Baby Care
22 Mau presságio

"Sei que não é fácil, irmão, mas a morte faz parte da vida. Vamos arrumar um bichinho pra você quando o papai voltar de viagem"
— carta de Sabo para Ace, aos doze anos, quando seu hamster morreu.
Enquanto voltava para casa com Momo no colo, Hiyori não pôde deixar de se sentir sozinha. Deixara Koala e Sabo sozinhos para que ficassem mais à vontade. — quando estava com eles, sem nenhuma outra pessoa por perto, sempre sentia que como se os atrapalhasse.
Naquela noite tão iluminada, sentia como se todos tivessem alguém e ela, ninguém. Seus pais estavam mortos há algum tempo, e cuidar do irmão sozinha não era uma tarefa fácil. Neste sentido, ela se identificava com Sabo, que passava pela mesma situação, mas a diferença era que ele agora tinha alguém: Koala, enquanto ela seguia sozinha.
— Aonde vai?
Olhou para trás, vendo Zoro de braços cruzados. Logo atrás dele estava Robin, usando um yukata lilás e com um sorriso gentil no rosto.
— Vou voltar à casa, ele está com sono — respondeu para os dois.
— Essa hora? Sozinha? — ele perguntou. — você não vai.
Típico de Zoro. Quando eram mais novos, ele costumava dar ordens daquela maneira e isso a deixava cheia de raiva. Mas, refletindo agora, aquela era a forma dele dizer “não gostaria que fosse, é perigoso”.
— Coitada, usando esses sapatos e ainda carregando o bebê — Robin observou seus chinelos de madeira — pode acompanhá-la?
— Hm? Você também vem? — ele se virou para a namorada.
— Em breve eu irei. Tenho que esperar Pudding e Vivi, prometemos que iríamos juntas, e elas querem esperar a queima de fogos terminar.
— Que idiotice, vem comigo também.
Achou que uma discussão se iniciaria ali, mas Robin apenas sorriu, surpreendendo Hiyori ao beijar a bochecha de Zoro. O rapaz ficou vermelho, e cruzou os braços para manter a pose.
— Não se preocupe, Kozuki-san precisa mais de você agora do que eu. Vá com ela.
Ele então bufou, e pegou Momonosuke de seus braços de uma forma delicada que nunca vira antes. Foi um alívio tirá-los de seus braços. Cada vez que seu irmão crescia mais difícil se tornava carregá-lo. Logo não aguentaria mais erguê-lo.
Mas alguém como Zoro, com os braços fortes e musculosos, levantaria com facilidade até ela própria.
— Foi muito gentil da parte dela te pedir pra me acompanhar. Robin-san, quero dizer.
— Ah — ele deu de ombros. — ela é assim. Pensa muito nos outros.
— Uma grande virtude.
— É bom porque ela boa por nós dois, assim eu não preciso ser.
— Mas você não é totalmente ruim — retrucou. — se fosse, não estaria aqui.
— Eu não deixaria mulher nenhuma andar desacompanhada essa hora.
O tom dele era sério, e sabia que ele falava a verdade. Ele podia ser brigão e turrão às vezes, mas Zoro era uma boa pessoa.
Quando o conhecera, Zoro tinha quinze anos, e ela, treze. Havia acabado de entrar no 1º ano do ginasial, e ele era um veterano, já no terceiro ano. Lembrava-se como se fosse ontem; ela com seu uniforme de marinheira preto com um lacinho vermelho, e ele de blazer aberto e rosto sempre machucado. Naquela época, ele andava sempre com Johnny e Yosaku. Como estariam eles? Sentiu vontade de perguntar.
— Sabe — sorriu, sentindo-se nostálgica — apesar de tudo, eu fico feliz por termos tido uma história.
— Que papo é esse? — ele franziu o cenho.
— Você se lembra de quando nos conhecemos? Não? Bem, eu me lembro — eles pararam no sinal, e ela aproveitou para olhar as estrelas — eu tinha acabado de sair da livraria, tinha ido comprar uma revista de moda e... Enfim — balançou a cabeça — eu te encontrei jogado no chão, perto do rio, todo machucado.
Ele se lembrava disso. Naquele dia, tinham vindo vários caras em cima dele, e conseguiu se livrar de todos, mas saíra bem machucado no processo. Tentou chegar até em casa, mas se sentia muito fraco e acabou desmaiando.
— Era verão e chovia muito, você estava bem ferido — fez uma careta só de lembrar — mas minha casa era perto, e eu te levei pra lá com muita dificuldade.
Ele fora tratado por sua mãe, e seu pai lhe emprestara roupas suas porque o uniforme estava imundo. Daria tudo para tê-los de volta. Tinham suas diferenças, mas eles eram seus pais, e os amava muito. Seu pai morrera salvando um amigo de um assalto e sua mãe se fora um mês depois de dar à luz a Momonosuke. Ela já estava depressiva com a morte de Oden e a depressão pós-parto piorara tudo. Toki apenas se entregara, sem ter força para viver pelos filhos.
Foi mandada para viver com os parentes, velhos retrógrados e conservadores, que a proibiram de trabalhar como modelo. Hiyori costumava pensar que se ainda estivesse com Zoro, tudo seria mais fácil. Secretamente, costumava se lembrar com carinho do tempo que passaram juntos, indo em eventos da família de D. Mas esses eram os momentos bons. A maioria deles fora preenchido por brigas dos dois, a maior parte causadas por ciúme doentio de sua parte.
Mas então ele se formou, entrou para o kendô, eles terminaram e seguiram suas vidas.
— Eu senti sua falta — disse repentinamente.
O sinal indicava que já podiam atravessar, mas os dois permaneceram parados, olhando para frente.
— Quando eu saí de casa pra viver por conta própria, cuidando sozinha do Momo — engoliu o bolo que se formava em sua garganta. — eu senti sua falta. Eu senti esse tempo todo.
— Está tarde.
Por um minuto, ela achou que ele falava da hora, mas ao observar bem seus olhos ónix, entendeu o que ele quis dizer.
— Você a ama, não é? — forçou um sorriso.
Zoro nunca gostou de demonstrar sentimentos e, por isso, ela achava que ele não a amava, e desconfiava de toda e qualquer garota com quem ele se relacionava.
Agora, pelo jeito, ele achara alguém que o entendia como ele era.
— Uhum — ele aquiesceu, finalmente respondendo sua pergunta.
Pôs um sorriso sapeca no rosto, deixando de lado a melancolia.
— Como a conheceu?
— Isso é um pouco demais.
— Ah, vai, me diz!
Corado, ele bufou.
— Na livraria.
— E o que mais? Quero saber de mais detalhes!
Pelo resto do caminho, ela foi perguntando sobre ele e Robin, acabando completamente com o clima estranho entre os dois que permanecera durante toda a viagem. Era uma pena que fossem embora no dia seguinte, senão teria aproveitado melhor, sem se estressar com aquilo.
— E então? — Koala perguntou bem cedo, quando arrumaram os bebês na cadeirinha, ainda sonolentos, para irem embora. — gostou do passeio?
— Não poderia ter sido melhor — respondeu gentilmente — obrigada mesmo por ter me convidado.
— Não precisa agradecer, foi ótimo, os meninos se divertiram muito.
Olhou-os com o carinho através do vidro. Sabo dava a última revistada na casa, para se certificar de que não esqueceram nada, e trancar tudo. Por isso, esperavam de pé do lado de fora.
— Blaze é um menino de sorte — sorriu. — Bonney-san ficaria muito feliz se visse como cuida bem dele. É como se fosse seu próprio filho.
O comentário chamou atenção de Koala.
— Conheceu a mãe do Blaze?
— É claro. Ela era briguenta, bebia, fumava... — respirou fundo. — Zoro e ela se topavam alguma vezes, por causa das relações entre os yankiis. Uma vez, ela levou uma facada aqui — apontou para a própria panturrilha. — e ele a salvou de uma coisa pior. Bonney-san se negou a ser levada pro hospital, e ele teve que levar ela obrigada à casa de Trafalgar-san. — em seguida, acrescentou: — ela teve muita sorte, Tral-san a ajudou muito, sabe?
— Eu sei — assentiu, pensativa. — Sabo-kun comentou isso comigo, um tempo atrás.
— Ah, que bom — Hiyori respirou mais tranquila. — fiquei um pouco preocupada de estar fazendo fofoca. Sabo-san foi muito gentil comigo aqui, e todos que o conhecem sabem que ele detesta que falem de sua família, principalmente dos pais do Blaze.
Pelo resto da viagem, Koala refletiu sobre como fazia sentido que todos que a cercavam — que sem exceção, já conheciam Sabo — não entrassem em detalhes quando o assunto era os D, até mesmo suas amigas mais próximas. Claro que elas diriam tudo se pedisse, mas sentia que trairia Sabo se procurasse saber detalhes da vida dele por meio de outras pessoas e não ele próprio.
Por hora, era melhor deixar esse assunto quieto. A noite anterior com Sabo já fora um grande avanço. Era notável como falar naquele assunto era difícil para ele, mas ele enfim conseguira se abrir com ela.
Remexeu as pernas, sentindo-se dolorida. Fora uma noite memorável em vários sentidos. Nami lhe adiantara algum tempo antes que na primeira vez provavelmente sentiria um desconforto depois, nada que fosse insuportável.
Mas estava tudo bem. Agora, namorando com Sabo e entregando-se a ele da forma mais íntima possível, sentia-se mais mulher. Tinha apenas dezenove anos, muito a aprender, mas... Era complicado de explicar. O clima estava diferente, tudo estava diferente, principalmente porque ela estava diferente.
(...)
Dias após chegarem, Koala sentia uma inquietação.
Não conseguia ficar parada. Seu coração estava disparado, e se encontrava ansiosa sem motivo algum. Naquele dia em específico, sequer conseguira pregar o olho. Nada resolveu, nenhum chá, contar carneiros, nada. Quando o dia raiou, fez uma faxina geral na casa, mesmo sem ser extremamente necessário, e organizou todos os alimentos da dispensa. Além disso, limpou a banheira esfregando bem e testou sua mistura para limpar os vidros das janelas.
— Koala, não precisa se matar de trabalhar — Sabo repetiu pela milésima vez, quando ela batia nos futons estendidos na varanda. — são férias de verão, você deveria relaxar.
— Eu sei, mas eu gosto de trabalhar — apesar disso, ela parou o que estava fazendo. — além do mais, eu sou sua empregada.
Ele sentou-se no sofá, e a puxou Koala para seu colo.
— É mesmo? — ele abriu um sorriso malicioso. — então seu patrão aqui tem uma tarefa bem especial para você.
— Sabo-kun... — ela corou quando a mão dele pousou em sua cintura. — você é muito depravado.
— Oh, não, estou abusando dos meus poderes, então? — isso só serviu para empolgá-lo mais ainda. — quer dizer que não gosta?
Ora, não era bem assim. Ela gostava, mas era vergonhoso admitir.
Ele passou os braços em volta dela, segurando-a forte.
— Não vai sair até confessar que é tão devassa quanto eu.
Como ele era terrível! Ela riu, revirando os olhos, e usou sua arma secreta: deu uma cutucada em sua costela e ele logo a largou, remexendo-se todo. Há algum tempo descobrira que ele sentia cócegas ali, igual seu irmão Shin. Uma vez ela fizera isso sem querer, por impulso em uma brincadeira entre os dois e Blaze, e ele reagira dessa forma, para o prazer dela.
— Ponto fraco não vale! — ele argumentou, jogado no sofá.
— Qualquer coisa vale, olha o seu tamanho pro meu.
Blaze apareceu na sala, e correu até eles, jogando-se na barriga de Sabo. Ele estava tirando seu cochilo da tarde, então devia ter acordado pelo barulho dos dois.
— Você acordou, garotão — Sabo o levantou no alto. — que tal sairmos pra tomar picolé?
— Toié! — Blaze abriu um sorriso, mostrando seus minúsculos dentes. — toié chocoati.
Os dois se viraram para Koala com um olhar pidão, pedindo a aprovação dela para a saída. O dia estava quente e não restava muito para fazer em casa, então assentiu, se rendendo.
Gostava de passear com os dois. Blaze se entediava quando permanecia muito tempo em casa, e isso causava alguns episódios de birras. Quando saíam ele se mostrava mais feliz, além de serem boas memórias, é claro. Adorava tirar fotos dele com seu celular.
— Olha como ele ficou fofo nessa — mostrou uma a Sabo, quando se sentaram em frente ao parque. — own, essa aqui também está linda.
— Está mesmo — ele pensou naquilo por um minuto. — acho que vou comprar uma câmera.
— Pra que?
— Tirar fotos mais profissionais, com alta qualidade. Essa é uma fase muito importante da vida do Blaze — ele o observou brincando na caixa de areia, enfiando o palito do picolé dentro do monte de fazia — quando ele crescer, quero que saiba que procuramos captar todos esses instantes da melhor forma possível.
— Tenho certeza de que ele saberá — deu um sorriso confortável à Sabo, olhando para o namorado. — é o pai dele, afinal.
— Tio — lembrou.
— Você é e sempre será o pai dele, e sei que Blaze vai valorizar isso. Relações sanguíneas não são o mais importante em uma família, jamais.
— Tem razão — beijou sua mão — você e ele são a minha família.
Ela o analisou por uns segundos e sorriu, orgulhosa.
Sabo ia dizer alguma coisa, quando seu celular tocou. Antes, ele estava de ótimo humor, mas quando viu quem chamada, automaticamente sua expressão se tornou mais sóbria.
— Com licença, coração. Preciso atender.
Ele se afastou dela e ficou uns minutos falando ao celular.
“Agora?” ela o ouviu falar. “Emergência” também conseguiu entender.
Adiantou-se e tirou Blaze da caixa de areia, colocando-o em seu colo. Ao desligar, Sabo foi até ela com uma expressão enigmática.
— Quem era? — perguntou preocupada.
— O secretário do meu pai. Aconteceu alguma coisa e eu preciso ir pra lá agora — explicou guardando o celular no bolso. — podem ir pra casa sem mim.
— Não vou pra casa.
Sabo não esperava essa reação dela.
— Se aconteceu alguma coisa, eu vou com você. Não vai me relegar a uma babá numa hora dessas.
Ele pensou naquilo por um tempo, estudando prós e contras em sua própria cabeça. No fim, ele estalou a língua, sentindo que se arrependeria daquilo, mas falou:
— Certo, venha comigo então. Mas prepare-se, porque sinto que a coisa não vai ser nada bonita.
(...)
— Irresponsável! Inconsequente! Desajuizado!
Os gritos de Emporio Ivankov eram tão altos que Sabo tinha certeza de que podiam ser ouvidos em qualquer cômodo daquela enorme propriedade.
— Estou tentando entrar em contato com você há uma semana! O que aconteceu com seu celular?
Passou a mão pelos cabelos. Estava de pé no vestíbulo, e já começara a sessão de discussão por parte de Ivankov, um grande amigo de Dragon e a pessoa que Sabo considerava como um tio. O problema era que isso dava liberdade a ele para tratá-lo como bem entendia, principalmente como um adolescente.
— Iva-chan — chamou-o pelo apelido. — esta aqui é a Koala.
Koala percebeu que a famosa Iva-chan era bem diferente do que imaginava. Sendo uma pessoa próxima do pai de Sabo, imaginou alguém mais sério, mas a pessoa em sua frente definitivamente não era. Ele — ou ela — usava roupas chamativas e maquiagem pesada, tudo tão colorido que contrastava com seu humor.
Ao notar a moça atrás de si, a raiva de Ivankov foi aplacada um pouco. Ele tossiu e cumprimentou a menina.
— É um prazer. Sou Emporio Ivankov, obrigada por cuidar de Sabo.
Tímida diante de uma casa tão pomposa, Koala sorriu e se curvou, murmurando uma resposta educada.
— O que aconteceu? — voltou-se para Iva-chan.
— Venha comigo, garoto. Tem que ver por conta própria.
(...)
Ivankov não costumava ser assim, e isso começou a preocupar Sabo. Quando seguiu pelos corredores de seu lar da infância e entrou no quarto principal, seu pressentimento ruim se tornou uma certeza.
— Dragon-san.
Mesmo preocupado, lembrou-se de se curvar diante dele. Dragon estava sentado na cama, de pijama, no meio do dia. Isso definitivamente não era normal, e se aproximou dele.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
Dragon olhou para ele, e depois para Koala, que entrou no quarto com Blaze no colo.
— Olá para vocês dois — Dragon não sorriu, mas seus olhos transpareciam a felicidade em vê-los. — como vão?
— Estamos bem, senhor — Koala deu um sorriso fraco.
Sabo continuou esperando que ele falasse, angustiado.
— Sabo, o chamei aqui por um motivo que venho reforçando a meses, e que continua a evitar.
O loiro estalou a língua, desacreditado.
— Me chamou aqui pra isso? Está falando sério?
— Sabo, veja como fala com seu pai — Ivankov bronqueou.
— Posso ver que alguma coisa aconteceu, ou não estaria aqui deitado — ele chegou mais perto de Dragon, ignorando a reprimenda. — passou mal hoje? Foi ao hospital?
— Ele não está bem.
Olhou para um canto do quarto e viu Law, arrumando suas coisas em uma mala. Não o havia reparado ali, principalmente porque aquele D. em específico tinha um talento natural em se manter silencioso.
— Como assim, Law?
— Não cabe a mim dizer — ele respondeu tranquilo, passando por ele, então se virou para os dois adultos — sigam minhas instruções. Voltarei em breve para vê-lo.
— Law-san... — Koala murmurou quando ele passou por ela, acenando com a cabeça.
Se Law estava ali, então realmente ele...
— Desde que se tornou meu filho, Sabo, tive a certeza de que se tornaria meu herdeiro, porque passou a se tornar meu filho mais velho. Apesar de não termos laços sanguíneos, somos parecidos em muitos aspectos...
O rosto de Dragon se retorceu de dor e ele pôs as mãos na cabeça.
— O-O que está sentindo? — Sabo arregalou os olhos.
O homem fez um gesto com a mão para que ele não ligasse.
— Sei que tenta fugir disso há bastante tempo, mas se tornou urgente que volte a trabalhar comigo para que tome o meu lugar no futuro.
— Fale a verdade — trincou seu maxilar, e sua voz era grave e trêmula. — o que está havendo?
— Seu pai está doente.
Ele — e Koala, que acompanhava tudo — olharam para Ivankov.
— Não pode esconder dele pra sempre — o homem de cabelo roxo falava com Dragon — ele precisa saber.
— Doente de que?
— Há algum tempo descobri que tenho um tumor cerebral... — Dragon parecia cansado, e piscava para ele como se não conseguisse vê-lo direito. — e não sei ao certo se me resta um amanhã.
(...)
Aos dez anos, Sabo descobriu o que era ser amado.
Ele saíra do hospital, e então se mudara para a enorme mansão que, até então, era apenas a casa de seu melhor amigo. Mas para um menino de dez anos, tão desconfiado, foi difícil se adaptar. Como assim ele podia comer coisas gostosas? Ir à escola? Falar com outras crianças? E por que suas infrações não eram corrigidas com violência?
Tudo isso era porque Monkey D. Dragon queria que ele vivesse assim.
Dragon, o homem que passou a chamá-lo de filho, trouxe então seu verdadeiro filho para morar com os três: um menino travesso chamado Luffy, que não sabia falar nada de sua língua. Quando o menino enfim começou a falar, achou que ele o rechaçaria por tomar seu lugar, mas no fim o garoto de sete anos também o amou como um irmão.
Mas ainda assim, Sabo não entendia porque Dragon o quisera quando já tinha um filho. Ele os levava para pescar, para passeios na Disney e férias no Havaí. Colocou-os na Academia Gold Roger, incentivou todos os seus hobbies e interesses, tudo o que um bom pai faria. Era o paraíso. Por pelo menos cinco anos, Sabo aprendeu a amar e ser amado.
Até que seu pai começou a se tornar cada vez mais ocupado. Não jantava mais com eles, não viajavam mais juntos e, quando percebeu, simplesmente não o via mais. Ace estava ocupado atrás de Bonney e Luffy ocupado com sua banda, e Sabo...
Comia sozinho, como antigamente.
— Eu... — mesmo com tantas coisas se passando por sua mente, tentava formular uma resposta. — não vou ser seu herdeiro.
— Não estou pedindo — Dragon respirou fundo. — vai voltar à R.A Company.
— Não vou. Peça ao Luffy.
— Por favor, Sabo, sabe muito bem que Mugi-boy não tem nem um pingo do talento que você têm para dirigir uma empresa — Ivankov interveio. — seu pai precisa de você e está na hora de ser um adulto responsável.
— Não vou fazer isso.
Olhava para Dragon com intensidade, respirando como um touro zangado.
— Conversei com Luffy mais cedo. Ele sabe que não é meu herdeiro. — disse Dragon.
— Não vou fazer isso!
— Sabo, se insistir nisso, iremos cancelar todos os seus cartões! — Ivankov ameaçou.
— Já disse que não vou fazer isso!
Seu tom foi tão alto e violento que todos ficaram quietos, até Blaze, que costumava chorar em situações assim. Olhou para ele, aprumado no colo de Koala, e deu um passo na direção dele. Porém, quando fez isso, ele soluçou, começando a chorar.
Por Deus, ele... Estava com medo dele.
— Koala, vá lá para fora com Blaze.
Koala demorou um pouco para assimilar o pedido e, muito contrariada, acatou ao pedido do loiro.
Um pouco mais calmo, voltou-se para ele.
— Você nem lembrava mais que eu existia depois que começou a dar sua vida a essa empresa. Tudo o que importava era dinheiro e essas pessoas que me odiavam por não ser um D de verdade.
— Sabo...
— Acha mesmo que vou aceitar me tornar você? Uma pessoa que não vê o próprio filho? Você... — passou a mão pelo cabelo. — ao menos sabe quem eu sou? Qual é a minha comida favorita? Qual a minha cor favorita?
— Hamburguer e verme...
— Não! Está errado! Esse era o eu de anos atrás e você nem consegue perceber isso. O tempo passou, e você parou de se importar comigo. Só consegui ser ouvido por você quando fiz aquele estágio idiota na empresa e você disse só um “fez bem, garoto” e nunca mais te vi! Por isso desde então esqueci esse assunto, porque simplesmente não importa mais.
Importava, e muito, mas não iria admitir. Porque estava irritado, porque estava angustiado, preocupado e magoado. Mas, acima de tudo, estava triste, e não queria chorar. Não na frente dele.
— Filho... — Dragon sussurrou. — você nunca me disse que se sentia assim.
— Eu odeio essa companhia, e serei odiado por todos se assumir a presidência. — virou-se de costas. — tenho coisas mais importantes agora. Um filho, uma namorada... Eles são tudo para mim agora.
Saiu em passos fortes da sala, procurando Koala pelos corredores. Quando se virou para trás, viu Ivankov andando rápido atrás de si.
— Ora, quer fazer o favor de...!
O Emporio lhe desferiu um tapa no rosto.
— Faça você o favor de me ouvir. Seu pai quer consertar a relação de vocês e não é sendo um garoto mimado que vai conseguir reconstruir o que tinham. Agora, ou você fica aqui, no mínimo esta noite, para entender melhor sobre o tumor do seu pai, ou nós dois teremos um grande problema, Monkey D. Sabo. Estamos entendidos?
Como não respondeu, Ivan entendeu como um consentimento.
— Sua mocinha está na ala oeste, no seu antigo quarto.
(...)
Koala estava sentada na cama, analisando o antigo quarto de Sabo. Tinha as paredes e outros detalhes em preto e azul e, comparando com o apartamento, percebeu que realmente aquelas eram suas cores preferidas.
Parecia esquisito que estivesse pensando nas cores das paredes quando estava tão abalada. Dragon não era seu pai, mas até ela sentiu um aperto no peito quando soube da notícia. Era por isso que se sentia estranha o dia todo, com uma sensação esquisita, um pressentimento ruim.
— Sabo-kun! — levantou-se de uma vez e o abraçou quando ele entrou no quarto. — sinto muito pelo seu pai.
— Koala... — Sabo respirou fundo, transparecendo cansaço. Ele colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. — sinto muito que tenha me visto daquele jeito.
— Está tudo bem, eu sei que só estava nervoso — ela deu um sorriso, compreensiva. — seu pai não vai deixar de te amar por isso. Ele vai se orgulhar quando começar a ajudá-lo.
Sabo a olhou com estranheza.
— Como assim?
— Como assim? — ela repetiu. — você vai ajudá-lo, não? Ele precisa de você.
— Acho que me ouviu dizer que não faria aquilo.
O sorriso dela sumiu e se desvencilhou dele.
— Não pode fazer isso, Sabo-kun. Ele é seu pai e ele está morren...
Ela engoliu as palavras e olhou para Blaze, que brincava distraído com um brinquedo.
— Ele pode morrer e te pediu ajuda, porque ele te ama. Porque ele confia em você.
— Eu odeio a R.A Company, não vou me juntar a eles.
— Nem pelo seu próprio pai?
Koala observou Sabo por alguns segundos, estranhando as palavras dele. Como ele podia odiar a empresa de seu pai quando tinha todos os equipamentos eletrônicos da mesma? Ele até mesmo fazia propaganda para ela sem perceber, e sempre demonstrou muito domínio de tudo o que dizia. Podia não entender do assunto, mas atestaria para qualquer um que Sabo tinha sim um talento nato para essa área.
Ele estava irritadiço e sua mente lhe disse para esquecer aquilo por hora e conversar sobre o assunto num outro momento, mas seu coração ganhou. Não poderia simplesmente abandonar o que acreditava.
— Você está sendo egoísta — acusou-o, vendo uma leve surpresa passar pelos olhos dele. — depois de tudo o que me disse, o que seu pai fez por você...
— Isso é um assunto de família, não tem nada a ver com você!
Ela se calou, e ele percebeu que a feriu.
O que estava fazendo? Pensou, arrependendo-se na mesma hora. Não estava bravo com Koala, estava bravo consigo mesmo, com toda aquela situação.
— Bem, eu... — ela engoliu o seco, franzindo um pouco os lábios. Notou que ela segurava as lágrimas — me considerava da sua família, até agora.
Ele estava sendo egoísta e insensível, de uma forma totalmente diferente do que conhecia. Esse era o mesmo Sabo que a ajudara num momento difícil? Que dizia que ela era sua família, que dizia que a...
Naquele instante, um pensamento se passou pela mente de Koala. Algo que vinha ignorando desde o primeiro instante em que ela lhe disse que o amava, e que ele a aceitou de braços abertos.
— Sabo-kun, você... — ela olhou para o chão, inicialmente incapaz de encará-lo, mas então reuniu coragem e olhou-o bem nos olhos. — por acaso me ama?
Aquilo claramente o pegou desprevenido.
— Eu sou seu namorado. — ele enfim falou.
— Isso não responde minha pergunta.
Ele continuou quieto, e isso foi a resposta que ela precisava.
Se Sabo não podia amar a própria família, aquela que o quis de verdade e que cuidou dele, como poderia amar Koala?
E ela? Podia amar alguém que não a amava?
— Acho que seria bom se dormisse aqui esta noite — pegou sua bolsa e a passou por cima do ombro. — pra resolver o que vai fazer e para Dragon-san ficar com Blaze um pouco.
O pequeno já piscava de sono àquela altura.
— Até mais.
E ela saiu.
Ele ficou ali, parado, por uns bons minutos, tentando não ficar aliviado por ela dizer “até mais” e não “adeus” porque sabia que, se ela dissesse isso, é porque não tinha mais a intenção de vê-lo.
(...)
Ao abrir a porta do apartamento e observar como ele parecia maior e mais vazio sem Sabo e Blaze, Koala sentiu vontade de chorar. Não costumava ser uma chorona pois, como era a irmã mais velha, sempre se considerava uma espécie de mártir. Mas desde que se mudara para Tóquio, tantas coisas haviam acontecido e mudado em sua vida, que ser piegas era um pequeno preço a se pagar.
Levou um susto ao pisar em um brinquedo barulhento de Blaze. Seu menino ficaria bem dormindo uma noite longe dela novamente?
E Sabo? O que estaria pensando dela naquele momento?
Foi então que seu celular tocou, e seu ânimo voltou. Só podia ser ele! Era óbvio. Sabo devia ter se arrependido e agora estava ligando para se desculpar e dizer que a amava, e que queria que ela retornasse.
Ficou decepcionada ao pegar o celular na bolsa e ver que não era ele. Estranhou o número desconhecido como chamador.
— Alô?
— Mana?
Suas pernas ficaram bambas ao reconhecer a voz, e precisou se sentar.
— Shin? — quase gritou. — Meu Deus, Shin, vocês finalmente ligaram, por que vocês...
— Mana — ele a cortou, a voz trêmula e urgente. — precisa vir para casa.
— Ir para casa? Mas por que?
— Porque o papai morreu.
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