Baby Care

25 Avanços e conquistas


“O show da sua banda foi um sucesso, meus parabéns. Nós do conselho estudantil e toda a escola ficamos orgulhosos do seu sucesso.”

— carta escrita após o festival cultural.

Koala tinha que admitir que era um alívio ver Blaze de novo. Estava muito angustiada e inquieta todos os dias em que teve de ficar longe de seu bebê, perguntando-se se ele estaria bem e se alimentando direito. Foi bom ver que ele estava bem e, mesmo que sua alimentação não estivesse da forma ideal, ao menos Sabo havia feito um bom trabalho em deixá-lo vivo.

— Carro do papai — ele mostrou o carrinho para ela.

— Parece, não é?

— É, parece. O carro pêto.

Em seus passinhos de bebê, ele pegou o resto dos carrinhos no chão e levou até Marion, que estava quieto no canto lendo um livro ilustrado. Por algum motivo, Blaze parecia gostar do mais quieto da ninhada.

Seus pensamentos foram interrompidos por um som de risadas. Aquilo era algo novo. Seguiu o som, e viu que vinha do quarto das crianças. A tarefa deles era dobrar os futons, mas provavelmente estavam enrolando, como sempre.

— De novo, de novo!

No quarto, Sabo ria pegando as meninas no colo — Aurora e Nina — e jogando-as no topo da pilha de futons dobrados. Eles se divertiam tanto que nem notaram sua presença.

— Ahaha! Isso é incrível! — Nina exclamou. — que tal se a gente for pro rio?

— Pra que? — Aurora perguntou.

— Assim o Sabo-san pode jogar a gente no rio bem longe — ela esticou os braços — desse tamanhão aqui.

— Gostei da ideia!

Sabo era bom com crianças, e isso ela nunca duvidou. Quando comentou sobre isso, na época em que Blaze começou a frequentar a creche, ele dizia que sabia lidar apenas com crianças pequenas, e que crianças maiores sabiam ser respondonas e o deixavam irritado. Tinha que admitir que, se o que ele queria era começar a comer pelas beiradas, conquistando as duas meninas menores primeiro, era uma boa tática.

—Também gostei, mas só se — ele se virou de supetão para ela, sorrindo. — a irmã de vocês autorizar.

Não demonstrou, mas o modo como ele a encarou a deixou um pouco desconcertada.

— Podem ir, sim — respondeu tentando ao máximo parecer despreocupada. — não me importo que brinquem no rio no calor. O problema é quando inventam isso no outono.

— Como assim? — Sabo não entendeu.

— No outono retrasado as duas princesinhas aqui — olhou para elas, que tentavam disfarçar a culpa. — tiveram a brilhante ideia de nadar em pleno outono, e ainda arrastaram o Marion para essa bagunça toda. Voltaram os três com um peixe e resfriados.

Lembrava-se bem desse dia. Era época de provas na escola, e todas as atividades eram muito importantes principalmente porque já estava no terceiro ano. Por conta da febre deles, teve de faltar quase uma semana inteira, e suas notas bimestrais foram severamente afetadas. Mas o que ela podia fazer? Não podia deixar seus três irmãos de quatro anos sozinhos em casa, ardendo em febre.

Koala evitava pensar em situações daquele tipo, porque essas lembranças lhe traziam sentimentos que ela preferia fingir que não existia. Ela era boa naquilo. Seu pai nunca recebeu sequer uma queixa sua de algo que não quisesse fazer.

— Dessa vez tá bem quente, então não vai ser problema. E, melhor, vamos todos, o que acham?

Antes que pudesse declinar, as meninas gritaram de felicidade e saíram correndo para chamar os outros.

Bem, não importava o que Sabo estivesse planejando. Por mais que não aprovasse a malcriação deles, conhecia-os como a palma de sua mão e tinha certeza absoluta de que eles perturbariam o juízo de seu ex-patrão até que se cansasse e pegasse o primeiro voo para Tóquio.

Não duraria uma semana no interior.

(...)

Quando saiu para chamar todos para saírem juntos, Sabo descobriu que as três crianças mais velhas — Shin, Rock e Tora — haviam saído para algum lugar. Pensou ser uma pena, pois sair com eles ajudaria a se aproximarem. Felizmente, ao chegarem ao seu destino, os três estavam justamente se banhando no rio.

— Vocês vieram também! — Tora foi a única que sorriu ao vê-lo.

— Que coincidência — comentou Nina, com um ar misterioso.

Entendeu de imediato o plano que ela arquitetara. A sapequinha sugerira ir até lá de propósito.

Enquanto as crianças se jogavam na água — de roupa e tudo — abaixou-se para tirar a camisa de Blaze. Estava calor, mas temeu que ele acabasse resfriado por usar a blusa molhada.

— Calma — pediu ao menino, que estava ansioso para se juntar aos maiores.

— Qué ir pá água! — ele pulava ansioso.

Koala foi para o seu lado e desabotoou um botão que ele nem vira que dificultava sua tarefa. Agradeceu-a com um sorriso, e viu Blaze correr como um louco para a água.

Por um instante, apavorou-se ao vê-lo se jogar na água. Mas Shin, que estava perto dele, pegou-o no colo no mesmo instante, impedindo-o.

— É perigoso, baixinho — Shin disse em tom gentil — que tal entrar comigo?

Blaze pareceu hesitante no início, afinal, Shin mal falara com ele durante todo o tempo em que estiveram ali. Mas quando o loirinho mergulhou com ele e fechou a mão na água, esguichando, o rosado caiu na gargalhada, contagiando a todos ali.

Ao que parecia, o ódio de Shin por ele limitava-se a ele próprio, e não a Blaze, o que já era um bom começo. Sabia lidar suficientemente bem com a rejeição, mas rejeitarem seu filho já era uma história completamente diferente, e jamais aceitaria que seu bebê fosse destratado.

— Ele é um bom garoto.

Olhou para lado, onde Koala permanecia sentada. Ela usava uma camiseta branca e shorts, muito simples se comparados às roupas que Nami costumava usar, mas ela estava maravilhosa aos seus olhos. Deixou de lado um pouco seus pensamentos imorais, concentrando-se em escutá-la.

— Nunca disse que não era. — respondeu.

— Eu já percebi a tensão entre vocês dois — ela declarou. — e não concordo como Shin o trata, mas também quero deixar claro que ele não é um menino ruim. Ele só está lidando com a dor da forma errada — Koala respirou fundo, ainda com o olhar pendendo nas crianças. — os pequenos ficaram tristes também, mas ainda são novinhos e se distraem mais fácil. Agora o Shin...

— Ele foi o primeiro a ser adotado, certo?

Ela assentiu.

— Então seu tempo com ele foi maior do que com os outros. Ele deve ter sentido muito a sua falta quando partiu. — disse a ela.

— Não tenho como saber. Ele não disse nada.

— Acho que isso é a maior prova da dor dele.

Koala finalmente virou-se para ele, pensando em suas palavras.

— É por isso que não posso ir embora. Eles precisam de mim aqui.

— Mas e todos os seus objetivos e sonhos? — sentou-se de frente para ela. — e a garota sonhadora que chegou em Tóquio, determinada a estudar, trabalhar? Que salvou a minha vida e a de Blaze?

— Isso não é justo — ela balançou a cabeça.

Vendo a expressão triste dela, Sabo sentiu-se um idiota. Antes ela tinha um meio sorriso, e agora ele a deixara triste. Não era isso o que queria. Queria que ela voltasse com ele, mas não conseguiria convencê-la daquela forma. Precisava ser de outro jeito.

— Crianças! — chamou-as. — que tal brincarmos de Marco Polo?

Elas se encararam entre si, sem entender.

— Vocês não conhecem Marco Polo?

— Eu já li num livro! — Tora falou. — vamos jogar, pessoal! Parece divertido.

Os pequenos se animaram para jogar, e, apenas por isso, Shin e Rock aceitaram participar da brincadeira.

Koala finalmente entrou na água, para participar com Blaze no colo, e assim todos puderam jogar mais livremente. Mesmo sem entender nada, Blaze riu e gritou muito, batendo as mãos na água. Sabo obviamente foi o bobo na primeira rodada do jogo, localizando Nina, que foi a segunda. Para a surpresa de todos, ela tinha uma audição impecável, e pegou Rock com facilidade. Rock, no entanto, foi acusado de roubo, pois achou Marion mesmo sem o menino dar um pio. Ele defendeu-se dizendo ser sorte, e Sabo, como o “dono do jogo” declarou que ele não roubara.

Koala ficou satisfeita ao ver seus irmãos rindo e brincando entre si de coisas saudáveis. Desde que voltara, tudo o que eles sabiam fazer era brigar, até quando tentavam brincar. Houveram alguns momentos ali em que brigas quase se iniciaram, mas Sabo soube contornar a situação muito bem, e no fim tudo terminava bem.

— Muito bem, querido! — Koala segurava Blaze enquanto ele tentava nada. — isso! Isso!

As crianças já estavam se arrumando para voltar para a casa, e Sabo virou-se para chamar Koala. Já era fim de tarde e a iluminação não estava muito boa, por isso estranhou quando viu as costas dela parecendo avermelhadas.

A camisa branca que ela usava já estava transparente, e podia ver a linha preta do que era um sutiã ou um biquíni. Mas o avermelhado era algo estranho. Seria apenas impressão sua?

— Koala... — chamou baixo, mas mesmo assim ela ouviu.

— Sim?

Pensou em perguntar. Na verdade, até abriu a boca para dizê-lo, mas balançou a cabeça, esquecendo aquele assunto.

— Vamos embora?

— Vamos — ela sorriu. — vamos sim.

Dos cinco dias em que Sabo esteve naquela casa, aquele fora o melhor. O jantar fora animado, com as crianças conversando sobre as trapalhadas um do outro. Claro que Sabo não era considerado ainda da família, mas aquele pequeno jogo o fez subir um pouco no conceito daqueles pestinhas.

A única coisa que o incomodou foi ainda ver Koala tão quieta. Ela respondia o que lhe era perguntado, e mantinha um sorriso no rosto, que enganaria facilmente a maior parte das crianças, mas não a ele. Nunca a ele.

Mas não podia ser apressado. Tinha que ir com calma, ou não conseguiria nada ali.

(...)

No dia seguinte, encontrou Tora carregando uma pilha de livros velhos. Ela dissera que pegava emprestado com seu vizinho, Clover, um velho erudito que amava ler tanto quanto ela.

— Tenho uma amiga que ama ler desde que tinha sua idade — contou, sentando-se no chão junto a ela para analisar os livros. — e ela é muito inteligente, fala quase todas as línguas do mundo.

— Ela é poliglota?! — os olhos de Tora brilharam. — acho isso tão incrível.

— Incrível é a forma como você fala. Se expressa muito bem pra uma menininha da sua idade.

— É que eu gosto de ler — ela explicou. — a mana também. Gosto de pensar que somos parecidas, por isso nós duas falamos corretamente.

Por isso Koala falava tão bem, também. De repente, sentiu-se envergonhado em acusá-la de ser estranha por isso dias atrás.

— Se um dia eu tiver a oportunidade, vou apresentar vocês duas — prometeu a ela. — e vou pedir a ela que mostre a biblioteca de sua casa. A casa da minha família é uma mansão, mas não chega aos pés da biblioteca de Nico Robin.

Os dois passaram um bom tempo conversando sobre as histórias dos livros que ela levava consigo, e aprendeu muitas coisas sobre aquela pequena menina de oito anos. Ela gostava de azul, de chá cevada, dias frios e doces amanteigados. Era uma boa menina, a mais calma das meninas.

Agora, ao menos as três crianças do sexo feminino gostavam dele. O problema era mesmo os meninos.

Naquela mesma tarde, brincou com Blaze com seu carrinho de controle remoto — que, na verdade, o bebê nem gostava tanto assim. Na maioria das vezes, Sabo era quem se divertia — e notou que Rock espiou atrás da porta enquanto brincava.

— Quer tentar?

O garoto se assustou quando foi percebido, e saiu de trás da porta, com rosto corado.

— Sabe o que é isso? — Sabo perguntou.

— Óbvio, não sou um idiota — Rock deu uma resposta atravessada. Mas, como Sabo conquistara um pouco seu respeito, o garoto se sentou ao lado dele. — um amigo meu, da minha classe do ano passado, tinha um desses. Mas não dessa cor.

— Eu devia ter adivinhado que você sabia — disse em tom de desculpas. — pode brincar um pouco, se quiser. Tenho certeza de que Blaze não vai se importar.

Quando procurou o menino, ele já vinha do meio do mato com um sorriso travesso.

— Filho, você tá com a roupa cheia de carrapichos.

Riu de leve e foi tirar os frutos da roupa do menino. Enquanto se ocupava, Rock sentiu-se confortável para testar o brinquedo. Para ser sincero, ele nunca brincara com algo assim. Seu amigo tinha, mas era muito egoísta e nunca o deixara tentar. Atualmente, nem falava mais com o menino em questão.

Começou a rodar o carro, e bateu-o sem querer em um vaso de planta. Quando deu ré e tornou a fazê-lo andar, ele estava mais lento. O desespero bateu, e torceu para que Sabo demorasse com a tarefa. Para seu infortúnio, ele acabou naquele mesmo instante.

— Ué — o loiro franziu o cenho. — ele está mais lento?

— M-Me desculpa, eu... — a voz do menino já estava tremida, sentindo um bolo na garganta. — eu bati ali, acho que eu quebrei, mas eu juro que não...

— Se acalma, não precisa se preocupar, campeão — pegou o carro e o colocou no corredor que dava para o lado de fora, onde estavam sentados.

Abriu o compartimento debaixo dele e viu que as pilhas estavam deslocadas, então teve uma ideia. Pegou alguns artefatos de robótica que estavam em sua mala e começou a fazer algumas modificações no brinquedo. Aqueles itens haviam ido em sua mala por um grande acaso, pois era muito parecida com a que colocara toalhas pra Blaze. O menino agora só tinha uma toalha, mas era o suficiente.

No fim, conseguiu o que queria. Agora, o carrinho funcionava com baterias e estava duas vezes mais rápido. Rock parecia fascinado com tudo o que ele fazia com o brinquedo, abrindo-o e cortando fios.

— Eu era do clube de robótica na época do ginasial — contava a ele. — sempre gostei muito de tecnologia. Planejava seguir no mesmo tipo de clube no ensino médio, mas acabei me candidatando a vice-presidente do conselho estudantil.

— Por que não como o presidente? Eu votaria em você se soubesse que faz robôs.

Riu do que ele dissera.

— Eu ainda estava no primeiro ano, não podia ser presidente. E, além disso, o presidente tem uma posição de muito destaque. Nunca gostei muito de chamar atenção, sabe? Como vice, eu podia trabalhar pelo bem da escola sem estar nos holofotes.

— E qual é o problema de ficar nos holofotes?

— Eu não tenho essa capacidade. Nunca tive.

Ace era seu completo oposto no colegial. Enquanto Sabo passava seu tempo enfurnado em uma sala com uma pilha de papéis importantes para entregar, Ace estava na sala do clube de música fazendo um barulho estrondoso com sua guitarra. Mesmo que fosse Sabo a pessoa que passou noites em claro resolvendo questões do festival cultural, era Ace quem estava na boca do povo por sua apresentação esplêndida.

Por um tempo, chegou a se frustrar sobre como aquilo era injusto, mas percebeu que não queria estar no lugar do irmão. Não poderia ser como ele.

— Pode levar as cenouras para Kokoro-san, Rock? — Koala apareceu de repente.

— Posso, sim — Rock assentiu na mesma hora. — viu, só, mana? Eu consigo dirigir! Foi o mano Sabo quem melhorou ele.

— Que legal — ela sorriu — acho que o mano Sabo é muito bom com tecnologia, não é?

— Ele é, sim — o garoto se pôs de pé num pulo — vou levar e volto num minuto, quero brincar mais quando voltar!

O menino correu para dentro da casa os deixando sozinhos. Meio sozinhos, na verdade. Blaze ainda estava ali, mas bastante ocupado em testar a textura de tudo ao seu redor. Ele parecia mais saudável ali, onde podia correr, experimentar coisas novas e se sujar. No interior, o ar era puro, os alimentos mais naturais e dormia-se cedo e acordava com as galinhas, uma rotina muito boa para crianças. Além de tudo, Blaze estava mais feliz. Os irmãos de Koala se tornaram uma espécie de referência para o garotinho, que praticamente os venerava.

— Ponto para você — ela se sentou onde Rock estava. — conseguiu cativar um dos meninos.

— Fico feliz que a maioria goste de mim. Achei que fossem me odiar pra sempre.

— Odiar é um termo muito forte. Nenhum deles odeia ninguém.

Se virou para ela com olhar brincalhão.

— Ontem mesmo Nina gritou que odiava comerciais.

— Ah, mas isso é passável. Podemos odiar coisas, mas nunca pessoas.

Deu-se por vencido, admirando o rosto dela. Koala estava um pouco corada, possivelmente por ter estado no sol anteriormente. Alguém branca como ela ficava vermelha com muita facilidade.

Sabo não tinha ideia, mas Koala ouvira boa parte da conversa entre ele e Rock, e lhe chamara bastante atenção vê-lo falando sobre o passado.

— Não sabia que foi do conselho estudantil.

— Estive nele durante todo o ensino médio — revelou a ela. — foram tempos muito agitados. Além de ter que estudar muito, eu também estagiava e...

— Estagiava? — isso chamou sua atenção. — onde?

Suspirou, não muito satisfeito em entrar naquele assunto. Mas não podia negar nada a ela.

— Na R.A Company. — respondeu. — eu... Era um adolescente bobo, e queria que meu pai ficasse orgulhoso de mim.

— E ele ficou?

— Não sei bem. Ele me elogiou, e tudo mais, mas... Não foi como eu queria. Queria passar mais tempo com ele, ser uma espécie de braço direito, e entender o quão bom podia ser o trabalho que o tirava tanto de mim. No fim, eu apenas trabalhei muito e mal o vi. Todos queriam que eu tivesse continuado lá, mas saí quando entrei na universidade.

— Sinto muito que tenha sido assim — ela falou, e ele sabia que ela sentia mesmo. — mas tenho plena certeza de que Dragon-san se sentiu muito orgulhoso de você.

Ele assentiu, embora não estivesse convencido daquilo.

— Pode acreditar que não, mas — ela continuou — eu o acho muito talentoso.

— Acha?

— Ora, não é qualquer um que conserta a própria televisão, ajuda a desenvolver um celular líder em vendas e... — ela apontou para o carrinho com a cabeça — faz melhorias em brinquedos. Para falar a verdade, venho notando isso há muito tempo. Você leva jeito com tecnologia.

Podia parecer estúpido, mas Sabo nunca se dera conta disso.

— Sei que não vai gostar do que vou dizer, mas... — ela fez uma pausa. — acho que deveria substituir seu pai.

É, ela estava certa.

Ele não gostara nada da ideia.

— Meu pai morreu sem realizar o seu maior sonho — ela começou a contar, de repente, perdida em lembranças — que era me ver formada. Ele sempre quis isso, porque não conseguiu se formar. Ele era um imigrante ilegal, e teve que se esconder aqui no interior. De qualquer forma, ele queria ver minha formatura, mas não pôde, e eu daria tudo para realizar esse desejo dele. Não quero dizer para abandonar tudo o que acredita, mas...

Com calma, ele esperou que ela pensasse em suas palavras.

— Planos, ideias e sonhos podem ser remoldados. Adaptados.

Sabo tinha plena ciência de que, às vezes, falava besteiras no calor do momento. Ele estava começando a tentar melhorar isso, pelo bem de todos que amava, por isso, demorou um pouco para respondê-la.

— E os seus sonhos? Foram remoldados?

— Ainda estou remoldando. Tudo o que aconteceu até agora foi muito repentino. Nem sabia que ele estava doente.

Franziu a testa, e pegou a mão dela. Até ali, achava que Koala sabia da doença do pai.

— Não sabia?

— Não — ela negou com a cabeça. — ele não me disse nada, mas tinha um câncer no pulmão. Foi descoberto tarde demais, e, de qualquer forma, nunca teríamos dinheiro para pagar o tratamento.

Não perguntara a eles, mas Koala sabia que nenhum de seus irmãos lhe mandara sequer uma carta todo esse tempo porque não queriam mentir. No dia do velório de Fisher Tiger, Nina comentara sem querer que ele estava “dodói” desde que fora embora, e isso explicava o suficiente.

— Se eu tivesse ficado aqui — quando percebeu, já falava em voz alta. — ele não teria morrido.

— Sabe que não é verdade.

— É, não é, mas — ela deu um meio sorriso triste. — sinto que se tivesse feito as coisas de uma forma diferente, ele ainda estaria aqui conosco. Que nunca teria descoberto o câncer. Que nunca teria estado doente. Sei que não é culpa minha, que ele foi um viciado em cigarro durante muito tempo, mas ainda sinto que é, o que é um paradoxo.

Ansioso por confortá-la, Sabo a puxou para um abraço. Ela se aconchegou em seu peito, entregando-se às carícias que ele fazia em sua cabeça. Koala não tinha culpa de nada, e sentiu vontade de gritar aquilo para o mundo inteiro ouvir, mas não era isso que ela precisava.

— O mais doloroso é que não consegui me despedir. Não consegui agradecê-lo por me criar, me alimentar, e me dar amor. Ele não foi um homem perfeito, mas foi o melhor pai que eu poderia querer. Ah, como eu daria tudo para tê-lo de volta, nem que fosse por um dia.

As palavras de sua amada o fizeram pensar em seu pai. Como se sentiria caso ele fosse arrancado de si de uma vez? Como se sentiria com a perspectiva de nunca mais conversar com ele? De nunca mais ouvir seus sermões, sua voz grave no corredor?

Lembrou-se de quando era pequeno, e teve febre depois da abertura da piscina da escola. Ficara tão empolgado que ficou doente, e quando acordou, na manhã seguinte, Dragon dormia sentado na cadeira ao lado de sua cama. O mordomo lhe dissera que ele passara a noite o vigiando.

Monkey D. Dragon não era um homem perfeito. Errara em muitos momentos, mas acertara em outros. De repente, sentiu um aperto no peito, e uma melancolia tão grande que a vontade de chorar o acometeu. Isso o surpreendeu, porque não era um homem que chorava fácil.

A mão de Sabo, grande e masculina, acariciou a bochecha de Koala. Pegou-se surpreso ao ver que o rosto dela não estava molhado. Ela não chorava? Logo ela, tão sentimental? Esticou um pouco a cabeça, analisando a expressão dela.

Ela não tinha expressão. Koala estava de olhos abertos, olhando para o nada, como uma casca vazia. Isso o preocupou. Parando para pensar, não a vira chorar em momento algum. Nem durante a noite, já que o quarto dela era ao lado do seu. Conseguia escutar até quando ela mudava de posição no futon.

— Vai ficar tudo bem — beijou o topo de sua cabeça, abraçando-a mais fortemente. — eu prometo, vai ficar tudo bem.

Sabo não podia ver, mas no fim do corredor, Shin encarava os dois. Chegara mais cedo do pequeno serviço que fizera ao vizinho, e encontrou os dois ali, agarradinhos. Seu primeiro pensamento foi o de separá-los, e chutar o outro loiro para fora de sua casa, mas...

Mesmo que lhe doesse o orgulho admitir, talvez aquele forasteiro pudesse fazer algum bem à sua irmã. Viu-o como a última esperança, porque vinha ficando sem maiores perspectivas de melhora. Não gostava daquele playboy, mas...

Pelo bem de sua irmã, estava disposto a tudo, porque a amava do fundo de seu coração.