Baby Care

16 Ferroar ou ser ferroado


“Essa menina, que você está gostando.... Ela é bonita, realmente, mas ela me parece meio problemática, não acha? Eu nunca tinha visto uma mulher yankii, muito menos uma tão escandalosa. Mas se é dela que você gosta, Ace, vá em frente. Mesmo que não tenha pedido, eu dou a minha benção.”

— carta de Sabo para Ace, após Ace se apaixonar por Bonney.

Koala tinha certeza de que a dor que sentiu dentro de si não tinha nada a ver com a comida em seu estômago. Ainda assim, sentiu náuseas e uma leve vontade de vomitar. Aguentou-se ao máximo, a fim de não demonstrar fraqueza perto de Sabo. Não, ele não poderia saber que a ferira com aquilo.

Onde estava com a cabeça ao considerar algo como um pedido de namoro? Eles eram de mundos completamente diferentes. Ele era o filho de um milionário, que estudou nas melhores escolas, falava várias línguas e frequentava lugares onde apenas a nata da sociedade poderia estar. Já ela, no entanto, era filha de adotiva de um imigrante africano, que morou a vida inteira no interior como uma verdadeira caipira.

Não costumava pensar tão mal assim de si mesma. Seu pai sempre lhe ensinara a ser forte e ter orgulho de quem ela era, e o admirava por isso. Fisher Tiger sofrera muito racismo ao chegar ao Japão no início dos anos 90, e, por isso, aprendera a se manter de pé por sua própria força, senão seria esmagado por forças externas que o fariam cair.

— Entendi. – foi apenas o que respondeu, mantendo-se inexpressiva. Se Sabo notou sua mudança de postura, não comentou.

(...)

Quando a segunda-feira finalmente chegou, avisou a Sabo que precisaria ir ao correio primeiro, para enviar uma carta para casa. Depois do que aconteceu, voltaram a se falar normalmente, mas um fundo de tristeza ainda residia em seu peito. Apenas passar o domingo inteiro fazendo faxina foi capaz de distrair seus pensamentos.

— Me respondam dessa vez... – murmurou, sentindo mais saudade de casa do que jamais sentira.

Enviava periodicamente cartas para Gifu, mas pouquíssimas eram respondidas e, quando respondidas, eram muito rasas e sem conteúdo. A letra revelava a caligrafia de Shin, mas por que seu pai não estava respondendo? Isso era tudo muito estranho.

Enquanto caminhava para a universidade, checou o celular para saber se Sabo mandara alguma mensagem. Quando um dos dois tinha que levar o Blaze sozinho, era costume que o outro mandasse um ponto “.” apenas para que o outro soubesse que tudo havia corrido bem. Ele não havia mandado nada. Será que algo havia acontecido? Por um segundo, pensou em ligar, mas então se deteve. Pareceria muito desesperada.

Voltou a olhar para frente e se surpreendeu ao ver Rebecca caminhando do outro lado da rua, na direção oposta a que tomaria quando passasse pelo sinal. Uma nostalgia enorme tomou conta de si, e teve vontade de sair correndo atrás da amiga. Ela usava um uniforme escolar, e estava acompanhada de... Uma menina loira? Não, era um menino. Usava uniforme masculino, mesmo que seus traços do rosto lembrassem o de uma mulher.

— Que curioso, não sabia que esse era o tipo dela. – murmurou para si, pensando que aquele devia ser seu namorado.

— Tipo de quem?

Deu um pulo, no susto, e olhou para o lado de supetão. Pôs a mão no peito, respirando fundo.

— Meu Deus, Law-san, que susto!

O sinal ficou verde, e eles atravessaram. Pôde notar um leve sorriso travesso nos lábios de Law, satisfeito por tê-la assustado.

— Deveria parar de pensar alto, nem todos estão preparados para escutar o que pensamos.

— Tenho certeza de que ninguém se importa com o que se passa na minha cabeça. – respondeu.

Com o passar do tempo, Law e ela formaram uma espécie de amizade, após alguns momentos de interação por estarem no mesmo clube. Apesar de não parecer, Law podia ser bem legal quando realmente queria.

— Do que estava falando? – ele perguntou.

— Minha amiga, eu vi ela com o namorado e... – esticou a cabeça, procurando-a. – já sumiu de vista.

— Talvez a encontre. Como era o uniforme dela?

— Blusa branca com laço vermelho, um emblema dourado no bolso e uma saia azul marinho. – ela percebeu que ele arqueou as sobrancelhas, como se acabasse de ser dar conta de algo. – o que foi?

— Sei onde ela estuda. Não é longe daqui.

Law notou o olhar julgador da mais nova.

— O que foi?

— Como você sabe? Fica observando colegiais?

Ele revirou os olhos com uma ponta de humor.

— Não se preocupe, não sou nenhum tipo de pedófilo. – garantiu-lhe. – esse é o uniforme da Academia Gold Roger, estudei a minha vida inteira nessa instituição.

Eles passavam pelos portões principais da universidade quando Koala perguntou:

— “Academia Gold Roger”? Esse nome é bem enfadonho, mas tenho a impressão de que já ouvi falar dele.

— Todos os membros da família D. estudam nessa instituição a partir do primeiro ano do primário, até o fim do ensino médio. Ela foi fundada pelo pai de Gol D. Roger quando o mesmo nasceu, e desde então é a escola mais aclamada do Japão.

— As taxas e a mensalidade devem ser exorbitantes. – comentou. – parece ser um tipo de escola bem rígida, daquele tipo onde as criancinhas têm que comer de garfo e faca.

— De fato, mas se continuar a cuidar do rosinha, terá que lidar com ela uma hora ou outra.

— Por que diz isso?

— Por que Blaze é o próprio herdeiro da escola, neto do fundador.

Como um estalo em sua mente, Koala se lembrou da noite em que conhecera Law, quando Nami lhe contava sobre o clã D. Lembrou-se de todos os sobrenomes que compunham a família: os Marshall, os Portgas, os Jaguar, os Trafalgar, os Monkeys e, claro, os Gols. Sabia que o nome não lhe era estranho, mas...

— Espera, esse Gol D. Roger é avô materno de Blaze?

— Não, avô paterno. Ele é o pai de Portgas D. Ace.

— Então por que Ace-san não se chama Gol também?

Como a maioria de suas perguntas, essa não foi respondida por interrupção de outra pessoa. Kaya pediu desculpas por interromper a conversa dos dois, e puxou Law para um lado para falar sobre algum problema em um trabalho. Não se surpreendeu com aquilo, uma vez que todos quisessem pedir auxílio ao famoso cirurgião da morte, ainda que poucos tivessem coragem.

Isso lhe fez pensar em como as pessoas podiam se enganar. Embora Trafalgar Law a tivesse deixado um tanto receosa no começo, – seu estilo e tatuagens eram um pouco assustadoras – podia ver que, assim como ela, os outros membros do clube o consideravam um ótimo amigo.

E, além de tudo, Law aparentemente era uma das únicas pessoas a falar francamente sobre o clã D. Quando tivesse outra oportunidade, pediria mais informações a ele. Sabo era uma ótima pessoa, mas a forma como ele sempre deixava as informações pela a metade a fazia crer que ele ainda não conseguia confiar plenamente nela.

Por que ele nunca iria namorar? Por que os pais de Blaze foram embora? Por que ele e o pai têm uma relação esquisita? Como ele ganhou a cicatriz no rosto? Queria saber, queria entendê-lo e ajudá-lo, mas se tornava difícil quando não podia compreender o que se passava.

(...)

No intervalo do almoço, aproveitou para conversar com Pudding. Como se o mundo estivesse a seu favor, naquele dia, as outras meninas estavam ocupadas com assuntos de seus cursos ou assuntos pessoais. Então, aquele dia, ela e a amiga ficaram sozinhas à mesa.

— Pudding, o que você acha de ir a um Goukon?

A mesma terminou de mastigar, e engoliu.

— Goukon? Você gosta dessas coisas?

— Nunca fui a um, mas pode ser que seja divertido.

Pudding pensou no assunto por uns instantes.

— Quem está organizando?

— Um amigo do Sabo-kun.

— Oh, entendi. – ela abriu um sorriso bricalhão. – agora tudo faz sentido.

— O que faz sentido? – Koala perguntou confusa.

— Você quer ir nesse goukon para tentar conquistar o Sabo, mas não quer ir sem nenhuma amiga. Como eu sou a única do grupo que é solteira, fui a escolhida. – com um sorriso convencido, Pudding assentiu: — está certo, eu vou.

— Espera, como assim? – arregalou os olhos.

— Acha que não notei? Quase todos os dias vocês chegam juntos, e você está sempre rindo de tudo o que ele diz com as bochechas vermelhas. Pode enganar outras pessoas, mas a mim não.

— Ele é meu patrão, no máximo, meu amigo. – seu tom não foi convincente, notou frustrada. – ele nunca namoraria alguém como eu. – resmungou.

Para sua consternação, Pudding tinha uma ótima audição.

— Por que ele não namoraria você? Que bobeira, Koala.

— Pudding, não finja que não sabe do que estou falando. Parece que todos vocês vieram de famílias bem-nascidas, sempre tiveram tudo do bom e do melhor. E eu sou uma simples babá.

A amiga balançou a cabeça, discordando dela.

— Dinheiro não é sinônimo de felicidade. Ele foi o que destruiu minha família de uma forma que nunca mais será a mesma. Preferia muito mais uma família humilde e amorosa, como a sua.

Embora não culpasse Pudding por não entender como era estar abaixo na escala social, não a contradisse. De certa forma, ao menos nesse sentido, sempre se considerara uma fortunada por viver cercada do amor dos irmãos e do pai. Não viviam em fartura, era verdade, mas terem uns aos outros era o que faziam todos acordarem sorridentes de manhã, e se considerarem verdadeiramente felizes.

— Você nunca foi feliz? – perguntou a ela. – nenhuma vez?

Pudding deu um sorriso triste, lembrando de coisas que apenas ela sabia.

— Eu fui sim, por algumas semanas. Quando estava prometida para Sanji, nós conversamos e começamos uma espécie de namoro. No início eu o esnobei porque, bem, eu era uma adolescente difícil. Mas quando eu vi como ele era um cavalheiro gentil e amoroso... Não houve escapatória. Eu me apaixonei. – ela virou-se para Koala. – mas tudo acabou tão rápido como começou, e agora eu me agarro apenas às memórias. Quando elas são tudo o que temos, se tornam mais preciosas do que todo o ouro do mundo.

(...)

Sabo estava de mau-humor.

Não se considerava uma pessoa ranzinza e taciturna, mas tinha que admitir que, ao ouvir os burburinhos sobre Law ter chegado na universidade na companhia de Koala, seu humor apático de transformou em algo realmente desagradável. Era por isso que, a todo o momento, as pessoas desviavam ou evitavam cruzar com ele.

Era para isso que ela pediu para ir sozinha? Para ficar na junto do bonito e pintoso Trafalgar D. Water Law, o estudante de pós graduação mais disputado do campus? Que assim fosse, então. Blaze reclamaria, mas ele faria questão de dizer o porquê da “mamãe” não estar junto deles. De manhã ele até fizera um show de pirraça e, se não tivesse um chocolate guardado no carro, o drama seria bem pior.

— Meu Deus, Sabo, que nuvem negra é essa em volta de você?

Olhou de canto e viu Kid sentar ao lado dele, na sala de aula.

— Tá na bad por que, cara? Terminou com aquela mina lá?

— Que mina?

— A gata, coelha... – o ruivo tentava lembrar. – Koala! Isso, Koala.

Sabo revirou os olhos, impaciente.

— Nós não somos namorados.

— Não? Melhor ainda – o outro se aproximou ainda mais. – terminei com aquela outra mina lá, sabe, ela queria muito compromisso e tal... Então pensei em ir atrás da sua amiguinha, ela tem duas coisas maravilhosas que eu adoraria tocar.

Admirou-se por ter tanto autocontrole, pois, naquele momento, tudo o que Sabo queria fazer era dar um soco em Eustass Kid. Desde que o conhecera, quando Bonney e Ace assumiram um relacionamento, nunca fora muito próximo do amigo de Bonney. Tinham personalidades muito diferentes, e nenhum gosto em comum. Kid era um impudico, e estava sempre metido em confusão com mulheres. O único que ainda o impedia de cometer burradas era o amigo dele, Killer, o único do núcleo de amigos da cunhada que parecia ter um mínimo de senso.

— Kid, esquece a Koala. Ela não é o tipo de garota que você gosta. – disparou, levantando-se da cadeira e começando a colocar o tablet e os livros na mochila.

— Ué, eu não posso, mas Trafalgar pode correr atrás dela?

Estava pronto para dar as costas e ignorar o outro, mas parou ao ver seu celular vibrar na mesa. Esqueceu-se completamente dele no modo silencioso, – que colocava sempre que se iniciava a aula – e quando viu, já haviam três chamadas perdidas.

Seu coração disparou de medo quando viu que era o número da creche. Sem se incomodar em dar tchau para Kid, saiu em disparada pelo corredor, já começando a procurar Koala.

Kid, que foi deixado para trás, ainda encarava a porta com um olhar pensativo.

— Ele tá caidinho pela caipira... – murmurou para si mesmo. – quem diria. E eu que achava que ele era gay, com aquele cara espiando ele em todo canto.

Deu de ombros, desinteressado, e foi atrás de outro rabo de saia.

(...)

— ...por isso eu preciso que você também vá, Law-san. – Koala dizia para Law enquanto saíam da sala do clube. – sem mais um homem, o goukon vai ficar desigual.

— Não tem nenhuma outra pessoa pra quem você possa pedir?

— Eu não tenho muita intimidade com ninguém além de você e o Sabo-kun.

Law quase revirou os olhos, algo que não era de seu feitio. Não gostava de reuniões desse tipo, não era exatamente uma pessoa sociável.

— Tá. – aceitou, à contra gosto. – mas não espere que eu vá ficar de conversinha.

Koala ficou satisfeita com a resposta, agora poderia dizer à Coby, — que a procurara mais cedo naquele para relatar o problema – que o encontro ocorreria sem mais problemas.

Apesar de não conseguir visualizar muito bem Pudding e Coby juntos, queria que a amiga conseguisse seguir em frente, e se esse evento ajudasse, ficaria muito feliz.

— Koala!

Deu um pulo ao ouvir alguém gritando-a. Olhou na direção da voz, e viu Sabo andando três vezes mais rápido que o normal. Quando a alcançou, ele pegou seu pulso e levou junto, sem perceber que ela quase tropeçava por não conseguir acompanhar seu ritmo.

— Sabo-kun? O que houve?

— Ei! Sabo!

O loiro parou quando viu alguém segurar seu braço. Law o interceptara, com o olhar sério.

— Pare de arrastá-la. Está machucando.

Como se houvesse percebido ali o que estava fazendo, Sabo largou o pulso de Koala, e notou surpreso que estava vermelho onde ele apertava.

— Sabo-kun, o que houve? – Koala se aproximou dele, pondo as duas mãos em seu rosto para que a olhasse nos olhos.

— O Blaze, ele... – o loiro balançou a cabeça, tentando se livrar da confusão em sua mente. – ele não está bem, acabaram de me ligar da escola.

— Não está bem? O que quer dizer com isso?

— O chocolate! E-Eu dei o chocolate e ele...

Os dois foram para o carro aflitos, esquecendo-se completamente de Law ali.

(...)

— Mamãe... – Blaze choramingou enquanto dormia.

Ao chegarem à creche, Reiju entregou Blaze a eles, preocupada. O menino inicialmente tivera sintomas de uma simples dor de barriga, mas começou a desconfiar de algo mais quando notou que uma febre o atingia. Além disso, ele tivera diarreia, e por isso fora preciso trocar suas roupas. Por sorte, Koala sempre mandava uma muda de roupas extras, e duas cuequinha a mais, pois ele ainda não fora completamente desfraldado.

— É uma infecção, provavelmente pelo chocolate vencido que ele ingeriu. Imagino que estava lá há muito tempo, é bem comum casos de infecção estomacal no verão, quando o clima esquenta. – dizia Dra. Belladonna. – não precisam se alarmar, tudo o que ele precisa é de repouso, beber bastante líquido e alimentou leves. Se ele não ficar bom em dois ou três dias, tragam ele aqui de novo.

Quando a pediatra se retirou da sala, Koala lançou um olhar duro à Sabo. Normalmente, ela respeitava ao máximo a relação patrão-empregada que havia entre eles, mas naquele momento, a raiva dentro de si era tão grande que mandou ao inferno suas regras de conduta.

— No que diabos você estava pensando? – gritou em um sussurro, a fim de não acordar Blaze, que ainda tomava soro. – você deu um chocolate aberto que estava no porta-malas só Deus sabe quanto tempo?!

— Eu já pedi desculpas, já estou me sentindo o suficientemente mal. – respondeu ele, sentado e emburrado.

— “Desculpa”. – ela riu sem humor. – como se isso fosse simples. Sabo-kun, por que você deu de novo besteiras pra ele? Eu te disse para não dar mais essas coisas cheias de açúcar pra ele!

Ele olhou para ela e cruzou os braços.

— Blaze estava muito irritado hoje. – ele se levantou, com um sorriso sarcástico. – e quer saber o motivo? É porque você preferiu sair com Trafalgar do que levar ele pra escola.

Sem acreditar, ela balançou a cabeça.

— Então é por isso que você veio emburrado o caminho todo? Porque eu “estava com o Law”?

— “Law”? Nossa, parece que já estão se tratando pelo primeiro nome.

— Será que dá pra você ser um pouco mais maduro? Porque não me parece que o Blaze foi a criança que ficou incomodada, e sim você.

— Tenho que lembrá-la de que sou mais velho que você?

— Acho que sim, é fácil esquecer. – respondeu devagar, e não resistiu em alfinetá-lo: — por isso, é bom a companhia de alguém mais adulto, para variar.

Sabo a puxou para si subitamente, deixando-a com o resto a apenas alguns sentimentos do seu. Seus olhos negros estavam fixos nos dela, que estava surpresa pelo ato dele.

— Pare de andar com ele. – disse num tom mais baixo ainda, mas ela notou a urgência em sua voz. – não se envolva com o Trafalgar.

Koala se sentia tonta pela aproximação do patrão. Ele tinha o olhar mais sério que ela já vira em toda vida, que, ao mesmo tempo que parecia irritado, era como se ele estivesse se controlando para não agir e fazer algo mais com ela. Percebeu que já sentira algo parecido dentro de si, no dia em que os dois se permitiram liberdades no jardim da casa D.

A mesma confusão de sentimentos, calor e nervosismo. Mas agora ela não se deixaria levar como aquele dia. Tinha que aprender a controlar o que acontecia dentro de si, ou toda sua vida se basearia a se deixar levar pelo o que Sabo queria.

— Por que não?

A pergunta o pegou de surpresa, pois o sentiu resetar um pouco.

— Por que não posso me envolver com Law-san? – perguntou novamente.

— Ora, porque... Porque...

Era quase cômico vê-lo ali, bravo e sem resposta. Se não estivesse tão obstinada, até riria.

— Porque Blaze precisa da sua atenção. – foi a resposta dele, apesar de parecer que ele mesmo não estava convencido daquilo.

— Posso organizar minha agenda de uma forma que possa fazer meu trabalho adequadamente, afinal, eu tenho folgas. Nada me impediria de namorar com Law-san.

Koala sentia que estava sendo má e cruel, quando tudo o que ela fazia era abraçá-lo e dizer que ficaria tudo bem, pois eles dois juntos cuidariam do Blaze. Via-o como sua família, e jamais em toda sua vida considerara tanto alguém assim, dessa forma. Mas não podia continuar fazendo isso com si própria.

— Você não pode ficar com ele porque eu quero você. – Sabo respondeu com urgência, quase sussurrando, dando um selinho rápido e bem de leve em seus lábios. – Koala, você... Ah, não entende o que faz comigo... Não entende...

Sentiu-o fechar os olhos e começar as carícias que sempre a derretiam, mas se concentrou para não anuir ao que ele queria. Desvencilhou-se dele e manteve uma distância que considerou apropriada.

— Não, eu não entendo. – concordou, com os lábios temendo. — como poderia? Você não me diz nada, Sabo-kun. Eu não sei nada.

— Como assim?

— Como assim? – ela riu, apesar de não ver graça – num momento você me beija, me toca, até sente ciúmes, e no outro diz que nunca namoraria ou casaria comigo. Como acha que eu...

— Espere, eu nunca disse que não me casaria com você. – ele a interrompeu. – eu só disse que nunca me casaria com ninguém.

— E o que isso importa? Muda alguma coisa o fato de que você não quer nada comigo?

Ele abriu a boca para responder, mas em seguida a fechou. Mesmo hesitante, ele voltou a dizer:

— A-Ainda assim, isso não nos impede de...

— Não. – ela o impediu de continuar. – não vou fazer isso. Não vou ficar com você desta forma. Se eu, uma reles babá, não sou boa o suficiente pra ficar com você da forma correta, não vou ser a sua ficante. Posso não ter muito, mas tenho meu próprio orgulho.

O que mais doía era saber que o verdadeiro motivo de se negar a isso era porque estava apaixonada por ele. Sabo era um rapaz maravilhoso e, se não estivesse enganada, seria o primeiro e único amor de sua vida, mas como poderia ela se permitir receber migalhas de atenção dele quando sabia que, no fim, aquilo não levaria a nada? Seria cruel e doloroso quando ele, por fim, se cansasse dela.

Agora sentia como se estivesse ferindo-o, e talvez estivesse mesmo, mas se não fosse assim, ele a feriria no futuro. Era matar ou ser morto, ferroar ou ser ferroado, e ela já levara rasteiras demais da vida para ser ingênua àquele ponto.

Sem dizer mais nada, se virou e saiu da sala.

— Aonde você vai? – a voz dele a fez parar no corredor do consultório. Sabo tinha os punhos cerrados e trêmulos. – você não pode ir. Hoje é dia de trabalho.

— Eu me dei folga. – respondeu sem olhar para trás. – eu posso, não? Trabalhei nas duas últimas folgas do fim de semana.

Ele não respondeu, então apenas supôs que era um sim, e foi embora.

(...)

Como não tinha um lugar que quisesse ir, apenas andou sem rumo. Quando viu, estava em um parque vazio. Não era surpresa, considerando que era meio de semana num horário comercial.

Sentou-se num banco mais escondido, debaixo de uma árvore que fazia uma bela sombra, e se permitiu chorar ali, longe da vista de qualquer um. Chorou por Sabo, e chorou também por culpa, sentindo como se tivesse abandonado Blaze. Seu bebê devia estar chorando àquele momento, perguntando-se onde ela estava.

— Você está bem?

Koala levantou o rosto molhado e vermelho, procurando de onde vinha a voz. Para sua surpresa, era uma menina que saía do meio dos arbustos.

Ela conhecia a menina. Era sua amiga, Rebecca!

— R-Rebecca... – soluçou. – o-o que faz aqui? Por que estava escondida aí?

— Acho que isso é o de menos agora, né? – a adolescente deu um sorriso triste, sentando-se ao lado de Koala e dizendo em um tom acolhedor: – você está sofrendo agora bem mais do que eu.