Bad Boy
19 Chá frio
Notas iniciais
“When you feel like there is no way out, LOVE is the only way”- 2NE1 ( I Love You)
Eu sou estranho? Eu sou diferente?
Eu vivo em um mundo em que não quero viver. Eu ajo como não quero agir.
A minha vida inteira eu fiquei esperando a tal esperança bater à minha porta. Mas tudo havia me abandonado.
Eu sou estranho? Pois a minha luz no fim do túnel sempre foi o brilho prateado dos seus olhos quando você sorri.
E eu fiz eles murcharem de tanta tristeza.
OoOoOoOoOoO
Os suspiros das garotas que se juntavam para ver o garoto na mesa estavam irritando. As colegas de trabalho ficaram ao seu lado comentando o quanto o japonês era tão incrível, bonito. Ignorando uma parte muito importante: elas não o conheciam. Senão, estariam tremendo como Allen estava.
–Vai, Allen- Travis disse- já faz um tempo que você tá aí, parado. Se mexa! O cliente te espera.
–Ah- ele respondeu, mesmo que não tivesse realmente ouvido o colega, as mãos dele que empurravam seus ombros em direção àquela “mesa maldita” sugeriam que ele deveria cumprir seu trabalho. Sem reclamações. Nenhuma reclamação.
Bem, talvez só uma.
–Ah, eu, eu realmente tenho que...?
–Qual é o problema? Ele sentou em uma mesa da sua área. Seu cliente. Eu tenho os meus também...
–AH, mas...É que...
Travis parou de empurrar, suspirou pesadamente e esfregou bem os olhos e resmungou algo, como se pedisse por mais paciência.
–Tá, se você não quiser... peço para a Laura ou a Megan atenderem, mas eu não queria porque elas estão praticamente babando.
Ah, doce indecisão.
Allen mordeu o dedão, olhando da mesa para o colega impaciente.
As palavras se embaralhavam na sua cabeça. Ex-namorado. Chute. Tristeza. Café. Cliente. Mulheres. Baba. Paquera. Outro chute. Mais tristeza. Ciúmes. Medo. Banheiro.
É não estava nem um pouco afim de ficar cara a cara com ele. Não queria de jeito nenhum...
Mas, como as boas línguas dizem: foda-se a vida.
–Eu vou lá atendê-los...
–Bom garoto.
Ainda tremendo, foi em passos pequenos e lentos, sempre se virando para ver Travis que o encarava para checar se realmente cumpriria. Mas até Allen duvidava que conseguiria. Parecia que havia passado uma eternidade quando chegou até a mesa.
Alma observava com tanta atenção o menu que seu rosto se escondia em meio as letras. Kanda só observava distraidamente os carros na rua. Allen pensou que ele estaria pensando em um bom jeito de fugir dali. Típico. Tão normal que por um momento o albino se pegou lembrando das vezes que saíam e ele se ocupava mais em observar o lugar fora da janela que em comer ou beber, mas quando desviava o olhar do moreno, ele sempre fazia questão de encará-lo e sorrir de lado...
Antes que se afundasse em lembranças, pigarreou um pouco, sentindo o olhar do colega pressionando-o a logo cumprir um serviço. Mas a questão era que para Travis aquilo parecia uma tarefa fácil. Para Allen, bem, ele sentia as pernas fraquejarem e a vida passar bem à sua frente. Como uma missão de vida ou morte. Só que pior, afinal ele não morreria, no pior dos casos, mas sofreria bastante, mais do que já sofria de medo no momento.
A pequena tosse proposital chamou a atenção dos dois.E aquele foi uns dos momentos em que você fica dividido entre fazer dar certo e encarar a situação ou torcer para que um meteoro caia na Terra por causa de uma invasão de extraterrestres malignos que querem os recursos do planeta e a destruição da raça humana, para poder arranjar um motivo para fugir da situação. E ele estava pendendo para a segunda opção quando Alma baixou o cardápio.
É, parece que os alienígenas não estavam muito do lado dele hoje.
“Mas nunca é tarde para uma invasão extraterrestre”, pensou esperançoso quando percebeu que Kanda não desviou o olhar do vidro.
–Ora- Alma disse, sorrindo- se não é o ALLEN.
Até mesmo o albino percebeu o tom de voz enfático quando mencionou seu nome.
Kanda deu uma pequena tremida no lugar.
Enquanto Allen torcia para marcianos saberem ler mentes e estarem com uma tremenda vontade de exterminar espécies de outros planetas, o moreno virou, praticamente em câmera lenta.
Uau, Allen havia esquecido da sensação de estar frente a frente com ele. Em um misto extremo de medo, tristeza e admiração, engoliu em seco para criar coragem. Nem havia notado o fato do moreno estar com os olhos triplicados de tamanho, de tanta surpresa.
–J-Já escolheram? P-Posso a-anotar seu pedido?- disse depois de quase uma eternidade tentando desviar os olhos dos de Kanda.
–Ah, obrigado- Alma respondeu, ainda sorrindo- volte daqui a pouco, ainda estamos escolhendo, certo YUU?
Mas Allen nem esperou uma resposta, disse que iria voltar depois de alguns minutos e saiu em um andar rápido que presumiu ser ridículo visto por outros. Mas era a corrida da sobrevivência para ele (somado ao fato do quadril ainda doer um pouco depois do tombo magnífico que levara quando Lavi o empurrou em sua casa). Encostou no balcão, para onde Travis acabara de voltar depois de atender um casal, e soltou o ar que segurou inconscientemente.
Achou até engraçado o modo como estava tratando Kanda como um animal. Faça silêncio ou ele te ataca. Não respire e finja de morto.
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–Olha, Kanda- Alma disse, assim que Allen voltou em uma corrida engraçada para o balcão- era o Allen.
–Não fale como se você não soubesse disso.
–Nossa, você acha que eu faria isso?
Kanda olhou com um olhar de “sério? Vai mesmo perguntar isso?”. Ele podia falar o que quiser, mas o sorriso malandro transmitia tudo que Kanda precisava saber.
–Eu não sei o que você está pensando- Kanda continuou- mas isso...isso não vai dar certo.
–Não seja pessimista.
–Só estou sendo verdadeiro.
Alma riu.
–Sério? Que ótimo- a ironia deixava Kanda irritado, mas ele estava indisposto para iniciar qualquer discussão ou briga.
O moreno agarrou o menu que estava na mão de Alma, apenas para se ocupar com algo que não fosse... se preocupar.
–Eu achei que você gostaria de ver o Allen.
–Pois não gostei- disse, sem tirar os olhos do menu, inutilmente, ele olhava para as letras, mas a mente não se preocupava com elas e sim com o garoto albino a metros de si- odiei. Posso ir embora agora? Eu não gosto dele e não ligo para ele. Se for para isso que nós viemos, quero ir embora.
Alma riu.
–Do que você está rindo??
–Não gosta dele, não liga para ele- ele balançou a cabeça- por que você está tremendo?
Kanda olhou para o menu em suas mãos, tentando prestar atenção nele, dessa vez. Estava realmente tremendo.
–Eu...
–Allen gaguejou.
–... er...
–Você ouviu, não? Ele gaguejou.
–ah...
–Bem na sua frente, Kanda.
–Tá, e daí?
–E ainda por cima foi andando esquisito. Você viu?
–Ah...vi... mas e daí?
–Foi andando esquisito e rápido. Como se não soubesse andar direito.
–...
–Por que você não bateu nele?
–Porque eu bateria nele?...
–Você bateu no bêbado ontem, não? O bêbado gaguejou, andou esquisito e aí você quase o matou. Disse que odiava esse tipo de pessoa que não sabia andar direito. Agora, responda-me Yuu Kanda- Alma pulou para a cadeira ao lado da de Kanda e chegou próximo ao seu rosto, Kanda já começava a recuar o pescoço temendo algo grande- por que você está tremendo e ignorou o fato do Allen ter sido por um momento uma “pessoa que você odeia”?
Não estava entendendo o ponto do amigo. Abriu a boca, prestes a dizer algo que nem mesmo ele sabia o que era, mas Alma falou antes dele.
–Olhe, o Lavi e a Lena estão logo ali? Será que estão esperando o Allen terminar de trabalhar? Vamos com eles.
E, sem resposta para si mesmo, Kanda foi levado até a outra mesa. O passado nem tão distante repassando em sua mente.
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A pessoa que ele menos queria encontrar. A pessoa que ele jurou, momentos antes, que evitaria a qualquer custo.
Que maior ironia poderia pensar quando a encontrou no seu próprio sofá? Esperando por ele...
Tomando um chá como se fosse uma visita normal.
Quando Kanda finalmente havia encontrado coragem para voltar para a casa do tio... Argh. Ele iria pedir incríveis desculpas por ter se ausentado por dias, tinha entrado e deixado a katana encostada na parede. E a viu sentada lá. Sentiu até um pouco de enjoo. O típico e lembrado cabelo liso e negro presos em um coque, as roupas frias e formais. O rosto fechado que ficava julgando tudo a sua frente.
Ele não admitia em voz alta, mas tinha quase certeza de o que sentia era medo. Desconforto. E era terrivelmente intenso.
E o pior é que não era mentira aquilo que eles falam de o corpo paralisar quando se está com medo.
A verdade é que naquele momento sua mente estava tão ocupada se lembrando de coisas que não queria que não conseguiu reagir ao encontro.
A mulher deixou a xícara na mesa, mesmo que ela não estivesse vazia.
Kanda queria sair dali, mas já era tarde.
Os olhos frios que agiam como cruéis juízes viraram para ele. Ela não sorriu, nem disse nada, só acenou para o sofá a frente dela, pedindo para que sentasse. E ele não obedeceu.
–Não vai sentar, Yuu?- disse, a voz tão fria quanto sua aura, exatamente como Kanda lembrava. Um tom calmo, mas bravo.
–Ele não está com vontade- Tiedoll respondeu por ele, vindo da cozinha, surpreso com a aparição do sobrinho. Feliz por ter voltado. Triste por ele chegar NAQUELA hora- não é, Kanda?
Mas o garoto não encontrava forças para responder, dividido entre obedecer as ordens supremas de sua mãe ou usar seu talento de rebeldia. Ficou apenas estático, em pé naquele lugar.
–Faça como quiser. Não sou sua mãe, mesmo.
Mesmo sabendo disso, Kanda sentiu um tremor estranho, mas pequeno.
–Enfim, temo que temos que conversar. Mas não acredito que ainda chama o garoto pelo sobrenome da família, Tiedoll... Manchando-o desse jeito...
Sem resposta, continuou:
–Ou pelo menos irei falar e você ouvir. Vejo que continua inutilmente implicante e insociável... Realmente, mal-educado como sempre. Não sabe se portar e continua na quietude para chamar atenção ao coitado que quer ser. Fiz bem em deixá-lo sozinho. Imagine se culpassem a minha educação pela falta da sua!
–É para isso que você veio, Mayumi?- Tiedoll interrompeu agressivamente.
–Não, claro. O assunto é outro, mas achei que deveria comentar, afinal, é você que cuida dele. No fim sobrou para você. Devia fazer como eu. Não devia sobrar para os adultos como eu e você quando a criança é inútil, agressiva, mal-educada e ingrata.
–Corte o assunto- Tiedoll interrompeu pela segunda vez e a mulher parecia um pouco incomodada- não fale como se o conhecesse. Você o abandonou sem chance para isso.
E ela ficou indignada.
–Graças a Deus, certo?!- ela disse sorrindo- criei consciência e fiz a escolha certa.
–Consciência? Você perdeu há tempos.
–Não posso perder tempo com insinuações desagradáveis- disse, mas Tiedoll enrugou o rosto querendo retrucar- tenho um compromisso importante daqui a pouco. Eu apenas vim falar com o Yuu.
–Mas eu vou ouvir- Tiedoll disse- é a minha casa. Não pode me impedir de ficar no sofá da minha casa.
Mayumi suspirou, como se estivesse incomodada. E, na verdade, estava.
–Faça como quiser.
Só então Kanda percebeu que a conversa se passava a sua frente sem que ele participasse.
–Serei breve- ela disse, cruzando as pernas brancas- primeiramente, sua escola já veio a minha procura achando que tivesse alguma relação importante com você para notificar notícias de seu desempenho escolar. Não me meta nisso, fale para contatarem Tiedoll. Sua vida não me interessa e eles me incomodam muito achando que sou sua mãe.
Ela tomou uma pausa para tomar um gole do chá. Até mesmo o jeito como ela segurava a xícara era esnobe e irritante. Mas Kanda não tinha palavras para dizer. Ou melhor, não encontrava forças para botar as palavras à vida.
–Mais importante, agora- ela continuou, com seu segundo tópico- eu preciso de dinheiro.
Kanda não entendeu. Dinheiro? Enquanto ele raciocinava, ainda quieto, Tiedoll socou o sofá.
–Dinheiro??- gritou- você veio pedir dinheiro para mim? Quanta indecência depois de tudo que você...
Não fazia o menor sentido. Ela tinha pego quase todo o dinheiro da família. A família Kanda era rica e seu pai era uns dos principais. Ela havia fugido com Cho e achado outro homem, teve seu dinheiro próprio.
Por que mais dinheiro? Era milionária. Talvez bilionária.
A não ser que...
–O quê? Claro que não!- ela disse- não vim pedir dinheiro a você- riu, mas quando voltou-se para o rapaz, ficou séria- Yuu, me dê seu dinheiro.
Tiedoll parecia prestes a ter um colapso.
–Parte do dinheiro do Jun foi para você, não é? Eu preciso dele.
–O dinheiro é dele. É a única coisa que lhe resta para pensar no futuro depois que você tirou tudo dele. E agora você quer que ele te dê?
–Não, eu quero meu dinheiro de volta.
–É o dinheiro DELE.
–Ora. O dinheiro que pertencia ao MEU marido só poderia ser destinado à MIM.
–O dinheiro do PAI dele. Que agora é dele.
Kanda se aproximou dos dois, em dois passos. E falou pela primeira vez.
–Por quê? Por que você quer dinheiro?
Ela sorriu.
–Viu só? Como um bom garoto ele entende que nada pertence a ele. Dê-me o dinheiro, tudo bem?
–Por quê?
–Ora, porque eu preciso.
–Você tem bastante. Ou melhor, tinha – ele deu uma risada abafada- aposto que o homem te deixou e levou todo o dinheiro junto. O que foi? Não percebeu que só ficam com você atrás de dinheiro? Finalmente caiu a ficha? Que ninguém te aguenta se não for pra te enganar?
Ela parecia mais indignada que nunca. Mas Tiedoll parecia mais calmo e até impressionado. Ou diria assustado.
–Ou será – Kanda continuou- que ele está pedindo o dinheiro pra você antes de dar no pé?
–CHEGA!
A voz dela, fina e alta, ecoou na sala. Até Kanda assustou um pouco, afinal, no fim aquela imagem alta de uma figura importante continuava em sua mente. Tinha poder para começar a sua vida, ao tempo que poderia acabar com ela. Mas, mesmo assim, tudo que guardou em anos parecia prestes a transbordar, ao mesmo tempo que não conseguia. Seu olhar continuava determinado.
–Não haja como se fizesse parte da minha vida. Ou como se soubesse de algo- ela disse, a voz baixa, mas agressiva.
Ela parecia desconcertada. Pela primeira vez desde que entrou lá, não estava se portando normalmente. Ela se levantou, vindo ao encontro dele com aquele dedo fino e pontudo apontado para seu rosto.
–Você... Você age como se tivesse autoridade sobre mim. Saiba de uma coisa, praga- e ela sorriu quando Kanda levantou uma sobrancelha indignado com o “apelido”- exatamente, você é uma praga. Só mais um desses adolescentes que quer chamar atenção dos outros, que acha que manda nos outros e se faz de coitado. Você se esqueceu de que matou o MEU MARIDO?? Eu nunca vou superar. Mas você...você age desse jeito? Desrespeitando aqueles que fizeram o favor de cuidar de uma praga... Você não passa de um covarde, um culpado que roubou a felicidade de nossa família. E ainda se acha no direito de sorrir e falar comigo como se nada tivesse acontecido. Pragas devem ser erradicadas. Não servem para nada e só atrapalham os outros. Um inútil. Você o deixou PARA MORRER. Você se salvou, você o matou. MATOU MEU MARIDO.
Ela ofegou, pegando o máximo de ar e arrumando a postura.
–Desse modo, você nunca deveria ter nascido. Assassino.
Essa palavra despertou uma explosão no peito de Kanda. Várias imagens se misturaram na sua mente enquanto as palavras se juntavam em sua garganta.
–Não fale como se fosse a única ferida- sussurrou- NÃO FALE COMO SE FOSSE A ÚNICA, SUA VADIA.
–Vad...?
–Então...Então POR QUE ME DEU A LUZ, HEIN? POR QUE EU NASCI?? Me diz!! EU NUNCA PEDI PRA NASCER, ENTENDEU? NUNCA!
Enquanto ela digeria o fato de ele ter levantado a voz para ela, Kanda se aproximou mais, estava a um metro dela. Agarrou seu pulso agressivamente para que Mayumi mantivesse a atenção em si.
–Então, não haja como se eu fosse o único culpado pela desgraça que eu sou hoje.
–Hã?- ela olhou para os dedos de Kanda apertando seu pulso- está apertando? O que foi, vai me matar?....Assassino.
Aquela palavra despertou novamente o fogo em seu peito, ele largou o pulso e levantou o punho fechado para o alto. Ela fechou os olhos, esperando o impacto.
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Quando ela abriu os olhos, ao invés de seu rosto estar machucado, o vaso ao lado estava espatifado no chão . Kanda estava mais afastado, lutando contra a vontade de bater em algo.
Lutando contra a vontade de ferir e machucar, que mais tarde seria saciada com um certo albino.
Rindo, quase vitoriosamente, ao ver o rosto em conflito do moreno desesperado, sentou-se no sofá e retomou o chá (já frio).
–Pare de se iludir. Aqueles ao seu redor logo serão espantados pela sua personalidade distorcida e violenta. Tão tedioso e perigoso...Então, como uma praga que você é, estou te dando uma chance de ser útil. Estou pedindo para me devolver o dinheiro. Precisa me agradecer por isso.
Kanda não respondeu.
–E voltou para o jeito quieto... Sabe, esse seu jeito sempre me irritou... Não demorará muito para as pessoas cansarem de você. Poupe a si mesmo disso.
E tomou um gole de chá, cruzando as pernas de novo. E quando Tiedoll foi interromper novamente, o japonês já havia saído de casa.
–O chá está frio, você poderia esquentá-lo?
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Kanda tentou ao máximo desviar a atenção das pessoas ao lado. Mas se não ficasse atento à conversa entre Lenalee, Lavi e Alma, seus olhos logo se voltavam para o albino garçom.
Argh, estava ferrado.
Não queria participar de conversas idiotas. Por outro lado, não conseguia olhar para o rosto de Allen depois do que disse. Ia com certeza deixar a culpa tomar conta dele. Seria incontrolável.
–Já escolheram agora?
A voz soou doce ao seu lado, mas ele tomou o cuidado de não se virar, fingindo observar atentamente o menu na mesa.
–Ah, já escolhi- Alma disse- vou querer esse e isso aqui...
Kanda imaginou que ele deveria estar apontando coisas no cardápio.
–Então... já vou trazer.
–Ah, espere! E você, Yuu?
Kanda estremeceu, mas ele nem percebeu que o garoto havia também tremido. Preferiu não responder, continuou ignorando.
–Hunf- Alma suspirou- traga isso aqui para ele, por favor.
O moreno levantou a cabeça e encarou Alma com raiva. Mas ele só sorriu de volta.
–Ele só está um pouco...- Alma explicou para Allen- cansado. Além disso, você sabe como ele é. Não fala muito- riu- ele ficou até tarde em um bar.
–Ah- Allen respondeu, um tom de reprovação estranho na voz- imagino.
Kanda se remexeu na cadeira, tentando buscar uma posição que pudesse satisfazer o desconforto que sentia. Mas ele sabia que a culpada não era a cadeira...
Alma encarou Lavi significadamente quando percebeu Allen olhando dos próprios pés para o moreno várias vezes. E começou aquela conversa silenciosa cheia de expressões faciais. Lavi negou com a cabeça. Alma afirmou. Lavi suspirou e esfregou os dedos nos olhos. Alma acenou com a cabeça para Allen. Lavi sorriu de canto.
–Você estava mancando, Allen- o ruivo disse, antes que o albino se fosse.
–Ah, sim. Estava fazendo o possível para disfarçar, mas é meio difícil quando se tem que andar para lá e para cá no trabalho...
–Ah, entendo. Seu QUADRIL ainda está doendo?
Alma e Lavi sorriram mais uma vez quando Kanda finalmente tirou os olhos do menu.
–Está, sim. Doendo bastante. A culpa é sua, Lavi...
Ele riu.
–Ah me desculpe.
–Tudo bem, era algo que eu já esperava de qualquer jeito. Com você do meu lado... Você é bem agressivo, não?
–Sua cama que é molenga.
Quando percebeu que o moreno esmagava o guardanapo com a mão, o ruivo percebeu o sucesso da missão.
–Alleeeen~- arrastou o máximo possível, pegou a mão do garoto ( a que estava livre da bandeja) e deu-lhe um beijo- da próxima vez que passar a noite com você prometo que serei mais gentil.
Ouviu-se um “rasgh” e lá se foi um guardanapo limpinho. Ou um monte deles.
–Er...Kanda- Allen se dirigiu a ele pela primeira vez- eu agradeceria se você não rasgasse os guardanapos novos...
O moreno olhou para cima, encontrou os olhos cinzentos, mas todos estavam observando o massacre dos papéis em suas mãos.
–Ah... desculpa.
–Pra isso você pede desculpas, mas para coisas mais importantes não, certo?- Alma disse, enfatizando o “importantes”, algo que deixou Kanda irritado... e culpado.
Kanda se ajeitou na cadeira e logo os outros pararam de encarar.
–Bem, eu vou ao banheiro- Lavi anunciou, se levantando- já volto.
Para confusão do próprio albino, beijou seu rosto quando passou por ele em direção ao banheiro. Um beijo estalado.
–Ah, sim...- Allen estava confuso, mas logo voltou-se para o trabalho. Sabia que seu amigo era meio maluco às vezes, mas aquilo estava estranho demais.
–Er... bom- Lenalee se levantou- tenho que ir agora. Nos vemos depois, Allen, Alma, Kanda.
Com tantas presenças amigáveis em volta, não tinha mais tanta dificuldade em falar ou estar perto de Kanda. Tudo ficava mais tranquilo.
Mas o moreno estava fervendo. Ele sabia o motivo daquilo tudo. As palavras, o jeito manhoso, o beijo no rosto... Lavi estava esfregando na cara dele a propriedade que ganhara quando ele saiu de cena.
Só de pensar que alguém estava fazendo...coisas... com algo que antes era dele...
Só alguns segundos mais tarde ele daria o nome àquilo de “ciúmes”. Porque, para ele, aquilo era instinto assassino.
E só depois, enquanto observava o corpo do albino sumir quando entrou na cozinha (estava verificando se ele não iria até o banheiro para encontrar Lavi), percebeu que Alma o observava.
–O que foi agora?- resmungou para os olhos castanhos à sua frente.
–Nada...
Mas ele sabia que era algo.
–Desembucha. Começou. Não vai parar, vai?
–Vai me deixar falar?
–Tá tudo indo abaixo de qualquer jeito...
–Agora não vá reclamar...
–Você fez complô com o coelho pervertido, não é?
Alma sorriu. Tudo bem, Kanda não precisava de palavras para entender.
–Não exatamente... Mas sim.
–Ele tá se aproveitando...
–A-ham
–Ele tá se aproveitando...
–Isso mesmo. Algum problema?
–Tsc.
–Sinceramente... Eu deixei ele fazer isso. Ele não estava muito afim, mas eu deixei e ele aceitou.
Kanda se aquietou. Os pensamentos que rondavam sua mente consistiam em Lavi e Allen rolando na cama...
–Eu pensei que ele seria a melhor opção para o Allen.
...os doces gemidos que arrastavam o nome do ruivo... imploravam por mais...
Kanda levantou o corpo e agarrou a gola de Alma.
–O que foi? Não estou certo? Que autoridade você tem sobre isso?
–E que autoridade VOCÊ tem sobre isso?
–Devolvendo uma pergunta? Muito esperto...- respondeu com ironia- mas não fui eu quem disse tudo aquilo pra ele. As mentiras. VOCÊ não viu o estado dele nesses dias. Você acabou com ele. Magoou profundamente e espetou partes dele que não deviam ser incomodadas. Abriu feridas que levaram anos para cicatrizarem. Você disse palavras e usou um tom que... que... Argh. Kanda, você é um idiota.
Kanda largou Alma que deixou o corpo cair na cadeira.
–Você não merece o Allen. Não merece. Pelo menos não do jeito que está agindo. E digo isso como amigo.
–Amigo... dizendo essas coisas...
–É porque também sou amigo do Allen. Kanda, você, mais do que ninguém, talvez, sabe como palavras duras podem acabar com uma pessoa. Mesmo assim, você fez exatamente o que não devia. Lavi estava catando os cacos do que restou do Allen.
O moreno suspirou, escondeu o rosto nas mãos em concha. Sabia que era verdade e estava machucando-se todos os dias por saber disso.
–Ele estava...chorando?
–Ele chegou de olhos inchados várias vezes nas aulas.
–Ele...o sorriso...
–Torto. Mal feito. Mais falso que boa sorte do professor quando vai dar uma prova.
–...Merda...- e resmungou baixo-...eu sou um idiota...
–Amoleceu o coração?
–Cala a boca.
–O que vai fazer?
–...
–Bem, eu te digo o que tem que fazer. Você vai pedir desculpas, vai fazer dar certo. Vai se abrir com ele quando precisar e não descontar nele. Tá? E eu não estou falando de um simples “desculpa”...
Como vingança, Alma levantou dessa vez. Quando Kanda levantou os olhos da mesa, ele estava agarrando sua gola com força, aproximou o rosto o bastante para que os narizes quase se tocassem.
–Você vai implorar, porque um merdinha, como você está, faz parecer que não vale toda a tristeza do Allen.
E sentou calmamente na cadeira.
–Por isso, acho melhor se preparar pra ficar de joelhos.
–Alm...
–Aqui está.
Allen chegou com a bandeja.
–Ué, o Lavi...onde está?
–No banheiro ainda. Acho que...vou lá checar.
–Espe...- os dois disseram, mas Alma ignorou e saiu como um raio-...ra...
Kanda encarou o nada por um tempo. Depois de uma semana do acontecido, a raiva e os sentimentos já haviam esfriado, substituídos pela saudade e a culpa. E ele tinha medo de que isso o movesse no momento.
Mas Alma iria espancá-lo se não fizesse algo.
Ele mesmo iria se autoespancar se não fizesse algo.
Alma lhe deu uma chance.
Okay, okay. Calma, Kanda. Muita calma nessa hora.
Não estrague a chance. Lembre-se: espancamento e segredos estranhos revelados.
Alma não disse que ia revelar coisas vergonhosas sobre ele, mas...conhecia ele o bastante para saber que existia um espíri...um demônio vingativo pairando pela pessoa.
Allen acenou com a cabeça antes que Kanda pudesse tomar uma ação, colocando as bebidas rapidamente na mesa e saindo tão rápido quanto. Quer dizer, tentando, o quadril doeu e ele pendeu para o lado, o colega de trabalho, Travis, o segurou.
–Oopa- disse, rindo- Allen, se quiser pode descansar, já cumpriu seu turno.
–Hã?- ele resmungou desesperado- m-mas...
Antes que ele pudesse resmungar mais, Travis pegou seu avental e bandeja e saiu de perto, entregando a outro garoto que acabava de passar pela porta. E Kanda nunca tinha visto alguém tão desesperado para trabalhar como Allen estava.
O albino ficou observando o colega se afastar por um bom tempo. Kanda tinha certeza de que ele não esperava que o japonês o estivesse encarando quando virou lentamente o rosto para olhar para ele, porque o menor logo virou o rosto de volta.
Kanda nunca pensou que fosse pensar isso...mas ser evitado estava irritando demais!
Suspirou pesadamente antes de tomar ação.
–Ei- disse com o tom monótono e entediado, Allen pulou de susto e se virou lentamente.
–S-Sim?
Gaguejando novamente... Kanda franziu o cenho. Devia estar um pouco assustador, porque Allen recuou mais um pouco.
–Quer sair um pouco...?
–Hã?? Quê?
–Eu perguntei se quer sair um pouco.
Allen estava surpreso demais para entender, então Kanda indicou com a cabeça as garotas intrometidas que fofocavam olhando para ele. O albino entendeu que ele queria paz.
–M-mas e o Alma e Lavi? Eles ainda...
–Eles vão demorar. Lavi está... com diarreia.
–D-Diar...
–Tá podre e poderoso o negócio, duvido que ele saia de lá tão cedo.
–Ah...sim...
Kanda levantou e Allen o seguiu. Saíram pela porta do café, sem direção.
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