Back in Black
17 I did not lie... Just hid the truth.
Notas iniciais
A mentira é como uma bola de neve. Quanto mais a gente prossegue com ela, maior fica.
– Martin Luther King Jr.
POV'S Sam;
Após me dar boa noite, Allice se aninhou em mim, de olhos fechados, e ficou acariciando minha perna com as suas. Era um pouco incômodo, mas eu gostava. Não demorou muito para ela adormecer.
Encarei o quarto pensativo. Estava uma tremenda bagunça. Algumas peças de roupa que eu não havia juntado ainda estavam espalhadas por cantos aleatórios do meu quarto. Sorri de lado. Nós realmente estávamos precisando disso... eu estava.
Era como se houvesse um botão na minha mente e eu o tivesse desligado, o que permitia que eu não me preocupasse com mais nada, a não ser, Allice.
Olhei novamente para a anja deitada de bruços sobre o meu peito. Suas costas estavam descobertas pelo lençol branco de seda, ali permanecia uma enorme tatuagem de asas de anjo. Era realmente muito bonita. Comecei a observar seu corpo, ainda continha algumas marcas roxas devido ao chupões e as mordidelas que eu havia distribuído por aquela região.
Retirei uma mecha de seus cabelos negros de sua face e acariciei sua bochecha levemente com a ponta de meu polegar, a ponto de perceber um pequeno sorriso brotando em seus lábios. Sorri satisfeito para mim mesmo. Eu não fazia ideia do quanto Allice podia mexer comigo. Talvez ela estivesse me mudando aos poucos... ou eu estivesse a mudando.
~~//~~
Foi quando eu percebi que já não permanecia mais no quarto com Allice ao meu lado, agora eu estava sozinho. Olhei ao meu redor a procura da anja. Nenhum sinal da mesma.
Senti uma gota de água cair no meu olho. Ótimo. Havia começado a chover. Comecei a vasculhar, o lugar. Me lembrava uma floresta. Não. Definitivamente eu estava em uma floresta. O lugar frio fez com que o meu corpo congelasse instantaneamente, mas eu não estava sem roupa, eu estava agasalhado e mesmo assim, não conseguia evitar de ranger os dentes e a chuva não ajudava muito. Comecei a apalpar os meus bolsos da calça e encontrei uma lanterna, assim como a faca de Ruby.
Eu provavelmente estava caçando, a pergunta é... o quê exatamente?
Eu me sentia em um típico filme de terror, onde eu, provavelmente era o mocinho fugindo do monstro, o pensamento me causou um arrepio que percorreu por toda a minha espinha, na maioria desses filmes de terror, não existe sobrevivente.
Escutei alguns barulhos e decidi caminhar mais ainda pela floresta. Liguei a lanterna, que me parecia um pouco inútil, naquele breu total. A chuva aumentou e eu tive de cobrir os meus olhos com uma das mãos e a outra eu tentava inutilmente aquecê-la no bolso do casaco. A chuva havia dificultado o caminho e eu não sabia exatamente para onde eu estava indo, só queria sair daquela tempestade e me abrigar em um lugar seco. A minha visão estava ficando embaçada por mais que eu tentasse evitar a chuva parecia que não adiantava muito.
Eu escutei alguma coisa quebrando atrás de mim e quando me virei para ver quem era, acabei perdendo a noção do terreno a minha frente e cai. Soltei um grunhido de dor assim que meu corpo bateu bruscamente de encontro com a lama, minhas costas latejavam e a chuva continuava a cair, meus olhos e minha boca estavam sujos. Chuva e lama. Combinação mais que perfeita.
Eu tentei me levantar mas senti uma pontada na lateral do meu quadril e cai novamente, alguma coisa havia me acertado. Alguém havia me acertado. Olhei envolta não havia nada, me levantei rápido sentindo a pontada novamente, mas dessa vez era como se fosse um choque térmico. Meu quadril começou a latejar e eu não entendi exatamente o por que. Minha cabeça me dizia para correr o mais rápido possível, mas meu corpo me dizia pra permanecer ali. Escutei os mesmos barulhos de alguns minutos atrás, só que agora eram mais pertos, não pensei duas vezes, corri o máximo que pude. Eu sentia que havia alguém me perseguindo e também sentia que se continuasse nessa velocidade, o que quer que estivesse me perseguindo, iria me alcançar.
Uma luz brilhou forte há alguns metros de mim, por um momento quase me cegou com o brilho. Pensei no ditado "se você estiver morto, nunca corra em direção a luz" eu não estava, mas dessa vez, era melhor do que a morte que se aproximava aos poucos perto de mim. Comecei a correr em direção a luz que ficava cada vez mais forte conforme eu me aproximava, então senti alguma coisa tocar o meu ombro esquerdo e pouco tempo depois o chão já não estava mais sobre os meus pés, em poucos segundos meu corpo se chocou com uma coisa dura, mas eu presumi que não fosse o chão, pois começou a cair cacos de vidros sobre mim.
Tonteei. Minha cabeça não era a única coisa que tonteava, minha barriga começou a embrulhar e eu vi o sangue escorrer desde o corte que o impacto sobre o vidro havia causado na minha cabeça, até os restos cortantes de vidro na minha perna. Quando vi meus ferimentos abertos, a dor foi inevitável, assim como a vontade de vomitar.
Olhei envolta estávamos no meio de uma rua deserta os postes com suas luzes fracas espalhadas por cada canto da rua, iluminavam quase nada.
– Sammy?!
Essa voz... me virei em direção a ela e não pude evitar de ficar surpreso.
– Dean?!
Lá estava ele caído na porta de uma igreja, meu irmão mais velho totalmente arrebentado, mas isso não impedia seu sorriso sárcastico de aparecer. Havia algo mais do que sarcasmo, havia raiva, dor e acima de tudo medo. O medo brilhava em seus olhos esverdeados como eu não me recordava de tê-lo visto um dia sequer. Eu percebi que o que quer que estivesse acontecendo. Nós nunca haviamos presenciado antes.
Me arrastei pra perto de Dean, tentando ignorar a dor.
– Você está bem? — disse mais amigável o possível.
– Se eu não estivesse um trapo, iria dar uma surra em você por quebrar o meu carro... — olhei de volta para o lugar aonde eu estava, a coisa que eu havia batido as costas e a cabeça brutalmente havia sido o Impala, eu espatifei sua janela — oque explicava a chuva de cacos de vidro — e a lataria permanecia toda amassada — ...tirando isso, e os machucados e o fato de eu não conseguir falar sem sentir o gosto do sangue na minha boca... nunca estive melhor.
Tentei sorrir, mas foi em vão. Meu coração disparou após ver meu irmão sangrando ali encostado na escadaria que dava na entrada da igreja assustadoramente grande, Dean estava com as mãos em cima do ferimento perto de suas costelas — que por sinal era enorme — para piorar, uma de suas pernas estava em um estado completamente desprezível que eu cheguei a cogitar a ideia de que um lobo selvagem havia brincado com ela como se fosse seu osso preferido.
Ele parecia tentar tirar algo do bolso com sua mão livre, mas acabou se atrapalhando. Bufou indignado.
– O que aconteceu com você?! — falei quase gritando.
Desesperado, ignorando totalmente o frio e a tempestade gélida, arranquei meu casaco e cobri sua cabeça, assim como havia rasgado um pedaço de pano da minha camisa para enrolar a perna de Dean. Com um grunhido de dor da parte dele puxei o pano rapidamente amarrando envolta de sua perna destroçada.
– Filho de uma... — Dean bufou enquanto mordia a manga do meu casaco pra aliviar a dor.
– O que houve Dean?! Me conta o que diabos está acontecendo! — . Gritei sentindo minha cabeça girar.
Minha cabeça voltou a doer, a preocupação com Dean havia me forçado a ignorar as dores, mas elas voltaram com tanta força que por pouco não caio no chão.
Quando Dean abriu finalmente a boca para me responder, escutei um grito vindo de dentro da igreja.
Olhei novamente para Dean e agora ele me encarava assustado.
– Eu preciso que você vá! — eu o encarei assustado enquanto balançava a cabeça negativamente — ...eu não estou pedindo Sam, estou afirmando. Por que você — ele pareceu procurar mais ar em seus pulmões para conseguir prosseguir com as palavras- é o único que pode impedi-la.
Fiquei em choque, eu não sabia o que estava acontecendo. De repente a dor de cabeça ficou ainda mais forte, eu enxuguei o líquido vermelho que saiu do meu nariz.
Dean me estendeu um revólver, era isso o que estava em seu bolso o tempo inteiro, mas não era um revólver qualquer: Dean havia me estendido o Colt.
Encarei com os olhos arregalados o objeto nas minhas mãos e olhei para Dean esperando alguma dica do que eu estava prestes a fazer. Ele se esforçou pra sorrir.
– Você saberá o que fazer, na hora certa você saberá... — Dean me encarava com seus olhos entreabertos e em um sussurro quase inaudível Dean continuou — A serpente está voltando...
Senti um calafrio percorrer as minhas costas e instintivamente me virei em direção á pequena floresta sombria em que eu havia passado. Um homem saía dela e atrás dele, eu consegui ver uma fumaça se movendo sorrateiramente. O céu se escureceu ainda mais e as luzes do final da rua começaram a piscar, logo em seguida, um pequeno barulho juntamente com as faíscas avisava que havia sido queimada.
Eu havia conseguido ver a face do homem dessa vez, era de aparência um pouco rude. Ele aparentava ter uns 30 e poucos anos com uma enorme cicatriz que ia de seus olhos direito até a curvatura de sua bochecha, tinha olhos negros assim como seus cabelos e uma barba mal feita.
Eu tive de me esforçar para perceber que em seu rosto havia um sorriso de lado, a chuva caía perto dele mas parecia que as gotas d'água se quer o encostavam.
– A serpente está de volta!– Ele pronunciou e sumiu de vista.
Eu procurava pelos lados, mas eu não havia encontrado ninguém. Minha cabeça doeu como se milhares de pessoas estivessem gritando ao mesmo tempo, era como se fossem gritos de dor, de sofrimento. Cada grito me dava um arrepio e eu senti as minhas pernas vacilarem e caí de joelhos no chão, tentando inutilmente tampar o som com as minhas mãos ao redor da cabeça.
O mundo parecia estar girando novamente a minha volta e a sensação de enjoo repentino havia voltado e eu tentei gritar para chamar alguém, mas sentia como se algo estivesse impedindo a minha voz de sair.
Um clarão me cegou e eu senti meu rosto cair de encontro com o chão e o encontro das gotas da água fria com a minha pele.
~~//~~
Abri os olhos enquanto tentava assimilar o que havia acontecido. Eu já não estava mais naquele cenário digno de filme e terror, agora eu estava no meu quarto, com Allice ao meu lado e eu não estava mais sujo de lama.
Eu comecei a respirar novamente com certa dificuldade, o sonho havia sido tão real que eu pude me permitir pensar se havia vivenciado isso em algum momento anterior na minha vida. Não, definitivamente não era um Déjà vu.
Meu corpo estava tenso, completamente dolorido e esgotado. Eu sentia o suor escorrer da minha testa e também me sentia absurdamente frio como um cadáver, enquanto o corpo de Allice estava completamente quente. Meu coração batia tão forte no meu peito que por um instante pensei que fosse saltar e sair quicando por aí.
Allice percebendo minha inquietação, se virou para o lado resmungando alguma coisa e voltando a dormir tranquilamente. Suspirei aliviado me sentando na cama, enquanto passava os dedos entre os meus cabelos acariciando minha cabeça para que pelo menos meus pensamentos se organizassem.
Alguma coisa não estava certa, ainda faltava algo e eu não sabia exatamente o que. O que estava acontecendo? O que havia acontecido comigo? Ou com Dean? E quem era aquele homem?
O sonho fez com que eu ficasse em estado de alerta, meu corpo devido ao cansaço começou a doer, então olhei novamente para a anja deitada ao meu lado. Ela não estava lá. Allice não estava no meu sonho...
Eu respirei fundo, toda essa agitação havia feito com que o sono voltasse, me deitei devagar na cama e continuei encarando o teto. Os meus pensamentos mudaram de rumo e ao invés de pensar no sonho, agora a minha preocupação era Allice. Por que exatamente ela havia mudado de ideia? Ela havia deixado bem claro que não queria se envolver demais comigo, será isso o que ela tanto temia?
Continuei mais alguns longos minutos em silêncio encarando o teto para finalmente pegar no sono.
Quando acordei, já era de manhã e alguns raios de sol atravessavam as pesadas cortinas do quarto e repousavam sobre o meu rosto. Ainda meio sonolento, apalpei o lado esquerdo da minha cama e percebi que Allice não estava mais ali.
Meus olhos se arregalaram em questão de segundos, olhei ao redor e vi o quarto totalmente em ordem.
Será que... havia sido tudo um sonho?
Eu olhei por debaixo das cobertas e vi que estava usando a boxer, eu não costumava dormir assim. Já que havia feito muito frio ultimamente naquela região.
Esfreguei os olhos e me sentei na cama, meu corpo inteiro ainda doía e minha cabeça ainda mais. Me espreguicei na cama piscando os olhos de maneira confusa, as imagens do meu sonho ainda estavam na minha mente. " A serpente está de volta". Pensei. O que isso deveria significar? Nós impedimos o apocalipse, Lynn não corre o risco de aparecer novamente e estragar os nosso planos. Pelo menos eu achava que sim.
Fui em direção ao guarda-roupa pegar algumas roupas limpas e logo me dirigi ao banheiro. Tomei uma ducha fria e demorada. Para ajudar a me manter acordado, enquanto ainda pensava no sonho. A água me ajudou a me acalmar um pouco, parecia que conforme a água gelada batia de encontro a minha pele morna o cansaço se esvaía junto com a água que percorria o meu corpo até finalmente se dissipar no ralo.
Assim que sai do banheiro, já vestido e com a mente um pouco mais clara. Escutei leves batidas na porta e alguém entrou.
Olhei rapidamente para a entrada do quarto e lá estava ela. Allice. Seus cabelos estavam soltos e ela tinha uma echarpe no pescoço, usava a típica calça jeans preta e uma camisa vermelha de manga comprida. Estava vestida de maneira casual, mas mesmo assim continuava deslumbrante.
Sorri demonstrando afeto, mas ela desviou o olhar e depois me encarou séria.
Arqueei uma sobrancelha.
– Bom, já que você já acordou... — Allice tentou disfarçar, mas ela aparentava estar muito desconfortável — Dean havia me pedido para vim te chamar, ele quer nos falar algo importante.
Franzi o cenho.
Eu iria falar mais alguma coisa, mas acabei deixando quieto e apenas acenei com a cabeça em sinal de entendimento.
Ficamos nos encarando por um longo tempo, era incômoda a sensação de falta de palavras e o silêncio era ainda mais perturbador. Isso me causou uma pontada de decepção. Nada havia mudado. Continuaríamos flertando, mas algo me dizia que era isso... apenas isso.
– Allice...
Ela havia levantado o olhar em minha direção quanto percebeu que havia a esperança de quebrar o silêncio, mas desviou novamente quando eu decidi desistir da frase e deixar aquelas palavras pairando no ar enquanto o silêncio mortal voltava aos poucos.
Ela soltou um pigarro dissipando de uma vez por todas o silêncio que ainda se alojava no nosso meio.
– Eu não sei se começo pedindo desculpas ou sei lá...
– Pelo quê?
– Por te dar a impressão errada sobre mim.
Encarei ela com o cenho franzido quando finalmente me dei conta do que ela estava tentando dizer.
– Eu não estou achando você nenhuma prostituta barata. Se isso ajudar, eu acho que você passa bem longe disso.
Ela balançou a cabeça negativamente.
– Não é sobre isso, Sam. No momento eu não estou muito interessada na impressão que eu passo para as pessoas.
– Então o que é?
– Eu não quero que você tenha a impressão errada sobre a nossa... — ela pareceu pensar um pouco e continuou um pouco mais sutil — relação. Isso. — ela apontou para mim e depois para si mesma — O que nós arriscamos ontem, eu não sei nem como chamar.
– Você está com medo de nós termos algo a mais do que "isso" — falei com a voz um pouco alterada. — não se preocupe Allice. Não vamos, mas pelo menos não podemos fingir que isso nunca aconteceu.
– A única coisa que eu te peço é que não conte a Castiel. — encarei ela com os olhos arregalados.
– Ele não...? Como assim? É meio óbvio, não?
– Não se esqueça que estamos falando de Castiel, e não. Ele não sabe, deve só desconfiar.
– Tudo bem, se você quer... eu não falo pra ele, mas ele irá acabar descobrindo. Mais cedo ou mais tarde.
– Se isso acontecer, eu dou um jeito.
Ela se virou e por um momento eu achei que ela fosse sair por aquela porta e ficar sem olhar para a minha cara por um longo período. Mas ela congelou, com a mão na maçaneta da porta de ferro.
– Por que você mudou de ideia? — suas palavras ecoaram por entre os meus ouvidos e eu não consegui processá-las rápido o suficiente. Quando eu me dei conta do que ela estava querendo dizer as palavras em resposta saíram quase que automaticamente da minha boca.
– Por que você mudou de ideia? — eu olhei pra ela com desdém. Pude perceber que ela não esperava essa resposta de mim, mas eu ainda estava esperando uma.
– Eu... — Alguém abriu a porta a interrompendo de continuar.
– Estou interrompendo alguma coisa? — Dean estava com a cabeça para dentro do quarto.
– Está. — falei sem desviar o olhar do rosto de Allice.
– Então meu trabalho está feito. Vamos, esse assunto não é tão importante a ponto de vocês conversarem outra hora, temos assuntos mais importantes para tratar agora.
– Como pode ter tanta certeza? — eu disse finalmente desviando os olhos dos de Allice e encarando Dean desafiadoramente.
– Você vai ver.
Minutos após Dean ir nos chamar, Allice resolveu segui-lo, mas eu percebi que ela só não queria ficar mais tempo a sós comigo. Eu particularmente não entendo o por quê, afinal ontem a noite estávamos fazendo sexo como loucos e hoje, mal conseguimos nos encarar nos olhos.
E agora a situação é ainda mais complicada. Antes, quando eu e Allice estávamos a sós era uma tensão até que suportável, agora está quase me enlouquecendo.
Devido ao frio de manhãzinha, agora o relógio marcava cinco para as dez. Eu, Dean, Allice, Castiel e Anna. Sentados encarando um ao outro — menos eu que ainda permanecia recostado no portal de metal frio — em silêncio. Minha visão era baseada em descobrir quem iria falar primeiro e quando que a porcaria do ponteiro do relógio marcaria dez horas.
Dean se levantou e foi na cozinha, logo depois voltou com os braços ocupados segurando cinco cervejas. Ele as colocou em cima da mesa e abriu uma com certa facilidade. Dando um longo gole enquanto se ajeitava novamente na cadeira com os pés acima da mesa com Anna a seu lado.
Anna, Castiel e Allice pegaram as suas cervejas e voltaram novamente aos seus lugares com movimentos mecânicos. Quase sobre-humano. A única diferença era que o olhar dos robôs se parecia um pouco mais vivo do que aquelas pessoas que estavam na minha frente. Dean me dirigiu um olhar rápido e depois olhou a cerveja como se esperasse que eu me juntasse com eles diminuindo o stress, mas eu mal queria pensar em beber, ainda mais de manhã. Depois do sonho, meu estômago anda tendo umas contrações involuntárias como se tudo o que eu comesse deveria botar para fora. Eu não queria me arriscar.
Olhei para o relógio pela centésima vez — ou milésima- e ainda faltavam três minutos para as dez. Eu não sei o por que eu estava querendo tanto que desse dez horas da manhã. Acho que é para pelo menos me dar tempo de pensar em uma desculpa válida até lá, para finalmente sair daquele lugar. Respirei fundo novamente e repeti para não me descontrolar e surrar Dean por estar me encarando.
– Ótimo, já que ninguém se pronunciou — Dean se pôs de pé e e pareceu perceber a minha incomodação — vamos começar por onde? — ele pareceu pensar, mas eu o interrompi.
– Que tal começar explicando o por quê não estava aqui esse tempo todo?
Dean abriu a boca para responder, mas pensou direito e se calou.
– O que você quer saber, Sam? — Anna pela primeira vez se pronunciou desde que eles haviam voltado.
– Basicamente... tudo.
– Se você quer... mas eu quero que você fique quieto e preste bem atenção. — ele disse isso e saiu.
Allice, Anna e Castiel o seguiram e eu fui atrás.
Fomos ao "porão" do grande lugar, eu ainda ficava impressionado com os Homens de Letra. Aquele lugar era incrível.
Dean puxou as estantes de ferro cobertas de poeira e muco cheias de caixas e alguns livros antigos, dando lugar a um espaço vazio a nossa frente. Ou quase...
Logo após Anna acendeu a luz e lá estava Crowley. Acorrentado na armadilha.
Minha expressão de espanto deveria ter poupado as minhas palavras.
– Olá, rapazes. — Crowley disse com um pouco de dificuldade. — Moose, eu vejo que ficou surpreso em me ver, também estou feliz em ver vocês novamente.
– O que isso significa, Dean?
– Ora, ele não sabe. Que meigo.
O ignorei e fiquei encarando Dean esperando uma resposta.
– O tempo em que eu fiquei sumido. Crowley me ajudou. — quase cai para trás.
– Ele?! Crowley?! Um demônio!
– Você não tem nenhum direito em falar de demônios, afinal você tinha um caso com a vadiazinha da Ruby. Não é mesmo? — Crowley se pronunciou com um sorriso enorme que quase ofuscava o rosto cheio de cortes e hematomas.
Fiquei mudo de raiva. Quer que eu estivesse certo ou errado Dean sumiu e não deu explicação nenhuma.
– Você vai se explicar?
– Eu precisava de ajuda para concluir o plano contra Metatron. Após Gadreel e os testes eu não podia arriscar Sammy.
– Vocês estavam pensando em lutar contra Metatron sozinhos?
– Você vai me deixar terminar ou não? — Dean pronunciou e eu continuei o encarando incrédulo, depois apenas bufei e ele esfregou o cenho, nervoso. — Metatron não é o problema maior, Abbadon sim. Assim que soubemos que ela estava formando um exército de demônios para acabar finalmente com a terra e destruir a humanidade, ela se tornaria invencível. Foi aí que eu pedi para Castiel e Allice ficarem com você, enquanto você se recuperava aos poucos.
Olhei para os dois irmãos. Allice estava com a cara fechada e eu não entendi bem o por quê, mas Castiel estava concordando silenciosamente com tudo o que Dean havia falado.
Minha atenção se voltou ao demônio a minha frente.
– E o que Crowley tem haver com tudo isso?
– Você ficou sabendo que quando Lúcifer estava aqui, eu não queria correr o risco de perder o meu trono, e a querida alma que eu não tenho. Abbadon está fazendo com que os meus próprios soldados se virem contra mim, além disso, agora ela se diz rainha do inferno — Crowley bufou — Eu lutei muito para conseguir esse cargo e não estou nem um pouco afim de ser rebaixado.
– Crowley me procurou pois ficou sabendo de uma lâmina que seria capaz de matar Abbadon. A Primeira Espada. O problema é que tivemos algumas complicações e pelo que parece, a lâmina não funciona sem um tipo de marca... — Dean puxou a manga comprida da camiseta para cima — ...sem a marca de Caim.
A marca tingida de vermelha agora na pele de Dean me deixou abismado. Minha expressão se misturava em supresa e em horror. Eu já havia visto aquela marca... imagens do meu sonho da noite passada começaram a passar repentinamente na minha frente como se eu estivesse vivenciando aquilo. Dean usava uma lâmina que parecia mais uma espada, com dentes afiados. Eu deveria ter pulado esse detalhe, ou não prestei atenção no momento. No sonho a marca brilhava no braço de Dean fazendo com que as suas veias e o sangue escorrendo pelo seu ante-braço se tornassem visíveis. Engoli em seco.
– Caim...?
– O do antigo testamento.
Arregalei os olhos e continuei tentando absorver os detalhes.
– Sam? — Dean me chamou.
Levantei o meu olhar e só então eu percebi que havia ficado um longo tempo encarando a marca dele. Respirei fundo e continuei apesar de ainda estar um pouco desapontado, não com Dean, nem Allice e nem ninguém por ali. Mas comigo mesmo.
– E vocês não encontraram a lâmina?
– Caim nos avisou que havia jogado a lâmina no oceano mais profundo, a esse momento deve estar na mão de um colecionador de quinta categoria.
– E não tem sinal algum de aonde possa estar?
Dean balançou a cabeça negativamente.
– Então foi por esse motivo? — os três me encararam confusos enquanto Allice arqueou uma sobrancelha. — Você sumiu, sem dar notícia nenhuma e volta com um plano sem pé nem cabeça?
Crowley havia se calado. Ele dividia o olhar entre eu e Dean como se soubesse que uma bomba iria explodir, mas estava tentando descobrir em quem.
Talvez fosse sim o motivo, Dean não queria que eu caçasse mais com ele. Ele não confiava mais em mim. Novamente, as palavras que Meg havia me falado — pouco tempo antes de ser morta por Crowley no ano passado — no fundo eu queria ter realmente uma vida normal, mas a única coisa que prendia era Dean. Eu larguei tudo novamente. Por ele. Mas eu vou provar. Dean poderá confiar em mim novamente.
– Como assim sem pé nem cabeça? Se você tiver uma ideia melhor me avise.
– Essa é a nossa única chance, mas correr atrás dela sem ver os pós e contras é loucura Dean.
Ele estava me escondendo mais alguma coisa. Eu podia sentir o ar culpado e a forma que ele torcia o nariz, mas dessa vez. Allice e Castiel pareciam perdidos.
– Esse não foi o motivo pelo qual você voltou, não é?
– Crowley, é a sua vez.
Crowley arregalou os olhos. Ele não esperava por essa. Agora que eu havia percebido, se Crowley ajudou tanto por que ele estava preso?!
Ele começou a gaguejar.
– Fala Crowley! — Dean gritou.
– O-O Apocalipse. Allice começou o apocalipse.
Allice que antes estava se divertindo com a atrapalhação do demônio, arqueou as sobrancelhas e seu sorriso morreu. Depois reapareceu.
– Você está brincando não?
Infelizmente, algo me dizia que não. Ele não estava. Ela respirou fundo esfregando as têmporas.
– Você irá me dizer que... Lynn. — ela ainda não tinha levantado o olhar, mas sua voz estava assustadoramente, calma.
Crowley estava com os olhos arregalados, eu podia jurar que se ele estivesse apertado iria se aliviar ali mesmo. Dean estava com o maxilar cerrado, Anna pousou a mão no ombro de Allice tentando aliviar a tensão, mas ela se esquivou.
– Você... — tive de engolir a saliva eu se acumulou na minha boca devido ao meu silêncio — disse que Lynn iria quebrar os selos, por quê quando Allice a matou, ela iniciou o Apocalipse?
– Eu não fazia ideia! Juro! — Crowley gritou e eu vi o desespero dele — Eu retirei a informação de alguns demônios de Abaddon. Eu não sei se é verdade, mas o que eles me falaram parecia verdadeiro.
Dean olhou para Allice, cautelosamente. A anja ainda estava de cabeça abaixada e Anna e Castiel estavam em estado de alerta. Se ela quisesse pular em Crowley eles teriam de ser rápidos.
– O que parecia verdadeiro, Crowley? — eu perguntei.
– Eles falaram que assim como sua mãe, Lilith. Ela tinha um papel importante no começo do Apocalipse, mas ao invés de ser o último selo e libertar Lúcifer. Ela é o primeiro e único e libertou um dos piores demônios já criados na face da terra. Mamon.
– O demônio da avareza? — Anna perguntou.
– Sim. — Castiel concordou.
– Nós acabamos com os 7 pecados capitais, não?
– Vocês acabaram com Inveja, Gula, Ira, Luxúria, Preguiça e o Orgulho. — Allice disse em um tom de velório. — mas nunca chegaram a matar Mamon, o pior deles.
– Allie está certa. — Crowley disse. Allice levantou a cabeça e o encarou com fúria — Allice, quero dizer.
– Nós podemos acabar com Mamon, não? — Dean perguntou.
– Essa é a principal prioridade. Abaddon poderá encontrar o demônio e fazer com que ele fique a seu lado, se ele já estiver na terra, seu principal objetivo será reunir os Sete pecados novamente e Baal de brinde.
Allice havia sumido de perto de Anna e Castiel e quando vimos ela estava atrás de Crowley.
– Allice, não!
Com um movimento que causou espanto em nós quatro, Allice quebrou as correntes do demônio. Crowley por pouco não desmaiou.
– Vocês acham que eu vou ferrar com tudo mais ainda? — ela perguntou de cara fechada depois virou a cadeira de Crowley para ela — Você vai nos ajudar, se não eu vou te ensinar o que significa tortura de verdade.
Crowley engoliu em seco.
Eu já não conseguia mais pensar em nada. Tonteei e me encostei em uma das estantes. Eu encarei o chão e duas gotas de sangue caíram na minha frente manchando o meu sapato de couro. Minha visão se baseava em uma escuridão total.
– Sam? — A voz de Allice ecoou pela minha cabeça.
Flashbacks de cadáveres mutilados, sangue jorrando de partes aonde braços e pernas deveriam estar, choros capazes de assombrar o pior dos pesadelos começaram a dar uma emoção mais macabra. Senti meus olhos se revirarem e soltei um urro de dor quando comecei a escutar um barulho tão agudo que faziam com que os meus ouvidos quase sangrassem.
Uma imagem apareceu quando minha mente havia escurecido. Uma enorme cratera se abriu do chão. Uma criatura surgiu das profundezas enquanto em sua volta estavam pessoas de todas as idades, desde crianças até os mais idosos. De todos os sexos, homens e mulheres. Eles estavam cantando uma canção conhecida, mas o nome não me veio a mente, enquanto a criatura ainda flutuava para fora do grande buraco e seus olhos eram amarelos.
As pessoas que formavam a sua volta uma enorme roda com os braços entrelaçados repetiam o refrão incansavelmente. A luz resplandecente que emanava da enorme cratera fazia com que suas sombras pareciam pequenos recortes de papel de jornal, unidos como se fosse em um único ser. A criatura abriu a boca e formou palavras — que eu entendi perfeitamente — sem emitir som algum.
A serpente está voltando.
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