Bad At Love
1 Um
Notas iniciais
Portland, Oregon
Quatro e meia da manhã.
Os olhos se abriram, fitando o teto pelo que pareceu uma eternidade, mas se fosse precisar, tinham sido apenas por alguns segundos. Piscou algumas vezes tentando se acostumar com aquele ambiente que ainda era tão novo para si, na verdade estava tentando lidar com aquela situação toda, não era bem a mulher que ficava até de manhã, tão pouco a mulher que namorava alguém, mas ali estava ela, deitada ao lado de um corpo adormecido. Com bastante cuidado, afinal não queria acordar seu namorado, Arizona Robbins segurou o braço do homem com ambas as mãos de forma delicada, e então afastou seu corpo do dele, pousando o braço do mesmo no espaço da cama. Fez uma careta quando a cama de casal rangeu assim que ela se levantou, mas nada que fosse acordar Mark, o homem dormia como um bebê naquela altura, a noite havia sido longa e cansativa para ambos, mas de um modo bom. Os olhos azuis fitaram o namorado mais uma vez de forma prolongada, ela então deu um meio sorriso, vendo que o homem agora se aninhava ao travesseiro, uma vez que seu corpo não mais estava ali.
Seu corpo se virou e então ela se abaixou, pegando a blusa de botões preta de Mark Sloan para se vestir. Após abotoar os botões de forma despreocupada, seu rosto se projetou para a ampla janela daquele enorme quarto bem mobilhado, de forma alguma aquele apartamento era de Mark Sloan, ela acabou por pensar. Arizona então caminhou até a janela, apoiando ambas as mãos na mesma, sentindo o vento frio que vinha do lado de fora. Encarou os prédios luminosos longe de si e então respirou fundo, como havia parado ali? Como tudo aquilo havia acontecido em apenas dois meses? Era algo instantâneo demais para se acreditar. Fechou os olhos por um minuto, tentando assim acalmar sua mente. Minutos depois, agora com a mente branca como uma folha de papel, a mulher caminhou de forma cuidadosa para fora do quarto, sabia que Mark dormia como um bebê, mas não correria o risco de acorda-lo para ter mais horas na cama com ele, não que fosse ruim, ela só não estava disposta. Fez seu caminho pelo pequeno corredor que dava na cozinha do apartamento, procurou por um interruptor na parede, mas sua visão noturna era péssima, sem óculos então... Caminhou calmamente até a geladeira e então encontrou algumas fotos Polaroid pregadas no eletrodoméstico. Todas elas possuíam uma mulher de cabelo negro e olhos penetrantes, com um sorriso tão lindo que poderia iluminar Portland sem fazer muito esforço.
Arizona estava sorrindo para as fotos iluminadas pelas luzes do lado de fora do apartamento sem ao menos perceber, porém sua mente a fez refletir, se Mark havia dito que aquele apartamento era seu, porque teriam, de forma predominante, fotos de outra mulher? Sua cabeça pendeu para o lado, não era possível que Mark a estivesse traindo, eram só dois meses de namoro, tudo bem, não era nada tão sério assim, mas traição? Ok, Mark Sloan não era sinônimo de monogamia nem agora e nem nunca, mas... Era difícil de acreditar. Robbins esperava ter um acesso de raiva ao pelo menos ver aquele tipo de pensamento perpassar sua mente, porém seu corpo se comportou de um modo completamente diferente. Estava calma, com a respiração normal e seu coração batia no ritmo certo, estava plena de si. Abriu a porta da geladeira e correu os olhos por todas as partes, para então acabar pousando os mesmo em uma pequena garrafa de suco. Pegou a mesma e então fechou a geladeira, caminhando em seguida para a sala. Enquanto fazia seu caminho de forma lenta, agora com a garrafa de vidro aberta, Arizona acabou por escutar um barulho vindo da sala. A porta da frente parecia estar sendo aberta, o que lhe causou certa apreensão. Caminhou na ponta dos pés até a parede que antecedia o cômodo e parou, tentando visualizar o que estava acontecendo ali, se fosse alguém entrando do nada, ela gritaria e Mark resolveria aquilo, certo? Certo!
Os olhos azuis assustados agora tinham uma visão parcial do que acontecia na sala, enquanto a parede servia de escudo para o seu corpo. Ainda com a garrafa na mão, Robbins estava tensa, tentando ver com clareza o vulto, ou melhor, os vultos na sala. Parecia ser duas mulheres? Se beijando? A loira estava um tanto boquiaberta, forçando a visão para enxergar direito. Sem ao menos perceber, ela acabou caminhando um tanto mais, saindo de trás da parede para então parar na abertura que separava a sala do resto do apartamento. As mulheres não haviam reparado em sua presença, afinal, estavam em um beijo tão... Ardente que era praticamente impossível notar a presença de qualquer coisa ali. A cabeça de Robbins tombou para o lado, enquanto sua boca se abria em um perfeito “o”, aquilo era... Atrativo? Atrativo! Uma das mulheres, com o cabelo comprido, estava conta à parede, e seus olhos pareciam estar fechados, enquanto a outra, de cabelo curto, beijava toda a extensão do abdômen de sua parceira, descendo seu corpo enquanto o fazia.
Arizona sentira seu corpo esquentar, os pelos de seus braços se arrepiaram e de súbito a garrafa de vidro acabou caindo de sua mão, fazendo um belo barulho. As três se assustaram, um delas correu até o interruptor e ligou a luz, tentando entender o que estava acontecendo ali.
—Mas... Quem é você? —A mulher fitou Robbins com clara dúvida em seu rosto, talvez raiva também?
—Eu... Eu... —Arizona sentiu duas mãos em seu quadril, a puxando para trás, para que então ela sentisse o corpo atrás de si.
—Essa é Arizona Robbins, minha namorada! —Mark estava com um belo sorriso em seu rosto perfeitamente desenhado. —E essa é minha irmã, Callie Torres. —Ele então soltou as mãos do corpo de sua namorada e ficou ao seu lado, encarando as duas mulheres a sua frente.
—Diga a sua namorada que é feio encarar! —Callie estava visivelmente irritada, não era a primeira vez que aquilo acontecia.
Não, Callie Torres não conhecia Arizona, na verdade, nunca havia visto seu rosto em lugar algum. Quando foi dito que aquilo não estava acontecendo pela primeira vez... Bem, Mark Sloan era famoso por seu belo rosto e corpo, mas também por sua fama de mulherengo. Aquele era o apartamento de Callie, ao qual ela quase nunca ia, viajava tanto e preferia estar em hotéis, mas naquela noite em especial, seu apartamento estava mais perto e então porque não ir para casa? Mark havia conseguido a chave há tempos, e então levava seus encontros para lá, visto que a irmã quase nunca colocava seus pés ali. Por muitas vezes Torres mencionou, em completo estado de raiva, que trocaria a fechadura dali, afinal, como ela mesma dizia, sua casa não era motel.
—Ei, eu apresentei minha namorada, não vai apresentar a sua? —Mark sorria, fitando a outra mulher ao lado de Torres que estava com sua blusa de botões completamente aberta.
—Regina, Regina Mills. —Callie revirou os olhos. —Não é minha namorada! Mark o que você está fazendo aqui? E dessa vez se esforce para me dar uma explicação plausível.
—Você pode fazer o favor de não ficar usando essas palavras difíceis às quatro da manhã? Meu cérebro ainda está dormindo!
—Seu cérebro dorme o tempo inteiro, idiota! —Arizona acabou por rir de forma silenciosa, virando seu rosto para o lado. —Eu ainda quero uma explicação!
—Eu... Eu não tenho uma explicação! —Ele sorriu, envolvendo o corpo de Robbins com um dos braços.
A situação era no mínimo inusitada. Ali estava Arizona Robbins, usando a blusa de botões de Mark e sua calcinha preta, descalça e um tanto descabelada, conhecendo, da maneira menos correta possível, sua cunhada, que também não estava em seu momento mais glorioso. Callie se virou para a mulher ao seu lado, dando um sorriso nada amistoso.
—Você pode ir embora? Eu ligo assim que resolver tudo isso. —A mulher lhe lançou um olhar que fizera Arizona se encolher no abraço de Sloan, e então saiu.
Torres a viu pegar o elevador minutos depois, para então bater a porta de madeira branca com toda a sua força. Respirou profundamente três vezes e então se virou para o irmão.
—Eu não estou acreditando nisso, sinceramente não estou, Mark, essa não é nem a primeira, ou a segunda, ou a vigésima vez que isso acontece! Eu quero poder chegar à minha casa e ter sexo glorioso às quatro da manhã, você consegue entender isso?
—Acho que na atual situação ele não consegue entender nada! —Arizona acabou falando sem nem perceber, se arrependendo no minuto seguinte após receber um olhar ameaçador de sua cunhada. —Ele está... Bêbado! —Torres revirou os olhos. —Eu vou leva-lo para a cama, e depois limpo tudo isso, prometo ir embora antes que você perceba. —A morena então desviou seu olhar e Arizona saiu da sala, carregando Mark consigo.
Colocou o homem na cama sem dificuldade alguma, afinal, ele estava de muito bom humor, mesmo em tais condições. Ainda com as luzes apagadas, Robbins procurou por sua calça jeans, a achando em cima de uma mesa. A vestiu rapidamente e então procurou por sua blusa e sutiã, achando ambos jogados no chão não muito longe de si. Tirou a blusa que pertencia a Mark e então se vestiu, ainda se lembrando da cena que havia acabado de presenciar... Aquilo era insano! Arrumou o cabelo loiro e então saiu do quarto, tentando parecer o mais legal possível, afinal, já havia causado uma péssima primeira impressão a sua cunhada. Chegando a sala, Arizona se deparou com Callie sentada no belo sofá cinza, com os pés em cima da mesa de centro e os olhos fechados. Os olhos azuis a fitaram por alguns longos minutos, até que Torres a olhou como quem perguntava “perdeu alguma coisa aqui?”, para depois fechar seus olhos novamente.
—Eu vou limpar essa bagunça... Só preciso saber onde ficam as coisas para eu limpar. —A voz estava mais baixa, tateante.
—Você pode pegar suas coisas e ir embora, não precisa limpar nada, aposto que deve estar cansada! —Não havia olhar algum, a mulher parecia estar em outra dimensão em seu sofá.
Robbins olhou para um lado, e depois para o outro, e então caminhou, parando vez por outra por não saber se aquilo era o mais correto a se fazer. Parou próximo as pernas da mulher de olhos fechados, que ainda não havia notado que Arizona estava ali tão próxima.
—Torres? —A loira a chamou de forma baixa, torcendo para não levar uma surra de palavras dali para frente. —Eu sinto...
—Você sente muito, eu imagino! —Os olhos castanhos agora a fitavam, e ela possuía um meio sorriso em seus lábios. —A culpa é do Mark, você nem sabia para onde estava indo, quem tem que pedir desculpas aqui sou eu, me excedi. —O sorriso se tornou maior. —Acho que você deveria tirar sua blusa. —Arizona arregalou os olhos, a encarando, o que fez Callie dar uma risada sonora. —Está do lado do avesso, Arizona não é mesmo?
—Isso, Arizona. —A loira sorriu. —Eu já estou de saída, arrumo isso no caminho para casa.
—Quer saber? Está tarde, sei que vou dormir no quarto de hospedes de qualquer maneira, porque Mark deve estar em outra dimensão nesse momento, fique... É perigoso sair nesse horário, você iria de táxi?
—Metrô! —Robbins ainda estava parada, a fitando sem nenhuma cerimonia. —Você não é nada parecida com o Mark.
—Ponto para mim! —Torres sorriu. —Os pais dele me adotaram, por isso não somos parecidos.
—Oh... Me desculpe. —A loira olhou para o chão, vendo que havia esquecido seus sapatos no quarto, ótimo Arizona, ótimo. —Tem certeza que eu posso ficar?
—Que tipo de cunhada eu seria se não lhe oferecesse um lugar para ficar e algo para beber as quatro da manhã? —Callie se levantou, criando então uma distância mínima entre as duas. —Eu sou educada, diferente do meu irmão. —Um largo sorriso se formara nos lábios bem desenhados, fazendo com que Robbins sentisse um arrepio em sua espinha.
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