Baby Care
30 Correntes do passado

“Minha filosofia de vida é evitar pessoas e brigas à todo custo. Você deveria começar a pensar igual, irmão”
— de Sabo para Ace, quando tinham 19 anos
Koala não dormiu a madrugada inteira. Não apenas porque estava brigada com Sabo, mas também porque justo aquela noite Blaze estava um pouco doentinho. Não era nada demais, apenas uma febre leve, mas ele ficava muito manhoso e agitado quando estava assim. Para que não acordasse Marion com seu choro, Koala o levou até seu quarto — seu quarto, não o de Sabo, que era onde ela dormia até então — e o vigiou durante o resto da noite, sequer sem cochilar.
Até se passou por sua mente avisar Sabo, mas logo abandonou a ideia logo em seguida.
Quando o encontrara, estava com raiva. Muita raiva. Mas agora que a cabeça havia esfriado, o sentimento ruim dera lugar a um sentimento doloroso. As palavras dele ecoavam em sua cabeça, e mesmo quando tentava se distrair com outra coisa, o rosto dele aparecia em sua mente. Dizer que estava cansado fora um duro golpe para ela, pois a culpa que a fez sentir era maior do que a tristeza.
O dia raiou, e, quando se levantou, os empregados avisaram que ele havia saído.
— Ah — forçou um sorriso. — obrigada.
As crianças ainda dormiam, então tomava seu café da manhã com Blaze. Ele estava sentado no cadeirão, lambuzando-se com frutas.
— Tá gostoso? — perguntou.
— Tá — ele assentiu — qué mais! Dá!
— Como se diz?
— Pufavô, mamãe — ele disse como se repetisse algo decorado.
— Muito bem, com educação. — deu mais um pouco a ele.
— Mamãe — Blaze falava de boca cheia. — cadê o papai?
— Não sei — suspirou. — trabalhando, talvez.
— Tabalando? Docê tabala também, mamãe?
— Mas é claro — riu de leve — eu sou sua babá.
— Babá? — o rosado repetiu, confuso. — babá não. Mamãe é mamãe!
Agora que Blaze já não era mais tão pequeno, parecia-lhe antiético continuar com aquela fantasia. Amava Blaze como um filho de verdade, mas estava na hora de fazê-lo entender, aos poucos, que por mais que quisesse muito ser sua mãe, era apenas uma babá.
Uma reles babá.
— Eu sou a babá — voltou a afirmar. — sua mãe se chama Bonney, querido.
Blaze balançou a cabeça, fazendo um biquinho irritado, mas não voltou a insistir. Com uma expressão carrancuda, ele terminou toda sua fruta, e enquanto Koala limpava seu rosto, Dragon apareceu na cozinha. As refeições da família costumavam sempre serem feitas na sala de jantar, mas Koala gostava de tomar café e fazer pequenos lanches ali e, de alguma forma, o chefe da família aderira seu costume.
— Bom dia, Dragon-san, dormiu bem? — perguntou tirando o menino do cadeirão. O pôr em seu colo, e ainda sonolento por não ter dormido bem, ele se aninhou na curvatura de seu seio.
— Estranhamente, sim — o homem deu um sorriso leve. — mas para a senhorita, acredito que não tenha sido. Ouvi Blaze chorando. Aconteceu algo?
— Uma febre leve de noite, nada demais. Já medi com o termômetro, e ele já está melhor. Só está molinho assim de sono.
— Isso é bom — ele bebericou o café, e comentou: — Law virá esta tarde para me examinar
— Está se sentindo mal de novo?
— Não é isso, Law vai apenas atestar se estou apto para viajar.
— Aonde o senhor vai?
— Para o Taiwan. Não devo demorar muito, vou fazer uns exames e, se tudo correr bem, volto em uma semana.
— O senhor vai... — engoliu o seco. — fazer aquela cirurgia?
Se a cirurgia não desse certo, Dragon podia não voltar. Se conheciam há pouco tempo, mas os dois já tinham uma relação amigável, que se encaminhava para uma de pai e filha. As crianças, inclusive, já até o chamavam de vovô.
— Não — ele respondeu após uma pausa. — são só uns exames, prometo.
Suas palavras a tranquilizaram, mas apenas um pouco. Agora que Dragon ficaria fora, ela e Sabo ficariam relativamente sozinhos, caso excluíssem as crianças e os empregados. Como iriam conversar um com o outro quando se encontrassem novamente? Ele pediria desculpas? Ela pediria desculpas?
Sentindo-se sufocada, resolveu que sairia para dar uma volta com Blaze. Trocou a roupa dele, pôs um tênis de caminhada e saiu, deliciando-se com o gostoso sol da manhã.
(...)
— Isso tá errado! Quantas vezes eu vou ter que repetir que representar com esse tipo de gráfico nos deixa em desvantagem visualmente, será possível que eu mesmo vou ter que desenhar?
— M-Me desculpe!
Um dos designers da empresa saiu correndo com o rabo entre as pernas após se curvar, deixando um chefe muito estressado em seu escritório. Yamato entrou na sala na mesma hora, e acabou testemunhando o acontecido. Desconfiado, pôs os papéis que levava na escrivaninha de Sabo e sentou-se na beirada da mesa, ignorando totalmente o fato de ser um subordinado.
— Acordou de bom-humor hoje, hein? — ironizou.
— Me poupe, Yamato. — resmungou ele.
— Acho que a noite de ontem deu ruim, né? — suspirou. — aquele desencontro foi mancada. E quando ela me viu então... Vish, aí sim eu vi que a coisa ia ficar feia.
Sabo a encarou com impaciência.
— Ela ficou com ciúmes de você comigo — desceu da mesa para pegar um cafezinho na mesinha de canto.
— Não foi isso. Ela se irritou porque acha que eu não tô me esforçando o suficiente.
— Talvez isso também, mas não foi o principal motivo. Primeiro você dá um bolo nela, e depois, aparece com uma outra “mulher” no seu carro? Se fosse sua namorada fosse outra, teria te dado uns tapas ali mesmo.
— Fala sério, ciúmes de você? — Sabo revirou os olhos.
— Primeiramente, eu sou gostoso pra caralho, e segundamente, não seria a primeira vez que isso acontece. Lembra que Ace e Bonney viviam discutindo por causa da minha amizade com o Ace?
— Mas isso também era bobo. Vocês dois não tinham nada.
— Não é bem isso. Eu gostava do Ace, mesmo.
Sabo arregalou os olhos, a mão que pegava uma caneta pendendo no ar.
— Como?
— Eu gostava dele, mas ele escolheu ela, sempre foi ela. — retrucou tranquilamente, terminando de beber o café. — mas esse não é o ponto aqui. O que quero dizer é que você tem que tentar agradar melhor ela, sabe?
Agradar melhor? Passada a surpresa por saber que Yamato gostava de seu irmão, Sabo pegou-se refletindo. Estava um pouco chateado com Koala. Ela não conseguia compreender que agora ele tinha mais obrigações, não era como antigamente, quando era um pai solteiro. Era como se ela dissesse que ele não queria estar com ela, quando era justamente o contrário.
Quando estava cansado, praticamente exausto, costumava apoiar os braços na escrivaninha e fechar os olhos, e a primeira imagem que vinham à sua mente era o rosto dela. Sentia falta dela em todas as horas de seu dia, e quando chegava muito tarde, sempre beijava seu rosto adormecido com delicadeza para não acordá-la. Ele a queria tanto quanto ela o queria.
Era uma pena que ela não percebesse isso.
Mas faria uma tentativa. Seguiria o conselho de Yamato.
(...)
Enquanto caminhava pelo parque, Koala acabou demorando mais do que o esperado pois encontrou algumas mães dos colegas de Blaze. Não estava com pressa, afinal, era fim de semana, por isso não se importou muito.
— O Blaze-kun vai participar da festa do pijama?
Olhou para a mãe do coleguinha, não entendendo bem do que ela falava.
— Não me diga que não viu o bilhete na agenda — outra mãe interveio, com um leve tom cínico. — eu olho as coisas do meu filho todos os dias, depois que ele chega da escola. É um dever de uma boa mãe, sabe?
— Eu também sempre olho — disse em tom firme. — deixei passar esses dias, por motivos... Pessoais.
A primeira mãe pigarreou.
— Bem, as crianças vão passar a noite na escola, como uma festa do pijama mesmo, no próximo sábado. Será muito divertido para os pequenos, eles vão dançar, comer um jantarzinho especial e ouvir histórias antes de dormir. Todos vão devem chegar às 18 horas, não é ótimo?
— Assim as mamães podem ter um tempinho a sós com os papais. — outra comentou, gerando uma leva de risadas.
Olhou para Blaze brincando com as outras crianças na caixa de areia, batendo nela o trem que levava em mãos. Ele havia crescido e evoluído muito desde que o conhecera, mas Blaze estaria pronto para ficar longe dela e de Sabo por uma noite inteiro? Ficar sem um ou outro era até aceitável, mas sem os dois?
Enquanto voltava para casa, pensou melhor. Blaze logo faria três anos, e deixaria de ser um bebê. Para dormir fora, o mais comum era a partir dos quatro anos, mas ele estaria com as professoras, cuidadoras, sem falar nos amiguinhos de todos os dias. Estava na hora de parar de ser tão exageradamente zelosa.
Ela e Sabo precisavam conversar sobre isso.
Logo depois de suspirar, ouviu o barulho de um baque no chão. Por um segundo, seu coração parou, achando que Blaze caíra do carrinho, mas o som vinha de uns passos à frente. Havia uma mulher ali! Correu com o carrinho, aproximando-se.
— Senhora? — deu uma leve sacudida no ombro. — está tudo bem?
Ela não respondia, e notou alguns hematomas em seu corpo. Será que ela havia sofrido algum abuso? Pegou seu celular, pensando em chamar a polícia, mas na mesma hora a mulher começou a balbuciar.
— O que? O que disse?
— S...S...
Esperou ansiosamente que ele dissesse algo.
— Sabo...
Seria alguém da família D? Aquela mulher lhe parecia estranhamente familiar, talvez ela houvesse comparecido em alguns dos eventos e não se lembrava. Estava praticamente na frente da casa, então deu uma corridinha e chamou um segurança pelo interfone, para que ajudasse com a mulher desmaiada.
(...)
— Oh, meu Deus... — a mulher ia acordando aos poucos, sentando-se no divã. — onde eu...?
— Se acalme, senhora — Koala pediu pondo um copo de água no criado-mudo ao lado dela. — eu me chamo Koala. Eu a encontrei na frente da casa, desmaiada.
— Eu desmaiei? Oh, não acredito, que infortúnio.
— Iria chamar a ambulância, mas ouvi a senhora falando o nome do meu namorado, eu supus que vinha visitá-lo. — disse enquanto se sentava em frente a ela.
Como não era boba, Koala a levou para a sala de visitas principal da casa, que era bem extensa. Deixou as portas abertas, e duas empregadas limpavam o cômodo para que não ficasse sozinha. A mulher doente não apresentava nenhum perigo, mas não faria mal algum se prevenir. Pediria à Inazuma ou Dragon para que descessem para falar com a visitante, mas ao entrar lhe foi informado que os dois saíram para ver Law. O jovem médico provavelmente não poderia ir até lá aquele dia.
— Eu agradeço de verdade, querida. Sim, estava vindo visitá-lo. Conheço Sabo há muito tempo, mas do que imagina...
A mulher pôr a mão na boca, como se fosse vomitar.
— Tudo bem? — Koala indagou.
— Não é nada, só um mal-estar. Como dizia, conheço Sabo há muitos anos, e preciso muito falar com ele, mas infelizmente perdemos contato.
— Entendo. — assentiu cautelosamente. — há quantos anos se conhecem exatamente?
— Ora, muitos — a mulher remexeu a bolsa, tirando um álbum de lá. — veja, pode pegar.
Pegou o álbum com as duas mãos, e quanto mais virava as páginas, mais nervosa ficava. Aquelas eram fotos do Sabo! Não seria nada demais, se não fossem de, pelo menos, vinte anos atrás. Quase todas as fotografias eram de Sabo bebê.
— Ele foi uma criancinha adorável, sempre empenhado em nos agradar... — ela murmurava.
— Você é a mãe dele! — jogou o álbum de lado, levantando-se de uma vez, encarando-a com um olhar acusador. — você... Por que está aqui?
— Me ouça, mocinha, por favor — ela levantou-se também. — preciso muito falar com meu filho. Preciso me retratar com ele.
— Se retratar?! Eu sei de tudo o que a senhora e seu marido fizeram com Sabo-kun!
— Eu sei, eu me arrependo, eu juro — ela juntou as mãos. — mas preciso falar com ele. Nem que seja pela última vez. Na verdade, vai ser a última vez. Eu estou fazendo quimioterapia — ela arrancou a peruca loira da cabeça. — mas não está adiantando muito. Antes de morrer, eu preciso, mesmo, falar com meu filho.
Koala continuou de cara feia para ela, mas agora estava mais balançada. Já a odiava por tudo o que sabia dela, mas negar o pedido de uma pessoa à beira da morte era cruel demais.
— Sei que errei como mãe — ela secou uma pequena lágrima que escorreu de seu rosto. — estou pagando por esse erro. Meu marido se suicidou, e meu filho me abandonou. Não tenho mais nada neste mundo.
Com os punhos cerrados, Koala pensou e repensou, como se um anjinho e um demônio debatessem em cada um de seus ombros. Sabo não iria gostar daquela história nem um pouco.
Mas...
Pensou na possibilidade de isso refletir, de alguma forma, positivamente na vida de Sabo. Sempre tivera a impressão de que ele precisava finalizar algo. Koala nunca poderia se encontrar com seu pai ou com sua mãe, mas se pudesse, certamente faria. Não para reviver traumas, mas para falar tudo o que pensava e dar um ponto final num capítulo negro de sua existência, dar um fim de verdade e seguir em frente. Amava Sabo com todo o seu ser, mas era assim que o via.
Como alguém acorrentado a um passado terrível.
— Quero deixar claro que não gosto de você. Na verdade, eu odeio você e seu finado marido, mesmo ele estando morto. — avisou num tom sério e assustador, para que a genitora não duvidasse de suas palavras nem por um minuto. — Não lhe prometo nada, mas volte às oito. Ele deve chegar tarde, mas vai conseguir encontrá-lo.
(...)
— Rosas são as opções clássicas, são belíssimas e certamente nunca falham, mas uma flor para uma dama especial deve ser igualmente especial. Saberia me dizer a cor dos olhos dela, senhor?
— São azuis — Sabo informou ao dono da floricultura, que quase dava pulos alegria por vê-lo ali pronto para gastar. — Azul-escuros.
— Neste caso, as peônias são a melhor opção — o homem lhe mostrou uma amostra — tão bonitas quanto as rosas. Diga que viu estas e no mesmo instante pensou nos olhos dela.
Considerou aquilo por alguns instantes.
— Vou levar um buquê inteiro.
Sabo não entendia de flores, então resolveu confiar na opinião do florista, torcendo para que ele não houvesse lhe vendido as mais caras por ganância.
Com a ajuda de Hack e Yamato, conseguiu almoçar bem aquele dia, e se sentia mais disposto. Não havia dormido nada, mas depois que se resolvesse com Koala, tinha certeza de que conseguiria descansar. Não gostava de ficar brigado com ela. A sensação era muito ruim.
Deu uma passada numa loja de chocolate, e comprou também uma caixa de bombons. Ela precisaria comer escondida, ou as crianças atacariam tudo. Blaze principalmente, nunca vira uma criança com tanto amor por chocolate. Riu ao imaginar a cena. Fazia um tempo que não o levava para a creche, sentia falta disso.
— Papai! — Blaze foi o primeiro que ele viu, assim que pôs os pês para dentro de casa. Escondeu a caixa de chocolate atrás de si, agachando para beijar seu menino na cabeça. — docê chegô!
— Cheguei mais cedo hoje. Você já jantou?
— Não. Jantei não. — ele negou com a cabeça, olhando para as flores. — papai, não pode rancar flô do páqui! É errado!
— Ah, não, essas foi o papai que comprou. Na loja. — explicou. — mas esquece isso, o que acha de pedirmos pizza?
— Pizza?! — o menino gritou de felicidade. — Pizza pá todo mundo!
— Sim, isso mesmo, pra todo mundo. Com refrigerante! — riu do garotinho. — agora, onde está a mamãe? Preciso falar com ela.
— Ela tá aqui.
Seguiu Blaze até a sala de visitas da casa, e quando entrou, se deparou com Koala inquieta, andando de um lado para o outro. Ela não notou sua presença, então pôs os chocolates no aparador ao lado da porta e adentrou mais, de bom humor, esperando surpreendê-la.
— Ko? Podemos conversar?
Ela se virou de uma vez, com uma expressão estranha. Parecia tensa.
— S-Sabo-kun, chegou mais cedo — ela andou até ele, tapando sua vista. Mas não adiantava muito, até porque era bem mais alto que ela — podemos conversar sim, mas antes, preciso te avisar de algo. Na verdade, hoje...
Enquanto ela falava, varreu o olhar pela sala, e estranhou ver alguém sentado na poltrona. Quem estava fazendo uma visita aquela hora? Era uma mulher, que estava inclinada preparando um chá. Algo nela lhe era familiar, por algum motivo.
— ...Tive que trazê-la para dentro, porque não parecia bem, e então...
Era... Alguém que conhecia, com certeza. Franziu a testa, esperando que a convidada se virasse.
E não acreditou quando finalmente viu de quem se tratava.
— O que... — murmurou, negando-se a acredita. — tá fazendo o que aqui?
Suas palavras não passavam de sussurro, ela jamais poderia ouvi-lo. Mas deve imaginado o que ele dissera, pois se levantou no mesmo instante e foi até ele.
— Meu filho! Como você está lindo! Tão alto e forte, oh, meu Deus — ela tirou um lenço do bolso secando uma lágrima falsa. — sua mãe sentiu tanta sua falta nesses últimos anos. Não sabe como eu e seu pai nos arrependemos durante esse tempo todo. Não consegui parar de pensar em você nunca, em nenhum instante do meu dia, desde que o deixamos nesta casa.
— Você quer dizer... — teve que usar todo seu autocontrole para não gritar. — desde que me vendeu.
— Não foi assim. Você não conseguia se encaixar entre nós, achei que ficaria mais feliz aqui e... Olhe só! Uma bela casa, uma bela namorada.
Olhou para Koala por um instante, e voltou a olhar para o rosto da mãe.
Aquele era o rosto para onde ele olhou durante anos. O rosto para o qual ele clamou por atenção e amor, todos direitos de uma criança, mas que lhe fora negado.
— O que você quer?
— Estou doente, meu filho. Estou com câncer em estágio avançado, no...
— E o seu outro filho, hein?! — elevou a voz, rindo sem achar graça. — não foi pra isso que você o adquiriu? Pra me substituir? Vá atrás dele agora, não de mim. Eu não dou a mínima pra você nem esse seu câncer, da mesma forma que você me abandonou quando o seu marido — apontou para o olho esquerdo — fez isso em mim!
— Mas eu apenas...
— Não tem mais! Não tem! — gritou. — eu era seu filho! Você era minha mãe, eu vivia pra te agradar, mas você nunca sequer me deu um abraço. Um abraço. Eu... — limpou uma pequena lágrima que ameaçou escorrer. — sofri abusos físicos do seu marido durante anos, e você virou as costas para mim. Vocês criaram a pior parte de mim! Eu — bateu no próprio peito — não consigo amar ninguém, e isso é culpa de vocês, demônios.
Sua mãe se manteve calada, apenas choramingando. Com a respiração pesada de um animal irritado, disse em tom baixo:
— Vai ficar longe dessa casa, da minha vida, até o dia da sua morte. E quando isso acontecer, tenha certeza de que não vou no seu funeral.
A mulher chorou mais alto, saindo correndo dali.
(...)
Ah, não. Havia dado tudo errado.
— Como você... — ele se virou para Koala lentamente, os olhos transparecendo a mistura dos sentimentos de raiva e decepção. — como você pôde?
— Sabo-kun, eu posso explicar — aproximou-se com urgência. — eu queria que conversassem. Que se resolvessem. Achei que se encarasse ela, conseguiria colocar um ponto final nessa história que não te deixa seguir em frente. Ela queria se desculpar com você e seguir com...
— Se desculpar? — balançou a cabeça lentamente. — Pode parar de fingir demência? Ela não queria se desculpar, ela queria dinheiro. Isso é tudo o que importante na vida dos Outlook. Dinheiro, poder, status e sabotagem. É daí que vem meu nome, sabia? Sabotage. — deu um breve sorriso de escárnio. — que linda homenagem!
— Eu achei que dessa vez ela estava sendo sincera.
— Como você achou? Você nem conhece ela! — deu um chute no sofá. Doeu, mas a dor lhe trazia algum tipo de alívio. — você queria me mudar. Queria dar um jeito de arrancar a parte de mim que não gosta! É uma vingança, Koala? Por causa de ontem?
— O que? Não! — pôs as mãos no rosto dela, para que a olhasse. — eu jamais faria isso, não sou esse tipo de pessoa!
— Que tipo de pessoa você é, então? — desvencilhou-se dela. — a pessoa que joga sal na ferida? Porque foi o que me pareceu. E pensar que eu fui um idiota de... — jogou no chão o buquê de flores que ainda em sua mão, mas que os dois não perceberam. — achar que você me aceitava. Que gostava de mim do jeito que eu sou. Você nunca gostou, Koala. Gostou do cara que te ajudou, do mocinho desses livros de romance que você lê, com o rosto de anjo, perfeito e que anda em cavalos brancos.
— Você está me ofendendo. — limpou as lágrimas que escorriam, engolindo o choro.
— Só pra você saber, eu saí mais cedo só pra te agradar. Comprei flores e esses chocolates, porque eu queria te ver feliz. Porque não aguentei te machucar ontem, quando não apareci.
Ela ficou quieta, encarando-o com aqueles enormes olhos marejados.
— É uma pena que você não tenha a mesma consideração por mim.
Por alguns segundos, ela ficou quieto, e quando ele percebeu que ela não diria mais nada, virou-se para ir embora.
Quando ele quase chegou ao batente, a ouviu dizer:
— Tudo o que quis foi ajudar, porque eu te amo.
Nem se deu ao trabalho de se virar. Quando chegou ao batente da porto, gritou para o mordomo:
— Inazuma! Arrume minhas coisas agora.
Naquela mesma noite, Sabo foi embora da mansão.
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