Back to the Past

4 A pleasant smell is coming from You


Eram 6 horas quando acordei, me levantei, peguei meu uniforme e tomei banho, logo depois, desci com minha mochila.

Como minha avó não levantaria antes das 8 horas, eu tomei café da manhã e já preparei meu almoço, pois hoje começava a diversão; achei graça de mim mesma por pensar e dizer isso. Mas fazer o quê? Eu teria que ir pra escola de qualquer jeito.

Saí de casa às 7h, mas antes, deixei um recado para minha vó que dizia que tinha ido para o colégio.

Caminhei uma quadra, no máximo, até chegar ao colégio. Eu não podia ir direto para minha sala, infelizmente, pois tinha de ir à sala dos professores.

Já lá, pedi licença para a única pessoa dentro da sala, entrando em seguida.

— Olá, senhor, sou a nova aluna, Annie.

— Ah, Srta. Sakurai, estávamos lhe esperando. Pode se sentar aqui, enquanto isso, eu reviso os documentos e vejo se o professor responsável já chegou.

— Tudo bem.

Enquanto eu esperava, vi que uma pequena quantidade de alunos começou a se amontoar perto da janela e da porta da sala para, talvez, poder ver quem seria a nova aluna. Foi até engraçado, não estou acostumada com isso.

— Ei, vocês estão vendo quem é o aluno novo? É menina?

— Shh! O professor vai nos ver.

— Ah, com licença, sensei. Vim perguntar se Yamazaki-sensei já chegou.

— Ele ainda não chegou, voltem para suas salas. — Ele tentou disfarçar, mas era evidente que ele não estava ali para perguntar sobre um professor.

Acho que isso, de certa forma, acontece sempre nas escolas do Japão, mas, nessa principalmente. Digo isso, pois ela não aceita alunos novos nessa época, a menos que, este aluno já tenha estudado aqui.

Logo depois um professor deu um sermão nos alunos e eles logo voltaram para sala — mas eles já tinham descoberto o que queriam, então não fazia tanta diferença. Após isso, o professor me chamou.

— Srta. Sakurai, este é seu professor responsável, Yokozawa-sensei.

— É um prazer, sensei. — Cumprimentei com uma leve reverência.

— Seja bem vinda, Sakurai.

Sinceramente, não consigo me acostumar a ser chamada pelo sobrenome no Japão, mas como é um costume de respeito, nada contra.

— Então, vamos?

Concordei e logo saímos. Enquanto andávamos em direção à sala de aula, percebi que alguns alunos tentavam também espiar, para ver quem era a nova aluna. Depois que me mudei pro Japão, pude ver que os alunos daqui ficam muito interessados quando chega alguém novo em seus colégios. Se bem que, quando eu morava aqui, não tinha muito tempo pra fazer o mesmo.

— Chegamos.

— Bom dia, pessoal. Hoje temos uma nova colega de classe. Entre, Sakurai.

— É um prazer conhecer todos. Me chamo Annie Sakurai e voltei para cá após cinco anos, poucos devem me reconhecer, mas espero que possamos ser bons amigos.

Olhando a classe, entre todas as pessoas que me olhavam, percebi que Haruka estava no meio delas.

— Ah, Haru-chan, então ficamos na mesma classe! Que bom.

— Eh? Ela disse Haru-chan? Ela conhece a Haruka-Sama? — Muitos da sala perguntavam.

— Fiquem quietos. — O professor ordenou. — Então, Sakurai, sente-se perto da Ishikawa. Já que se conhecem, ela pode lhe ajudar em algo que você precise.

— Sim.

Ao caminhar em direção à minha mesa, senti um calafrio. Não haviam muitas pessoas que conseguiam me fazer sentir isso; logo pude perceber que algumas meninas me olhavam com ódio. Eu olhei de relance e revidei o olhar delas, depois elas pareceram um pouco assustadas e ficaram surpresas com a minha reação.

Aquelas com certeza são as seguidoras da Haruka, ou algo assim.

— É bom te ver de novo, Haru-chan. — Cumprimentei-a.

— Digo o mesmo, Annie.

— Então, vamos começar a aula. — O professor anunciou.

O restante da aula foi apenas normal comparado às aulas na França. Eu já estava acostumada ao dilema de muito conteúdo e horários aleatórios.

No intervalo algumas meninas vieram conversar comigo, perguntaram algumas coisas sobre mim e também se eu gostaria de almoçar com elas. Respondi que não poderia, pois tinha que procurar alguém durante o horário de almoço.

— Haru-chan, você vai almoçar por aqui ou na sala do concelho com o Ren?

— Vou almoçar na sala do conselho mesmo, quer vir junto?

— Ah, até aceitaria, mas tenho que procurar e entregar uma coisa para o Ichigo e para o Shintarou.

— Não me diga que... Vai voltar para aquilo tudo?

— Não, não vou voltar. Apenas tenho que entregar o almoço que os dois cabeças de vento esqueceram, a avó deles me viu vindo para o colégio e pediu que eu fizesse isso.

— "Cabeças de vento". — Haruka riu da forma que tinha chamado-os. — Então, tudo bem. Até depois.

— Até.

Fui para o prédio em que ficavam os alunos do primeiro ano, para procurar o Ichigo; ainda bem que me lembrava do número da sala dele.

— Com licença, o Ichigo está na sala? — Perguntei para um aluno que se encontrava na porta da sala.

— Ah, acho que sim, verei para você, senpai.

— Obrigado.

—

— Ei, Ichigo, tem uma garota do segundo ano lhe procurando. Namorada?

— Não, mas acho que faço ideia de quem seja.

— Se diz.

—

— Nee-sama, o quê você faz aqui? — Ichigo perguntou.

— Você não esqueceu nada essa manhã?

— Huh? Essa manhã? Seria o almoço?

— Sim. Vocês dois são tão avoados que nem se lembraram de pegar o almoço, ainda bem que sua avó me viu indo para colégio e me pediu esse favor.

— Ah, me desculpe por isso, nee-sama.

— Não precisa se desculpar por isso. Aqui está; você viu seu irmão? Tenho que entregar o dele também.

— Obrigado e, não, não o vi. Mas talvez você o encontre no ginásio.

— Então o procurarei por lá. Vou indo, até outra hora.

—

— Então, Ichigo...

— O quê?

— Quem era aquela que veio lhe trazer almoço? Não venha com mentiras.

— Era sua namorada, não?

— Parem com isso, seus idiotas. Ela é minha vizinha e amiga de infância. — Riu após a fala.

— Se ela for apenas isso, ela não viria aqui só pra trazer seu almoço.

— Amiga de infância? Sabemos! Hahah.

— Vamos almoçar, deu desse assunto, seus chatos.

—

Enquanto andava pelo prédio do primeiro ano, lembrei do caminho até o ginásio abandonado onde o Shintarou ficava junto com alguns caras da gangue.

Quando cheguei lá, senti dois cheiros que eram conhecidos e que não sentia há muito tempo, mas não consegui me lembrar de quem era aquele cheiro. Lembrava-me unicamente de que eu conhecia as pessoas que exalavam uma mistura de flores e grama molhada.

Olhei para dentro do ginásio e vi que tinha umas três pessoas lá dentro. Logo veio um cara falar comigo.

— Olha o que temos por aqui. O que você veio fazer aqui?

— Ah, desculpe incomodar, senpai. Por acaso o Shintarou está aqui?

— Não, ele não está aqui no momento. Mas por que você não entra e se diverte conosco, enquanto o espera?

— Me desculpe, mas não posso.

— Ah, venha, você vai se divertir.

—

— Senpai, seria melhor você não mexer com esta pessoa.

— Porque eu não deveria? Para começar, vocês não mandam em mim.

— Ela tem o cheiro de alguém que conhecíamos, mas não temos certeza se é a mesma pessoa.

— Se for ela, seria bom você não incomodar.

— De novo vocês dois com esta baboseira de cheiro, vocês são cães ou o quê? Que seja não me importo com quem ela é. Só quero me divertir.

—

— E então, vamos?

Quando ouvi aqueles dois falando sobre meu cheiro, tive certeza de quem era. Só poderia ser a Ako e o Aki.

— Senpai, me desculpe, mas não posso mesmo. Bem, já vou indo. Tchau.

— Ei, espere.

Eu já estava indo embora quando ele agarrou meu braço e me puxou.

— Senpai, seria melhor você me soltar.

— Cale-se, você não manda em mim.

Eu pretendia simplesmente sair dali sem fazer nada, mas ele estava sendo muito insistente. Ou eu fazia algo ou me fazia que estivesse sentindo alguma dor e gritava por ajuda, mas a primeira escolha me pareceu mais interessante.

Num movimento rápido, virei meu corpo para pegar o pulso dele com a mão livre, apertei-o com força o bastante para que ele me soltasse.

— Como fez isso, sua desgraçada? — Ele, logo após me soltar, começou a xingar-me.

— Senpai, você deveria ter ouvido o que a Ako e o Aki lhe disseram. Eu até pedi educadamente para você me deixar ir, mas você não me deu ouvidos e ainda tentou me agarrar a força. Isso foi só o que você mesmo causou.

— Sua... Você vai me pagar por isto.

— Bom, agora vou indo, espero não ver você tão cedo novamente. Espero ver vocês novamente, Ako e Aki.

—

— Viu senpai? Deveria ter dado ouvidos ao que falamos, agora temos certeza que aquela é a Nee-sama.

— Calem-se. — Bufei ainda irritado. — E, como assim "Nee-sama"? Se vocês a conhecem, me digam o nome.

— Ah, desculpe-nos, mas não podemos fazer isto. — Aki fez gestos negativos com as mãos, enquanto falava.

— Se ficou tão interessado nela, deveria perguntar ao Shintarou ou ao Ichigo. — Ako sugeriu.

— Mas isto não seria uma boa ideia. — Os dois falaram juntos, como já era de costume.

— Isso, eu quem decido.

—

Eu não tardei em ir procurar o idiota do Shintarou, mas, infelizmente, não consegui achar aquele pé no saco; o que me fez ficar irritada com ele.

Sem mais opções — ou paciência — para continuar a procurar, decidi que iria ao bar comprar algo para comer, depois subiria para o terraço.

Enquanto eu subia as escadas, senti um cheiro que me trazia certa nostalgia. O cheiro me fazia lembrar "dele", mas, mesmo que o pertencesse, ele jamais se lembraria de mim. Tampouco, eu me lembraria do rosto dele, ou dele mesmo, se não fosse seu cheiro impregnado na minha memória.

E então eu disse, mentalmente: Terei de, alguma forma, fazê-lo se recordar de mim.

Abri a porta, mas não tinha por ninguém ali.

Por um momento, me senti desapontada. Eu realmente esperava vê-lo ali.

Sentei-me para almoçar no pouco momento que ainda me restava, lá no terraço. Quando eu estava quase terminado meu almoço, alguém apareceu por trás e falou:

— Está vindo um cheiro agradável de você.

— Huh? — Olhei para trás e sorri para o garoto. — Bem, acho que deve ser o almoço. Está com...

— Ah, antes, sou o Ritsu.

— Oh... Então, Ritsu, você ainda não almoçou?

Depois que ele disse seu nome, me dei conta do cheiro que ele emanava; eram os mesmos. Não houve mais "talvez" na minha mente, tive certeza de que era o mesmo Ritsu, e que ele estava de volta, na minha frente. E, outra certeza também existia, ele não se lembrava de mim.

— Ah, não... Eu não almocei ainda. E você, como se chama? Acho que nunca a vi por aqui.

— Sou Annie, me mudei há pouco tempo para o Japão. É um prazer, estou na turma do 2°A.

— Ah, sério? Está na mesma sala que a minha. Mas você não deve ter me visto, não fico muito tempo na sala de aula.

— Entendo, e então, vai querer o almoço? Tenho um sobrando aqui.

— Acho que devo aceitar, obrigado.

Enquanto ele comia o almoço, fiquei observando-o disfarçadamente. Analisei como Ritsu havia crescido, estava muito bonito. Os olhos eram verdes e profundos, pareciam me afogar a cada olhar discreto que dava.

Depois de um tempo, nós dois já tínhamos terminado de comer e ele me devolveu a marmita.

— Você tem algo para tomar? — Perguntou logo em seguida.

— Sim, tenho. Mas você não se importa de eu ter já ter tomado um pouco? — Era besteira, mas eu não pude evitar pensar num beijo indireto.

— Não, não me importo. Mas... Porque está rindo? Colocou algo nesse suco, não foi?

Ri de sua suspeita boba. — Não, eu não coloquei nada; pode tomar ele tranquilamente. Ri, pois havia me lembrado de algo, nada a se preocupar! Aqui, pega.

— Se você diz. Obrigado, então.

Um tempo depois ele se despediu e saiu do terraço. Enquanto ele saía, pude ouvir os passos se afastando pela escada.

Achei interessante que, depois disso, tudo ficou em silêncio; não consegui ouvir vozes de mais estudantes, durante alguns segundos. E, esse silêncio permaneceu até que o sinal tocasse.

Ao sair do terraço, olhei em volta, na tentativa de ainda vê-lo. E, na sala, fiz o mesmo, mas ele não apareceu por lá.

Enquanto o professor não chegava, eu fiquei apenas conversando com Haruka.

— Haruka, porque não me disse que o Ritsu estava na nossa sala?

— Annie, shh! Fale baixo esse nome na sala.

— Como assim? Qual o problema em falar o nome do Ritsu?

Da segunda vez, eu pude notar que as pessoas arregalavam os olhos e davam pulinhos, ao ouvir o nome dele. Eu ri disso.

— Não me diga que eles têm medo do Ritsu.

— Sim, é isso mesmo, Annie.

— Mas por qual motivo? Ele é de uma gangue?

— Isso também, mas é mais pelo motivo de que, no primeiro dia de aula, ele se envolveu numa briga com alguns alunos de outra escola e foi suspenso por duas semanas. Mas ele veio para sala antes disso, todo cheio de machucados e com alguns cortes. Os professores o viram e mandaram-no para diretoria.

— Entendo... Então, esse é o motivo.

— Mas como você sabe que ele está na nossa turma?

— Ah, eu encontrei ele no terraço por acaso e acabei almoçando junto com ele. Sem ele saber que eu o conhecia.

— Ehh?! Sério? Mas, você conversou com ele, assim... Do nada?

— Sim, conversei. Ele estava com fome e, como eu não achei o Shintarou, dei o almoço dele para o Ritsu. — Após essa frase, o professor chegou à sala e anunciou um teste surpresa. — Depois eu conto o resto, Haruka.

— Okay.

— Vamos começar. Quero saber o quanto vocês entenderam sobre a matéria. Peguem uma folha e passem o resto para trás.

Eu fui uma das primeiras pessoas a terminar, então, pensei em quando reencontrei Ritsu. Me senti triste por ele não me reconhecer.

Mas, então, me lembrei da última coisa que dissemos um ao outro no dia em que me mudei do Japão. O aperto no coração foi maior ainda, tive que ter muito controle para não chorar.

Perguntei ao professor se ele poderia me liberar para ir até a enfermaria; disse que não estava me sentindo bem. Entreguei a prova e ele deixou-me ir.