Baby Care

29 Folhas de outono


"Até ver a Bonney e você juntos, não achava que relacionamentos podiam ser assim, tão complicados. Essa já é a milésima vez que vocês se desentendem. Agora que estamos no meio do outono e o festival se aproxima, por que não faz uma apresentação a homenageando, para pedir desculpas? Não sei, acho que mulheres gostam dessas coisas."

— de Sabo para Ace, quando tinham dezoito anos.

As semanas se passaram voando, e antes mesmo que Koala pudesse perceber, o clima começou a ficar esfriar e as crianças começaram a usar o uniforme de inverno. Elas haviam ficado bem bonitas nele, que consistia em um vestido azul-acinzentado, com uma camisa branca por dentro, um laço vermelho no pescoço e meias três quartos. Os meninos tinham que usar a mesma camisa, porém com shorts e suspensórios. O blazer do uniforme devia ser usado apenas no inverno, e o chapéu era obrigatório só para as meninas, e devia ser usado a caminho da escola. Todos os dias, os cinco mas novos desciam a rua e esperavam a fila de crianças passar para se juntar a eles na caminhada até a escola.

Koala preocupou-se atoa. Mesmo entrando atrasados — as aulas haviam começado dias antes — eles conseguiram fazer amizades, cada um da sua forma. Até Marion, o mais tímido, conseguiu um amigo. Rock se deu muito bem no clube de robótica, e Tora planejava entrar no clube de literatura no ano que vem, quando estivesse no quarto ano. Shin, já no ginasial, entrou no time de futebol, e treinava muito todos os dias para melhorar sua condição física.

Mas eles não foram os únicos que voltaram às aulas. Blaze voltou a frequentar a creche, e não podia estar mais empolgado. Todos os dias, quando chegava, ele corria até seus dois amigos preferidos — Tama e Momo — e não ficava receoso em se separar de Koala, como fazia no início. Ficou orgulhosa, vendo como ele estava crescendo.

— Com quantos anos ele está? — Hiyori perguntou enquanto conversavam na entrada da creche.

— Dois anos e nove meses. Quase dez.

— Como o tempo passa rápido. Me lembro dele no início da primavera, choramingando no seu colo, no de Sabo-san... — Hiyori olhou em volta de repente. — ele veio com você hoje?

— Não — sorriu amarelo — Sabo-kun anda um pouco mais ocupado desde que voltamos.

Todas as manhãs, Sabo acordava mais cedo do que ela, tomava um banho, fazia algum trabalho da faculdade, e às vezes — muito raramente, pois estava sempre com pressa — tomavam café juntos. Quando não estava na universidade, ele estava na empresa, e normalmente chegava tarde da noite. Em algumas ocasiões, quando ele estava realmente ocupado, passava o dia inteiro sem vê-lo.

Koala não queria dizer nada, mas...

Era solitário.

— Que carinha é essa?

Koala terminou de mastigar. Estava almoçando na cafeteria, apenas ela e Pudding. As outras meninas tinham aula aquela hora.

— Não é nada.

— Poxa, pode se abrir comigo — Pudding incentivou. — já somos amigas há bastante tempo, Koala.

Hesitou um pouco, mas Pudding vinha se aproximando tanto dela nos últimos tempos que sentia que formaram um laço de amizade bastante forte. Por isso, resolveu falar.

— Eu estou me sentindo dividida. Por um lado, eu fico muito feliz e orgulhosa que Sabo-kun tenha resolvido acatar o pedido do pai para substituí-lo, mas por outro, não havia pensado que isso tomaria o tempo dele quase todo. — apoiou o queixo na mão, com o olhar perdido. — acho que estou sendo muito egoísta.

— Hmmm... Não sei — a amiga fez uma careta. — é complicado. Sabe, além do Sabo, acho que o pai dele não confia em mais ninguém para ficar no lugar dele. Mas eu também sei como uma responsabilidade dessa pesa — Pudding fez uma pausa para comer — minha mãe queria que eu fizesse o mesmo, felizmente eu fiz ela compreender. Ela tem estado mais compreensiva desde que adoeceu e... Bem, enfim, voltando ao Sabo... É, amiga, não vejo outra solução que não seja você conversar diretamente com ele sobre isso. Talvez, se você disser isso pra ele, ele consiga arrumar um tempinho a mais pra ficar com você.

O que Pudding não entendia era que Koala não queria parecer egocêntrica. Se dissesse isso a ele, estaria pondo sobre seus ombros mais uma responsabilidade. Ao menos por um tempo, as coisas seriam daquele jeito mesmo, e só lhe restava aceitar.

— É — concordou com a amiga, apenas para esquecer aquele assunto. — vou fazer isso, sim.

(...)

— ...eu perguntei onde tava o corno do namorado dela — Kid dizia para Sabo — e ela disse que largou ele, porque ele era brocha e não tinha um puto no bolso pra pagar um jantar.

Sabo respirou fundo, terminando de fazer anotações da aula no computador. Assim que terminasse, teria que ir correndo até a empresa para resolver a questão dos adeptos americanos, além de uma reunião com o pessoal do departamento de criação. Se digitasse mais rápido e com mais atenção terminaria mais cedo, mas com Kid sentado ao seu lado falando sobre alguma “peguete” era quase impossível.

— Kid, você não tem ensaio da banda, não? — perguntou com a maior quantidade de paciência que tinha.

— Hoje não, não tô no clima — ele esticou-se preguiçosamente. — Ah, queria saber se tem alguma novidade.

— Novidade do que?

— Ué — Kid bufou como se fosse óbvio. — da Bonney, né! Os detetives acharam algum vestígio dela?

— Não, eu... — Sabo massageou as têmporas — eu não sei. Não tive muito tempo pra cuidar disso nas últimas semanas, e se não me ligaram, não teve nenhum avanço significativo.

— Me surpreende logo a Bonney abandonar tudo e ir embora. Quando ela andava com aquela gangue, dizia com todas as letras para onde iria, em alto e bom som, e quem se doesse que se resolvesse com ela.

Sabo não entendia muito bem o motivo de Kid gostar tanto de conversar com ele. Não que tivesse algo contra Kid, mas os dois não tinham quase nada em comum, a não ser o fato de terem Bonney e Luffy como pessoas conhecidas em comum.

— Saquei. — o ruivo pensou por algum tempo. — Aí, cara... Eu vou começar a pagar minha dívida, tá?

Ele então lembrou-se do motivo. Ele havia emprestado dinheiro a Kid! Não fora uma quantia desprezível, mas não era nada que afetasse muito seu estilo de vida. Não era muito chegado em Kid na época. Eram adolescentes e o Eustass vivia dando dores de cabeça para a direção da escola e para o conselho estudantil. Mas quando descobrira que Kid estava devendo para uns caras realmente da pesada, e que inclusive, estava jurado de morte se não pagasse a dívida, teve de ajudar.

— Não precisa se preocupar com isso.

— Preciso sim, dívida é dívida.

— Pra mim, apenas por você ter acabado com aquela gangue de yankis, foi o suficiente.

Kid ficou um tempo olhando pela janela, sério e pensativo. Ele normalmente não agia assim. Estava sempre irônico e explosivo, então não pôde deixar de sentir curiosidade.

— Sei lá, D, às vezes... — ele franziu o cenho. — você não sente que deixou algo importante passar? Tipo, algo que tava na sua cara o tempo todo — Kid virou-se para ele. — mas que não reparou?

Se sentia assim antigamente. Quando era só ele e Blaze, Sabo dedicava a maior parte de seu tempo para pensamentos exatamente como aqueles. Sobre acontecimentos do passado, do presente, e sobre como seria o futuro. Porém, o surgimento de Koala criara um verdadeiro vendaval em sua vida, de uma forma que pensar daquele jeito, agora, parecia esquisito.

— Eu pensava — admitiu, guardando o laptop na mochila. Levantou-se da carteira e a pôs nas costas, olhando para Kid. — mas depois parei.

— Por que?

— Porque às vezes é melhor deixar o passado... No passado.

(...)

Como de praxe do outono, as árvores coloriam as ruas com seu laranja forte e as folhas cainda, tornando a paisagem da cidade ainda mais bela e apaixonante. Aquele dia, especificamente, Koala estava feliz por caminhar com Blaze. Os dois, sozinhos, chegaram rapidamente à Academia Gold Roger para o festival cultural, onde os alunos do ginasial e do ensino médio se esforçavam em seus eventos de clubes e de classes. A classe de Shin também havia preparado algo, e fora até lá por ele.

— Ó mamãe — Blaze apontou para alguém. — um usho!

— Ah, é verdade. — riu com graça — acho que vamos ver muitas pessoas engraçadas hoje.

As crianças até queriam ir junto com ela, mas preferiu deixá-las em casa. Sabia que teriam certa dificuldade para acompanhar os colegas, mas assustou-se com algumas notas quando elas enfim chegaram. A única que tinha as notas todas azuis era Tora, mas esta preferiu não vir sem os outros. Agora, estavam estudando com Inazuma os auxiliando.

Olhou para o celular, e estranhou não ver nenhuma mensagem de Sabo. Eles haviam marcado de se encontrar ali. Mas, bem, estava adiantada alguns minutos e, com tantas pessoas indo até ali, talvez ele estivesse preso no trânsito. Tirou uma selfie com Blaze e mandou para ele, avisando que já haviam chegado.

— Koala!

A própria girou o corpo, procurando a voz feminina. Vindo em passos largos até ela, viu Rebecca, com um sorriso estampado no rosto.

— Há quanto tempo! Não sabia que você viria — disse ela. — por onde esteve? Nunca mais tive notícias suas.

— Muitas coisas aconteceram, mas os detalhes não importam agora — deu um sorriso amarelo — eu vim por causa do meu irmão, ele se transferiu para cá recentemente.

— Seu irmão? De que turma ele é?

— Do primeiro do ginasial.

— Ah, então não devo conhecer. O ginasial e o colegial têm blocos diferentes, sem falar que se tratando de um novato ainda por cima...

Rebecca foi interrompida pela chegada de outro jovem, com um traje de príncipe bem elaborado. Até ali não reparara, mas Rebecca também usava uma fantasia de princesa, de tom laranja.

— Por onde andou? Olhei pro lado e você tinha sumido. — o garoto reclamou para ela, cruzando os braços.

— Desculpa, mas sua legião de fãs me jogou pra fora da roda que formaram em volta de você — a rosada ironizou.

Koala observou a interação dos dois jovens com graça.

— Ah, me desculpe — Rebecca corou. — este é Cavendish, meu namorado, e esta — a rosada se virou para o loiro. — é minha amiga, Koala. Aquela que trabalhou um tempo comigo no restaurante familiar, lembra?

— Encantado. — ele se aproximou e beijou a parte de cima de sua mão.

Tinha que admitir que jamais vira alguém tão parecido com um príncipe como ele. Cavendish tinha os cabelos longos e loiros, que apresentavam ondulações perfeitas, além de uma pele brilhante branca como a neve. Seus olhos eram de um azul profundo, e, embora fosse musculoso, não era nada exagerado, tendo uma certa magreza que passava a imagem de um homem mais delicado.

Era, definitivamente, um menino muito lindo. Rebecca tirara a sorte grande.

— Não pode beijar mamãe! — Blaze fez um bico enciumado, cruzando os braços.

Os dois riram da ação do pequeno.

— Blaze! — censurou-o, envergonhada. — Cavendish-kun só está sendo educado.

Blaze pareceu não se convencer muito daquilo, pois abraçou suas pernas num ato possessivo.

— Estamos no nosso horário livre agora — Rebecca comentou. — por que não vem conosco? Podemos mostrar a escola. É muito grande, pode acabar se perdendo.

Pensou um pouco, e olhou novamente o celular. A mensagem havia chegado para Sabo, mas ele sequer olhou. Provavelmente estava dirigindo. Bem, não faria mal dar uma transitada antes, com os dois. Quando seu namorado chegasse, ele ligaria para ela avisando.

(...)

Com Blaze no colo para que ele não se separasse dela, Koala passou por algumas classes, e sentiu uma certa nostalgia. Era claro que o festival cultural de sua escola não era nada comparado com a grandiosidade daquela academia, mas tinha que admitir que às vezes tinha vontade de voltar a ser adolescente. Olhando o casal apaixonado que andava em sua frente, trocando olhares misteriosos, perguntou-se como seria se tivesse conhecido Sabo no colégio.

— Shin! — Blaze gritou, interrompendo seus pensamentos.

Enfim acharam a classe de Shin, que fazia um café maid. As meninas estavam uma fofura vestidas com as roupas de empregada, e Shin usava uma roupa de garçom.

— Como está lindo — elogiou o irmão. — tão bem arrumado... As menininhas daqui devem ficar gamadas em você, hein?

— Mana! — Shin corou da cabeça aos pés. Nem notara que as meninas da turma ouviram tudo.

Os quatro pediram chá com bolo de chocolate, e o combo veio acompanhado de um “feitiço do amor” feito pelas maids.

Agradeceu a Deus por Sabo não ter nenhum fetiche estranho. Ele poderia ter pedido que ela usasse uma roupa como aquela quando a contratou. Pensando nele, olhou o celular novamente, verificando se havia alguma mensagem. Nada. Onde ele estava? Estava atrasado! Haviam marcado há uma hora.

— Tem mais algum lugar específico que queira ir? — sua amiga perguntou.

Lembrou que Sabo já fora o vice-presidente da escola anos atrás. Pensou em pedir para ver a sala do conselho, mas parecia muito bobo. Ninguém pediria algo assim.

— O que sabe sobre Portgas D. Ace?

— Portgas D. Ace? — Cavendish ecoou, confuso.

— É o dono desse instituto — Rebecca informou — estudou aqui uns anos atrás. Era o presidente do conselho, do clube de música, às do colégio e o mais bonito de todos os garotos.

— Antes de mim, é claro. — o loiro jogou as madeixas para trás. — mas, enfim, não fazia ideia de que o dono da academia era tão jovem.

Rebecca explicou ao namorado brevemente sobre como funcionava a administração do colégio pela família D.

— Então esse bebê — olhou abismado para o neném lambuzado de bolo. — é o dono da escola?

— É! — Blaze concordou.

— Herdeiro. — Koala corrigiu, limpando a boca dele.

— Se esse Portgas D. Ace esteve no clube de música — Cavendish cruzou as pernas elegantemente, pensativo. — conheço alguém que pode ajudar.

(...)

— Sabo? A reunião é em dois minutos.

Sabo, que engolia um onigiri com a maior rapidez possível, olhou para quem passava pela porta. Era Hack, seu braço direito ali na empresa. O homem estava no cargo há mais de trinta anos, e era um dos homens de confiança de seu pai. Não havia ninguém mais qualificado para treiná-lo. Além do mais, conhecia-o desde que fora adotado, e até tinham uma certa amizade.

— Já estou indo — respondeu enquanto mastigava. Arrumou os papéis na pasta e levantou-se de uma vez, mas acabou desequilibrando-se e precisando se apoiar na mesa.

— Cuidado, está tudo bem? — Hack perguntou.

— Tá sim, fica tranquilo. Levantei rápido demais e deu tontura, é só isso.

— Tem certeza? Você tem ficado tempo demais aqui na empresa, e quando não tá, é estudando pra faculdade. Tá se alimentando e dormindo direito?

Não. Desde que voltara para casa, suas refeições eram sempre comida rápida, e precisa ficar acordado até tarde para estudar para as provas e acordava cedo para ir para o trabalho. Era difícil, mas não iria desistir.

— Hack, por favor, não banca a mamãe.

— Huh — o mais velho cruzou os braços. — é igualzinho seu pai. Eu e Ivankov tivemos que obrigá-lo a parar de trabalhar quando ficou doente. Acho bom não repetir o mesmo erro. Tente tirar um dia de folga, sair com sua namorada para uma discoteca.

— Discoteca? — caçoou. — Hack, francamente, você...

Namorada. Algo estalou dentro dele, e lembrou-se de Koala. Ah, não, havia se esquecido do festival da escola! Já havia se passado mais de uma hora que ela mandara a mensagem de que haviam chegado.

— Que mancada... — murmurou, passando a mão pelos cabelos.

Não conseguiria ir de forma alguma, principalmente agora que os representantes americanos haviam acabado de chegar.

— Chefe?

Yamato apareceu na porta, visivelmente irritado.

— O senhor já deveria estar na reunião! Os americanos estão esperando na sala, não posso ficar enrolando que nem um idiota.

Ainda que fosse, de certa forma, seu subordinado, ele não media as palavras quando achava que merecia uma bronca.

— Me dá só um segundo.

“Me encontra na frente do Baraty às dez para jantar” digitou o mais rápido que pôde. Enviou, e foi para a reunião.

(...)

— Ace-senpai?!?! Mas é claro! Temos tudo! Todos os shows que ele deu nesta escola foram documentados e transformados em DVD, até discursos como presidente do conselho estudantil! Ele era demais, um verdadeiro gênio! Luffy-senpai é melhor, é claro, mas Ace-senpai também é incrível!

Koala piscou algumas vezes diante daquela declaração apaixonada. Até Blaze ficara assustado, mas não sabia dizer se era pelos gritos ou pela aparência “punk” do novo presidente do clube de música, Bartolomeo.

O colega dele, que se chamava Bellamy, revirou os olhos e tirou uma caixa do depósito. Cavendish e Rebecca infelizmente tiveram que continuar com seu trabalho no evento, já que o intervalo deles havia acabado, mas antes eles a levaram até a sala de música.

— Tá tudo aqui — disse o rapaz — pode levar o que quiser. Agora, infelizmente, temos que ir.

A nova banda do colégio estava se preparando para dar início ao seu show. Ela sabia disso pois vira na programação do evento.

— Tudo bem, obrigada.

Quando finalmente ficou a sós com Blaze na sala, mexeu em alguns DVDs. Eles tinham o título escrito com caneta, então conseguia saber do que cada um se tratava e o ano. A maioria se tratava de discursos de Ace como presidente, e muitos eram jogos de basquete. Chegando mais para os DVDs finais, percebeu que era uma série de shows que Ace dera desde o início do ensino médio até o fim. Não pretendia levar nenhum para casa, mas não resistiu em escolher o último de todos.

“24/08/2015

Festival cultural”

Pelos cálculos feitos em sua mente, esse era o ano de formatura de Ace e Sabo, o último show dele do ensino médio. Era aquele que ela iria levar.

(...)

Koala tinha que admitir que ficara chateada por Sabo não ter aparecido. Eram raros os momentos em que podiam estar juntos como antes, apenas os dois e Blaze. Não que não gostasse da presença das crianças, mas elas exigiam sempre atenção e não conseguia, por exemplo, andar calmamente de mãos dadas com ele. Situações como aquela eram as que ela mais prezava, e, agora, sentia falta.

Por isso, pôs um belo vestido, calçou suas botas novas e pôs um casaco. Uma das empregadas que mais gostava, Margarita, fez uma pequena trança na lateral de sua cabeça, apenas para dar um charme, e esforçou-se ao máximo para se maquiar, embora não fosse muito boa nisso.

Quando se olhou no espelho, percebeu que estava bonita. Queria que Sabo a visse e a achasse bonita, mas também queria sentir-se bonita. Finalmente os dois teriam um encontro! A felicidade mal coube em seu peito.

Mas Nina não estava tão feliz assim.

— Eu quero iiiiirrr! Por favoooor! — ela jogava-se no chão, fazendo birra.

— Não, Nina, e ponto final. — foi irredutível. — podemos sair juntos outro dia, se quiser, mas hoje não vou te levar.

— Até parece! — a criança cruzou os braços, claramente revoltada — Sabo nunca mais ficou com a gente! Ele não gosta de mim!

— Nina, como pode dizer isso? — agachou-se na direção dela. — ele fez tão bem a vocês. A nós. Ele nos recebeu em sua casa, deu de tudo pra vocês.

— Não ligo pra isso. — Nina virou o rosto, segurando as lágrimas de frustração.

As crianças também começavam a sentir falta dele. Respirou fundo, confusa sobre o que pensava sobre aquilo.

No momento em que chegou ao Baraty, percebeu que era um daqueles restaurantes bastante luxuosos. Pensou ter visto Sabo a esperando lá dentro, mas quando entrou, viu que não era ele, apenas outro homem loiro. O recepcionista a notou ali, tímida, e se aproximou perguntando:

— Boa noite, a senhorita tem reserva?

— Ah, não, eu... — pigarreou. — eu estou esperando meu namorado.

— Qual o nome dele? Posso checar se reservou uma mesa.

Deu o nome de Sabo e o homem procurou em um caderno.

— Não... Aqui não há nenhuma reserva nesse nome. Trabalhamos apenas com reserva.

Percebendo que estava sendo enxotada, forçou um sorriso tímido e saiu do restaurante. Por que Sabo marcara com ela ali? Olhou para o celular. Ele havia estado no celular há mais de uma hora. Mas, bem, ele devia estar chegando. Talvez se o dono do restaurante o visse e o reconhecesse, abriria uma vaga para os dois ou algo assim.

Será que ele iria demorar? Estava tão animada que recusou a carona do motorista da família, preferindo caminhar. Agora seu pé estava doendo muito por culpa das botas novas. Sentou-se no degrau da rua, cansada.

— Ele não deve demorar. — falou para si mesma, otimista.

(...)

Ele estava demorando. Ligou para ele mais de três vezes, e caía na caixa postal. Não era possível que ele não apareceria ali também. Costumava pensar em Sabo como um homem de palavra, e não gostava da nova imagem dele que sua cabeça começava a criar.

Não era possível que ele lhe daria outro bolo.

Olhou para o outro lado da rua quando ouviu passos. Não era um lugar muito movimentado, principalmente aquela hora do dia, por isso conseguia captar quando alguém se aproximava. Não era Sabo, mas apenas um transeunte qualquer. Qualquer também não era a palavra certa, pois o homem a lembrava um lutador de luta-livre; alto, grande e de peito largo, com bastante barba e cabelo violeta. Ele a estava encarando ou era impressão sua? Bem, qualquer um estranharia uma mulher sentada no meio da rua, abandonada na madrugada.

Por ter se distraído, um carro acabou passando perto demais da poça que havia ao seu lado e a molhando da cabeça aos pés. Proferiu o pior xingamento que se passou por sua mente, tentando limpar seu rosto com um lencinho dentro da bolsa.

Voltou a se sentar, abraçando seu corpo e tremendo de frio.

Segundos depois, avistou o carro preto de Sabo se aproximando. Levantou-se de uma vez.

— Koala! Sabia que tinha vindo pra cá — o dito cujo encostou o carro e desceu. — há quanto tempo que você... Meu Deus, o que aconteceu com você?

— O que aconteceu comigo? — ecoou, tentando ao máximo controlar a raiva. — eu quero saber o que aconteceu com você.

— Como assim? Eu marquei com você no Baratie e quando cheguei você não estava lá e... Não, primeiro, deixa eu te dar o meu casaco, você tá tremendo de frio.

Ele tirava o casaco para pôr nela, mas o impediu.

— Não quero casaco, quero saber porque demorou tanto pra aparecer. Deve haver um bom motivo pra me deixar plantada aqui esperando até essa...

Uma outra pessoa desceu do carro, e parou de falar. Era uma mulher. Linda, de cabelos brancos e esmeralda, além de um corpo escultural. Pelas vestes, devia ser alguma colega de Sabo. Sua raiva praticamente dobrou.

— Ah, então era isso que você estava fazendo. — ironizou. — que legal! Muito prazer, querida!

A mulher revirou os olhos, e olhou para Sabo.

— Coração, o Yamato é só um amigo, dei uma carona pra ele até o Baratie e ficamos preocupados porque você não estava em lugar nenhum.

— Eu estava bem aqui! — apontou para o restaurante. — Baraty, onde você marcou!

Com as mãos tremendo, Koala abriu o celular, mostrando a prova. Na conversa, estava realmente escrito Baraty. Sabo olhou para Yamato, percebendo que a teoria dele estava correta.

Quando saiu meia hora atrasado, esqueceu o celular na empresa, e só percebeu quando chegou lá e Koala não estava. Pediu ao amigo que ligasse para sua casa, mas ninguém sabia ao certo para onde ela havia ido. Fora Yamato quem sugerira que fossem até ali, pois ela podia ter confundido. No fim, o errado fora ele mesmo.

— Olha, sua garota tá bem, então, eu vou lá pra outra rua pedir um uber — Yamato cortou o silêncio. — boa sorte — bateu no braço do loiro antes de ir.

Ao ficarem sozinhos, Koala continuou parada, olhando bem nos olhos dele. Cerrou os punhos para conter a raiva dentro de si. Apesar de tudo, não queria se descontrolar.

— Ko, me desculpe, eu... — massageou as têmporas, cansado. — hoje o dia foi muito cansativo, minha cabeça tá a mil. Vem, entra no carro pra gente ir. Você deve tá congelando aí.

Entrou no maldito carro. Não porque queria fazer o que ele pedia — na verdade queria o total oposto disso. — mas porque estava realmente com muito frio. Ao sentar, sentiu o cheiro diferente. O perfume dela.

Ele se sentou ao seu lado, mas não deu partida.

— Olha, Ko, me desculpa, de verdade. Eu esqueci o celular na empresa, e acabei digitando errado o nome do restaurante. Esse aí na verdade é a cópia do Baratie. Eu fiquei preocupado quando não te achei em lugar nenhum.

— Há quanto tempo está preocupado me procurando? Vinte minutos? Eu sei que você não saiu na hora certa.

— É que eu acabei tendo que ficar mais tempo porque...

— Porque estava com aquela mulher.

— Eu não diria exatamente mulher, Yamato se identifica como homem.

— Certo, então, você não estava aqui, de novo, pois estava ocupado com o Yamato.

— Sim — ele confirmou — Yamato é importante, e estamos lidando com algo muito sério agora. Eu atrasei um pouco, mas mesmo assim...

— Se você sabia que havia a possibilidade de não conseguir me encontrar, de novo — falou mais alto, mas com o choro claro na voz. — por que não me disse antes? Por que me fez criar expectativa?

Ela havia se arrumado toda, e agora estava acabada, por dentro e por fora.

— Desculpa, mas eu tenho muitas responsabilidades, Koala. — ele defendeu-se. Ao mesmo tempo que queria confortá-la, começava a se irritar por ela o estar tratando daquela forma quando estivera tão desesperado para encontrá-la. — Com você, com Blaze, com seus irmãos, meu pai doente, estudos, empresa mudando. Eu sou um só, sabia? Você apoiou que eu fizesse tudo isso, se lembra?

Sabo esperou que ela respondesse, o que não fez. Koala continuou de braços cruzados, olhando pela janela para não encará-lo. Sabia que ela não aceitaria seu casaco, então ligou o aquecedor do carro. Havia acabado de dar a partida quando ela finalmente perguntou:

— Você me ama, Sabo-kun?

Ele suspirou.

— Isso não é justo, Koala. Não é justo.

— É — ela assentiu, cansada. — pensei que não, mesmo.

Ao que ela se referia, exatamente, ele não perguntou.