Notas iniciais
Obrigada por lerem! E desculpe pela demora.

Os dias passaram rápidos e os outros quase nem perceberam. Cada vez mais, Guilherme criava um laço mais forte com Debbie. A garota era divertida e sempre se superava. Isso, é claro, quando ela não encontrava o outro garoto pelo corredor. Porque aí todo o senso de humor dela sumia e ela perdia totalmente a paciência. Ninguém havia explicado para o garoto o que acontecia, mas talvez ele preferisse assim. Sem saber demais da vida dos outros, eles não tentam descobrir algo da sua vida. E quanto eles menos soubessem, mais seguro era.

Era quarta feira da segunda semana de aula e Guilherme esperava seu padrasto junto com Debbie e Fernando na saída. Guilherme tentava evitar Fernando às vezes. O garoto era bonito, simpático e divertido. Mas o irritava com suas investidas e indiretas quando o assunto era o menor ser o seu mascote. O que acontecia pelo menos três vezes ao dia. O problema era que para Fernando as investidas já haviam seguido para outro nível. Quando ele pretendia trazer o assunto à tona, ele se aproximava de Guilherme mais do que o garoto queria. E ele sabia que isso mexia com o raciocínio do menino. E Guilherme sabia que não podia ceder. Estava aqui atrás da sua felicidade, mas não podia exagerar. Se o fizesse, então, talvez tudo se perdesse.

— O que vocês vão fazer na sexta? — Fernando perguntou após um tempo de silêncio, afastando Guilherme de seus pensamentos. O maior estava apoiado no muro da escola com um braço em volta dos ombros de Debbie que estava entre os dois garotos.

— Eu não vou fazer nada. — Debbie deu de ombros e olhou para Guilherme. O menor mordeu a parte interna do lábio inferior, em sinal de nervosismo, antes de responder.

— Acho que nada também. Por quê?

— Porque eu vou dar uma festa pequena. Só para os meus amigos e quem eu gostar. Nada de babacas dessa vez. — Fernando sorriu para Debbie antes de continuar. — E eu quero os dois lá.

— Você sabe que eu sempre estou nas suas festas, então é óbvio que eu vou. — Debbie respondeu sorrindo. Seu olhar caiu no garoto ao seu lado que desviou o olhar para o chão.

— Não sei se posso. — Guilherme respondeu e soltou um suspiro. — Não acredito que meu padrasto vá me deixar sair para uma festa tão cedo assim. Digo, eu só me mudei para cá faz uma semana e ele e minha mãe são um tanto... protetores.

— Não fale que é uma festa, então! — Fernando exclamou sorrindo. — Fale que é só uma reuniãozinha para fazer um trabalho em grupo no meu apartamento. Eles nunca te impediriam de ir se você falasse que é um trabalho.

— Eu não me sinto bem mentindo para a minha mãe. — Guilherme respondeu, ainda fitando o chão. Ele queria ir. Queria muito. Mas não sabia se era o certo a fazer. Não tinha como ser cuidadoso em uma festa. Ele não podia ir e jogar tudo para os ares.

— Vamos, Gui! Vai ser legal. Eu tomo conta de você. — Debbie falou, sorrindo para o garoto. Guilherme mordeu mais uma vez o lábio inferior antes de olhar para os dois. Fernando mantinha aquele olhar de desafio que era tão comum em seu rosto que Guilherme estranhava quando não o via e Debbie quase implorava pelo olhar para o garoto. Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios e ele deu de ombros.

— Eu vou ver se dá e aviso vocês depois.

— Você vai nem que eu tenha que ir te buscar. — Fernando falou, sorrindo. — E outra, deixa bem claro para os seus pais de que eu sou uma pessoa bastante confiável. Eles não vão negar uma oportunidade de você fazendo amizade em uma cidade nova.

— Eu aviso vocês. — Guilherme sorriu para os dois e viu o carro preto parar na frente dos dois. — Bem, estou indo.

Acenou para os amigos antes de entrar no carro pela porta do passageiro. Seu padrasto olhou para o garoto e sorriu. Seu nome era Christian Miller e era um dos homens mais ricos da cidade. Era alto e forte, seus cabelos eram negros com alguns fios brancos e profundos olhos verdes. Tinha apenas 37 anos e tinha conquistado muito mais do que pessoas com o dobro de sua idade normalmente conseguiam durante a vida inteira. Era dono de uma empresa de roupas que só crescia e implantava multinacionais por todos os lugares. Mas nada disso realmente importava para Guilherme.

O homem deu a partida no carro e foi guiando pelas ruas até que elas ficassem desertas. O silêncio era apenas quebrado pelo barulho do motor e pelo barulho externo. O garoto ainda se sentia estranho na presença do homem ao seu lado e não tinha muito assunto com ele. E o mais velho não sabia como puxar assunto com o outro por não saber absolutamente nada sobre o mesmo. O garoto era muito fechado no seu mundo e nos seus problemas e tudo que Christian queria era poder quebrar essa barreira que o separava dos outros. Sabia o quanto o menino queria carregar certos pesos nos ombros e o quanto ele se culpava, mas isso só faria mal a ele. Ele precisava se abrir com alguém e parar de se culpar pelo o que aconteceu.

A casa onde moravam ficava longe de onde o menino estudava, mas eles chegaram à mesma antes que Christian desejasse. Mal havia estacionado o carro na garagem e Guilherme já havia saltado para fora do carro e se apressava para dentro da casa. Christian suspirou e seguiu o garoto. Guilherme deixou a mochila pendurada em alguns ganchos no hall e depois seguiu até a cozinha. Lá estava ela. A mulher pequena, com os mesmos olhos cor de avelã do garoto. Um sorriso bondoso nos seus lábios bonitos. Os cabelos tingidos de loiros caindo até os ombros de maneira delicada.

— Oi, mãe. — Guilherme falou, dando um pequeno sorriso. Dirigiu-se até a mulher que parou de abrir a massa para uma torta para depositar um beijo no rosto do filho. Christian entrou na cozinha, apenas observando os dois. A mulher se chamava Hazel. E agora era Hazel Miller. Ela voltou para a massa antes de responder o filho.

— Como foi a escola hoje, querido?

—Foi tudo bem. — Guilherme encostou-se à bancada ao lado da mãe. Christian olhou para o garoto e sorriu.

— Você está conseguindo se adaptar, não é? Digo, você sempre está com um garoto e uma garota quando eu te deixo lá. — o homem deu de ombros e sorriu. Hazel largou o rolo e olhou surpresa para o filho.

— Você fez amigos? Querido, isso é ótimo. — o sorriso da mulher era largo e Guilherme sentiu seu rosto esquentar, em um sinal de que estava corando. O garoto deu de ombros antes de falar.

— Eu só falo com eles, não é como se fossemos amigos mesmo. Isso demora para acontecer, mãe. — a mulher sorriu e voltou sua atenção para a torta. — Não é como se fosse como os que eu tinha antes.

— Mas pode ser que seja. — Hazel voltou o olhar para o menino. Um sorriso pequeno estava no rosto da mulher apesar do que ela estava prestes a dizer fosse algo que não era tão leve. — Você sabe que eu não te tiraria da nossa cidade se eu não tivesse tanta necessidade, eu sinto muito por ter te afastado de seus amigos, mas você pode fazer novos aqui. Começar de novo, Gui. Esquecer tudo o que aconteceu e criar novas lembranças.

— Eu sei.

Guilherme manteve o olhar na parede. Tentava se convencer de que tudo ficaria bem. Que tudo daria certo. Mas parecia cada vez mais difícil. Não era como se quisesse a sua vida antiga de novo. Mas sentia falta de algumas coisas. Por exemplo de como ele e a mãe compartilhavam tudo. E como isso se perdeu com a chegada de Christian. Não era culpa do homem, ele sabia. Mas sentia falta disso. Assim como de seus melhores amigos. Por melhor que Fernando e Debbie fossem, nunca seriam como os outros. Mas nunca arriscaria voltar a falar com eles. Ainda era perigoso demais.

— Mãe... Eu, bem, esse garoto que eu conheci, o Fernando, vai fazer uma no apartamento dele na sexta. Ele falou que não era nada grande, só para alguns amigos mais íntimos dele e ele me convidou. Será que eu poderia ir?

— Não sei, Gui. Não vai ser perigoso? Sabe, nós ainda estamos nos adaptando. — Hazel se detestava por ter que fazer esse papel, mas ainda não podia simplesmente esquecer o que os trouxe até aquela cidade.

— Vamos lá, querida, o que pode dar de errado? — Christian falou, sorrindo para a esposa. Guilherme arregalou os olhos levemente, olhando para a mãe, atrás de uma resposta. — Eu acho que seria bom ele ir. Sair um pouco e se enturmar. Não é como se fosse o fim do mundo.

— Mas eu nem sei quem é esse garoto. Vai que ele vá fazer algum mal ao Guilherme... — ela mordiscou o lábio inferior, deixando a massa da torta de lado.

— É um risco, admito. Mas se é o garoto que eu o vejo sempre, então, pode ser só uma chance de amizade. Ele não pode ficar se trancando aqui em casa sempre esperando o pior. — Christian deu de ombros. Hazel assumiu um olhar pensativo antes de voltar a falar.

— Certo, você pode ir. — Guilherme sorriu e depositou um beijo demorado na bochecha da mãe.

— Obrigado!

— Mas cuidado.

— Eu sempre tenho, mãe.

A mulher sorriu mais uma vez para o menino, voltando para a torta. Disse que o almoço ficaria pronto em breve e o menino seguiu para seu quarto. Sentia-se feliz por a mãe ter deixado, mas ainda tinha aquele vazio dentro de si. A falta dos seus amigos de verdade. A culpa por tê-los deixado para trás. Sabia que eles nunca o perdoariam. E sabia que tinha uma grande chance de acontecer de novo. E que se acabasse se apegando a Debbie e Fernando, eles também nunca o perdoariam por ter deixado eles para trás. Porque alguma hora iria acabar deixando, ele sabia.

Notas finais
Obrigada mais uma vez. A partir do próximo as coisas começam a se animar.