Notas iniciais
Bem, aqui está o capítulo tão esperado. Espero que não tenha decepcionado porque não é nada de demais. E espero que não tenha ficado tão tosco como eu tenho ideia de que ficou. A fic está quase no fim, mas eu não tenho uma ideia de quantos capítulos faltam para acabar mesmo. Quando tiver mais perto, eu aviso. MUITO OBRIGADA POR LEREM. E espero que esse capítulo grande compense o final do último.

O menor respirou fundo antes de voltar o olhar para cada um a sua volta. A sala permanecia vazia e ele torcia para que continuasse dessa forma até que ele terminasse de contar. Ter mais gente sabendo não seria nunca uma boa saída.

— Eu tenho que contar uma coisa para vocês, mas isso não pode sair daqui, entenderam? É mesmo muito importante que mais ninguém saiba.

— Você não é obrigado a contar nada para a gente, Gui. O Godric que é um idiota por ficar pressionando. — Debbie se pronunciou, lançando um olhar de censura para o ruivo. Guilherme apenas sorriu de canto para a menina antes de continuar.

— Eu quero contar, Debbie. Eu guardo isso para mim desde sempre, eu preciso contar. — o menor suspirou e lançou um olhar de canto para Fernando que se mantinha em silêncio. Apesar do olhar de Debbie, Godric estava mais que satisfeito consigo mesmo. Não havia sido a melhor forma de abordar o assunto, mas trouxe os resultados que ele queria, não? — Meu pai nunca foi um pai perfeito. Ele sempre teve problemas com bebidas, mas esse problema nunca chegou a passar dos limites. Ele nunca havia agredido nem a mim e nem a minha mãe até eu fazer quatorze anos. Eu sempre soube que era gay. Desde pequeno, nunca havia me interessado por uma garota. E eu sempre tive medo do meu pai por causa do forte preconceito que ele tinha. Ele havia vindo de uma família tradicional em que o homossexual ou qualquer coisa fora do padrão era inaceitável e sempre que ele me via agindo mais afeminado que o normal, o mínimo que fosse, era o suficiente para gritar comigo. Mas até meus quatorze anos, ele nunca havia feito nada de verdade contra mim.

— Foi quando você se assumiu? — Debbie perguntou, preocupada.

— Eu não me assumi. Não por vontade própria. Tinha esse cara na minha antiga escola, Matheus, nós estudávamos juntos desde sempre. E desde que eu me lembro por gente, eu fui apaixonado por ele. Ele era a pessoa mais perfeita para mim, mas eu sempre soube que ele era inalcançável. Como eu sempre fui tímido, nunca tive amigos mesmo estudando na mesma escola por anos. Mas Matheus era o meu oposto. Ele era o mais popular e o mais desejado. Eu sempre achei que ele nunca prestaria atenção em um estranho como eu. Tanto que estranhei quando haviam me chamado para ir a uma festa. Mas naquela época, qualquer tipo de tentativa social que me aparecesse, eu ficava feliz e aceitava, por isso acabei indo na maldita festa. — Guilherme suspirou e olhou em volta, vendo uma pessoa entrar na sala. O desespero tomou conta de seu corpo quando ele tornou a virar de frente para os outros e falar. — Tem como nós sairmos daqui? Eu não posso falar com gente em volta, por favor.

— Claro. — Debbie se levantou prontamente sendo seguida por Godric e Fernando. O último esticou a mão para que o menor segurasse. Recolheram seus materiais e juntos deixaram a sala.

— Aonde nós vamos? — Guilherme perguntou, olhando para trás.

— Vamos para o meu apartamento. — Fernando falou, dando de ombros. — Ainda é cedo, não vai ser difícil de sair da escola.

E realmente não foi. Acostumados com alunos entrando e saindo da escola para conversar com amigos na calçada, a saída do grupo passou totalmente despercebida. Guilherme era o único que permanecia tenso. Sabia que agora que tinha começado, teria que acabar, mas parte sua estava totalmente arrependida. Estaria metendo mais pessoas nos seus problemas. Já bastava sua mãe e seu padrasto. Se não fosse por ele, a mulher poderia ter tido uma vida sem preocupações. Ele não era um bom filho e isso pesava em seus ombros.

Agora que estava contando a verdade para Godric, Debbie e Fernando, tinha medo de deixa-los tão neuróticos quanto sua mãe e o novo marido. Às vezes queria só poder ter uma vida sem que as pessoas ficassem no seu pé e preocupadas com o que poderia acontecer sempre que saía.

Seus olhos pousaram em Fernando que mantinha seus dedos entrelaçados com o do menor. Era egoísmo mantê-lo por perto, ele sabia. E de ali, era o que mais se daria mal se algo acontecesse. Tinha medo como o outro reagiria quando contasse as consequências de se envolver com ele. Mas ele precisava saber, visto que Guilherme não pretendia e nem conseguiria se afastar.

Quando se deu conta, os quatro já estavam no elevador que levava ao loft de Fernando. A caminhada havia sido mais rápida do que esperava. Debbie e Godric pararam de frente para os dois e Guilherme podia ver como eles estavam tensos e ao mesmo tempo curiosos. O único que não parecia estar dessa forma era Fernando. Por algum motivo, Guilherme não tinha a mínima ideia do que passava pela cabeça do outro. Ele só mantinha seus olhos azuis no menor e suas mãos juntas. O apito baixo quebrou o silêncio, avisando que haviam chegado ao andar do maior. Os quatro deixaram o elevador e entraram no loft.

Debbie foi a primeira a se jogar no sofá maior, sorrindo para os outros três. Godric apenas levantou as pernas da menina e as colocou em seu colo após sentar no sofá. Fernando puxou Guilherme para o sofá maior, sentando e ajeitando o garoto contra o seu peito. Os braços do maior passaram ao redor da cintura do menor que levou suas mãos até os mesmo, acariciando-os.

— Certo, você foi à festa e então? — Godric quebrou o silêncio. Já não estava mais aguentando sua curiosidade para saber o que havia acontecido. O menor suspirou antes de continuar.

— O que eu mais estranhei quando cheguei foi o fato de Matheus e seus amigos não saíssem do meu lado. Sempre me entregando bebidas e fazendo com que eu me sentisse como se realmente fizesse parte deles. Se eu fosse um pouco mais esperto naquela época, eu teria percebido que eu estava sendo a diversão deles. Eles estavam rindo de mim e da minha falta de jeito para tudo. — Guilherme abaixou o olhar para suas mãos nos braços de Fernando e soltou um sorriso triste. — Eu era tão ingênuo. Não via maldade nas pessoas e esse foi o meu maior erro. Porque eu estava tão afetado pela bebida que eu nem ao menos pensei no que poderia acontecer se eu revelasse o meu amor escondido pelo Matheus naquela noite e quando eu notei, já havia falado. Eu acho que eles sempre souberam. E que já estava tudo programado porque, quando eu tentei beijar o garoto, ele não me afastou. Ele só deixou que eu fizesse e concluiu a maldade dos amigos dele.

— Que maldade? — Debbie perguntou. Fernando apertou mais o menos contra o seu corpo quando o mesmo suspirou novamente.

— A cidade que eu morava naquela época era muito pequena e as notícias corriam rapidamente. Eu só descobri no dia seguinte que haviam tirado uma foto minha agarrando o Matheus. Dava para perceber que o outro estava chocado e claramente não havia gostado, mas não foi isso que me destruiu. O que me destruiu foi o fato de o garoto que nunca havia falado comigo antes ter concordado com a loucura de espalhar essa foto para todos. E mais cedo do que eu esperava, essa foto caiu nas mãos do meu pai. E essa foi a gota d’água para que a minha vida se tornasse o inferno que ela se tornou.

— Você não precisa continuar. — Fernando falou baixo para o menor. Podia ver como ele estava desconfortável e como esse era um assunto que ele não queria tratar. Mas Guilherme apenas negou com a cabeça, tentando conter a ardência em seus olhos.

— No começo, minha mãe não sabia de nada. Ela sempre trabalhou muito em uma lojinha no centro da cidade e sempre chegava tarde em casa. Era ela quem sustentava a família já que meu pai gastava grande parte de seu salário em bebidas. E o fato de ele chegar mais cedo o ajudou a esconder o que ele fazia. Desde o dia que descobriu a verdade, ele assumiu que ia me fazer ser heterossexual se me batesse todo dia. E era isso que ele fazia quando chegava do trabalho. As cicatrizes nunca sumiram, mesmo depois de tanto tempo. Mas enquanto era só eu, estava tudo bem. Eu mal sabia que tudo podia piorar. E piorou quando minha mãe chegou mais cedo do trabalho e me encontrou chorando e sangrando no meu quarto enquanto meu pai continuava tentando me acertar com o cinto. Então ela tentou impedir e ele descontou a raiva, que sentia de mim, nela. E isso foi o máximo que eu pude aguentar. Sem pensar, eu peguei uma tesoura que deixava no meu quarto para poder fazer os curativos assim que ele saia. Eu só queria que ele parasse de bater na minha mãe. Ela não tinha culpa de nada e sempre foi uma pessoa incrível com todos, então eu finquei a tesoura nas costas dele. Na hora ele gritou e se afastou tanto de mim quanto da minha mãe. Eu estava incrédulo com o que eu havia feito e ainda não sei como tive coragem. Mas acho que o fato de ter que aguentar ele me batendo sem que mais ninguém soubesse por quase dois meses foi o que precisou para me motivar.

— O que aconteceu depois? — Godric perguntou, olhando chocado para o menor. O mesmo choque era visto no rosto tanto de Debbie quanto de Fernando.

— Eu e minha mãe fugimos com o pouco dinheiro que ela tinha na bolsa e só. Fomos para a cidade da mãe dela, o mais longe possível do meu pai. Nós ficamos três meses sem ter nenhuma notícia dele, até que ele descobriu onde estávamos e ele apareceu na casa da minha avó para ameaçar a mim e a minha mãe. Desde então, nós dois vivemos fugindo. Ainda não sei ao certo como conseguimos fugir dele aquele dia, mas sempre que ele descobre onde estamos ele vai atrás mais bravo do que nunca. Da última vez, ele quase me matou.

— É por isso que você muda de sobrenome. — Debbie falou, vendo o outro concordar com a cabeça.

— Mas isso não impede que ele descubra. Nós quase nunca paramos em uma cidade por mais de três meses.

— Mas aqui foi diferente. — Fernando falou, fazendo com que Guilherme virasse para encarar o maior.

— Aqui foi diferente. Minha mãe se apaixonou pelo meu padrasto e eu me apeguei a vocês. — Guilherme suspirou antes de voltar o olhar para suas mãos no braço de Fernando. — Minha mãe suspeita que ele saiba que nós estamos aqui, mas essa cidade é maior do que todas que fomos e ele não consegue nos achar. Quando eu sumi, era para termos ido embora. Mas minha mãe não conseguiu. E eu também não.

— Vocês não podem ficar fugindo para sempre. — Debbie falou, levantando-se do sofá e caminhando até os outros dois, sentando no chão de frente para o menor. — Vocês deveriam ter entrado em contato com a polícia para impedi-lo de ir atrás de vocês. Mesmo que você o tivesse matado, Gui, foi defesa.

— Eu sei disso, mas agora é tarde demais para fazer algo. O desespero na hora foi tão grande, que nós só quisemos fugir. Tentar esquecer aquilo tudo.

— E você acha que ele vai encontrar vocês aqui? — Godric perguntou, sério. Sentia-se um pouco culpado por desconfiar tanto do menor e força-lo a lembrar de algo tão pesado só para poder satisfazer a sua curiosidade, mas também não se arrependia. Ele achava que Fernando pelo menos merecia saber tudo isso.

— Eu espero que não. Faz um tempo desde a última vez que ele chegou a descobrir mesmo onde estávamos, mas minha mãe não gosta de arriscar. E dessa vez nós já estamos arriscando demais.

— Nada de mal vai acontecer com você, Gui. Eu vou garantir isso. — Fernando falou, apertando mais o menor contra seu peito. Guilherme soltou uma risada fraca antes de sorrir triste para os outros.

— Eu tenho medo do que ele pode fazer com raiva. Eu preferia que vocês não se metessem e tentassem me proteger ou algo do tipo.

— Mas nós vamos, Gui. Porque você precisa da gente. Nós vamos te ajudar. — Debbie sorriu e esticou a mão até segurar a do menor. — Ninguém faz umas coisas dessas com um amigo meu e sai como se nada tivesse acontecido.

— É perigoso demais. Ele sempre está descontrolado. — Guilherme suspirou antes de murmurar. — Eu só queria que ele desistisse de ficar vindo atrás de mim e me deixasse ser feliz longe dele. Eu não aguento mais ter que fugir.

— Mas dessa vez você não vai fugir. Dessa vez você vai encará-lo do jeito certo. — Debbie falou, olhando nos olhos avelãs do menor. Ele pode ver que Godric e Fernando concordavam com a menina. E ele não conseguia se decidir se era algo bom ou ruim essa determinação dos outros em ajuda-lo. Tinha medo que eles se machucassem tanto ou até mais que ele quando o homem aparecesse.

Notas finais
Obrigada a todos que estão lendo. Espero que tenham gostado.