Bad Boy
17 Queda
Notas iniciais
E a sensação de estar caindo daquela janela nunca me deixou.
Nem mesmo depois que eu acordei no hospital.
Nem mesmo quando fui deixado.
Nem mesmo agora.
Mas só quando estou com você, eu sinto que sou parte desse mundo.
E que posso firmar meus pés no chão.
Você controla minha queda.
OoOoOoOoOoO
Quando eu acordei, estava no hospital. Aquele cheiro típico apenas me deixava mais enjoado. Cho se esgueirava na cama até meu peito, chorando um rio de lágrimas que manchavam o lençol branco.
Eu não entendi. Por que estava chorando? Por que eu estou aqui?
Então eu vi, lá no fundo, a sombra obscura de uma mulher. Minha mãe, apertando seu casaco no punho e escondendo seu rosto com o cabelo.
Ah, é. Papai morreu. Eu sobrevivi.
Os policiais vinham de tempos em tempos no meu quarto. Fazendo perguntas idiotas e sem sentido. E outras que não me davam vontade de responder.
Eles querem a verdade? Eu fui fraco, covarde. E agora Jun está morto.
A gangue foi punida. Pelo menos isso. E enfim acabou aquela maldita perseguição.Com a morte do meu pai...
E a destruição da família.
OoOoOoOoOoOoO
Alma ergueu uma folha de papel. Allen examinou as letras, mas chegou à conclusão de que não conseguia ler por estar longe demais.
–Er... E o que é isso?
–Folha de jornal.
–Tá...- Allen concordou, já que Alma fazia parecer um tão óbvio comentário e tão fácil de se tirar conclusões- e o que isso...?
–Kanda- Alma bufou- não diz aqui, mas eu tenho certeza que foi ele.
–Quê?
Lavi pegou um sanduíche, deu uma mordida e substituiu Alma na explicação.
–Quatro vítimas, todas em estado grave. No subúrbio da cidade, todas foram espancadas até perderem a consciência e acham que mesmo depois de desmaiarem foram espancadas mais ainda. Algumas vezes com canos também, mas podemos dizer que foram socadas até a quase-morte.
Allen tentou esboçar um sorriso, pensando que talvez tudo aquilo fosse apenas uma brincadeira. Uma engano total, uma suposição equivocada.
Kanda? Aquele Kanda que conheceu? Aquele que o abraçou, o beijou, que amou e ama?
Impossível. Isso não...
–Disseram que poderia ser uma gangue- Daisya disse- mas todos sabemos que só o Kanda já seria capaz de um estrago desses.
E por que eles continuam afirmando desse jeito?
–M-Mas- Allen tentava dizer- se por um acaso for ele...você acha que ele vai..que ele pode ser...
–Preso?- Marie terminou a frase por ele- dificilmente. A polícia daqui mal tem coragem de estar naquele lugar.
–Ah...sim...
O albino tentou engolir qualquer coisa que estivesse na mesa, apenas para ocupar seu corpo com algo que não fosse pensar na situação. Agarrou o copo de água a sua frente e tomou um gole longo.
Odiava violência. Com todas as suas forças ele mal suportava. Desde que sofreu nas mãos daqueles homens, não suporta o fato do mundo estar encoberto de atos tão desumanos.
Mas Kanda era humano. Tinha certeza disso porque sentiu.
–Allen, eu sei que é difícil de acreditar, mas...- Alma olhou para Lavi, mas ele apenas acenou com a cabeça- Kanda não é manso. Ele esteve inserido nesse mundo desde quase sempre.
–Só achamos que seria sensato avisá-lo- Marie completou.
–Afinal, o que você achava que ele fazia em uma gangue?
Allen esfregou as mãos no rosto. Não queria saber daquilo. Apenas saber o quanto amava Kanda e o quanto ele era gentil e bom consigo era suficiente. Mas mesmo assim, não conseguia se livrar da sensação ruim e do desgosto com a situação.
“Todas em estado grave”.
Mas...Por que isso?
Só tinha uma coisa que o amedrontava. Queria perguntar, mas as palavras continham tanto medo que insistiam em se agarrar à sua garganta para nunca mais sair. Para que não se afastasse dele.
–Quando o Kanda fica chateado, raivoso, ou qualquer coisa do tipo, a mente dele perde o controle! Ele se descontrola, desconta nos outros e, sim, usa muita violência. Ele não é uma pessoa que pensa antes de agir e mede consequências. Ele não pensa nos outros. É só que...esses dias a mãe dele estava tentando entrar em contato...
Lavi se revirou na cadeira e pigarreou alto.
–Qual o motivo dessa reunião?- o albino perguntou.
–Discutir o que aconteceu. Não e só porque somos uma gangue que temos que fazer bagunça por aí...tá, talvez sim, mas essa situação do Kanda é um assunto um tanto delicado. Precisamos resolver.
–Só queria dizer, Allen- disse o ruivo- para tomar cuidado, sério. Eu sei que ele não tem feito nada de mal, mas falar algo errado e encontrar a ira dele não são coisas difíceis de fazer, acredite. Ainda mais que você tá procurando ele por aí.
–Ele se sentiria um pouco mal perto de você.
Allen não queria saber disso. As palavras estavam presas na garganta. Se as proferisse naquela hora, em frente a todas aquelas pessoas, imaginava o quanto o clima pioraria. Mas, mesmo assim...
–Então- Allen disse, sem mostrar o rosto- ele machucou todas essas pessoas.
–Sim.
–Estado grave?
–Sim.
–Sem um motivo aparente?
–Hm...mais ou menos.
Allen suspirou.
–Já matou?
–Quê?
–Eu tô perguntando se o Kanda já chegou a matar alguém.
Alma olhou para Lavi, assustado e sem resposta. Era a pergunta que menos queria ouvir.
OoOoOoOoO
A mãe nunca mais o viu como antes. Agora ele era apenas a desgraça que levou seu marido embora.
Kanda costumava dizer que queria dar-lhe um prêmio, por ter aguentado viver com ele por mais um ano. Chorando até dormir todas as noites, privando-o dos jantares sem qualquer motivo, surrando-o até se sentir melhor...
Como se ele também não quisesse chorar até dormir.
Se suas emoções não houvessem sido secadas até desaparecerem...
Sua mãe morria cada vez que olhava para ele. Foi enfraquecendo, seu único apoio sendo a pequena Cho, privada de suas horas de diversão com o irmão por ordens de Mayumi.
Ela nunca sorria perto dele.
Seu olhar estava coberto do desprezo, decepção e arrependimento toda vez que encontrava o garoto perambulando pela casa.
Para os vizinhos, ela se contentava em dizer o quanto sua filha era forte por aguentar aquilo, o quanto sua filha era obediente...
Filho? Ela já não mais tinha... Não queria ter. E evitava ao máximo saber que tinha.
Kanda colaborava em seu papel de inexistente.
Se fosse esse filho covarde que havia levado seu amado marido embora... E não conseguia agir como antes, como se nada tivesse acontecido, como se pudessem ser feliz novamente. Como se ele pudesse ser seu filho, apenas, e deixar de ser culpado pela sua curiosidade e inutilidade perante a situação.
“A culpa é sua!”
Gritava toda vez que voltava para casa de noite, jogando o garoto no chão e nas paredes, sem revide. Ele não possuía forças para revidar, ou mesmo argumentos para revidar. “Sou inocente”? Como poderia enganar sua mãe, sendo que nem mesmo ele acreditava nessa besteira?
“Por quê? POR QUÊ?!”
Desde quando sua mãe se tornará uma figura tão distante e grande. Raivosa, fria... Quando sorria para os outros e chorava de raiva para ele?
“Não, você não deveria existir! NÃO DEVERIA!”
“EU SERIA FELIZ, EU SERIA FELIZ, TODOS SERÍAMOS”
“E SUA IRMÃ, QUE EXEMPLO É ESSE DE INUTILIDADE COVARDE QUE VOCÊ DÁ?”
“Não existe...Não existe...”
“VOCÊ NÃO EXISTE”
Sou vazio.
“Nunca deveria ter nascido”
“NUNCA DEVERIA TER NASCIDO”
Sou oco.
“E-eu sou a vítima aqui. EU ! Porque eu tive o azar de dar a luz a uma desgraça como você. A coisa que levou à morte de meu marido”
“Você destruiu nossas vidas! A nossa família!”
Sou culpado.
“Nunca deveria ter te dado a luz”
Sim. Era isso que eu mais desejava.
Naquele dia, ela havia chegado ao limite. Esmurrou todos os objetos ao redor, gritou até a voz ficar rouca, dizendo o quanto o odiava. O quanto o mundo seria melhor se a vida de seu marido fosse poupada. E a do garoto fosse tirada. Agarrou-o pelas costas da camiseta, chorando as mágoas de um amor perdido, de uma vida acabada, e jogou-o na rua.
Ele, que havia ouvido até o fim o choro da mãe, os gritos de desespero, que só o ofendiam. Que havia observado-a destruir os objetos mais próximos na parede, no chão. Que havia observado as consequências de suas escolhas acontecerem bem à sua frente. Tudo quieto. Sem responder.
Havia começado a acreditar profundamente que era verdade.
E agora ele sentia seu corpo bater no chão frio da calçada. Os joelhos ralando nas pedras, o cotovelo tentando se apoiar no chão. Ele Haia entrado em desespero, chamou o nome dela, mas tudo que teve foi o baque da porta batendo com força, bloqueando sua voz.
OoOoOoOoOoO
Allen voltou para lá. Agora, estava em frente a casa de Kanda observando o Sol se pôr logo atrás dela. A mistura das cores laranja, vermelho, azul, amarelo, causavam uma sensação estranha no albino.
Como os garotos não haviam conseguido responder à sua pergunta, ele havia deixado o assunto para trás. Pelo menos na frente deles.
Sabia com quase toda certeza que Kanda não estaria em casa, mas, mesmo assim, tinha uma vontade de estar naquele lugar para ter o mínimo de certeza de que estava próximo dele. Ou pelo menos estar lá quando o moreno voltasse depois de ter sumido para lhe dar um belo soco.
Não deixaria barato.
Tocou a campainha. Demoraram a atender, mas o portão se abriu automaticamente sem que alguém tivesse vindo verificar o visitante. Allen estranhou, mas mesmo assim entrou.
Tiedoll abriu a porta antes que o albino pudesse tocar na maçaneta. O mais velho olhou para o albino com uma expressão tão assustada que até Allen se assustou um pouco. É, ele esperava que fosse Kanda na porta e não o garoto.
–Ah- disse- Allen! Como vai? Você viu Kanda?
O garoto engoliu em seco. Tinha notícia, mas não gostaria de falar, então apenas negou com a cabeça.
–Hm, okay- ele fez um rosto tão preocupado que Allen chegou a questionar o caso. Kanda sempre demorava assim para voltar?- vamos, entre. Me perdoe por não ter te atendido na porta...Hm... quer tomar alguma coisa?... Kevin! KEVIN!
Allen subiu os pequenos degraus até a porta. Tiedoll foi bem mais a frente, chamando pelo mordomo, mas logo voltou apressado.
–Ele já irá trazer algo. Desculpe-me, novamente por não ter te atendido na porta...
O tio chamou-o com um gesto de mão para a sala. Allen seguiu, como se fosse uma permissão.
–Não, tudo...bem...
Mas agora ele entendia o motivo de toda aquela confusão e desjeito de Tiedoll. Estava bem lá no sofá da sala, degustando um chá e observando a entrada do albino na casa.
–...É só que- Tiedoll continuou- temos visita hoje.
A mulher de cabelos negros e lisos baixou a xícara, olhando e acenando para o garoto sem sorrir ou mostrar o mínimo de simpatia. Os olhos frios e escuros o lembravam de modo assustador...
O Kanda.
OoOoOoOoOoO
No fim, foi decidido que ficaria com o tio. Não houve objeções por parte de mãe. Kanda também não protestou.
Foi deserdado.
Emancipado.
Não importava, só sabia que nunca mais poderia estar ao lado delas. E muito menos de seu pai.
Os primeiros dias foram um sofrimento. Não disse nada, não importava o quanto seu tio investisse em um diálogo.
“O que achou da casa?”
“Esse será seu quarto”.
“O que você quer para jantar?”
“Quer ir para algum lugar hoje?”
Era inútil. Ele simplesmente não queria existir. E por acaso alguém que não existe, que não vive, não respira pode ter alguma comida preferida? Um lugar preferido? Pode ter opinião ou ser feliz?
Seu único papel era ser um vegetal. Ficar ali cumprindo seu papel era sua missão de vida.
Recluso naquele quarto gigante que lhe foi dado, seu tio lhe passava comida pela porta, sempre dizendo alguma coisa através dela quando queria. Mas nunca era respondido.
Passava os dias encolhido na cama no escuro. Dormindo quando tivesse vontade, acordando quando necessitava, comendo quando lhe desse fome. Não havia sentido na vida.
Foi quando Alma lhe bateu a porta.
–Yuu?- Kanda se cobriu com o cobertor quando o que parecia ser o “último recurso” a “arma secreta” de seu tio o chamava da porta- ei, sei que está acordado! Vai ficar encurralado nesse canto por quanto tempo?
Kanda pegou os fones de ouvido. Não queria ouvir mais besteiras, ligou no volume máximo e tentou esquecer que Alma estava lá fora.
–Yuu? Yuu!!
Não escutava nada.
–Yuu!
Nadinha.
–Yuu!!!!
Nadica de nada.
–YUU!!!!!!
Nad...
–YUU SUA PUTA LOIRAAA!!!
Okay, estava escutando agora.
–Cala a boca!!! Seu macaco desgraçado! Vai gritar assim na puta que pariu!!
Kanda jogou o cobertor e os fones longe quando saltou na cama.
–Ah- Alma diminuiu o tom de voz- está escutando agora?
Ah, como Kanda tinha raiva daquilo. Não respondeu, pois sabia que Alma sabia disso tudo.
–Olha, Yuu. Ficar aí escondido não vai resolver em nada. Confie em mim, vamos sair um pouco, arejar a cabeça, respirar novos ares.
Alma não entendia. Achava que era só uma depressão depois de ter perdido a família. Mas não era apenas isso, era uma dúvida de pessoa, de personalidade e existência. Muito mais complexa do que uma simples caminhada pudesse resolver.
O garoto tentou convencê-lo por mais alguns minutos, também sem resposta. Foi embora com um peso, convidando Kanda a chamá-lo caso quisesse.
Sair, arejar a cabeça.
Para uma pessoa como ele, uma desgraça do mundo, só havia um lugar para arejar a cabeça.
Esperou até às 23hrs, quando sabia que as luzes se apagavam e os adultos iam para a cama. Saiu do quarto pela primeira vez em semanas. Tentando lembrar o espaço da casa, que só havia visto quando foi trazido para o lugar, desceu as escadas bem rápido, correu para a porta e se viu fora da casa. A brisa da noite bateu em sua cabeça e seu corpo esfriou, mas não importava. Estava saindo de sua nova casa pela primeira vez em semanas.
Pegou um táxi, pegou um ônibus andou a pé, mas chegou lá de madrugada. O aspecto sombrio que piorava infinitamente quando era de noite, o cheiro de podre e as lembranças continuavam lá, em todas aquelas paredes pichadas, os muros destroçados, as calçadas esburacadas, os olhares medrosos e imperdoáveis. Mas, por algum motivo interno, se sentia muito mais em casa.
Pois lá as pessoas se autoequivaliam ao nada. Inexistente. Invisível. Não valoroso.
Não vivo. Morto.
Era a desgraça que subia no ar e penetrava seu corpo. A familiaridade da rejeição.
A vingança e o ódio.
Ele se sentia livre andando por aquelas ruas.
Se sentia acolhido. Mas desesperado. Arruinado. Raivoso. Era ali que tudo começara a ruir.
Sentou-se na parede e observou as pessoas entrarem correndo no beco. Seguiu-as até uma porta com uma placa de letras horríveis e improvisadas um homem charmoso no balcão sorriu para ele, logo que Kanda entrou no bar.
–Seja bem vindo ao Midnight Mercy- disse- nunca o vi por aqui? Algo a tratar? Ou veio apenas para beber?
Kanda apenas usou seu olhar medonho, mas Tiky insistiu ainda mais com o olhar convidativo de um bom barman.
–Beber?- Kanda disse- sou menor de idade.
–Ora, um garoto certinho? Não se preocupe- riu- a polícia por aqui não existe.
“Somos um caso perdido”, imaginava que era isso que Tyki dizia. Aceitou um copo de bebida alcoólica qualquer, sujo e quebrado nas bordas, mas ainda assim tomou até o final.
Aquele era um mundo diferente do seu, mas muito interessante.
O barulho e risadas mal feitas, os olhares piedosos e ao mesmo tempo cruéis, tristes.
Com o tempo se acostumou.
Assim que lhe batia a raiva, saía de casa, não voltava por dias, ia para aqueles lados da cidade, descontava o ódio naqueles idiotas que encontrava pela frente. Lembra-se de se divertir imitando as ações daqueles que viu naquele beco, com o garoto de olhos prateados. Espancando pessoas na rua. Sendo espancado. Arrancando pele. Quebrando ossos. Cuspindo sangue.
Naquele lugar, nada disso importava. As pragas podiam morrer e se matar a vontade.
Mas tudo que permanecia era o rancor insaciável, a tristeza indomável e a felicidade nula. Toda vez que estava por lá sentia ainda mais vontade de desaparecer, pois sentia o que era estar solitário.
Não importava se havia aqueles que se reuniram com ele. Alma, Lavi, Marie, Daisya, Krory, não tinham objetivo, apenas faziam o que queriam, quando queriam e assim levavam a vida.
Os casos perdidos. E não procurados.
Mas, naquele dia, ele reviu. Machucado e tonto depois de uma briga, se viu socorrido por um par de olhos prateados. Os mesmos.
Nunca havia imaginado reencontrar o garoto naquele beco.
Não queria, não queria! Rever o passado, lembrar daquilo. Só queria ser esquecido.
“Er...Quer ajuda...?”, lembra que ele disse. Os olhos brilhantes, as mãos tremendo, mas mesmo assim queriam ajudá-lo.
Mas não podia fazer isso! Não seria certo e muito menos bom para ele. Porque...
OoOoOoOoO
Allen sorriu sem jeito para a mulher, sem saber o que fazer. Sentou- se do outro lado do sofá e esperou, tamborilando os dedos, pelo seu chá.
Tiedoll sentou logo a frente e Kevin vinha trazendo uma xícara quente para o garoto. Logo que o albino agarrou a bebida, viu que atrás da poltrona um vaso despedaçado, as flores coloridas estavam pisadas, os cacos espalhados pelo chão, a terra sujando o carpete e a água escorria até o pé do sofá.
Então era por isso que o clima estava tão tenso. Uma briga? Com certeza, Allen havia chegou em uma péssima hora e nem ao menos tinha notado. Só queria saber o motivo da briga, ou melhor, achava melhor nem saber, precisava sair dali.
Engoliu em um segundo o chá, sem ao menos sentir o gosto, deixou a xícara na bandeja que o mordomo largou ao seu lado.
–Er...acho que já vou indo... Tenho que falar com, com, com o Lavi... então... desculpe-me atrapalhar.
–Não- Tiedoll disse, tão rispidamente que Allen sentou-se de volta no sofá-fique, não está atrapalhando. É apenas...uma visita.
Allen engoliu em seco. A mulher continuava a tomar um chá calmamente ao seu lado.
–Mayumi- o tio chamou a mulher- esse garoto é amigo do Yuu.
Allen não entendeu o sentido, então apenas afirmou com a cabeça.
–Hah- a mulher riu- entendo- mas Allen ouviu um sussurro horrível e quase inaudível- coitado...
O albino sentiu aquilo como um deboche. Sentiu a ofensa sendo descarregada naquelas poucas palavras. Desviou o olhar para o outro lado da sala e quase se engasgou com a própria saliva. Largada em um canto qualquer, a espada que Kanda tanto carregava chamou sua atenção.
–Allen, o Yuu apareceu por aqui.
–S-Sério?!- o albino voltou os olhos para a espada.
–Sim, agora mesmo. Mas ele logo fugi... Saiu. Eu achei que fosse ele quando você apareceu na porta. Por favor, se não for um incômodo, você poderia...
Era como um impulso, Allen levantou do sofá sem hesitar.
–Não é incômodo algum!- gritou, como se tivesse um fio de esperança- j-já vou indo, com licença!
Acenou em adeus para os dois adultos e correu para a porta.
Não sabia o que havia acontecido, mas sentia que a relação entre Kanda e aquela mulher não era boa. Pior, achava que isso fazia Kanda desesperado.
Brecou quando chegou na rua e deixou a casa para trás.
Queria encontrá-lo e se guiou pelos instintos enquanto procurava-o pelas ruas. Pela primeira vez naqueles dias, se achava perto dele e não poderia perder a chance de jeito nenhum! Por isso fez o caminho como se estivesse indo até o bar de Midnight Mercy e, com suas pernas rápidas, correu em máxima velocidade.
A sensação da frieza daquela mulher... Seria a mãe dele? O que eles teriam conversado? Quando havia voltado? Kanda havia voltado para casa apenas para falar com ela? O que estava sentindo? Onde estava indo?
Ele iria voltar?
Só diminuiu quando viu o contorno preto de Kanda caminhando bem à sua frente. Sorriu tão fortemente que por um momento perdeu a visão quando seus olhos foram forçados a se fechar.
–Kanda!- gritou, o moreno parou mais a frente- Kanda!
O japonês estranhou, mas quando foi virar seu corpo, esperando que fosse mais uma ação idiota de seu tio, viu o vulto claro do garoto vindo em sua direção. Por um pequeno momento achou que fosse um fantasma... Nem ao menos conseguiu chamar seu nome.
Allen agarrou o corpo de Kanda. Abraçou a cintura dele como se ele pudesse fugir e nunca mais voltar. Para falar a verdade, ele poderia fazer isso mesmo e era disso que o albino tinha medo.
Apertou bastante os braços no moreno e afundou a cabeça em suas costas.
–Kanda, Kanda...
–M-Moyashi?
Kanda ficou sem reação. Não queria vê-lo agora, não depois de ter falado com sua mãe. Depois daquilo, não podia... Mesmo assim, os braços dele no seu corpo, o calor que transmitia, não conseguia largar aquilo facilmente.
Allen largou Kanda para olhar no seu rosto. Incrivelmente, não conseguia ler, não sabia se estava sem reação...ou sem emoção. O moreno afastou o garoto com os braços, se virou e continuou andando.
Mas o albino não desistiu. Agarrou- o pelos ombros e o virou para si. Não esperou qualquer reação de rejeição, juntou os lábios e fechou os olhos. Ficou um tempo assim, apenas sentindo a boca na sua, como tanto queria sentir. Mas Kanda não movia.
–Kanda...?
O moreno apertou os punhos e novamente empurrou o garoto.
–Sai daqui.
–Hã?
–Sai! Eu não pedi pra vir atrás, pedi? Se intrometendo na vida dos outros como se fosse o dono da minha vida. Vai cuidar da sua primeiro! Se enrolando comigo, grudando em mim... Isso não passa de chatice pra mim. Que merda! Odeio isso! Para de se meter onde não é chamado.
–Mas... eu te procurei todos esses dias.
–E, mais uma vez: não precisa. Ninguém te chamou.
Allen engoliu em seco. Não sabia o que dizer, o que perguntar. Na verdade estava esperando ser recebido de braços abertos pronto para recomeçarem seus momentos calorosos como um bom casal. Queria saber o que ele pensava e o que queria.
Não queria ser rejeitado.
Por que ele estava sendo tão frio? Descontando sua raiva? Ou talvez... Apenas falando de verdade...
–Mas, Kanda e nós...?
–Eu te comi uma vez. Foi o bastante, não foi? Não é como se eu precisasse duas vezes. Já foi.
Allen sentiu os olhos arderem. Depois de todo aquele tempo, ele...
–Eu...
–Chega! Para de enrolar e me deixe em paz!! Ninguém precisa de você.
Kanda engoliu em seco. Tinha total consciência do que falava, mas não deixava de arder seu corpo inteiro.
–Afinal- continuou- um covarde que leva à morte da própria mãe, como você, não agrada ninguém e não merece viver.
Não olhou no rosto dele, não queria ver e não podia voltar atrás. Tinha que deixar o garoto em paz.
–Eu...- Kanda continuou- tenho ódio de você, entendeu. Uma pessoa chata e sem graça se fingindo de coitado. Eu odeio essa merda.
E continuou andando para se afastar o quanto pudesse naquela hora. Sim, agora tinha certeza de que ouviria o garoto gritar mais ao fundo o ódio por sua pessoa, aí, então, estaria completo. Ninguém ficaria parado quando se ofende.
Kanda se surpreendeu, passaram-se momentos e ninguém gritou nada, virou-se um pouco para ter certeza do que ocorria logo atrás, mas o mesmo vulto cobriu sua visão.
Allen empurrou o corpo do maior na parede de pedra. Kanda gemeu de dor quando os ossos bateram com tudo no muro da casa. Ia reclamar e xingar, mas seus lábios, antes que pudessem proferir qualquer ofensa, foram tomados pelos rosados de Allen. Ferozmente, como nunca havia sentido antes.
Com o objetivo de tentar trazer à tona os sentimentos que esperava que existisse, Allen apostou naquela ação ousada, correndo o risco de ser espancado até a morte. Mas não ligava, pois dessa vez, quando mexeu a boca, Kanda mexeu junto, sincronizados como faziam antes. Até mesmo sentiu as mãos do maior explorarem seu corpo. Sua nuca, seu pescoço, o couro cabeludo, a cintura... As mãos grandes do moreno apertaram suas costas de leve, fizeram Allen suspirar em meio ao beijo mais quente que já havia dado. Queria mexer com o maior, qeria tocá-lo também e queria ser tocado, mais do que nunca.
Na verdade, seu maior objetivo era simplesmente mostrar à Kanda que amava. E se aproveitar da brecha, claro. Enquanto o moreno esfregava os dedos nas costas do pequeno, os lábios se mexiam sem se desgrudar e faziam pequenos estalos. A língua de Kanda, quando entrava em contato com a sua, estava tão macia, tão gentil...
Os corações se derretiam.
Juntos, quase a ponto de se fundirem.
Mas Kanda recuou. O moreno empurrou o garoto de novo, ofegante.
Allen ficou surpreso. Não achava que fosse ser rejeitado suas vezes. O que havia acontecido entre ele e aquela mulher momentos antes?
–Kan...?
–Me deixa, moyashi.
Allen segurou a roupa do moreno.
–Larga! Que nojo! Pare de se jogar em cima dos outros seu maldito! Para de achar que alguém te ama!
Allen engoliu em seco.
–Você não entendeu? É burro ou o quê? É tudo mentira. Nós fodemos, e daí? Não é como se você fosse único. Você acha que eu gosto de homem? Rá, fique se achando, porque tudo isso é nojento, horrível. Esse seu jeito de grudar nas pessoas, o seu jeito de falar, de andar, de achar que tudo te importa... Eu odeio você. Se você achou que fosse diferente, isso não passa de idiotice da sua cabeça retardada de moyashi.
Allen baixou a cabeça, tentando digerir e entender cada uma das palavras. Ligá-las às memórias. Mas estava tudo confuso.
Kanda sorriu de leve internamente. Estava feito, estava feito. Agora era só deixar com que Allen o socasse o quanto quisesse, gritasse e xingasse o quanto quisesse. Assim, iria virar sem guardar rancor e ir embora.
Pronto, estava feito.
O moreno escutou um som abafado do rosto abaixado a sua frente.
Mas quando Allen teve coragem de levantar a cabeça, não estava rancoroso como Kanda esperava. As bochechas vermelhas estavam molhadas e salgadas de lágrimas que pareciam infinitas. Os olhos não paravam de derramar e as mãos não paravam de tremer.
O coração apertou e congelou na hora.
–Mas, Kanda...- disse entre soluços- me desculpe, me perdoe, então. Me desculpe, me desculpe.
O coração entristeceu.
–Mas eu te amo.
O albino, sem enxugar o rosto, virou o corpo na direção contrária. Andou rapidamente até desaparecer da vista de Kanda. Sem mais declarações.
O coração parou.
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