Backseat Serenade
2 01. Um novo ano.
Notas iniciais
Fernando despertou em um pulo quando um rock pesado começou a soar pelas caixas de sons de seu celular. Detestava a música de seu despertador, mas só dessa maneira para que ele pudesse deixar o conforto de seus lençóis para voltar àquela tortura conhecida como escola. Havia esquecido como doía ter que despertar tão cedo. Em pensar que durante as férias ele só abandonava a cama depois das 13 horas.
Seus olhos azuis quase não abriam por conta da sonolência, mas ainda assim caminhou até o banheiro no final do corredor. Fernando morava sozinho em um dos vários apartamentos de seu pai. Havia se emancipado do resto da família depois do dia que seu pai anunciou que iria morar em outra cidade por conta dos negócios. Como tinha uma vida quase feita e vários amigos, o garoto anunciou que passaria a morar sozinho. O que só era um benefício para ele visto que podia fazer o que quisesse.
Sem demorar muito, Fernando se despiu e ligou a ducha fria. Era outro dos seus rituais para poder enfrentar uma manhã de aula. Se não fosse pelo banho, ele tinha certeza que passaria pelo menos as três primeiras aulas completamente apagado. O garoto não demorou no banho, era apenas jogar uma água no corpo para poder despertar. Alcançou a toalha felpuda e preta e se secou rapidamente. Pendurou o tecido no canto do box e saiu nu pelo apartamento.
Assim que entrou em seu quarto, seu olhar caiu no grande espelho que tinha ao lado do armário e ele levou a mão aos seus cabelos e os arrumou. Seu olhar correu rapidamente por seu corpo todo marcado por desenhos de diferentes tatuagens. Apesar de ter dezoito anos somente agora, o garoto começou a se tatuar desde que tinha quinze anos e tinha várias espalhadas pelo seu corpo pálido e esguio.
Fernando se considerava um dos caras mais bonitos que ele já viu e ele sabia tinha muita gente na cidade que concordava com ele. Com seus olhos azuis e misteriosos, um sorriso de tirar fôlego e um corpo definido. Sem falar dos cabelos castanhos escuros que caiam perfeitamente com seu rosto bem desenhado sem que ele precisasse se preocupar em arrumá-lo. Costumava ser vítima de várias cantadas tanto de homens quanto de mulheres. E, por favor, de vítima ele não tinha nada. Na verdade se aproveitava ao máximo da situação e dos olhares que atraía.
E o fato de ser bissexual ajudava a poder abusar e usar quem quisesse. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios bem desenhados antes de caminhar até o armário. Seria seu último ano e, apesar de ser bonito de qualquer jeito, queria chegar com o seu melhor. Mesmo que para isso tivesse que chegar na hora do intervalo. Um sorriso surgiu em seu rosto só em pensar nos novatos. Sempre ia atrás de um mascote para si. Alguém para brincar, treinar e até ficar às vezes, mas nada sério. Afinal, era jovem e queria curtir sua vida.
Seu sorriso aumentou ao lembrar-se da sua mascote do ano passado. Havia sido a melhor até agora. Mas ela não servia mais como mascote. Agora seria elevada a um novo nível, até poderia ser uma amiga. Mas não mais uma mascote. Fernando abriu a primeira gaveta, tirando de lá uma cueca vermelha e a vestiu rapidamente. Pensava como seria seu mascote esse ano. Teria que ser alguém do primeiro ano. E ele preferia que fosse algum garoto. Eram mais fáceis de lidar do que as suas garotas. Não que tivesse algo contra elas, mas sentia falta de ter um garoto por perto.
Vivia rodeado pelas suas amigas, mas tinha poucos amigos homens. Adorava suas meninas com seus jeitos alegres e como elas sempre tinham um jeito de fazer companhia a ele, mas não as entendia completamente. Certamente precisava de um mascote. Pegou em seu armário sua calça mais apertada e a vestiu com um pouco de dificuldade. A calça definia bem suas coxas bonitas e sabia que atrairia a atenção de quem quisesse. Tirou então uma camiseta branca que ficava um tanto justa ao seu corpo com alguns desenhos aleatórios e coloridos.
Olhou uma última vez no espelho e sorriu. Estava bom. Estava realmente bom. Calçou um par de all star preto e saiu do quarto novamente para o banheiro. Escovou da melhor maneira possível os dentes e seguiu para a cozinha. Não ia comer, pois não tinha o costume. Só pegaria um copo de água e seguiria para a escola. Seu olhar foi para o relógio e ele viu que ainda tinha bastante tempo até o começo da primeira aula.
Assim que terminou de beber sua água, pegou a mochila preta no seu quarto e guardou seu celular lá antes de deixar o apartamento. Morava sozinho no último andar do prédio antigo. Tinha apenas quatro andares e tinha apenas um elevador velho, mas ele não reclamava. Estava acostumado com as escadas e brincava dizendo que era uma das coisas que o mantinha em forma.
Assim que alcançou o térreo e deixou o edifício, virou na esquina a sua esquerda. A escola ficava a poucas quadras de distância de onde morava e isso era ótimo para ele. Odiava pegar ônibus e não iria dirigindo para a escola por não ter onde estacionar. E só tinha sua carta a menos de um mês. Seguiu caminhando lentamente até a escola, com um sorriso de canto. Alguns olhares voltavam para ele, mas ele apenas se mantinha observando o chão.
— E aí, gato, você vem sempre aqui? — Fernando ouviu uma voz as suas costas e um sorriso surgiu em seu rosto. Apressando-se para alcança-lo vinha uma menina de cabelos castanhos com cachos delicados até um pouco abaixo de seus seios com as pontas descoloridas. A menina era baixa, mas os sapatos de salto deixavam-na quase com a mesma altura do garoto. Seus olhos eram castanhos escuros e sua pele branca era marcada por delicadas sardas na altura de seu nariz e na parte mais saliente de suas bochechas. Seu nome era Débora e era uma das amigas de infância de Fernando.
— Só quando você está aqui, minha linda. — Fernando respondeu, arrancando uma gargalhada da menina. Débora aproximou do amigo e jogou os braços em volta do pescoço do amigo. O garoto passou os braços pela cintura e apertou o corpo pequeno da outra contra o seu. — Estava me esperando, Debbie?
— Não, mas eu sabia que você sairia mais ou menos esse horário. — a garota piscou para o amigo e ele riu. Depositou um beijo na maçã do rosto da menina. Então uma coisa chamou sua atenção.
— Você furou o nariz! — Fernando exclamou surpreso ao notar a pequena argola na narina direita da amiga. Um sorriso apareceu nos lábios delicados da menina. — Vagabunda, você me enrolou esse tempo todo e foi sozinha furar! Nem ao menos me esperou.
— Eu ia, mas se eu te esperasse eu ia perder a coragem. E você sabe que meu pai é bem mais liberal para essas coisas que a minha mãe. Na casa dela era mais fácil para conseguir que ele deixasse furar. — A menina deu de ombros e sorriu. Seus pais eram divorciados desde quando ela tinha seus dez anos e desde então todas as férias a menina ia para a casa do pai e o resto ano passava junto com a mãe.
— Ficou ótimo. — Fernando deu de ombros antes de se separar da amiga. Debbie sorriu em agradecimento e passou um dos braços em volta da cintura do amigo. O garoto passou o braço em volta de seus ombros e eles voltaram a caminhar abraçados. — Sabe, achei que você nunca fosse furar. E olha que eu estava tentando te convencer faz tempo.
— Verdade. — a menina sorriu antes de continuar. — Ainda bem que ficou bom e que nem doeu.
— Eu te disse que não doía! E ficou perfeito! Você sabe que eu tenho um gosto excelente!
—Convencido! —Débora bateu de leve no ombro do amigo ainda com um sorriso no rosto. — Mas e aí? Vai continuar com essa sua história de mascote esse ano?
—Por que não continuaria? — Fernando perguntou com um sorriso irônico. Debbie apenas deu de ombros antes de responder.
—Acho que tá na hora de você parar e começar a ir atrás de alguém bom de verdade, sabe? Alguém que você possa realmente ficar e cuidar. Sem essa desculpa de mascote por um ano. — A amiga era a única que poderia falar a verdade na cara do garoto. E a única que conseguia controla-lo.
— Mas eu não quero alguém para ficar mesmo. Você sabe que eu só estou atrás de alguém para me divertir. — Ele sorriu para a Debbie que abriu a boca para responder, mas não conseguiu, pois ele continuou o que tinha a dizer. — E não venha com essa de que eu estou brincando com os sentimentos de alguém. Eu sempre deixo bem claro que eu só quero me divertir. E só por um ano.
— Mas é o nosso último ano. Você não vai poder dar continuidade ano que vem então porque fazer esse ano de novo?
— Por que não fazer e transformar esse o melhor de todos, hein? — seu sorriso de canto mostrava que o garoto estava se divertindo com toda essa conversa. Debbie apenas bufou e deu de ombros. Desde o começo foi contra essa ideia do amigo. Principalmente porque sabia que sempre alguém sairia ferido. E ela temia pelo dia que o amigo sairia ferido. E era a única a saber o quanto Fernando já sofreu. — Não fica assim, Debbie, esse ano vai ser o melhor de todos. Eu prometo.
— Espero que você tenha razão. — ela deu um sorriso de canto e Fernando notou que era forçado.
— Sabe, esse ano eu vou fazer diferente. — o garoto começou tentando animar a amiga. Debbie olhou para o outro esperando a continuação. — Antes de sair a procura do meu mascote, eu vou achar um namorado para você.
— E quem disse que eu quero um namorado? —o tom de diversão voltou para a fala da menina e Fernando sorriu orgulhoso de si por ter conseguido animá-la de novo.
— Não é querer. É precisar. Faz tempo que você não sai com ninguém desde você-sabe-quem. — Debbie apenas revirou os olhos, mas sorriu para o amigo.
— Talvez eu não queira mais ninguém por um tempo depois de você-sabe-quem.
— Por favor, já faz quase um ano que você nem se quer beija ninguém.
— Mentira, eu te beijei ano passado naquela festa, lembra?
— Isso não conta. Eu to falando alguém que você possa ter algo além de amizade.
— Eu estou bem sozinha, Fe. — Debbie sorriu para o amigo que apenas arqueou uma sobrancelha em desafio.
—Mas você é bonita demais para ficar sozinha, meu amor.
Fernando sorriu para a garota enquanto entravam pelos portões da escola. O garoto notou que o local estava mais cheio que ano passado. Parecia que cada ano que passava o local só inflava. E ainda tinha muita gente que saia e se formava todos os anos. O prédio era antigo, mas bem conservado. Era a maior escola da cidade e a mais bem nomeada. Fernando sentiu um pequeno aperto no peito. Por mais que detestasse sair tão cedo de casa todo dia, sentiria falta do prédio.
Bastou que os dois subissem a escada e entrassem no edifício antigo para que todos os olhares se voltassem para eles. Fernando notou que Debbie ficou sem graça como sempre acontecia, mas ele se sentia bem dessa maneira. Era melhor para analisar o rosto de cada um dos novatos na escola. Um sorriso torto surgiu em seus lábios enquanto ele caminhava ao lado da amiga.
Tinha que admitir que a maioria dos garotos bonitos estudavam naquela escola. E ele era grato por estudar ali e poder observar todos eles. Mas nenhum deles era bom o suficiente para querer tê-los como mascote. Seu olhar foi para o lado e caiu no rosto da amiga. Debbie devolveu o olhar e sorriu de lado.
— Já viu alguém interessante para mascote?
— Na verdade, eu estou observando aqueles que seriam perfeitos para você. — Debbie arregalou os olhos castanhos em choque pela resposta do amigo que apenas riu e beijou a testa da menina. —E você tem que admitir que aqui tem bastante candidato. E alguns que realmente vale a pena perder alguns minutos.
— E uma maioria que seria melhor se não existisse. —Débora respondeu fazendo o outro rir. — Sério, Fernando, se você aprontar qualquer coisa desse gênero, eu vou arrancar a sua cabeça e pendurá-la em cima da minha cama.
—Fico honrado por ser em cima da sua cama. Assim mostra que você quer acordar todo dia com o meu rosto perfeito virado para você. — ele respondeu com um sorriso sedutor nos lábios. Debbie tentou ficar séria, mas a risada escapou antes que desse conta.
—Você é mesmo muito idiota.
Fernando apenas deu de ombros e sorriu ainda mais para a menina. Estava prestes a responder a amiga com mais uma das suas respostas bem humoradas quando seu corpo encontrou o de outra pessoa. Arqueando as sobrancelhas para quem quer que fosse, Fernando levou seu olhar para o pequeno garoto a sua frente. O garoto era pequeno, batia um pouco abaixo de seus ombros. O cabelo era de um castanho claro, quase loiro. Seu rosto demonstrava medo e inocência. E os grandes olhos cor de avelã só transmitiam ainda mais a inocência que o menino parecia ter. Um sorriso de canto surgiu no rosto de Fernando mantendo o olhar fixo nos olhos do outro. Ele havia encontrado.
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