tentar. Como Allen não reclamou em nenhum momento e nada terminou em cacos ou sangue ele assumiu que havia feito bem.
Enquanto se ocupava em secar a louça com o pano separado pelo albino, sentiu um calor repentino cobrir suas costas. Graças ao seu modo estoico de permanecer, pensou não ter aparentado o susto que quase o fez derrubar o copo que tinha usado. Allen enfiava os braços pela sua cintura e ele sabia que o pequeno tinha o rosto afundado entre suas escápulas porque sentia o nariz respirando contra sua roupa.
Era uma posição segura e confortável. Nunca achou que sentir os contornos de um rosto nas suas costas pudesse fazer tantas coisas.
Ele se perguntou por que não havia antes pensado em tocá-lo assim durante esse tempo todo na cozinha. Contente pelo contato, pensando que não havia porque mostrar esse lado, deixou que ficasse assim se ajustando ao abraço que nunca achou que precisasse.
“Kanda, você é tão ranzinza que tenho certeza que é apenas falta de abraços”, Alma gostava de brincar com isso. O moreno começava a achar que talvez fosse verdade.
–Meu pai disse que Neah comprou comida demais-o garoto tinha o queixo apoiado em seu ombro e as palavras faziam pressão na pele- ele deve trazer um pouco de tarde.
–Hm- Kanda resmungava, concentrado em fingir que ainda havia louça para lavar. Muito menos ligando para o fato de estar fazendo isso sozinho agora, já que o parceiro de louça estava ocupado prensando beijos castos por cima do tecido.
O silêncio se estendeu até que o moreno percebeu que era apenas a espera por uma resposta. Mesmo assim ignorou a nota.
Allen suspirou, sem realmente estar nervoso com a atitude. Era mais a sensação de reconhecer esse modo de agir obrigando seus movimentos.
–Você vai ficar para comer ou...?
Kanda enfiou as últimas peças lavadas e sem paciência jogou o pano molhado para o outro lado da pia. Ele não quis admitir que por um momento havia esquecido que a vida não era feita apenas deles dois e que ela continuava sem que pudesse prender o momento para sempre.
E piorava quando ele viu o celular em cima da mesa ao lado dos pratos de onde Allen provavelmente antes trocava mensagens com o pai. A tela ainda acesa denunciava o uso recente e fazia uma sensação de inédita culpa aparecer dentro de si.
E piorava ainda mais quando percebia que a demora do pai não se devia a estar prolongando uma estadia na casa do irmão, mas por provavelmente estar no hospital tendo uma longa conversa com uma mulher que não consegue ouvi-lo.
E piorava mais e mais quando percebia que não era um convite qualquer, era Allen querendo mantê-lo por perto, talvez por querer fugir, talvez por querer evitar.
Kanda engoliu em seco ao se virar e, obra da atração das bocas próximas demais, roubar um beijo rápido e distraído.
Aquilo o fazia bem. Uma rotina sem preocupações.
–Tenho que voltar para casa- apesar de ele não precisar realmente, algo naquela cabeça que tinha a voz do Alma dizia que era certo- e você devia ir para o hospital- quando levantou os olhos firmemente, a expressão do outro estava quase cômica se não fosse algo preocupante- é o dia, não é? Hoje.
Allen apertou sua segurança. Kanda sentiu na pele quando os dedos ficaram mais fortes ao redor dele, mas não fez nada mais que segurá-los entre os seus. Parecia um gesto tão natural que ele mal conseguia se imaginar recusando qualquer toque como antes fazia.
–O maldito do Tiedoll deve estar surtando e Alma vai ficar no meu pé como sempre- desculpou-se, tentando tirar o peso daqueles olhos, mas eles se recusavam. Os tons prateados pareciam mil vezes mais escuros e opacos.
Allen deu um sorriso metade verdadeiro, metade arruinado que queimou pelo corpo do moreno como ferro derretido. A verdade era que a vontade mais primitiva era a de abraçá-lo com força e derrubá-lo em algo macio, mas a vontade racional era deixá-lo em paz para lidar com seus problemas.
Porque Kanda já havia notado que tinha algo problemático ali, quebrando o padrão que o garoto fazia todos os anos. Afinal, ele havia carregado o japonês para lá e para cá com a desculpa de precisar falar algo. E até agora nada havia sido dito para tirar a preocupação dos ombros machucados.
Quando o moreno ergueu uma das sobrancelhas para o outro, não foi muito difícil para o albino entender o que estava querendo.
–Eu sei o que você está fazendo-ele sussurrou.
–O quê?-Kanda respondeu, a voz firme e o rosto estoico.
–Suas sobrancelhas estão me interrogando nesse exato momento.
Sem perceber, o moreno as apertou consideravelmente.
–Estão?
–Estão fazendo de novo. E não estão parando.
Kanda rolou tanto os olhos que doía. Não estava bravo realmente, mas estava incomodado com a mudança de assunto que caía facilmente na língua do albino. Era quase como se ele não achasse que o japonês o conhecia bem o bastante para saber como cada ação significava diante dele.
Allen se afastou apenas o bastante para ter certeza de que não receberia uma resposta verbal de verdade. Suspirou, cansado pelo olhar que o moreno o jogava.
O albino devolveu metade de um sorriso antes de se afastar para guardar ingredientes que havia deixado fora dos lugares apropriados.
Kanda mal teve tempo para se preparar antes de receber:
–Eu estou pensando em desligar os aparelhos.
O contexto já dizia tudo. O moreno não precisava questionar ou pensar muito sobre a frase. Ele sabia o que ela significava para ele e para o outro.
Mesmo que Kanda tenha parado para observar seus movimentos, Allen decidiu ignorar e continuou arrumando o espaço, como se não tivesse apenas largado uma bomba que ninguém sabia se podia explodir.
–Da minha mãe, quero dizer- ele completou, mesmo que não precisasse- os médicos viviam falando disso e talvez...talvez seja bom. Já faz um bom tempo desde que aconteceu e talvez ela esteja cansada de nunca acordar. Talvez ela esteja tentando sair e não consegue, porque, talvez, eu seja uma pessoa egoísta demais para deixá-la ir- Kanda ouviu o suspiro sonoro, alto e cansado, como se cada palavra pesasse como um elefante e como se fossem rápidas demais como cavalo- são muitos talvezes na minha vida. São demais.
Allen fez um olhar. Do tipo que fazia Kanda pensar estar aliviado por poder não ser mais apenas um “talvez”. Ele sempre quis ser uma certeza tanto quanto quis ter uma, para variar sua lista de projetos imperfeitos que compunham sua vida.
O albino evitou o olhar que sabia que caía sobre ele. Nunca foi fã de simpatia.
Por um momento, ele havia esquecido que estava lidando com Yuu Kanda. A pessoa que não era conhecida por simpatia, mas pela falta dela.
–Hm- Kanda balançou a cabeça. O moreno andou até o garoto e livrou suas mãos de algum peso para guardá-los- então você não devia ir para lá?
Por um segundo, Allen ficou aflito por não ter nada mais para se distrair em mãos. Porém com a intensidade que o outro continuava a colocá-lo sob um silêncio deturpador, ele não tinha por onde escapar de qualquer modo. Sem notar, os dois estavam praticamente sussurrando em uma casa vazia.
–É- Allen sorriu, agora um pouco mais feliz- é. Acho que sim.
Kanda não falou mais. Os olhos negros apertados se moveram para a porta e depois para ele. E a sobrancelha continuava lá, fazendo demandas e perguntas de caracteres grandiosos. Era mais que um “vá lá”, era mais um “você está fazendo a coisa certa para você e eu não preciso estar lá para estar ao seu lado”.
Num toque delicado, Allen só teve tempo de encostar mais um beijo rápido antes de subir às pressas para pegar um casaco apropriado para correr para o hospital antes que mudasse de ideia.
O tempo parecia prestes a esfriar mais ainda lá fora.
E Kanda estava começando a terrível sensação de falta. Quase doía, mas era bom.
–X-
oOo
–X-
–Você não chamou Allen para almoçar aqui, Yuu?
Kanda levantou os olhos do prato pela primeira vez. Não era seu costume manter conversas com o tio durante a refeição. A mesa era grande, os pratos eram abundantes e sua paciência era escassa. Tiedoll, por mais que não fosse de seu modo de viver, costumava respeitar essa decisão por segurança sua e do sobrinho. Porém, ele estava se esforçando mais que nunca para estabelecer algum tipo de diálogo.
Já era sua sétima pergunta sem resposta desde que Kanda havia sentado à mesa e começado a comer. O moreno estava bem no silêncio. Estava ocupado estando preocupado com a vida do garoto, com a sua própria, receoso por ter ficado para trás e tentando digerir a afirmação na sua cabeça de que estava certo em deixá-lo sozinho. Se fosse para decidir algo e começar a se arrepender pouco tempo depois, ele não respeitaria a si próprio,
Uma boa decisão a favor do Allen, porque Kanda nem havia percebido que cinco pratos de sobá haviam sido praticamente engolidos a favor de seus nervos.
Mas Tiedoll havia percebido. E Alma também, já que intrusamente havia sentado do outro lado (e na casa) e observava tudo com o sempre maldito sorriso no rosto.
–Tsc. Porque eu não quis?- devolveu, a contragosto, enchendo o prato com uma nova leva de comida- O moyashi teve que sair.
–Sério?- Tiedoll não comemorou externamente a existência de uma resposta, sabendo que não sairia muito bem ou saudável-Eu queria agradecê-lo por deixar você dormir na casa dele.
Kanda disfarçou a sensação de observação com um gole longo de bebida.
–Então fale com ele, não comigo.
–Então o chame para comer aqui da próxima vez.
O moreno tirou os olhos do prato, finalmente notando o tanto que tinha comido e que o deixava pesado demais para se movimentar como queria. Ele odiava a sensação de estar preso e de movimentos trabalhosos.
Ainda mais na presença das duas pessoas mais insuportavelmente falantes, intrusivas e perceptíveis que ele conhecia.
Alma ainda não tinha aberto a boca, mas pelo modo como Kanda o observou quando alternou os olhos entre eles, era apenas porque cobria a boca para esconder o sorriso maníaco que não conseguia tirar do rosto. Ele não havia tocado na comida e deixava mais que claro que almoçar não era o motivo de estar se colocando à mesa. E ele sabia que por bem ou mal Kanda podia tirar um sorriso com os punhos.
Kanda tinha certeza de que ele sabia.
O moreno rolou os olhos, perguntando-se que tipo de coisa havia feito para merecer um castigo duplo como eles. Porém tantas coisas vieram à cabeça e ele logo ignorou.
–Que seja- murmurou, jogando os talheres de volta no prato e levantando-se para jogar a louça na pia.
O gesto o lembrou da manhã na casa de Allen, mas ele empurrou o pensamento para mais tarde. Não se surpreendeu quando Alma o seguiu como um cachorro carente enquanto ele subia para o quarto.
Muito menos quando o garoto entrou logo após ele e fechou a porta. O estúpido sorriso lá, prensado no rosto de quem sabe, mas quer ouvir para saber que sabe de verdade. Kanda odiava aquela expressão, mas Alma sempre a tinha no rosto. Algumas vezes mais intensa que outras.
Esse era um motivo para Alma Karma ser o primeiro ser humano na Terra que conseguiu chegar a um nível comparável a amizade com Yuu Kanda.
O outro era que por mais que o japonês fizesse algo de mal a ele, no segundo seguinte Alma já estava superado em nome do Código da Amizade. E era por isso que agora ele estava ali, sentado na beira da cama do moreno, todo sorrisos e risos.
Kanda tentou ignorar o amigo, mexendo nos livros da estante e lavando as mãos em seu próprio banheiro, mas depois de minutos que se seguiam com o olhar alegre dele fritando suas costas, não havia mais modo de deixar para lá. Alma o conhecia, tinha métodos eficientes.
O estrondo do livro se fechando quase fez o garoto soltar um riso vitorioso.
–Vai. Desembucha-o japonês rosnou, mais como um pedido que uma ordem.
Quando Alma abria a boca, o sorriso se tornava ainda maior. Kanda sentiu um lado de sua cabeça latejar com a visão.
–Desembuche você primeiro- devolveu, mesmo que o moreno torcesse o queixo de volta- então...você falou com o Allen?
–Se for para perguntar, pergunte algo que não sabe.
Alma ignorou o comentário com um chacoalhar de ombros. As mãos nervosas e ansiosas que sempre precisavam de uma ocupação buscavam dobras no cobertor que cobria a cama para desfazer. Mas o próprio mordomo havia arrumado na medida da perfeição e tudo que se via era a superfície lisa e macia.
Kanda suspirou, jogando-se na cadeira giratória próxima.
–Eu me desculpei e quase resolvi tudo -resmungou.
–E dormiu lá.
–E dormi lá.
Alma esticou ainda mais a linha do sorriso até ameaçar suas bochechas.
Não era mentira para ninguém que ele era a pessoa mais inserida naquele relacionamento, até mais que os dois. Para alguém que conhece Kanda desde que usar a privada era algo assustador, ele não achava que viveria para ver o amigo rejeitar seus próprios grilhões emocionais. Ele achava bom. Ele achava incrível.
Allen era incrível.
–Ele disse que ia no hospital-Alma se assustou quando ouviu Kanda continuar, o tom mudado e hesitante crepitando a frase como se preferisse não ter aberto a boca. O moreno se virou para o amigo, encarando o chão entre os dois. O outro se ajeitou na cama ao ver o comportamento inusual do japonês. A postura dele pedia claramente para continuar.
Kanda suspirou profundamente girando um lápis entre os dedos como uma arma mortal. E, se depender das habilidades dele, poderia ser uma.
–O moyashi disse que ia desligar os aparelhos da mãe dele. Que está em coma- não obteve muita reação, então continuou tentando fazer com que o amigo notasse o tom questionável que usava-Ele disse que não gosta de prendê-la a um talvez ou algo do tipo...e eu deixei que ele fosse.
Alma examinou o rosto do outro, os olhos apertados e a mãos massageando a área da boca. Era idiotice de Kanda pensar por uma única vez que ele deixaria escapar o tom de dúvida e aprovação que caía sobre suas palavras.
–A decisão é dele afinal, não é?-Alma concluiu, quase vendo o outro suspirar de alívio- Você não pode ficar sempre ao lado dele e nem sempre longe dele. Ele a conhece e se ele decidiu não foi por não considerar as opções, isso você pode ter certeza. Agora,-ele levantou em um pulo, desafiando o melhor amigo com os olhos divertidos- ajudá-lo e apoiá-lo é a tarefa do namorado. Às vezes, até alertá-lo.
Kanda torceu o rosto.
Para esse patamar estavam faltando conhecidas três palavras. E a vontade da outra parte.
–Não sou o-
–Ah, cala a boca, Yuu!-Alma riu- Já está na hora de tirar seu medo dessa palavra. Se não é, vai ser. Não se preocupe.
–Não estou preocupado É qu-
–Lalala não estou ouvindo-Alma cantarolou até estar de volta na beira da cama- estar ao lado dele e não estar ao lado dele são equilíbrios de um relacionamento. Está nas suas mãos.
Kanda conseguiu arranjar um modo (os mais músculos) para fechar o rosto ainda mais.
–Não fale como se fosse o destino do universo.
–Talvez seja. E você nem sabe...- Alma mexia os pés nervosamente em cima do piso- bem, pelo menos do seu mundo particular eu sei que é.
O porta lápis de ferro que por um triz não esmagou seu nariz foi um sinal suficiente para que parasse de falar ou condenaria os nervos do amigo para o além em segundos. Mas isso não impedia de rir, alto e claro, sabendo que Tiedoll estava atento no andar de baixo.
Fazer o outro confortável era uma ideia segura. Fazê-lo desconfortável era uma ideia divertida.
Talvez por isso e por tantas vezes que Alma não se importou e muito menos teve dificuldade em correr pelo quarto enorme do japonês, desviando de cada objeto pesado que passava raspando pela sua pele como um sinal mortal. Um caderno. Um abajur. Um enfeite de mesa. Um peso de papel. Uma cadeira.
Perigo de morte é algo que vem no pacote para ser amigo de Yuu Kanda. E Alma tinha treinamento em longo prazo.
Por isso quando viu que todas as coisas perigosas já haviam sido usadas, Kanda deixou-se resmungar últimos palavrões antes de se jogar na cadeira restante. Não valia a pena o esforço.
Alma viu como o cansaço o fazia calmo, sentado a cadeira e encarando a janela como se pudesse ver mais que apenas as casas na calçada da frente. Ele sabia que mil coisas podiam estar passando na mente do moreno, mas ele também sabia que era apenas uma. Que tinha nome e apelido a propósito.
Engoliu a risada feliz que surgiu em sua garganta, subitamente dando-se conta de que era aquele momento o perfeito para as notícias. Mesmo sabendo que teria que arrastar o garoto de volta para a realidade pungente. Certas coisas além da diversão também vinham no pacote de amigo.
Alma arranjou um lugar de novo na cama, entre os lençóis amontoados e as marcas de tênis. A expressão decaiu em segundos enquanto ele reanimava as palavras dentro da cabeça.
Kanda parecia tão bem, tão melhor, que ele estava considerando severamente o que ia fazer um crime contra a sua humanidade.
Calmaria antes da tempestade. Era tudo que ele via na cena.
–Vai falar ou não vai?- Kanda disse, os olhos ainda percorrendo as linhas de nuvens no céu nublado como se não estivesse pedindo uma sentença de morte sem que soubesse.
–Como você sabe que eu preciso falar?
–Como você não sabe que eu sei? Tsc. Ainda se você soubesse se comportar normalmente, mas, não, quando você fica quieto atrás de mim com esse olhar de eu-estou-me-preocupando não significa coisa boa e então nem que você precisa ficar quieto. Então fale logo- ele hesitou com a frase pendente antes de completar- porque eu vou sair com o moyashi depois.
–Ah, sério?- Alma sorriu- Vão aonde?
–Não sei. Ele deve escolher-Alma finalmente notou o reflexo ameaçador que o encarava da janela e se recolheu ao humor sério que antes pesava- e não é esse o assunto de agora, imagino.
O amigo balançou a cabeça tão furiosamente que seu cérebro pareceu se deslocar em sua caixa.
–Lavi veio me avisar de uma coisa ontem...
–Tsc. Aquele usagi maldito.
–...Aquele garoto que estava com ele naquele bar era o primo dele, Timothy Hearst. Ele tem bastante contato com o a família dele, então acho que a fonte é confiável. Ele não teria o trabalho de vir falar com o Lavi...
–Porque ninguém merece perder tempo com ele.
–...porque é um pouco longe da casa dele-Alma tentou repreendê-lo pelo olhar, mas de costas nada funcionava- será que eu posso falar sem interrupções?-um silêncio provocativo se seguiu e foi o bastante- obrigado. Fico feliz por você esta falante, mas a hora não é essa. O que eu quero dizer é que você sabe que a família dele tem grandes conexões com criminalidade, eles sabem do que estão falando. E...eles notaram movimentos... complicados nas ruas.
O barulho do ranger incômodo da cadeira giratória impediu Alma de continuar, Kanda deu impulso para virar de frente a ele tomando no rosto a expressão vaga que antes refletia na janela. Estava concentrado, um brilho desgostoso, mas interessante tomou conta dos olhos negros antes que o amigo pudesse definir.
–Você quer dizer...?
Alma concordou, não precisando de mais que o ranger dos dentes e os dedos fortes esmagando o couro do assento. O rosto, porém, foi tomado pela sombra que a luz de fora contornava.
–Eu já avisei os outros pra tomarem cuidado-ele pousou a cabeça sobre a palma da mão, claramente temendo suas próprias palavras- os Akumas estão de volta. E adivinha que gangue famosa tem as mãos nisso?-a pergunta claramente era retórica, já que Alma não esperou nem dois segundos para responder- Noahs. A gangue inabalável do outro lado da cidade que aparentemente pegou uns membros antigos da Akuma para reconstruir. Simplesmente porque comandar uma gangue dá um lucro enorme para o ego deles...e pra fama, claro. Ainda mais uma com o nome tão sujo-Alma cuidadosamente espiou pelo canto dos olhos, temendo ver mais que medo ou desespero de más memórias chegando ao seu radar.
Não houve suspiros, lágrimas ou respirações pesadas. Na verdade, Kanda parecia ter prendido o ar nos pulmões enquanto a pele entre os olhos se enrugava.
Ele não parecia medroso. Não parecia raivoso. Nada em seu sentido mais limitado.
Parecia desafiador.
Alma imaginou que maravilhas Allen fazia àquele homem, mas foi tomado pela voz súbita e mandatória que há muito não ouvia. Não naquele tom.
–Entendi. Não é uma notícia apressada?
–Não tenho certeza, mas se já chegou a esse ponto é porque não é exatamente fresca.
–Eu vou pensar sobre isso...-ele pausou por um momento no que Alma pensou ser uma espera por uma possível pergunta-...e vou falar com o moyashi. De verdade.
O motivo ficou pendurado na frase sem querer. “Porque ele é parte do grupo”. “Porque ele é uma pessoa importante para mim”. “Porque ele é simplesmente incrível e é capaz de acabar com qualquer um”.
–O lugar é nosso e nós temos o controle agora.
Alma se inclinou um pouco mais, porque Kanda estava falando baixo para manter aquela voz rígida que ele antes tanto usava. Estava claramente perdendo o costume e o amigo imaginava se ele percebia isso.
–Isso quer dizer...?
Kanda levantou em um salto, os olhos olhando vagamente para a espada katana apoiada em uma estante, como se estivesse ali presente para bolar um plano como qualquer outro membro. Os dedos se recolheram, como se expectantes em segurar a arma de novo.
–Tsc. Isso quer dizer que chega de brincar. Somos Exorcistas e o território é nosso- o japonês tirou a espada da bainha, quase cegando Alma com o reflexo da luz do sol que batia na lâmina limpa e, ninguém duvidava, ainda cortante.
Os olhos diziam quase tudo. O semblante nervoso estava com o senso assassino apitando, mas o lado racional dos dedos precisos que corriam pela lâmina para tirar um pouco de pó estava radiante. Era brigar por motivo e não por sangue.
–E também deve querer dizer...-Kanda continuou, claramente animado por estar manuseando a mugen como sempre, Alma tentava ignorar o brilhos psicótico que piscava em seus olhos- que os outros idiotas tem que estar no lugar de sempre hoje à noite- “mesmo Allen”, o complemento não era necessário- alguém precisa arrancar algumas coisas do barman com um nome escroto.
Alma quase gargalhou de nervoso.
–X-
oOo
–X-
–X-
oOo
–X-
–X-
oOo
–X-
–X-
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–X-
–X-
oOo
–X-
Mana realmente estava lá. Allen ficou feliz por tê-lo encontrado no corredor, conversando com um médico, ao invés de estar já dentro do quarto. O garoto não queria parecer um desnaturado que não chega a tempo para uma data importante, mesmo que antes tivesse avisado prontamente que não iria e que havia visitado um dia antes.
Por isso, Mana pareceu surpreso quando o filho cortou sua conversa com um cumprimento exausto. Allen tinha frio demais para tirar seu casaco moletom, mas estava suando debaixo de tanto tecido após correr toda vez que pisava em um piso apropriado para corrida. O homem abraçou seus ombros com um de seus braços, olhando-o de cima a baixo tentando buscar sinais de algo ruim, porém o filho apenas parecia cansado fisicamente.
–Atrasado?- o garoto ofegou, tentando falar, respirar e se apoiar ao mesmo tempo.
Mana sorriu, os papéis que estavam em sua mão amassaram com seu aperto. O homem abraçou ainda mais o filho, deixando um beijo demorado no topo de sua cabeça, como sempre fazia quando não queria falar mais que mostrar uma coisa: segurança.
Allen segurou seu braço em troca, suspirando ao entender o conteúdo dos papéis antes mesmo de identificar letra por letra.
Nenhum dos dois segurou os olhos quando começaram a marejar. Mas estavam ambos sorrindo ainda. Um pouco, pelo menos.
–Nem um pouco. Não há hora nem momento para que ela deixe de te aceitar, Allen.
Allen observou a mulher mais importante de sua vida pela janela do quarto, sussurrando palavras que evoluíam de desculpas à lembranças em uma mesma frase. Mesmo decidido, ainda estava esperando que antes que tirassem os fios que a davam resquícios de vida ela abrisse os olhos.
Só por uma vez.
Os dois entraram no quarto com os ombros grudados, os olhos revistando cada canto para marcar o cenário. Antes de se trancarem na mulher reconhecível desacordada ao lado do olhar empático do médico.
Aquela podia ser a última vez e nenhuma lágrima parecia tão triste quanto a primeira.
Na verdade, pareciam mais preciosas.
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