Bad Boy
32 Criaturas da Terra
Notas iniciais
Aquilo era um mistério.
Kanda não gostava de estar entre as pessoas. Não gostava nem da menção de qualquer uma delas. Não gostava da menção sobre ele estar entre pessoas. Não gostava de pessoas.
Ele odiava.
E era muito simples. Pessoas tinham bocas. Bocas se abriam. Bocas abertas falavam. Ele odiava como as pessoas balbuciavam coisas que ele não queria saber nem ouvir. Inutilidades. Conversas sobre o tempo. Compras. Amor. Desculpas. Condolências. Fingimento.
Terrível. Eram vômitos com sons reconhecíveis que deveriam, em teoria, fazer sentido.
Desde que ele aprendeu que palavras não significam tudo e que o começo não é necessariamente a imagem do fim, pessoas se tornaram coisas (ainda mais) repugnantes. Além das guerras, além da agressão, além da maldade.
Homicídios não acontecem por animais.
São pessoas.
Armas não são desenvolvidas para matar objetos.
São de pessoas. Para pessoas.
E ele não participa da hipocrisia mundial (pelo menos nesse tópico): ele está nessa. Ele está dentro do grande pacote maléfico da humanidade e ele nem precisa negar ou fingir que não, porque ele tinha consciência o bastante para perceber que não saber ou saber não importava quando era verdade.
Enfim. Sociedade. Ele não gostava dela. Ela não gostava dele. Era uma relação um tanto consensual em que um não mexia em um e o outro não mexia no outro.
Então, ele gostar tanto de ficar no Midnight Mercy sempre foi um mistério. Kanda e Alma gostavam de pensar que era porque ele se identificava em cada canto e cada pó do lugar, em como ele podia andar e assustar olhares com uma simples presença. Como não havia ninguém que vivesse no outro lado da sua vida que ousaria pisar naquele piso. Não sem uma escolta policial e talvez um mandado.
O bar sempre foi um lugar saburrento e vil. Podre era a imagem principal do lugar, onde o pó salpicava as extensões de madeira velha, onde o cheiro de álcool, vômito e suor arrebentava as narinas sem aviso, onde sangue pintava manchas banais nas paredes rachadas, onde não havia boa companhia para ficar por perto e onde um olhar mal colocado significava um olho arrancado.
Um lugar muito simpático. Assim como Yuu Kanda.
Midnight Mercy , além dos conflitos sanitários e com direitos humanos, era especial desse mesmo jeito. Ele reunia apenas pessoas especiais.
Um lugar especial. Assim como Yuu Kanda.
Por isso, não era tanta surpresa ter sido o lugar cativo da cidade a que ele primeiro recorreu e sempre recorrerá quando algo clicar em algum lugar na chamada alma que tanto diziam que ele tinha. Aquele lugar não o guardava: ele guardava aquele lugar no que ele era.
Sua alma era despedaçada. E por vezes ele encontrava alguns pedaços.
E se tinha um lugar que estava aos pedaços, esse era o Midnight Mercy.
–Será que dá para tirar esse rosto de idiota?- Kanda perguntou para Alma enquanto irrompiam pela ruela, trajes negros tirados do armário e passos rápidos para evitar os caminhantes usuais.
–Não. Eu nasci com ele e pretendo ficar com ele desse mesmo jeito até o fim- interrompeu seus pensamentos extensos para respondê-lo, tomando o cuidado de usar um pouco mais de grosseria que queria. Ser grosseiro se igualava a gentileza com o japonês.
Kanda rodou os olhos tão fortemente que quase perdeu as íris atrás da cabeça.
–Tá. Só fique com seus pensamentos irritantes para você.
Era o que eu pretendia desde o começo- murmurou mais que respondeu enquanto pulavam caixas de verduras vazias largadas na calçada. Midnight Mercy estava logo a frente, a porta decaída era inconfundível e eles podiam se guiar de olhos fechados. Apenas seguindo o cheiro.
A entrada escancarada nem precisava mais ser aberta aos chutes para permitir passagem. Os dois saltaram restos suspeitos e garrafas vazias no chão molhado e asqueroso da rua para conseguirem estar, enfim, dentro do bar. E continuava o mesmo ambiente tão repugnante que chegava ao confortável.
O lugar parecia ainda mais familiar quando um grupo distinto, todos de preto, todos conhecidos, acenava do fundo em um conjunto de mesas reajustadas a seu próprio favor. Às vezes Kanda se perguntava o porquê de ter um grupo tão abobalhado, mas a pergunta se calava diante da falta de interesse o bastante.
Eu os chamei com antecedência, então acho que estão todos aqui- Alma disse, acenando com alegria para alguns conhecidos diferentes- Todos a par da situação como nós.
–Hm...-Kanda resmungou, claramente não muito a fim de se lembrar da realidade. Apontou com relutância para alguém no meio do grupo de Exorcistas-até a criatura ali?
Mesmo que houvesse um amontoado significativo aonde ele apontava, não era muito difícil saber quem era a criatura. Só havia uma pessoa que em um olhar ele distinguiria com tanta facilidade e vontade. E não era apenas pela cor de cabelo excêntrica.
–Não- Alma explicou, sobre Allen- Eu o avisei de que havia uma emergência e que era para nos encontrar aqui. Mas explicações...eu achei melhor deixar para você.
Pelo clima que rondava a cabeça do albino, visível já de longe como um radar, Kanda havia imaginado que ele já sabia. Pelo menos antes de Alma negar. A partir daí ele se lembrava de um acontecimento desagradável entre a última vez que o tinha visto até o momento em que captou sua essência no fundo do bar.
Alma fingiu não notar como os passos de Kanda se apressaram consideravelmente, por mais óbvio que fosse a pressa para se aproximar.
O moreno espantou os amigos com um olhar e um aceno para que não fosse atrapalhado antes de qualquer coisa. Xispou Daisya de sua cadeira ao lado do albino com não mais que um gesto perigoso e deslizou por ela com a determinação descaracterística, a postura dura e concentrada no garoto. Allen bebericava apenas um copo simples de água e apesar de Kanda, em algum lugar da mente dele, querer alertá-lo a não pedir algo nesse bar a não ser que realmente queira por questão de saúde, não era algo que ele quisesse colocar a frente de tudo.
Foi Allen quem falou primeiro, observando o rosto fechado dele com uma vontade mínima de rir que só saiu em um sorriso pequeno.
–Não precisava expulsar o Daisya.
–Ele não liga. Quem se importa?
–Ele é seu amigo.
–Ele é uma pessoa de interesses parecidos que está no mesmo grupo que eu.
O albino aproximou o rosto em centímetros, fazendo Kanda imaginar se a proximidade era proposital ou inocente.
–Um amigo.
Kanda rolou os olhos, sem perceber. Vivendo entre Alma, Tiedoll e Allen, o último continuava sendo o insuportável que ele conseguia suportar mais. Mas também era o único que virava de ponta cabeça e fazia proposital e inocente coagirem em um só gesto.
Uma pessoa especial.
Um sorriso informal se desenroscou nos lábios finos com sutileza. A imagem foi capaz de acalmar Kanda em um só segundo, temendo que a tristeza, a incapacidade e o orgulho que corrompiam a tão chamada alma de algum dos dois fosse capaz de piorar a situação com a distância.
O japonês grudou sua cadeira com a dele, se contentando com o toque leve e tampouco notado no qual os ombros estavam se encontrando. A bagunça se estendia até onde Marie e Daisya tentavam arrumar mais cadeiras, aos risos, algo que parecia ocorrente no grupo inteiro se espalhando pelo mesmo canto como uma grande árvore em crescimento. Não eram muitos, Kanda contaria nos dedos, mas a bagunça de certo era muita.
Mas era costume. E de costumes ele não gostava de encher nem a boca nem a cabeça.
Allen se encurvou mais para seu lado.
–Estão todos aqui?-Alma perguntou, mais por formalidade, Kanda sabia, porque ele já havia cumprimentado toda e qualquer alma viva em particular no grupo. Marie e Daisya mandavam acenos educados e normais para o japonês do outro lado da mesa, Krory em extrema discordância com o que Allen se lembrava dele e com o modo como o agiam ao seu redor- tinha no rosto a semelhança com um lobo faminto e Lavi, olhos grudados na dupla familiar, mordia os lábios nervosamente sobre um copo cheio de algo vicioso.
–Ok-Alma considerou o barulho entre conversas paralelas um sim unânime. E então se sentou de volta na cadeira.
Kanda olhou expectante para o albino, ignorando o resto do mundo para se voltar para o seu. O olhar penetrante conseguiu tirar a atenção de Allen do copo de água, sabendo que apesar de parecer algo como uma ameaça pelas sobrancelhas, o fazia sentir algo borbulhante dentro do estômago.
Os olhos negros eram sempre intensos. O rosto sempre franzido. Mas o significado ele se orgulhava por conseguir tirar dali depois de tanto tempo.
A maioria das pessoas se afastaria por incômodo, porém Allen fazia parte de uma minoria que Kanda contaria nos dedos.
–Quem olha de longe pode achar que está me ameaçando- disse, sem tempo para pensar nas palavras certas. Geralmente letras desconectadas iam melhor que as imaginadas.
Apesar de o moreno ter feito um bom trabalho em apagar o sorriso inevitável, Allen o havia percebido antes de tudo. Ele quase havia se esquecido do quão confortável ele podia se sentir quando tinha quem queria ao seu lado.
–Eu não estou te ameaçando.
Allen sorriu o que ele considerou o maior sorriso que conseguiu na noite. Não era incrível, mas o bastante.
Acenou com a cabeça para o rosto do moreno, já que as mãos estavam cruzadas no peito.
–Suas sobrancelhas estão- explicou- Estou começando a achar que você trocou o dom da fala por sobrancelhas quando nasceu. Sério.
O rolar de olhos foi automático, porém tão natural e gentil que o albino se pegou observando com um carinho que ele sentia falta. Será que agora que eles tinham dado um passo para a resolução ele podia se naturalizar com os gestos?
Como se ouvisse sua mente trabalhadora, Kanda passou o braço pela sua cadeira, cobrindo seu ombro no que conseguiu fazê-lo ficar envergonhado. Ou havia confundido o calor feliz que subiu pelo seu corpo com vergonha.
Allen jogou sua cabeça para encostar-se mais ao carinho.
–Eu falo.
–Agora sim, agora pergunta para o eu que te encontrou no beco fazendo ameaças curtas com uma espada?
–Tsc- ele parecia estar em uma dor séria- o momento que não-deve-ser-nomeado-ou-pronunciado.
Allen riu, alto e claro. Não o bastante para interromper o barulho na mesa.
–Você fez uma referência a Harry Potter...?-Allen franziu o rosto e então o esticou como se Kanda estivesse lhe mostrando a conta de luz depois do natal. Surpresa- Você fez.
O moreno rolou os olhos, fazendo de conta que era rude.
Não era.
–Achei que você gostasse desse cara- murmurou, claramente tentando evitar assuntos que o faziam encurralado contra o mundo real e tudo que nele reside.
Allen apertou os olhos, o sorriso de canto, provocativo e quase mau, deslizando calmamente com as oportunidades.
–Não diga que viu por minha causa- bateu sem força com a cabeça no cotovelo dele- admita que é uma pessoa normal que viu o filme. Ou leu o livro.
Kanda devolveu a batida sem força.
–Alma.
Allen riu, os ombros vibrando enquanto segurava o som.
–Claro. Eu só acho injusto você ser bonito e agora isso também?
Kanda colocou os dedos no ombro do garoto, o pequeno contato apertando a pele no que podia ser tanto costume quanto constatação. Os movimentos circulares fazendo marcas na camiseta do garoto eram os dois.
Allen só então percebeu que estava sorrindo, mas ao invés de apagar o gesto como faria em qualquer outro tempo, não queria que aquilo sumisse. Não quando tinha Kanda ao seu lado e não quando havia aprendido como se importava e quanto importava. O moreno sabia o que acontecia e não precisava do martírio para entender.
Dor significava machucados, não significava eternidade.
Sorrir era possível.
Sorrir era uma possibilidade. Não uma proibição.
–Suas sobrancelhas podem parar de me interrogar- Allen avisou, roçando a boca no braço ao seu redor.
–Então você está bem?- Kanda não parou para pensar no quão estranho aquilo soava saindo dele. Allen não parou para notar.
–Não- o albino admitiu- mas vou ficar aqui. Qualquer coisa é melhor que aquilo- ele cuspiu a palavra como um osso pontiagudo preso na boca- Não que você seja qualquer coisa. Só se você prometer ir comigo visitá-la...o túmulo dela, quero dizer- o suspiro foi sonoro e quieto- É estranho deixar o quarto do hospital, que era o que eu considerava o pior lugar possível, para lá. Que...parece o pior lugar possível.
O moreno não percebeu que acariciava a pele das costas de Allen até o garoto se enfiar mais no toque com uma naturalidade não pretendida. Mesmo assim, não parou. A pele sobre o tecido estava quente e confortável e espalhava-se pela sua em uma sensação gostosa.
–Eu sei- Kanda sussurrou, uma voz tão pequena, tão mínima que Allen não impediu o sorriso seguinte. Porque se tinha alguém (ou alguéns) que no mundo entenderiam o sentido cru de perda, estaria naquele lugar, naquelas mesas. E Kanda seria o melhor, porque entendia cada ângulo do que ele sentia e era uma companhia que nunca se imaginaria confortável. Mas era. Como se servisse para aquele encaixe.
Se Alma não tivesse tossido sonoramente, Allen teria confirmado se o que havia visto nos lábios do outro era um sorriso.
Os outros se ajeitavam, fazendo de tudo para não trazer o assunto e muito menos olhar para o casal óbvio na ponta do amontoado de mesas e cadeiras. Alma deixava mais claro que qualquer um que apesar da situação perigosa, estava feliz e sorrindo como o bom desajuizado são que sempre foi.
O silêncio começava a dar as caras, talvez (e muito provavelmente) porque Kanda pesou com a lembrança do que acontecia e a nova carranca ditava milhões de estilos de homicídio diferentes. Allen a achava engraçada, mas isso era algo que nunca colocaria em voz alta.
Alma se levantou nos últimos resquícios de barulho.
–Então...-começou, juntando suas mãos num gesto que preenchia o silêncio enquanto ele pensava- Estamos todos aqui.
Todos olharam um para o outro, murmurando em afirmação a cada conhecido que via ao lado.
–Ok-Alma olhou de esguelha para Kanda, no que podia ou não significar algo- e presumo que todos estejam a par da situação.
O modo como ele falava deixava clara a pista para onde o japonês deveria entrar.
Kanda só percebeu depois que os olhos estavam nele. Naquele rapaz carrancudo sentado na ponta da mesa ao lado do...namorado (namorado?).
O rapaz com uma espada e olhos perigosos, sangue nas mãos e no coração.
Para falar a verdade, nenhum deles entendia a linha de uma reunião. Há tempos que não se concentravam assim, num bar hipertônico repleto de adolescentes em chamas, e há nunca que eles tinham feito algo com o mínimo gosto de organização. Reunir nunca era preciso, discutir muito menos.
A linha de ação era: encontrar e se libertar. Violência era uma parte do sentido e agrupamento uma forma de intimidação. Conversa era parte do ar e comunicação permanecia nos olhos, ou melhor, em algum lugar atrás deles.
O mais perto que chegavam eram ordens de recuo ou ataque, gritadas no vento forte das noites temerosas mais como avisos e ameaças de morte.
Kanda não tinha percebido o quanto os liderava até o momento, quando todos aqueles olhos conhecidos estavam virados para ele, no canto da mesa, expectantes de sua palavra. Grande parte, ele reconhecia e cheirava a quilômetros, demonstrava a pontada de medo normal. Mas outra maior parte esperava com a atenção de um conselheiro.
Daisya, Marie, Krory, Alma, Lavi, Allen. Há quanto tempo mesmo que ele os conhecia?
Há quanto tempo mesmo que eles haviam parado de ter medo?
Há quanto tempo eles deixaram de obedecer e começaram a concordar?
Continuaram no silêncio enquanto Kanda pensava no que falar, tentando não ser o animal que sempre pensou que fosse.
–Hã...-a atenção o deixava apreensivo a cada movimento. Sentia uma vontade tremenda de mudar a posição na qual se sentava.
–Eu não sei -Allen o cortou antes que abrisse a boca, a olhar carregado e pesado ainda estampado- me disseram para vir e que era importante, mas não me disseram mais que isso.
–Então acho melhor repassarmos as informações em geral, caso alguém tenha esquecido- Daisya disse, mexendo em seu sino de estimação, com um sorriso de quem sabe, de quem conhece e de quem entende.
–Você já esqueceu, Daisya?- Marie, com seu porte assustador e coração de manteiga como sempre, murmurou quase preocupado.
Daisya abriu o sorriso.
–Talvez.
–Ele esqueceu- Marie apontou.
–Daisya, como você pode esquecer algo tão simples e importante?- Alma gritou.
–Talvez porque você liga de madrugada nas férias para ficar falando sobre isso, é pedir para que eu não preste atenção.
–É uma questão de vida ou morte, não tem como esquecer!- Alma explicou, o rosto ultrajado e a paciência esgotada enquanto esfregava as mãos no rosto.
–Hã...eu devo ficar ainda mais preocupado, certo?-Allen murmurou, mais para Kanda que qualquer outro.
O moreno suspirou, vendo Alma, Daisya e até Lavi engajarem a conversa em argumentos que pareciam agressivos, sopesando os litros de cuspe que voavam de um lado para outro.
–Considerando a mentalidade do grupo...- Kanda viu com um olhar inexpressivo Alma bater a cabeça na palma da mão contra uma resposta de Daisya, que balançou tanto o sino que ele foi parar em algum lugar entre a parede e o resto do bar entre as badaladas- acho que até eu estou ficando preocupado.
–Você que me contar o que está acontecendo então?- Allen perguntou, sem tirar os olhos do momento em que Alma se jogou de volta na cadeira exageradamente. Lavi ria ao ir buscar o sino vítima da briga.
Kanda apertou os olhos sem querer. Era um costume de quando achava que precisava pensar bastante em algo antes de abrir a boca. Geralmente era seguido pelo movimento duro da mandíbula.
Dito e feito.
–Eu me sinto lisonjeado por você se preocupar comigo, de verdade- Allen suspirou- mas o quão ruim isso pode ficar? Eu já estou no fundo do poço e parece que essa conversa precisa andar pra frente. Não pense em mim como algo frágil. Cedo ou tarde a bomba vai cair e eu prefiro que seja cedo o bastante para me recuperar antes da próxima. Agora fale, antes que o Alma enfie a cadeira na cara do Daisya. Não que seja algo tão desinteressante de ver, mas acho que o clima não está pra isso.
Apesar da dureza das palavras, Allen sempre mantinha a mesma expressão calma. Kanda não sabia se se preocupava de verdade ou se admirava a habilidade que ele provavelmente tinha de manter alguém ir ao inferno com o rosto de quem está pedindo uma garrafa de leite para um gatinho na rua.
Para falar a verdade, ele nunca sabia nada. Metade do tempo ele não pensava no que fazia. A outra metade era só fingimento.
Quando estava com Allen, pensar era algo longínquo e sem gosto.
Ninguém viu, mas Kanda plantou um beijo casto nas têmporas do garoto antes de tudo, esperando que pudesse tirar pelo menos um pouco do gosto amargo que tinha na boca.
Alma disse para eu dar a notícia para você- explicou, não querendo jogar em cima dele algo a mais além do que ele já tinha nas costas.
Allen sorriu. Não o sorriso forte ou convencido, mas ainda estava chegando lá.
–Tudo bem. Eu também sou um Exorcista. Estava escrito no contrato que tudo que se faz, se faz junto, então...-o problema era o sorriso nunca chegar aos olhos.
Por mais que Kanda saiba que dor é algo imprevisível e não exatamente eterno, no momento o que ele mais queria era que ela se dissipasse dali. Dor não era também a melhor catalisadora de ações e muito menos de soluções. Allen parecia mais que doloroso.
Allen parecia exausto.
–Tem outras pessoas...-o moreno buscava palavras que pudessem informar sem fazê-lo parecer engajado nesse negócio estranho de gangue- na...hã...área.
Allen concordou com a cabeça calmamente. Parecia esperar o resto da frase, mas quando foi saudado pelas sobrancelhas expressivas e o silêncio entendeu que era apenas aquilo que ganharia.
–E...-então disse-quem são? O que querem? Fizeram algo?
–Eu não sei o que querem nem se já fizeram algo.
–E quem são?
Kanda engoliu em seco. Sentado ao lado dele, na bagunça da discussão ainda acontecendo, ele nunca imaginou que fosse se preocupar o bastante para começar a perder as palavras mais agressivas que tinha na cabeça.
O garoto que ameaçava pessoas com espadas no beco havia fugido. Agora tinha no lugar o rapaz e mais montes deles esperando na rua.
Passou os dedos pelo rosto de Allen, colocando os fios comuns que caíam sobre seus olhos atrás das orelhas. E demorou-se sobre o olho esquerdo, onde a marca protuberante e maliciosa seguia a forma em cinco pontas preenchidas.
Um pentagrama.
Os olhos de Allen triplicaram o tamanho, o sentimento entalando na garganta.
–Akumas?
Mas não era medo que Kanda via em prateado.
Se algo além da dor e da tristeza significava mais...
...era ferocidade.
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