Backseat Serenade
3 02. Pequeno estranho.
Notas iniciais
Guilherme tinha acabado de chegar à escola e não poderia estar mais perdido. Nunca imaginou que teria tanta gente em um corredor e nem que tinha tantas salas e corredores. Tentava encontrar o número de sua sala, mas as pessoas insistiam em nem ao menos desviar dele quando o via em seu caminho. Seu ombro deveria estar marcado de tantos encontrões tanto corpo a corpo quanto com livros e cadernos. E a cada encontrão que levava mais se perdia e queria poder voltar para casa.
Ou o que era agora sua casa. Ainda tinha que se acostumar com aquele lugar enorme e todos os luxos que isso implicava. Um suspiro escapou por seus lábios e ele correu os olhos pelas pessoas a sua volta. Estava passando a se sentir sufocado por tanto adolescente. Logo ele que tentava ao máximo ficar em um canto sozinho ou com pessoas que ele conhecia. Mas agora todo mundo não passava de um desconhecido. E lembrar disso fazia com que seus olhos enchessem de lágrimas.
Engoliu em seco e guardou essas lágrimas para si. Não iria chorar porque estava em uma escola nova. Não tinha mais idade para isso. Puxou a manga cumprida do seu braço esquerdo antes de encarar mais uma vez o papel que dizia a sua sala. Por mais quente que estivesse, Guilherme vestia uma camiseta branca e simples de manga cumprida e calça jeans de lavagem clara. Tentava ao máximo não chamar atenção. E a sua tentativa foi para os ares quando tudo aconteceu.
Havia voltado a se concentrar no seu papel quando outra pessoa esbarrou contra seu corpo pequeno. Não seria um problema se o garoto não tivesse se mantido com o olhar tão fixo em si. E todos a sua volta com o olhar fixo no outro. Sentiu suas bochechas esquentarem e sabia que estava corando por toda a atenção que estava recebendo indiretamente ou até mesmo diretamente. Um sorriso apareceu no rosto do garoto e se mantinha fitando seus olhos cor de avelã. Ao lado dele, Guilherme notou estar uma garota que bufou ao ver a atenção que o amigo dava para o menino baixinho.
— Uau, você é novo aqui, não? — o garoto falou com Guilherme. Sua voz era suave e um tanto rouca o que fez com que o menor se arrepiasse. Guilherme apenas concordou com a cabeça e tentou dar um passo para o lado a fim de voltar ao seu caminho para procurar sua sala, mas o outro segurou seu braço ainda sorrindo. — Ei, eu posso te ajudar se você quiser. Que ano você está? — Guilherme considerou a possibilidade de recusar a ajuda, mas não queria continuar perdido nesse corredor lotado. Então mordiscou seu lábio inferior antes de falar.
— Terceiro ano. — notou o outro arquear a sobrancelha e o olhar percorrer seu rosto atrás de algum sinal de brincadeira. Guilherme achou a atitude totalmente previsível visto que ninguém acreditava que ele realmente tinha idade para estar quase se formando.
— Mesmo? Uau, achei que estava no primeiro. — o sorriso não abandonava o rosto do outro e Guilherme não conseguiu se frear ao observar como o sorriso era bonito. Um sorriso bonito em um rosto bonito, ele pensou. Mas ele não deixou de notar que, por um momento, o sorriso vacilou em seus lábios. Como se ele estivesse decepcionado. — Dá esse papel. Tem ai o numero da sala?
— Sim. — Guilherme respondeu enquanto o outro praticamente arrancava o pequeno papel de sua mão. O outro correu os olhos pelos números e sorriu para o menor.
— Você está no corredor errado! — Fernando passou um braço em volta dos ombros de Guilherme e outro em volta dos ombros de Debbie antes de voltar a falar. — Vem, nós estamos na mesma sala e te guiamos até lá. E por falar nisso, essa é a Débora e eu sou Fernando. E você?
—Guilherme.
—Você não é muito de falar, não é? — Fernando perguntou, vendo o outro concordar com a cabeça. Guilherme se sentia desconfortável ao lado do outro, mas não sabia exatamente o motivo disso. Debbie riu de Fernando antes de falar.
— Talvez você devesse levar em conta de que você é uma pessoa que não fica quieto. — Débora se pronunciou pela primeira vez, arrancando uma gargalhada do amigo. Guilherme se mantinha observando o caminho. Haviam acabado de entrar em um corredor que nem havia notado existir ali e Fernando os dirigiu até as escadas. Os andares eram separados de acordo com o ano e mesclados com salas para todos como laboratórios. — Não precisa se assustar, Guilherme, o Fernando não é tão ruim quanto parece.
— Não mesmo, eu sou ótimo. — a gargalhada alta fez com que um sorriso pequeno aparecesse nos lábios do menor. — Mas como eu sou bom não vem ao caso. Agora eu quero saber mais sobre você! O que te fez vir para essa escola?
— Minha mãe casou com outro homem e ele morava aqui perto então nos mudamos para cá. — não era totalmente verdade, mas não havia como falar tudo.
— Você mora aqui perto?
— Mais ou menos. Eu não tenho uma ideia de proximidade, sou novo na cidade.
— Corajoso. Eu nunca mudaria para outra cidade. — Fernando falou dando de ombros. Guilherme mordeu de leve o lábio inferior em sinal de nervosismo e desviou o olhar para o chão.
—Não é como se eu pudesse negar. — Guilherme murmurou, atraindo olhares curiosos tanto de Fernando quanto de Debbie.
— Você não podia, sei lá, ficar com seu pai? — Debbie perguntou com um pequeno sorriso. Guilherme apenas negou com a cabeça, mas não falou nada. Debbie arqueou uma das sobrancelhas bem feitas para o menino. Podia ver porque Fernando havia decidido que o ajudaria e toda a sua curiosidade. Era um garoto bonito. Não muito o tipo do amigo, mas ainda bonito. Irradiava inocência e mistério. Como se escondesse alguma coisa. Provavelmente fosse isso que fazia com que Fernando estivesse interessado no menino. E foi isso que o atraiu para vir falar com ela, para começar. Mesmo que fossem apenas crianças.
— Nós temos que subir muito para chegar até a sala? — Guilherme perguntou, tentando fugir do assunto.
— Não, só mais um lance de escadas. — Debbie respondeu antes de Fernando com um sorriso pequeno. — A escola parece enorme e fácil de se perder no começo, mas você aprende. Se você ficar por perto de alguém que a conheça, garanto que vai ser bem fácil achar as salas que precisa ir.
Guilherme sorriu agradecido para a menina e Fernando arqueou as sobrancelhas. Não sabia por que, mas não tinha mais nada para falar com o outro. Decidiu apenas se dedicar a observar o outro. Era realmente pequeno para estar no terceiro ano. Nunca diria que o menino tinha a mesma idade que si ou pouca diferença como um ano. A própria Debbie chegava a ser mais alta que o garoto quando estava descalça.
Os cabelos claros caiam levemente sobre seus olhos bonitos. Suas feições eram bastante delicadas para um garoto e ainda passavam a impressão de infantilidade. O nariz levemente arrebitado e delicado, os lábios finos e um tanto rosado, as bochechas um tanto saliente. Fernando estava encantado com a delicadeza do rosto do garoto. Fazia tempo que não se sentia assim com ninguém. Seus olhos encontraram os de Debbie que apenas sorriu para o amigo.
Alcançaram o terceiro andar e Fernando sorriu ao ver as pessoas paradas em frente à porta da sua sala. Era a primeira assim que deixavam as escadas e Guilherme se espantou por ser tão fácil de chegar. Mas por outro lado, ele nunca pensaria em subir as escadas. Provavelmente perderia a primeira aula inteira no primeiro andar até pensar que estaria mais para cima. Notou três garotas caminharem em direção deles com um largo sorriso nos lábios. A da ponta da esquerda conseguia ser menor que Guilherme. Seus longos cabelos iam até a altura da cintura em um tom alaranjado com duas mechas loiras na parte de baixo. Seus olhos eram verdes vivos e seu rosto marcado por várias sardas. Seus lábios estavam pintados de vermelho e ela foi a primeira a se pronunciar.
— Fe! Achei que você só fosse chegar depois do intervalo. — Fernando soltou Debbie e Guilherme e abriu os braços para receber a menina em um abraço apertado. Ao lado dela, vinha uma garota da mesma altura de Fernando e extremamente magra. Seus cabelos negros caiam até um pouco abaixo dos ombros, todo repicado. Seu rosto não era exatamente bonito, na opinião de Guilherme, e ela parecia um tanto metida. Depois dela, vinha uma garota com a pele bronzeada e cabelos negros cacheados até pouco acima dos ombros. Seus olhos tinham um tom dourado bonito e seu sorriso era um dos mais bonitos que Guilherme já havia visto. — Karina e Annabelle achavam que você nem iria vir.
— Vocês me deixam emocionado ao ver como acreditam em mim. — Fernando respondeu, indo abraçar as outras duas garotas. Assim que se separou delas, foi a vez de Debbie cumprimentar cada uma com um beijo no rosto e um pequeno sorriso. — Mas eu sabia que teria algum novato que precisaria da minha ajuda e decidi ser uma boa pessoa e deixar a cama para ajudar o pobre coitado. — um sorriso afetado dominou o rosto de Fernando enquanto ele olhava para Guilherme. — E não é que tinha mesmo? Menina, esse é o Guilherme e ele é novo aqui na nossa sala.
— Sorte sua que o Fernando te achou. No meu primeiro dia, eu fiquei um bom tempo perdida até ir atrás de ajuda de alguém na diretoria. — a ruiva se aproximou do garoto, cumprimentando-o com um beijo no rosto. — Eu sou Camila, prazer.
— Sorte mesmo. E logo o Fe. — a garota que Guilherme achou metida se aproximou. Um sorriso desafiador surgiu em seu rosto e ela esticou a mão direita para o menino. — Prazer, Annabelle.
— E eu sou Karina. — a última garota se aproximou e, para a surpresa de Guilherme, abraçou-o rapidamente. Debbie sorriu ao ver o garoto corando de leve e se aproximou do mesmo enquanto Fernando se distraia com as coisas que as outras garotas diziam.
— Eu vou ser bem sincera com você. Boa sorte com todas elas. Eu sei o que é ter que aturá-las e elas com certeza não vão te deixar em paz. — Guilherme olhou para a menina com os olhos arregalados recebendo uma gargalhada em resposta. Tudo que passava pela sua mente era como esse ano seria um longo.
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