Baby Care
19 Dias de paz

“...Não acredito que esqueceu Blaze no carrinho, dentro do supermercado. Ace, isso é muito perigoso! Sei o que está passando, e que Bonney não está bem, mas tem que prestar atenção. Todo cuidado é pouco.”
— carta de Sabo para Ace, quando Blaze tinha quatro meses.
A felicidade era um sentimento esquisito. Ao mesmo tempo que lhe fazia bem, a linha entre ela e a tristeza era muito tênue, tão pequena que Koala teve medo de ir dormir e, ao acordar, perceber que tudo não passou de um mero sonho. Por isso, quando deitou sua cabeça no travesseiro, amarrou uma fita vermelha do dedo mindinho.
Há algum tempo, sua irmãzinha Tora estava obcecada com a lenda do fio vermelho do destino. Ela achava a ideia toda muito romântica, e pediu a Koala para que trouxesse da biblioteca de sua escola algum livro sobre o assunto. Não era preciso dizer que isso apenas alimentou a fome de Tora por romance, o que a fez pedir ainda mais e mais livros.
Por isso, quando Koala acordou e percebeu que o fio ainda estava lá, sentiu-se conectada a ele de uma forma inimaginável. O medo de tudo não passar de um sonho foi embora, e apenas a alegria de tudo estar bem permaneceu em si.
— Café munhã! — Blaze exclamou, se deparando com Koala pondo os pratos na mesa de jantar.
Ele estava com os cabelos desgrenhados e ainda usava o pijama do homem-aranha. Tinha acabado de acordar. Olhou o relógio, vendo que já era oito e quarenta. Ela mesma acordara bem tarde, depois de um dia exaustivo.
— Tá com fome? — perguntou ao menino.
— Tô!
— Vem aqui, então.
Ela o pegou e o prendeu no cadeirão, perguntando-se se deveria comer ou esperar Sabo. Será que ele demoraria a acordar?
Observou Blaze comendo com prazer. O ovo mexido com aveia parecia ter lhe agradado.
— Tá gostoso?
—Un! — Blaze assentiu antes de beber o suco de laranja no copo com bico. — mamãe café bom, papai café ruim. — ele fez uma careta cômica.
— Café ruim? O que ele preparou ontem?
— É... É... Shuco mashã. Eca! Ruim.
Ela riu da expressão de assombro de Blaze, mas sentiu orgulho de Sabo. Antes ele nem mesmo tentava preparar algo, comprava tudo pronto. Agora, pelo visto, ele tentou seguir uma de suas receitas de café da manhã de Blaze. Não conseguiu descobrir o que ele dera de acompanhamento junto do suco. O pequeno não quis falar, traumatizado.
Quando pensou novamente se deveria acordá-lo, para sua surpresa, Sabo passou pela porta com algumas compras. Ele sorria e quando a viu, seu sorriso se alargou. O loiro pôs as compras no chão e foi até ela, beijando sua cabeça.
— Você foi no mercado? Sozinho?
— Acordei cedo e fui — ele voltou a mexer nas compras — trouxe leite, ovos, manteiga... Um chocolate pro Blaze — ele acrescentou a última parte em sussurro, e fez questão de acrescentar: — apenas para quando ele estiver bem, é claro.
— É bom esconder então, senão ele vai ver quando abrirmos a dispensa. — deu uma piscadinha camarada.
Como um arco-íris após uma tempestade, o clima na casa estava bom e isso refletia em todos os membros daquela pequena e singular família.
Para sua surpresa, Blaze estava bem melhor. Ele rodopiava, jogava-se no chão e fazia todo o tipo de bobeira. Sabo, contagiado com a animação do menino, brincou de super-herói com ele, pondo-o no alto com suas pernas, deitado no tapete, e o rosadinho esticava os braços e pernas dizendo que era o super-man. Para ajudar, Koala pegou uma toalha e a amarrou nas costas dele, que amou o traje completo.
— Papai! Mamãe! Qué ser herói na rua!
— Hoje tá mesmo bem quente, o que acha de irmos tomar um sorv...
Sabo deteve-se ao notar a expressão de Koala que dizia “não diga mais nada”. Estava muito acostumado a trazer felicidade a Blaze por meio de comida ruim.
— ...Comprarmos melancia! O que acham?
— Melancia! Melancia! — Blaze pulava empolgado.
Satisfeita, Koala falou:
— Se vamos sair tenho que trocar de roupa, me sujei toda preparando o café. Esqueci de pôr o avental.
— Venha comigo, Blaze — Sabo o pegou no colo. — temos que tirar o seu pijama.
— Ah, não, Sabo-kun, deixa que eu faço isso.
— Não precisa, vá se trocar.
— Mas isso é meu trabalho.
Ele gesticulou como se aquilo fosse besteira.
— Você é minha namorada agora, não quero que se sinta como uma escrava da casa.
“Mas eu sou uma empregada” ela respondeu para si mesma, enquanto trocava de blusa. Ainda que fosse a namorada de Sabo — namorada, uau. Isso soava muito esquisito. — tinha sempre que se atentar ao fato de que ele também era seu empregador.
Em um momento de dúvida, pegou-se pensando na possibilidade de Sabo demiti-la. Até onde iria esse pensamento dele de não querer enxergá-la como uma funcionária? Não. Estava imaginando coisas. Sabo sabia como esse emprego era importante para sua família. Um homem que dizia amá-la não seria capaz deixá-la em uma situação tão vulnerável.
Espere, ele disse que a amava?
— Koala! — ouviu-o chamar. — viu a fantasia de super-man do Blaze?
Rindo e revirando os olhos, foi até o quarto de Blaze. Já estava ali há meio ano e Sabo nunca entendera como era a organização das roupas de Blaze. De certo ele estava procurando nas roupas de verão, e não nas fantasias.
— Lá em cima, como já te disse. — encostou-se na batente da porta, observando-o pegar no closet.
— É verdade, em cima...
O quarto de Blaze era espaçoso e bem decorado, assim como o resto da casa. Todos os móveis eram feitos sob medida, com uma palheta de cores variando em entre azul-claro, azul pálido e branco. As paredes, cuja maioria eram compostas por papel de parede de nuvens no céu, não exibiam nem mesmo um risco, diferente dos outros locais da casa, como se Blaze não ficasse muito ali.
Além de tudo, aquele cômodo em específico parecia congelado no tempo, planejado para acomodar um bebê de colo. Até mesmo um trocador e um berço haviam ali. Até uma... Cadeira de amamentação?
— Por que essa cadeira de amamentação? — apontou para a dita-cuja.
— Assim que o Blaze veio morar comigo, eu dava mamadeira para ele aí. Demorou um tempo até perceber que isso não fazia muita diferença. — Sabo respondeu. — mas na verdade, eu nem sabia que isso estaria aqui. Quem planejou esse quarto foi a Iva-chan.
Iva-chan? Quem era essa que ele falava com tanta intimidade?
— E essa Iva-chan é quem mesmo? — tentava parecer o mais indiferente possível.
Sentiu-o rir, ainda que ele estivesse de costas vestindo Blaze.
— Iva-chan é o arquiteto da empresa. Também é um dos homens de confiança do meu pai.
— Iva-chan não é uma mulher?
— Iva-chan é... — estreitou o olhos. — acho que o termo certo seria não-binário. Mas ele não se preocupa com questões de tratamento. Ele ou ela está ótimo. Enfim — pegou a mão de Blaze. — vamos?
Aquiesceu.
— Vamos.
(...)
— O que acha de mudarmos o quarto de Blaze?
Sabo pagou pela melancia e os dois saíram do supermercado, com Koala empurrando o carrinho de Blaze.
— É, podíamos trocar aquele papel de parede e colocar algo que ele gostaria mais. — explicou. — a loja de departamentos é aqui perto, não é? Por que não damos uma olhada?
Foram na direção da loja, mas Sabo ainda parecia contrariado.
— Tem certeza? Blaze nem usa aquele quarto.
— Talvez seja a hora de começarmos a acostumá-lo. É uma pena ver o quarto dele sem uso.
A ideia de se separar de Blaze na hora de dormir não o agradou muito, mas Koala tinha um sexto sentido quando assunto era criação de crianças, então confiou nela. Confiaria até mesmo sua vida a ela.
Comparam tinta, papel de parede e alguns outros itens de decoração, como um abajur e porta-livros. Koala sabia que Blaze adorava livro ilustrados, então pensou que isso o prenderia mais ao próprio quarto. Elogiou a sagacidade dela, ele mesmo não pensaria naquilo.
— O berço dele vira cama — disse a ela — é bom transformá-la em cama, já que vamos mudar.
— É de qual tamanho?
— Assim, mais ou menos — mostrou com as mãos. — vai durar até os quatro anos, no máximo.
— Quatro anos...
Koala tentou imaginar Blaze com quatro anos, e não foi muito difícil. Ele estaria mais magro, mais alto e correndo para todos os lados com os meninos maiores. Começaria a fase de não querer comer certos alimentos, e chegaria em casa sempre de joelhos ralados, dizendo “mamãe, por favor, não coloque remédios ardidos!”
Isso a fez sentir uma pontada de tristeza. Rock, um de seus irmãos mais novos, uma vez chegara assim da escola. Muito arredio, o garoto não deixou a enfermeira tratá-lo. Apenas Koala, quando enfim ele chegou em casa, cuidou de seu ferimento, que ficou o dia inteiro sangrando.
— Koala, o que houve? — o tom preocupado de Sabo era perceptível. — está se sentindo mal? Pode me falar se estiver...
— Não, não — riu de leve da preocupação dele. — é só que lembrei dos meus irmãozinhos, então a saudade bateu.
— Recebeu nenhuma carta nova deles?
— Não — suspirou — acho que ficaram chateados comigo.
— Por que?
— Os menores, principalmente, não queriam que eu viesse pra Tóquio. Eu sempre fui a irmã, mas também sempre tive que estar no papel de mãe deles.
Droga, agora estava sentimental demais. Falar da família sempre fazia isso com ela. Disse para Sabo que iria esperar no estacionamento, e que ele poderia ir ao caixa sozinho.
— Mamãe, tô calor — Blaze resmungou.
Parou em frente ao carro de Sabo e procurou a outra camisa de Blaze, com mangas mais curtas. Tadinho, estava realmente quente aqueles dias, e o tecido da fantasia esquentava fácil. Tirou-o do carrinho e enquanto trocava sua camisa, notou de canto de olho um outro carro parar ao seu lado, e uma mulher descer dele.
— Que menino lindo! — ouvia-a falar, e se virou para olhá-la.
Ainda agachada, deu um sorriso sem graça.
— Lindo, muito lindo mesmo — a mulher ainda dizia — quantos anos ele tem?
— Dois.
— Dois? Como é grande para a idade. Tenho um sobrinho dessa idade que deve ser a metade do tamanho dele. Deve ser bom ter uma criança tão saudável — a mulher se voltou para Blaze. — qual é seu nome, minha criança?
Koala voltou a ficar de pé, e sentiu Blaze agarrar suas pernas. Não gostava de julgar as pessoas pela aparência, mas aquela mulher era muito esquisita. Ela era alta, de nariz avantajado, expressões rudes e um corpo desproporcionalmente grande em cima. Definitivamente não era como as senhorinhas donas de casa que paravam para admirar Blaze.
— Ele é tímido — pegou seu bebê no colo, olhando seriamente para ela.
Algo não estava certo. A mulher havia saído pelo lado esquerdo do carro, ou seja, não era ela que estava dirigindo. Havia outra pessoa no carro.
— Veio fazer compras sozinha? — Koala perguntou fingindo desinteresse.
— Ah, sim, vim comprar um... Sofá.
— Entendo.
Mentirosa. Ali não vendia sofá. Ou ela estava enganada, ou era uma pessoa suspeita. Acreditava mais na segunda teoria, que condizia com sua intuição. E ela não costumava falhar.
— Bem, tenho que voltar.
Decidiu sair dali. Sentou Blaze rapidamente no carrinho e já ia sair, quando sentiu uma mão em seu ombro.
— Eu vou com você, querida. Também estou indo pra lá.
Uma ponta de desespero começou a incomodar seu peito. Não queria usar seu corpo como arma e golpear a mulher, mas nada mais se passava por sua mente. Seria um trabalho até difícil, levando em consideração que a senhora estranha tinha o dobro de seu tamanho. Mas para defender Blaze, faria qualquer coisa.
— Koala, peguei essa almofada em formato de dinossauro — ouviu uma voz se aproximando, e seu coração se acalmou quando notou que era Sabo.
Sem olhar para trás, andou depressa até com o carrinho até o lado dele. Quando notou, o carro não estava mais lá. Estava tão aturdida com a situação que nem prestou atenção no momento em que ele havia saído. Apenas foi até Sabo e o abraçou.
— Hey, o que foi? — ele estranhou, devolvendo o abraço. — ainda está triste por causa dos seus irmãos?
— Sim, eu...
Deveria contar a ele? Não gostava de esconder as coisas de Sabo, mas também não queria deixá-lo preocupado atoa. Entretanto, refletiu que, se a situação fosse ao contrário, ficaria muito brava por ele não dizer nada.
— Uma mulher estranha estava falando comigo — olhou pra cima, apoiando o queixo no peito dele. — como Blaze era bonito, coisas assim...
— Isso não é normal? Acontece o tempo todo comigo.
— É, quero dizer — afastou-se dele alguns centímetros — dessa vez foi diferente. Foi estranho. Ela disse que queria comprar um sofá na loja, e ali não vende sofá.
— Vende, sim.
— Vende?
— Claro, no segundo andar.
— Ah...
Começou a cogitar a possibilidade de ter imaginado coisas.
— Se ficou perturbada com isso, não se preocupe — Sabo juntou as mãos dela, beijando-as. — não vou deixar mais vocês sozinhos dessa forma. Assim você fica mais tranquila?
— Fico — sorriu.
Como ele era maravilhoso.
(...)
“Amor, você ilumina meu mundo como ninguém mais
A forma como joga o cabelo mexe comigo
Mas quando você sorri para o chão, não é difícil de notar
Você não sabe
Você não sabe que é linda”
Sabo ligou a caixa de som com a música e se voltou para a parede de Blaze, com o papel de parede arrancado. Assim como ele, Koala e Blaze usavam roupas velhas, tinham um pincel na mão e estava animados para começar.
— Atacar!
Os três então passaram seus pincéis na parede, pintando-a de cinza. Koala se divertia, subindo e descendo o pincel com delicadeza enquanto balançava a cabeça ao som da música. E Blaze, desajeitado, pintava mais a si mesmo do que a parede.
Todos estavam felizes, e por isso Sabo estava feliz. A tarefa resultou em ser uma ótima atividade em família, a primeira de muitas que andava planejando.
— Mamãe! — Blaze a chamou, e quando ela se virou, o menino pintou sua coxa.
Rindo, sapeca, ele correu para as pernas do pai.
— Ah, seu danadinho! — Koala foi atrás dele, usando o pincel como arma.
Ela pintou a mão direita dele, que ao ver a mão tingida, caiu na gargalhada.
— Ora, acho que tenho que me vingar — foi a vez de Sabo sujá-la, fazendo um circulo cinza em sua bochecha.
— Atrevido! — ela fingiu indignação, rindo.
Os três logo começaram uma briga de tinta, que deixou os três mais pintados do que a própria parede. Ainda com a música tocando, eles dançaram ali, aproveitando o momento, sacudindo-se sem pudor. Sabo nunca se sentira tão à vontade assim com alguém, nem mesmo Luffy e Ace.
Quando a música em seu último refrão, sentindo-se o personagem de uma comédia romântica, puxou Koala para si, beijando-a com paixão. Ela retribuiu o beijo, e pensou como estaria a aparência dos dois, sujos de tinta e bagunçados. Devia estar hilário.
— Como eu disse — Koala disse com ar felino. — você é mesmo um atrevido.
De alguma forma, conseguiram terminar de pintar a bendita parede, que seria a única daquela cor, sendo todo o resto do quarto com papel de parede de trens, a paixão de Blaze. Pensaram que talvez, trazendo o tema tão amado do menino para seu quarto, isso o incentivasse a usá-lo.
Quando o cômodo estava pronto para ser usado — todo na temática de trens — Blaze começou a apresentar certa resistência quando lhe era dito que usaria aquele quarto. Como Koala havia atestado, não seria fácil.
E não foi mesmo. No primeiro dia, ficou tão cansado que desistiu e o levou para seu quarto. Koala ficara muito decepcionada aquele dia, e jurou não fazer mais aquilo. O segundo dia foi igualmente difícil, mas dessa vez perseverou, ficando ali até vê-lo pegar no sono, já às três da madrugada.
Os dias subsequentes foram tortuosos, mas gradativamente a dificuldade foi diminuindo. No início, ele levantava muito da cama e fazia birra. Porém, com o tempo, Blaze foi se conformando que aquela era sua nova situação, e um dia surpreendeu o casal ao ir sozinho para quarto e dormir na cama por vontade própria.
— Que anjinho.
Os dois o admiravam pela babá eletrônica.
— É um anjo mesmo, dormindo. Já acordado... — Sabo ironizou.
— Não diga isso, ele é um anjinho acordado também.
— Um anjinho que enfiou um lápis no meu c...
Censurou-se, sombrio.
— Ele fez o que? — ela segurou a risada. — quando foi isso?
— Ontem. Você estava tomando banho na hora. Blaze achou que a brincadeira ia ser legal. Ainda bem que tem uma mira ruim.
Sabo ainda podia sentir a dor de um lápis muito bem apontado na sua bunda esquerda.
Deixando de lado o assunto do lápis, concentrou-se em Koala, sentada ao seu lado no sofá da sacada. Como de praxe do verão, aquela era uma noite quente, mas Koala usava uma camiseta masculina grande e larga. Se a intenção dela era parece menos sensual, não estava conseguindo. Isso apenas alimentou suas fantasias, e imaginou ela vestindo pouco mais que nada, apenas uma de suas blusas.
— As férias estão logo aí.
Ela admirava a paisagem urbana dos prédios de Tóquio. Tão vivos e despertos, mesmo aquela hora da noite. De fato, era uma cidade que nunca dormia. Palco de tantas histórias, e, agora, palco de sua história. Achou que demoraria a ser acostumar, mas após metade do ano ali, já começava a pensar naquele lugar como seu lar.
— Por que não fazemos algo diferente? — Sabo sugeriu.
— Estava pensando nisso. Kozuki-san perguntou se gostaríamos de ir com ela e Momonosuke-kun à piscina pública na próxima semana.
— E o que respondeu?
— Disse que iria falar com você.
Koala apoiava a cabeça no ombro dele.
— Acho que as crianças iriam gostar. — disse ele.
Gostou de como a frase soou. Parecia que eles eram casados, tinham muitos filhos e planejavam as férias de verão da família toda. Isso o fez sonhar com coisas que não poderia dizer em voz alta, pareceria muito afobado após tão pouco tempo de namoro.
Namoro. Ah, como adorava chamá-la de namorada.
Os beijos logo começaram. No início, simples e calmos. Mas com o passar do tempo, viu-se debruçado sobre ela, como na época em que não conseguia controlar seus desejos. Ela ainda tinha o cheiro de banho, e o aroma de seu shampoo agiu como um estimulante sexual. Pequenos detalhes como aquele podiam deixá-lo doido.
— Você é linda, sabia? — sussurrou ao descer para o pescoço, distribuindo beijos ali.
— Não sou... — ela murmurou.
— É, sim. Queria que pudesse se ver pelos meus olhos.
Koala pôs as mãos no rosto dele, coisa que costumava fazer como um gesto de carinho, notou ele. Seus olhos grandes miraram o rosto dele, analisando cada detalhe, memorizando cara traço. Por fim, ela passou o polegar em cima de sua cicatriz, como no dia em que se declarou para ela. Poderia parecer algo bobo para os que vissem de fora, mas para ele não. Fora médicos formados, ele não deixava que ninguém o tocasse ali. Nem mesmo Law, o médico da família.
— Você também é lindo.
Ele bufou, descrente.
— Você é — ela afirmou veemente. — acho tudo em você bonito. Tudo. Por dentro e por fora.
Até sua cicatriz, pensou em dizer, mas sentia que estaria tocando em um terreno proibido. Queria se aproximar dele, não assustá-lo. Quando conhecera Sabo, ele tinha o costume de tentar esconder sua aparência ao máximo. Agora ele estava mais relaxado quanto a isso, usando apenas óculos sem grau, e isso vez ou outra. Se ele percebera ou não a própria mudança, desconhecia, mas desconfiava que fora algo gradual e espontâneo.
Aos poucos ele mudava, e não queria reverter aquela melhora. Quando ele estivesse pronto, se abriria para ela sobre a história por trás daquela marca. Restava a ela sentar e esperar esse momento chegar.
— Sabe — disse Sabo — nós podíamos...
Ele foi interrompido pela celular dela, que começou a vibrar em cima da mesinha de vidro. Olhou de longe quem é, se virou para ele com um ar de lamento, como se dissesse “desculpe, preciso atender” e ele a soltou praguejando.
— Alô, Pudding, aconteceu alguma coisa? — perguntou ao atender, preocupada.
— Não, não! Desculpe, Koala... Eu estou atrapalhando?
Observou o bico frustrado de Sabo, insatisfeito com a interrupção.
— Claro que não — respondeu. — só achei estranho, por causa do hora.
— Me desculpe quanto a isso — Pudding pigarreou. — então, queria saber se você toparia sair comigo.
— Mas é óbvio, se for na minha folga. Quando seria?
— Ahh... Pensei em fazermos uma viagem. Eu, você, as meninas...
Uma viagem? Ela não podia viajar. Não quando tinha que cuidar de Blaze e das outras obrigações domésticas. Estava em um relacionamento com seu patrão, mas insistira em manter as coisas como eram, e agora tinha que cumprir com a própria palavra.
— Sinto muito, amiga, mas não vou poder ir — suspirou. — não é simples assim pra mim.
— É mesmo, não é? Desculpe então, Ko. Eu delirei com essa ideia. Desculpa ter ligado tão tarde também, até mais!
Ela desligou, deixando Koala encucada. A voz dela estava estranha, estridente. Sentia que havia algo de errado ali, mais uma vez. Seus instintos estavam aguçados demais ou exagerando.
— O que ela queria?
— Me convidou para fazer uma viagem.
Isso o fez pensar melhor.
— É uma boa ideia — ele voltou a sorrir. — o que acha de irmos ao Havaí?
— Havaí? — arregalou os olhos. — não, não, não posso sair do país assim.
— Por que não?
— Seria caro, e não posso pagar por isso — explicou o óbvio.
— Você não precisaria pagar, eu banco tudo. Você é minha namorada, afinal — deu de ombros.
Suspirou, prevendo que isso hora ou outra aconteceria.
— Sabo-kun, não quero que fique pagando coisas para mim só porque sou sua namorada. Eu me sentiria como uma interesseira.
Ele cruzou os braços, sabendo que não adiantaria discutir com ela. Koala não era do tipo que voltaria atrás com uma decisão assim. Talvez tivesse sido um pouco precipitado, embora o Havaí nem fosse tão longe assim.
Uma ideia mais realista passou por sua cabeça.
— A praia particular — murmurou. — é isso. É pra lá que nós vamos.
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