Backseat Serenade
23 22. O pai.
Gui chegou atrasado na escola no dia seguinte. Não sabia o que tinha acontecido, mas seu padrasto estava mais irritado que o normal naquela manhã. E isso acabou fazendo com que ambos perdessem a hora e que Guilherme chegasse na segunda aula. Desceu do carro sem nem se despedir enquanto mantinha a raiva para si. Com certeza Fernando, Debbie e Godric iriam querer começar com o plano. Isso se já não tivessem começado. O que era realmente preocupante, mas preferia não pensar.
Estava prestes a entrar na escola quando algo lhe chamou a atenção. Sentado em um dos bancos, observando-o. Lá estava ele. Por um momento se perguntou como ele tinha descoberto, mas logo imaginou o que era. Claro, eles já tinham começado o plano. Respirou fundo enquanto andava até o homem. Um sorriso de canto surgiu no rosto do mesmo e ele levantou.
— O que você faz aqui? — Guilherme começou, inseguro. Uma risada escapou pelos lábios do outro enquanto observava o menino se aproximar.
— O que foi, Gui? Não sentiu saudades do papai? Não mereço nem um abraço? — Guilherme sentiu sua mão começou a suar, mas apenas se aproximou de cabeça abaixada. O ímpeto de correr era forte, mas tinha que enfrentar.
— Como você me achou? — o garoto tornou a perguntar fazendo com que o mais velho risse mais uma vez.
— Vamos lá, Gui, você sabe que eu sempre te encontro. Admito, dessa vez foi mais difícil, mas eu sempre consigo. Você e sua mamãe não podem fugir de mim para sempre.
— Deixe-a em paz! — Guilherme tentou soar firme, mas só deixou mais a mostra o quanto estava assustado. André Stubb deixou que um sorriso sarcástico tomasse conta de seu rosto enquanto agarrava os cabelos do filho.
— Eu escolho se vou deixa-la em paz ou não. Você é só um merdinha que não honra nem o que tem entre as pernas e muito menos pode falar o que eu faço ou deixo de fazer. — Guilherme se encolheu mais uma vez enquanto sentia seu pai puxar os fios claros de seu cabelo. — Agora, o que acha de dar uma volta com o papai? Nós temos muita coisa para por em dia.
Guilherme correu os olhos pelo gramado a sua volta, desesperado. As coisas não estavam saindo como haviam planejado! Não era para tudo acontecer tão rápido! E ele não tinha que estar sozinho com aquele homem que metia tanto medo e o perturbou por anos. Mas ali estava ele. Sendo arrastado por seu pai para fora da escola, sem ter ideia de para onde seria levado e sem nenhum dos seus amigos por perto para poder fazer algo.
O menino queria gritar. Juntou todas as suas forças pra isso. Estava prestes a fazê-lo. Mas simplesmente não saiu. Não ia adiantar, só iria piorar a sua situação e não era disso que precisava. Ele precisava de uma desculpa para enrolá-lo até que alguém pudesse presenciar o que estava acontecendo.
— Você não pode esquecer isso? Seguir com a sua vida e me deixar continuar a minha? Ninguém sabe que eu sou seu filho. Ninguém sabe o que está acontecendo comigo.
— Mas isso é por pouco tempo. Eu vou te ensinar a ser homem de verdade e vamos ser feliz de novo. Eu, você e sua mãe. — Guilherme se debateu, tentando tirar aquela mão forte de seus cabelos e se arrependeu de ter feito isso. Pois logo recebeu um tapa forte em seu rosto. — Comporte-se. Você sabe muito bem que eu não tenho nenhum tipo de peso na consciência por ter que usar violência.
— Eu não quero ir para lugar nenhum! Eu tenho aula agora. Não posso faltar mais! — o menino tentou outra saída, mas só ouviu a gargalhada do mais velho.
— Se você realmente fosse um bom aluno como quer passar a imagem para mim, então não chegaria atrasado para a aula.
— Isso não é verdade. Eu perdi o horário, mas eu sou um bom aluno. E eu preciso dessa aula.
— E nós precisamos por as novidades em dia. Agora vamos, antes que eu perca toda a minha paciência.
André soltou os cabelos do filho, mas antes que o garoto pudesse pensar em fugir, ele agarrou seu pulso fino e o puxou até um carro velho. Agora era a hora de entrar em desespero, Guilherme pensou enquanto começava a se debater de verdade e gritar pedindo por socorro. Não era possível que a escola ou a rua estivesse tão deserta a ponto de ninguém ouvi-lo. Qualquer um já seria uma ajuda. Se fosse Fernando seria melhor, mas ainda qualquer um já ajudava.
Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto quando ele percebeu que seus berros realmente não estavam adiantando. Ninguém viria ajuda-lo. Sentiu um soco ser desferido em sua boca, fazendo com que o garoto se calasse antes de ser empurrado para dentro do veículo. Era tarde demais.
André entrou no carro e logo deu a partida. O sorriso não abandonava seu rosto enquanto guiava o carro pelas ruas vazias da cidade. Tinha uma outra parte para buscar. Afinal, uma família não seria completa sem a mãe! E por sorte, havia sido fácil descobrir onde Hazel estava morando agora. Apesar de estar casada com outro, ainda era acreditava ser seu direito tê-la. Era a sua família, ela havia lhe dado um filho. Era mais sua que do outro.
O choro de Guilherme começou a ficar mais desesperado ao ver o caminho que o pai fazia. Não era para ser assim, não era! Ele se machucar, tudo bem. Sua mãe não podia estar envolvida. Ela já havia sofrido demais por sua causa e não aguentaria fazê-la passar por mais uma tortura dessas. Discretamente, Guilherme tentou alcançar o celular dentro de sua mochila. Se pudesse ao menos avisar Fernando de onde estava...
— Eu não faria isso se fosse você. — André se pronunciou, olhando para o filho pelo canto do olho. — Se você falar com qualquer um, qualquer um, sobre isso, vai ser bem pior para ela.
— Você não pode machuca-la mais! Ela não tem nada a ver com isso!
— Ela te criou errado! Ela não soube colocar limites em você e você se tornou nessa coisa que é agora.
— Ela não era a única que tinha que colocar limites em mim.
— Ah, mas eu sei colocar limites. Eu sei te educar muito melhor do que ela.
— Não é questão de educar. Você pode me bater o quanto quiser e eu vou continuar sendo o que eu sou. Eu não vou deixar de ser gay só porque vou estar machucado.
— Veremos se vai continuar com esse discursinho mais tarde.
Guilherme bufou e olhou para a rua. Poderia saltar do carro. Ia se machucar se continuasse nele. Ia se machucar se pulasse dele. Daria na mesma. Mas saltar do veiculo não ajudaria sua mãe. André estava disposto a ir atrás dela e Guilherme preferia estar por perto para tentar proteger Hazel o máximo que conseguisse.
Assim que o carro parou em frente a grande casa, Guilherme amaldiçoou o dia em que concordou com o plano de Godric. Não deveria ter confiado no ruivo. Era óbvio que daria errado. André saiu do carro e logo estava puxando o filho para fora.
— Você vai ser um bom menino e destrancar a porta. Vai entrar como se nada tivesse errado e nós vamos conversar. Se você começar a se comportar mal de novo, eu não vou ter escolha e vou ter que partir para violência. Entendeu?
Guilherme apenas concordou com a cabeça e abriu a porta da frente. Podia ouvir a mãe na cozinha e sentiu um aperto no peito só de imaginar a expressão dela. Fez como o pai mandou e seguiu em silêncio até a cozinha. Assim que os olhos de Hazel encontraram a figura do filho, ela se espantou, mas logo percebeu o que estava acontecendo.
— Ele está aqui, não está?
— Sim. Ele falou que quer conversar. — Guilherme tentou soar calmo, mas as lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto. Hazel correu até o filho e o puxou para seus braços. Então deixou que seus olhos encontrassem o do ex-marido. André estava cada vez pior. Entregava-se as bebidas e aos cigarros para controlar a ansiedade enquanto procurava pelo filho e pela mulher. Isso estava destruindo-o, mas ele não se importava. Por que se importaria?
— Olá, Hazel. — cumprimentou-a com um sorriso de canto. — Você continua linda.
— Não posso falar o mesmo de você. — a mulher respondeu, encarando-o nos olhos. — O que você quer comigo e com meu filho?
— Nosso filho. Eu quero a nossa família de volta.
— Você acabou com a nossa família no momento em que começou a bater em Guilherme e você sabe muito bem disso.
— Então a culpa é desse gayzinho por ter acabado com a minha felicidade.
— Ele não tem culpa de nada. Deixe-nos em paz. Nós estamos bem e não precisamos de você.
— Essa não é a resposta certa, Hazel. — André balançou a cabeça em uma negativa antes de caminhar até o lado oposto da cozinha. Hazel se encolheu minimamente quando o outro passou ao seu lado e Guilherme olhou para o pai com desconfiança. — Você não deveria me desafiar em uma cozinha.
— Que eu me lembre, a última vez que tínhamos algo afiado por perto, foi você quem se machucou. — Guilherme respondeu antes que pudesse se frear. E ele soube que foi a pior coisa que poderia ter feito assim que terminou de falar.
— Então acho que está na hora de eu devolver o machucado, não acha? — André pegou uma tesoura em cima do balcão e sorriu para o filho. — E não me olhe com essa cara, eu te avisei antes.
Guilherme se soltou dos braços da mãe e se posicionou na frente dela. Odiava-se por ter começado, mas agora iria até o fim.
— Devolva o machucado em mim. Fui eu quem feriu seu orgulho. Eu quem enfiou aquela tesoura em você. Ela não tem nada a ver com isso. Você vai deixa-la ir embora.
— Eu não vou machuca-la se ela não entrar no meu caminho.
— Mãe. — Guilherme virou para a mulher com um sorriso de canto e apontou para a porta da cozinha. — Acho melhor você esperar na sala.
— Lógico que não! Você não vai encostar no meu filho, André! — Hazel tentou empurrar o filho para o lado, mas Guilherme não se moveu. Ele tinha que enfrentar o pai. Ele tinha que por um fim em tudo aquilo.
— Vai para a sala, mãe, por favor. — o menino pediu mais uma vez enquanto segurava os braços da mãe.
Hazel se soltou das mãos do filho e fez menção de deixar o cômodo. Mas antes que Guilherme pudesse raciocinar, a mulher desviou do filho e avançou contra o ex-marido. Ambos os homens pareciam em choque enquanto a mulher se aproximava. Hazel podia ser pequena e aparentar ser frágil, mas não media força e muito menos esforços pela segurança de seu filho.
Logo ela estava tentando empurrar o outro para trás enquanto tentava arrancar a tesoura de sua mão. E foi quando André voltou para si, com mais raiva do que antes. Ele empurrou a mulher contra o balcão enquanto desferia socos com a mão livre da tesoura. Hazel tentava afastá-lo enquanto Guilherme tentava puxar o pai para longe da mãe, mas não tinha muito sucesso. André com raiva era incontrolável. E Hazel era a vitima de todo o seu ódio.
Não tardou até que a mulher caísse desacordada no chão da cozinha, causando desespero no mais novo. Porém, antes que pudesse fazer qualquer coisa, o pai se virou em sua direção, com o mesmo olhar descontrolado de antes.
— Agora a sua mamãe não pode mais te defender.
O menino então respirou fundo e esperou enquanto o mais velho se aproximava. Não tinha mais saída. Guilherme até tentou se defender dos ataques do pai, mas era quase impossível. Ele estava descontrolado. A última vez que realmente havia batido no filho fora há muito tempo e parecia que estava compensando todo o período em que não pode fazê-lo.
O menino parou de tentar devolver os chutes e socos e apenas se encolheu, tentando proteger as regiões que mais doíam ou que poderiam causar alguma sequela no futuro. Ao se encolher, Guilherme deu a chance do mais velho joga-lo no chão. Começou então a chutar onde quer que alcançasse no filho.
Guilherme chorava em silêncio enquanto deixava alguns gritos escapar pelos seus lábios. Sentia a dor infernal o dominando e o levando para a inconsciência, mas antes que apagasse de vez pode ouvir as sirenes e a porta da frente ser aberta.
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