Bad Boy
5 Midnight Mercy
Notas iniciais
Primeiramente antes de mais nada a dizer, eu gostaria (MUITO) de agradecer pela fabulosa, magnífica recomendação de Azurichan!! Muito obrigaaaaaaaaaaada!! >3< e expresso minha gratidão à essa linda pessoa com mais um capítulo hehe
Se não me engano, a partir do próximo capítulo as coisas realmente começam a esquentar, por isso, sejam um pouco pacientes hahahaha
Que mais? hm... As pessoas que eu coloco na gangue e tipo ninguém sabe como é, nem fala com os caras ou sei lá, é mais para fazer número, pq eu não costumo criar personagens, só quando realmente precisa e não consigo achar ninguém para colocar naquele papel, mas geralmente nem são tão importantes.
Enfim, boa leitura.
Kanda desceu as escadas quando considerou que todos os alunos estavam em suas classes e correu pelos corredores vazios em direção à saída. Nem ao menos esperou o fim de suas aulas. Tirou seu paletó com o símbolo de sua escola e o amarrotou em sua bolsa de qualquer jeito, junto aos seus livros.
Correu pelo jardim, sem se importar com os canteiros de flores em que poderia estar pisando, e pulou pela cerca de ferro, evitando ser barrado no portão pelos seguranças do colégio.
Tão logo se viu na calçada, esperou um tempo no muro antes de decidir seu destino.
Provavelmente iria para casa à noite... Do dia seguinte. Ajeitou a mala em seu ombro e saiu em passos apressados pela rua. Virou à esquerda na esquina.
Iniciou seu trajeto para a casa de Alma. Sentia que era o que precisava no momento, mais do que tudo, só não sabia o porquê. E, como se seus pés se movessem por conta própria, atravessou a rua e correu em frente, sem parar.
"Eu me importo com você, Bakanda”, lembrou da fala de Allen há algum tempo.
Naquele momento, naquele exato momento no terraço em que ele disse isso, Kanda teve que se conter.
Conter-se para não pedir ao garoto: “prove, então”.
E não sabia de onde vinha esse ato involuntário.
Alguns minutos, alguns vultos de construções bagunçadas pela sua corrida ficaram para trás e se via em um lugar mais aberto. Um estacionamento.
Parou em frente ao trailer cujo externo era amarelado, sujo de terra, sendo que em seus primeiros dias deveria ser do mais puro branco. As pequenas janelas se espalhavam e a parte interna era oculta pelas cortinas negras que estavam abaixadas atrás do vidro embaçado.
Kanda bateu na porta em socos várias vezes.
-Quem é?- uma voz soou de dentro do trailer.
-Alma, sou eu. Abra logo essa porra.
Ouviram-se passos apressados do outro lado da porta, e em questão de segundos ela abriu em rangidos, revelando o aspecto amigável e cansado de Alma Karma.
-O que foi, Yuu?- o garoto perguntou- aconteceu alguma coisa? Raro você aparecer a essa hora por aqui...
O moreno não disse nada, apenas empurrou o garoto de cicatriz para o lado, dando espaço para que pudesse passar pela porta estreita e se jogar de qualquer jeito no sofá preso a parede.
Alma, que já estava acostumado com esse tipo de atitude, fechou a porta sem problemas e pegou duas latas de refrigerante na geladeira. Jogou uma na direção de Kanda, enquanto abria, em um estalo, a sua.
-Então...- o garoto se jogou ao lado de seu amigo- você foi para a escola? Tá usando o uniforme...
-Não- ironizou- eu gosto de sair por aí com o uniforme de escola que nem um retardado...
-Tudo bem, não precisa ficar nervosinho. É só que...é um ótimo milagre você ir para a escola. O que aconteceu, hein?- riu.
-Nada.
-Então, por que está aqui?
-...
Alma observou o japonês tomar longos goles de sua lata, para disfarçar o fato de não conseguir responder a pergunta do amigo.
-Sabe- Alma começou, se levantou das almofadas para andar pelo pequeno espaço do local- já é um começo! Eu vivo falando, desde sempre, que você devia ganhar consciência de que tudo isso faz mal pra você! Já basta tudo que aconteceu e ainda por cima você...-não completou a frase- seria tão melhor se você parasse de sair por aí a noite, fazer coisas erradas...Fique mais com seu tio, sabe? Tem aquela casa maravilhosa, ele te ama, e ao invés disso você fica aí que nem um bobão...
Kanda continuou sem falar nada e se segurou para não rir da falta de criatividade e maldade nos xingamentos do amigo. Apesar disso, se sentiu mal ao ouvi-lo falar de sua casa, pois sabia que um trailer acabado não era onde ele deveria morar.
-Fica aí...- Alma continuou- que nem um velho rabugento, resmunga pra todos, não ajuda ninguém, não se ajuda...Ir para a escola já é um começo e...Espera, as aulas já acabaram? Esse horário? Não é muito cedo??
-Ah, eu...saí antes de acabar.
-Seu idiota!! Se vai fazer algo, faça até o fim!! Caramba, nem para ir à escola direito, hein. Meu pai não quer pagar escola, por isso eu não vou... Assim não dá, você devia ir lá, socializar e deixar de ser anti-social desse jeito. Fazer amigos, quem sabe, você não pode ficar ao meu lado para sempre. Arranjar uma namorada, porque assim não dá! Você tem que aprender a se importar, com você e com os outros. Além disso...
O moreno girou os olhos, balançou a lata quase vazia em sua mão, ignorando o sermão monótono de seu amigo.
“Pra que eu fui vir aqui mesmo?”, pensou. Virou o resto do líquido da lata em sua garganta, amassou-a e jogou a lata vazia direto na cabeça de Alma, interrompendo o monólogo interminável.
-Ai!- esfregou a testa marcada- doeu Yuu!!
-Para com isso. Tá parecendo o moyashi...
-Moyashi...?- o garoto pegou a lata no chão, sem deixar de esfregar sua testa, e a colocou no lixo- Ah, era assim que você chamava o Allen, né? Você viu ele esses dias?
Kanda se sentiu um pouco desconfortável em meio aquelas almofadas, apenas ao ouvir o nome. Pensou estar um pouco irritado como garoto, então. Mexia nervosamente nos fios soltos do travesseiro azul em seu colo.
-É- falou, um pouco pesadamente- eu encontrei ele no mercado e acabei jantando na casa dele.
Alma sorriu de orelha a orelha, inquieto no sofá. Então Kanda se sentiu obrigado a completar.
-Fui obrigado a jantar lá- disse- o pai dele me jogou no carro... praticamente.
-Hm...sei.
-Ei, é sério! Não tire suas próprias conclusões.
-Eu posso dizer o que eu acho??
-Eu tenho escolha?
-Tem razão...não tem- o moreno girou mais uma vez os olhos, enquanto Alma se ajeitava no sofá desconfortável- desde que eu conheci o Allen, eu acho que vocês dois combinam muito, sabe? Lavi me disse que ele era muito cabeça dura, e eu tenho um teimoso bem aqui, a minha frente. Só que ele é bem mais gentil e legal que você, hein! Ele não fica se escondendo, pelo menos não tanto como você.
-Você só falou com ele por pouco tempo, você não sabe nada.
-Ui, desculpa senhor “Eu-conheço-Allen-Walker-totalmente-por-favor-não-arranquem-esse-direito-de-mim”!
-Para, Alma- resmungou.
-Enfim, eu realmente acho que vocês dois seriam bons amigos. Ou pelo menos, amigos.
-Hm.
-Que nem nós dois, lembra? Você vivia me rejeitando! Eu levei vários socos, eu sempre voltava de olho roxo, mas a gente acabou ficando mais próximos. Se bem que naquela época você nem era tão chatinho assim.
-Pare de falar como se eu e ele fôssemos um casalzinho apaixonado de merda.
Alma suspirou pesadamente.
-Como amigo, só quero o melhor para você. E... se vocês fossem um casal meus problemas estariam resolvidos- riu.
-Dá para parar??!!- Kanda jogou a almofada na parede à sua frente- você, o moyashi...Os dois ficam em cima de mim falando sobre amizade e blá, blá, blá. Já deu, não? Puta que pariu!!
Alma observou, apreensivo, o japonês ofegante, não cansado fisicamente, claro. Sua mente estava para entrar em colapso, imaginava, pois ele olhava para um ponto fixo sem se desviar, mas afundava as unhas em outra almofada estourada. Alma se ajeitou lentamente para não despertar a ira de seu amigo, virou-se de frente a ele.
-Kanda- chamou pelo sobrenome- por que está aqui?
-...Eu...- ele parecia preste a completar a frase, mas toda vez que abria a boca em um centímetro, fechava subitamente, repensando a sua frase. Jogou a almofada, estressado no chão, e socou a que sentava-se apoiado.
-Kanda... Eu sei por que. Você veio falar sobre isso que estávamos falando agora, não? O Allen.
-Eu...não...
-EU SEI- gritou para que a voz de Kanda não se sobressaísse em cima da sua- que você veio. Allen te fez ir para a escola, certo? Lavi me contou que vocês estudam na mesma.
Alma observou o rosto, oculto pelas duas mãos, do amigo ao seu lado.
-Eu não gostaria de falar isso, Kanda. Mas você está com medo.
Sentiu as almofadas embaixo de si se mexerem um pouco, o corpo de seu amigo ao seu lado mexeu um pouco, mesmo que Alma não estivesse olhando para ele.
Olhou por um segundo para o japonês e viu em seu rosto algo que achou que nunca veria estampado. Desespero.
Demorou um tempo para que pudessem voltar a falar, mas o moreno continuava parado como uma estátua. Alma aproveitou o momento para tirar suas conclusões do caso.
“Então, eu estava certo?”, pensou, “o que será isso? Destino? Ironia? Mas...acho que foi bom, só de ver essa expressão na cara do Yuu, dá pra perceber que Allen pode conseguir algo dele. Algo diferente do que eu posso fazer por ele, o melhor é mantê-lo por perto, nem que eu tenha que obrigá-lo. Pelo bem do Yuu, pelo menos”.
-Devo chamar os outros?- Alma perguntou após alguns minutos de silêncio, que mais pareciam séculos- você vai querer passar lá hoje, certo?
Demorou um tempo até que Kanda de pronunciasse, tempo que parecia levar para esvaziar a mente.
-Chame. Nos encontramos lá, como sempre.- levantou-se do mesmo jeito rude.
Mas Alma sorriu de leve, ao ver Kanda pegar seu sobretudo no armário de seu amigo e rodá-lo em seu corpo, para colocá-lo.
- E se eles se atrasarem, de novo, diga que vou cortá-los até que só sobrem pedaços irreconhecíveis de carne podre.
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Allen saiu da escola, mais calmo que estava há algum tempo atrás. Substituiu seu andar pesado pelos seus passos agora leves e lentos. Verificou em desânimo a falta de seu Ipod na mochila. Estava mais que querendo ouvir música. Necessitava. Porque quem sabe ocuparia o bastante de sua mente para não começar a ocupar com outras coisas. Exatamente o que acontecia no momento, e desde que saíra do terraço, na verdade.
“Como é que alguém pode pensar desse jeito? É um jeito bem triste de ver a vida...”, pensava de tempos em tempos, quando subitamente voltava a pensar em Kanda.
Mas depois que a fase de tristeza passava, vinha a fase irritada. “MAS QUE IDIOTA!!Se quer ficar sozinho então fique!! Fica aí se achando o ‘sou-único-no-mundo’, ‘não preciso de ninguém, eu sou o fodão” e nhénhénhé´!!” Ou podemos chamar de fase infantil...
-Allen, tá tudo bem?- Lavi se jogou como sempre em cima de seus ombros, o que fez o garoto pender para frente um pouco.
-É- Lenalee apareceu ao seu lado- desde a aula de geografia ele tá meio assim, estranho, tá quieto e resmungão!Achei que fosse porque chegou atrasado, mas...
-Resmungão?- Lavi estranhou- será convivência com Kanda?
-Cala a boca, Lavi!-Allen gritou, dando os típicos socos em seu ombro.
-Ah, então é por causa daquele garoto do intervalo?
-Hm...É verdade, você foi atrás dele, né?- Lavi colocou um dedo no queixo, fingindo uma posição de pensador.
-E logo depois, voltou para a classe, nervosinho...
-Eu vou na frente- o albino olhou para os lados, ocupados por Lena e Lavi, impaciente, ajeitou sua mochila no ombro e apertou o passo.
-Tudo bem, tudo bem!- o ruivo se desesperou e aumentou ainda mais a velocidade de sua caminhada- a gente para! Não precisa fugir.
-Ah, eu acho que preciso sim- Allen resmungou quando o caolho agarrou seu braço- eu conheço a Lena e principalmente você Lavi. A sua curiosidade é sem fim e você não para até conseguir o que quer.
-Tudo bem- Lavi olhou para a Lena que apenas agora corria até eles, então colocou a boca perto do ouvido de Allen- não preciso saber agora se não quiser.
-O que estão cochichando aí?- Lenalee encostou seus dedos no ombro do ruivo.
-Nada- responderam em coro e se entreolharam tão logo perceberam o quanto soaram suspeitos na frase.
-Tá legal...- a garota largou o ombro do ruivo e se afastou, mas ainda olhava de soslaio para os dois- eu...tenho que ir. Meu irmão vai ficar uma fera se eu voltar tarde hoje...tenho voltado bem tarde esses dias.
-Conhecemos Komui- Allen riu- pode ir. Nos vemos amanhã!
Acenou em despedida para a garota de cabelos negros que corria um pouco de costas na direção contrária.
-Lavi- Allen disse sem parar de acenar- você sabe que hora ou outra ela vai descobrir, certo?
-Bem, acho que não tem como evitar. Ela é inteligente.
-Quando ela descobrir- os dois retomaram a rota inicial, viraram-se de frente e recomeçaram a andar- sabe que ela vai ficar brava com nós dois mais pela gente não ter contado a ela, que pelo próprio segredo, né?
-Imagino... — o ruivo deixou a cabeça tombar para frente, na depressão de imaginar o momento.
Allen não sabia se ria da reação do amigo ou se também se deixava ficar preocupado com sua cabeça, pelo momento em que Lenalee descobriria o que faziam e falavam quando ela se ia. Então apenas suspirou junto ao amigo, quando continuaram andando em silêncio.
-Hey! Lavi!!
Ouviram uma voz ecoando na rua deserta, logo atrás deles. Viraram-se subitamente e se depararam com pessoas que Allen conheceu naquele beco. Daisya, Marie, Krory e pessoas que nunca perguntara o nome. Os dois pararam de andar e esperaram até que os alcançassem na calçada.
-Ah, são vocês- Lavi cumprimentou em um aceno de mão- o que estão fazendo?
-Kanda chamou a gente. Alma disse que ele parecia um pouco nervoso... E que cortaria a gente em pedaços podres se chegássemos atrasados.
-Estão indo para lá?- perguntou- eu também vou!
-Eu também!- Allen se intrometeu, avisando aos outros que também estava ali, pois não pareciam se lembrar de sua presença.
Foi sem pensar que disse, mas agora sabia que tinha que ir, mesmo que não soubesse para onde exatamente. As pessoas olharam para o albino determinado sem saber que tipo de reação ter.
-Vai nada- Lavi disse.
-Vou sim!
-Naaaada disso- o ruivo colocou as mãos nos ombros do albino- você vai voltar pra casa. Olha, o Yuu deve estar um pouco nervoso hoje. De vez em quando o mau humor dele piora tremendamente, tipo TPM.
-Não é muito legal ficar perto quando isso acontece...- Daisya colocou.
-Exatamente- o caolho disse, agradecido por alguém apoiá-lo- ainda mais com você.
-Por que eu?
-Porque você é todo certinho e bonitinho. Kanda iria adorar de ferrar. Ele pode te dar uma surra.
-Não pode, não.
-Pode sim- o ruivo continuava- além disso, não sei onde a gente vai andar exatamente, quem a gente pode acabar encontrando... Você pode sair machucado, Allen. É sério. Nunca é saudável. É muito perigoso.
-Eu...eu aguento.
-Acho que não- o ruivo esfregava a cabeleira ruiva, enquanto andava impaciente de um lado a outro- Allen, não quero que você se machuque porque fui irresponsável em te deixar ir. Além disso, há coisas que você não deveria ver...ou saber. Sério, pelo seu bem eu só quero que você esteja bem. Por isso, eu digo que não, ponto final.
-E eu digo que sim, eu vou. E ponto de exclamação.
Lavi lançou um olhar de algo que identificamos como uma mistura de preocupação e indignação. Os olhos arregalados, as pernas ainda batiam nervosamente no chão, as mãos iam e vinham nas mechas ruivas, jogando-as para cima, mordia o próprio lábio inferior, procurando um jeito de acabar com sua vontade de amarrar o garoto, brigar com ele e mandá-lo por correio para Mana, só para garantir que não fosse segui-los.
-Não adianta, Lavi- Allen encostou em seu ombro, vendo-o parar com seu nervosismo- eu vou, não importa o que faça. Você vai estar comigo, não vai?
O ruivo esperou um longo minuto.
-Tudo bem, mas se precisar eu vou mandar você ir embora, entendeu? Você não está acostumado com nada. Tomara que hoje não seja um daqueles dias...
-Acho que não vamos trombar com ninguém perigoso hoje- Daisya disse em tom zombador, mas Lavi não gostou, encarou-o de um jeito que apenas Kanda saberia fazer melhor para ameaçá-lo.
-Eu não quero interromper, nem nada do tipo- a voz grave de Marie assustou a todos- mas acho melhor irmos. Queremos permanecer inteiros e reconhecíveis.
-Então, vamos- Allen chamou-os mais a frente- seja lá onde estejamos indo...
-Exatamente!- Lavi exclamou- você nem ao menos sabe onde vai.
-Lavi, já disse que não tem necessidade disso.
-Por que tenho que cuidar de um garoto teimoso que nem você?
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Alma seguia com dificuldades os passos rápidos e determinados de Kanda. O sobretudo negro usual do japonês escondia uma katana pendurada em sua cintura, e balançava com a velocidade de sua corrida.
Tão logo a paisagem residencial a que estavam acostumados foi sendo substituída por uma de aspecto um tanto diferente. Um bairro do subúrbio.
As paredes brancas, de portões automáticos do qual saíam e entravam carros brilhantes, foram substituídas por construções obscuras de edifícios capengas, cujos tijolos vermelhos colados por cimento nunca foram cobertos ou pintados, sem acabamento, outras eram barracos preenchidos de tábuas mal colocadas, e fios de varais com roupas penduradas esticavam de uma parede a outra, caindo sobre as pessoas que andavam embaixo, na rua.
O chão era um misto de esgoto e sujeira, um cheiro de dejetos estava por toda a parte. O lugar era escuro, mesmo que o Sol nem tenha se posto. Homens miseráveis imploravam por esmola, jogados no chão, sacudindo seus potes de metais, cujas moedas tilintavam a chamar atenção. Dentes faltavam ou eram escuros e podres, cabelos desgrenhados, roupas que mais se assemelhavam a uma junção de panos de chão rasgados.
Crianças e mulheres se esgueiravam de becos, os corpos tão magros e os rostos pareciam se grudar nos ossos.
Uma palavra para descrever o local, seria “sujo”. Quem sabe “deplorável”. Mas nem Kanda nem Alma pareciam se importar com a paisagem, passaram como uma monotonia pelos pedidos de esmola e piedade, viraram em um beco tão sujo e escuro quanto.
Kanda ignorou os olhares de diferentes intenções daqueles que estavam por lá, dirigiu-se para o fundo e entrou na porta escancarada a direita, seguido por Alma. Uma placa torta praticamente despencava logo acima: “Midnight Mercy”.
O moreno sentiu a fumaça de cigarro, que estava por toda a parte naquele bar, e logo depois ouviu as irritantes vozes de conversas por todos os lados. Estava cheio de pessoas e, apesar de odiar aglomerações de pessoas, empurrou alguns que atrapalhavam seu caminho e sentou-se na cadeira do balcão.
-Yuu Kanda- o barman virou-se para ele- e Alma Karma. Quando chega o resto da deliquência?
-Cale a boca e faça seu serviço- o moreno respondeu educado como sempre- Tyki Mikk.
O barman sorriu, apesar da resposta mal educada. Era um homem jovem e atraente, pele morena e cabelos negros bagunçados. Seu sorriso beirava a ironia e sadismo ao primeiro ver, mas era amigável.
- Boa noite, Tyki- Alma sentou ao lado do amigo e, diferente dele, acenou para o barman.
-Boa noite, Alma. Vou trazer algo para beberem.
-Obrigado.
Tyki saiu de suas vistas por um momento e voltou com copos e uma garrafa de bebida alcoólica para entrega-los.
-Uísque. Pode ser?
Sem responder, Kanda esticou o pequeno copo (um pouco sujo) para ser preenchido e assim o barman fez. Alma relutou em tomar, mas mesmo assim esticou seu copo também.
Kanda virou o copo de uma vez.
-Uau- Tyki disse- sempre me surpreendo com sua habilidade de beber desse jeito. Deve ser de tanto beber. Algo muito mal para alguém da sua idade...- ironizava como nunca.
-Faça a porra do seu trabalho quieto- Kanda resmungou ao virar seu segundo copo, mas em nada abalou o barman.
Alma tomou o segundo gole de seu copo, pois não lhe agradava beber a sua idade, diferente de Kanda que bebia normalmente vários copos de bebida forte, mesmo tendo a mesma idade que Alma.
Ouviram o bater de vários passos entrando no bar, o moreno nem mesmo precisou olhar para ver quem estava andando em sua direção.
-Já chegaram?- comentou sem emoção para Daisya, Marie, Krory e Lavi.
-Estamos aqui, não estamos?- o ruivo comentou ironicamente.
-Eu não responderia assim, Usagi. Se quiser estar inteiro...
-Kanda...você BEBE??
A voz de Allen cortou a conversa, o garoto era o motivo da atual irritação de Lavi. O japonês, que até agora não havia desviado seu olhar do copo para o grupo, não tinha percebido sua presença, e tão logo ouviu a voz surpresa do albino, fechou sua mão no copo, em irritação. Por pouco o copo não quebrou, mas chegou a trincar, acompanhando o som de uma veia a estourar de nervoso em sua testa.
-Sim- virou-se com um sorriso irritado- eu bebo, não tá vendo, moyashi?
-É Allen- corrigiu.
-Não vou decorar um nome que não vale a pena.
-Então eu também não...Bakanda.
O resto acompanhou um show de faíscas imaginárias que pensavam contrastar entre os dois, como uma guerra silenciosa, como se saíssem pequenos raios de raiva de seus olhos que se encontrasse no meio do caminho. Mas se impressionavam com a atitude dos dois, um com o outro.
-Não devia beber, não tem idade- Allen disse.
-Vai querer bancar minha mãe também. Ora, desculpe mamãe, mas esse cargo irritante já é ocupado pelo Alma que não tem nada melhor para fazer. Pra começar, se veio pra ficar cuidando da minha vida, não devia ter vindo, não foi convidado e aqui é um bar, onde pessoas bebem e não onde ficam distribuindo lições de moral. Se vai ficar implicando com idade, não devia estar aqui.
O japonês sorriu ironicamente e sem emoção, apenas esticou de leve o canto dos lábios, antes de voltar sua atenção à garrafa de bebida que usaria para encher seu copo.
-Mas eu vim pra te ver, Bakanda.
Kanda engasgou com o pouco de bebida que colocou na boca. Virou-se pasmo para o albino, que o encarava normalmente.
-Não preciso de um stalker.
-Não estou te stalkeando...-sussurrou ao puxar Lavi para sentar no banco ao lado do que iria sentar.
Tyki se aproximou vendo o grupo maior no balcão, cumprimentou e atendeu Daisya, Krory, Marie, Lavi...
-Ora, uma cara nova?- falou ao ver Allen sentado no balcão.
Kanda olhou para Allen em desgosto.
-É um moyashi stalker.
-O nome dele- Alma soou ao lado do moreno e acenou para o albino- é Allen. Um amigo nosso.
-Deliquente?
-Não-Lavi respondeu por todos- nem devia estar aqui.
-Oi- o albino acenou para Tyki- Allen Walker.
-Tyki Mikk. Arranjaram um garoto bonitinho, não? O que vai querer?
-Tyki- o ruivo falou, antes que Allen pudesse abrir a boca- ele não bebe.
-Kanda bebe, por que eu não...
-Porque não. Traz um copo de água pra ele.
O barman sorriu e saiu para buscar.
-Eles não pedem identidade para beber aqui?
-Você é cego, moyashi?- Kanda perguntou ao seu lado- não viu a paisagem do caminho? Você acha que tem algum tipo de fiscalização aqui?Rá. Só se for bem idiota. As pessoas aqui precisam de dinheiro. E precisam de distração.
-Ah...
Como os comentários de Kanda sempre conseguiam deixar o clima mais e mais tenso?
-Aqui, um copo de água- Tyki colocou o copo sem graça em sua frente e um copo de bebida alcoólica em frente ao ruivo, o que fez Allen encara-lo sem acreditar.
-Eu posso, você não- o ruivo esclareceu ao levantar o copo e levá-lo a boca.
Por alguns minutos ficaram em silêncio, a turma levando os copos à boca e sorvendo o líquido. Ao bater dos copos no balcão, Alma, que tinha demorado de propósito em seu único copo virou-se para Allen, que encarava seu copo de água vazio.
-O que veio fazer aqui, Allen?- perguntou- não é um lugar muito apropriado.
-Eu já disse.
-Veio ver o Yuu?- Alma sorria como nunca, fazendo questão de repetir para ver o moreno contorcendo o seu rosto, agora avermelhado, em uma tentativa de escondê-lo.
- Eu fiquei irritado com ele quando ele falou aquelas coisas no terraço- Allen se explicava- eu simplesmente senti que...era necessário.
-Aí ele veio encher o meu saco que vinha porque vinha- Lavi se lamentava.
-Nossa, tão teimoso que parece alguééém que conheço.
-Mais um, Tyki- Kanda bateu o copo na mesa.
Mais passos fortes na porta. Ela abriu rangendo bastante. Allen olhou a tempo de se espantar com quem passava por ela. Fumando um cigarro e em seu jeito desleixado, seu tutor Cross Marian entrava no Midnight Mercy.
-Mestre...?- sussurrou.
Os outros viraram, estranhando o comportamento do albino,
-Allen?- Cross parou ao seu lado, espantado. Sua voz grave chamou ainda mais a atenção dos presentes.
Cross era um homem alto e muito atraente. Cabelos ruivos e lisos que ultrapassavam os ombros, olhos pequenos e pouco puxados, um lado do rosto oculto por uma máscara branca.
-O que você tá fazendo aqui, moleque??!- estava prestes a bater no garoto.
-Ah, mestre...
-Pupilo idiota. Mana sabe disso?
-Não. E seria bom se você não contasse, é um pouco complicado.
-Hm...imagino.
-Eu nem bebi, eu juro. Não fiz nada demais.
-Se quiser pode leva-lo, não to nem aí.
Cross olhou para o autor da fala, Kanda mexia em seu copo ao lado de Allen.
-Ah, amigos- o tutor observou o grupo em que seu pupilo estava enfiado-...não me importa nada sobre você, na verdade. Muito menos sua má companhia.
-Allen será que você atrai os grossos?- Lavi riu nervoso- por que vem o Yuu e agora...?
-Cross Marian- Allen completou a frase- meu tutor. Achei que já se conhecessem.
-Ah- Lavi mudou o olhar e olhou estranho para o homem que pedia uma bebida forte para Tyki- o cara que extorque seu dinheiro.
-Não é bem extorquir- Cross deu um gole demorado em seu copo- ele só me faz um favor.
Kanda riu de leve pelo nariz.
-Eu não tenho dinheiro no momento, mestre. E, além disso, não sabia que você vinha aqui...
-Acho que quem deveria estar surpreso sou eu. Não achei que andasse com ele.
Allen seguiu com o olhar para onde seu mestre apontava com o copo e deu de encontro seu olho com de Kanda, que tinha um olhar maldoso.
-O garoto malvado- o tutor ironizou ao máximo sua fala- quantas pessoas vai apagar hoje?
-Cala a boca.
-Só não mate meu pupilo, por favor- deu um gole em seu copo- ele é minha fonte de dinheiro.
Cross foi atingido por um pedaço de madeira, perto do seu olho exposto, que foi arrancado do balcão à mão. Kanda havia jogado com todas as suas forças.
-O “malvado” aqui é você- enfatizou as aspas.
-O que? Ficou bravo pelo que eu disse do Allen?- observou o moreno se contorcer- são amiguinhos?
-Mestre, para com isso!
-Vamos, então- Kanda bateu com força o copo vazio na mesa. Claramente estava falando em sair do bar, assim os outros o acompanharam na ideia, tomaram o que restava nos copos e levantaram das cadeiras.
-Vamos!- Allen gritou ao seu lado, animado, já se levantava.
-E você- Lavi apertou as bochechas do albino com tanta força que seus olhos lacrimejaram- vai voltar pra casa.
-Não- Allen disse com dificuldade-eu vou com vocês. Por favor, eu posso ajudar ou sei lá!
Todos olharam para Kanda, que deu uma risada pouco amigável, ele deixava seu último copo na mesa.
-Ajudar?- ele perguntou- isso não é um passeio no parque, retardado. Um moyashi não sobrevive.
-O negócio- Lavi se intrometeu- é que todo mundo aqui tem habilidade...e motivo para isso. Allen, você não conheceu ainda o que nós fazemos por aí. Você viu os incidentes no noticiário, eu tenho evitado falar disso com você, mas...
-Por isso mesmo. Eu quero conhecer.
Houve uma grande pausa, ninguém parecia querer dizer algo.
-Não basta apenas, tipo...bom nos esportes, ou algo do tipo- Lavi balançou a cabeça- todo mundo tem que ser útil. Tipo, eu sou bom em descobrir mentiras, lembra? Nunca deixo escapar qualquer que seja. Também sou uma fonte de informações, um banco de dados sei de tudo que acontece. Alma é consciente. Marie tem boa audição. Krory é...forte, quando precisa...na verdade é meio bipolar. Daisya tem essa cara feia -brincou- e tem pés rápidos. E o Yuu- olhou de esguelha para Kanda impaciente- é o... Yuu.
-Não me chame pelo nome.
O albino olhou para o chão, pensativo. Lavi encostou o braço em seu ombro.
-Tá, tanto faz- ignorou o moreno que brigava com ele pelo modo como o chamava- mas Allen, você não precisa estar aqui. É sério não precisa, não é um bom lugar, uma boa situação. As pessoas aqui tem história diferente, por isso que...
-Trapaça- o garoto sussurrou.
-Hã?? Quê?- Lavi estranhou a fala sem sentido- Allen, você tá bem?
-Sou um trapaceiro.
-Ah, er...que bom...
-Certo mestre?
-Ah- Cross, que prestava pouca atenção na conversa olhou para o albino- certo.
-Aí- Allen apontou para o tutor- uma habilidade. Preciso mostrar?
Kanda riu ao seu lado. Desencostou do balcão e se aproximou do albino, com um sorriso desafiador no rosto que parecia se divertir com a sua fala.
-Mostre, então.
Foi o mesmo sentimento que quase o fez pedir ao garoto para provar a sua importância no terraço que o obrigava nesse momento a pedir que mostrasse o quanto o albino valia.
-Ótimo- Cross levantou de seu banco- aproveite e ganhe meu dinheiro, pupilo idiota.
-É assim que você ganha o dinheiro do cara?- Daisya se pronunciou pela primeira vez desde a chegada de Cross- eu já estava imaginando algo mais estranho, ilegal...e pervertido...
-Você imaginou que o Allen era um...um p-prost...? Esquece...- Lavi nem ao menos conseguiu completar a pergunta, acompanhou Cross.
Allen saiu de seu banco. Cross o segurou pelos ombros e o guiou até uma mesa redonda mais para o fundo do bar. Havia cinco homens grandes e imundos sentados ao redor, mexendo em cartas de baralho e rindo como porcos. O tutor empurrou o albino naquela direção.
-Poker, moyashi?- Kanda soou acima de seu ombro, seu hálito bateu em sua nuca e fez seu copo pular com a sensação- achei que você fosse o azarado da história.
-Fique e veja- Allen sorriu de um jeito maléfico- Yuu Kanda.
O moreno não soube o que fazer ao ver aquela expressão um pouco sádica tomar o rosto do albino, algo que não esperava. Sorriu de leve quando viu suas costas se dirigindo a uma cadeira da mesa, ao lado de um dos cinco homens.
-Será que posso jogar?- perguntou.
-Uau- um deles soou irônico- a donzela sabe jogar?
-Mais do que pensa- sussurrou, puxou a cadeira para se sentar, enquanto os homens riam da sua idade e aparência graciosa e infantil, que de acordo com os comentários “não serviriam para uma rodada inteira sem choro”. Ao contrário, deu um largo sorriso, que fez Kanda arrepiar na cadeira afastada de onde observava.
-Esse não é o moyashi...é?- sussurrou para si, ainda que Alma risse desse comentário.
Cross se jogou em uma cadeira qualquer e puxou um isqueiro para acender outro cigarro.
-Olha, Allen- Lavi ainda não desistiu, chamou-o a cutucadas no ombro- tudo bem, você pode ser bom no poker, o que na verdade eu duvido muito. Mas qual seria seu motivo para estar com a gente, hein? Sem isso, nada tem sentido aqui.
Allen olhou para o amigo e sorriu de leve. Olhou de soslaio para a cadeira afastada e para as cartas em suas mãos, obviamente pensando em sua resposta. Deu de ombros, mas sorriu e disse a tempo de fazer Alma rir baixinho ao lado de Kanda.
-Venho dizendo desde que entrei por aquela porta. Eu estou aqui por causa do Kanda.
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