Bad Boy

33 Às vezes, Allen se pegava pensando numa máquina do tempo


Notas iniciais
Heey! Como vocês estão? Eu sei que eu disse que ia postar Pure, mas eu confundi a ordem e BB está acabando, então... Por falar nisso, eu queria agradecer demais a recomendação que eu recebi de shindou0!!! Muitíssimo obrigadíssima haha até por ler os capítulos numa quase maratona :) E quero agradecer também à Teru pela mensagem de incentivo que me manteve firme para terminar isso apesar do peso do terceiro ano... URGENTE!! Eu recebi uma mensagem de uma pessoa, mas não consigo respondê-la porque estou bloqueada. Se você estiver lendo isso, só quero dizer que li sua mensagem e estou tentando respondê-la desde semana passada, mas não consigo porque estou bloqueada haha só pra você não achar que estou te ignorando ou algo do tipo e caso você tenha me bloqueado sem querer. Se você me bloqueou por querer por não gostar de receber respostas, tudo bem, eu entendo :) mas só para caso não for isso você não achar que eu estou fazendo de propósito, ok? :) -Esse capítulo foca no Allen, então, sim, algumas coisas vão parecer meio puladas, mas é ele vendo tudo. -Título gigante porque é importante para o efeito. -Boa leitura o/

Às vezes, Allen se pegava pensando numa máquina do tempo.

Não uma convencional, de filmes de ficção, em que ele pudesse apertar botões e entrar num buraco do espaço em fumaças de efeitos especiais para ir ao futuro observar que merda mais o ser humano tinha feito.

Estava mais para uma prática. Uma fechadura simples que ele pudesse guardar no bolso com todo o cuidado.

Poderia colocar um olho lá e observar o outro lado com o olhar de quem tudo vê e nada faz. Podia olhar o passado e experimentar o que já havia escapado da memória, olhar o futuro e fazer seu próprio modo de contorná-lo. Podia entender o que já havia acontecido e o que estava para acontecer.

Saberia aproveitar as partes que tinha que aproveitar. Cortar as partes que tinham que ser cortadas. Manejar a vida e controlá-la na palma das mãos.

Apenas com um olhar.

Mesmo assim, pensava nas noites de insônia de todo bom ser humano, ele teria nas mãos dois pontos cruciais do tempo. Vivendo no passado e futuro, o presente, esse em que ele tinha que estar, permaneceria vazio. Teria um grande buraco rompendo sua linha vital.

Allen estaria vivendo no que já havia ocorrido e nas suposições oblíquas do destino. No incorrigível e no inexistente.

Ele sabia que Mana também pensava nisso.

O homem por vezes quando pensava estar sozinho em casa gostava de sentar na janela enorme que dava para o quintal, numa poltrona macia em que ele antes sentava para conversar com uma mulher em especial. E ficava ali, observando o ar ir e vir pela janela. A linha vital passar pelos olhos perdidos que nunca, em nenhum momento, se preocuparam de verdade com uma saída.

É difícil sair dali quando memórias são tão confortáveis.

Allen sabia que estava condenado aos problemas ínfimos da vida. Apesar disso, tinha amigos que precisam dele sorrindo e um pai que precisava dele fora da cama.

Então...é. Máquinas do tempo não existem.

Allen tinha que se contentar com o presente bambo.

Até Kanda chegar. Ou voltar? Ele já havia se perdido nesse senso de tempo.

Kanda era...estranho. Depois de todo esse tempo, apenas agora Allen descobriu que palavras não são exatamente o que se procura para se descrever algo como um nó de vidas que se fechou muito além do que eles alcançavam. Se em algum dia ele acreditou em alguma força controlando sua vida medíocre foi quando notou que aquilo era o nó mais perfeito que ele tinha visto. Cada canto só fazia sentido se encaixasse o todo.

Kanda era...passado, presente e futuro unidos em uma só coisa.

Estranho.

Allen achava que não existiam máquinas do tempo. Mas cá estava ele.

Sofrendo no presente pelo passado próximo, temendo pelo futuro por causa do passado longínquo. E Kanda estava aqui com ele, fazendo tudo que o gelo pudesse fazer para tirar da confusão.

Mas ele só conseguia ficar ainda mais furioso.

Como eles, sem direito algum, ousavam resolver aparecer no exato momento? Como ousavam criar mais algo para tirar dele a satisfação de uma boa vida?

Como ousavam?

Eles não tinham pego um bom momento, porque seus nervos estavam à flor da pele e o sentido de humanidade que ele guardava no peito havia simplesmente adormecido desde que ele tinha pisado fora do hospital e respirado o ar pesado.

Não fazia nem sete horas e nem parecia que a ficha havia caído de verdade.

Ele só não conseguia andar reto, nem se levantar sem sentir um peso incômodo nas costas, muito menos abrir os olhos completamente, porque, argh, suas pálpebras pesavam além do possível.

Mas se fosse para proteger o resto de suas preciosidades, ele não precisaria pensar duas vezes antes de meter um murro no nariz de algumas pessoas. Na verdade, ele nem pensaria uma vez.

O que era provavelmente o motivo pelo qual ele via tudo borrado agora. A raiva tomando conta dos sentidos que antes o mantinham algo parecido com um (como se fala mesmo?) humano. A fúria subia pela sua garganta, queimando o tecido interno perto da boca. Fazia seus olhos doerem ao ponto de ter que semicerrá-los. A raiva fazia seus dedos se contraírem em um aperto forte. A raiva fazia seu peito doer.

Não era a tristeza. Não eram lágrimas.

Com certeza não eram lágrimas.

Engoliu a respiração, prestando atenção no olhar preocupado que se instalou privativamente no rosto de Kanda.

Os dedos do moreno estavam no seu pulso, firmemente, e ele não tinha coragem de perguntar se era para mantê-lo ali ou acalmá-lo. Bem, estava funcionando dos dois modos, então não havia motivos para perguntar além da pouca curiosidade.

Allen não tinha tempo para isso, não havia mais tempo para enlouquecer e se confundir. Tinha que se acalmar e pensar, era para isso que estava ali. Havia tido bastante tempo para enlouquecer com o assunto e pouco tempo para agir de verdade. Respirou profundamente, sentindo os olhos secarem rapidamente (uma técnica para os mais acostumados) e tentou criar a imagem de compostura.

Não existem máquinas do tempo.

Só existe o maldito presente.

–Akumas...-repetiu, tentando encontrar sentido maior que uma junção assustadora de letras- eles voltaram pelas mãos da uma gangue maior chamada Noahs.

–Sim- a voz de Kanda estava suave. Para qualquer um, não teria diferença, mas Allen notou o tom a menos.

–Porque eles podem?

–É.

–Ótimo- Allen falou, sarcástico- simplesmente ótimo- balançou a cabeça várias e várias vezes antes de se virar subitamente, a respiração profunda-E qual é o plano?

Os dois mal tinham notado a discussão encerrada na extensão da mesa. Daisya com um lado do rosto vermelho, Alma armado com um elástico precavido nos dedos. Os olhos variados ansiosos por qualquer coisa que colocasse os motivos em ação naquela estranha reunião.

Kanda ergueu as sobrancelhas.

–Plano?

–É- Allen confirmou- a solução? O papel com o esquema? A base de todas as ações?

Alma franziu as sobrancelhas.

–Plano?

–É- disse mais uma vez- Me digam alguma coisa! Vamos ficar parados? Vamos comunicar autoridades? Vamos para cima? Vamos deixá-los em paz?

Allen sabia que o último era impossível. Não havia motivo para contar nos dedos algo que não demandaria ação (infelizmente), mas parecia que algo precisava ser dito e algo precisava movimentar o ar, antes que lhe caísse a ficha.

Silêncio sempre foi um grande perigo para aqueles que tem muito no que pensar.

Palavras te mantém ocupado. Você tem que pensar nelas, falá-las, ouvi-las, processá-las. Nessa troca de favores não há tempo para lembrar ou imaginar.

A conversa precisava ficar rolando.

Até a raiva consumir o resto dos sentimentos.

–O que vocês querem fazer contra isso?-perguntou, exasperado ao final. Ele não via qualquer modo, caminho ou maneira de entrar naquilo e sair ileso. Qualquer modo, caminho, maneira ou futuro em que tudo parecesse bom o bastante, seguro. Firme.

Não tinha nenhum jeito de fazê-los fechar os olhos para aquilo. E esquecer.

Allen tentava ao máximo não pensar no que ele sabia que aquilo daria, sabendo que pelo rosto de Kanda, Alma e todos os outros, não havia ninguém que não estivesse também ignorando o fato.

Allen reconhecia desespero pelo cheiro, vontade pelo som e medo pelo olhar. Não era difícil reconhecer o conhecimento experimental dele e de Kanda e distinguir dos outros, um receio normal de briga de rua.

Era incrível como um dia era tempo possível para estragar expectativas. Eram malditas 24 horas, apenas.

Ah, se existissem máquinas do tempo...

Foi Daisya quem se levantou e falou.

–É nosso lugar- disse, como se fosse algo óbvio para se dizer- esses lados são nossos. É onde nós vivemos e onde somos livres. É nosso lar desde que nós precisamos dele. Nós acolhemos essas ruas, nós vivemos esses becos. Nós não tínhamos casa nem lar, não tínhamos lugar para pôr nossas mentes. A rua vive de nós tanto quanto nós vivemos dela. Não é como se alguém, ou um bando de otários com nomes bonitos, pudesse chegar e tirar de nós simplesmente assim!

Gritos de concordância corroeram o antes silencioso canto. Allen até sentiu o chão tremer, mas também poderiam ser ratos acasalando embaixo do piso.

–É nosso lugar. Não um lugar para sermos caçados- Daisya continuou.

Allen sorriu para Kanda. De lar ele entendia.

Porque ele tinha muitos.

–Mas vocês não os conhecem- o sorriso morreu rapidamente enquanto a voz seguia o mesmo caminho- Eu os conheço. E...vocês são...vocês são diferentes. Vocês se importam, mesmo o que dizem que fazem, vocês se importam. Eles são maus e inconsequentes, eu sei disso. Eu só...eu não quero que vocês percam o que importa a vocês, mas eu também não quero perder o que importa para mim.

Daisya se sentou, um olhar doído no rosto. Allen não via mais que sua mente permitia, então não sabia que impacto seu estado provocava naqueles que o ouviam.

Ele parecia tão mal quanto se sentia?

Kanda apertou os dedos de sua mão, o lembrando de que em nenhum momento ele os havia largado. Ali estava a sensação calorosa novamente.

Allen piscou os resquícios quase invisíveis de lágrimas dos olhos.

Aquele tinha sido um longo dia, com muito ainda para acabar.

–Então...-ele tentou disfarçar o modo como a própria voz ficava estranha no ar- se vocês não exatamente tem um plano e não exatamente queriam fazê-lo agora...por que estamos todos aqui?

Kanda tirou a mão de seus dedos para passar pelas suas costas. As mãos dele estavam quentes e confortáveis, deixando um rastro caloroso pela pele horrorizada. Os outros fingiam não notar, mas era mais que claro porque nenhum dos dois estava tentando ser realmente discreto.

Eles só nunca tinham visto um sorriso tão real no rosto do japonês. Quase chegava a ser assustador, se não fosse tão aconchegante.

O sorriso calmo se contorceu em algo mais sério e protetor em questão de segundos. Seus olhos viajaram pelo bar inteiro, parando em um ponto bem atrás, logo na entrada que todos seguiram com a mesma pressa. A cabeça de Allen trabalhou um pouco mais, não conectando os pontos.

– Viemos falar com uma pessoa- Kanda explicou, não tirando os olhos de onde Tyki Mikk limpava o balcão e jogava garrafas suspeitas de bebida num saco de lixo ainda pior.

Allen franziu a testa, buscando novamente o toque bom nas mãos de Kanda.

O moreno continuou falando, não se assustando em nenhum momento com a volta dos dedos se esfregando.

–Depois de tudo que aconteceu- ele explicou, um pouco mais baixo para que Allen pudesse ouvir mais privativamente- enquanto eu andava por aí- o tom de violência ficou escondido nas entrelinhas- eu resolvi dar uma checada naquela gangue. Eu encontrei resquícios de contato entre Akumas e uma gangue chamada Noahs. Os Noahs tinham um incidente bem conhecido que todo mundo lembra. Um braço deles havia tentado assaltar um trem durante a noite, cheio de trabalhadores da mina a mando do cabeça maior enquanto estavam estabelecendo poder. O plano era entrar a meia noite e render o trem inteiro. Eram uns caras que mal sabiam o que estavam fazendo direito. Então, enquanto rendiam as pessoas eles não contavam que a pessoa que estava a cargo maior tinha relações com um grupo de trabalhadores. O cara não pensou duas vezes antes de se virar contra a missão e virar tudo de ponta cabeça. Não deve ter sido fácil, considerando o tamanho do grupo Noah, mas parece que o homem, cínico e frio eles descreveram, que idiotice, teve que pedir um pouco de misericórdia. Ele foi expulso, obviamente. E rumores diziam que ele havia crescido para encontrar um negócio e acabou criando o próprio- ele apertou o olhar- Um bar.

Allen arregalou os olhos.

–Midnight Mercy...

Kanda sorriu um pouco, afundando os dedos nos cabelos macios.

Allen foi quem levantou primeiro. Seguiram ele Kanda e Alma, todos andando em passos determinados para o balcão da frente. O resto não viu segurança para segui-los nos olhos do japonês e calmamente resolveu fazer ronda pelo lugar. Tyki assobiava, com seu sempre sardônico sorriso frio, limpando copos largados em cima da madeira. Ele notou a aproximação estranha, mas usou a mesma expressão sorridente.

Allen nunca o achou tão assustador quanto naquele momento.

Certamente ele sempre pareceu um adulto leve e despreocupado, talvez um pouco mais do que devesse, mas havia algo que tivesse acontecido em sua vida nos últimos meses que não tivesse interligado a tudo? O albino se arrepiou inteiro.

Como ele iria saber? Máquinas do tempo não existem!

–Ora, já terminaram a baderna?- Tyki perguntou, claramente não querendo realmente saber de verdade- Faz tempo que não vejo estes jovens animados se reunindo. Até tivemos diminuição no número de copos e ossos quebrados diariamente.

O plano de Alma e Allen era levar com calma. Quem sabe jogar verde, usar palavras chaves que aticem o espírito Noah do barman, perguntas que disfarcem e o deixem sabendo sem realmente entender. O albino havia experimentado o bastante na vida de perguntas diretas, se pai não era realmente exemplo de clamaria plena, e às vezes o melhor jeito de tirar informações é não tirá-las de verdade, mas interpretá-las do que o inconsciente provocava na fala livre.

Mas eles tinham Kanda, então quem disse que iria ser assim?

–Cala a boca e para com essa idiotice que nem você quer saber. Nós não somos clientes novos para você bajular- ele começou. Allen tremeu, mas Tyki nem mesmo tirou o sorriso.

–Ora, nervosinho, não?- ele sorriu, os olhos viajando até o albino ao lado- Briga de casal?

–Não, vamos bem. Mas você não. Você vai muito mal. Então que tal você responder algumas perguntas e não sair com uma espada enfiada no pescoço.

Tyki, senão, pareceu impressionado.

–Tudo bem- ele ergueu as mãos em defesa- deve ser algo bem urgente se ainda não enfiou a espada no meu pescoço.

–Você sabe qual é a urgência. Impossível você não saber.

Se possível, o sorriso aumentou de tamanho. Porém diminuiu a intensidade.

–Ah, aquilo- ele concluiu.

–É-Kanda revirou os olhos- aquilo.

–Hm... não entendo.

–Entende sim- Kanda franziu o olhar.

Allen observou o vai e volta com atenção. Um falava, o outro desviava. Um insistia o outro afrouxava. Um falava o outro desmentia. Um completo desastre que com certeza duraria horas e horas e resultaria em bocas secas e bolsos vazios. Poxa, Tyki era um grande farsante, ele sabia como desfazer letras e palavras, construir sorrisos de dentes nada amigáveis que procuravam espantar o grupo insistente que todos eles faziam.

Sua cabeça latejava, seus olhos doíam de tanto pularem de um para outro, seu espírito estava cansado. Tudo que ele queria fazer era dar um beijo de boa noite em Kanda e ir para casa deitar um pouco. Talvez não. Talvez dispensar a casa e dormir na cama grande do moreno.

O albino deslizou o braço na linha de fogo quando Kanda foi rebater a palavra ambígua de Tyki com um soco no rosto.

–Okay, Bakanda- disse, sem um sorriso, mas olhos enraivecidos- você pode ter a noite inteira e bla-bla, mas eu estou afim de sair com alguma coisa na mão nos próximos minutos. Então dá licença. Agora.

Depois do torpor de susto pelo tom agressivo, o moreno pulou uma cadeira para o lado.

Alma estava achando hilário. Ah, se estava...

–Olha, Tyki- Allen começou, um sorriso cansado e mãos nervosas correndo pelos olhos injetados- eu tive um dia terrível. Eu acordei muito bem, ah se acordei. Então eu tive que correr, porque eu sempre visitava minha mãe. Que, olhe só, estava no hospital desde anos atrás por causa de uma gangue estúpida, ah, você deve se lembrar desse nome, Akumas? Uau, você se lembra, né? Ela estava em coma. Meu pai estava arrasado, eu estava arrasado, a vida inteira estava arrasada. Então, olhe, depois de anos enfurnado em um quarto de hospital fedorento “vivendo” como um vegetal eu aceitei desligar os aparelhos. E, olhe mais, agora ela vai estar a sete palmos do chão, assim como o pai de uma pessoa muito importante para mim. E também sei que você sabe como é, ou não estaria se lembrando da própria misericórdia num bar sujo como esse. Então, é, se quiser abrir a boca agora, abra logo. Senão, sinto muito, mas eu vou estourar seu rosto com essa cadeira, porque eu realmente preciso de uma boa noite de sono e não vou conseguir até que isso esteja resolvido e eu posso ir. Muito obrigado.

O silêncio foi aterrorizador, mas Allen mal percebeu. Estava ocupado tentando recuperar a saliva e a respiração.

Tyki até mesmo falhou o sorriso e só mantinha uma sobrancelha medrosa levantada. Ele esperou bons segundos antes de limpar a garganta e se reorganizar.

Não olhou para Allen, mas para Kanda.

–Uau- disse, pausadamente- é um bom garoto. Boa escolha.

–Não tive escolha- Kanda respondeu, apesar do sorriso aconchegado na boca.

–Então- Tyki se virou para o albino, o sorriso já instalado no rosto novamente- sinto muito pela sua mãe, mas sei que você fez o que achou que era melhor para todos. Agora, sobre o que vocês estão falando...- ele lambeu os lábios- eu não tenho tanta informação quanto querem. Na verdade- ele organizou os copos já limpos- acho que vocês não precisam delas.

–O que quer dizer?- Allen perguntou, uma pulga na orelha.

Tyki pareceu...preocupado.

–Quer dizer que não há muito para saber. Eles são como uma gangue qualquer, posso dizer. A diferença? São corajosos. Não tem medo do que acontece, por isso agem como se não houvessem consequências. Como atiçar uma gangue que ataca meninos na rua, que mata pais de garotos ou...como atacar um trem de operários. É um grupo grande e dividido e Akumas sempre se subordinaram a isso, quase como um braço. E digo mais: Noahs não existem mais.

Allen fechou mais os olhos, como se assim pudesse entender.

–Como...?

–Noahs é uma fachada- o barman suspirou, tomando os copos nas mãos como se eles fossem o maior erro de sua vida- eu sei porque os cabeças estão atrás de grades ou vivendo uma vida leve e rica fora desse mundo. O que certamente está acontecendo é uma confusão de nomes, porque Akumas e Noahs por muito tempo foram quase colados. E porque...Exorcistas...esse nome exprime uma condição em que vocês matam demônios, os Akumas. Agora, Noahs? São apóstolos de Deus, estão acima da ação de meros exorcismos. Não podem ser derrotados por pessoas de truques baratos quando tem ao lado as forças maiores.

A garganta de Allen estava coçando. Aquela confusão toda nunca era desproposital.

Afinal, ele havia visto notícias e notícias sobre Exorcistas desde muito antes. Da gangue que surgiu como relâmpago, dominou como trovão e fez seu nome no território largo e sujo que era aquele. As notícias corriam rapidamente e logo o que era um bando de jovens sem objetivo virou dominação de uma região inteira na base de terror.

Notícias de sangue, espadas e violência.

–Então...- Allen disse, já se empurrando para se levantar da cadeira, os olhos rápidos caçando pensamentos em sua cabeça desesperada. Estava tudo girando?- o nome Noah é uma provocação... E Akumas é uma lembrança voltando à vida...?

Kanda franziu o cenho. Mas Alma já estava pronto e de pé.

–Então... o alvo nunca foi descentralizado, mas completamente estratégico...?- Allen sentiu a ânsia de vômito subindo- O alvo sempre foi... Exorcistas...?

Tyki fechou o rosto, completamente preocupado com a situação inteira. Ele já havia passado por isso, sabia o que sentir significava. Sabia que o pior sempre deveria ser antecipado. Não havia nada que não tivesse vindo a sua cabeça assim que soube das últimas notícias complicadas. Ele conhecia o pensamento de cada mente.

Sabia que por mais que certos sentimentos nunca desaparecessem, alguns grupos sim.

Sorriu fraco, sem notar o quão ruim esse sorriso ficava nele.

–Tem mais uma coisa que eu deveria contar- falou, baixo demais para o bem dos três, os olhos vasculhando o lugar inteiro com medo nas íris, Allen sentiu a ânsia aumentar, porque Tyki nunca usava um olhar além do profissional. Nunca.

Quer dizer, não podia saber. Não há máquinas do tempo para vasculhar o passado do homem.

– Eles são um grupo grande, enorme- e então sussurrou, baixo, protegido, desesperador- eles estão em toda parte.

Foi rápido.

Um grito inteligível e alto pulou pelo lugar, parando qualquer outro barulho. Allen saltou da cadeira, Alma torceu o pescoço na direção, mas foi Kanda quem se moveu primeiro.

Allen nunca viu o bar tão quieto.

Tyki murmurou algo que se assemelhava a desculpas enquanto voltava ao serviço tranquilamente, mas os três sabiam que o grito tinha vindo de fora e que eles conheciam a voz preocupante.

Allen pensou em gritos, em correria, em carros e hospitais. Pensou na rua e em como nunca tinha visto uma casa tão grande quanto ela. Pensou no aconchego de braços unidos. Pensou nos olhos vívidos e esperançosos que havia observado hoje pelas mesas. Pensou nas palavras de lar. Pensou em quadros e paredes fechadas.

O coração estava a mil.

Irrompendo pela porta em pulos fortes, chegaram antes da multidão do bar a rua. O sol já havia se posto e os postes de luz ainda estavam fracos e mal chegavam aos próprios pés. A rua ainda cheirava a bebida e esgoto e musgo e frio, mas não estava deserta. Marie se aproximou, tinha até mesmo horror nos olhos sempre mortos, então souberam que fora ele quem gritara pelos três.

Apenas um olhar bem focado era o bastante.

Marie atropelou-se em palavras.

–Eu...era só...ele só estava...ele disse que ia puxar um fumo... nós estávamos tomando um ar aqui fora...ele disse que já voltava...ele estava um pouco nervoso... ele disse que ia só aqui perto... nós...ele...

Allen, impaciente, largou o rapaz e andou mais a frente buscando com os olhos alguma cena que explicasse as palavras soltas e confundíveis. Sua garganta estava se engasgando no próprio desespero, algo se entupindo e incomodando a pele. Kanda veio ao seu alcance, falando para que esperasse, mas ele estava absorvido na procura.

Quem havia saído? O que tinha acontecido?

Não. Não podia ser.

Ele percorreu o resto do caminho até a rua em passos apressados. Onde tal pessoa iria fumar? Que lugar? Onde? Apenas precisava saber onde. Que pessoa iria fumar? O quê...?

Com Kanda o seguindo atentamente, ele virou no beco ao lado. E congelou.

O japonês chegou segundo depois, reclamando dos passos apressados, mas parou de falar assim que viu o albino paralisado. Não demorou dois segundos na cena para erguer os braços e apertar Allen em um abraço forte e acolhedor. Afundou o rosto dele em seu pescoço e esfregou os dedos calmantes em todo lugar que podia. A respiração dele contra seu ombro estava forte e com certeza anormal, Kanda fechou os olhos, sussurrando coisas que achava que o deixaria melhor no pé de seu ouvido. Beijou suas têmporas, beijou a pele ao lado dos lábios, fez de tudo, mas se nem mesmo ele conseguia se controlar dentro daquilo, aquela caixa claustrofóbica cheirando podre, Allen, fragilizado, estava a beira de um ataque de pânico.

Era meio óbvio que ele estaria assim.

Não é todo dia que se encontra um amigo morto.

Preso na parede de um beco a pregos, a cabeça apontada para o chão, os pés para o céu escuro, o rosto escondido no capuz da roupa vandalizado. As mãos esticadas para os lados, crucificado. O sangue colorindo o chão em desespero abaixo do garoto ferido e sem vida. O sino largado ao lado da caixa de cigarros vazados, esquecidos, sem dono.

Não se precisava de nomes para saber quem havia matado Daisya, mas mesmo assim Akumas largaram um pentagrama pichado no tecido negro.

Máquinas do tempo não existem.

Allen mordeu com força o tecido na camisa de Kanda e o moreno apertou a barra do casaco do outro até que as sobras ficassem múltiplas.

A raiva, então, não precisava de olhos para enxergá-la. Estava escrito em sangue que se cheirava da rua. Alma correu para espiar, mas logo virou o corpo e deu meia volta.

Allen se enfurnou mais forte no corpo de Kanda, mas não pense que deixou escapar seus olhos. Não pense que os deixou impunes de uma vida real e cinzenta como se condena. Eles estavam bem abertos, absorvendo os impudores que a visão captava, respirando o mal que sobrava naquele canto.

Kanda apenas esfregou seus cabelos.

Não contou minutos, segundos ou horas, sua próxima lembrança era estar na casa do moreno. Sabia que ele usou o caminho inteiro para contar-lhe coisas, acalmá-lo. Porém Allen estava calmo. Ah, sim estava.

O táxi estava frio, o ar condicionado ligado mesmo à noite. E ele estava calmo.

Kanda poupou-o de qualquer formalidade e ordenou (no imperativo) que Mana fosse avisado de um contratempo ainda a ser melhor explicado para que o albino pudesse passar a noite com ele e se acalmar. Allen estava calmo. Isso Allen lembrava. Não era uma questão de relacionamento apenas, mas de não querer largá-lo, de olhos frios e vencidos, debaixo de uma situação podre e turbulenta, sangrenta e musguenta, e ácida e escura, e vermelha e...

Allen não pensava muito nisso. Não pensava tanto no que Daisya proclamava diante de um grupo inteiro, dos sentimentos fervorosos de um jovem abandonado, na mente esperançosa da juventude que cresce dentro dele.

Crescia.

O albino se enfiou num abraço quente, embaixo de cobertores grossos. Apenas sentia, não lembrava de ver nada.

Porque seus olhos estavam longe, trabalhando. Diante de palavras soltas e contornos oblíquos de imagens mal feitas. A raiva crescente fuçando sua mente, obrigando-a a rodar.

–Ele vivia da rua...- sussurrou, a voz embargada contra o carinho de Kanda.

...e dela ele morreu.

Qualquer resposta, solução. Plano. Precisava.

O teto de Kanda, escuro para dormir, mostrava luzes dos carros lá fora.

Allen mal o abraçou de volta. Contando na mente litros de lágrimas que precisava guardar.

Eles teriam dois funerais. Amanhã.

Às vezes o tempo pegava os pensamentos de Allen. Como uma máquina.

Notas finais
Gostaram? Não? Reviews? (escrevendo aqui porque vai que só leem as notas finais) URGENTE!! Eu recebi uma mensagem de uma pessoa, mas não consigo respondê-la porque estou bloqueada. Se você estiver lendo isso, só quero dizer que li sua mensagem e estou tentando respondê-la desde semana passada, mas não consigo porque estou bloqueada haha só pra você não achar que estou te ignorando ou algo do tipo e caso você tenha me bloqueado sem querer. Se você me bloqueou por querer por não gostar de receber respostas, tudo bem, eu entendo :) mas só para caso não for isso você não achar que eu estou fazendo de propósito, ok? :) -Ok, calculo só mais dois capítulos para BB... -Eu queria falar sobre o protesto pelo impeachment, mas não quero ser chata... para resumir, minha opinião sincera é que (acentuando que não sou partidária, muuuito longe disso) eu sou contra. Adoraria que o PT descansasse do poder (poder demais fere a mente humana) com certeza, mas tem uma falta de informações completamente perigosa correndo por aí. Primeiro? Quem assume depois do impeachment? O vice-presidente. E para isso há um trabalho enorme de investigação e tals, não é simples. Só tivemos um impeachment, a propósito. Segundo. Pessoas hipócritas fazendo coisas como pedir ditadura militar e pedir menos corrupção ao mesmo tempo (além de que, ditadura militar? me poupe, né? Gosta de manifestar sua opinião na rua sobre o assunto? Engraçado pedir isso...), pessoas usando camiseta da CBF pedindo menos corrupção... Panelaço nas partes mais ricas, xingar a presidenta de vadia no dia da mulher... Ok, eu não gosto do PT e nunca gostei, mas também tem uma ação da mídia suspeita contra a Dilma (desde a Comissão da Verdade cof cof) e uma coisa de espalhar informação errada no facebook que me deixou sem escolha senão ficar fora disso tudo. É, não vou falar muito, porque senão o negócio seria extenso demais, mas enfim... se há algo que espanta manifestação é hipocrisia e ignorância, tira todo o sentido! Opa, adivinha o que comemora o dia 15/03 (dia da manifestação)? Fim da ditadura. -Qualquer coisa, meu humilde e novo tumblr: http://monstersinyourbedroom.tumblr.com/ - Até o/