Backseat Serenade
5 04. Adaptações.
Notas iniciais
O carro preto estacionou na frente da grande escola. Era o segundo dia de aula. Guilherme agradeceu, de maneira baixa, o homem que dirigia. Ainda se sentia desconfortável na presença do outro. Ou de qualquer um que implicava estar nessa cidade. O menino abriu a porta e deixou o carro com a mochila preta apoiada em um de seus ombros. Caminhou lentamente até os portões assim que viu o carro começar a se afastar. Mal havia dado alguns passos e ouviu seu nome ser exclamado de maneira alta.
Fernando e Debbie se aproximavam ambos com um sorriso no rosto. Guilherme hesitou um momento antes de retribuir o sorriso. Havia ficado o dia inteiro com os dois e suas amigas. E Guilherme notou como Fernando era desejado por todos naquele prédio. E surpreendentemente o outro parecia demonstrar algum interesse por Guilherme. A parte ruim era que Guilherme não estava interessado. Não que achasse o garoto feio, na verdade era o garoto mais bonito que ele já havia visto. E seria um tanto assustado para Guilherme achar tudo isso se ele já não soubesse sobre a sua sexualidade. Seria tranquilo ter algo com Fernando para ele, mesmo que fosse só uma diversão. Ele não queria nada sério. Na verdade, ele não podia ter nada. Estava se adaptando a essa nova situação e se envolver com alguém ou até mesmo só ficar por diversão, seria demais para si. Tinha que cumprir sua promessa.
— Mas que carro caro esse que veio te deixar, hein? — Fernando disse, parando ao lado do mais baixo. Debbie riu do comentário do amigo, mas o menor dos três apenas deu um sorriso de canto. — Seu motorista particular?
— Não, só meu padrasto. — Guilherme deu de ombros e Debbie sorriu.
— Bom dia, Gui! — a menina se aproximou do outro e, para a surpresa do mesmo, envolveu-o em um abraço. — Diferente do idiota do Fernando, eu sou educada e dou bom dia para as pessoas.
— Eu não preciso dar bom dia. O simples fato de eu estar aqui para iluminar a manhã de vocês já faz disso um ótimo dia. Quase perfeito. — Fernando retrucou com um sorriso de canto antes de mostrar a língua para a menina. Debbie gargalhou e empurrou o garoto pelos ombros.
— Você é convencido demais para o seu próprio bem. — um sorriso não deixava o rosto da menina que havia se colocado no meio dos dois. — Eu nem imagino o que o Guilherme pensa de você. Deve te achar o maior idiota de todos.
— Como se alguém pudesse achar algo assim! E eu não sou convencido, só realista. — Fernando piscou um dos olhos para a amiga. — E eu sei que não tem nada a ver, mas acabei de lembrar que eu fiz uma certa promessa para uma certa amiga minha.
— Que promessa? — Debbie perguntou arqueando as sobrancelhas bem feitas. — E que amiga?
— Não se faça de desentendida, minha linda. Você sabe muito bem do que eu estou falando. — Fernando piscou um dos olhos azuis para a menina e viu a compreensão passar pelos seus escuros. Debbie arregalou os olhos em seguida e negou com a cabeça.
— Você não vai fazer nada, Fernando. Se fizer, eu acabo com você. — a menina abaixou o rosto, fitando o chão. Guilherme encarava os dois com curiosidade, mas se perguntava se deveria saber sobre o que eles estavam falando.
— Eu tive uma ideia! — Fernando fixou os olhos com um brilho de malícia nos curiosos do pequeno menino antes de falar. — Já que o nosso querido Guilherme não aceitou ser o meu mascote, ele poderia ter a graça e a honra de tornar-se um dos seus pretendentes, Debbie. — assim que o outro terminou de falar, Debbie levantou a cabeça para encarar o amigo. Seu rosto estava totalmente vermelho de vergonha. Sem que o outro chegasse a perceber, sua mão foi até o ombro do mesmo, dando-lhe um tapa. — Ei, calma! Você nem ouviu a resposta do menino. E ai, Guizinho, o que você diz sobre isso?
— Você é linda, Debbie. E eu realmente ficaria honrado em ser seu namorado, mas eu não posso. — Guilherme respondeu com um sorriso no rosto. Assistiu enquanto a cor voltava a se acentuar em seu rosto bonito, fazendo com que Guilherme acompanhasse Fernando na risada.
— Olha as coisas que você faz, Fernando! Que vergonha. De vocês dois. Não era para você cair na dele, Guilherme. — a menina exclamou, fazendo com que os dois rissem mais. Fernando deu um sorriso de canto para o outro garoto, feliz por ele ter realmente caído na brincadeira. Era mais divertido assim e Debbie ficava ainda mais sem jeito.
— Mas como você é delicado, Guizinho! Já que você se recusa a aceitar a nossa linda Debbie como namorada, então o que acha de caçar um namorado para ela junto comigo? — Fernando ignorou o que a amiga disse, continuando com a insinuação para cima da outra. — É um absurdo uma coisinha linda como ela ficar sozinha por aí. —Débora bufou e acelerou o passo andando na frente dos dois.
— Vocês deveriam se comer logo. É mais útil e não me envolve. — a menina disse de maneira emburrada arrancando uma gargalhada alta de Fernando.
— Estou tentando, Debbie. —Fernando brincou fazendo Guilherme corar. Outro sorriso dominou seu rosto, era tão fácil deixar os outros constrangidos. E tão divertido que ele nem ao menos poderia citar. Seu olhar foi para o relógio do corredor que estavam atravessando. Ainda tinham tempo até o começo da primeira aula, para sua surpresa.
— Viu como é divertido, Guilherme? Agora você virou a vítima. — a menina brincou recebendo um olhar torto do outro. Debbie sorriu e deu de ombros. Realmente o menino era muito mais do que ela um dia esperou que ele fosse. Iria continuar a perturbar o outro quando seus olhos pararam na pessoa parada no primeiro degrau da escada. E novamente ela sentiu tudo aquilo. Aquela aceleração idiota do coração, a cor subindo ao seu rosto, suas pernas ameaçando ceder ao pouco peso de seu corpo. Sentia as borboletas no estômago e até começava a ficar sem ar. O que era ridículo. Já era para isso ter parado faz tempo. Sem que ela percebesse, ela parou de andar fazendo com que Fernando olhar confuso para ela.
— Hey, Debbie, tudo bem?
— Ah sim, claro! — a menina respondeu após um momento de silêncio. Seus olhos pousaram em um ponto qualquer atrás de Fernando. Sabia que se olhasse nos olhos do mesmo ele entenderia o que era. — Vamos para a sala? Ou vamos nos atrasar para a primeira aula...
— O que aconteceu, Debbie? — Fernando estava sério de uma forma que Guilherme não achava que ele fosse capaz ser. O garoto segurou os ombros da amiga e olhou nos seus olhos de maneira preocupada. Debbie apenas mordiscou seu lábio inferior.
— Não é nada. Só... Vamos subir. — os olhos castanhos encontraram os azuis que bufou ao entender o que acontecia. Seu olhar desviou para a escada e voltou rapidamente para a menina.
— Não. Eu não acredito. Você não vai ficar assim por causa daquela coisa de novo, não é? Por favor, Debbie, você é tão melhor que ele! Você é linda e ele não vale nem o chão que pisa.
—Não foi por quanto ele vale que eu me apaixonei por ele e você sabe muito bem disso. — Débora retrucou de maneira baixa antes de desviar o olhar para o chão. Guilherme se mantinha em silêncio observando os dois. — Só vamos para o mais longe possível, certo?
Fernando concordou com a cabeça e puxou a menina pela mão. Seus olhos azuis correram para o outro garoto e um sorriso de canto apareceu em seus lábios. Fernando passou os braços em volta dos ombros da menina e caminhou calmamente até a escada. Guilherme seguia logo atrás deles, ainda confuso. Assim que se aproximaram, seu olhar caiu no garoto parado no primeiro degrau. Sua pele tinha um forte tom bronzeado, era alto e musculoso. Seus cabelos cacheados eram de um tom de castanho avermelhado e seus olhos de um verde bem intenso. O garoto conversava com outros tão alto e musculosos como ele. Por algum motivo, os garotos deixaram Guilherme intimidado. Como se representassem algum perigo ou algo do tipo. E a maneira que os olhos verdes do outro correram pelo corpo de Debbie só fez com que a sensação se acentuasse.
Um sorriso surgiu no canto do garoto e foi crescendo a maneira que a pequena menina se aproximava. E quanto mais o sorriso aumentava, mais parecia que Débora se encolhia. Fernando apenas apertou de leve os ombros da menina, como se para lhe passar força, mas não adiantava. Só faltava a menina passar a tremer. O garoto correu mais uma vez os olhos pelo corpo da menina e os pousou em seus seios avantajados. Fernando apenas lançou um olhar de raiva para o garoto, mas o mesmo não notou.
— Debbie! Quanto tempo! — o sorriso não abandonava os lábios do outro e Guilherme tinha que admitir, era um belo sorriso.
— Mas ainda pouco quando relacionado a você. — Fernando respondeu pela garota. — O que você quer, Ezra? Que eu me lembre o seu andar é um pouco mais acima já que sua inteligência é tão pequena que nem passar para o terceiro ano você foi capaz. — o sorriso no rosto de Fernando era maldoso, mas o outro não se importou.
— Não falei com você, bichinha. Falei com a minha namorada.
— Ex, graça a você. —Debbie se pronunciou encarando finalmente os olhos verdes do outro. — Agora, nós vamos subir porque temos mais que fazer do que ficar aturando você falando sobre merda.
— Uau! Não é que você aprendeu a ser agressiva? Isso só te torna ainda mais gostosa, sabia? — Debbie revirou os olhos e continuou andando. Iria ignora-lo. Era o melhor que podia dar para ele. E continuaria andando se uma mão não tivesse agarrado seu pulso fino. — Ei, não me dê as costas, você sabe o quanto eu não gosto disso.
— Novidade! Eu não quero te agradar. E eu tenho uma aula para assistir se você não sabe. — Debbie puxou o braço do aperto do outro e voltou a subir a escada. Fernando deu um sorriso sarcástico ao passar por eles. Guilherme apenas tentou se manter ser encarar ninguém e seguir logo atrás dos outro dois.
— Você não pode fugir para sempre, Debbie.
— E você não pode me encher para sempre. — a menina retrucou sem nem ao menos olhar para trás. Fernando riu baixo e continuou subindo.
Subiram em silêncio e isso estava começando a incomodar Guilherme. Fernando estava criando a imagem de uma pessoa que nunca parecia querer parar quieto, mas vê-lo tão sério o deixou surpreendido. Ainda mais por ser algo que havia afetado a menina. Guilherme queria saber o que estava acontecendo, mas tinha medo de perguntar. Queria saber quem era o garoto e porque Debbie havia ficado tão hostil e estranha de um minuto para o outro. A garota era uma pessoa extremamente boa e não parecia o tipo de pessoa que agiria daquela maneira sem um bom motivo.
Havia entendido a parte de eles terem namorado, mas um relacionamento acabaria tão mal a ponto de transformar tanto a garota? Ou acabaria tão mal a ponto de parecer machucar e magoar a menina? Porque Guilherme havia passado tempo o bastante estudando pessoas para notar o quanto a presença do outro afetava a menina. Mas talvez nem precisasse disso. Talvez estivesse completamente óbvio para quem quer que olhasse para ela.
Um arrepio percorreu o corpo do garoto ao pensar o que isso podia significar. Ou melhor, o que isso implicava. Não soava como uma situação que fosse acabar bem. Ele sentia o cheiro de confusão de longe. E era exatamente desse tipo de cheiro que ele deveria se afastar. Para o próprio bem dele.
Fernando estava sentado em um banco entre Guilherme e Debbie. O garoto novo havia sido uma boa companhia, ele via isso com clareza mesmo depois de dois dias. Guilherme era misterioso e tímido, mas Fernando podia apostar que em breve o menino iria se soltar e mostrar todo o seu jeito. E honestamente? Ele estava louco para esse momento. Mesmo que ele nunca aceitasse ser mais um dos seus mascotes, saberia que o garoto poderia ser ao menos um grande... Aliado.
Debbie estava entretida contando alguma coisa para o garoto e Fernando observava a maneira que ele ouvia tudo com atenção mesmo que o próprio Fernando nem ao menos tivesse ideia do que era porque estava perdido demais para decifrar o que a amiga falava. As outras três meninas que o seguiam para todos os lados estavam lá, sentadas a sua frente comentando sobre um novato que elas acharam bonitinho que estava no primeiro ano.
Levantou o olhar pelas pessoas a sua volta. Não sabia o motivo, mas estava desanimado. Talvez seja o sono ou então o contato com o idiota do ex-namorado de Debbie. Ele não tinha certeza. Só sabia que queria ficar quieto.
O silêncio de Fernando fez com que Guilherme levasse o olhar para o outro. Tinha algo estranho e até ele ,que nem ao menos conhecia o outro, podia perceber. Debbie estava acabando de contar alguma coisa sobre uma festa que Fernando costumava dar sempre que encontrava um dos seus “mascotes” e como ela estava estranhando o amigo não ter nem ao menos citado uma possibilidade de tal festa. Guilherme não conseguia ver como eles conseguiam achar tão normal essa conversa de mascote. Era estranho para ele que ninguém estranhasse o fato de Fernando, apenas por ser bonito, adotava alguém por um tempo como se fosse apenas um bicho.
— Fe? — Debbie chamou o amigo que levou seus olhos azuis até a menina. — Você está me ouvindo?
— Não, desculpe. — o garoto sorriu minimamente para a outra que arqueou as sobrancelhas.
— O que foi, Fe? — a menina perguntou vendo o amigo dar de ombros.
— Não sei... Desanimei. — o outro forçou um sorriso para a amiga que olhou desconfiada para ele. — Mas enfim, o que você disse, minha linda?
— Que eu estou sentindo falta das suas festas maravilhosas. — a menina sorriu, fazendo o outro rir.
— Você tem razão! É disso que nós precisamos: uma festa para animar. — Fernando pousou os olhos no rosto da amiga. — E rápido, não é?
— Sim, rápido! — ela riu e piscou para o amigo. — Pena que esse final de semana é muito em cima, não é?
— Eu vou escolher um dia e você já vai separando uma roupa, querida. Porque eu vou começar esse ano com tudo, minha linda. E nessa festa eu vou te fazer esquecer aquele trouxa que você chamou de namorado.
— E você não vai tirar essa ideia da cabeça, não é? — ela perguntou, revirando os olhos.
— Não mesmo. — Fernando ia continuar falando quando uma coisa chamou sua atenção. A menina caminhava lentamente até eles. Seus olhos verdes e os cabelos brancos eram marcar da menina que Fernando nunca confundiria. Seu nome era Raquel, estava no segundo ano. E havia sido sua última mascote. — Quel, minha linda!
— Achei que você fosse me procurar ontem. — a loira arqueou a sobrancelha esquerda e fitava o outro nos olhos. — Sabe, ano passado você não desgrudava de mim e agora finge que eu nem existo.
— Não fingi que você não existe! — Fernando respondeu com um sorriso torto nos lábios. — Só que você foi minha mascote do ano passado e agora eu preciso de um novo. Você sabe disso.
— Eu achei que você tinha dito que eu fui a melhor! Isso não quer dizer nada?
— Quer, minha linda, mas não o suficiente para eu continuar tento algo com você. — Fernando olhava para a outra quase com pena. Guilherme se sentiu mal por algum motivo. Talvez pela menina. Ou talvez por ele estar na mira do mais velho e poderia ser ele passando por uma situação como aquela.
— Você é mesmo um idiota. — a menina bufou e revirou os olhos.
— E você sabia exatamente o que era ser minha mascote quando decidiu aceitar. — o outro deu de ombros e viu a raiva da mesma só aumentar. Os olhos verdes correram pelas pessoas sentadas e pousaram na figura do menino pequeno. Guilherme se sentiu incomodado pela maneira que a outra correu os olhos pelo seu corpo.
— Quem é esse? — perguntou subitamente causando uma confusão momentânea em Fernando.
— Guilherme Miller. — Guilherme respondeu antes de Fernando. Um sorriso sarcástico apareceu no rosto da menina e ela correu os olhos mais uma vez pelo pequeno garoto antes de voltar para os azuis do outro.
—Esse é o seu novo mascote? — Raquel falou em tom de deboche sem deixar que o sorriso abandonasse seu rosto. — Uau, seu nível caiu bastante.
— Quem é o mascote dele ou não é, não tem nada a ver com você. — Debbie falou, perdendo a paciência. — Você deveria se tocar. Você sabia de tudo desde o começo. O Fe sempre deixou claro isso. Se você se iludiu, o problema é só seu. Agora vai atrás de outro. É mais fácil seguir em frente.
A menina fuzilou a outra com o olhar antes de se afastar novamente. Fernando bufou e encostou-se no ombro de Debbie, sorrindo de canto para a amiga em agradecimento. Olhou então para Guilherme e sentiu pena do garoto. Mal havia começado na escola e já havia tido que encarar isso. Todo ano era a mesma coisa. E todo ano tinha alguém que achava que podia humilhar quem quer que estivesse perto dele. E Raquel não era uma pessoa fácil de lidar quando ela implicava com alguém.
Guilherme teria que se acostumar com muita coisa para aguentar estar por perto dele. Teria que se adaptar ao ritmo que as coisas aconteciam naquela escola. Porque ele não abriria mão do garoto. Não mesmo.
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