Baby Care
24 Sorrisos falsos

"Sorriso falso? Como assim? Ela dá sorrisos forçados? Ah, Ace... Não me diga as coisas pela metade. Quero saber de tudo sobre essa gestação. Mas não force demais, devem ser os hormônios mexendo com a Bonney"
— de Sabo para Ace, quando Bonney estava no 9º mês de gravidez.
— Mu!
Sabo já havia estado preso em muitos trânsitos, mas aquela era a primeira vez que parava para um rebanho de vacas.
A paisagem do interior era completamente diferente, e como um verdadeiro tolo, constatou isso ao descer do ônibus — que, segundo o motorista, passava apenas de duas em duas horas. Não haviam prédios e construções, apenas casas aqui e ali, uma loja de doces antiga, e um posto policial. Naquela pequena aldeia, quase não se via pessoas na rua, apenas alguns idosos caminhando.
Não sabia ao certo se eram suas roupas ou seu jeito de agir, mas os poucos moradores que encontrava encaravam-no de uma forma estranha.
— Papai, figerante! — Blaze apontou para uma máquina de bebidas.
Ele até tinha água para ele na bolsa, mas já devia estar quente.
— Certo, mas vai ser suco, não refrigerante — pôs a moeda na máquina e escolheu dois sucos.
Eles não caíram, no entanto.
— Ué?
Abriu o compartimento em que as latas deviam estar.
— Tem que dar um chute, meu jovem.
Sabo virou-se, e se deparou com uma velha senhora loira e, embora isso não fosse educado, era bem feia. Ela tinha um olhar de peixe morto, e estava estranhamente sorridente.
— Chutar? — repetiu. — a máquina?
— Deixe que eu o ajudo com isto, sim?
Ela passou na frente dele e deu um belo chute na máquina, mas espantosamente os dois sucos realmente caíram na bandeja.
— Shuco! — Blaze pegou um deles, e virou-se para ela. — bigadu mosha!
Abriu o suco de Blaze e virou-se para ela agradecido.
— Obrigado pela ajuda — curvou-se educadamente. — procurei algum restaurante onde pudéssemos comer, mas não encontrei nenhum.
— Restaurante? Não temos isso aqui — ela riu. — comércios são poucos por aqui. Hachi-san tinha uma barraca de takoyaki, mas ele se mudou para a cidade e ficamos sem... — ela interrompeu-se, balançando a cabeça. — esqueça, garoto, só estava tagarelando. Não é daqui, pelo jeito. Conheço todos os moradores da aldeia.
— Vim visitar uma amiga — revelou. — ela se chama Koala, por acaso saberia me dizer onde ela mora?
A mulher continuou sorrindo, mas sentiu que o ânimo dela se esvaiu um pouco.
— Oh, sim... A menina Koala. É claro que conheço. — ela fez uma pausa para virar a garrafa de sakê que tinha em mãos. — é só seguir por esse caminho. Quando vir a placa com o aviso de vacas, vire à esquerda e siga em frente. A caminhada é um pouco longa.
— Muito obrigado, foi de grande ajuda, dona...?
— Kokoro — informou. — diga a ela que mandei um abraço.
Após se refrescar com o suco, despediu-se da senhora e preparou-se para partir pondo Blaze em suas costas, na mochila canguru. Cansou-se bastante no caminho. O sol ardia sua cabeça, além de Blaze e duas malas estarem pesando seus braços. O suco que bebera já estava esvaindo de seu corpo, pois suava como um verdadeiro porco.
Mesmo assim, ainda teve tempo para admirar ao seu redor. Tudo o que viu foram trabalhadores rurais, a maioria deles com os pés afundados na água trabalhando duro em arrozais. Outros lavravam a terra com capinas em movimentos precisos e fortes, seus semblantes sérios escondidos na sombra de seus chapéus de palha, tão concentrados em seu trabalho que mal notavam o forasteiro passando.
— Tá chegano? — Blaze perguntou.
— Espero que sim. — suspirou, cansado.
Mas balançou a cabeça, não deixando-se abater. Era tudo por ela. Não iria morrer na praia.
(...)
Fisher Shin tinha doze anos, estava no primeiro ano do ginasial, mas odiava que ainda fosse tão criança.
Não que ele se considerasse criança, mas era muito mais maduro do que qualquer um de seus amigos, e gostaria de poder assumir a o qual sabia que teria capacidade. Queria sair da escola, trabalhar e poder prover para sua família, e não gerar mais gasto ainda.
— Mana?
Chamou a irmã, que estava do lado de fora da casa, encima de uma cadeira retirando as teias de aranha. Ela tirou a máscara do rosto e virou-se para ele, sorrindo.
— O que foi, Shin?
— Os pequenos estão com fome, o que acha de—
— Ah, sim, sim, com fome — ela rapidamente desceu da cadeira, largando a vassoura e entrando em casa, caminhando rápido e energicamente até a cozinha e pondo o avental. — o que acha de sopa de missô, gostosa e nutritiva?
Ela já pegava os ingredientes e punha a água para ferver. Hesitante, tentou falar com ela.
— Não, eu mesmo ia preparar algo pra...
— Não precisa, Shin, não ligue para isso — ela passou por ele sorridente, pegou o sachê de tempero de peixe e voltou a cozinhar, agora se dedicando a cortar o tofu. — por que não vai lá pra fora brincar com seus irmãos?
Devia adivinhar que ela diria algo assim. Pensou em contestar, mas ela já estava cantarolando animada na cozinha, como se cortar cubos de tofu fosse uma atividade extremamente divertida.
Nunca vira a irmã lidar com o luto, felizmente. Entretanto, quando ela lhe dissera que voltaria para casa para ficar com eles, não imaginava que seria daquela forma. Koala estava estranha, sempre sorrindo e agitada. Ela sempre foi uma pessoa feliz, mas aquilo era... Estranho. Não estava certo.
Passou a mão pelos cabelos loiros, sentindo-os úmidos. Resolveu fazer o que ela sugerira e fora atrás dos irmãos, que faziam barulho com alguma brincadeira. Sentou-se no corredor da casa, cuja a porta de correr estava aberta para arejá-la. Ali ele via os pequenos brincando de perto.
— Daruma-san ga koronda!
Rock, o mais velho depois dele próprio, é o que estava de costas, voltando-se cada vez que terminava a frase.
— Nina! Você se mexeu! — ele acusou uma das mais novas. — volta lá pra trás!
Com um biquinho insatisfeito, ela cruzou os braços.
— Eu não mexi, não!
— Mexeu sim, eu vi! — Rock contestou. — vocês também viram?
— Eu não vi. — disse Tora.
— Eu vi, ela fez assim ó — Aurora imitou um cambaleio pra trás.
— Não fiz! — Nina bateu o pé, agora olhando para Aurora. — Aurora, você é uma mentirosa!
— Mentirosa é você, trapaceira!
Uma grande discussão começou. O único que não brigava era Marion, que quase nunca falava. Respirou fundo, indo até a roda de crianças antes que aquilo se agravasse.
— Ei, ei, ei, chega! — pôs-se no meio das duas. — andam brigando demais, sabia? Sinceramente, a mana vai ficar muito cansada se sempre tiver que...
Marion puxou sua blusa, chamando sua atenção, mas ignorou-o.
— ...sempre separar essas discussões bobas porque...
Mais uma vez, ele o puxou.
— ...nenhum de vocês consegue conviver sem...
Na terceira, a curiosidade foi maior.
— O que é, Marion?
O garotinho de cabelos azuis apontou para frente, e todos encararam o homem misterioso parado em sua frente.
(...)
Finalmente, ele havia chegado. Ofegante, suado e desidratado, observou a casa velha de madeira e aquelas crianças brigando. Devia estar na casa certa, afinal, Koala lhe contara que tinha irmãos. Seis, para ser mais preciso. Eles estavam tão ocupados discutindo que nem notaram sua presença, a não ser por um dos menores da turma, que o observava com um par enorme de olhos negros.
Quando o mais alto finalmente notou sua presença, sorriu enquanto respirava profundamente.
— Olá, crianças — mirou todas, uma por uma. — a irmã de vocês está em casa?
Estranhando-o, os três mais novos — duas meninas e um menino — se esconderam atrás dos três mais velhos.
— Quem diabos é você? — o loiro perguntou.
Uau, o menino tinha uma boca suja.
— Crianças, o almoço está pronto! Porque esse silêncio tod...
Quando olhou para dentro da casa, seu coração disparou como se fosse a primeira vez que a visse em anos. Ali estava ela, do jeitinho que ele lembrava. Teve de se segurar para não correr.
— Boa tarde, Koala. Acho que temos muito o que conversar, não?
(...)
A casa de Koala era bem antiga, como a maioria das casas que vira até chegar ali. No entanto, diferente da maioria das casas japonesas antigas, aquela estava impecavelmente limpa. Quase podia ver seu reflexo na madeira polida. Ela devia ter se ocupado bastante cuidando da casa, pois mesmo estando cheia de crianças, tudo estava em seu devido lugar.
— Mamãe! — quando entraram em casa e Blaze acordou, ele abriu um largo sorriso, correndo até Koala com uma felicidade sem fim. — mamãe! Eu tava shodadi!
— Oh, Blaze! — ela agachou-se, emocionada. Abraçou-o com força, rodopiando. — você parece até que ficou maior, como está forte!
— Foi o chocolate! Eu comi muto! E... Figerante tabém!
— Ah, verdade?
Ela não olhou para Sabo, mas ele sabia pelo tom de sua voz que ela não estava muito satisfeita com aquilo.
Quando os ânimos dos dois se acalmaram, todos — inclusive ele e Blaze — foram convidados para almoçar com a família. Durante a refeição, ninguém se atreveu a dar um pio. Até Blaze comeu em silêncio, como se lesse o clima.
Sabo olhava nos olhos de Koala a todo momento, mas ela em momento algum encarou-o.
— Crianças, por que não vão lá pra fora brincar com a mangueira? — sugeriu a eles. — levem o Blaze também. Ele vai querer ficar amiguinho de vocês.
Os dois meninos mais velhos — que ele descobriu se chamarem Shin e Rock — claramente não gostaram da ideia, praticamente rosnando para ele. No entanto, não disseram nada depois que Nina e Aurora ficaram animadas com a ideia de brincar com alguém mais novo.
— Não precisa — Shin impediu que a irmã se levantasse para tirar a mesa. — eu lavo.
— Pode deixar que eu...
— Eu lavo. — insistiu, encarando Sabo de forma feia. — não vamos fazer a visita demorar demais.
Sabo achou que quando finalmente encontrasse Koala, diria algo muito inteligente, o tipo de coisa que a deixaria sem estruturas. Seria emocionante. Ela se arrependeria de ter fugido, e então se jogaria nos braços dele.
Mas era claro que tudo não passava de um sonho extremamente idealizado. Pensara em dizer inúmeras coisas, mas jamais se encontrara tão sem palavras quanto naquele momento.
— Foi uma viagem muito difícil? — ela finalmente falou.
— Um pouco. Está muito quente hoje, e tive que andar muito.
— Espero que não tenha se perdido.
— Não. Uma senhora me ajudou. É Kokoro, o nome dela. Ela te mandou um abraço.
— Kokoro-san? Como ela é gentil. A neta dela é da classe do Rock.
— Ah, sim.
Um minuto de silêncio esquisito se instalou.
— Como... — Koala pigarreou. — como descobriu onde eu moro?
— Robin-san me disse que era nesta vila — explicou. — não é um lugar com muita gente, então deduzi que não seria assim tão difícil de sair perguntando por você, e não foi mesmo.
— Não me lembro de ter dito a ela o nome desta vila.
— Como ela sabia eu não sei. Além disso, o que eu também não sei — cruzou os braços. — é porque você foi embora na surdina.
— Deixei um bilhete. E comida pronta. E paguei pelo resto do mês que não trabalhei.
— Não quero seu dinheiro. Quero saber do seu sumiço.
— Foram motivos particulares.
Ele respirou fundo, tentando controlar sua indignação.
— Desde quando seus “motivos particulares” não são assunto meu, também?
— Desde que você deixou bem claro que os seus assuntos particulares não me dizem respeito.
Certo, essa ele havia merecido. Havia sido um verdadeiro idiota com ela na noite anterior ao sumiço, mas não era justo que ela lhe desse as costas sem uma oportunidade de se redimir. Ele estava disposto a consertar tudo, mas por que ela parecia não ter vontade nenhuma de perdoá-lo? Nem mesmo olhá-lo nos olhos ela conseguia.
— Koala — ele a chamou, e ela finalmente o encarou. — eu sei que errei. Eu estava muito irritado naquele dia, abalado com a saúde do meu pai, e acabei descontando em você. Acredite em mim, eu ia pedir perdão. Tudo o que eu mais quero é que tudo volte a ser como era antes.
Ela semicerrou os lábios, engolindo seco.
— É muito fácil dizer, mas não é simples assim.
— Por que não?
— Porque a situação não é mais a mesma — não aguentando permanecer parada, levantou-se do chão. Ele também ficou de pé. — antes, Sabo-kun, apesar de você nunca dizer em palavras, eu... Acreditava, de verdade, que você me amava. Se não amava, era algo muito perto de amar.
— Mas eu...
— Não, por favor, deixe-me terminar. Eu achava que você me amava, ou poderia me amar, com um pouco mais de tempo. Mas o jeito como você agiu aquele dia me fez repensar muita coisa. Eu te achei mesquinho, egoísta e mimado.
Com a voz grave, retrucou com seriedade, já compreendendo ao que ela se referia:
— Você não sabe 1% de todas as coisas cruéis que já ouvi daquela...
— Exato, eu não sei — ela concordou, interrompendo-o. — eu não sei porque você não me conta.
— Que engraçado, não acha? É muito irônico que seja logo você que esteja me dizendo isso.
— O que quer dizer?
— Ora, achei que tivesse sido claro. Afinal, quem é você, Koala? Você fala bem demais pra uma caipira, tem seis irmãos que não têm absolutamente nada a ver com você, nunca falou dos seus pais. A gente se conhece há um tempão e sequer sei o nome deles.
Em contraste há minutos atrás, Koala passou um bom tempo encarando, sem expressão, com os olhos mais vazios que já vira em toda sua vida.
— Se quer tanto assim saber deles, meu pai está aqui. Gostaria de conhecê-lo?
Aquele não era um bom momento para isso, mas era inevitável, ainda mais estando na casa dos pais dela. Achou que ela iria guiá-lo para algum lugar lá fora, onde os pais dela estivessem trabalhando, mas tudo o que ela fez foi se sentar no tatame, de frente para um altar com um pouco do almoço daquele dia.
Sentiu um terrível arrependimento ao se dar conta do que acontecia.
— S-Seu pai... — piscou, desconcertado. — seu pai é falecido? Mas eu achei que...
— Que ele estava vivo? Ele estava, sim, até a semana passada, quando morreu. Meus irmãos são diferentes de mim porque, assim como você, eu e eles somos crianças adotadas, doadas ao meu pai por pais negligentes.
Não sabia nem o que responder.
— Mas por que você não me contou?
— Contar a você? Faça-me o favor, você havia acabado de dizer eu não significava nada para você.
— Não, eu não usei essas palavras, eu...!
Passou a mão pelos cabelos, começando a se sentir confuso. Tinha que se controlar e pensar melhor antes de falar.
Estava, sim, um pouco irritado com Koala. Era impossível não estar. Mas ele a conhecia, e sabia como o pai dela era importante. Ela devia estar sofrendo, e muito. Não estava ali para brigar com ela e fazer acusações. O que queria era ser seu porto-seguro, que ela pudesse contar com ele e lhe dizer tudo o que lhe afligia.
Como qualquer garota de dezenove anos, Koala precisava de alguém que a ajudasse.
— Ko — usou seu tom mais suave possível, sentando-se ao lado dela. Pegou sua mão, envolvendo-a com suas. — a pior decisão que você poderia tomar foi essa de passar por isso sozinha.
— Não estou sozinha. Tenho muitos irmãos.
— Irmãos que você tem que cuidar, mas quem cuida de você?
— Eu não preciso que ninguém cuide de mim, eu sei me virar muito bem sozinha. Sempre me virei.
Sabo a conhecia como ninguém mais no mundo, e soube, naquele mesmo momento, que ela precisava de alguém. No fundo de seus olhos, via uma mulher forte e trabalhadora, mas que também estava com medo e muito, muito triste. Koala dizia aquelas coisas porque, no fundo, ela mesma queria acreditar nas próprias palavras, ou iria desmoronar.
— Espero que — respirou fundo, percebendo que precisaria de tempo para resolver aquela situação — Blaze e eu possamos ficar aqui por uns dias.
— Claro que pode. Mas não espere nenhum luxo.
Não esperava mesmo, mas não era isso que ele buscava ali.
O que queria, de verdade, era apenas ela.
(...)
— Você é o namorado da minha irmã, tio?
Conhecer os irmãos de Koala foi uma situação esquisita. Eles eram muito diferentes uns dos outros, tanto em aparência quanto em personalidade.
— Eu sou... — olhou para Koala por um instante, até que se voltou para Nina — sou um grande amigo da sua irmã.
Nina era uma das mais novas, e a mais sapeca de todas. Ela tinha cabelos cor-de-rosa, pelo menos três tons mais claros que o de Blaze. Diferente das outras crianças, que ficaram um pouco acanhadas com sua presença, Nina logo percebeu que não era uma ameaça e se aproximou para conhecê-lo.
— Amigo de Tóquio? Que legal — disse Aurora, da mesma idade de Nina. Aurora era tímida e um verdadeiro docinho, de olhos vermelhos rosados e cabelos branco acinzentados.
No mesmo momento, Rock, de dez anos e madeixas escarlate, correu puxando o cabelo de Aurora.
— Rock, seu idiota, volta aqui!
Ela correu atrás dele, mesmo que sempre ficasse dois passos atrás.
Olhou para Blaze, que estava brincando com Marion com seus carrinhos no chão. Ele conversava com ele com do seu jeito “bebenês”, mas o outro menino sorria e assentia mesmo assim.
— O Marion não fala muito — Tora, de oito anos, explicou quando o viu observando o garoto. — ele estava começando a falar mais até o inverno, mas quando a mana foi embora, ele diminuiu. Depois que entrou no 1º ano da escola, piorou ainda mais.
Notou que a menina falava muito perfeitamente e de forma muito educada para alguém da sua idade. Ela tinha uma aparência delicada e refinada, com cabelos azul bem escuros e olhos da mesma cor.
— É mesmo? Por que?
— Ele começou a sofrer bullying — deu um suspiro triste — Nina e Aurora tentam ficar com ele o tempo todo, mas os três estão em classes separadas, é muito difícil.
Sem um pai e uma mãe, seria difícil para todas aquelas crianças. Passou apenas um dia com todas elas, mas a cada vinte minutos um deles implicava com o outro e uma briga se iniciava, pelos motivos mais bestas possíveis. Agora mesmo, eles estavam brigando porque Rock pegou o maior pedaço de bolo, que era o que Nina queria.
— Mas ele era meu! — Nina bateu o pé chorando — eu já tinha dito!
— Eu não tô nem aí — Rock retrucou.
— Eu te odeio, Rock! Você é o mais chato de todos! — Nina deu um chute eu seu tornozelo — se o papai estivesse aqui ele ia dizer que você tá errado!
— Ele ia dizer que você é um pirralha...!
Quando Rock levantou a mão para revidar em Nina, Sabo rapidamente o segurou. O garoto era consideravelmente maior, e a machucaria de verdade com um tapa.
— Epa, rapazinho, não pode bater na sua irmã — falou sério.
— Me solta, você não manda em mim! — Rock se debatia.
Blaze, vendo aquela cena, começou a chorar.
Aquela movimentação toda chamou a atenção de Shin, que apareceu no quintal usando um avental.
— O que tá acontecendo aqui?
— Ela me chutou — Rock soltou-se de uma vez de Sabo — e ele me agarrou!
— Rock, você está contando a verdade da forma errada! — Tora levantou-se para defendê-lo.
Shin o encarou por uns instantes e dispersou as crianças, mandando-as fazerem suas tarefas do dia. Blaze puxou pediu colo, e pegou-o, aninhando-o.
Quando Shin e Sabo enfim se viram sozinhos, Shin largou a vassoura e colocou-a de canto, andando até estar cara a cara com Sabo. O menino tinha o porte de uma criança de sua idade, mas sua expressão severa era de um homem de quarenta anos.
— O que você ainda tá fazendo aqui?
— Como assim? — perguntou.
— Você era o patrão da mana lá na cidade grande, ótimo. Mas ela se demitiu. Os dois não tem mais nada a ver, então o que quer aqui? Você só tá deixando os menores agitados sem motivo algum.
— Shin, serei bem sincero, acredito que eu não seja a causa da indisciplina dos seus irmãos.
— Não preciso que um rato da cidade como você me diga o que é e o que não é a causa. Eu sem bem o que tô falando, tá? E o que eu quero dizer, se não entendeu, é que não tem espaço aqui pra você. Não sei o que um playboy como você fazia com outras garotas, mas não vai fazer com a minha irmã.
— Acho que sua irmã tem que decidir por ela mesma o que ela vai querer.
— Isso é uma provocação?
— Não, isso... — por Deus, como era difícil conversar com aquele menino. — garoto, olha, eu...
— Não me chame de garoto. Isso é um papo de homem pra homem!
— Pois bem então, vou falar de homem para homem. Não vou fingir pra você que sua irmã e eu somos apenas amigos. Você percebeu que eu sou o namorado dela, e quero deixar bem claro pra você que tudo o que eu quero é fazê-la feliz. Por isso, eu vim de longe até aqui para reconquistá-la.
Viu Shin serrar os punhos, e podia jurar que o viu rosnar.
— Você deixou minha irmã assim! Ela é infeliz por sua causa! Não tá satisfeito com tudo o que já causou e agora quer arrancar a última migalha do que ela costumava ser?!
Aquilo o atingiu tão fundo que tudo o que conseguiu fazer foi encará-lo. Shin... Tinha razão de certa forma. Claro que não era culpado pela morte do pai de Koala, mas o momento em que a feriu com suas palavras fora totalmente inoportuno, e com certeza contribuíra para deixá-la desolada.
O garoto o fuzilava com ousadia, mas sua expressão era de um menino que queria apenas chorar. Lentamente, para não assustá-lo, colocou Blaze no chão e pôs a mão em sua cabeça, dando uma leve afagada. Shin arregalou os olhos, surpreso com o gesto.
— Está doendo, não está? — perguntou, com seu tom de voz mais acalentador. — não precisa guardar tudo para si, converse comi...
Sentiu uma dor aguda na canela quando Shin o chutou de surpresa. Quando urrou de dor, o menino saiu correndo.
Engoliu os xingamentos por estar na frente de Blaze, mas enquanto agonizava, amaldiçoou o moleque de todas as formas. Envolta em uma nuvem negra de ódio, pegou Blaze no colo novamente e foi dar uma caminhada, sem se preocupar em estar no meio do mato.
— Maldito sou eu que pensou em ajudar — reclamava com Blaze, carrancudo. — francamente, aquele moleque do capeta...!
Sabe o que ele faria? Exatamente o que Shin queria. Naquele mesmo dia pegaria sua mala, iria ao ponto de ônibus e depois pegaria o primeiro trem pra casa. Não, iria de avião! Afinal, ele não precisava passar por aquilo.
Mas seu pensamento durou apenas um instante pois, após andar um pouco, acabou chegando ao local onde a família de Koala plantava e colhia.
E lá estava ela, assim como as pessoas que viu quando chegou, curvada cavando a terra. Koala tinha os cabelos curtos grudados ao pescoço, molhados pelo suor que até pingava de seu rosto. Ela usou o antebraço sujo de terra para secar a testa, e acabou derrubando o chapéu de palha, o que a fez parar sua atividade para pegá-lo. O sol a castigaria demais sem ele.
Esse movimento a fez se virar para onde ele estava, e ela finalmente o notou. Andou até ela, soltando Blaze no meio do caminho para que ele corresse.
— Mamãe! Fazêno o que?! — ele perguntou curioso e empolgado. Quando viu uma batata, a pegou para inspecionar o tubérculo.
— É batata-semente, querido. — ela agachou-se sorrindo. — vou plantá-la.
— Pra que?
— Pra virar uma batata. Assim, podemos comer ela. Ou vender.
Blaze considerou aquilo com cuidado.
— E batata-fita?
— Ou podemos fazer batata-frita.
Ela riu, e Sabo desconsiderou qualquer chance de abandoná-la. O trabalho que ela fazia era digno, como qualquer outro, mas não era adequado para ela. Apenas a pá que ela usava — ou o que ele achava que era uma pá, mas parecia um tridente — era da grossura de seu braço. Não. Ele não podia vê-la assim, quase desmaiando de tanto trabalhar.
— Koala — ele a chamou, e ela ficou de pé.
O sol já de punha e o céu já era uma mistura de rosa e laranja, mas nem reparou na bela paisagem, apenas nela.
— Volta comigo. Com a gente.
Por um instante, percebeu que ele a balançou. Ela quase disse sim ao olhar para Blaze, brincando na terra. Mas então ela voltou a olhá-lo, sem demonstrar expressão, e lhe fez uma pergunta:
— Quer que eu volte por que me ama, ou por que precisa de mim?
Sua mente ficou em branco, como em todas as vezes em que a palavra amor era mencionada, e não conseguiu responder. Ficou olhando-a como um verdadeiro estúpido.
— Como imaginei. — ela riu sem achar graça.
Koala voltou ao trabalho, e virou-se de costas, para que Sabo não a visse deformar o rosto de decepção. Tudo o que ela mais precisava, naquele momento, era de alguém que a amasse.
Mas, já que isso não aconteceria, continuaria seu trabalho e seguiria com sua vida, estando ou não ele nela.
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