Bad Boy
1 Normal
Notas iniciais
E assim ele deixava a noite de Londres cobrir sua vida. Pois achava melhor assim. Parar de viver por àquelas horas, porque a vida não valia ser vivida. Não por ele. Não aquela vida. Por isso preferia despedaçá-la e esmagá-la, sumir com os pedaços. Um a um. Para escondê-los debaixo do escuro de seu sobretudo negro. Para não ser lembrado.
O homem estava encurralado. Constatou isso quando tateou a parede do beco sem saída as suas costas, desesperadamente, a procura de qualquer rota de fuga. Nada, apenas tijolos vermelhos imóveis. Maldito esse dia em que resolveu cortar caminho na volta do trabalho. Ouvira seus colegas do escritório falando sobre gangues recentes no bairro em noites como essa, mas não achou que ele seria a vítima da vez. Uma desgraça completa. Havia latas de lixo ao seu lado, de onde surgiam montes de carcaças de peixes e embalagens de comida congelada e o chão estava horrivelmente molhado, a sujeira lhe dava um aspecto esverdeado e sujo. Um gato malhado saiu de trás da lixeira com uma cabeça de peixe na boca. Pensava em sua família que o esperava em casa, a sua filha, então, que acabara de entrar no Ensino Médio. Repetia as piores situações em sua cabeça à medida que apertava sua maleta nas mãos, seu paletó estava sendo esmagado pela parede a qual se encostava, numa tentativa inútil de fugir. Os prédios pareciam correr infinitamente para o céu, proporcionando uma muralha indestrutível, com várias varandas espalhadas. Os delinquentes carregavam bastões e sorrisos extremamente diabólicos. E se aproximavam. Se aproximavam mais. As lágrimas de desespero escorriam sem controle à medida que os rostos maléficos se mexiam, prontos para desacordá-lo. Abriu-se a aglomeração, dando passagem ao que parecia ser o líder, carregava um cano ao invés de um bastão, quando saiu das sombras, exibiu seu rosto oriental perfeito, traços bonitos de um garoto em plena adolescência, os cabelos negros e compridos eram presos em um rabo. Usava um sobretudo negro, combinava com seu aspecto sombrio, e balançava de modo doentio com a força do vento à noite. Mal teve tempo de examinar mais o rapaz oriental, este levantou seu cano ao alto da cabeça, nunca tirando o maldito sorriso sádico do rosto. As sombras se dissiparam quando levantou o rosto e o deixou a mostra. Seus olhos são a última coisa de que se lembra. E tudo ficou negro quando o cano atingiu sua cabeça com toda a força. Desacordado. Uma pancada forte, e veio a escuridão. Vazio, como seus olhos negros e apertados.
-Allen. Allen. ALLEN!!!!
O albino levantou o rosto da mesa quando ouviu sua amiga o chamando ao seu lado. Olhou de um lado ao outro tentando compreender a situação. Dormira novamente com a cabeça repousada na carteira na escola. Esfregou os olhos e se espreguiçou em uma tentativa de afastar o sono e disfarçar seu rosto ainda sonolento. O Sol se esgueirava pela janela da sala, atingindo diretamente o seu olho cinzento.
-Dormi por muito tempo, Lenalee?- Allen virou-se para a amiga, que estampava um rosto emburrado, sentada na carteira ao seu lado. Obviamente cansara-se de chamar o amigo repetidas vezes para acordá-lo.
-Alguns minutos, apenas...- a garota apontou, em aviso, para a pessoa que agora passava pela porta da sala de aula, carregando livros e cadernos nos braços.
O professor deixou os livros rapidamente em cima de sua mesa, enquanto Allen se arrumava na carteira, procurando uma posição em que não acabaria dormindo durante a explicação monótona. O homem , que coçava freneticamente o topo descoberto do couro cabeludo, indicou para que os alunos sentassem.
-Vamos, sentem-se em suas cadeiras! -acenou para os alunos ao fundo, que continuavam sentados em mesas.
Allen percebeu que o professor estava um pouco desconcertado, já que a mão não parava de coçar a careca e os olhos encontravam sempre o papel que segurava em sua mão, evitando olhares de alunos. Olhou para Lena, que devolveu um aceno de dúvida.
-Er...- o professor começou atraindo atenção- antes de tudo, devo lhes informar que não poderemos contar com a presença de um de seus colegas hoje, e provavelmente nessa semana.
Os sussurros começaram. Allen olhou para os lados, tentando identificar a carteira vazia. Era a da pessoa a sua frente. Afastou os cabelos brancos do rosto e os prendeu atrás da orelha, sem saber o que esperar do aviso. Voltou a olhar para o homem, quando este tossiu propositalmente para atrair a atenção para si.
-O pai de Emily foi atacado por uma gangue ontem à noite quando voltava do trabalho e se encontra no hospital, com alguns ferimentos de espancamento, foi acertado com um cano quando fugiu para um beco qualquer. Peço que demonstrem apoio a ela, por favor, pelos momentos difíceis pelos quais está vivendo...
Lenalee cobriu a boca com as duas mãos. Allen se sentiu mal. Muito mal. Já fazia um tempo que as pessoas comentavam da violência recente no bairro. Aparentemente, uma gangue de delinquentes andava atacando pessoas quase diariamente. Até o momento as vítimas são muitas, várias, incontáveis. A gangue dos Exorcistas, a qual, diziam, que o líder era tão sanguinário que carregava uma espada assassina sempre ao seu lado, para quem se atrever a se por a sua frente. Um rapaz cujos olhos vazios se confundiam eternamente com a noite, seguido pelas sombras, que caso encarados, seriam seu pesadelo pela vida inteira e provavelmente a última coisa que veria vivo. Animador, não?
Estremeceu ao pensar que a vítima da vez era um familiar de um colega. Alguém, de certo modo, próximo.
-Bom...- o professor tentou interromper os cochichos horrorizados que corriam pela sala- peço para que avisem seus pais para ficarem atentos e evitem sair a noite. Isso serve para vocês, principalmente. Não queremos desgraças na sala, certo? Recados dados. A aula continua.
Allen esgueirou seu corpo magro pela cadeira, enquanto todos protestavam, se esticando para agarrar a mala que estava longe da mesa, uma certa preguiça dominando seus movimentos lentos. Odiava matemática.
- A prova é apenas semana que vem, a matéria já está passada. Vamos fazer alguns exercícios para treinar as questões. Bem... Sentem-se rapidamente em duplas para resolver, páginas...
Mal ouviu a palavra dupla e já jogou sua carteira ao lado de Lenalee, que ria baixinho do desespero do albino. Mas ele sabia que a amiga era disputada, uma vez que era inteligente o bastante para resolver as questões sem errar nenhuma. Mais do que isso, estava com extrema vontade de conversar com a melhor amiga e isso parecia ser mais urgente que as inequações quadráticas, ou o que quer seja. Não que precisassem estudar tanto, afinal tinham as melhores notas da turma.
A garota abriu o livro de matemática para estabelecer um terreno falso de estudos e logo apoiou o cotovelo na carteira.
-Horrível, não? Justo Emily, era tão quietinha... Deve estar mal...
-Com certeza- Allen rabiscou qualquer coisa no caderno- e ela senta na minha frente...
-Sabia, Allen? Dizem que há um membro da gangue que é da nossa escola!- ela tirou o cotovelo da mesa, enquanto sussurrava, cobrindo um lado da boca com a mão.
-Quê?!- quase quebrou o lápis com a pressão que fez com a mão- puxa! Eu não sabia! Alguém que eu conheça?
-Bem, ele não deve vir tanto para a escola...
-Hm...Tem razão...- esfregou de leve o lápis na cabeça.
-Mas, mudando de assunto- a morena sorriu- e aí? Algo de novo?
-Não... Pelo menos não me lembro de nada importante... Quer dizer, mesma coisa de sempre, trabalho, mestre chato, mais poker, lições, Mana...
-Me sinto uma amiga frustrada... Nenhuma novidade mesmo?
-Nada- agora esfregava o lápis no caderno, fazendo surgir desenhos sem sentido.
-Mas que vida monótona, hein.
-Rá. E você tem alguma novidade?- zombou. Sabia que a garota esteve praticamente trancada em casa essa semana, a quantidade de trabalhos não deixava muito tempo livre.
-Hunf.
Riram baixinho e continuaram, mesmo após o olhar de repreensão do professor.
-Mas a professora Klaud estava me falando -Lenalee ignorou o professor- que provavelmente vai te convidar para participar daquela discussão entre escolas. Você queria, não?
-Uau! Isso é ótimo!
De repente, Allen se sentia mais animado. Como era apenas do primeiro ano, era ótimo que pudesse participar ou ao menos ser convidado. Queria experiência, queria mais conhecimentos em áreas de trabalho. Queria um futuro de orgulho para seu pai e por isso se esforçava ao máximo na escola quando precisava. E por isso gostava de aproveitar oportunidades como essa quando apareciam, como a tal discussão entre escolas, elas reuniam alguns bons alunos para argumentarem contra ou a favor algumas afirmações e opções, junto a outras escolas. Geralmente sobre países, política, economia. Uma boa oportunidade se ele escolhesse relações internacionais no futuro.
Allen tinha um aspecto diferente das pessoas. Era branco, albino, os cabelos claríssimos eram lisos e brilhantes, ora davam um aspecto fofo, ora um aspecto misterioso, os olhos eram de um prateado brilhante e lindo, que refletia as luzes que ousavam tocar sua face de dia. E o sorriso estava quase sempre em seu rosto, que era fino e delicado, quantas vezes não tivera seus aspectos comparados ao de uma garota. Seu olho marcado era por uma cicatriz, que terminava em uma estrela logo em sua testa. Podia ser diferente, mas isso o fazia ainda mais atraente e bonito aos olhos dos conhecidos.
Lenalee era uma garota igualmente bonita. Os cabelos eram escuros e lisos, quase sempre presos em dois rabos. Eram cabelos soltos, daqueles que a mais simples brisa faz dançar. Os olhos tinham um aspecto arroxeado, eram escuros e afinados (pela descendência chinesa),presos ao rosto fino e claro da garota. Simpática, como seu amigo, não era de arranjar inimigos tão fácil.
-Mas, Lena, e a festa daquela aluna do 2ºano que vai ter amanhã? Você vai?- continuou o garoto. O professor já desistira de chamar a atenção da dupla.
-Claro que vou!- respondeu alegre- vai ser divertido. Quem sabe encontra gente bonita lá, hein, Allen.- puxou um sorriso de canto.
-Haha. Seria bom, né? Mas ainda bem que você vai, eu não quero chegar lá sozinho...
-Qual é, Allen? Você tem vários amigos pela escola, vai bastante gente lá.
-É...- deu de ombros- mas só uma melhor amiga, né?
A aula de matemática, incrivelmente, passou voando junto das seguintes. Enquanto outros se contorciam a resolver as 20 questões, os dois riram juntos a aula inteira e logo o sinal bateu, indicando o intervalo tão esperado.
Saíram pelo corredor, misturados à multidão de alunos esfomeados e cansados, em direção ao pátio onde geralmente descansavam durante o recreio. Allen desceu a escada, tirando o dinheiro que tinha no bolso e contando, percebeu que com a miséria que tinha guardado no momento não daria para comprar nada que prestasse na cantina e logo colocou de volta, dando um suspiro de frustração.
-Já sem dinheiro, Allen?- Lenalee perguntou, vendo a chateação do amigo.
-É... Dei o dinheiro para ajudar o mestre...
-Haha, coitado de você, sofrendo nas mãos de seu tutor.
-É... Ou eu pago ou meu pai paga, eu prefiro que seja eu mesmo, então.
-Uau- sorriu- esse é o seu jeito mesmo, Allen. Cavalheiro e responsável até o fim.
Estavam chegando ao banco em que sempre sentavam com os amigos nesses intervalos de escola.
Allen tinha um tutor, Cross Marian, grande amigo de seu pai, Mana Walker, ele o ajudava nos estudos e no que precisava, muitas vezes o ensinava a jogar algum jogo, ou esportes, mais para ajudar Mana a cuidar do garoto, mesmo. O problema era que ele era extremamente mulherengo e um bêbado descarado, por isso estava sempre no vermelho. Com medo de seu pai também fosse a falência ajudando o homem com suas dívidas, Allen passou a dar dinheiro ao tutor. Trabalhava como garçom em um café perto de sua casa, às vezes conseguia alguns bicos como vendedor, apenas para ajudar seu pai e seu tutor.
-Esses dias, Cross estava me ensinando a roubar no poker!!- o garoto contou animado- ele sabe o quanto eu sou ruim nesses jogos. Um azarado...
Sentaram no banco de madeira no meio do pátio. O albino sentiu o estômago roncar em protesto. A garota ria baixo do sofrimento do amigo. Sabia muito bem o quanto o garoto era esfomeado e infelizmente não poderia fazer nada, também tinha pouco dinheiro.
O garoto se lamentava, jogado no banco. Sentiu uma mão tocar seu ombro bruscamente e quase caiu no chão pelo susto que levou. Gritou e se deixou cair para ao lado. Observou a amiga rir bem mais alto ao seu lado e uma risada masculina atrás de si.
-Lavi!!- gritou para o garoto que lhe dera um susto.
-Desculpa, Allen.- limpou uma lágrima que insistia em escorrer depois que se matou de rir- é que você estava tão distraído, não resisti.
Lavi era do segundo ano. Um garoto ruivo e brincalhão,exibia apenas um olho, de um verde esmeralda convidativo. O outro era tapado por um tapa-olho misterioso. Usava uma bandana que mantinha seus cabelos jogados para cima, de modo descolado.
-Hunf.-o albino emburrou-se, antes de cair em risada também.- eu não consigo ficar muito tempo bravo com você. Consigo, Lavi?
-Nunca ficou bravo comigo por mais de 3 minutos...
Sentou-se entre os dois no banco, mais jogado, de braços abertos atrás de suas cabeças. Relaxou o corpo, cansado da manhã educativa.
-Aah...- suspirou enquanto se jogava- aulas cansativas?
-Não sei- Lenalee cruzou as pernas para confortar-se- não prestamos muitas atenção, né, Allen?
-Haha- riu- é. Acho que devia estar bem cansativa, só pelo rosto das pessoas a minha frente...
-Ui!- exclamou irônico o ruivo- Allen o delinquente! Ficou conversando a aula inteira! Tranquem suas casa, tirem as crianças da rua que o Allen delinquente está passando!- imitou um rosto de surpresa exagerado.
-Cala a boca, Lavi- socou de leve o ombro do amigo.
-Desculpa, Allen. É que você é certinho demais às vezes. Na maioria das vezes, na verdade.
Lavi esfregou a mão na cabeça do menor, como geralmente fazia, bagunçando as mechas brancas do pequeno, que encolheu em protesto.
-Sabia, Lavi?- a garota se remexeu para encarar os amigos ao seu lado- o pai de uma colega foi atacado por uma gangue ontem à noite!
Lavi estremeceu de leve no banco.
-É- o albino virou-se para o ruivo também- da garota que senta logo à minha frente! Acredita?
-Puxa... Que tenso...- respondeu o ruivo.
-Hm? Tenso?- questionou Allen, indignado- é isso que tem a dizer??
-É... Você sabe que não sou bom com reações... É que é meio chocante sim. É só que... Eu não conhecia, então... Er...
Lena franziu o cenho, suspeita. Havia algo errado com a reação do rapaz. Ele coçava a nuca, os cabelos e o braço o tempo todo, evitando o olhar do amigo que sempre fazia questão de encarar, o sorriso estava um pouco torto. Totalmente suspeita de que algo estava errado com ele. Mas sabia muito bem que não adiantava perguntar, o caolho desviaria rapidamente do assunto. Sabia, também, que o albino não percebera nada, afinal, ele era mais lerdo com pessoas que em matérias de escola. Ignorou, então, por ora. Além disso, logo o ruivo voltou ao comportamento normal, o sorriso endireitou em seu rosto e os olhos encaravam Allen serenamente de novo.
-...E é isso!- Lavi espreguiçou os braços, colocando-os no colo.
Lenalee percebeu que perdeu metade da conversa pensando suas suspeitas. Já haviam mudado de assunto há algum tempo.
-Então, vocês dois vão, né?- o ruivo perguntou, cruzando as pernas.
Lena olhou para Allen, esperando que ele respondesse algo para que pudesse entender até que ponto a conversa chegou.
-Ah, sim!- o albino mexeu a cabeça afirmativamente- então vamos os três juntos para a festa.- Lenalee entendeu e concordou junto- nos encontramos na minha casa, pode ser?
Concordaram.
ROOOOOONC
Allen apertou a barriga e deu um sorriso envergonhado. Seu estômago acabou de roncar, e bem alto.
-HAHA- Lavi riu- deixa que eu pago alguma coisa para você, Allen. Mas depois você me paga, hein. Quando receber o pagamento do mês.
Os olhos prateados brilharam ainda mais enquanto os dois corriam para a cantina, tentando evitar a fila enorme que se apoderava de sua frente essa hora.
-Sim, faltam só algumas semanas!! Eu prometo que te pago!
–Allen!! Filho!!- o albino ouviu seu pai chamá-lo no andar debaixo- venha comer!!
O garoto desceu correndo pelas escadas, ainda colocando sua camisa pela cabeça.
-Já estou indo!- gritou de volta.
Faltavam algumas horas para a tal festa da garota que mal conhecia. Era convidado para muitas, mas não comparecia a todas. Muito barulho, muita confusão, muito movimento, muita perversão, não era sua praia. Só ia para desestressar e ficar com seus amigos.
Sentou-se a mesa. Seu pai cantarolava uma música alegre enquanto terminava de colocar os pratos a mesa, usava um avental para evitar que se sujasse. Colocou a última panela no lugar e sentou-se também, na cadeira a frente de Allen.
–Vai sair hoje a noite, pai?- Allen encheu o prato com tudo que a mesa oferecia.
–Hm...-pensou- Ia passar no banco mais tarde. Por quê?
–Tome cuidado, então. O pai de uma colega foi atacado por uma gangue esses dias quando voltava do trabalho. Está hospitalizado.
–Meu Deus!! Isso é horrível! Pobre garota! Pobre homem! Espero que fique melhor...
–Sim...- pensou que a reação foi bem mais exagerada que a de seu amigo.
–Então...-o homem deu uma garfada em seu prato- você vai sair hoje com a Lena e o Lavi?
–A-ham- concordou com a cabeça, tentando engolir a grande quantidade de comida que estava em sua boca- vamos em uma festa.
–Awww. Como o meu Allen está crescendo... Está indo em festas, veja só!
–P-Pare, pai.- Allen estava com dificuldades para falar. As mãos de Mana se encontravam nas bochechas do albino, apertando e puxando-as- não é como se eu já fosse adulto...
–Mas falta pouco...Óóó!!- dramatizou- o que será de mim, um pobre pai, cujo filho já se mostrou um homem completo no fim de sua metamorfose...
–Não fale como se eu fosse uma borboleta...
–Mas é. Minha borboletinha!
–Pai...- bateu a palma de sua mão direto em sua testa, sorrindo. Contornou as mãos de seu pai, que insistiam em apertar suas bochechas, e tornou a beber seu suco.
–Quer dizer, completo não- apontou um dedo- só falta uma garota.
O suco, que o garoto bebia, saiu em um jato pela sua boca e molhou toda a extensão da mesa.
–Ora, ora- Mana tirou um pano para limpar o terreno molhado- alguém parece ter algum tipo de má reação à palavra “garota”...
–É que...- o albino logo se apressou em secar o suco de suas vestes e da mesa- não é muito legal para mim ficar conversando sobre isso com você... E já falamos sobre isso...
–Entendo...
–Hã? Entende?- Allen se surpreendeu. Não é do feitio de seu pai ficar quieto ou “entender” rapidamente sem fazer algum tipo de escândalo sobre ele.
–Sim...- concordou-... A metamorfose completa revela sinais de aversão aos seus pais!!
“Sabia que ia ser algo assim...”, uma gota desceu da cabeça do garoto.
–Sinais de rejeição!!- gritou entusiasmado- enfim chega a idade em que o filho não conta mais nada aos seus pais. Sou inútil.- limpou uma lágrima exagerada dos olhos.
Allen sabia o quanto seu pai era desse jeito brincalhão e dramático. Sempre fazendo drama sobre o garoto. Ele riu de leve.
–Não é inútil...- bateu nas costas do pai- foi você quem fez o jantar hoje. Tá uma delícia.
–Sério??- levantou o rosto.
–A-ham- concordou com a cabeça- o que seria de mim sem você e seus jantares, hein?- riu.
–Allen!- abraçou o filho, cuja cabeça já batia quase em seu ombro- mesmo assim você cozinha amanhã, tá? Não vai pensando que assim vai se livrar de seus deveres.
–Huhu, tá.
–Por enquanto termine de jantar e vá se arrumar!!
A campainha tocou várias vezes ritmadamente.
–Allen!!! Lavi e Lena estão aqui embaixo!!- o albino ouviu o pai chamar e logo levantou da cama, onde estava folheando uma revista à espera.
Olhou para o espelho ajeitando o cabelo. Usava uma roupa mais casual, camisa xadrez ¾, aberta, calça jeans cinza e tênis. Não era de se arrumar muito. Arrumou o cabelo (lê-se: desalinhou-os) apressadamente, pegou o celular na escrivaninha e desceu correndo.
Encontrou Lavi e Lena conversando com Mana na sala. Lavi usava uma camisa preta e um jeans, porém usava vários acessórios, como de costume, bracelete, colares e sua habitual bandana e brinco. Lena estava graciosa como sempre, usava uma blusa comprida escura, shorts e sua típica meia 7/8 preta. Acenou para os amigos enquanto saltava o último degrau em direção ao pai.
–Então, já vamos?- perguntou.
–Acho que sim. A festa já deve ter começado, mas não quero chegar muito na hora.
–Sim, sim.- afirmou o ruivo.
O albino concordou com a garota. Abraçou o pai antes de se dirigir com os amigos para a porta.
– Já vou indo então Mana. Tchau.Vou voltar um pouco tarde hoje.
–Tá, tome cuidado, hein. Se precisar pode ligar, eu vou te buscar.
Acenou afirmativamente e fechou a porta atrás de si, vendo seu pai esfregando a mão em um pano para secá-la. Juntou-se aos seus amigos na caminhada noturna.
A rua estava deserta, poucos carros e pessoas se atreviam a passear. Verificou os bolsos, procurando o celular e confirmou as horas, nove e meia.
Ao seu lado, Lavi andava com as mãos escondidas em seu bolso, cantarolando uma música bem baixa e Lenalee arrumava os prendedores de seu cabelo, que estavam pouco desalinhados. Sorriu. Adorava os amigos que tinha consigo.
– O Mana continua o mesmo né, Allen?- o ruivo tornou a se virar para o amigo- sempre coruja daquele jeito. Mal a gente chegou e ele veio para cima falando algo sobre metamorfose e borboletas...
–Ah...Isso. Ele falou a mesma coisa para mim no jantar. Sobre eu ter crescido ou algo assim... Ou sobre eu ser uma borboleta- sussurrou.
–Huhu, cresceu?- o caolho abafou uma risada- bem, não foi de tamanho né?
–Cala a boca, caolho.- respondeu friamente, sem olhar nos olhos do ruivo. Completou com um soco de leve em seu ombro.
–Estou cercado de filhos de pai coruja...
–Meu IRMÃO. Não pai.- corrigiu a garota
–Mas é como se fosse, não? Um irmão-pai.
–Sim, mas... Ele não é coruja...
–Não...- respondeu ironicamente- só fica para lá e para cá atrás de você, espantando todo mundo que chega perto, desesperado, como se algum tipo de lobo mau fosse aparecer.
–Ele só...É preocupado.- desmentiu.
–Não é de se surpreender- interrompeu o albino- afinal, andando com um lobo mau como o Lavi, até eu fico com medo às vezes...
–Huhuhu- o ruivo riu malignamente, agora andava de costas mais a frente para poder encará-los- e com razão...Allen-chan S2
– Como eu disse... O pervertido aqui nunca descansa de suas perversões- apontou Lavi para Lenalee.
Ouviram um som de longe. Uma música de batida bem marcada estava tocando em algum. Perceberam que já deviam estar próximos do local marcado, pois havia uma aglomeração de pessoas. Allen pensava ser uma House party bem animada, essa...
Se aproximaram, sendo cumprimentados pelos colegas e amigos que encontravam no caminho. Encontraram a casa gigante de onde surgia a multidão, um portão gigante, e apostavam que a o interior deveria ser tão grande quanto. Realmente era.
Se haviam achado que havia muitas pessoas na porta, se surpreenderam ao encontrar uma grande concentração de garotos e garotas dentro do espaço. Várias pessoas mergulhavam na piscina azul, ao lado se encontrava um balcão de bebidas alcoólicas à vontade, luzes coloridas iluminavam toda a extensão do quintal que podia jurar não ter fim e faziam os corpos adquiriam uma cor diferente da habitual. Logo, o albino percebeu que nunca havia ido a alguma festa assim (até porque evitava aceitar convites para elas).
Havia passado, antes, em sua cabeça que seria mal ir a uma festa a qual quase nunca havia falado com a anfitriã. Mas logo percebeu que a maioria das pessoas que ali estavam nem deviam saber quem era a dona da casa (lê:se mansão).
Cumprimentaram alguns conhecidos à medida que adentravam no espaço e a batida foi ficando cada vez mais alta, ao ponto que quase gritavam, um para o outro, mesmo estando a menos de um metro.
Localizaram um ponto para se sentarem, junto com alguns outros colegas. O pequeno trombou várias vezes no caminho, tentando não perder ninguém de vista. Não haviam tantas pessoas a ponto de não conseguir andar (além de que havia bastante espaço naquela casa...), mas como seu jeito desastrado não o deixava dar um passo sem se atrapalhar, procurava se agarrar as roupas dos amigos.
Sentaram em um canto e tão rápido ganharam copos de alguma bebida qualquer que fora servida. Allen não era de beber, não mesmo, afinal não gostava de dizer, mas era bem fraco, totalmente ao contrário de Lavi, que aguentava mais alguns copos, uma vez que se acostumara a esse tipo de festas. Bebia goles bem pequenos, para que o copo durasse mais e não bebesse mais que devia. Não seria muito bom chegar em casa botando tudo para fora, certo?
Lena bateu as duas mãos nas pernas, como se dissesse que já estavam sentados há tempo suficiente. Sussurrou algo inaudível e voltou a repetir mais alto quando Allen fez uma expressão de desentendimento.
–Vamos dançar, Allen?- gritou.
–Eu também queroooo...- o ruivo que tinha os braços ao redor dos ombros do albino logo se pronunciou.
Sem que pudesse responder, o albino foi puxado pelos braços dos amigos em direção a um povo que se movia no ritmo da música, ainda mais iluminados pelas luzes coloridas.
Primeiramente, observou os dois dançando sozinhos no meio daquela gente. Logo se jogou junto, abraçando os dois e depois soltando-os para soltar seu corpo em uma dança animada. Riram enquanto o DJ mudava de música.
–Você viu o Lavi?- o albino perguntou a um desconhecido em um canto, ele ergueu as sobrancelhas- ruivo. Usa um tapa-olho, o único olho é verde, tá usando uma camiseta preta... Não? Não viu? Tudo bem, obrigado...
Afastou-se, decepcionado. Não queria admitir, mas a verdade é que havia, novamente, se perdido do amigo. Fora traído pelo seu péssimo senso de direção até mesmo em um espaço menor. Suspirou ao encostar-se a um pilar, tentando, por um momento, pensar um pouco.
Lenalee já havia se deslocado para um grupo de amigas e o albino não tinha a menor vontade de continuar naquela roda de garotas, onde algumas pareciam dar em cima dele o tempo todo enquanto outras falavam sobre coisas que ele nunca entenderia. Pareciam códigos femininos. Seu único refúgio era o ruivo, que, pelo jeito, deveria estar com alguma garota em um canto.
–Pervertido...- resmungou para si.
Decidido a procurar calmaria, desviou-se de algumas pessoas para chegar ao portão e dar uma volta. Precisava tomar um pouco de ar fresco e sair da aglomeração a qual não estava tão acostumado. Inspirou profundamente o ar gelado daquela noite enquanto andava devagar, passo por passo, pela rua. Observou a confusão se afastar e o barulho diminuir enquanto seguia em frente na calçada desnivelada.
Contemplou a quase ausência de som, ao observar um gato se esconder rapidamente debaixo de um carro. Virou na esquina. A rua estava deserta. Nada se movimentava.
Não gostava de ficar sozinho por muito tempo. Porque assim ele começava a pensar. E pensando trazia a tona vários sentimentos.
Esfregou a cicatriz. Aquela que marcava as suas piores lembranças e apertou a mão contra seu olho. Fazia de tudo para afastar maus pensamentos. Tudo. Porque agora... Queria ser feliz. Como nunca foi. Com seu pai. Com seus melhores amigos.
Atravessou o asfalto, correndo para a calçada do lado esquerdo.
Nunca havia tido tantos amigos. Costumava ser bem solitário.
Riu sozinho ao lembrar-se do que Mana falou no jantar. Borboleta, é? Bela comparação...
Observou as luzes de uma casa ao lado se apagarem uma a uma. Virou novamente em outra rua.
Se tudo que lhe faltava era uma garota... Então...
–Ei...- parou no caminho. Olhou para a casa ao lado. Olhou para a casa ao outro lado. Olhou para trás e para frente-...Onde...Onde eu estou?
E mais uma fez seu senso falhara e o trouxera ao desconhecido. Apontou para frente e para trás, tentando escolher. Andou para frente. Virou uma rua, virou outra e mais outra. Parecia ainda mais perdido que antes. Mas dessa vez ele tinha certeza que essa rua o levaria para a festa. Errado, mais um lugar desconhecido.
De repente o silêncio que lhe parecera acolhedor, agora era totalmente desesperador e indesejado. Desde que pudesse ouvir a batida forte da música da festa, poderia se orientar pelo som.
Correu, procurando um caminho de volta.
Virou outra vez. E se viu em um beco escuro. Nada, apenas tijolos vermelhos imóveis. Havia latas de lixo ao seu lado, de onde surgiam montes de carcaças de peixes e embalagens de comida congelada e o chão estava horrivelmente molhado, a sujeira lhe dava um aspecto esverdeado e sujo. Um gato malhado estava atrás da lixeira com uma cabeça de peixe na boca. Os prédios pareciam correr infinitamente para o céu, proporcionando uma muralha indestrutível, com várias varandas espalhadas.
Ouviu um barulho se estalar do escuro. Pulou de leve ao pensar que pudesse ter alguém a atacá-lo. Observou mais adentro, ignorando o seu instinto de fugir.
E lá, agachada perto da lixeira (junto ao gato malhado), estava uma garota. Cabelos negros lisos e compridos, presos em um rabo. Estava vestida de negro e não parecia bem.
Aproximou-se de leve.
–Ei...T-Tá tudo bem? É melhor não sair por aí a noite... Tem gangues violentas por aqui... Er... Aconteceu alguma coisa, precisa de ajuda?
Aproximou-se mais, dando passos pequenos e lentos. A garota não respondia. Ele tremia um pouco. Afastou todas as cenas de filmes fantasmagóricos que insistiam em repassar em sua cabeça.
–Tudo bem, eu não vou fazer nada. Só quero ajudar...
A garota levantou o rosto para ele.
E não era uma garota.
Um garoto oriental, de negros e lisos cabelos, presos por uma fita. O rosto não era nada amigável, apesar de ser bem moldado em traços de um garoto em plena adolescência. Estava machucado, sangue escorria de sua boca e o rosto parecia ter marcas roxas. Carregava, estranhamente, uma espada katana ao lado de seu corpo.
Allen recuou um pouco.
Havia gangues violentas por aquele bairro.
E no sobretudo negro que o garoto usava, lia-se na frente o emblema de “Exorcistas”.
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