Bad Boy
18 Fantasma
Notas iniciais
Tudo o que eu queria era ser ferido.
Xingado. Espancado. Não importa o modo. Desde que doa no coração.
Fira-me até que me marque eternamente. E não cure.
Fira-me até que eu caia e não consiga mais levantar. E me esmague.
Fira-me para que eu me sinta parte do mundo. E não volte.
Mas se for eu que te fira. Por favor, não me perdoe.
Para não trazer lembranças da vez em que me submeti à vida de um humano. Pensando que não poderia sofrer.
Mas só posso ferir.
Então fuja. Não me faça desejar o que não posso ter. Não me faça acreditar que posso alcançá-lo.
Só fuja.
Esmague-me até que eu me funda ao chão. E não seja mais capaz de levantar.
Fuja para viver a sua vida em uma felicidade que eu jamais traria.
Ou que jamais poderia viver.
OoOoOoOoOoOoO
O sinal da terceira tocou de surpresa. Lavi mal havia visto o tempo passar enquanto rabiscava rostos no papel do caderno onde deveriam estar suas anotações da aula de história. Bem, não tinha problemas com essa matéria, mesmo.
Estava impaciente desde que entrara na sala. Queria que logo chegasse o intervalo, para que pudesse sair daquele lugar e encontrar seus amigos no pátio.
Isso! Poderia vê-lo, agora que estava liberado da aula. Assobiando uma música popular do momento, pegou o dinheiro da mala para comprar algo na cantina e seguiu pela porta. Mas não saiu sem antes dar uma boa olhada na última carteira ao fundo da sala. Vazia. Não sabia se sorria ou se se preocupava, afinal, tinha certeza de que ele estava se metendo em confusão pela cidade. Digo, o nosso samurai assassino.
Mas por que se preocupar demais com essas coisas quando podia aproveitar os momentos com Allen? Mesmo que não tenham o mesmo significado que ele queria que tivesse.
De qualquer modo, se esgueirou pela sala do menor como sempre fazia, aproveitando-se do fato do albino sempre demorar para sair da classe.
Allen procurava sem sucesso a carteira na mala. Procurou no primeiro bolso da frente, no bolso maior onde costumava deixar seus livros e no menor bolso de todos, daqueles que ninguém guarda nada, mas nas horas de desespero torce para ter guardado lá. O garoto entrou em desespero, a cabeça girou de um lado para outro sem saber o que fazer e gritou baixo quando percebeu que não fazia a menos ideia de onde estava a carteira.
Mas Lavi riu. Encostado na porta da classe, observou o garoto virar a mochila de cabeça para baixo e derrubar tudo que havia lá, se alegrando ao ver a tão engraçada reação de desconcerto do melhor amigo. O ruivo riu, passando o olhar dos objetos no chão para o rosto do pequeno.
Os olhos prateados adquiriam um brilho especial quando estavam molhados pelo leve choro desesperado.
Sentia uma vontade extrema de correr até o garoto e abraçá-lo até que os olhos saíssem da órbita. Mas quando foi se mexer, a mão de Alma segurou-o pelo cotovelo.
–A-Alma?
O ruivo não tinha percebido antes, mas o garoto estava lá desde que entrara. Alma e essa mania de assistir aulas de uma escola na qual não estava nem ao menos matriculado... A verdade é que seu jeito conquistou a diretora, que apenas afirmava o jeito gentil e promissor dele.
Lavi até se assustou com a genialidade do garoto.
–Lavi-Alma disse voltando os olhos para o mesmo ponto que concentrava o caolho: o albino- como ele está?
–Allen?- perguntou sem tirar os olhos- hm...bem.
–Tem certeza?
–O Alma tem razão- Lenalee se intrometeu e pegou a atenção dos dois, acabava de chegar da cantina com dois sanduíches na mão- eu estou em dúvida sobre o estado dele. Você não percebeu, Lavi?
O ruivo esfregou os nós dos dedos nos olhos. Na verdade, havia, sim, percebido a inquietação quase quieta de Allen. E já fazia uma semana. Os sorrisos desconcertados quase falsos, as falas gaguejantes, as risadas fracas, o olhar que ligeiramente se esgueirava pela sua classe buscando algo que não estava lá.
E isso irritava profundamente.
–Hm...- Lenalee levou um dedo ao queixo, como se a simples posição fosse, milagrosamente, lhe trazer ideias- o que poderia estar deixando-o preocupado?...
O fato principal era que ele estava mais preocupado em deixar de se preocupar. Lavi e Alma sabiam disso. Mesmo que o ruivo não tenha detalhes de relacionamento, já imaginava algumas teorias maléficas sobre os possíveis acontecimentos que deixariam Allen tão deprimido.
E ele não tinha o costume de errar nesse tipo de coisa também.
Lenalee entregou um dos sanduíches para o garoto, o que melhorou um pouco seu estado. Logo Allen estava se deliciando para matar a fome e quase se esquecia da carteira perdida.
–Hm?- Allen percebeu a presença dos dois na porta da sala- Lavi? O que está fazendo aqui?
–Ah, Alleeeen, não fale como se não me quisesse aqui- fingiu um choro- Eu vim buscar vocês para descermos, mas acho que não precisa mais, certo? Já estão comendo aqui, mesmo.
–Sim, sim- Allen sorriu, pegando o sanduíche de outro colega- coma com a gente, Lavi!
–Allen, não pegue comida dos outros- Lena repreendeu o amigo com um simples tapa na nuca.
Alma entregou uma caixinha de suco de morango para Lavi matar a sede e ter algo com o que se ocupar.
Ah, aqueles sorrisos falsos e forçados nunca enganariam o caolho. Ele estava acostumado demais a admirar a boca do garoto se curvar para cima, apertando os olhos tão graciosamente em um sorriso perfeito. Ele conhecia, ele sabia diferenciar os verdadeiros dos falsificados. Aquele tipo de sorriso voltado mais para as pessoas em volta do que para si mesmo faziam Lavi ter vontade de agarrá-lo naquele mesmo momento (e talvez lhe dar uns tabefes também).
Mesmo tendo total certeza de que o coração do pequeno já se encontrava com outro. Que, por um acaso, deve tê-lo rejeitado sem um bom motivo e isso simplesmente deixava o ruivo fulo!
–Lavi- Lenalee chamou o amigo- pare de apertar a caixinha de suco. Tá derramando tudo...
–Eh?
Lavi olhou para baixo, a poça rosada de suco de morango que escorria de sua mão para o chão.
–Ah- disse, um pouco envergonhado- v-vou pegar papel no banheiro para limpar.
Ele empurrou a porta para poder estar no corredor. Com a mão limpa tentou limpar e jogar no chão o resto de suco que escorria do braço e o deixava grudento, enquanto fazia caminho até o banheiro. O lugar estava vazio, bufou quando puxava pedaços gigantes do papel higiênico.
–A culpa é do Kanda, não é?- Lavi perguntou, a voz ecoou tão solitariamente pelas paredes do banheiro. Mas ele sabia que não estava sozinho ali, tinha percebido a pessoa o seguindo quando saiu da sala. Quando levantou a cabeça, podia ver o reflexo do amigo pelo espelho.
Alma estava encostado na porta, observando-o. Surpreendeu-se um pouco em ter sido descoberto, pois em nenhum momento percebeu alguma reação diferente no ruivo que mostrasse que tivesse sido percebido. Contentou-se com o fato de alguns de seus amigos, incluindo Kanda, terem sentidos aguçados.
–Pode ter certeza que é- respondeu- Tiedoll disse algumas coisas, mas desviou bastante do assunto.
–A mãe dele...?
–Sim. Ela apareceu por lá. Quando eu fui na casa dele, o mordomo estava limpando algumas coisas quebradas no chão.
–Discussão?
–Só pode ter sido-Alma suspirou pesadamente, desencostou da porta e se encostou na pia, ao lado de Lavi- acho que ele deve ter gritado com o Allen.
–Aquele idiota- Lavi apertou os punhos no bolo de papel- acha que pode ficar descontando nas pessoas? Quantos anos ele tem, hein?
–Eu acho que é muito mais do que um simples descontar de raiva.
O ruivo jogou a cabeça para trás.
–Medo...não é?
OoOoOoOoOoO
–Eles estão demorando...
Lenalee olhou para a porta, pensando na demora que Alma e Lavi levavam no banheiro.
–Lavi deve ter encontrado alguma garota no caminho- Allen riu.
A garota observou o olhar do garoto se concentrar no chão por um momento. Os olhos estavam tão deprimentes quando ele achava que não havia ninguém observando. Não tinha como ninguém notar.
As aulas passaram mais rapidamente após o intervalo, já que quase todas as provas haviam terminado com a chegada do fim de ano. Lenalee tentou arrastar Allen para comer em um restaurante com os amigos, mas ele recusou o mais convincentemente possível.
Alma sumiu após o intervalo. Lavi, dizem os colegas de classe, saiu da sala mais cedo por estar passando mal. Então, Allen voltava para casa sozinho naquele dia.
Achava melhor assim, pois logo que chegasse em casa, poderia parar de sorrir como um idiota e deixar os músculos faciais descansarem.
Assim o fez, abriu a porta com cuidado e gritou para Mana que havia chegado e subiria para estudar para uma prova de história. Uma clara mentira. Fechou a porta do seu quarto com força.
Seu corpo escorregou com as costas apoiada na porta até bater no chão de madeira. Ao mesmo tempo, os cantos da boca que mentiam um sorriso tornaram a ficar em linha reta e relaxaram, já que doíam de ficar tornados para cima o dia inteiro forçadamente.
Allen suspirou, cobriu os olhos com as mãos em concha. O que estava fazendo? Toda a tristeza que sentia...torcia para que Kanda sentisse em dobro! Ao mesmo tempo que torcia para que não estivesse se remoendo tanto quanto ele mesmo fazia. Se ele havia tido a coragem de dizer tudo aquilo para o albino, era porque tinha coragem determinação em acabar o relacionamento e se distanciar.
Allen devia ter previsto. Kanda não era do tipo que se amarrava.
Mesmo assim, quando se forçava a lembrar daquilo que sentiu e que passaram, uma pequena chama de esperança traidora queimava em seu peito e fazia seus olhos arderem.
Ah, merda. Estavam ardendo de novo.
–Ei, ei- sussurrou para si mesmo, encarando o teto para que as gotas permanecessem nos olhos- não vá chorar agora como uma menininha, Allen Walker.
E ficou um tempo assim, contemplando a lâmpada apagada no teto como se fosse a coisa mais interessante possível.
Alguém bateu na porta atrás dele levemente e fez seu corpo tremer de susto. Rapidamente enxugou os olhos com a manga da camisa e respirou profundamente, tentando curvar os lábios par cima de novo. Com o rosto pronto, abriu a porta.
–Mana, eu só vou estudar um pouco. Já desço para co...mer?
Lavi estava parado em frente ao garoto, Mana sorriu para ele atrás do amigo e acenou antes de descer de volta. O ruivo estava sorrindo com aquele mesmo sorriso malandro que sempre usava.
–Allen~- arrastou o nome do amigo enquanto entrava/invadia seu quarto.
–L-Lavi?- por essa ele nem esperava-você não estava passando mal?
–Hm...Sim, a aula é muito chata que eu até me senti mal- riu.
Allen suspirou. Sabia como era o amigo. Lavi sentou na cama dele sem antes pedir permissão, fuçando nos livros que estavam jogados pela cama e folheando rapidamente as páginas.
Apesar do jeito dele, sabia que ele era uma boa pessoa.
–E então?- Allen perguntou, se jogando na cama- o que você veio fazer aqui?
–Uééé?- Lavi coçou a cabeça- precisa de desculpa para visitar um amigo?
–Tem razão, tem razão.
–Só queria ver como você estava. Só isso. Faz tempo que a gente não saía ou fazia alguma coisa junto. Tipo, pelo menos eu você e a Lena, né?
–Sim...Correria escolar de fim de ano nos deixa um pouco separados.
“Não só isso...”, o ruivo corrigiu mentalmente.
–De qualquer jeito- Lavi deitou na cama, encarando o teto- a Lena não pode vir hoje. Komui realmente pega no pé dela quando sai com a gente...
–Aposto que ele disse que queria passar um tempo com ela para aprofundar os laços afetivos entre irmãos...
–Exatamente! Típico, não?- riu.
Incrivelmente, Allen riu junto. E Lavi não pôde conter o sorriso.
–Você riu.
–Hã?- Allen ficou confuso- n-não deveria?
Lavi soltou uma risada fraca.
–De jeito nenhum- esfregou os dedos nos cabelos platinados- deveria rir sim. E muito!Demais!!MUITO MAIS! Deveria rir até que as suas tripas saiam pela boca! Até que se engasgue com o ar e sua barriga comece a doer tanto que você fique com vontade de vomitar!! Morra de rir!!
–Não...obrigado...só rir tá ótimo.
–Enfim, vou buscar minhas coisas.
–Hã??
–O que? Você achou que eu vim só pra passar a tarde? Vai ser a noite dos garotos!!
–Lavi, que brega...
–Vamos nos bater com travesseiros e contar segredos e comer muito sorvete, passar trotes e assistir vídeos de gatinhos e de gordos fazendo gordices- disse com uma voz debochada- enquanto assistimos e cantamos a High School Musical 1, 2 e 3. Tem que fazer pose e encarnar o personagem quando soltar a música.
–...sem comentários, Lavi...
–Mas eu tô falando sério... Será divertido! Cantando com uma escova de cabelo e soltando a franga aqui no quarto...
–Não tem melhor ideia, não?
–Podemos assistir pornô. Como verdadeiros machos. Eu conheço uns vídeos que podem te fazer ficar animadinho, Allen! Prefere de três, duas ou mais pessoas?
–...vamos jogar videogame e assistir um filme NORMAL em que as pessoas não cantem do nada e sem motivo aparente e nem fiquem se esfregando sem roupa.
–Como quiser- Lavi riu- vou pegar minha mochila lá embaixo.
A tarde passou tão rápido e logo o tempo foi escurecendo. Allen quase se deixava esquecer dos problemas pessoais quando estava matando os zumbis que se arrastavam pela tela com o amigo ao seu lado. Ele se sentia feliz, não saberia o que faria de sua vida sem Lenalee e Lavi, seus melhores amigos há algum tempo.
Como prometido, comeram cinco potes inteiros de sorvete, cantaram uma música de rock qualquer que Lavi tinha em seu Ipod, e assistiram ao filme de terror que encontraram, daqueles bem trash. Allen confessa que quase pediu para deixar as luzes ligadas depois que foi dormir por continuar com o monstro fantasma na cabeça. Tentaram até mesmo imitar os filmes americanos, em que as pessoas em suas festas de pijama adolescentes pulavam na cama com animação batendo travesseiros que se desfaziam em penas, o que simplesmente resultou no ruivo empurrando o albino no chão e um quadril doendo, vermelho e roxo.
Quando as energias acabaram, assim que viram o Sol nascer lá fora, os dois capotaram nas devidas camas e dormiram.
E, pela primeira vez em uma semana, Allen dormiu sem contemplar imagens de um Kanda carinhoso e inexistente em seus sonhos. Uma imagem idealizada que chegava de fininho, o beijava e o abraçava e sussurrava palavras que, tinha certeza, nunca ouviria dos lábios de Kanda verdadeiro.
Só acordaram às 14hrs, com Mana chamando no andar debaixo para que pudessem comer um lanche e saciar a fome monstruosa que tinham. Mesmo que estivessem morrendo de sono.
E Allen ainda estava sorrindo quando desceram pulando os degraus da escada. Lavi estava bem orgulhoso disso.
OoOoOoOoOoO
Voltando um dia atrás...
–Medo...não é?
Lavi suspirou ao ver Alma concordando com a cabeça ao seu lado. Revirou os olhos.
–Como isso me irrita...
–Kanda é complicado- Alma encarou Lavi pelo espelho- você e eu sabemos disso. Allen sabe disso. Ele próprio sabe disso.
–Tá e daí?
–Bem...-Alma sorriu e o ruivo percebeu que talvez não fosse gostar muito- mas ele só precisa de um estímulo. Acredite. Vamos fazer com que ele peça desculpas de joelhos.
–“vamos”? Você vai. Pra mim, essa situação é a melhor de todas.
–Eu não queria que eles se separassem.
–...
–Na verdade, eu acho que é impossível se separarem.
–...
–Lavi, você também notou, não é?
–Argh...
–Eles são perfeitos um para o outro. O encaixe perfeito do Yuu é o Allen e vice-versa.
–Isso soou estranho...encaixe...
–Não seja malicioso. Você me entendeu.
–Não gosto disso...
–Lavi, o Allen tá muuuito triste. O Yuu também. Você não quer ver o Allen triste, quer? Você realmente acha que se eles se separarem você seria uma opção para o Allen?
Lavi bateu a cabeça na parede. Alma estava liderando a conversa muito bem.
–Não precisa ser duro comigo...- o ruivo grunhiu para a parede, mas o eco do banheiro deixava Alma escutar.
–Você não precisa ajudar. O que eu quero que faça é reconfortar o Allen.
–Re...- Lavi virou subitamente, os olhos brilhando- reconfortar? Você quer dizer...
–Como amigo Lavi. Amigo. Não vamos forçar você no garoto.
–Ah, okay.
–E pode provocar o Yuu. Faça como deve ser feito.
–Ah, eu sou bom nisso.
–Na verdade, pensando melhor, seria até legal se você e o Allen ficassem juntos, não?- Alma fez um sorriso tão sinistro que até a Loira do Banheiro deve ter se assustado- aí o Yuu ia aprender a lição e deixar de ser cu doce. Ficaria se remoendo até a morte, sozinho. Tsc.
–Alma, você estava fazendo como ele. Tá assustando...
–Enfim- voltou ao rosto normal- faça como quiser. Pegue o Allen, não pegue. Decisão sua. Mas faça seu amigo feliz.
–Parece que tá me entregando a esposa, Alma...
–Talvez seja isso.
–...Tá...
–Ele não merece sofrer pelo Kanda agir como um idiota. Você cuida do Allen. Eu cuido do Yuu e seja o que for. O Yuu merece.
–Concordo com todas as palavras.
Mas as palavras “faça seu amigo feliz” pesavam na sua cabeça. E nas suas costas.
OoOoOoOoOoO
Apesar de já ser noite, o Midnight Mercy estava mais vazio que de costume. Alma cumprimentou alguns poucos conhecidos e adentrou ainda mais no bar. Estava procurando-o.
Observou todas as pessoas sentadas perto do balcão, mas não o reconheceu como nenhuma das pessoas tentando chamar a atenção de Tyki para poder beber um pouco. Ia procurar mais a fundo, mas um estrondo de uma mesa batendo com força na parede chamou sua atenção.
–M-Me desculpa...e-e-eu...
Com certeza mais uma briga de bêbados. Apenas captou a figura do homem jogado em cima da mesa, a gola da camisa velha e suja quase se rasgava, puxada com violência pelo oponente. Virou o olhar para continuar a procura, mas...
–Tsc. “m-m-me d-d-desculpa”, pare de gaguejar! Que irritante. Não basta ser idiota, ainda nem aprendeu a falar direito. Tsc.
Ah, aquela voz era difícil de ser imitada. Alma sorriu forçadamente, a raiva transbordando dos lábios curvados para cima. Estalou o pescoço assustadoramente antes de se virar girando os pés na direção da briga.
Em passos firmes e pesados, abriu caminho entre as poucas pessoas que pararam para assistir a cena. E lá estava ele. Yuu Kanda. Prestes a meter os punhos no nariz do bêbado chorão, sua vítima da vez. Visto que seu peito estava molhado, imaginou que o motivo fosse um simples acidente, talvez o bêbado tivesse derrubado sua bebida no rapaz e estava quase pagando um preço alto por isso (que seria o seu próprio rosto). Alma agarrou Kanda por trás da camiseta. Estava com uma aparência deplorável, suja, e não era só pela bebida que sujava sua camisa, cabelos mais bagunçados que o normal, roupas amassadas...
–Filho da pu...Mas o q...?
Alma fez questão de fazer os olhos se encontrarem. Os do Kanda, que antes estavam pequenos por se apertarem de raiva, ficaram enormes de surpresa.
–Alma?
–Olá, Yuu.
As pessoas ao redor ficaram mudas por um pequeno instante, mas quando começaram os sussurros, Alma lançou seu melhor olhar congelante de pegar fogo. Isso mesmo. Ele havia aprendido com o Kanda.
Arrastou o garoto pela gola sem que ele tivesse chance de se livrar, então o moreno se debatia protestando em resmungos raivosos. Kanda foi jogado em uma cadeira no balcão e o amigo sentou ao lado, acenando para Tyki trazer uma bebida que Kanda não ouviu o nome.
–Por que fez isso?- reclamou- aquele maldito tem que pagar! Eu estava prestes a estourar aquele nariz ridículo dele por ter derrubado aquela bebida barata na minha roupa... Odeio retardados que nem sabem andar direito sem ficar tropeçando por aí.
–Ah, é?- Alma disse, aparentemente tranquilo, mas Kanda o conhecia há tempo suficiente para perceber a irritação assustadora que aquele tom de voz suave continha- pois eu odeio idiotas que falam o que não querem, maltratam os outros, usam palavras como uns sem-noção, se incomodam muito fácil, descontam nos outros, aí eles falam coisas horríveis para os outros, mesmo que eles tenham tido a boa vontade de ter ido atrás dele, ignoram os outros e machucam essa pessoa mais importante pelo simples fato de ser idiotamente idiota... Seu idiota.
–Merda...
Tyki jogou os dois copos para eles. Alma tomou um gole, enquanto Kanda pensava na melhor forma de fugir dali. Ah, sim. Não tinha como. Quando Alma queria, ele conseguia. E agora iria jogar na cara dele o assunto que ele estava tentando evitar pelo resto da vida.
–Ah, isso mesmo, Kanda Yuu- sorriu maleficamente quando o moreno contorceu o rosto em desgosto- Vamos ter uma conversinha...
OoOoOoOoOoOoO
Apesar de ser sábado, Allen tinha que trabalhar. Como havia faltado em um dia da semana, havia prometido ao chefe que sacrificaria um dia de seu fim de semana.
Como Lavi não queria desgrudar do amigo, o seguiu até o café onde ele costumava vestir seu uniforme de garçom aos dias de semana e fazer dinheiro. O lugar parecia vazio, as cadeiras dispostas fora não estavam ocupadas, mas dentro algumas das mesas tinham pessoas recebendo seus pedidos. O lugar era um tanto sofisticado, limpo e conhecido.
Allen cumprimentou o companheiro no caixa indo para os fundos colocar seu uniforme. Lavi acenou, indo para uma mesa ao canto. Como não gostava de ficar sozinho, agarrou o celular e discou o número de Lenalee para que os dois pudessem contribuir para o trabalho de Allen.
O albino voltou “vestido à caráter”. A camiseta preta de gola polo marrom abotoada até o último botão e a calça igualmente escura, vinha tentando amarrar um avental na cintura o mais ágil possível. Agarrou um bloco do balcão e pegou uma caneta do bolso.
Suspirou de alívio depois de uma correria como aquela enquanto parava em frente aos dois amigos (Lenalee já havia chegado e ocupado a cadeira a frente de Lavi). Puxou o cabelo para trás e indicou o bloco em sua mão.
–Posso anotar seu pedido?
–Uau, posso ter esse garçom pra viagem- o ruivo disse, piscando maliciosamente.
–Não- Allen riu- não estou no menu.
–Ora, mas que pena, não é Lena? Ia fazer o maior sucesso se estivesse...
–Você sempre fica fofo assim, Allen- a morena confirmou.
–Obrigado, Lena. Já escolheram o que querem?
–Eu vou querer só um capuccino- Lenalee pediu.
–Hm... Algo que tenha chocolate, por favor.
–Vou ver o que tem. Só isso?
–Vamos pedir aos pouquinhos- Lavi explicou- se prepare, Allen Walker, vamos ficar aqui até o seu turno acabar!
–Okay- riu- já vou trazer.
Allen andou para os fundos, enfiando em uma manobra divertida com os dedos, a caneta no bolso. Lavi atendia o celular que, com o toque alto demais, incomodava o lugar inteiro. Avisou os pedidos ao cozinheiro e se encostou no balcão.
–Olá, Allen.
O albino gritou fino quando o garoto de cabelos castanhos claros surgiu de baixo do balcão. O companheiro de trabalho, Travis, magrelo e rápido, veio cumprimentá-lo.
–Mas o q...? Tá locão???
–Pegando copos, só isso. Eles ficam embaixo do balcão.
–Ah, tá...- a respiração ainda normalizando depois que o ser surgiu de baixo para cima ao seu lado.
–Ora, seus amigos aqui de novo?
–Sim, eles são da zoeira. Vivem desocupados atrás de coisa pra fazer- riu.
–Pelo menos eles ajudam aqui. Comendo.
A campainha de sino tocou atrás deles, o cozinheiro apontou para Allen e lhe mostrou duas bebidas prontas para serem entregues. Travis jogou uma bandeja prateada para o albino e logo ele estava equilibrando a taça e a xícara.
–Ebaa!- Lavi gritou, jogando os braços para o alto como uma criança entretida faria- chegoou!!
–Um capuccino e...uma bebida com chocolate...
–Obrigada, Allen- Lenalee agradeceu.
–Você pode sentar com a gente?
–Ah, ainda não. Tem que esperar até acabar.
–Allen!!- gritaram ao fundo.
O albino se virou para ver Travis chamando para cumprir algum serviço.
–Tá livre?- perguntava- pode limpar o balcão aqui? Alguns funcionários faltaram!
–Tá bom- gritou de volta. Allen lançou um rosto estranho para os amigos, não gostando de ter sido interrompido em uma conversa, mas mesmo assim foi em direção ao balcão.
–Tá, toma esse pano aqui...
Quando o albino pegou o pano molhado e cinza (sendo que imaginava ter sido originalmente branco) a porta do café abriu e um sino tocou avisando a chegada de um cliente.
–Bem-vindo- disse o garoto no caixa.
–Ah, e agora, hein? Vai sentar em uma mesa sua ou minha?- Travis sussurrou, sobre o cliente que acabara de chegar, mas Allen nem desviou o olhar.
–Tomara que seja sua, sinceramente não to afim de atender...
Allen começou a esfregar na extensão. Quando levantou o pano, viu que o cinza estava se tornando preto com a junção da poeira no tecido.
–Oh-oh- Travis disse- parece que é com você, cara. Vai lá atender o cara boa-pinta e o amigo dele.
–Ah, Allen- outra colega, Laura, suspirou ao seu lado- sortudo. Eu queria atender aquele lá...
–Aff- Allen largou o pano no rosto do companheiro, agarrou de novo o bloco e a caneta do bolso agressivamente.
Quando se virou, percebeu quem era o cara boa-pinta e o amigo dele. E sentiu o rosto congelar ao mesmo tempo que fervia de uma mistura de sentimentos. O que Kanda e Alma faziam sentados ali?
Ia ter uma longa tarde...se ao menos seus pés conseguissem se mover da forma como queria... Porque o fantasma das relações terminadas, mas não superadas, voltou a assombrá-lo novamente.
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