Baby Care

23 O adeus


"...Ela se foi, Ace. Se levantou e partiu com a próprias pernas. É triste e cruel, mas nós dois sabemos disso. Ela os deixou, mas você ainda tem um filho que precisa de você. É seu dever continuar vivendo por ele."

— carta de Sabo para Ace, uma semana após o sumiço de Bonney.

Por que ele ainda não dizia que a amava?

Sabo passou a madrugada inteira acordado, observando o teto do que costumava ser seu quarto, fazendo-se essa pergunta. Era estranho estar naquele quarto, remoendo sentimentos ruins, assim como fazia quando era adolescente. A diferença era que agora doía mais, e sabia o motivo disso; Koala estava envolvida e ela era muito importante em sua vida.

Pensando bem, nunca dissera para seu pai que o amava. Nem para Ace, para Luffy tampouco. Para ninguém, na verdade, a não ser Blaze, porque era impossível não amar aquele garotinho que se tornou seu filho. No entanto, o fato era que não conseguia amar genuinamente ninguém desde que era muito pequeno. Costumava invejar Luffy, que nunca se lembrava ao certo dos momentos da infância, porque Sabo se lembrava de tudo com muita nitidez.

Lembrava-se de quando abraçava as pernas de sua mãe depois de apanhar, e dizer que a amava para que, ao menos uma vez, ela o confortasse e dissesse que ficaria tudo bem. Lembrava-se também de um ano em que, no dia dos pais, passou a madrugada acordado fazendo um cartão escrito “eu te amo, papai. Feliz dia dos pais” e Outlook simplesmente o jogou no lixo e disse para parar de fazer besteiras.

Desde então, não conseguia dizer que amava ninguém. Nem mesmo Koala.

Quando o dia raiou e Blaze acordou, trocou de roupa e foi para casa.

— Tem certeza de que não vai se despedir do seu pai? — Ivankov perguntou antes que saísse, já mais calmo.

— Ele está dormindo — terminou de calçar o sapato — e além disso, não é como se eu morasse longe.

Era um covarde. Estava evitando o pai por querer ignorar tudo o que aconteceu, porque não sabia o que dizer a ele. Dragon esperava que ele assumisse a empresa para que fosse feliz, não podia fazer isso. Não conseguia. E, se não conseguia, não podia deixá-lo feliz.

— Você é quem sabe. — o mais velho disse, por fim.

Por hora, tudo o que queria era voltar para casa, para seus dias perfeitos. Quando retornasse, pediria desculpas à Koala e tudo seria como era antes. Ele, ela, Blaze, uma família perfeita. As aulas da faculdade retornariam em menos de duas semanas, e o dia-a-dia agitado seria comum em suas vidas.

Mas como se desculparia com ela?

— Desculpa por... Não ter te correspondido — falou consigo mesmo, quando estacionou o carro na garagem. — desculpa não ter dito que te amava. Desculpe ter sido um idiota. Desculpe...

— Eu decupo, papai.

Se virou para Blaze, percebendo que ele achava que falava com ele.

— Não é com você, filho.

— Ah é? Shelular?

O rosado apontou para o bolso de Sabo, querendo perguntar se ele falava com o telefone.

— Não — riu de leve — estava pensando em dizer isso pra mamãe.

Esperava que ela o perdoasse. Nunca tiveram uma briga como a da noite passada. Ao menos, não enquanto namoravam.

Mas o que estava pensando? Era claro que ela o perdoaria. Tudo o que construíram juntos eram tão precioso para ela quanto para ele.

Abriu a porta do apartamento, colocando Blaze no chão. Ele logo começou a correr pela casa, que estava arrumada e limpa como nunca antes. Koala estava bastante ansiosa no dia anterior, e fez uma bela faxina.

— Mamãããããe! Cadê docê? — ouviu Blaze gritando pelo corredor.

Será que ela estava dormindo? Não... Já eram quase nove da manhã. Koala sempre acordava cedo.

“Ela deve ter saído para comprar alguma coisa”, pensou indo para a cozinha, se servir de um copo de água. Tudo parecia normal, exceto... O que era aquilo na bancada da cozinha? Franziu o cenho, se aproximando. Era o celular de Koala. Até aí poderia ser algo normal, porque a tolinha costumava esquecê-lo, mas estranhou o envelope debaixo dele.

Com cuidado, desdobrou-o, e não entendeu quando viu dinheiro dentro dele.

— Mamãe aqui não, papai. Cadê ela? — Blaze fez um biquinho, apoiando-se no batente da porta da cozinha. — Ah, shuco mashã! Coito!

Blaze viu uma porção separada em cima da mesa que parecia seu café da manhã.

Aquilo tudo estava muito esquisito.

Abriu a porta da geladeira para pegar um copo de água e se acalmar um pouco, e arregalou os olhos ao vê-la lotada de comida. Havia de tudo, vegetais em conserva, porções de jantar separados, frutas cortadas... Todas com um adesivo autocolante, indicando quanto tempo esquentar no micro-ondas.

Não poderia ser. Koala...

Koala havia ido embora?

Foi em passos largos até o quarto dela, abrindo o closet. Vazio. A cama estava feita, e na escrivaninha havia apenas uma folha de papel com anotações feitas à mão.

“Lembre-se de separar o lixo incinerável do reciclável.

Roupas brancas e coloridas são lavadas separadamente

Não use sabão em pó, apenas líquido.

Blaze só pode comer um doce por semana.

Sempre leve um casaco para não se resfriarem.

Siga as receitas no caderno em cima do armário direito da cozinha quando a comida acabar.”

E haviam mais uma série de recomendações do tipo.

— Koala?! — gritou sem se importar com nada, largando o papel e procurando-o como um doido pela casa. Ela não estava em lugar nenhum!

Não... Ela não faria isso. Ele era importante para ela. Eles eram importantes para ela. Koala não iria embora na primeira discussão. Não daquele jeito.

Voltou à cozinha, sentindo a temperatura de um dos potes. Ainda estava quente, a comida havia sido feita há pouco tempo! Isso só podia significar que ela fora há pouquíssimo tempo!

Mesmo com as pernas bamboleando de nervoso, correu até a porta do apartamento ao lado onde Bello Betty — uma vizinha em quem confiava — residia. Não demorou muito para que ela atendesse.

— Sabo-san? O que quer essa hora?

— Fica com Blaze um pouco! — praticamente jogou os meninos nos braços dela e saiu correndo, descendo pela escada do condomínio.

Se ela tivesse mesmo ido para casa, provavelmente pegaria o shinkansen, mas será que ela estaria lá? Será que a alcançaria? Enquanto corria pela rua como um verdadeiro louco, muita coisa se passou pela mente de Sabo.

Não queria perdê-la. Se ela lhe desse uma chance, se ajoelharia e pediria para que ela voltasse, mas precisava de uma chance.

Precisava... Dela.

(...)

Era difícil dizer adeus.

Koala nunca fora boa com despedidas. Quando se mudou para Tóquio, ficou totalmente sem reação perante a seus irmãozinhos chorando pedindo para que não fosse. Uma boa irmã os acalmaria e diria que tudo ficaria bem, que não precisavam se alarmar, mas a verdade era que ela própria estava com medo.

Naquela época — que parecia anos atrás — ela havia se lançado a um mundo totalmente novo. Uma cidade enorme como aquela fora uma grande experiência, diferente de sua terra natal. Antes, tinha medo de não fazer amigos ou laços que fossem significativos, mas se surpreendeu ao encontrar pessoas maravilhosas e até mesmo uma família.

Uma família... Sempre soube que era perigoso pensar em Sabo e Blaze daquela maneira. Sabo era seu namorado, a qualquer momento poderia cansar-se e deixá-la, e Blaze não era seu filho. O amava, mas ele tinha uma mãe e um pai que poderiam reaver o menino.

Com a mesma mala de quando chegou, ela ia embora, sem se arrepender de nada do que fizera ali. Seu único arrependimento era do que não conseguira fazer.

— Volta logo, tá? — viu um jovem casal se despedindo, antes que o rapaz passasse a catraca. — vou sentir sua falta — a menina continuou o dizer.

— Ei... Não fica assim — ele sorriu, e colocou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha — antes que percebera estarei de volta.

Por um minuto, viu ela e Sabo ali. Não poderia se despedir dele, da forma como os dois faziam. Porém, se arrependia de não ter deixado ao menos um bilhete informal.

Já era hora de passar a catraca, o trem já iria partir.

Mas antes...

Deteve-se, olhando para trás.

Precisava fazer algo.

(...)

— Koala...

Ele corria como um doido, o que se acendeu um flashback em sua cabeça. No dia em que finalmente aceitara seus sentimentos por Koala, ele também havia corrido atrás dela debaixo de uma chuva incessante. Queria que chovesse aquele dia também, pois assim justificaria o motivo de estar com pressa. Mas, pensando melhor, não se importava. Tanto faz se o achassem um esquisito.

Não estava nem aí se olhassem para ele.

— Koala! — gritou, olhando para todos os cantos quando chegou à estação. Todos se viraram para ver o que acontecia, mas nenhum rosto era o dela. — Koala! Koala!

Correu até a máquina de comprar passagens, que demorou mais do que o normal. Quando finalmente pegou o ticket, seguiu em direção a plataforma. Pegara o horário de mais tarde, pois os tickets para o trem que partiria dali a um minuto já estava lotado, mas se corresse bem, talvez ele conseguisse.

— Senhor! É proibido correr nos corredores!

Soltou um palavras nada legais em português e seguiu sem se importar com o guarda e nem com ninguém em sua frente. No meio do caminho, esbarrou em um homem que também não gostou muito.

Tinha que dar tempo.

Precisava vê-la. Precisava dela. Ela não poderia deixá-lo.

— Koala... — sua voz tremeu quando viu o trem de porta fechadas. — não...

Caiu de joelhos no chão, sem reação. Lentamente, o trem partiu, e sabia que ela estava ali. Aquele maldito trem branco levara a mulher mais importante de sua vida, e tudo o que podia fazer era ficar ali e... Aceitar.

Por pelo menos uma hora, permaneceu ali, parado, sem reação. Não sabia nem se havia piscado. Era como se... Algo dentro de si houvesse mudado, como uma corrente que se rompeu.

No fim, ele estava certo.

Não dava mesmo para amar ninguém, porque ninguém gosta de ninguém de verdade. As pessoas brincam com os sentimentos umas das outras, ferem, iludem e depois jogam fora. Não adiantava que houvessem mil acertos, um erro bastava para destruir tudo.

Arrastou-se para fora da plataforma chegando na estação central e, no centro daquela agitação de pessoas transitando, por algum motivo, o olhar de Sabo foi atraído para o quadro de recados. Era estranho, porque ele nunca havia parado para observá-lo sequer uma vez.

Parecia algo do destino porque, em meio aos outros recados, havia um em específico feito em uma letra feminina e caprichada, sem assinatura.

“Adeus”

Naquele instante ele soube.

Ela o havia deixado, de vez.

(...)

Ding dong

Barulho irritante. Tudo era irritante. Não havia pedido nenhum delivery, então quem o perturbava batendo em sua porta?

Arrastou-se até a entrada e olhou a câmera de segurança.

— O que é?

Nami bufou.

— Dá pra deixar a gente entrar, Sabo?

Nami não estava gostando daquela situação.

Há cerca de uma semana, ficara sabendo por meio de Shanks que Koala se desligara da universidade por meio de carta. Estranhou aquilo, e tentou ligar para o número dela, mas ela nunca atendia. Tentou, então, ligar para Sabo, que simplesmente lhe dissera, sem emoção alguma na voz:

“Ela foi embora”

Embora? Como assim embora? Foi então que ela, insatisfeita por não estar entendendo nada, fora até a casa da família D, onde sabia que Koala esteve tempos antes, e ficara sabendo de todos os acontecimentos que antecederam a notícia. Sabo e Koala discutiram feio, e, no dia seguinte, sua amiga fora embora, deixando Sabo e Blaze para trás sem nem mesmo uma despedida adequada.

— Não faz sentido. — disse a todas, quando suas amigas se reuniram em seu apartamento e de Luffy. — a Koala? Deixar o Sabo e o Blaze?

— Ela os amava, não faria isso — Pudding secava as lágrimas. — por que ela não nos contou? Poderíamos ter confortado ela.

— A briga deve ter sido muito intensa para ela ir embora assim — Robin observou, com a voz calma e firme, com apenas uma gota de suor denunciando sua preocupação.

— Onde ela morava mesmo? — Vivi perguntou a ninguém em específico.

— Gifu. — Robin respondeu.

— Meninas, meninas — Nami chamou atenção delas. — temos que nos focar aqui, a Koala foi embora! Temos que fazer alguma coisa! Ela é nossa amiga!

— Nós não temos que fazer nada.

Todas olharam para Pudding, que finalmente parara de chorar.

— Não fomos nós que a fizemos ir embora — secou as lágrimas, ficando de pé. — foi ele. Nada mais justo que Sabo arrumar uma bagunça que ele mesmo fez. Vamos até lá agora e...!

— Meninas — uma voz masculina interrompeu Pudding, e todas se viraram para a escada, onde Luffy descia com o celular em mãos. —foi mal, preciso falar com Nami um minuto.

Pegou a namorada pela mão e a puxou para um cantinho, falando em português para que as outras mulheres não entendessem.

— Temos que ir até a casa do Sabo. A vizinha dele me ligou e parece que ele não sai do apartamento há dias. Ela tem medo que ele esteja deixando o Blaze passar fome, porque ele não para de chorar e tá incomodando os vizinhos.

No entanto, Luffy não se lembrava que Robin era poliglota, e entendera tudo o que os dois conversaram. Agora, ali estavam elas, praticamente invadindo o apartamento de Sabo.

— Olha essa sujeira, meu Deus, e... — ela pisou em algo marrom e pegajoso no chão. — Ah, eu espero que isso seja sorvete derretido!

Sabo olhou para todas e massageou as têmporas, incomodado com a barulheira de Nami.

Não estava em seu melhor estado, usando roupas sujas e amassadas, e com olheiras debaixo dos olhos. Não dormia bem e nem se alimentava bem, e nos últimos dias, tudo o que fizera fora ver programas de comédia ruim na televisão.

Robin abriu as cortinas, deixando a luz entrar, o que irritou seus olhos. Não mexia nelas há algum tempo, e se desacostumara com a luminosidade.

— Você está um caco. — Nami declarou, encarando-o com desaprovação. — cadê o Blaze?

Naquele mesmo momento, Pudding chegou com Blaze no colo, usando pijama e com os olhos inchados como alguém que acabou de acordar.

— Tia Nami — ele disse, coçando os olhinhos. — cadê mamãe? Ela veio?

Nami teve que respirar fundo para conter sua tristeza. Analisando bem os dois, dava para perceber que ambos estavam sofrendo. Blaze era só um bebê, não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Já Sabo, por outro lado, não podia se dar ao luxo de se entregar daquela forma.

— Sabo, o que você fez foi...!

E a campainha tocou de novo. Dessa vez, quem entrou foi Kozuki Hiyori.

— Como assim Koala foi embora?! — ela perguntou nervosa, olhando para todos.

E, como se não bastasse, Law resolveu aparecer na mesma.

— É verdade que Koala-ya foi embora?!

Aquele era um momento muito inoportuno para perceber quantos amigos Koala tinha.

Todos começaram a discutir entre si, e aproveitou a oportunidade para dar as costas e deixar todos a sós.

— O que vamos fazer? — Hiyori perguntou. — não podemos deixá-la sumida assim.

— Se bem me lembro, ela disse que é de Gifu — Law pontuou, pensativo. — mas nunca disse qual lugar específico.

— Ela me disse, uma vez, que era de uma aldeia rural... — Pudding se juntou a eles.

— Osakana — Robin revelou. — e assim que se chama.

— Ela quem disse?

— Não, na verdade, eu fiz umas pesquisas particulares e... — Robin pigarreou, mantendo a pose ao disfarçar — isso não é importante no momento. O bom é que sabemos onde ela está. Não é um completo mistério.

Por um instante, Nami considerou pegar o carro e partir atrás de Koala na manhã seguinte, junto com qualquer um que se dispusesse a ir. Mas, conhecendo sua amiga, sabia que o motivo da partida dela não poderia ser algo bobo, e, se ela optara por isso, era porque realmente deveria ir, e uma visita sua não a faria mudar de ideia. Era duro, mas sabia que aqueles eram os fatos.

Pegou Blaze no colo e foi até o quarto de Sabo, entrando sem bater. Anos de intimidade permitiam isso. Ele era o irmão de seu namorado — e futuro marido, embora ninguém soubesse ainda — e o considerava tão seu irmão quanto Nojiko. Por isso, assim como com sua irmã, ela deveria ser franca e direta, como pediam situações assim.

— Levanta daí! — Puxou as cobertas dele. O quarto estava parecendo o polo-norte de tão frio. Pôs Blaze na poltrona, desligou o ar condicionada, abriu as janelas e virou-se para Sabo. — anda! Por que ainda não levantou?

Revirando os olhos, Sabo lentamente se sentou. Seu cabelo desgrenhado tapou seu rosto, mas ele nem se importou.

— Como você entrou aqui?

— Você abriu a porta — respondeu como se fosse óbvio.

— Não aqui no apartamento, aqui no prédio. Não liberei pra você subir.

— Sua vizinha liberou pra mim, ela quem nos chamou. Ficou preocupada com você, e tô vendo que com razão. Me diz, quanto tempo faz que Blaze não pega sol?

Ao ouvir o nome sendo citado, ele parou de brincar com o controle para olhá-los por um instante.

Sabo respirou fundo. Se sentia morto, sem ânimo para nada, muito menos para sair com Blaze. Era um sujeito deplorável, tinha plena consciência disso. Era uma pena que seu sobrinho tivesse que ser criado por alguém como ele.

— Sabo, você não pode ficar aí o resto da vida! Deitado, assistindo televisão, comendo comida de aplicativo! Precisa acordar, cuidar direito do Blaze. Acha mesmo que um bom pai faria isso?

— Eu nunca disse que era um bom pai.

— Bem, você estava sendo. Agora parece que não se importa mais com nada.

— Talvez isso seja verdade.

— Quer dizer que não liga pra ninguém? — apontou para o bebê — nem para ele?

O loiro ficou quieto por uns segundos, encarando o chão. Porém, quando abriu a boca para enfim dizer algo, Nami encontrou-se perplexa.

— Pode levá-lo, se quiser.

No mesmo minuto, ele sentiu a ardência do tapa.

Ele finalmente levantou o olhar, vendo a expressão de raiva e decepção na face de Nami, e se arrependeu imediatamente do que acabara de dizer. Não importava o que estivesse se passando, nunca, jamais, ele abriria mão de Blaze. Isso fora repugnante, até mesmo para alguém como ele.

— Eu...

— Ela te deixou, Sabo, por algum motivo — Nami fungou, segurando as lágrimas, mas ainda com bastante raiva. — fiquei tentando adivinhar o porquê exatamente, e não consegui, mas... Talvez eu esteja começando a entender. Você machuca as pessoas, e quando elas te ferem de volta, você age... Assim. Como se fosse o primeiro machucado. Sério, isso é — ela deu uma risada forçada. — patético, porque não esperava isso de você.

— A Koala nos deixou — ficou de pé, finalmente sentindo a indignação crescer dentro de si. — não só a mim. Deixou nos dois, e não olhou pra trás! Ela me traiu, não me deu nem uma chance para...!

A porta abriu, interrompendo Sabo. Era Luffy, mas sem o seu sorriso costumeiro.

Nami passou a mão pelos cabelos, nervosa demais com aquela conversa.

— Que tal vestir uma roupinha e dar uma volta com a tia? — a ruiva virou-se para Blaze. — podemos ir no parque brincar.

— Bincá eu quero — Blaze aceitou na mesma hora, estendendo os braços para a mulher.

Luffy beijou Nami na testa rapidamente antes que ela passasse, e bagunçou os cabelos do sobrinho.

Ele atravessou o quarto e se sentou de frente para Sabo, na poltrona em que antes Blaze se esparramara.

— Desculpa.

Sabo piscou, sem entender.

— As coisas não andam muito bem e — Luffy coçou a cabeça. — eu não consegui ficar com você em nenhum momento que precisou. Foi mal.

O loiro não soube nem o que dizer.

— O Ace sempre foi o mais sábio do grupo — o irmão continuou — e ele sempre soube o que dizer. Eu sempre fui meio burro, né? Mas em momentos assim, eu queria ser o Ace. Ele era... é, incrível.

— Você não precisa ser o Ace.

— Eu queria, então, pelo menos, saber conversar como ele, porque te convenceria a fazer o que você saber que tem que fazer.

Ficou de pé de imediato.

— Mas ela me deixou — afirmou com veemência.

Luffy ficou quieto por uns segundos, até que também ficou de pé, e se passou pela mente de Sabo como ele havia crescido. Luffy costumava ser bem baixinho e franzino, mas agora estava mais forte e um pouco mais alto. Nem o vira crescer tanto assim.

Como em outros aspectos, ele o surpreendeu ao estender os braços a lhe dar um abraço apertado, daqueles que não davam há anos. Ah, como estava precisando disto...

— Eu sei que tá doendo pra caramba, mas — disse ele, com a voz abafada. — não perca mais ninguém, meu irmão.

Aquelas simples palavras o atingiram em cheio.

— Vai atrás dela.

(...)

Sabo aninhou Blaze em seu colo, olhando a paisagem.

Era bem cedo e o dia ainda estava amanhecendo. Todos os outros passageiros do trem deviam estar dormindo, mas ele se mantinha acordado, e bastante desperto. Não conseguira pregar o olho durante a viagem inteira.

Em algumas horas, se tudo desse certo, estaria ao lado de Koala novamente, e a convenceria a voltar para ele.

— Papai? — Blaze acordou, olhando em volta. — chegamu?

— Ainda não — penteou o cabelo dele com os dedos. — volta a dormir, ainda é cedo.

— Qué vê mamãe.

— Ainda falta um pouco pra chegar.

Ele considerou aquilo.

— Mûtu?

— Hmm... algum tempinho.

— E...E... Eu qué vê logo ela — Blaze se remexeu, ficando de pé em seu colo e olhando a paisagem.

— É... Eu também.

Apoiou o queixo na mão, olhando pela janela, perdido em pensamentos.

Mal podia esperar para vê-la.