Notas iniciais
Um capítulo maior do que o costume. Espero que cheguem até ao fim!!!

Pouco passava das onze da noite quando Starkey apareceu na porta de casa de Harrison. Ele espreitou assim que o parceiro abriu a porta. – Entra logo, eles ainda não chegaram.

Starkey, habituado a ir à casa do parceiro e amigo, fez como se estivesse em casa, servindo-se logo com um copo de whiskey e sentando-se no sofá. – A Pattie não está em casa?

-Não. – Ele disse secamente.

-Onde é que ela está?

-Não sei, não quero saber.

Harrison caminhava para a garrafa, para atestar o copo que trazia na mão quando Starkey lhe pôs a mão no ombro e o fez virar-se e olhá-lo na cara. – Hey, que é que se passa?

-O que se passa é que… — Harrison parou de falar, colocando-se à escuta. – Ouviste aquilo?

-O quê? Tu a esquivar-te à pergunta?

-Vamos roubar a geladeira! – Eles ouviram vindo da cozinha.

Harrison correu para o aparador ali perto e tirou o revólver dele, dando a sua arma de backup a Starkey. Mesmo estando em casa do parceiro, Starkey seguiu na frente. Já tinha visto o seu companheiro levar um tiro não só na frente dele, mas por ele. Sim, ele tinha mentido para Eva sobre ter levado um tiro. Tinha sido George que tinha sido alvejado para o salvar; ele não ia deixar que isso acontecesse outra vez.

Os dois encostaram-se um de cada lado da parede. Não conseguiam ver ninguém, apenas a janela aberta. Deram sinal com a cabeça e entraram apontando as armas. Bufaram ao encarar os dois agentes do MI6 sentados sobre a bancada, olhando-os.

-O que te fez entrar, Harrison? – McCartney falou. – Foi a parte do roubar ou de ser a geladeira em específico?

Harrison respirou fundo de forma bem sonora e Starkey disse, apontando com a arma. – Posso?

-Força! – Ele respondeu, sabendo que o parceiro não dispararia sobre eles, mas que daria um tiro na mobília para os assustar.

-Hey, oh! – Lennon berrou, levantando as pernas, a bala entrando no móvel onde ele estava sentado. – Que é isso, homem? Não fui que falei! Queres me matar?

-Não foi o que quase me fizeste ontem? Tenho um papo tão grande na tola que parece que a minha cabeça está grávida de outra cabeça!

-Só te fiz um favor! Tens um nariz que dá para duas caras; experimenta multiplicar-te! – Ele gozou e Starkey disparou outra vez contra o móvel. — Porra, homem, pára com isso! – Lennon reclamou de novo.

Harrison tirou a arma da mão do parceiro e apontou a porta da cozinha. – Fora da minha cozinha!

Starkey foi o primeiro a sair, sendo seguido por Lennon que viu bem de perto o inchaço que o outro tinha na cabeça o que o fez se sentir um bocado mal por ter exagerado na força. McCartney parou na frente dele, dando-lhe uma lata de cerveja para a mão, afirmando. – Não devias comprar cerveja tão rasca; esta já está estragada.

-Sai… — Harrison falou num suspiro.

Só quando McCartney saiu, foi quando Harrison saiu para a sala também. Voltou a guardar as armas e trouxe o baralho de cartas e as fichas. Trouxe também uns papéis que atirou para cima da mesa à qual os outros já estavam sentados. – Papéis de divórcio? – Starkey perguntou incrédulo. – O que é que aconteceu?

-O que aconteceu? O que aconteceu foi que ela me enfeita a testa há meses, foi o que foi! – Harrison falou enquanto baralhava as cartas. Enquanto distribuía uma a cada um perguntou. – Lembraste daquele tipo que toca guitarra no bar lá no centro?

-O, o, — Starkey estalou os dedos, tentando-se lembrar do nome do tal homem. – como é que ele se chama?

-Eric Clapton. – O homem respondeu entre dentes.

-É isso. O quê? Ela encornou-te com ele?– Enquanto falavam, todos tinha revelado as cartas e sendo Lennon quem tinha a carta mais alta, ele era o dealer, por isso Harrison deu-lhe o baralho para a mão. Todos fizeram as primeiras apostas e Lennon começou a dar o jogo.

-Não vamos falar sobre isso agora… — Ele disse, tirando os papéis de cima da mesa. – ou mais alguma vez.

-Podemos jogar, ou é muito incómodo? – McCartney perguntou em tom baixo, realmente embaraçado.

-Ontem bateste-me, hoje entras-me em casa pela janela e ainda me perguntas se é incómodo jogar depois de saberes que a minha mulher me encornou?

Lennon percebeu o embaraço e a vergonha de Harrison e falou. – Bem, vamos lá jogar. Fiquem a saber que é um de vocês que vai à mesa com o Sokoloff.

Os dois detetives assentiram e começaram o jogo. Todos fizeram as primeiras apostas e viram o seu jogo. Todos estavam satisfeitos com as cartas em mão e todos cobriram a aposta que McCartney fez, subindo a parada.

(n/a: Lennon- Q, 7; McCartney- 6, 3; Harrison-6, K; Starkey-3,3)

-O quê? A gente está a jogar a dinheiro? – Starkey perguntou preocupado.

-Nós estamos, tu já não sei. – O parceiro dele disse. – Eu passo a vida a pagar-te as dívidas, onde é que tens dinheiro para apostar?

-Essa é a questão, — Ele depois baixou o tom de voz, estupidamente achando que os outros dois não ouviam nada, estando ali a dois metros dele. – eu estou liso!

Lennon, que estava ao lado dele, inclinou-se sobre o detetive e sussurrou. – Aqui ninguém é surdo! – McCartney e Harrison riram. — Ok, os adultos jogam a dinheiro, baixinho! – Lennon revelou três cartas do baralho:6,6,K. – Se ganhares, eu não me importo que leves o dinheiro!

McCartney concordou com a cabeça e Harrison acrescentou. – Eu então não me importo nadinha. Mas é bom é que aprendas a poupar!

Lennon, assim que virou as cartas, sabia que mais valia abandonar o jogo, e foi o que fez, atirando as duas cartas para o monte das fichas.

Os outros três deram uma espreitadela nas suas duas cartas e continuaram. Harrison por agora estava bem e McCartney e Starkey esperavam pela mesma carta, um 3. Novas apostas se fizeram, e agora Lennon observava os outros, que também se entreolhavam entre um gole de whiskey. Lennon virou mais uma carta, J.

Harrison sabia que podia ganhar uma pequena quantia do dinheiro em jogo, mas queria ver o parceiro ganhar, porque conhecia as expressões dele, e sabia que ele poderia ganhar ao MI6, nem que fosse por bluff. McCartney e Starkey continuaram em jogo, fazendo as últimas apostas. O detetive foi primeiro e depois McCartney, achando-se todo fanfarrão disse:

-All in! – E empurrou todas as fichas para o centro.

Lennon virou-se para Starkey e perguntou. – Jogas tudo ou desistes?

Um sorriso de soslaio apareceu nos lábios do detetive que pegou em quantas fichas tinha e as colocou no centro também, afirmando. – All in!

-Muito bem. – Lennon disse, e tirou mais uma carta. O tão aguardado 3. Os dois encheram-se de gabarolice pois era a carta que ambos queriam, mas ainda não sabiam o jogo alheio. – Paul, mostra o teu jogo. – Paul sorriu, virando as cartas. – Full House. Starkey? – O detetive riu-se e virou as cartas, reconfortando-se na cadeira. – Quadra de ternos.

-Tudo meu! – Ele disse, puxando para si todas as fichas.

Paul engoliu num único gole todo o whiskey, não se acreditando que tinha acabado de perder tudo. Lennon juntou as cartas, dando-as a McCartney. Sim, já que ele estava de fora serviria como dealer. Ele distribuiu novamente as cartas e os três viram o que tinham recebido.

(n/a: Lennon- 2, 10; Harrison- K, Q; Starkey- 5, 7)

Após as apostas serem feitas, Paul revelou as três primeiras cartas: 6, 8, 9. Starkey quase morreu por dentro: ele tinha um Straight Flush, que é só a segunda melhor mão que se pode ter! Quer as suas cartas, quer as que tinha sido acabado de ser revelados eram do mesmo naipe. Ele ia sair dali rico, e ele não estava a jogar a dinheiro. Ele não tinha nada a perder, aliás, ele era quem mais saia a ganhar!

Lennon logo nessa ronda ele deitou fora as cartas. Harrison vendo isso não deixou que o seu parceiro pensasse que tinha o jogo no papo por desistências. Ele iria o mais longe que conseguisse. Lançaram mais umas fichas e McCartney revelou outra carta: Q.

Harrison olhou o companheiro e viu que o tinha abalado. Ele ainda podia fazer um par, e iria com esse jogo até ao fim, porque ele não queria ganhar tudo, ele só não queria era que Starkey não ganhasse tudo! E foi quando ele lhe trocou as voltas.

-All in! – O baixo disse.

Quem é que ele queria enganar? Harrison só não queria que Starkey levasse tudo, mas ele ganharia uma ninharia tendo apenas um par de Q. Ele sabia que o parceiro e amigo era tudo menos burro, e no que tocava a jogos de apostas, ele é olho-vivo, por isso, ele não seria burro para deitar tudo ao jogo sem ter uma mão forte.

Harrison atirou as cartas para o monte das fichas e Starkey não tinha se quer que mostrar as cartas, mas os outros fizeram sinal com a cabeça, revelando curiosidade. O baixote sorriu outra vez e virou as cartas enquanto casualmente pegava nas fichas. Os três ficaram boquiabertos. Era possível alguém ter assim tanta sorte?

Lennon e Harrison estavam nas lonas; as fichas deles juntos não chegavam se quer a metade do que Starkey tinha, e Lennon sabia que iria perder o próximo jogo também. Ou perdia ou desistia…

McCartney deu as cartas para o terceiro jogo e agora o ‘campeão’ ressentiu-se nas cartas que viu. Harrison sentiu-se sortudo, e Lennon ia desistir porque a sorte não estava com ele nesse dia. É difícil fazer batotice neste tipo de jogo, mas o agente sempre deu um jeito. Hoje, é que nem jogo nem sorte nem batotice. Ele era o derrotado da noite, e sentia-se pior que o Paul fanfarrão que deitou tudo a perder.

(n/a: Lennon-4, K; Harrison- A, 10; Starkey- A, 9)

Harrison sentia-se mais do que confiante agora. Ele sentia-se gabarolas. Se o parceiro tinha acabado de fazer um Straight Flush, talvez ele tivesse sorte e conseguisse um Royal Straight Flush. Paul deitou três cartas, todas do mesmo naipe: K, J e 7.

Starkey pedia para mais uma carta do mesmo naipe, assim como Harrison, mas o magricela era ainda mais específico, necessitando de uma Q. Após as apostas, foi mostrada mais uma carta: 8, de ouros. Nenhum dos dois queria aquela carta.

Com as cartas em jogo nesse momento, não haveria muitas hipóteses de ter uma boa mão, por isso, mesmo era provável que o seu parceiro achasse que ele tinha a maior mão possível do jogo após deitar todas as fichas em jogo.

Starkey sabia que estava com a corda ao pescoço: ou apostava tudo ou desistia. Mas desistir para o parceiro não era opção. Se perdesse, pelo menos perdia para ele e não para os de fora. Todas as fichas no centro da mesa seriam para um dos dois, e um deles jogaria o último jogo com Lennon.

McCartney desvendou a quinta carta coletiva. Harrison bateu com a cabeça na mesa. Não era possível ter perdido uma mão tão alta por causa de uma carta. Até tinha saído o mesmo naipe. Foi vergonhoso para ele virar as cartas e todos verem um jogo tão perfeito, estragado pelo 2 de paus.

Mas quem saiu vitorioso foi mais uma vez, e já sem surpresa Starkey, puxando as fichas para si após ter conseguido um Flush de paus. Agora com McCartney e Harrison de fora, Starkey achava-se competente para derrotar Lennon.

-Não pode ser! – Harrison resmungou para McCartney. – Baralhaste mal as cartas!

-Ah foi? – O outro disse. – Então baralha tu agora! – McCartney deu-lhe o baralho e acendeu um cigarro, já que era o único que ainda não tinha tido oportunidade disso.

Harrison baralhou as cartas e distribui-as enquanto Lennon e Starkey faziam as apostas. McCartney sabia que o seu parceiro daria de alguma forma o fim aquele jogo; quer ele ganhasse, quer ele perdesse. Já tinha desistido muitas vez hoje, e agora que estava na ‘final’, não ia recuar. E, além disso, ele queria muito que ele lhe ganhasse porque tinha perdido para o baixinho todo o seu dinheiro. Agora era uma questão de honra!

(n/a: Lennon-10, 9 Starkey-J, 2)

Após Harrison mostrar as três primeiras cartas coletivas, nenhum dos dois tinha nada em mãos. Novas apostas e foram reveladas as duas últimas cartas. Nenhum tinha uma jogada decente. Jogavam então para a carta mais alta. Lennon tinha um 10, e não queria sair derrotado. Por isso, deitou todas as fichas em jogo. Já Starkey achou que se a sorte tinha estado com ele até agora, não ia ser neste momento que o ia abandonar. Assim, apostou tudo também.

400 Libras em jogo que só iria para um deles. Lennon pagaria a McCartney a sua parte se ganhasse, e Harrison de bom grado deixaria que Starkey ficasse com todo o dinheiro no caso da sua vitória. O agente revelou primeiro o seu jogo. Starkey teria que ter uma carta mais alta que um 10 para ganhar. As hipóteses estavam reduzidas para o outro já que tinham saído K e Q nas cartas coletivas.

Iria aquele homem ter sorte outra vez de ter um ás nas mãos, Lennon perguntou-se. Starkey virou as suas cartas, uma sobreposta à outra. Ficou-se a ver um 2. Se assim fosse, Lennon ganhava, mas o detetive mostrou a carta debaixo e viu-se um J. Starkey limpou todo o dinheiro em mesa, e ele que não estava a jogar a dinheiro!

-Ele deve fumar alguma coisa que o faça ganhar, só pode! – Lennon reclamou dando-lhe a sua parte do dinheiro.

-Está resolvido, — McCartney falou, pagando ao detetive também. – Harrison vai jogar com o Sokoloff.

-Isso é bebedeira ou estupidez a falar? Eu ganhei os jogos todos, eu devo ir!

-Pois, esse é o problema! E, para não falar que quando ganhas és festivo e aqui o Harrison fica na paz do Senhor. – McCartney disse, vestindo o casaco. – Amanhã a gente aparece pela delegacia para combinar detalhes.

Os dois agentes foram caminhando para a porta e Starkey retornou o dinheiro que o parceiro lhe dava. – É pelas dívidas que já me pagaste. – O outro guardou o dinheiro, não insistindo. – Queres que fique um pouco e faça de bartender para falares dos teus problemas?

-Não, — Harrison sorriu fraco. – eu fico bem.

Starkey saiu e foi para casa, não pressionando na ferida do amigo. Lennon e McCartney caminhavam para casa quando o mais velho disse:

-Tens que me ajudar, Macca.

-Com o quê? – Ele demandou, acendendo-lhe o cigarro.

-A Cynthia foi para casa da mãe faz já um mês. Levou o Julian com ela. Diz que eu não tenho tempo para eles. – Lennon parou e McCartney parou também duas passadas à frente, olhando-o. – E se ela faz como a mulher do Harrison e pede divórcio?

McCartney deu de ombros, não sabendo o que responder. – Não sei que te diga.

-Ajuda-me então! – Os dois começaram a andar novamente.

-Como?

-Fala com ela. Liga-lhe.

-Da última vez que me pediste ajuda e as coisas não saíram como querias acabei com um garfo no ombro!

-Vai ser assim? – Lennon virou-se contra a parede, abrindo o zíper das calças. – Não me vais ajudar?

-Qualquer dia ainda põem aí uma placa a dizer: “John Lennon urina aqui regularmente”! – McCartney gozou, encostando-se no candeeiro, esperando.

-A urinar na via pública, cavalheiro? – Um polícia falou, parando ao lado de Lennon.

-Ele está perto de estar perdido de bêbado! – McCartney disse.

-Então sendo assim o senhor pagará a multa dele!

-Multa!? – Lennon já tinha acabado de urinar (sim, porque ele não parou só porque o polícia estava ali!) e deixou que o seu parceiro resolvesse o assunto. McCartney enlaçou o candeeiro e fingiu não se segurar nas pernas, olhando o polícia com os olhos semicerrados. – Que estás a falar querida? Ele está podre de bêbado, mas eu só o fui levar a casa! Por que é que estás a falar em multas?

-O senhor está embriagado também?

-Quem eu? – Ele disse, olhando em redor. Lennon fazia um esforço para não se rir. – Eu não, ele está! – E apontou Lennon. – Eu só o vim trazer a casa!

-Eu não estou bêbado! Aqui ninguém está bêbado! – Lennon tremeu sobre as pernas, falando para o polícia. – A gente consegue ir até aquele candeeiro além, — Ele apontou o candeeiro ao virar da esquina. – assim, ele linha reta, direitinhos! Quer ver?

O polícia suspirou e falou. – Vão lá, quero ver isso!

Os dois foram andando aos tropeços até à esquina, fingindo que estavam embriagados e chegados ao candeeiro desataram numa corrida, só parando em casa de Lennon.

-Achas que o despistamos? – McCartney perguntou, recuperando o fôlego.

-Há já um quilómetro, homem! – Lennon começou a rir-se e McCartney riu também. Os dois sentiam-se como dois miúdos.

Assim que se acalmaram, Lennon abriu o portão e antes que ele chegasse à porta, McCartney garantiu. – Eu vou dar um jeito de te ajudar, amigo.

-Eu sabia que podia contar contigo. – Lennon falou e entrou. McCartney seguiu então para casa.

Nessa noite, os quatro homens sentiram pesado a mesma coisa: a falta de uma mulher ao lado deles.