Bad Boy
4 Jantar
Notas iniciais
Então aqui está mais um capítulo e espero que vocês gostem. Se vocês perceberem, eu deixei um pouco de lado o assunto da gangue, mas é só por este momento, porque vou tratar em outros capítulos e tals.
Enfim, gostaria de agradecer aos leitores fofos que lêem e principalmente aos super fofos que sempre comentam ( Kanda Yuki, naiaracris, Emma schiffner, Sakura Hime, Paola Luzzardi, Azurichan e MrsShamPoo!!!) pelos fofamente fofos e fodásticos comentários que sempre me inspiram :3!
Boa leitura!!
-Então vocês são da mesma escola?- Mana perguntou da cozinha, onde estava colocando as panelas em seus devidos lugares, se preparando para cozinhar.
-Isso mesmo!- Allen gritou da sala, onde organizava as almofadas.
Kanda estava simplesmente largado em um dos sofás do cômodo. Observava o garoto desesperado jogando almofadas em outros sofás e guardando coisas aleatórias em gavetas aleatórias.
-Desculpe, Kanda- ele disse pela vigésima vez desde que entraram em sua casa- nós não costumamos receber visitas assim. Então a casa está uma bagunça...
Deu uma risada amarela para o rapaz.
-Nem se preocupe- respondeu friamente.
O moreno olhou todo o terreno. Ignorou a bagunça (que nem era tanta a ponto do garoto se desesperar) e percebeu a animação que exalava daquela casa.
-Fique a vontade- o garoto tirou o suor da testa quando determinou que já havia arrumado tudo, ou pelo menos tirado a bagunça do campo de visão da visita- pode sentar aí. Eu vou ajudar na cozinha, tá.
-Hm- concordou.
Continuou sentado, observando o seu redor. A parede branca era coberta de retratos de família, a maioria estampava o rosto sorridente de Allen ao lado de seu pai. Pescando, na praia, no campo... O cenário mudava, mas em todos tinham o mesmo sorriso. Kanda estranhou. Como podem ser felizes em todas as horas? Por que eles tinham que sorrir em todos os momentos?
Levantou-se para observá-los melhor. Apenas um retrato era diferente. Ao lado dos dois, havia uma mulher muito bonita, também sorrindo e abraçando-os. Era um cenário bonito, um canteiro de rosas ao fundo, o chão de gramado bem verde, o céu azul. Sua mãe, imaginou o rapaz.
Estranhou mais ainda. Pois lembrava que o pai havia dito que eram apenas ele e o garoto.
Desviou o olhar e partiu para outros retratos mais antigos de Allen. E que tipos de fotos ridículas eram aquelas? As típicas fotos que pais tiram da gente quando somos pequenos. Nos lambuzando todo, caindo, fazendo careta. Uma, em especial, fez Kanda esboçar um sorriso, era de Allen com seus dois anos, usando um tutu de bailarina e fazendo pose, todo sorridente.
-KandAAAAAAHHH!
O garoto chegara da cozinha e correu na frente do japonês que examinava mais fotos do garoto.
-Não!! Saia da parede da vergonha!
O moreno sorriu de lado.
-Tutu de bailarina, senhor moyashi? Sempre achei que você tendia para esse lado...
-Hunf. Eu era pequeno e achava descolado, tá? Aposto que você também deve ter fotos assim.
O rapaz ficou pensativo e encarou o chão.
-Não, não tenho.
-Hm...
-Mas são muitas fotos, não?
Allen ignorou a estranheza de um Kanda falante, aproveitando a deixa para manter uma conversa que sempre quis ter com ele.
-Aham- concordou- uma bela coleção, não?huhuhu meu pai gosta de tirar fotos, guardar momentos. Desde aquilo... é melhor guardá-los...
O moreno ignorou a curiosidade de saber sobre aquilo e continuou olhando a sala. A escada ao canto de tom amarelado, o sofá cor de vinho em que sentara e o sofá cinza logo à direita, a poltrona a frente da lareira ao seu lado, a porta para a cozinha. Não era uma casa gigante, mas confortável.
Passou as mãos pelas fotos sendo observado pelo pequeno ao seu lado. Novamente parou na diferente.
-Bonita, não?- Allen sorriu ao referir-se a mulher. Os olhos baixaram e a boca dava leves sorrisos, o garoto tirou o porta-retrato para tê-lo em mãos- minha mãe. Quando ainda podia ficar ao meu lado.
O moreno observou os olhos prateados escurecerem por um momento. Pensou que o garoto fosse começar a chorar, mas não aconteceu. Ele voltou a sorrir.
Um sorriso torto.
-Vamos lá? Já preparamos a comida e olhe só, tem sobá.
Kanda não sabia se deveria acompanhá-lo. Por que eles tinham que sorrir em todos os momentos? Ele tinha a resposta. E não parecia muito boa.
Olhou desconfiado o garoto passar pela porta da cozinha e o seguiu para sentar-se a mesa, à total desgosto.
Sentou-se emburrado, se contentando em observar o garoto sorridente e o pai sorridente em uma jantar sorridente em família sorridente. Kanda podia jurar que até mesmo seu prato sorria para ele, tal feliz era o clima dali. Um clima diferente do que se acostumara.
-Ainda bem que aceitou, Kanda- Allen colocou os copos a mesa- às vezes fica um pouco monótono jantar a dois.
-Hm...-respondeu sem alguma reação.
-É- agora era Mana que trazia o último prato a mesa- amigos do Allen são sempre bem-vindos!
-Não somos amigos- respondeu friamente.
-Ah... tudo bem...
Kanda ignorou o fato de Mana encarar Allen se um jeito confuso. O garoto gesticulou um É assim mesmo para o pai e logo distribuiu os pratos pela mesa.
O moreno esperou a dupla sorridente se servir para colocar sua miséria de comida no prato, algo que demorou,porque o albino não parecia ficar satisfeito com o monte gigante de comida no seu prato e sempre pegava mais.
O pai ria do esfomeado, mas mesmo assim passava os pratos enfileirados para que pudesse comê-los.
-Só isso, Kanda?- Mana perguntou ao perceber o pouco de sobá que o garoto havia pego- pode pegar mais. Está liberado.
-Não. Não sou de comer muito.
-Bem, tudo bem. Nem posso falar que não vai crescer se não comer. Sinto saudades da idade em que eu falava assim com o Allen...
-Pai, não comece a falar daquele papo de metamorfose na frente de visitas...
O moreno riu de leve.
-E no fim nem crescer ele cresceu...- abocanhou o sobá- mesmo com o tanto que come, continua um moyashi.
-Moyashi...?- Mana estranhou.
-E você, seu anormal, que come que nem um passarinho!
-Pelo menos eu cresço...
-Hunf.
-Huhuhu- riu Mana- não são amigos, né...?- sussurrou.
Entre garfadas e goles, Allen e Kanda soltavam alguns insultos como sempre. Algo que deixou o moreno irritado, como sempre, ao ponto de quase entortar o garfo com mordidas violentas.
-Então, vocês estudam na mesma escola, certo? Nunca vi você lá. O Allen nunca me disse, também.
-Hm...- o moreno mastigava lentamente- talvez nossos horários nunca batessem- mentiu.
Mana observava sentado do outro lado da pequena mesa que se transformara em um campo de batalha verbal entre os garotos de tempos em tempos. Às vezes soltava algumas risadas, enquanto enchia os copos da mesa com mais refrigerante. Até os dois largarem os garfos e facas em seus pratos agora vazios e terminarem a discussão sem fim. Levantaram quase que ao mesmo tempo para levar o que usaram para a pia, onde aguardariam para serem lavados.
-Estava bom, Kanda?- Allen perguntou enquanto levava o resto também.
-Sim...
-Ainda bem. Eu fiz o sobá, viu?
-Ah, então estava horrível- sorriu torto como sempre fazia como debochava do pequeno, ainda mais quando ele emburrou-se fazendo uma careta para ele em resposta.
Kanda sentia-se extremamente bem. Achava, pelo menos.
O ambiente fazia com que ele se sentisse confortável, o calor que o ambos, pai e filho, emanavam a cada frase, a cada gesto, a cada expressão. Enchia o seu corpo com uma sensação divertida.
-Eu já vou indo. Tenho que ir para casa.
-Ah, sim.- o albino acompanhou o garoto até a porta da frente- obrigado por vir Kanda. Pode aparecer outras vezes!
Principalmente o garoto. E estranhamente isso o fazia ter mais vontade de provocá-lo e de esmurrá-lo o quanto quisesse.
Mas era desconfortável. Uma sensação horrível se apoderava juntamente com as outras. Aquela casa e tudo o que há nela não parecia lhe fazer bem. Dava-lhe náuseas.
-Kanda- Allen apareceu atrás dele- você se incomoda se eu te acompanhar? Não é bom sair por aí a noite sozinho.
-Sei me cuidar- respondeu sem parar de andar. O pequeno se esforçava em acompanhar seus passos rápidos- entre mim e você, quem deveria ser acompanhado é você.
-Também sei me cuidar.
-Tanto que eu quase te matei- falou ironicamente, o garoto ignorou, sabia que ele jogaria na sua cara o acontecimento pelo resto da vida.
Kanda esperou a resposta, mas não veio nada.
-Eu já estou acostumado- continuou, então- a andar sozinho assim à noite.
-Mas e Alma e Lavi e o resto?
-Eu não preciso ficar grudado neles. Não preciso grudar em ninguém. É um saco.
-Ter amigos não é um saco!
-Nunca disse que éramos amigos. Só nos reunimos em um grupo maior para sermos mais ameaçadores. Talvez eles sejam amigos entre si,mas não me inclua nessa sua idiotice de mundo cor-de-rosa.
-Você deveria parar, sabe?- o garoto chutou uma pedra qualquer, só para distrair-se- vai acabar se machucando em brigas.
-Já me machuquei. Ou você acha que dá para puxar briga pacificamente?
-Deveria parar de puxar briga, então!- se pôs a frente do moreno, o que fez ele parar de caminhar para voltar seus olhos à ele- você, o Lavi...Todos vocês!! Para que isso? Não vai acabar bem... Eu vi você ferido aquela noite. Não parece que seja algo sensato continuar vivendo desse jeito.
-E quem disse que esperamos que acabe bem??- respondeu agressivamente, enquanto tirava o garoto do caminho- quem disse que gostamos de viver assim?
-Então por que...?
-E quem é você para querer mandar em nós? Desfazer nossas regras??!
O garoto nada disse, ficou pensativo em seu canto. Mas Kanda já sabia, já sabia exatamente quem Allen era. Porém não sabia o que ele seria capaz de fazer.
— Eu sou seu amigo, Kanda...- sussurrou baixo, mas mesmo assim o moreno pôde ouvir.
Chutou mais uma pedra pequena qualquer que estava a sua frente, quase acertou o gato que se escondia embaixo do carro ao seu lado.
-Você deveria ao menos ir à escola- sugeriu ao japonês- não é tão ruim. Você deveria experimentar.
-Perda de tempo.
-O que você anda fazendo para mim parece perda de tempo- retrucou, mesmo aos olhares assassinos do moreno- que tal assim? Você vai alguns dias e experimenta. Eu não vou te encher, é só que... Você devia ir, vai esfriar a cabeça um pouco. Não vai te prejudicar em nada. Eu juro.
-Vou pensar em seu caso...
-Já é um progresso- sorriu, daquele jeito que Kanda viu nas fotos da parede, do jeito que ele sempre conseguia sorrir para exibir aqueles dentes brancos em um gesto de felicidade, aos olhos de Kanda, anormal...Mas gentil- eu fico por aqui, então. Não vou encher mais o seu saco por hoje e nem te atrapalhar, já que você gosta de ficar sozinho. Até mais. Te vejo na escola.
O garoto acenou quando se despedia de Kanda na esquina. Voltaria mais uns três quarteirões para chegar à sua casa.
Kanda olhou ,abobado, a figura branca sumir, correndo pela calçada.
-Escola...é?- disse para si- nunca disse que iria...
Ele se viu sorrindo para sua própria mão, que agia praticamente sozinha quando esfregava seus olhos e seu rosto, quase amassando suas feições. Não estava bem. Não estava nada bem. Náuseas. Seria isso?
Desde que entrou naquela casa, desde que olhou os olhos redondos e brilhantes do rapaz, desde que observou, sem reação, a boca rosada dele contornar um sorriso tão bonito que nunca vira, desde que conheceu aquela família, desde que observou aquelas fotos, desde que se viu perguntando-se, curiosamente, sobre a vida do garoto. Estava perdido. E subia por todo seu corpo, desde seus pés até o topo de sua cabeça, uma sensação estranha, horrível, boa. Desde que pôde sentir a aura que exalava daquela casa.
Por isso encostou-se no muro ao lado com a mão na boca, tentando conter o que quer que fosse aquilo.
Os sorrisos, os gestos, a conversa. Ambos, pai e filho... Não lhe fazia bem. Deixava-o desconfortável, a cada vez que passava os olhos por aquelas fotos, a cada vez que observava os dois conversando, a cada vez que se via naquele ambiente caloroso. Ele sentia que deveria sair dali o mais rápido possível. E assim fez.
Sem sentido, correu por alguns quarteirões. Esperando que com o afastamento daquele lugar, conseguisse fazer com que algo levasse o calor que emanava do garoto albino embora de si. E o colocasse de volta no frio de sua vida.
Parou ofegante, em frente ao portão uma casa grande. Um portão um tanto gigante que estendia-se em barras de ferros com detalhes circulares e pontudos na ponta. Um muro branco que devia ocupar o quarteirão inteiro, e a campainha eletrônica, que junto com as câmeras e o porteiro da casa, completavam o conjunto que garantia a segurança dos moradores. Pressionou o botão.
-Boa noite, senhor Kanda.- uma voz eletrônica, do porteiro, soou na caixa.
-Tadaima.
E o garoto esperou até que os portões de abrissem, rangendo em suas extremidades, para andar de volta ao seu lar. Mesmo que, por um segundo, desejasse correr de volta para o calor que sentia há minutos atrás.
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— Bom dia, Kanda-sama.
O moreno esfregou os olhos lentamente, na mesma velocidade com que abriram quando o mordomo entrou em seu quarto para acordá-lo. O homem abriu as cortinas, deixando que a luz do Sol entrasse e iluminasse o quarto gigante, atingindo até mesmo os olhos estreitos do rapaz e o obrigando estreitá-los ainda mais, para então acordar de verdade. Espreguiçou-se ainda na cama, enquanto o homem loiro e de expressão normalizada ajeitava as cortinas e colocava uma bandeja cheia de comida à sua frente, antes mesmo que pudesse levantar.
-Hm...- resmungou, as mãos esfregavam os olhos e arrumavam o cabelo longo que estava com fios bagunçados- Por que me acordou tão cedo hoje?
— Você me pediu, Kanda-sama, ontem a noite quando chegou para que eu acordasse você às 7h30 hoje.
-Hm... É verdade. O que eu tinha na cabeça?
-Não vai comer?
-Não estou com fome- levantou-se, empurrando para o lado a bandeja- saia da frente. Preciso me trocar.
-Vai a algum lugar?- o mordomo perguntou, dando espaço para que o moreno pudesse passar e ir em direção ao armário grande e luxuoso encostado na parede.
-Escola- pegou um conjunto de roupas no fundo do armário, um pouco amassado, com certeza não deveria usar a muito tempo. Tirou a camisa de seu pijama, para poder colocar seu uniforme de escola.
-Já faz tempo, não? O que o fez querer ir? Vai acontecer algo hoje? Alguém especial?
-Não é da sua conta- respondeu friamente, e o mordomo logo se endireitou- agora, será que poderia me deixar sozinho, eu já disse que vou me trocar. Será que devo pedir mais de duas vezes?
-Não, senhor. Já vou indo. Espero lá embaixo- curvou-se, não que o moreno tenha ligado, e fechou a porta atrás de si quando saiu do quarto.
O garoto se olhou no espelho, perguntando se realmente iria fazer isso. Voltou à sua cabeça a imagem de Allen ontem à noite. Sempre voltava. De tempos em tempos.
Você deveria ao menos ir à escola, ele havia dito, não é tão ruim. Você deveria experimentar.
Esfregou o rosto e se direcionou para o banheiro.
O que você anda fazendo para mim parece perda de tempo, se lembrou, que tal assim? Você vai alguns dias e experimenta. Eu não vou te encher, é só que... Você devia ir, vai esfriar a cabeça um pouco. Não vai te prejudicar em nada. Eu juro.
O mais ruim de tudo é que ele realmente iria fazer o que ele mandava. Péssimo.
Molhou o rosto, tentando se manter acordado. Há quanto tempo não acordava desse jeito. Com compromissos com o dia e com ele mesmo. Muito tempo. Prendeu o cabelo em um rabo como sempre, usando o primeiro elástico que achou.
Ajeitou o casaco. Estava ventando lá fora. Colocou quaisquer livros em sua bolsa malcuidada e olhou mais uma vez para seu reflexo, perguntando se realmente valia a pena, antes de colocar a bolsa no ombro e sair pela porta, ainda sem resposta.
Desceu as escadas rapidamente e saiu de casa tão rápido quanto, antes que o mordomo percebesse que já havia descido e fosse importuná-lo.
Gritou para o porteiro abrir o portão e tão logo estava na rua a caminho da escola. Ignorou o oferecimento de carona dado pelo seu motorista e apertou o passo.
Ignorou o povo feliz pelo qual passava. Quase nunca saía de dia, ainda mais esse horário e ficava apreensivo quanto a animação daquele padeiro que o cumprimentou na rua, o jardineiro que arrumava o canteiro de seu vizinho, a floriculturista que tentou entregar-lhe rosas de graça. Não entendia.
Tão logo desviou deles, se viu em frente a um terreno grande, ocupado por um ou mais prédios de 3 ou 4 andares. Um amontoado de pessoas se encontrava conversando ou entrando pelo portão gigante a sua frente, e um jardim preenchido de flores coloridas e árvores. Ao ver isso, teve uma vontade de virar e sair dali o mais rápido possível. Mesmo assim andou em frente e passou pelo portão. Agora não tinha volta, ele estava na escola.
Ia voltar, mas correu inutilmente em direção ao portão que se fechava à medida que o sinal da primeira aula batia. Sentia-se preso naquele lugar.
Maldito moyashi!, pensava, tentando controlar sua raiva, que crescia ainda mais assim que os olhares de pessoas a sua volta recaíram sobre ele. Mesmo assim, passou pela porta do prédio, empurrando aqueles que estavam em seu caminho.
Subiu correndo os lances de escadas quando percebeu que os corredores estavam vazios e provavelmente ficara muito tempo relutando lá embaixo que acabara se atrasando. Confirmou as placas em cada sala por qual passava e lembrava vagamente que sua sala seria em algum fim de corredor.
Estava certo. No fim do corredor daquele terceiro andar, encontrou uma sala cuja placa indicadora logo acima, exibia sala 9: 2ºA. Ia rodar a maçaneta, mas uma sensação de desespero invadiu seu corpo ao ouvir as risadas dos alunos que estavam na sala, riam de algo que o professor comentou.
O que iria fazer lá? Como iriam reagir? Como ele iria reagir? Chegar assim sem mais nem menos depois de tempos sem aparecer na escola... De fato só continuava matriculado por causa do dinheiro e influência de seu tio.
Sua mão ia e vinha. Encostava de leve na maçaneta e voltava a se fechar, Os pés ora buscavam uma fuga e se mexiam em direção oposta, mas depois voltavam a se firmar na frente da porta.
Mais risadas.
Uma veia saltava como sempre de sua testa. Seria tudo mais fácil se ele conseguisse resolver isso na pancadaria também, mas isso deixaria o moyashi chate...
O moyashi.
Ele havia dito, que só alguns dias. Só para experimentar. Não precisava ficar se não quisesse. E ele pararia de encher seu saco, certo? Ele só tinha a ganhar com isso, certo?
Rá, quem é ele para mandar em mim?, pensou. Mas mesmo assim tomou coragem e girou a maçaneta.
A porta se moveu. E foi como se tivesse acabado de pressionar o botão de pause. A aula parou por um longo segundo e ele se sentiu uma atração de circo, já que os olhares se voltavam para o rapaz estranho de cabelos longos e traços perfeitos que adentrava a sala no meio da primeira aula. Como sempre, ignorou.
Passou por todas as carteiras ocupadas. As garotas cochichavam animadas sobre o quão bonito era o garoto que passava por elas, sem ao menos saber o quão agressivos eram os pensamentos deste no momento. Jogou os pertences na última carteira perto da janela de qualquer jeito e sentou-se naquela cadeira.
-Yuu!!- ouviu uma voz irritantemente conhecida soar em algum canto da sala, logo a sua diagonal.
-Cale a boca, usagi.- murmurou mal humorado.
-Você aqui?? Mas que surpresa!!- Lavi apoiou a cabeça em sua mão e deu um largo sorriso- o que te traz aqui, hein? Vontade de me ver.
-Nem que você fosse a última pessoa viva na Terra.
-Ui! Doeu!- fingiu estar horrorizado, levou as duas mãos ao rosto, espantado. Uma atuação exagerada, cujo terror era quebrado pelo seu sorriso largo no rosto.
— Temos um aluno novo?- perguntou o professor, olhando o aluno novo ao fundo.
-Não.- respondeu o moreno.
-Então como nunca te vimos aqui?
-Só porque nunca apareço não quer dizer que sou novo.
Caralho, pensava, cale a boca, me deixe em paz e vá fazer seu trabalho. O professor se alarmou quanto o comportamento e considerou a falta de interesse do moreno como um sinal de alerta, então voltou para a lousa.
-Ah!- Lavi exclamou alto- não vai se apresentar Yuu??
-Cale a boca! Já disse que...
-Esse aqui...- Lavi ignorou o amigo, levantou e começou a apresentação- é o Yuu! Ele é um amiguinho muito bom, gostoso...
Poderia continuar se um baque forte não tivesse o interrompido. Kanda havia socado a mesa, irritado.
-Eu faço minha apresentação. E não me chame pelo primeiro nome, usagi!- decidiu- er...Yuu Kanda. Tenho a mesma idade que vocês. Fim.
-Apresentação mais sem graça...- reclamou Lavi.
-Reclame mais uma vez, baka usagi- ameaçou- e vou enfiar aquele apagador no seu...
-Okay! Okay!- o professor gritou- vamos parar com isso. Seja bem vindo, Yuu Kanda. E vamos continuar a aula, por favor- indicou com o giz em sua mão a lousa preenchida de números.
O moreno entrou atrasado, mas só de observar o assunto entendera que era aula de física e logo tentou confirmar a presença do livro dessa matéria em sua mala a fim de usá-lo para fazer algo, ou pelo menos fingir que prestava atenção a qualquer coisa que ensinassem.
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O sinal bateu liberando os alunos cansados e esfomeados para o intervalo que esperavam a manhã inteira. Allen logo pegou a maçã que trouxera de casa para essa pausa e saiu com Lenalee em direção ao banco de sempre.
Jogou-se em um suspiro de alívio no banco de madeira ao lado da amiga. Tão logo deu uma mordida na maçã, ouviu a voz de Lavi atrás de si, ao longe.
-Allen!!! Lenalee!!- gritava desesperadamente- tem uma surpresinha para vocês!!
O albino ia gritar algo grosseiro de volta, pela sempre presente afobação de seu amigo. Mas quase cuspiu o pedaço de maçã que mastigava quando viu quem acompanhava (a contragosto) o ruivo.
-Bakanda...- sussurrou para si mesmo.
— Viu só?- o ruivo sentou ao lado do albino.
-Bakanda, você veio?- sorriu o albino.
-Tsc.- resmungou.
-Se conhecem?- Lenalee perguntou. Obviamente estava alheia aos acontecimentos desde a semana passada.
-Ah- Lavi se alarmou- sim, a gente...encontrou o Kanda no café quando a gente saiu da festa hahaha.
Allen nem ouviu o que Lenalee disse, estava muito ocupado observando com curiosidade o que o rapaz de cabelos longos fazia naquele lugar.
-Pare de bancar o idiota, moyashi- ele resmungou, ao olhar como o garoto sorria abobadamente.
-Não estou bancando o idiota- reclamou- só estou feliz que está aqui.
O moreno girou os olhos. O que o menino estava dizendo?
-Não ache que vim pelo que você disse recusou a sentar ao lado dos três- não acho que você ou tudo isso faça alguma diferença na minha vida.Tsc.
-Então por que veio?- o albino ajoelhou no banco e virou para trás, onde o moreno estava recostado na árvore.
-E isso te importa?
-Sim, se não não perguntaria.
-Ui- ironizou- olha só quem aprendeu a responder...
-Mas você não respondeu minha pergunta.
-Talvez eu não queira responder- a paciência estava a estourar, ele franziu bem mais o cenho. Os outros não perceberam, estavam imersos na discussão, mas ele enfiava as unhas com força no tronco da árvore- talvez eu não queira ter que aguentar moleques como você que se acham melhores o bastante para querer mandar na minha vida. Talvez eu não queira perder meu tempo respondendo estupidamente perguntas estúpidas, em uma discussão estúpida com um garotinho fracote e estúpido.
Houve uma pausa, provavelmente o moreno deixava que os três pudessem absorver o conteúdo de sua fala.
-Talvez- continuou- eu não queira ficar com pessoas como vocês que ficam brincando de amiguinhos a vida toda... inutilmente.
Em um movimento agressivo, ouviu-se o arrancar de um pedaço do tronco da árvore cerejeira. E Kanda andou de volta ao prédio da escola.
Ele apertava a madeira em seu punho. Como desejava que pudesse sair arrebentando tudo a sua frente.
Não queria isso. Não queria amigos. E aquele garoto? Acha que por ter conversado com ele uma ou duas vezes pode se ver como íntimo? Obviamente que não. Tolo.
Está na hora de mostrar a ele. Hora de mostrar que ele deve ficar quieto em seu mundo colorido e parar de querer interferir no mundo cinza escuro que não pode alcançar. Nunca poderá.
Allen observou o rapaz andar calmamente até a porta de entrada. Por algum momento, não ouviu o amigo Lavi que perguntava ou falava algo para ele. Ou mesmo Lenalee que o cutucava várias vezes. Sentiu uma raiva tremenda subir pela ponta de seus pés e transbordar pelas suas orelhas.
E foi essa raiva que o impulsionou a pular do banco , sair pisando forte a ponto de esmagar a grama aos seus pés e a tentar procurar o rapaz pela escola. Simplesmente com o objetivo de dar o maior soco que ele receberia na vida dele. Sabendo que ele já deve ter levado muitos.
Está na hora de mostrar a ele. Hora de mostrar que ele deve parar de se fechar em uma caixa quebradiça que ele acha impenetrável e perceber que ele precisa sair dali. O mais rápido possível.
Subiu escadas tão rápido como nunca. Sentia que ele estaria em um lugar isolado. E qual lugar mais isolado para ficar fazendo drama que a cobertura?
Escancarou a porta de ferro, ofegante, e se viu na parte mais alta de sua escola. O vento era tão forte que tinha que firmar seus pés no chão e se segurar nas bordas da porta para não cair de volta no lance de escadas.
Olhou de um lado para outro com dificuldade e viu algo esvoaçante atrás do concreto.
Kanda.
Correu, para garantir que a velocidade não o deixasse ser levado pela força do vento. E agarrou-se ao primeiro pedaço de pano que se viu.
-Urgh... M-moyashi?- Kanda quase caiu devido ao puxão que o albino provocou ao puxar a sua camiseta.
-Kanda...- o garoto estava ajoelhado, caíra quando pulava para puxá-lo, mas não levantou seu rosto.
-Ei, me lar...
Em um movimento rápido, o albino o impediu de completar a fala. Ergueu o punho e levantou rapidamente e atirou seu braço contra o moreno.
Que o bloqueou subitamente.
-Vai precisar de mais do que isso para me bater, moyashi.
Tentava se desvencilhar, mas o moreno era forte demais e pressionava seu pulso com o punho. Levantou o rosto furioso para o garoto. Estava vermelho, praticamente borbulhando, o cenho bem franzido e os olhos estavam pequenos como nunca.
-Uau- o moreno fingiu animação- nunca vi essa cara em você.
-Pare...
-Hm?
-Pare de desprezar aqueles que se importam com você...
O moreno se afastou. Largou o pulso do albino, que se largou no chão, e andou passos para trás. Bateu em um cano que o impedia de prosseguir sua ré.
Não entendia o que o garoto estava dizendo, reclamando dele desse jeito.
-Kanda, eu entendo se você não quer falar sobre isso...mas você deveria saber que há pessoas que se importam com você.
-Besteira.
-Não é besteira- se levantou, ainda esfregando o pulso que fora apertado- você deveria saber.
O moreno sentou no concreto. Só não esperava que o albino sentasse logo ao seu lado.
-Vai parar de me encarar?
-Não.
-Irritante.
-Sabe, Bakanda- ignorou o último comentário- você sempre diz que me despreza, que sou irritante...mas no fim deixa eu ficar assim, do seu lado.
-Se você preferir, eu posso espancá-lo agora mesmo. Só não faço porque quando acharem seu corpo eu seria o primeiro suspeito porque aposto que os seus dois amigos o viram correr atrás de mim e só há eu aqui em cima, além de que as pessoas daquele prédio logo ali tem total visão do que fazemos aqui. Testemunhas.
Allen se surpreendeu, mas riu de leve, ainda que duvidasse se ele estaria mentindo mesmo.
-Viu?- disse para o moreno- você pode conversar quase normalmente.
-Hm...depende de seu ponto de vista.
Depois de um sorriso e da risada abafada do albino, voltaram ao silêncio monótono de suas conversas. Allen observava o moreno ao seu lado.
O vento fazia o cabelo longo de Kanda esvoaçar e rodar para frente, o uniforme estava um pouco desajeitado (o que definitivamente combinava com seu estilo descolado), a gravata que deveria estar ali não estava e alguns botões da camisa estavam abertos, os olhos escuros adquiriam um brilho leve quando se posicionavam em um ângulo em que o Sol os alcançasse.
Deus! Como Kanda era bonito à luz do Sol. Muito melhor que na escuridão da pouca luz que a Lua proporciona.
-Eu me importo com você, Bakanda.- disse sem olhar em seus olhos- sei que nem nos falamos tanto, sem que nem devemos ser amigos e sei que você não está nem aí para mim, mas...eu sinto que me importo, nem que seja um pouco.
Antes que Kanda pudesse raciocinar ou mesmo responder, Allen levantou para tirar sujeira de sua calça. Espreguiçou-se.
-Eu gostaria de ficar mais tempo aqui é bem bonito- sorriu. Kanda entendeu como uma dica para esquecer o assunto de antes- mas eu tenho que ir para a aula. Algo que você não vai fazer,suponho, mas deveria.- riu- geografia. Estou um pouco perdido na matéria. Então... Nos vemos por aí, espero.
Virou-se e correu mais uma vez para a porta de ferro, sendo ajudado pela força do vento que o empurrava em direção à escada, deixando o moreno sozinho encostado no concreto.
Definitivamente ele não viria à escola por mais um tempo.
Mas tinha total certeza de que se conduziria para mais uma briga noturna essa noite. Porque não se arrastaria para esse mundo. Porque precisa contrariar o albino de todos os jeitos possíveis.
Antes que fique preso.
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