Baby Care

15 Um verão de risadas


“...não vão terminar por uma briguinha assim. Você e Bonney vão superar isso, mas você ainda tem que descobrir o que ela fez com todo o dinheiro da conta, Ace. Algo está errado, muito errado.”

— carta de Sabo para Ace, semanas após o nascimento de Blaze.

— Certo, agora adicionamos o ketchup. – Sanji dizia para Koala, na cozinha da universidade. – calma, não tanto! Isso, agora, mexa para que se misture.

Koala havia pedido a Sanji, o único estudante de gastronomia que conhecia, que a ajudasse em uma questão: o undokai da creche de Blaze seria no próximo fim de semana, e como de costume em eventos assim, os pais iriam e cada família comeria seu almoço ao ar livre, em cima de uma mantinha.

Mas após o dia em que fora ao shopping com Sabo, percebeu que o patrão sentia muita falta da comida da terra natal de sua família, a mesma que tivera a partir do momento em que fora criado por Dragon. Queria agradá-lo e fazer um almoço bem tradicional, mas não conseguia, de forma alguma, ter êxito apenas seguindo tutoriais da internet.

— Às vezes ficava aguado e esquisito. – certo dia dissera para Nami, no intervalo entre as aulas – às vezes muito salgado, às vezes muito doce. Não sei como fazer.

— Pena que eu não tenho muito tempo, senão eu mesma te ensinaria. – lamentou a ruiva. – se tivesse alguém que... Ah, Sanji-kun! – ela chamou pelo rapaz loiro que passava pelo corredor, e que veio correndo na mesma hora. – Sanji-kun, a Koala-chan está precisando da sua ajuda.

— Nami-swan! Koala-chwan! Podem pedir o que quiser, sou seu humilde servo! – afirmou afervorado.

— Ela quer aprender a cozinhar um prato brasileiro, será que pode ensinar a ela?

Após Sanji concordar tão animado, não havia mais como negar. Não que tivesse aversão a ele – o rapaz era simpático e muito educado com mulheres, principalmente – mas, no fundo, a chateava o fato dele estar sempre atrás de um rabo de saia e não notar a tristeza que causava em sua amiga Pudding.

— Tome cuidado com a quantidade de sal, tem que provar. – advertiu-a, concentrado em ensiná-la.

— Acho que está bom. – disse após provar o molho do strogonoff. – não está?

— Está sim, muito bem. – o loiro sorriu. – com isso completamos sua lição.

— Que empolgante, espero conseguir fazer assim no dia do undokai.

—Apenas siga a receita e lembre do que eu lhe disse que não tem como errar. Além disso, se ainda restar alguma dúvida, pode me ligar.

Sorriu para ele, no fundo, entristecendo-se. Sanji era alto, tinha pernas longas, cabelos loiros – mais claros que os de Sabo. – que cobriam-lhe o olho direito. Sua sobrancelha era seu traço mais marcante, com uma espiral perto da têmpora.

Uma vez, perguntara à Robin o porquê do cozinheiro esconder um olho, e ela lhe confidenciou que, até um tempo atrás, Sanji mantinha o olho direito amostra, cuja espiral era na ponta, e não perto da têmpora.

— Como as sobrancelhas de Reiju. – acrescentou a morena. – imagino que ele não goste de sobrancelhas assimétricas.

Riu de si mesma. Por que estava pensando nisso, afinal?

— Você é um bom cozinheiro. – elogiou-o. – também sabe fazer doces?

— Doces e drinques, mas comida mesmo é minha especialidade.

Não pôde aguentar a oportunidade, e comentou:

— Pudding é ótima com doces, sabia? Uma vez ela fez um Mille Crêpe de morango que parecia ter sido feito por anjos.

— Pudding-chan é um verdadeiro anjo na cozinha, nunca vi uma pessoa com mais talento do que ela. Já provei criações de confeiteiros como Cedric Grolet e Dominique Ansel, mas os doces que ela faz... – Sanji sorriu. – eles são especiais.

— Nossa, se você diz, deve ser verdade. – falou. – por que ela faz faculdade de publicidade, então? Não deveria fazer curso de... Confeitaria? Isso existe?

O loiro adquiriu uma expressão de raiva contida.

— O sonho dela é estudar em Paris para ser uma patessiere, mas nunca pôde, por causa da mãe.

Pudding não falava muito sobre a própria família, e tudo o que sabia sobre a amiga eram coisas que suas outras amigas lhe contavam. Sabia que sua mãe, Charlotte Linlin, era uma mulher já idosa, e uma empresária de sucesso, embora não soubesse exatamente com o que sua empresa trabalhava. Apenas o que sabia era que, dentre todos os filhos que tivera, era Pudding quem ela queria para tomar o seu lugar.

Vivi também revelou, aos sussurros, que ela era uma mulher desalmada e impiedosa, e que sua principal política era acabar com a concorrência de qualquer jeito. Não gostou muito da definição dela, e se sentiu muito mal por Pudding, pois a relação delas não parecia ser das melhores.

— Ela a quer como herdeira. – concluiu, entendendo a expressão de Sanji, até que algo se passou por sua mente: — mas Sanji-kun... Como você sabe de tudo isso?

A expressão do cozinheiro mudou, tornando-se mais branda e pensativa. O rapaz começou, então, a lavar a louça, e finalmente matou sua curiosidade quando disse:

— Por que nós fomos noivos.

(...)

Sabo esperava pacientemente por Koala, que estava “resolvendo assuntos importantes” e demoraria um pouco para aparecer. Por sorte, aquele dia, Blaze e as outras crianças da creche estavam praticando para o dia do undokai, e todos os pais e responsáveis deveriam buscá-los uma hora depois, o que veio a calhar para os dois.

O evento seria no sábado, e ficou feliz ao perceber que o período das provas mais difíceis havia passado. Não sabia se sentira um pouco de dificuldade porque o nível dos testes aplicados aumentou ou se era consequência do tempo que permaneceu fora das salas de aula. Na verdade, era provável que fosse um pouco dos dois, mas, no fim, sabia que tinha se saído bem em todas.

— Sabo-san?

Sobressaltou-se ao ver alguém ao seu lado. Estava sentado em um banco, na área externa do campus, e alguns dos outros estudantes estavam em grupinhos conversando e caminhando. O som dos passos devia ter sumido em meio aos outros sons.

— Coby. – cumprimentou-o.

Coby era um dos maiores fãs da banda do clube de música de Luffy, e o conhecera em alguns dos shows do irmão. Ele estava no primeiro ano da faculdade, e crescera bastante desde a época do ensino médio, quando era um menino baixinho e franzino. Achava o garoto bem gente boa, apenas um pouco nervoso demais.

— C-Como vai? E a família? – o rapaz perguntou, ao tentar puxar assunto.

— Senta aqui, Coby. – riu, oferecendo o lugar ao seu lado. – me diz, sobre o que você quer falar?

— Me desculpe se estou parecendo um oportunista interesseiro. – seus olhos estavam arregalados diante da possibilidade.

— Se acalma, não estou pensando nada disso. É sobre o Luffy ou a banda? Precisa da minha ajuda para pedir algo a eles?

— Não, eu...

Ele se remexeu um pouco no lugar, olhando para o chão e de bochechas coradas. Em um delírio momentâneo, chegou a cogitar que fosse se declarar para ele ali mesmo.

— Estou interessado em uma moça.

Ah, isso era novidade. Jurava que ele era gay.

— E ela... Bem... – tossiu. – ela é mais velha, e muito bonita também.

— Você quer dicas?

Isso sim seria um desastre, considerando sua própria falta de experiência.

— Não exatamente dicas, eu... – Coby tomou fôlego. – eu percebi que ela é amiga da sua namorada, e gostaria muito que me ajudasse.

Sabo piscou, atônico. Namorada? Ele falava de Koala? Um tanto confuso, olhou em volta. Se Coby estava levando sua relação com Koala para aquele lado, quantas mais pessoas também estavam? O que elas comentavam?

— Considerei pedir ao Luffy-san, porque a namorada dele também é amiga dela, mas não acho que ele seja a melhor pessoa pra esse tipo de situação. E sinceramente Nami-san me dá um pouco de medo. – continuava a falar. – mas a sua namorada me parece tão calma e simpática que acho que pode funcionar.

— Koala não é minha namorada. – declarou enfático. – isso é um boato, somos só amigos.

— Oh. – sentindo que o ofendera, Coby se curvou. – desculpe pelo inconveniente, Sabo-san.

— Não precisa se preocupar com isso, só quis esclarecer. – acalmou-o. – mas como exatamente podemos ajudar?

— Pensei em um... Goukon?

— Um Goukon? Mas entre quem?

— Tenho duas amigas e um amigo que poderiam aceitar.

Pensou naquilo por uns instantes. Coby era um bom rapaz, e se estava lhe pedindo aquilo, era porque realmente precisava.

— Você pode recusar se quiser. – garantiu o mais jovem, em tom preocupado.

Sabo balançou a cabeça.

— Tudo bem, posso te ajudar, e acho que Koala não vai se importar, embora eu deva consultá-la primeiro. – disse a ele. – mas afinal, qual amiga é essa?

— Charlotte-san. – respondeu. – Charlotte Pudding-san.

(...)

O dia do undokai de Blaze finalmente chegou, e todos os pais estavam extremamente empolgados para ver seus bebês competindo e se divertindo entre si. Com o mês de julho recém-chegado, o calor do verão viera com tudo, transformando aquele dia específico em uma pequena amostra do que viria a ser a estação mais quente do ano. Koala se precaveu, obviamente, passando protetor solar no rosto de Blaze, que sempre ficava com mais sardas ainda quando exposto ao sol.

— Chega, mamãe! – ele resmungou, cansado do cuidado dela.

— Espera, só mais um pouquinho. – ela atentou aos pequenos lugares, passando também nas pontas das orelhas.

— Não sabia que aí queimava também. – comentou Sabo, vendo a cena.

— Queima, e como queima.

— Tipo fogo? – Blaze interviu, curioso.

— Hmm... É, tipo fogo. – concordou.

O rosado processou aquilo por alguns segundos.

— Eu goto do fogo! Fogo legal! Ele... Ele... Ele quima! Quima assim: whuaaaaaa! – ele levantou os bracinhos para o céu enquanto gritava.

Riram da espontaneidade dele, que também arrancou risadas de alguns pais perto deles.

— Certo, papais e mamães! Todas as crianças da turma tulipa precisam ser levadas agora para a sala de aula para vestir a roupa! – Reiju apareceu no pátio, fazendo seu anúncio.

Sabo se prontificou a levar Blaze, pegou-o no colo e seguiu junto com as outras mães.

O dia se desenrolou de forma bem tranquila. As crianças maiores, até o terceiro ano do jardim de infância, tiveram, de fato, gincanas de corrida e outras atividades típicas de um undokai. Os bebês da creche, no entanto, tiveram atividades mais leves, junto de suas mães ou pais.

A turma de Blaze, em específico, vestiu todos os integrantes de adoráveis abelhinhas, que tinham tarefas simples como pegar o néctar de enormes flores espalhadas pelo pátio, andar de triciclo, e passar por debaixo de túneis.

Uma das últimas atividades incluía uma dancinha dos responsáveis com seus bebês. Koala gravava tudo com a filmadora, e riu alto da cena de Sabo dançando uma cantiga infantil com Blaze, destoando no meio das outras mães por seu tamanho. A maioria das crianças da idade de Blaze choravam ou não colaboravam com a atividade, mas o rosado parecia empolgado por ter o pai ali com ele, e rebolou ao som da melodia como nunca fizera antes.

— Blaze! Acena pra mamãe! – gritou para ele, que olhou-a com um sorriso no rosto. Sabo pegou a mão dele e fez um aceno.

A tão esperada hora do almoço finalmente chegou, e estava empolgada por finalmente poder mostrar o que aprendera com Sanji. Estendeu a manta no gramado e pôs as marmitas no centro, ansiosa pela reação dele.

— Achei um pouco estranho o undokai ser em junho, e não em outubro, como normalmente é, mas até que ficou bem organizado, não acha? – ele dizia para Koala, colocando de novo o chapéu de Blaze que ele insistia em tirar.

— Será que é porque tem muitos filhos de americanos matriculados?

— O que isso tem a ver?

— Não sei, talvez as gincanas americanas sejam no verão. – arriscou. – de qualquer forma... O Blaze estava tão fofo! Você pretende fazer um dvd?

— Vou, sim. – sorriu. – não só isso, vou salvar na nuvem também. Não quero perder nenhum momento desses.

Koala abriu as marmitas uma a uma, e quando o olhar dele pendeu sobre a comida, viu que ele estava surpreso pelo cardápio.

— Strogonoff! – exclamou ele. – você que fez, Koala?

— Sim, eu mesma. – respondeu orgulhosa. – é de frango, o seu preferido, certo?

— Com certeza. – ele pegou sua porção, e provou quando ela lhe entregou o garfo. – ah, trouxe batata palha também! – viu-a virar o conteúdo junto à comida.

—Você... – corada e aflita como uma jovem menina, perguntou a ele: — você gostou? De verdade?

Ele terminou de mastigar e engolir, e respondeu com a voz suave e intensa.

— Eu gosto de qualquer coisa que tenha sido preparada por suas mãos.

Koala respirou fundo, sendo acertada em cheio.

Felizes e satisfeitos, os três saborearam o almoço, sentindo o vento quente bagunçar seus cabelos vez ou outra. Blaze foi o primeiro a acabar, e sua barriguinha se tornou um pouco mais saliente depois da refeição, o que gerou risadas por parte do tio e da babá.

— Mamãe, possu bincá? – ele se inclinou nela, com o objetivo de conquista-la.

— Você está cheio, seria melhor descansar um pouco. Se ficar se agitando vai ficar com dor de barriga. – advertiu-o.

— Pufavô! Pufavô!

Momonosuke estava a alguns metros deles, olhando para Blaze com expectativa. Se tornou claro que o menino era motivado pela ideia de se divertir com o amigo.

— Aqui. – Sabo revirou a mochila, à procura de algo. Tirou dali dois trens pequenos, um vermelho e um azul. – brinca quietinho com seu amigo, está bem?

Blaze catou os dois trens com rapidez e correu até o amigo, deixando o jovem casal a sós. Koala procurou os olhos de Sabo, que estavam concentrados no sobrinho que sorria ao se divertir com o amigo. Era difícil não admirá-lo por pequenas coisas como aquela. Ter o cuidado de levar consigo itens para a felicidade do filho não era algo que todo pai faria, até mesmo os pais de sangue.

— Koala. – ele a chamou ao desviar o olhar dos meninos. – eu gostaria de conversar com você sobre uma coisa.

Seu coração deu um salto em expectativa.

— Sim?

— Estive com Coby essa semana. Aquele menino fã do Luffy, sabe? – ele prosseguiu quando a viu assentir. – e... ele quer saber se você pode ajudá-lo. Você apenas precisaria convencer Pudding-san a participar de um Goukon, para que ele tenha a oportunidade de se aproximar dela.

Koala pensou naquilo por uns instantes, acalmando seus ânimos. Não era um pedido extraordinário, mas não era do feitio de Sabo se envolver em algo assim.

— Você também vai participar desse Goukon? – ela perguntou, pegando-o de surpresa.

— Eu... Ahn... Acho que sim, se não houver um número par.

— Até poderia fazer isso, mas... – em dúvida, Koala desviava o olhar de Sabo a todo instante. – não é que eu esteja de má vontade, mas não sei se isso seria algo bom para a Pudding.

— E por que acha isso?

— É que ela... – suspirou. Não queria explanar as dores da amiga, mas Sabo não desistiria enquanto não entendesse minuciosamente. – é que ela ainda está sofrendo pelo término do noivado com Sanji.

Superando todas as suas expetativas, Sanji lhe dissera na última vez em que se encontraram que, quando eram mais jovens – perto de terminar o colegial – suas famílias estavam formando acordos legais para unir as duas empresas, e como ambas tinham muitos herdeiros, escolheram justo os dois para fazer o trabalho sujo.

Sanji, na época, ainda era financeiramente dependente do pai que tanto odiava, e não viu outra alternativa a não ser aceitar o que lhe impuseram. Conheceu Charlotte Pudding, que era mais bela do que esperava, e prometeu-lhe ser um bom esposo, apesar da pouca idade. Os dois se deram muito bem, e no decorrer do noivado, parecia que tudo acabaria bem, até o dia em que Sanji descobriu que o pai obrigaria também Reiju a se casar com Perospero, outro filho de Bigmom, que era cerca de trinta anos mais velho que ela.

Movido pelo ódio, o rapaz saiu da família como um desertor junto da irmã mais velha, e foram abrigados por seu mentor, conhecido como Zeff perna vermelha. No fim, Pudding foi forçada a terminar o noivado e se afastar de Sanji, mesmo que nunca o tenha feito completamente.

— Ela sofre pelo fim do noivado? – Sabo repetiu, descrente, por algum motivo. Estranhou a reação dele.

— Sim, ela sofre. – franziu o senho. – por que está implicando isso?

— Não é implicância, mas fiquei sabendo que ela não foi exatamente uma vítima nessa história toda. Ela disse coisas terríveis pro Sanji, lembro que Luffy ficou bem preocupado com ele na época. Ele nem parecia o mesmo, abatido e apático.

— Ora, isso... – a voz dela sumia, sem ideia do que dizer. – não sei todos os lados da história, posso afirmar e confirmar o que eu vejo.

— De qualquer forma, não seria essa uma boa oportunidade? Agora ela finalmente pode achar alguém e seguir em frente. Os dois, Sanji e Pudding, parecem ter se machucado nesse breve relacionamento, por isso acho que o ideal é cada um seguir com sua vida.

Queria discordar dele, mas não tinha argumentos o suficiente para defender a amiga. Isso a deixou frustrada e inquieta, acabando com o clima bom que antes rondava o dois.

De algum jeito, ela sentia que havia algo no ar entre dois. Sanji e Pudding tinham uma conexão mágica, atrelada a um relacionamento complicado entre uma ex-noiva ciumenta e um ex-noivo galanteador. Nas poucas oportunidades em que vira os dois interagindo, era possível notar como o olhar do loiro mudava e até seu tom de voz mudava quando se dirigia à Pudding.

— Se fosse você, Sabo-kun. – ela dissera após alguns minutos, com ar pensativo. – se você estivesse no lugar de Sanji, e gostasse de Pudding de verdade, teria aceitado o fim do noivado dessa maneira ou tentaria reatar o compromisso, longe da interrupção dos pais problemáticos?

— Nenhum dos dois. – ele a surpreendeu ao afirmar, pendendo seu olhar no dela com seriedade. – porque eu jamais terei um relacionamento, muito menos me casarei.