Bad Behavior
3 quem é você, afinal?
Estaciono na escola e alguns olhares param em mim. Na pobretona que mora numa cabana onde Judas perdeu as botas e vem todos os dias de ônibus, mas que agora aparece magicamente num carrão. Encosto o corpo no capô porque amo a sensação que os olhares deles me proporcionam. Como se não acreditassem que algo bom pode acontecer a alguém como eu. Acho que entendo as pessoas que crescem humilhadas e quando ganham algum dinheiro o ostentam sem pensar. Não é pelo dinheiro. É pelo sentimento de poder, de vitória.
— Alex, anda logo! – Tyler puxa minha blusa pra baixo e eu acordo do meu transe, deixando o carro e o levando até sua escola que convenientemente fica ao lado da minha. São as duas únicas escolas desse fim de mundo onde moro. Beijo sua bochecha e ele esfrega a mão no lugar, bravo com a marca de batom.
Algumas mães tradicionais me encaram de lado, com seus cabelos feitos em salão e as expressões julgadoras. Sorrio pra elas antes de caminhar até o inferno, digo, minha escola.
— Lexi! — Ando mais rápido quando percebo que Oscar desceu do fundo do carro de um de seus amigos e caminha em minha direção – Ei, espera!
Seu pequeno show atrai a atenção das pessoas a nossa volta e eu finalmente paro, sem querer que isso se torne uma cena.
— O que você quer?
Ele sorri e tira a touca do cabelo seboso.
— Ontem foi incrível!
Reviro os olhos e volto a andar, parando em frente ao meu armário.
— Eu acho que nunca fiquei tão excitado na minha vida! Comi uma ruivinha umas três horas seguidas só pensando em você.
Fecho o armário com força e aperto o livro de Matemática contra meu peito enquanto volto a andar, tentando ao máximo não visualizar a cena grotesca que Oscar relata.
— Eu não ligo pra o que você faz ou deixa de fazer.
Oscar aperta meu braço e eu acerto um soco em seu olho direito, incapaz de refrear meus impulsos. Ele curva o corpo e choraminga de dor.
— Senhorita Hernandez. – O diretor me chama, os olhos sob as lentes grossas dos óculos me encarando diretamente. O movimento no corredor para enquanto os alunos esperam o desenrolar da situação. – Para minha sala agora.
Merda.
***
— Senhorita Hernandez, seu comportamento tem sido péssimo. – Sentada em uma cadeiras de couro da diretoria, faço um esforço enorme para manter a atenção no homem estrábico a minha frente e não no aquário repleto de peixes ao lado. – Faltas, problemas de atenção, notas baixas e agora violência física. Como a senhorita espera pretende reverter esse quadro?
Fico parada até perceber que a pergunta não foi retórica.
— Eu vou melhorar, senhor Quinn. Nas últimas semanas não faltei nenhum dia e as minhas notas até melhoraram. – Ele me encara torto e eu suspiro – Um pouco.
— E o que tem a me dizer com relação ao seu ataque de fúria há dez minutos atrás?
Imediatamente minha coluna fica ereta na cadeira. Posso receber punição por muita coisa, mas por me defender da perseguição de Oscar, não.
— Ela não teve culpa, senhor Quinn. – Olho para trás em direção a voz masculina e vejo um garoto desconhecido abrir a porta e descansar as costas nela. Os cabelos dele são castanho escuro, o rosto é bonito e a boca parece perfeita demais pra ser verdade.
— Quem é você, afinal? – O diretor levanta, irritado com a intromissão.
Eu também me levanto, cruzando os braços.
— Isso mesmo. Quem é você, afinal?
O desconhecido parece querer rir do meu gesto dramático, enquanto o senhor Quinn envia tantas labaredas pelo olhar que eu me sento novamente, com medo de ser queimada também de forma literal.
— Lucas O’Connel, o mais novo aluno desta instituição.
O diretor passa a mão na testa como se nós dois lhe causássemos muito mais enxaqueca do que ele poderia prever.
— Senhorita Hernandez, sua suspensão é de uma semana. Espero que reflita sobre as suas atitudes e que pare de vir de batom vermelho para escola. Não é adequado.
Como pode ser inadequado que uma garota de dezenove anos use a porra de um batom é o que eu quero perguntar a ele. Posso imaginar o que ele está pensado. Que eu estou distraindo os homens, chamando atenção. Grande coisa. Como se eles fossem parar de agir como animais primitivos movidos por testosterona se nós mulheres deixássemos de pintar nossa boca. Grande piada.
Levanto da cadeira com os livros no braço e ao sair da sala vejo o novato sorrir pra mim. Até que ele é uma gracinha, penso, antes de ir pra o carro tirar um cochilo e levar meu irmão pra o passeio até o covil do inimigo. Oba.
Fale com o autor