Baby Care
4 Resgatando a babá
Notas iniciais

“…Ora, se brigou com ela, por que simplesmente não pede desculpas? Garotas não podem ser tão complicadas assim. Nos livros que leio, os rapazes sempre se retratam fazendo um agrado, como um buquê de flores… Mas, conhecendo a Bonney, acho que a única coisa que a faria feliz, seria um belo pedaço de pizza.
Ou uma pizza inteira”
— Carta de Sabo enviada para Ace, após uma briga com Bonney.
Dois dias.
Havia dois dias que Koala simplesmente sumira.
Dois dias de trabalho perdido, dois dias desde sua briga, dois dias que não conseguia se aquietar e dormir em paz, dois que Blaze não parara de perguntar sobre a mãe, e dois dias que Sabo estava completamente desesperado.
Koala não podia ser o tipo de garota que desistia de um trabalho sem mais nem menos. Ela até assinara um contrato! Não podia ter feito aquilo com ele. No início, achava que ela apenas estava atrasada. Depois, achou que estava muito atrasada, e, por fim, percebeu que ela não iria, porque provavelmente estava irritada com ele.
Mas depois de passar mais um dia e ela não dar nenhuma notícia, Sabo começou a ficar realmente preocupado. O que ela dissera mesmo? Tinha vindo de Gifu, tinha irmãos, não tinha celular… Será que ela conhecia alguém em Tóquio? Será que tinha se acidentado por aí? Não passara nada no noticiário, mas…
E se tivesse sido sequestrada? Não haveria como saber. A família dela estava longe, provavelmente se comunicavam pouco, demoraria muito até notarem sua falta. O único que notaria sua falta, obviamente, era o próprio Sabo.
— Cadê mamãe? Mamãe vem hoje, papai? — Blaze subiu no sofá e pôs as mãos em sua coxa, apoiando-se para olhá-lo de baixo para cima.
— Não sei. — ele pegou o pequeno e o pôs sentado em seu colo, de frente para ele. — papai não serve pra você?
— Papai? — Blaze pareceu pensar por um instante. O que será que um menino de dois anos ponderava? — Blaze amo papai!
Sabo sorriu, sentindo seu dia ficar um pouco melhor.
— Blaze ama papai. — corrigiu ele. — e papai ama Blaze.
— E mamãe ama Blaze! — ele esticou os braços, animado.
— E mamãe ama Blaze. — concordou.
— E papai ama mamãe!
— E papai ama-
Ele pensou por um instante, e percebeu com o que estava quase concordando. Sentiu-se envergonhado, mesmo que não tivesse ninguém ali na sala que não fosse Blaze. Tinha que parar de repetir as falas dele sem pensar, se tivesse o feito em público teria sido bastante constrangedor.
Não amava Koala. Achava-a uma boa garota, e estava preocupado com ela. Ela era como… Uma amiga? Sim, uma amiga. Não muito próxima, mas uma amiga, perto do que Nami era pra ele.
Ouviu seu celular tocar no bolso, olhando quem chamava. Era Shanks. O que será que ele queria? Ele costumava ligar nos fins de semana, chamando-o para beber, não assim, meio de semana, num horário em que deveria estar trabalhando. Quando atendeu, o mais velho fora extremamente caloroso, e como sempre, foi perguntando assuntos corriqueiros antes de ir direto ao assunto.
— Preciso que venha aqui, tivemos um problema com a sua matrícula. — ele explicou-lhe, finalmente, após minutos de falatório desnecessário. — não é nada demais, mas preciso da sua presença. Pode vir agora?
Sabo era praticamente uma mãe dona de casa – mesmo que não cuidasse exatamente da casa. — então claramente podia ir a qualquer hora do dia para qualquer lugar. Em geral, isso era bom por ter um horário flexível, mas detestava quando as outras mães no parquinho ficavam cochichando sobre ele – um jovem adulto com um bebê num parquinho numa tarde de meio de semana. Certa vez, quando ficou doente e precisou usar uma máscara, uma das mães até chamou um policial, alegando que Sabo podia ser um pedófilo.
Ficara muito irritado nesse dia, ao explicar que tinha levado o filho no parque. Não podia nem aproveitar uma tarde de verão em paz?
Por fim, não demorou para chegar na universidade. Fora logo recebido por Shanks, que o chamara em sua sala. O ruivo era reitor da universidade, e, apesar de não aparentar, era bem importante lá dentro. Ele não devia estar cuidando de um simples problema numa matrícula de um aluno, então estava claro que ele apenas queria ver Blaze.
— Meu Deus, como você está alto! — ele pegou Blaze, no colo, jogando-o no ar de brincadeira. — desse jeito você vai passar o tio Shanks! O que Sabo dá pra você, biotônico?
— Hahaha! Tio Shan! — Blaze se matou de rir, passando as mãos em sua barba depois de parou de jogá-lo. Ele adorava sentir a barba de Shanks.
— Ele come como um touro, é um legítimo D. — Sabo brincou.
— Realmente, o sangue não nega. Como está seu avô? — perguntou.
— Da última vez que ligou esbravejou muito, então está ótimo de saúde. — deu ombros.
— Garp-san vai vir para cá nas férias de verão?
— Foi o que ele falou. Disse que queria ver o bisneto. — explicou-lhe. — acho muito interessante como ele é com Blaze, todo bobo. Comigo, Ace e Luffy ele sempre agiu na base da pancada.
— Ah, mas isso era porque já eram grandes. Quando Ace e Luffy eram bebês ele também era assim, adorava ficar fazendo careta para eles rirem.
Os dois riram e depois se sentaram, começando a resolver o problema da matrícula. Era, como Shanks dissera, algo bem simples, e em poucos minutos tudo já estava resolvido. Sabo retornaria à faculdade na próxima primavera.
— Com quem esse rapazinho vai ficar enquanto estiver aqui? — Shanks perguntou ainda com o menino no colo.
— Ele vai pra creche. — o outro olhou-o com estranheza, já que já estava ciente das tentativas falhas de fazê-lo ir para lá. — dessa vez ele vai se adaptar. Vou ter alguém que vai me ajudar.
— É mesmo? Quem?
— Uma babá. É uma moça que conheci, Blaze gostou muito dela.
Shanks encarou-o por um tempo, como se estivesse julgando-o. E provavelmente estava. Era uma boa pessoa, não dizia nada quando julgava alguém, e mantinha sempre tudo para si, a fim de não deixá-lo desconfortável. Mas Sabo não era qualquer pessoa. Conhecia o reitor há anos, e sabia bem o que se passava em sua cabeça.
— Que bom. Rezo para que tudo dê certo. — o ruivo respondeu simplesmente. — se precisar de qualquer coisa, sabe que pode contar comigo. — ele deu um sorriso paternal.
E de repente, Sabo percebeu que realmente precisava de um favor. Pensou, então, que se Koala tinha passado para a universidade, obviamente seus dados constavam nos registros, não? Ainda que não tivesse celular, ela tinha uma residência fixa, e se soubesse onde é…
Bem, talvez pudesse ir até lá e resgatar sua babá de volta.
(…)
Koala sentia-se péssima.
Não, sentia-se terrivelmente péssima, pior do que já estivera em toda sua vida.
Depois de brigar com Sabo, fora para casa, como um dia qualquer. Estava irritada, passara o resto da noite pensando nisso e, quando acordou, ainda, com raiva…
Estava doente.
O primeiro dia fora o pior de todos. Sentia-se fervendo, sua febre estava altíssima e a garganta doía. Por sorte, havia trazido algumas ervas quando viera para Tóquio e ainda estavam guardadas. Quando conseguiu um pouco mais de força para ficar em pé, preparou o remédio caseiro e dormiu desde então.
E como dormiu. Preferia os momentos em que estava dormindo do que quando estava acordada, encarando as teias de aranha no teto de seu apartamento velho e acabado, sentindo-se sozinha no mundo. Tudo o que ela queria era sua casa. Queria ver as crianças em volta dela, dizendo-a que logo ficaria boa. Queria Tiger-san, passando a madrugada acordado para trocar as toalhas de sua testa. Queria se sentir parte de um núcleo amoroso de novo.
Queria uma família.
Era algo simples, que a maioria das pessoas desvalorizava.
Mas agora estava sozinha em uma cidade estranha, sem amigos e provavelmente sem emprego. Depois de dois dias sem dar explicações, Koala tinha certeza que Sabo a demitiria. E por que seria diferente? Ela não tinha como contatá-lo para explicar sua situação, e nem tinha como ir até lá, estava fraca demais. Perdera seu único ganha-pão.
Não tinha como ficar pior.
Ou tinha, percebeu quando ouviu batidas violentas à porta. Ninguém a visitava, nunca, então só podia ser uma pessoa: a zeladora.
Hesitante, abriu uma fresta da porta, com a correntinha de segurança impedindo que abrisse a porta totalmente.
— Jora-san, como vai? — Koala abriu um sorriso amarelo, e a mulher roliça não esboçou sequer um sorriso simpático.
— Vim cobrar o aluguel. — foi direto ao ponto, como sempre. Conhecera a mulher há pouco mais de um mês, quando chegara na capital, e, sinceramente não gostara muito dela, mas aquele apartamento era o mais barato que achara, e sua única opção fora aceitar aquilo mesmo.
— Ah, sim… — Koala fechou a porta para abrir a corrente, e poder abrir a porta totalmente. Quando já estava totalmente aberta, era óbvio para a zeladora que Koala estava doente: suas bochechas estavam bem avermelhadas e suava feito um pouco. — se a senhora puder esperar um pouco, com certeza conseguirei o dinheiro. É que no momento estou doente, desempregada e…
— Desempregada?! — a mulher arfou, ignorando totalmente o “doente”. — ora, não aceito atraso de aluguel, e sabe muito bem disso! Deixei as regras bem claras quando chegou aqui!
— Eu sei, eu sei, mas é que eu realmente achei que conseguiria pagar. Estava em um emprego de garçonete, mas fui demitida duas semanas atrás. — ela justificou-se juntando as mãos, em um ato de humildade. — por favor, não me despeje daqui.
— Lhe darei 24 horas para arrumar o dinheiro, caso contrário estará no olho da rua! — a mulher de cabelo com duas cores vociferou, erguendo o queixo. — há vários meios de conseguir dinheiro. Uma jovem do seu tipo, com o seu corpinho… Certamente conseguirá uma boa quantia num prostíbul-
— Espero estar ouvindo mal.
A terceira voz chamou atenção das duas, que olharam para a direita de Koala. — e esquerda da outra – A mais nova se surpreendeu ao ver seu patrão ali, em pé, parado, encarando-as com um olhar duro. Ele estava de braços cruzados, mas por algum motivo achou que ele os cruzara para conter a raiva a raiva que sentia.
— Oh. — Jora pigarreou, se recompondo do susto. — e quem seria você?
— Sou amigo de Koala, e pelo que percebi a senhora estava prestes a sugerir que ela se prostituísse para lhe pagar. Por acaso sabe que pode ser processada por danos morais? E, pior, por sugerir que uma menor de idade o faça?
— Processada? — ela recuou um pouco, parecendo temerosa pela possibilidade. Sabo sentiu-se satisfeito ao vê-la assim, e Koala também, lá no fundo. — Ora, só estou cobrando o que é meu de direito! Essa menina me deve o aluguel desse mês, aqui não é nenhuma pensão de caridade!
— Quanto ela lhe deve? — Sabo indagou, e a mulher engoliu o seco. Será que ela estava com medo dele? Sabo exalava uma autoridade sobrenatural, pareceu Koala. Nem parecia o jovem levemente brincalhão que conhecia. Jora lhe disse a quantia, e ele tirou a carteira do bolso.
— Aqui está. — ele assinou um cheque, e entregou a ela. — agora está tudo pago. E agradeça por eu ser misericordioso, senão meus advogados a procurariam em pouco tempo. Pense bem antes de sair ofendendo as pessoas.
A mulher ergueu o queixo novamente, querendo voltar à sua pose superior normal. Estava claro que se sentira abalada pelas palavras de Sabo, e saiu sem dizer nada.
— Mamãe! — Koala ouviu a voz de Blaze, só então reparando que ele estava escondido atrás das pernas de Sabo. Ele tinha medo de estranhos, então devia estar com medo de Jora, lembrou-se.
— Blaze. — ela recuou quando ele se aproximou. — é melhor você não se aproximar de mim. — disse tristemente, sentindo vontade de abraçá-lo. Sentiu saudades do pequeno.
— Bem. — Sabo deus uns passos para frente, ficando de frente para ela. — creio que precisamos conversar.
(…)
Estaria um silêncio mórbido se Blaze não estivesse no local. O pequeno passeava pelo pequeno cômodo, balbuciando e imaginando trilhos no chão para o trenzinho azul que carregava consigo. Ela agradeceu mentalmente pela presença dele, mas nem mesmo a barulho dele era suficiente para apaziguar a inquietação dentro dela.
— Como… — ela fez uma pausa, encarando a mesinha. Estavam sentados os dois, com Sabo em sua frente. Levantou o olhar, criando coragem para olhá-lo nos olhos. — como descobriu onde eu moro?
— Fui até a universidade e perguntei. — Sabo explicou, distraído enquanto examinava o local.
Era uma casa pequena, de apenas um cômodo. Era bem velha, a madeira do tatami já estava bem gasta, tinha teias de aranha no teto alto e sinais de infiltrações na parede. Viu uma porta que só podia ser o banheiro, mas imaginou que não era muito melhor que a sala, e a cozinha era bem pequena, bem ao lado da porta de entrada. Também não haviam muitos móveis, apenas a mesinha que estavam sentados, algumas caixas e uma pequena cômoda e encima dela estava uma TV que, apesar de pequena, ainda era daquelas antigas, quadradonas e com antena. Duvidou até que funcionasse.
— Entendo. — ela assentiu após alguns segundos, olhando para o chão.
— Você me parece com febre. — ele se inclinou para frente, analisando o rosto dela. — é por isso que sumiu? Estava doente?
— Sim. Me desculpe, eu deveria ter ido e explicado.
— Não precisa se desculpar Koala. — ele suspirou, cansada de ouvi-la sempre se desculpar. — eu só fiquei… — ele pensou por uns instantes. — preocupado.
A palavra não descrevia bem o que ele sentia, mas era a que chegava mais perto.
— Entendo. Me desculpe.
— Pare de se desculpar.
— Me des- ela interrompeu-se, e ficou calada.
E o clima estranho voltou novamente.
— Quero que venha morar conosco.
O anúncio dele a fez arregalar os olhos e voltar o olhar para ele.
— Como?
— Não gostei da forma como aquela mulher falou com você, além de tudo, creio que esse não seja o melhor lugar para você morar. Tenho certeza de que fez uma faxina, mas ainda assim, é um lugar muito acabado. — ele pegou as mãos dela, costume que tinha quando falava algo muito importante, percebeu ela. — se morar comigo não vai precisar ficar sendo humilhada dessa forma.
— Ela só fez isso porque eu não paguei o aluguel.
— E qual a diferença?
Koala ficou calada, olhando para as mãos dele nas dela. Estavam quentinhas, apesar do frio que fazia lá fora. Chegavam a ser aconchegantes. Nunca nenhum homem se aproximara assim dela, tocando-a com tanta intimidade, mas de alguma forma… Não se sentia como deveria. Não se sentia como achava que seria quando alguém o fizesse.
Estava feliz por aquela aproximação, e não incomodada.
— Eu pensei sobre o que me disse. — ele falou, obrigando-a a olhá-lo de volta. — e você está certa. Eu tenho que defender as pessoas que me são queridas, e não silenciar os outros com dinheiro. — ele coçou a cabeça, meio sem graça. — apesar de eu ter dado dinheiro para aquela zeladora agora pouco.
— Ah, quanto a isso, eu vou lhe pagar de volta. — Koala garantiu.
— Não precisa, esse dinheiro não fará diferença pra mim.
— Eu faço questão.
— Só aceito se for morar conosco. — ele riu de canto, cruzando os braços com um ar infantilmente superior. — é pegar ou largar.
— É muito insistente quando quer, Sabo-kun.
— Se for morar com a gente, eu terei mais ajuda, você morará mais perto da universidade, não precisará se preocupar com comida e nem em pagar aluguel. — ele observou os pontos positivos, levando-a a pensar. — você será muito bem paga para isso, poderá comprar roupas ou qualquer coisa que garotas gostem. Pode até mandar presentes para seus irmãos.
Seus irmãos, era verdade. Ela queria enviar-lhes dinheiro e brinquedos. As coisas estavam sempre apertadas em casa, e ela prometera a si mesma que melhoraria aquela situação. Seria um pouco estranho, mas não seria de todo mal morar com Sabo e Blaze. Ele era uma boa pessoa, fora até ali preocupado com ela e até pagara seu aluguel. Não havia como ele violá-la durante a madrugada.
— Muito bem, eu aceito. — assentiu, dando-se por vencida. Ela viu um largo sorriso surgir no rosto dele.
— Vamos fazer suas malas hoje mesmo!
— Hoje? Eu estou com febre, não seria de serventia nenhuma.
— Justamente por estar doente é que você não pode ficar aqui sozinha. — ele se levantou e se agachou ao lado dela, encostando sua testa na dela para medir a temperatura. — não parece tão ruim, mas ainda é melhor repousar…
Sua temperatura devia ter subido uns dez graus quando ele se aproximou dela. Sentia sua respiração, seu cheiro, e um pouquinho do cabelo dele até roçou em seu rosto, o que a fez prender a respiração.
Era tudo… Muito novo. Sentia-se uma idiota por estar daquele jeito quando ele ficava tão calmo diante daquilo. Ele era mais velho, rico, e bonito, com certeza já tivera inúmeras namoradas e aquilo não devia passar de algo trivial para ele. Mas para ela…
Para ela era tudo.
— E-Eu consigo fazer as malas. — Koala se afastou, ficando de costa ao se levantar. — não se preocupe, eu estou bem.
Ele pareceu não se convencer, mas ela não mentia: estava, de fato, bem melhor.
O rubor em suas bochechas tinha outra causa, mas nunca admitiria que a causa era, na verdade, ele.
(…)
Já anoitecia quando Sabo anunciou à Koala que daria uma saída. Estavam todos sentados no sofá, assistindo a um filme de um anime infantil, quando Sabo se levantou e começou a procurar o casaco e seus costumeiros óculos sem grau.
— Onde você vai? — ela perguntou, um tanto preocupada. Sabo a fizera tomar remédios para a febre e já se sentia extremamente melhor, mas ainda não estava 100% curada e tinha receio em ficar com Blaze sozinha.
— Vou ver o meu pai. — respondeu, sem olhar para ela. — ele conseguiu um horário para me ver.
Sabo terminara a frase em voz baixa, quase como se falasse para si mesmo. E talvez ele tivesse, de fato, falando sozinho, pois seu olhar fixo no chão parecia perdido em outro mundo, com um toque de tristeza na voz.
“Conseguiu um horário”? O que ele queria dizer com aquilo? Seu pai era alguém ocupado? Deveria ser, pois o dinheiro de Sabo tinha que vir de algum lugar.
— Não vou demorar, não se preocupe. Esse celular ali em cima é aquele que eu te dei naquele dia. — ele apontou para um smartphone em cima da bancada. — já está configurado, com meu número salvo. Qualquer coisa é só me ligar.
— Ah… — ela olhou para o celular, na dúvida do que dizer. Não queria que ele lhe desse um aparelho tão caro, mas, de fato, era muito útil e necessário. — O-Obrigada, não precisava me dar um tão chique assim.
— Não tem problema, tínhamos aqui guardado há um tempão, é bom dar um uso para ele. — deu ombros, colocando a mão na maçaneta, prestes a sair. Olhou de volta para Blaze, e percebeu que ele dormia. — Oh, deu sorte.
Ela sorriu concordando, olhando para o menino, e, por fim, Sabo saiu.
Tranquilamente ela pegou o pequeno sonolento do sofá e o pôs no colo. Deveria levá-lo ao quarto de bebê? Sabo dissera que ele não dormia lá, e sim no quarto de Sabo. Ficou um pouco nervosa com a possibilidade de entrar lá. Nunca entrara no quarto de um homem que não fosse de sua família.
Olhou para o celular e pensou em mandar mensagem para ele, perguntando onde colocá-lo, mas parecia besteira perturbá-lo por algo assim, então apenas descartou a possibilidade. Se Blaze dormia com ele na cama, o mais sensato seria colocá-lo lá.
Será que ele rolava enquanto dormia? Seus irmãos tinham esse costume, mesmo que o fato de dormirem todos em futons diminuísse qualquer risco. Talvez fosse melhor colocar alguns travesseiros em volta de Blaze, pensou enquanto pegava o pequeno no colo e o levava.
Quando adentrou o quarto, não se atentou aos detalhes: parecia-lhe invasivo, e não queria invadir a privacidade de seu mais novo patrão. Portanto, pôs o pequeno rosado na confortável cama e cuidou de assegurar-se de que estava completamente seguro. No entanto, ao ligar o abajur a fim de não deixar o pequeno no completo breu do cômodo, notou duas coisas curiosas em cima do criado-mudo.
Umas cartas e… Uma foto?
Curiosa, e ignorando totalmente o pensamento anterior de não invadir a privacidade de Sabo, tomou a foto com as mãos, colocando-a mais próxima à luz amarela para enxergá-la melhor.
A primeira pessoa que viu na foto foi Sabo. Ele estava igual, mas ao mesmo tempo bem diferente. Estava mais novo – com uns dezoito anos, mais ou menos, – e com o rosto bem vermelho. Primeiro achou que ele podia ter bebido algum tipo de álcool, mas descartou a possibilidade quando reparou que uma mulher de cabelos curtos agarrava-lhe a cabeça quase o afundava em seus fartos seios. Não havia apenas os dois na foto: haviam vários outros jovens, uns com cara de adolescente, outros parecendo beirar os vinte anos.
O que mais a chamava atenção era o sorriso de Sabo. Ele estava tão feliz, parecia se divertir tanto… Ele sorrira algumas vezes em sua presença, mas aquilo, aquela expressão, demonstrava a mais plena felicidade do momento. Koala se sentiu feliz por ele ter vivido aquilo, mas também ficou triste. O sumiço do irmão devia ter-lhe transformado na pessoa melancólica que era atualmente.
Queria fazer algo por ele. Podiam não se conhecer há muito tempo, mas ele a ajudou muito e tinha que recompensá-lo de alguma forma. Ele dissera que precisava de uma amiga, não era? Pois bem, ela seria a melhor amiga que ele poderia querer, só precisava conhecê-lo melhor!
Conhecê-lo melhor e ser sua amiga.
Amiga.
Apenas isso.
Repentinamente, ela ouviu a porta da sala ser aberta. Ora, Sabo já tinha voltado? Ele havia sido muito rápido. Prontamente se levantou e caminhou até a sala.
— Sabo-kun, não sabia que voltaria tão ce… — ela parou de falar enquanto vinha pelo corredor quando reparou que não era Sabo, e sim… Uma mulher?
— Quem é você? — a mulher de cabelos alaranjados perguntou quando a viu, pondo as mãos na cintura.
— Quem sou eu? — Koala deu um passo para trás, cautelosa com a estranha — quem é você?
— Eu... — a mulher levantou o nariz, em sinal de superioridade. — sou a namorada do Sabo.
Na…
Namorada?
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