Bad Behavior

4 dia de cão


Eu realmente apago depois de inclinar o confortável banco do carro de Tate. Devo ter dormido umas três horas durante a noite e meu corpo com certeza sente os efeitos do cansaço. Acordo com o barulho de uma mensagem e me encolho dentro do moletom de Tate, que achei no banco de trás, antes de pegar meu celular.

Quer ir comer alguma coisa?

É o que diz a mensagem de um número estranho. Clico na foto e vejo o rosto do novato. Sorrio para imagem dele sem camisa encarando a praia.

Eu sei bem o que ele quer comer.

Ignoro a mensagem e saio do carro, encontrando o estacionamento movimentado com estudantes indo embora. Ando até a porta da escola de Tyler e ele segura a minha mão, contando sobre a nova amiga que conheceu hoje.

— O nome dela é Darah. – Ty pula com uma perna só, a mochila sacudindo pra cima e pra baixo em suas costas. Ele não me deixa ajuda-lo a carrega-la agora que se acha um “menino grande”. – Ela tem o cabelo cheio de cachinhos e eles têm o cheiro do meu chiclete favorito!

— Cheiro de tutti fruti? – Ty acena fervorosamente com a cabeça, parecendo achar o fato algo incrível – Isso é muito legal. Mas o que mais você sabe sobre ela? Ela foi gentil? Respeitou você e os professores?

Ele para por um instante, com o semblante pensativo.

— Sim, ela perguntou meu nome e sorriu. E também foi legal com a professora.

Abro a porta do carro e jogo sua mochila dentro.

— Então acho que ela será uma ótima amiga pra você.

Tyler acena positivamente antes de eu prendê-lo com o cinto.

— Eu almocei pizza hoje e você?

Travo por instante quando percebo que sequer tomei café. A ansiedade em meu corpo inibiu totalmente minha fome.

— Almocei pizza também. –Minto porque temo que Tyler volte a comentar algo sobre eu não comer. Não quero que os professores e outros funcionários da escola dele me vejam como alguém problemática e incapaz de cuida-lo. Estranhamente a maioria ali tem um respeito enorme e até carinho por mim. Acredito que tenha ver com o fato de eu frequentar as reuniões da escola de Ty desde que ele tinha dois anos. Há alguns meses ele comentou algo sobre eu não comer ( o que é um exagero) e eu acabei sendo chamada por sua professora para ter uma conversa. Ela me perguntou se eu sabia o que era anorexia, mas consegui desviar o tópico da conversa rapidamente.

Tiro o carro do lugar e noto que no canto do estacionamento, atrás de um carro preto, o novato me encara. Dou um tchauzinho e um sorriso irônico pra ele, que me responde com um arquear de sobrancelha. Eu definitivamente não entendo qual é a desse cara.

Dirijo concentrada, passando pelo centro com suas poucas lojas e pela estrada repleta de pinheiros, com algumas cabanas ou casas tradicionais aqui e ali. Paro apenas para colocar gasolina e quando volto a me sentar no banco, noto o sorriso no rosto infantil.

— A gente vai no parquinho?

Tyler encara a janela ao lado fixamente, percebendo que já passamos de casa.

— Sim. Mas antes eu preciso encontrar uma pessoa.

— Quem, Alex?

Engulo em seco, apertando o volante com mais força.

— Ninguém importante.

Essa é apenas mais uma das minhas mentiras.

***

É uma hora e meia de carro até Greenwood. Tyler já começa a achar a ideia de passeio chata quando estacionamos na porta da casa de Gilbert Hock. Eu suspiro pesadamente, tentando não ficar mais nervosa enquanto observo a janela da casa branca. Infelizmente não há ninguém para me dar pistas de quem está lá dentro.

Não gosto do que preciso fazer. Brigar, gritar, ameaçar para garantir que Tyler tenha o que é dele por direito. Acho que as pessoas julgam mal quem é “duro”. Não é fácil fingir não sentir medo ao desafiar um homem de dois metros de altura e cheio de músculos, mas eu o faço. E faço porque preciso fazer.

— Quando a gente chega na praça, Alex? – Observo o rosto entediado de Ty e decido seguir logo adiante. Quanto mais rápido isso acabar, melhor pra ele. Fecho o vidro fumê do fundo do carro, ao lado de Tyler. Pego minha mochila e enfio a mão lá dentro, encontrando dois pacotes pequenos de M&M's.

— Fique aqui quietinho enquanto eu vou ali falar com uma pessoa, tá legal?

Tyler acena, concentrado demais no chocolate. Saio do carro e cruzo o gramado bem cuidado, parando na porta de madeira escura. Toco a campainha duas vezes e dou um passo pra trás.

Para minha surpresa, Gilbert Hock abre a porta distraído com o celular em mãos, até que percebe quem está a sua frente e bate a madeira com força, ficando do lado de fora comigo.

— Que porra você veio fazer aqui, Alexia?! E como descobriu onde eu moro? – Sua voz não passa de um sussurro, mas mesmo assim parece mais potente que minha voz alta.

Ele se agiganta sobre mim, mas não recuo, os olhos fixos em suas orbes escuras e perturbadoras.

— Você não atendeu nenhuma das minhas ligações, lembra? Eu precisei tomar alguma atitude.

Gilbert respira profundamente, parecendo procurar forças pra não me acertar com um soco.

— Minha esposa poderia ter visto você aqui, garota. Que merda você tem na cabeça?

— Que merda eu tenho na cabeça? – Jogo a paciência no lixo quando ele começa a sussurrar mais rispidamente, quase cuspindo na minha cara. O filho da mãe quer me xingar baixinho para a mulher que o sustenta não o escutar. Que piada de mal gosto – Eu que pergunto o que você tem na cabeça! Faz três meses que não manda um centavo pra você sabe quem e nem me dá satisfações. O que está pensando?

Gilbert agora segura meu braço com força e o aperta. Meu corpo treme de medo quando lembro a força do seu puno quando ele me acertou no chão da cozinha há anos atrás.

— Fala baixo, piranha. – Ele sacode meu braço e meu corpo se inclina pra frente — Eu não mandei dinheiro porque não tinha.

Penso em gritar, mas me contenho. Tyler está há apenas alguns metros de distância e eu não quero assusta-lo.

— Ou você me entrega o dinheiro ou eu grito e conto pra sua mulher quem é o canalha do marido dela. – As narinas dele inflam de raiva, os dedos ainda mais firmes em meu braço – E solta a porra do meu braço.

Hock obedece, a expressão contrariada. Seu olhar se dirige a janela algumas vezes antes de enfiar a mão no bolso da bermuda. Eu o observo tirar notas e mais notas do bolso e então me entrega de qualquer jeito, o olhar dessa vez percorrendo os terrenos dos vizinhos.

Conto as notas com atenção até ser interrompida por um cutucão atrás da coxa. Meu corpo gela quando percebo Ty atrás de mim. Gilbert também percebe, os olhos arregalados em direção ao menino muito parecido com ele.

— Alex, eu...

— Vem, Ty. – Eu o pego no colo e cruzo o gramado correndo. Abro a porta do carro e o enfio lá. Minhas mãos tremem enquanto ajeito o cinto. O dinheiro que recebi fica embolado no bolso sem contar e minha preocupação passa a ser com o olhar que Gilbert lança para a porta onde meu irmão entrou. Com uma fodida curiosidade, com interesse.

— Mas Alex...

— Agora não, Tyler! – Grito antes de arrancar o carro com força – Eu falei pra você ficar aqui dentro, caramba!

Lágrimas inundam meus olhos porque odeio me sentir assim, tão sem controle. Posso perder muito, mas não meu irmão. E se tem alguém que pode tentar tira-lo de mim é Gilbert. O infeliz maldito nunca registrou Ty e minha mãe nunca se importou. Contanto que ele desse dinheiro e escassos momentos de atenção a ela, tudo estava bem. Sue deixou o infeliz entrar na nossa casa, dormir em sua cama e me tratar como estorvo. Quando ele não bebia eu era invisível, mas quando bebia tudo era razão para gritar comigo e certa vez a gritaria terminou com ele socando meu rosto na cozinha por causa de uma maldita fatia de pizza.

Claro que minha mãe precisou engravidar dele, um homem casado com uma grande traficante de drogas. Sue deixou quieto porque tem medo de Gilbert então não cobra nada a ele. Mas eu sei de quem ele tem medo por isso o ameaço de contar a verdade a sua esposa se ele não ajudar Tyler financeiramente e ficar bem longe da minha família. Infelizmente eu preciso do dinheiro sujo dele para que meu irmão tenha o que vestir, mas assim que conseguir me estabilizar melhor financeiramente, minha intenção é nunca mais receber um centavo desse homem.

Eu achava estar fazendo isso bem, até agora quando infeliz viu meu irmão pela primeira vez. Ódio aquece minhas veias porque eu sou a culpada. Não deveria inventar esse passeio e arrastar Tyler comigo. Mas hoje de manhã nossa mãe estava um lixo e eu não confio em deixa-lo com ela depois da escola. Tenho medo que leve algum estranho pra nossa casa e acabe expondo Ty ao perigo.

Quando estaciono na bendita pracinha de Greenwood, que tanto prometi a Ty, percebo o quão em silêncio ele estava.

— Tudo bem aí? – Viro meu corpo em sua direção e é quando noto seus olhos voltados para o chão, o rosto claramente envergonhado – O que...

Então eu vejo um círculo molhado na frente de sua calça e finalmente entendo porque ele ficou me chamando.

— Ah querido, você queria fazer xixi... eu sinto muito, Ty. – Minha garganta se fecha quando noto seus olhos se encherem de lágrimas – Me desculpa.

— Quero ir pra casa. – Ele sussurra através do biquinho, claramente magoado. Seus olhos se desviam para a pracinha, onde várias crianças correm e comem pipoca doce.

Eu estraguei tudo. Mais uma vez.

Com uma azia infernal e a consciência mais pesada que titânio, dirijo pra casa num silêncio tenso. A imagem da estrada vazia envolta por uma floresta escura parece contribuir para minha total falta de humor.

Quando chegamos em casa, encontro Tate sentado nos degraus da escada. Ele veste uma camisa azul anil e calça jeans rasgada. Quando levanta e me encara, sei que vou levar bronca.

— Só um minuto. – peço, antes de livrar Ty do cinto e leva-lo até a porta. Tate observa de perto e quando meu irmão pergunta quem ele é eu digo que é ninguém importante. Tenho dito bastante isso a ele.

Ando pela casa e a noto vazia. Graças a Deus.

Pego o chinelo de Ty e o coloco no box depois de ajuda-lo a se livrar das roupas. Deixo-o tomar um banho demorado para poder falar com Tate.

Lembro de pegar um pano limpo na lavanderia e alguns produtos de limpeza. Passo por Tate e começo a limpar o banco do carro, que por sorte tem um estofado bem prático. A urina de Ty quase não passou pela grossa calça jeans, mas de qualquer forma, eu esfrego o banco até que fique com cheiro de novo.

— Você não vai falar nada? – Tate recosta na janela do motorista e eu paro a sua frente – Você roubou a porra do meu carro, Alexia! E nem atendeu minhas ligações depois.

Suspiro pesadamente.

— Desculpa.

Ele estreita os olhos para mim, parecendo me achar no mínimo estranha.

— O que há de errado, hein?

Tudo.

— Nada. – Aponto para seu moletom que está em meu corpo – Vou lavar e te devolver.

Tiro a chave do carro do meu bolso e entrego. Tate toca minhas costas e aproxima o rosto do meu.

— O que aconteceu?

Por um instante vejo afeto em seus olhos castanhos. Não o interesse e o desejo de sempre. Parece fácil jogar-me em seus braços, mas me contenho, sabendo que não seria uma boa ideia.

— Você não vai me deixar na mão hoje, né? – Sua mão afasta o cabelo do meu rosto e ele toca minha pele, apreciando. Seus olhos brilham como quem admira um objeto caro e meus ombros caem. Pra ele, é isso o que sou. Seu interesse diz respeito apenas o trabalho e se eu estarei em suas festas com um sorriso enorme no rosto.

— Não. – Respondo somente e me afasto do seu corpo – Mande alguém vir me buscar.

Tate ri e abre a porta do carro. Ele nota meus olhos cheios de lágimas, mas desvia atenção para o espelho retrovisor.

Dói. Não porque o ame, mas porque é difícil admitir que ninguém se importa verdadeiramente comigo. Um vazio cresce em meu peito, mas eu me forço a não ficar parada. Nenhum sentimentalismo pode me ajudar.

Viro as costas e entro em casa. Uma noite de cão me aguarda para combinar com o dia.

Notas finais
a noite promete
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.